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ROSANA DE LIMA SOARES

imagens veladas, imagens re-veladas:

narrativas da aids nos escritos do jornal folha de s. paulo

VOLUME I

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Ciências da Comunicação (Jornalismo) à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profa. Dra. Jeanne Marie Machado de Freitas

ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

agosto de 1997

ROSANA DE LIMA SOARES

imagens veladas, imagens re-veladas:

narrativas da aids nos escritos do jornal folha de s. paulo (1994-1995)

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Ciências da Comunicação (Jornalismo) à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profa. Dra. Jeanne Marie Machado de Freitas

Realizada com apoio da Capes e da Fapesp e desenvolvida no Núcleo Jornalismo e Linguagem

DEPARTAMENTO DE JORNALISMO E EDITORAÇÃO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

agosto de 1997

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banca examinadora

Profa. Dra. Jeanne Marie Machado de Freitas - Orientadora

Prof. Dr. José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres - FM/USP

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo - ECA/USP

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dedicatória

A minha mãe, Zeni, e a meu pai, Sinclair, por terem cultivado na criança que fui fascínio

e respeito pelos livros e por terem me apoiado e estimulado sempre e, especialmente, neste período de mestrado.

Ao Thomas, que soube me ouvir incontáveis vezes, nas descobertas e nas encruzilhadas, sempre com paciência, interesse e vivacidade, mesmo quando o fluxo de idéias não parecia fazer sentido

A eles, meu amor.

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agradecimentos

jeanne marie machado de freitas professora orientadora mestra que me ensinou saber coragem surpresa persistência curiosidade novidade calma paciência ritmo beleza leveza no vai e vem das idéias e das palavras pela dedicação nas leituras de rascunhos pela atenção nas conversas pelos encontros luminosos pela sensibilidade ao indicar caminhos pela sabedoria no percurso dos textos pela perspicácia ao mostrar possibilidades pela paciência em acompanhar meu tempo

a ela especialmente minha amizade reconhecimento afeto admiração

professora lilia blima schraiber pelas idéias iluminadas na qualificação

professor josé ricardo de carvalho mesquita ayres pela entrada em cena nos momentos finais

professora dulcília schroeder buitoni pela amizade e contribuições em diferentes momentos

junior luciana sergio eunice por me conhecerem nos dias de bom humor e outros nem tanto pelo convívio em família

pepê ju marcia cibele sônia vagner jefferson odair gianelli elcio nancy gabriel leo alison pelo convívio delicadezas bons momentos conversas palpites idéias amigos antigos

geraldo mayra nilvana joanita fátima rose tina franci silvana gisely pelas luzes estudos encontros em meio aos desencontros da eca novos amigos

tânia flor ivete shirlei ema zuleica arlete pela atenção e bom humor com que atenderam

a intermináveis solicitações de papéis e informações

à capes e à eca pela concessão de bolsa de mestrado

que possibilitou dedicação exclusiva para o desenvolvimento desta pesquisa

à fapesp pela complementação da bolsa de mestrado no momento crucial

de finalização deste trabalho sem a qual não teria sido possível concluí-lo

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resumo

Este trabalho busca apresentar as construções narrativas e discursivas sobre a Aids em matérias diversas publicadas no jornal paulista Folha de S. Paulo durante os anos de 1994 e 1995. As matérias foram selecionadas a partir de uma amostragem aleatória, em que, para cada mês, tem-se uma matéria dominical e uma matéria semanal (em diferentes dias da semana, de segunda-feira a sábado, para cada mês), num total de 31 matérias analisadas.

A partir das teorias constituintes das Ciências da Linguagem (a teoria lingüística de F.

Saussure, a semiótica narrativa a partir de A. J. Greimas, a etnologia de acordo com C.

Lévi-Strauss e a psicanálise freudiana, na releitura de J. Lacan), deslocou-se a leitura dos textos jornalísticos da área das Ciências Sociais para a área de confluência das correntes teóricas voltadas para a linguagem, indicando como estão construídas as narrativas sobre a Aids nos textos analisados. As análises efetuadas indicaram a configuração de três grandes grupos temáticos nas matérias da Folha de S. Paulo sobre a Aids: Estado, Ciência e homossexualidade. Cada um dos grupos engloba matérias com temas e abordagens diversos, mas sua confluência

se faz, finalmente, em dois grandes eixos: a oposição mal x bem, compondo a doença e o

doente como recobertos por imagens de “pecado” e “dano”, e a ciência como a redentora destes males, capaz de “curar” e “salvar”. A estrutura básica do discurso da Aids reveste-se, assim, de configurações imaginárias relacionadas ao domínio do religioso e do místico, o pecado e a salvação, o pecador e o salvo. As matérias, a partir de diferentes estratégias narrativas e enunciativas, destinam à Aids um discurso que traz em si a estrutura básica das narrativas clássicas: a ação de um sujeito em busca da redenção para solucionar um dano, a Aids e aqueles infectados pelo HIV aparecendo como o dano a ser reparado pela ação da ciência em busca da cura.

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abstract

This research aims to present the narrative and discursive constructions on Aids as they appeared in articles published by the Brazilian daily paper Folha de S. Paulo during 1994 and 1995. The corpus was selected out of a random sample of articles. For each month, a Sunday and a daily article were selected, in order to have a different week day for each month. In all, 31 articles were analysed. The analysis of journalistic texts was displaced from the field of social sciences to the field of the sciences of language, pointing out how the Aids stories are built up in the selected articles. The following language theories were used during the analysis process:

F. Saussure linguistics theory, A. J. Greimas narration semiotics, C.-L. Strauss ethnology and J. Lacan Freudian psychoanalysis. Folha de S. Paulo articles on Aids could be divided in three major groups: State (policies and law), Science (research and discoveries) and homosexuality. Each group involves a wide range of articles with different subjects and approaches, but, in the end, they turned up to be formed by two basic axes: the evil x good opposition, presenting the disease and the diseased as covered by images of “sin” and “damage”, and science as the redeemer of these evils, capable of “curing” and “saving”. The basic structure of the Aids discourse, therefore, is covered with imaginary configurations related to the religious and mystical domains, sin and salvation, the sinner and the saved. Using different narrative and enunciative strategies, the articles present the Aids discourse as having the same structure of the classical narration stories: the action of a subject searching for redemption in order to repair a damage, Aids and the ones infected by the HIV as the damage to be repaired by the action of science searching for the cure.

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índice

memorial

introdução

1. pressupostos

2. objetivos

3. corpus

4. plano da dissertação

5. referenciais teóricos

capítulo 1

1. jornalismo: a ilusão do real

1.1. a estrutura narrativa da notícia

1.2. para além da semiótica narrativa

capítulo 2

2. as ciências da linguagem

2.1. jornalismo: das ciências sociais às ciências da linguagem

2.2. “a linguagem, essa desconhecida”

2.3. dos desfiladeiros da linguagem

capítulo 3

3. breve história da aids

3.1.

a aids e o ponto de vista das ciências humanas

3.2.

aids: narrativas no jornal folha de s. paulo

capítulo 4

4. primeiras leituras, temáticas da aids: narrativas

4.1. descrição geral das edições selecionadas

4.2. matérias sobre aids publicadas a cada edição

4.3. descrição das matérias sobre aids publicadas

capítulo 5

5. segundas leituras, recorrências da aids: escritos

5.1. prelúdio: idéias em suspensão

5.2. interlúdio: por um modo de ler 5.2.1. leituras

5.3. poslúdio: remetências e recorrências

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conclusões provisórias

1. do mal radical e da ciência: narrativas da contemporaneidade

2. uma grande narrativa: discurso

bibliografia

1. ciências da linguagem, comunicação e artes

2. filosofia e ciências humanas

3. aids e saúde

anexos

1. íntegra das matérias

2. páginas de jornal

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epígrafe

“É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. ( ) Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena. Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato de amor - pela límpida abstração de estrela do que se sente - capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes - e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia”.

clarice lispector, água viva

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memorial

Tenho uma folha branca

e limpa à minha espera:

mudo convite tenho uma cama branca

e limpa à minha espera:

mudo convite tenho uma vida branca e limpa à minha espera:

ana cristina cesar, inéditos e dispersos

O objeto de estudo deste trabalho é a Aids. Muitos se espantam com tal escolha: já chegou mesmo a ser indagada se era portadora do HIV, ou melancólica (para usar o termo de Walter Benjamin 1 , inspirado no Barroco). Afinal, tratar de um tema que envolve sexo e morte (ou seriam a mesma coisa?) é algo, no mínimo, indesejável para a maioria das pessoas. Às vezes ela mesma pergunta: por que Aids? Algumas respostas possíveis talvez possam ser buscadas na própria história dessa doença, ainda tão misteriosa e assustadora entre nós. Talvez tudo tenha começado com um choque ao ver seus amigos e amigas morrendo. Talvez o choque maior tenha sido quando soube que uma menina de apenas 16 anos estava contaminada, filha de uma amiga sua muito especial. Chegou ao Mestrado na ECA em 1995, cheia de expectativas e um tanto perdida. Seis meses foram suficientes para conhecer um pouco a Escola, conhecer um pouco melhor suas próprias intenções. Afinal, o curso de Jornalismo, concluído em 1989 no IMS, ficara distante depois de cinco anos de estudos de Filosofia na FFLCH da USP,

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concluídos em 1994. Decidira, entretanto, fazer as pazes com a Comunicação, área objeto de desejo dos seus 17 anos e que fora abandonada, talvez devido à desilusão tão própria daquela idade, talvez inspirada pela leitura de Paul Nizan em seu Aden, Arábia:

“Eu tinha 20 anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”. Talvez fosse. Durante o curso de Filosofia, trabalhou como jornalista profissional em organizações não-governamentais, nas quais atuou como redatora e editora de publicações diversas e, mais recentemente, na área de jornalismo empresarial, produzindo jornais de circulação interna e externa. Ao ingressar no Mestrado, interrompeu suas atividades de trabalho para dedicar-se apenas aos estudos, o que só foi possível por ter sido contemplada com uma bolsa da Capes, por dois anos, e outra da Fapesp, por seis meses complementares. Parecia, enfim, que as condições básicas para iniciar seus estudos de Pós-Graduação estavam dadas. Aficcionada que sempre fora por livros, idéias e estudos, sentiu que finalmente poderia começar a trilhar mais sistematicamente um caminho que a seus olhos parecia fascinante. Mas essa trajetória estava apenas começando. Seu projeto de pesquisa inicial pretendia desenvolver um trabalho dividido em várias etapas: pesquisa de campo junto a adolescentes para saber o que os mesmos pensavam, sentiam, conheciam e percebiam com relação à problemática da Aids; levantamento de artigos e matérias de jornais sobre o assunto; mapeamento de algumas campanhas de prevenção divulgadas em media impressa – tudo isto com o intuito de traçar um quadro abrangente sobre o imaginário construído socialmente em torno da Aids, destacando seu caráter muitas vezes conservador e preconceituoso, a partir da ação dos meios de comunicação e da imprensa. Os adolescentes mostravam-se como público prioritário com o qual gostaria de trabalhar, por razões diversas explicitadas no plano inicial de pesquisa quanto à relevância e importância deste grupo específico na questão da prevenção da Aids e mudanças de mentalidades necessárias em se tratando desse tema. A partir de entrevistas com adolescentes e pesquisa de material impresso sobre a Aids, com o auxílio de bibliografia especializada e específica que envolveria desde publicações científicas até discussões de caráter sociocultural, traçaria um paralelo entre o que se divulga ao público através dos meios de comunicação em geral e a opinião e o conhecimento dos próprios adolescentes com relação à doença.

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Ao final do projeto pensava, ainda, em lançar algumas bases que indicassem possibilidades para futura elaboração de campanhas de prevenção voltadas para adolescentes – que incorporassem elementos e linguagens mais identificados com este público específico –, já que não acreditava na suposta “universalidade” das campanhas de prevenção até então divulgadas, dirigidas indiscriminadamente a todos os segmentos populacionais. Nesse primeiro momento, sua preocupação estava centrada nas questões relativas à prevenção da Aids entre um grupo específico – adolescentes entre 15 e 18 anos que já possuíssem um nível mínimo de informações sobre a doença tratada. Questionava o fato desses adolescentes, mesmo informados, continuarem a adotar os chamados “comportamentos de risco” com relação à Aids – continuarem “vulneráveis” à doença, aprenderia depois –, e sua preocupação apoiava-se no acompanhamento de estatísticas que apontavam que o número de casos de pessoas contaminadas continuava crescendo, principalmente em países do terceiro mundo e entre jovens. Seu enfoque principal envolvia, portanto, as campanhas de prevenção e, acima de tudo, uma crítica severa a elas: acreditava que parte do problema resumia-se ao fato destas campanhas serem insatisfatórias e inadequadas para o público jovem, espalhando o preconceito e o terror em vez de educar e esclarecer. Após um ano de cursos, leituras e reflexões – não apenas sobre o tema da Aids mas sobre o próprio “estado da arte” da comunicação –, percebeu a ingenuidade e até uma certa relação mecânica entre os elementos alinhavados. Talvez por uma deficiência de leituras atualizadas ou de maior reflexão nesse campo, seu projeto ainda estava baseado no modelo clássico da comunicação, relacionando emissor/mensagem/receptor como constituintes dos processos comunicacionais. Ora, nesse modelo, seu problema apresentava-se como relativamente simples: bastaria produzir campanhas de boa qualidade – isto é, que não disseminassem preconceitos ou informações distorcidas –, especialmente direcionadas para o público jovem, que este, bom entendedor de boas mensagens, adotaria os comportamentos sugeridos e a espiral da transmissão da Aids seria cortada. Hoje, olhando para esse esquema, não pode deixar de rir de si mesma. Parece agora claro que a transmissão e recepção de mensagens não se coloca como um processo

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mecânico ou lógico, onde “x + y = z”. E não se refere aqui apenas aos chamados “ruídos na comunicação” que interfeririam nesse processo (como assinalados nos livros Teoria da dissonância cognitiva e Psychology of rumor 2 , por exemplo), mas a toda uma série de fatores que interferem e interagem nos processos comunicacionais entre sujeitos. Afinal, pessoas não são meros receptores passivos de informações e mensagens, e cada “emissor” é também “receptor”, e vice-versa – acima de tudo, pessoas – sujeitos em permanente interação. Sua proposta inicial desconsiderava os processos contemporâneos envolvidos na comunicação: as novas tecnologias, os novos media interativos, a globalização da informação e a mundialização da cultura (cf. Ortiz 3 ), as ciências da linguagem, a saturação de informações e os próprios veículos de comunicação. Finalmente, percebeu que havia tantos elementos inseridos em seu projeto – Aids, adolescentes, meios de comunicação, jornais, artigos, jornalismo científico, campanhas, nova campanha – que se tornava quase impossível desenvolver todos eles de forma satisfatória – ainda que estivessem bem articulados – durante o período previsto para a realização do programa de Mestrado. Durante todo o ano de 1995, as disciplinas cursadas apontaram para essas deficiências e lançaram novos desafios. E é a partir delas que começou a refletir e a questionar seu plano inicial de pesquisa, não sem uma certa angústia pela sensação de que alguma coisa estava perdida e precisava ser reposta. A disciplina “Jornalismo e Ciências da Linguagem” lançou novas luzes sobre a teoria da comunicação e apontou a complexidade dos processos comunicacionais e da linguagem enquanto sistema fundante das relações sociais; o curso “ONGs, informação e sociedade global” abriu caminho para o universo da globalização; as disciplinas “A poética da impureza em dois cineastas europeus: Godard e Greenaway”, “Jornalismo e Imagem”, “Tópicos de teoria da narrativa e do discurso” e “A divulgação científica na imprensa: problemas semióticos e textuais”, por diferentes caminhos, levaram a questões da narrativa e do discurso, introduzidas pela teoria semiótica, apontando possibilidades para uma metodologia de trabalho na leitura de artigos de jornais, formas de categorizá-los e agrupá-los. Nesse percurso, a passagem pela disciplina “Metodologia da pesquisa em comunicação”, por sua especificidade, provocou um questionamento não apenas quanto a aspectos

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metodológicos – no que diz respeito a “métodos” de pesquisa propriamente ditos – mas, acima de tudo, quanto à estruturação do projeto de pesquisa e à reflexão consciente em cada uma de suas etapas. O “nível epistemológico” da pesquisa, como ficou conhecido entre os alunos do curso, não poderia ser negligenciado. Um dos trabalhos realizados para essa disciplina foi a reelaboração do projeto individual de pesquisa, no qual procurou estabelecer uma nova relação com seu objeto de estudo, elaborar uma reflexão teórica mais delimitada, procurar os autores com os quais iria dialogar e esboçar uma possível proposta metodológica para pesquisa de campo junto a adolescentes. Entretanto, nesse trabalho ainda privilegiava as campanhas de prevenção enquanto tentativa de criticá-las e estabelecer novos critérios para sua elaboração, e abordava a questão da Aids ainda de maneira mecânica. Nele, iria comparar campanhas governamentais e campanhas de organizações não-governamentais, partindo do pressuposto de que as campanhas das ONGs se mostrariam mais eficazes para a prevenção da Aids entre adolescentes do que as campanhas governamentais. Esse trabalho foi finalizado em julho de 1995. Durante o segundo semestre, a partir de novos estudos e leituras, começou a questionar a metodologia proposta no projeto e sua “crença” nas campanhas de prevenção como sendo as grandes portadoras de possibilidades de mudanças quanto à questão da Aids na sociedade. Além disso, percebeu que para abordar um tema tão complexo e delicado quanto a Aids – ainda mais em se tratando de adolescentes –, não poderia usar métodos como os tradicionais questionários de respostas abertas ou fechadas ou apenas entrevistas em profundidade. Para a discussão desse tema junto a esse grupo, seriam necessários métodos muito mais complexos, envolvendo até mesmo a combinação de vários ou a adaptação de alguns deles. E, mais importante, seria preciso que a pesquisadora possuísse conhecimentos aprofundados não apenas na área temática envolvida mas com relação aos próprios adolescentes, conhecimentos que, infelizmente, não possui. A participação na reunião do V Compós (maio de 1996) fez com que pensasse em um outro aspecto problemático: como trabalhar com o discurso das campanhas de prevenção ou dos jornais e, ao mesmo tempo, com o discurso dos adolescentes? Afinal, não seria possível estabelecer entre eles nenhuma relação aparente (seja contingente ou necessária) e, além disso, não gostaria, em nenhum momento, de estabelecer uma relação

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de comparação ou de causalidade entre dois discursos distintos. A essa altura, já havia percebido que o “mundo dos discursos” não era regido dessa maneira. A pesquisa tomou novos rumos. O projeto manteve autêntica sua essência: pesquisar a questão da Aids em relação aos media. Entretanto, passou a tratar de questões quanto à própria inserção da Aids no contexto da contemporaneidade, buscando relacioná-la ao processo hoje vivido no contexto das novas tecnologias. Lyotard, na introdução ao livro O inumano 4 , afirma ser preciso “reescrever a modernidade”, e, com ela, a própria humanidade, opondo, talvez, o inumano enquanto “pós-humano” 5 ao humano. Não que isso seja tarefa fácil: “E se, por um lado, os humanos, no sentido do humanismo, estão em vias de, constrangidos, se tornarem inumanos? E se, por outro lado, for ‘próprio’ do homem ser habitado pelo inumano?” 6 . Nessa perspectiva, a Aids aponta a encruzilhada a que se chegou. A partir dela, é preciso reinventar a humanidade, re-humanizar o mundo através da construção de um sujeito e de novos valores que ensinem a conviver com novas realidades – como a própria Aids. Criar, talvez, uma outra humanidade, pós-humana. Assim, esse trabalho buscará tratar muito mais da Aids enquanto construção simbólica, abordando a gênese do preconceito e da discriminação – aliados ao isolamento – que a cercam. Enquanto seres humanos, a Aids é um dos lugares em que nossas limitações e impasses se explicitam, em que nossa relação com a morte se torna inevitável. Daí, talvez, os mitos e construções simbólicas sociais e culturais que a rodeiam. É, portanto, no universo dos escritos do diário paulistano Folha de S. Paulo que procurará identificar esses elementos e propor uma discussão que extrapole os limites da doença em si e questione o próprio papel e atuação do jornalismo enquanto articulador de discursos e, no caso específico deste projeto, de uma narrativa sobre a Aids. Acredita- se que a Aids possa ser um caso exemplar para esclarecer sobre o funcionamento do próprio jornalismo contemporâneo e a forma sobre como um assunto torna-se “discurso público” e passa a integrar a esfera dos media, entendendo, aqui, a função do jornalismo como espaço para “tornar público o que pertence à esfera pública”. A Aids, na forma como é hoje apresentada pelos jornais impressos em geral, definitivamente é considerada como pertencente à esfera pública. As razões e implicações desse fato talvez possam ser esclarecidas, ainda que parcialmente, nos limites deste trabalho.

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Nesse momento, talvez essa tentativa, no fundo, seja simplesmente alguma tristeza em ver “todas essas pessoas preciosas morrendo antes do tempo, essas pessoas [que] não

vão ser substituídas, e isso é uma perda tão grande (

assim que vivemos agora” 7 . Daí a idéia de traçar esse escrito sobre os escritos da Aids em um jornal diário de grande circulação. Uma tentativa modesta de tentar apontar o que tem se cristalizado enquanto discurso sobre essa doença em um veículo que, segundo acredita, tem papel de construtor (com tantos outros) da arena simbólica da sociedade contemporânea.

Parece ser assim que vivemos,

)

1 De acordo com Susan Sontag, Benjamin “era o que os franceses chamam un triste. Na

juventude,

Considerava-se

psicológicos, e invocava a astrologia tradicional: ‘Nasci sob o signo de Saturno – o astro

de revolução mais lenta, o planeta dos desvios e das dilações

o livro publicado em 1928 sobre o drama alemão (o Trauerspiel, literalmente, a tragédia)

e sua obra inacabada Paris, capital do século XIX, só podem ser plenamente entendidos desde que se compreenda até que ponto se baseiam na teoria da melancolia” (Susan Sontag, Sob o signo de Saturno, p.86).

Seus principais projetos,

por uma ‘profunda tristeza’, escreveu Scholem. melancólico, desdenhando os modernos rótulos

parecia

um

marcado

indivíduo

’.

2 Leon Festinger, Teoria da dissonância cognitiva, Rio de Janeiro, Zahar, 1975; Gordon Allport e Leon Postman, Psychology of rumor, New York, Henry Holt and Company,

1948.

3 Renato Ortiz, Mundialização e cultura, 2a edição, São Paulo, Brasiliense, 1994.

4

Jean-François

Lyotard,

O

inumamo,

Lisboa,

Estampa

Editorial,

1990,

Margens.

coleção

5 Cf. Lúcia Santaella, mesa temática apresentada no III Encontro Internacional de Semiótica “Caos e ordem”, realizado na PUC-SP de 31/08 a 03/09/96.

6 Jean-François Lyotard, op. cit., p.10.

7 Susan Sontag, Assim vivemos agora, p. 31; 19.

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Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira. Quero o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,

o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível muleta que me apóia. Quem entender a linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,

foi inventada para ser calada. Em momentos de graça, infreqüentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. Puro susto e terror.

adélia prado, poesia reunida

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introdução

1. pressupostos

“O real é um sonho, um sonho do corpo que fala Jacques Lacan, Encore

São estranhos os caminhos que percorremos até chegar aonde gostaríamos de estar. Esse “lugar da chegada” é tão difícil de ser alcançado porque, na maioria das vezes, é um lugar apenas sonhado, intuído. E ao chegar, ele não está mais ali: deslocou-se. Lembro de quando comecei a pensar em fazer o curso de pós-graduação, das minhas primeiras idéias de temas, da ingenuidade que não posso deixar de reconhecer naquelas idéias. Releio textos antigos e me espanto ao constatar que, em poucos meses, este tema sofreu tantas adaptações que nem parece ser ainda o mesmo. Começo a pensar em falar sobre ele agora, sobre onde nos encontramos, sobre onde finalmente chegamos. As mudanças começaram ainda em 1995. Em relatório apresentado à ECA, reconheci, no texto escrito, que não acreditava mais na viabilidade de medição dos efeitos de campanhas de prevenção à Aids, tema com o qual, em princípio, pensava em trabalhar. Hoje, creio que a situação está ainda mais complicada: chego mesmo a duvidar que tais campanhas sejam passíveis de êxito. Claro, não questiono o fato delas terem que existir; acredito mesmo que seja necessário fazer tantas campanhas quantas sejam possíveis. Mas não me sinto em condições de perguntar às pessoas (no meu caso, seriam os adolescentes) sobre o grau de persuasibilidade ou eficácia dessas campanhas, ou sobre o que elas pensam sobre a Aids, ou sobre os textos jornalísticos referentes à Aids, algumas de minhas idéias iniciais. A partir desse deslocamento, a Aids, mais que um tema, tornou-se um lugar privilegiado para entreolhar os mecanismos de construção de narrativas através da imprensa. No caso específico deste projeto, elaborou-se a leitura de textos jornalísticos publicados no

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jornal Folha de S. Paulo entre os anos de 1994 e 1995 para extrair deles a narrativa que a Aids foi escrevendo/inscrevendo e, assim, articulando seu próprio discurso.

A Aids tornou-se “pretexto” porque, por trás de seu discurso, há um outro (ou outros),

muito mais delicado, que envolve dois temas complexos e inseparáveis: o sexo e a morte.

Para falar de Aids, portanto, não se poderia deixar de fazer referência a esses dois temas,

e para falar das representações simbólicas de que a Aids está revestida não poderia

deixar de acompanhar seu percurso entre nós, ela que se tornou tão temerária por trazer

à tona o proibido, o interditado, aquilo que estava escondido e assim deveria permanecer.

A Aids afeta não apenas o corpo mas também a mente de todos aqueles de alguma forma

nela envolvidos: portadores do HIV – sintomáticos ou assintomáticos –, familiares, amigos, pessoas em geral. Reveste-se, assim, de um certo mistério quase que religioso

em relação àquilo que é desconhecido e, por isso, desperta fantasias e medos ancestrais.

É velada e re-velada. Não há esperança nem para quem está doente, nem para o restante

das pessoas. Este imaginário, criando “imagens”, organiza-se como narrativa e passa a recobrir o real, ou seja: a narrativa torna-se ela mesma uma construção imaginária a impregnar o simbólico. É, portanto, a partir da narrativa da Aids que se pode extrair seu simbólico. Um dos lugares privilegiados para acompanhar essa narrativa – não a narrativa construída sobre a Aids, mas a narrativa que a própria Aids foi construindo para si por meio dos vários discursos que foram criando o objeto Aids (discurso religioso, discurso da ciência, discurso moral, discurso do Estado) – é o jornalismo. A partir dele construiu- se o objeto de estudo deste trabalho, considerando a Aids não apenas enquanto fenômeno social mas, sobretudo, como construção discursiva. Assim, parte-se do

pressuposto de que o discurso, enquanto criador de laço social, foi instituindo a Aids como uma grande narrativa nos jornais. Dessa forma, um dos pressupostos básicos desta pesquisa é considerar o jornalismo como uma estrutura da linguagem, a partir da qual uma estrutura narrativa organizaria os jornais. Ao afirmar isso, o termo estrutura está sendo tomado em sua acepção mais clássica de um todo no qual é considerada a forma pela qual se dispõem as partes que o

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constituem, um todo no qual “uma coisa não vai sem a outra”, uma articulação em cadeia, significando, ainda, que a soma das partes não perfaz um todo. O título da dissertação, em minúsculas, imagens veladas, imagens re-veladas:

narrativas da aids nos escritos do jornal folha de s. paulo (1994-1995), ao jogar com as palavras velar/revelar/re-velar, remete ao “velado” – aquilo que se esconde – em oposição ao “revelado” – aquilo que se mostra. Entretanto, acredita-se que o jornal não vela, nem revela: ele re-vela, isto é, “vela de novo”. Recobrindo o simbólico, o que se tem da Aids são imagens, imaginários. Imagens, assim, veladas e re-veladas, duplamente ocultas. Ocultas sob o quê? Esta é a pergunta que parcialmente tentou-se aqui responder. As lacunas deixadas, ficam lançadas ao ar, quem sabe ainda em busca de respostas nunca conclusivas, nunca plenamente satisfatórias.

2. objetivos

a linguagem não pode ser considerada como um simples instrumento, utilitário ou

decorativo, do pensamento. O homem não preexiste à linguagem, nem filogeneticamente, nem ontogeneticamente. Jamais atingimos um estado em que o homem estivesse separado da linguagem, que elaboraria então para ‘exprimir’ o que nele se passasse: é a linguagem que ensina a definição do homem, não o contrário.” Roland Barthes, O rumor da língua

“(

)

O objetivo desta pesquisa configura-se num duplo movimento: por um lado, quer estudar

a Aids para apreender os modos de operação do discurso jornalístico e, por outro, quer

estudar o jornalismo como parte de algo que o transcende, extraindo dele o discurso da Aids.

O desafio não é pouco. Faz lembrar um poema de Carlos Nejar, publicado na coletânea

Os melhores poemas de Carlos Nejar: “A casa não tem fim/ e os inúmeros projetos/ no quintal dependurados/ entre as roupas./ Devagar/ que a vida é pouca/ para tamanha

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resposta./ A casa não tem fim./ Começa no amor/ e o amor decide em mim./ E os muros ruídos,/ os cravos,/ as persianas nos sentidos/ entreabertos./ Cuidado que a vida é solta”. Tão solta como os elos da cadeia aqui articulada entre jornalismo e Aids, cujas relações estabelecidas poderiam ter sido as mais variadas.

O interesse inicial deste trabalho era tratar prioritariamente do tema da Aids, motivado

pelas características singulares das quais esta doença se reveste. Entretanto, por ser algo “novo” (há um “antes” bem definido), a Aids mostrou-se como exemplar para pensar o próprio jornalismo enquanto discurso. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa é mostrar como a Aids, que é um assunto “novo” nos jornais (que antes não havia), foi se articulando e escrevendo sua própria narrativa em suas páginas. Com

isso, pretende-se falar da Aids – entender sua própria narrativa – e do próprio jornalismo – de suas formas de construção discursiva –, o jornalismo considerado como um local privilegiado para a articulação dos diversos discursos constituintes (e instituintes) da sociedade. Buscou-se, portanto, verificar de que modo o discurso organizador da sociedade – discurso definido aqui como estrutura simbólica – se manifesta em relação à Aids. Em outras palavras, verificar qual o discurso (ou os discursos) que sustenta a narrativa da Aids nos jornais, qual o discurso prevalecente sobre a Aids na narrativa escrita no jornal Folha de S. Paulo, entendendo narrativa como o imaginário que impregna o discurso, lugar do simbólico. Não se trata, e isto é fundamental, de descrever aqui o discurso da Aids criado pelo jornal Folha de S. Paulo, mas sim o discurso que a própria doença foi criando para si por meio das narrativas do jornal. As configurações imaginárias que compõem hoje o discurso da Aids em nossa sociedade não são construções preestabelecidas, arquitetadas, mas, ao contrário, foram se compondo à medida que a narrativa desta doença foi sendo escrita. Por ser algo “novo”, com início facilmente demarcável dentro das páginas do jornal, a Aids possibilita que seja estudado o percurso narrativo de sua história, já que houve um “antes”, um tempo em que não existia enquanto construção discursiva, estando, portanto, fora da linguagem e, assim, da própria realidade discursiva.

A partir do momento que passou a ser nomeada é que a Aids, efetivamente, passou a

existir, estabelecendo, a partir daí, uma rede discursiva organizadora de seu próprio

22

discurso. As configurações e contornos que esse discurso adquiriu com o desenrolar das

narrativas da Aids escritas no jornal é que serão aqui apontadas. Pressupõe-se, assim,

que a Aids foi escrevendo sua própria narrativa, à medida que se inseriu enquanto

discurso de um determinado modo, conforme desenvolvido no capítulo final deste

trabalho.

3. corpus da pesquisa

“O prazer do texto: qual o simulador de Bacon, ele pode dizer: jamais se desculpar,

jamais se explicar. Nunca ele nega nada: ‘Desviarei meu olhar, será doravante a minha

única negação’.”

Roland Barthes, O prazer do texto

O corpus desta pesquisa é formado por 31 matérias sobre Aids extraídas do jornal Folha

de S. Paulo entre os anos de 1994 e 1995, distribuídas em vinte dias (dez a cada ano) 1 . O

jornal escolhido, Folha de S. Paulo, é publicado desde 1921 pela empresa Folha da

Manhã. Nas últimas décadas, passou por processos profundos de renovação gráfica,

incorporando, progressivamente, novos elementos a seu projeto visual e gráfico.

Na última mudança gráfica, ocorrida em 1996, as principais alterações foram com

respeito ao uso de cores nas vinhetas dos nomes dos cadernos e em grande parte das

fotografias publicadas (anteriormente, apenas algumas fotos, geralmente na primeira

página, eram coloridas), além da introdução de uma nova fonte tipológica para os textos

e títulos. Um grande número de gráficos e ilustrações é outra das características

marcantes do jornal. Suas edições seguem o padrão de divisão da página em seis colunas

de mesmo tamanho, e os títulos, textos, fotos e elementos visuais podem ocupar de uma

a seis colunas, dependendo do destaque e importância do assunto abordado.

1 Dos 32 dias constituintes do corpus selecionado, doze dias não trouxeram nenhuma matéria sobre Aids (seis em cada ano).

23

A Folha publica regularmente matérias de divulgação científica, principalmente aquelas

ligadas à área de medicina, descobertas científicas e saúde, o que explica a regularidade da publicação de textos sobre a questão da Aids. Até o momento de conclusão desta

pesquisa, a organização interna do jornal é feita por meio de “cadernos temáticos”, alguns deles fixos (publicados diariamente) e outros móveis (publicados em determinados dias da semana). As editorias Brasil, Mundo, Dinheiro (Negócios ou Finanças), São Paulo, Esporte, Ilustrada, Acontece SP, Classifolha (com anúncios

classificados mais específicos ou mais gerais) circulam durante todos os dias da semana. Além delas, outras são publicadas: Folhateen, às segundas-feiras; Agrofolha, às terças- feiras; Informática, às quartas-feiras; Turismo, às quintas-feiras; Folhinha e, quinzenalmente, Jornal de Resenhas, às sextas-feiras. Nas edições de domingo, a estrutura básica se mantém, com maior destaque para o caderno Mundo, a substituição do caderno Dinheiro por Finanças, também ampliado, e a inserção do caderno mais!, que reúne as editorias de arte, cultura, programação cultural

e artística, ciência, livros, além dos especiais TV Folha e Revista da Folha e de um

número maior de anúncios classificados, divididos em vários cadernos (Emprego, Veículos, Tudo, Imóveis). Excetuando-se pequenas variações, essa estrutura é repetida semanalmente, daí o interesse deste trabalho em selecionar o corpus a partir do modelo explicitado abaixo, que possibilita uma amostragem abrangendo cada um dos dias da semana, apresentando, assim, as variações diárias do jornal e estabelecendo semelhanças e diferenças. Cada dia da semana aparece selecionado duas vezes para as edições semanais e uma vez para as edições dominicais, perfazendo um total de três ocorrências por ano. Desse modo, o ano de 1994 possui a seguinte configuração por dias da semana em

termos de freqüência: segunda-feira = uma ocorrência; terça-feira = duas ocorrências; quarta-feira = uma ocorrência; quinta-feira = duas ocorrências; sexta-feira = uma ocorrênca; sábado = duas ocorrências; domingo = uma ocorrência, perfazendo um total de dez dias e treze matérias. Em 1995, a distribuição por dias da semana está assim

configurada: segunda-feira = uma ocorrência; terça-feira = uma ocorrência; quarta-feira

= duas ocorrências; sexta-feira = duas ocorrências; sábado = duas ocorrências; domingo

24

= duas ocorrências, perfazendo um total de dez dias e dezoito matérias. Em 1995,

nenhuma das quintas-feiras selecionadas publicou matérias sobre Aids. Observe-se que apesar do número de dias – entre aqueles previamente selecionados – em que aparecem matérias sobre Aids ser o mesmo (dez dias para cada ano, de um total de dezesseis dias por ano selecionados), o ano de 1995 apresenta um número total de matérias superior ao total de 1994: em 1995, foram encontradas dezoito matérias e, em 1994, treze. Na parte referente à descrição do corpus, as edições serão mais detalhadas

individualmente. Os anos de 1994 e 1995 foram selecionados para serem os anos de referência da amostra pelo critério de sua atualidade, entendida aqui no sentido de expressar as notícias mais recentes publicadas sobre a Aids passíveis de serem objeto desta pesquisa (o ano de 1996 foi desconsiderado, pois na época de seleção do corpus não havia ainda terminado).

O

critério da atualidade pode ser inserido dentro de duas premissas básicas: 1) faz parte

de

um dos pressupostos do jornalismo contemporâneo, representando, sem que se julgue

o mérito desta questão, um dos critérios para a entrada mesma de um assunto na pauta diária de notícias; 2) no universo desta pesquisa, sinaliza o mais recente discurso da Aids construído por meio do jornal analisado, o que propicia um certo distanciamento em relação aos primeiros escritos do jornal, muito mais marcados pela pontuação dos homossexuais infectados e dos “grupos de risco” (embora estes recortes sejam observados ainda hoje nos escritos da Folha de S. Paulo, sua forma de cristalização se

dá de maneira diferenciada).

As matérias foram selecionadas a partir de uma amostra aleatória que envolveu as etapas enumeradas a seguir. Em primeiro lugar, foi realizado um levantamento e listagem de TODAS as matérias publicadas pelo jornal referido sobre a Aids. Esse levantamento foi realizado no arquivo do próprio jornal e resultou em mais de 4 mil matérias (foram selecionadas apenas as matérias em que aparecia a palavra Aids; as que apenas se referiam à doença ou outros de seus aspectos, sem dizer seu nome, foram desconsideradas), classificadas de acordo com subtemas e localizadas por data, página e caderno de publicação. Esse primeiro levantamento foi considerado extremamente importante para que, antes de iniciar o trabalho de leitura das matérias selecionadas para a pesquisa, pudesse haver uma

25

idéia geral da abordagem e temáticas do jornal em relação ao tema da Aids. Também foi importante do ponto de vista quantitativo, já que possibilitou que se tivesse uma idéia de volume de material sobre o tema (quantidade surpreendente, pois não se esperava que houvesse tantas matérias sobre Aids já publicadas na Folha) e estabelecesse um gráfico

de volume da quantidade de matérias sobre Aids publicadas por períodos.

Após ler todo esse material, foram preparadas listas e gráficos ano a ano contendo as

informações básicas sobre cada uma das matérias. Os anos de 1994 e 1995 foram

estabelecidos como referência para a pesquisa já que, por trazerem as matérias publicadas mais recentemente em relação ao prazo de execução da pesquisa, sinalizam o atual estágio de apresentação do tema da Aids pelo jornal, refletindo, assim, as próprias construções sociais sobre a doença. Definido o período, efetuou-se a escolha das matérias a serem analisadas utilizando o critério explicitado a seguir.

A amostra da pesquisa foi elaborada a partir de modelo proposto por James Curran e

Jean Staton. Na pesquisa que realizaram sobre os media, publicada no livro Power

without responsibility, os autores utilizaram jornais diários e semanários, diferenciando-

os de acordo com os dias da semana, ou seja: nos jornais diários, selecionaram edições

publicadas de segunda-feira a sábado, e, nos semanários, trabalharam com os domingos:

“A representative sample (twelve issues of dailies and six of Sundays per year) was selected in a way that gave appropriate weight to each quarter of the year, each week in the month, and each day in the week” (Curran e Staton, 1988: 113). Utilizando apenas um jornal diário, o modelo por eles proposto teve de ser adaptado para ser utilizado nesta pesquisa, já que tanto as edições dos dias da semana como as dominicais são do jornal Folha de S. Paulo. A adaptação realizada refere-se à elaboração de um critério de amostragem diferenciado para os dias úteis e os domingos. Para as edições semanais, foi selecionada uma edição ao mês, totalizando doze para cada ano; para as edições dominicais, dividiu-se o ano em quatro trimestres (janeiro-março; abril- junho; julho-setembro; outubro-dezembro), sendo que a pesquisa trabalha com o primeiro mês de cada trimestre (quatro edições ao ano). Para cada um destes meses (janeiro, abril, julho, outubro) foi escolhida uma edição dominical, da primeira à quarta semana, respectivamente. O mesmo procedimento foi seguido para os anos de 1994 e 1995. São apresentadas, a seguir, as tabelas demonstrativas do corpus da pesquisa.

26

 

EDIÇÕES SEMANAIS – 1994 TABELA I

 

MÊS

SEMANA

 

DIA

 
   

2 a . feira

3

a . feira

4 a . feira

5

a . feira

6 a . feira

sábado

Janeiro

1 a .

03 **

         

Fevereiro

2 a .

 

08

*

       

Março

3 a .

   

16 **

     

Abril

4 a .

     

28

**

   

Maio

1 a .

       

06 *

 

Junho

2 a .

         

11

*

Julho

3 a .

18

         

Agosto

4 a .

 

23

*

       

Setembro

1 a .

   

07

     

Outubro

2 a .

     

13

*

   

Novembro

3 a .

       

18

 

Dezembro

4 a .

         

24

*

Observações: os números indicados com (*), (**) e (***) referem-se aos dias sorteados nos quais foram encontradas uma, duas ou três matérias sobre Aids, respectivamente; nos dias sem nenhuma indicação, não foram publicadas matérias sobre Aids

EDIÇÕES DOMINICAIS – 1994 TABELA II

 

TRIMESTRE

SEMANA

DOMINGO

janeiro (fevereiro/março)

1 a .

02

abril (maio/junho)

2 a .

10

julho (agosto/setembro)

3 a .

17 *

outubro (novembro/dezembro)

4 a .

23

27

Observações: os números indicados com (*), (**) e (***) referem-se aos dias sorteados nos quais foram encontradas uma, duas ou três matérias sobre Aids, respectivamente; nos dias sem nenhuma indicação, não foram publicadas matérias sobre Aids; os meses em itálico referem-se aos meses sobre os quais incide a pesquisa

28

 

EDIÇÕES SEMANAIS – 1995 TABELA III

 

MÊS

SEMANA

 

DIA

 
   

2 a . feira

3

a . feira

4 a . feira

5

a . feira

6 a . feira

sábado

Janeiro

1 a .

02

         

Fevereiro

2 a .

 

14 *

       

Março

3 a .

   

15

**

     

Abril

4 a .

     

27

   

Maio

1 a .

       

05

*

 

Junho

2 a .

         

10

*

Julho

3 a .

17 *

         

Agosto

4 a .

 

29

       

Setembro

1 a .

   

06

***

     

Outubro

2 a .

     

12

   

Novembro

3 a .

       

17

**

 

Dezembro

4 a .

         

23

***

Observações: os números indicados com (*), (**) e (***) referem-se aos dias sorteados nos quais foram encontradas uma, duas ou três matérias sobre Aids, respectivamente; nos dias sem nenhuma indicação, não foram publicadas matérias sobre Aids

EDIÇÕES DOMINICAIS – 1995 TABELA IV

 

TRIMESTRE

SEMANA

DOMINGO

janeiro (fevereiro/março)

1 a .

01

abril (maio/junho)

2 a .

09

***

julho (agosto/setembro)o

3 a .

16

outubro (novembro/dezembro)

4 a .

22

*

29

Observações: os números indicados com (*), (**) e (***) referem-se aos dias sorteados nos quais foram encontradas uma, duas ou três matérias sobre Aids, respectivamente; nos dias sem nenhuma indicação, não foram publicadas matérias sobre Aids; os meses em itálico referem-se aos meses sobre os quais incide a pesquisa

30

Como pode ser observado nas tabelas, a amostragem é constituída por 32 dias, sendo dezesseis dias por ano (doze dias de semana e quatro domingos). Em cada dia sorteado, foram selecionadas todas as matérias sobre Aids publicadas (com exceção das seções previamente desconsideradas, como explicitado abaixo). Boxes ou matérias secundárias foram contados separadamente em relação ao texto principal. Após a consulta, tem-se um total de 31 matérias de jornal (treze em 1994 e dezoito em 1995), observando-se que

em alguns dias não foram encontradas matérias e, em outros, foi encontrada mais de uma matéria. A distribuição das matérias por dia está descriminada no item Primeiras leituras.

O processo de descrição e análise do corpus será dividido em duas partes: Primeiras

leituras e Segundas leituras. A primeira leitura será mais abrangente e descritiva, estabelecendo uma visão geral das edições do jornal, das matérias que compõem o corpus e subdividindo os textos narrativos em grandes categorias (Estado: legislação, saúde pública, convênios médicos; pessoas: soropositivos, homossexuais, pessoas afetadas ou não-afetadas pela Aids, direta ou indiretamente; ciência: descobertas científicas, informações médicas, medicamentos, testes de novos remédios; questões sociais: grupos organizados, eventos, pesquisas sociológicas, drogas). Na segunda leitura, cada uma das matérias será analisada de acordo com a metodologia extraída das teorias da linguagem, destacando o que aparece como repetição e qual a grande narrativa

tecida pela Aids por meio delas. Procurar-se-á, desta forma, estabelecer as relações que

se manifestam pela análise baseada nas ciências da linguagem.

Na seleção do material, não foram considerados cadernos de anúncios (classificados em geral), Painel do Leitor, Painel, crônicas, TV Folha, Revista da Folha, Folhinha. Na seleção das matérias, não foram consideradas aquelas que se apresentavam como simples “notas” ou “agenda”, contendo apenas datas de eventos ou debates, endereços de ongs ou de hospitais, estatísticas sem comentário, ou notas com apenas uma informação (como nas colunas não assinadas que trazem diversas pequenas notas sobre temas variados). Vale notar que em todas as matérias selecionadas aparece a palavra Aids no corpo do texto, com exceção de uma, em que a única palavra relacionada à Aids é aidético, mas de forma sinonímia (já que se referia a tratamentos à doença), razão pela qual a matéria foi selecionada.

31

4. plano da dissertação

“Texto quer dizer Tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto,

o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto

se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.” Roland Barthes, O rumor da língua

A organização dos capítulos, como pode ser percebida pelo índice, percorreu um caminho que tratou de conceituar em primeiro lugar o jornalismo para, em seguida, situá-lo em relação ao campo teórico das ciências da linguagem. É disso que se trata no primeiro e no segundo capítulos. No terceiro capítulo, específico sobre a Aids, apresenta-se o que foi aqui chamado de sua “breve história”, já que objetiva não tanto esgotar a discussão sobre o tema da Aids mas, sobretudo, situar o próprio lugar do qual a pesquisadora parte para lançar seu olhar sobre ela. O quarto e o quinto capítulos tratam, respectivamente, da descrição e da análise das matérias que compõem o corpus da pesquisa, por meio de diferentes estratégias metodológicas, mantendo como fundantes os princípios teóricos norteadores da pesquisa. Finalmente, as conclusões provisórias apresentam olhares e vieses, um certo modo de ouvir e ver o discurso da Aids. Primeiramente, portanto, foi necessário organizar o campo teórico no qual este trabalho está inserido, apresentando os principais elementos teórico-conceituais nele envolvidos. No capítulo 1, a pesquisa trata do tema do jornalismo enquanto instituição social e seus pressupostos básicos, destacando sua inserção habitual no campo das ciências sociais para, em seguida, construir os fundamentos de sua inserção nas ciências da linguagem.

32

Após apresentar uma proposta de conceituação do próprio fazer jornalístico como norteadora deste trabalho, alguns elementos da semiótica narrativa – ampliados com a contribuição de teóricos de outras áreas – são trazidos para explicitar um dos pontos fundamentais desta pesquisa: a idéia de que o jornalismo é dotado fundamentalmente de uma estrutura narrativa que lhe é própria. Este deslocamento implicou na apresentação das principais teorias e conceitos envolvidos nas ciências da linguagem – apresentação realizada no capítulo 2 –,

integrando a antropologia, a lingüística, a semiótica e a psicanálise, privilegiando, nesta última, o estudo da teoria lacaniana da linguagem em suas relações com o real, o simbólico e o imaginário.

O capítulo 3 delimita, neste trabalho, uma aproximação ao tema da Aids, utilizando para

isso textos relacionados em sua maioria às ciências humanas (psicologia, antropologia,

sociologia, filosofia), e apresentando o recorte, a justificativa e os objetivos adotados em relação ao tema.

O processo de descrição, desenvolvido no capítulo 4, partiu da apresentação geral das

edições do jornal incluídas na pesquisa, passando pelas matérias de Aids publicadas a

cada edição (sua localização no jornal, títulos, fontes, referências à Aids) para chegar ao detalhamento de cada uma das matérias, apresentando um breve resumo, principais temáticas levantadas, localização na página e existência ou não de chamadas de primeira página para a matéria.

O capítulo 5 começa por explicitar a proposta metodológica daquilo que, finalmente, foi

chamado de leituras das matérias. Os principais conceitos envolvidos neste processo de leituras foram extraídos de um texto de Émile Benveniste, do qual destacam-se seus principais elementos. Antes, porém, de operacionalizá-los na análise das matérias, são apresentadas o que se chamou de “idéias em suspensão”, uma associação livre de imagens em relação a cada uma delas. Além disso, esse capítulo apresenta as confluências e dissonâncias encontradas na leitura das matérias, estabelecendo grupos de diversas categorias a partir de elementos das ciências da linguagem. Uma primeira proposta de articulação temática entre as matérias é aqui apresentada. Ao final do capítulo, os temas são reagrupados em apenas três – aqueles que de fato parecem ser os discursos mais evocados ao se construir o discurso

33

da Aids por meio das narrativas do jornal – e sobre eles são traçadas algumas considerações. Finalmente, as conclusões, aqui chamadas de provisórias por não estarem “concluídas”, relacionam a Aids com os processos vividos na contemporaneidade, situando-a como fenômeno mundializado, entendendo estes processos também como uma grande narrativa que vem contribuindo na constituição do próprio discurso da Aids. A Aids, como um dos grandes males que assola o tempo/espaço da contemporaneidade, insere-

se, portanto, nessa narrativa.

5. instrumental teórico

“O dia jaz cada manhã como uma camisa fresca sobre nossa cama; esse tecido incomparavelmente fino, incomparavelmente denso, de limpa profecia, assenta-nos como uma luva. A felicidade das próximas vinte e quatro horas depende de que nós, ao acordar, saibamos como apanhá-lo.” Walter Benjamin, Madame Ariadne, segundo pátio à esquerda

A bibliografia foi dividida, como pode ser observado, em três partes: uma sobre os

processos de comunicação e as ciências da linguagem, a segunda sobre temas de filosofia

e ciências humanas e a terceira, mais específica, sobre a questão da Aids (subdividida em livros e artigos, dissertações e teses, artigos de jornal). Num primeiro momento, as leituras foram voltadas para livros que tratam especificamente da questão da Aids, livros a partir dos quais iniciou-se a elaboração e desenvolvimento do projeto de pesquisa, ainda em fase embrionária. Em sua maioria, esses livros careciam de uma maior profundidade na articulação da questão da Aids com

a ordem social enquanto uma ordem simbólica construída e articulada na e pela

linguagem. Ao apresentar um recorte predominantemente sociológico, tais textos não levavam em consideração que “não existe realidade pré-discursiva”, que o homem só é e

34

existe na linguagem. Dessa forma, ao tentar caracterizar a narrativa da Aids no jornal pesquisado não se poderia deixar de considerar os significantes que ali estão se deslocando e, assim, engendrando novos significados. A bibliografia específica sobre o tema da Aids é diversa e tornou-se mais presente na década de 90. Pesquisadores de diversas áreas (antropologia, psicologia, sociologia, comunicação, psicanálise, história, pedagogia, entre outras), passaram a tratar do tema. Vários textos publicados apresentam resultados de pesquisas realizadas sobre a questão da Aids em grupos específicos, como mulheres, negros, adolescentes, homossexuais. Muitas dessas pesquisas foram desenvolvidas como projetos de dissertações ou teses. Dos livros consultados, vários abordam questões comportamentais referentes à transmissão de mensagens e sua aceitação/incorporação ou não pelos receptores (o termo aqui reproduzido já indica o campo teórico neles adotado), como alguns textos publicados nos livros da coleção “História Social da Aids”, editada pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), em convênio com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a editora Relume Dumará, também do Rio de Janeiro. Os textos que tratam de comunicação preventiva ou campanhas de saúde também analisam os fatores que interferem na transmissão de mensagens em relação à sua eficácia ou não junto ao público-alvo. Procuram, ainda, analisar aspectos relacionados a por que as campanhas de prevenção e as informações existentes sobre a Aids muitas vezes não surtem os efeitos desejados, já que o número de pessoas contaminadas parece não diminuir. Além dos possíveis problemas estruturais relacionados às campanhas, também é considerada nesses textos a inadequação das mesmas e a dificuldade em modificar atitudes comportamentais ou romper a recusa de muitos segmentos da sociedade de incorporar novos valores ou conceitos conflitantes e, muitas vezes, desagradáveis. Os livros Doença como metáfora e A Aids e suas metáforas, de Susan Sontag, podem ser colocados como peças-chaves nas leituras realizadas sobre a Aids. Lidos antes de qualquer outro livro sobre a Aids, foram extremamente relevantes do ponto de vista da análise feita sobre aspectos culturais e teóricos relacionados ao comportamento de pacientes de doenças terminais e às reações e atitudes da sociedade em geral com relação a estes pacientes.

35

Entre os demais livros consultados, alguns tratam de aspectos diretamente ligados ao fornecimento de informações sobre a doença, visando a prevenção, como, por exemplo,

o livro Aids: tudo o que você sempre quis saber e teve coragem de perguntar, de

Veronica Hughes e Manuel Santos, e outros, ainda, sobre a doença do ponto de vista do soropositivo. Publicações mais recentes, como Aids e sexualidade: o ponto de vista das ciências humanas (e algumas outras da editora Relume Dumará, que já lançou vários títulos sobre o tema da Aids), trazem ensaios mais acadêmicos e reflexivos sobre a

doença. Nessa linha pode ser também inserido o livro do psicanalista Jurandir Freire Costa, A inocência e o vício. A Aids não é mais uma doença nova ou desconhecida; devido a este fato, já existe bibliografia enfocando aspectos mais históricos da doença e seu desenvolvimento ao longo dos anos, como o livro Aids: the burdens of history, de Fee e Fox. Complementando as publicações realizadas pelas editoras e casas publicadoras formais, foi consultado extenso material produzido pelas ONGs (organizações não- governamentais) que desenvolvem projetos específicos sobre a questão da Aids. Entre elas, destacamos as publicações e material de apoio produzidos pelo programa Arca- Apoio no Combate à Aids, do Iser-Instituto de Estudos da Religião (Rio de Janeiro), pelo Gapa-Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (São Paulo), pela Abia-Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Rio de Janeiro) e pelo Cedi-Centro Ecumênico de Documentação e Informação (São Paulo). O material produzido por essas entidades é variado e engloba diversos aspectos da doença, sendo voltado para diferentes grupos sociais: jovens, prostitutas, travestis, praticantes do candomblé e religiões afro- brasileiras, integrantes de igrejas, estudantes, soropositivos, entre outros. Revistas científicas (especialmente números de Science e Scientific American que trouxeram dossiês ou artigos sobre a questão da Aids em termos de pesquisas científicas

e descobertas) foram consultadas a fim de fornecer referencial médico-científico e

informações atualizadas sobre as pesquisas relacionadas a diversos aspectos da doença, como conhecimentos sobre o vírus, formas de transmissão, vacinas em desenvolvimento, terapias de tratamento, polêmicas e controvérsias quanto à atuação e propagação do vírus, avanços e investimentos nas pesquisas e outros aspectos ligados à área científica.

36

Como contraponto e apoio a esta bibliografia especializada, algumas publicações, como o livro Um mundo sem Aids, foram consultadas para levantamento de informações sobre terapias e teorias alternativas quanto à doença, sua forma de aparecimento, contágio, transmissão e efeitos no organismo. Tais pesquisas e teorias se desenvolvem paralelamente à pesquisa oficial sobre a doença, não recebendo verbas nem apoio governamental. Apesar de paralelas e até marginais (em relação ao sistema oficial), tais pesquisas merecem atenção na medida em que apontam possíveis alternativas no controle, prevenção e cura da doença. Com relação às dissertações de mestrado e teses de doutorado, observou-se que, até 1993, a maioria delas tratava de aspectos relacionados à doença e à saúde enquanto condições físicas ou relacionados a políticas de prevenção da Aids enquanto problema de saúde pública. Poucas dessas publicações enfocavam aspectos psicossociais e culturais relacionados à doença, o que pôde ser observado pelo fato de que a maioria desses textos encontrava-se nas áreas mais técnicas das faculdades de medicina, enfermagem ou serviço social. A partir de 1994/1995, passaram a ser realizadas mais pesquisas voltadas para aspectos socioculturais da Aids, havendo também maior diversificação das faculdades nas quais foram realizadas incluindo, além daquelas ligadas à área médica, as de psicologia, antropologia e comunicação, por exemplo. Os títulos relativos a aspectos estritamente médicos ou científicos da doença, que não foram incluídos na bibliografia, passaram a aparecer em menor número, dividindo, mesmo nos departamentos de ciências médicas e biológicas, espaço com pesquisas diversas. A questão da prevenção e da informação, principalmente entre jovens e estudantes de 2 o . grau ou universitários, continua sendo um tema bastante freqüente, além da abordagem de aspectos relativos a mudanças conceituais, construção social da Aids, conceitos teóricos nela envolvidos. Quanto à literatura da área de comunicação e das ciências da linguagem, ao longo desses dois anos de estudo os cursos freqüentados apontaram um leque variado de autores, temáticas e posições. Ao escolher as disciplinas, esperava-se que delas pudesse vir o aporte teórico necessário ao desenvolvimento da pesquisa. Além dessas referências buscadas em curso, as indicações da orientadora foram fundamentais, estabelecendo um

37

percurso gradual no campo das ciências da linguagem, lugar escolhido para situar este trabalho. As lacunas eram muitas. Começou-se por ler textos básicos de lingüística, semiótica, antropologia estrutural e psicanálise, buscando deles extrair as principais noções e conceitos. Paralelamente, realizou-se a leitura de diversos textos na área de comunicação e, mais especificamente, de jornalismo. Os livros que tratam da questão da pós- modernidade e do processo de mundialização/globalização também foram estudados. Dessas leituras, algumas merecem ser comentadas. Dos textos específicos da área de jornalismo, destacam-se os livros de Herbert Gans e Michael Schudson. Esses dois autores, particularmente, propõem uma discussão original e atualizada sobre a natureza do fazer jornalístico e, por que não, de sua própria essência, fugindo ao estilo dos “manuais de jornalismo” que querem apenas transmitir regras de como fazer sem refletir sobre tal fazer. Autores clássicos, como Claude Lévi-Strauss, Sigmund Freud, Ferdinand de Saussure, Émile Benveniste, Max Weber, e outros mais contemporâneos como Noam Chomsky, Jacques Lacan, Jean-François Lyotard, Jacques Derrida, Julia Kristeva, Louis Quéré, Edward Said, nas suas diferentes áreas de atuação, possibilitaram que os referenciais teóricos iniciais deste trabalho fossem largamente expandidos. Desde as teorias lingüísticas, desenvolvidas por Saussure, Jakobson, Barthes, entre outros, passando pela semiótica, até os textos mais complexos sobre a linguagem, foi-se formando um quadro conceitual no qual pôde-se construir o que é chamado aqui de “panorama das ciências da linguagem”. A teoria da narrativa, estudada em profundidade na obra de A. J. Greimas e em diversos textos de autores contemporâneos sobre a teoria semiótica da narrativa e do discurso, possibilitou que os jornais fossem pensados não como meros transmissores de informações mas como constituídos, fundamentalmente, pela estrutura narrativa das notícias. As teorias da linguagem apresentadas nos diversos textos lidos de Jacques Lacan foram as responsáveis pelo deslocamento aqui proposto de tratar o jornalismo – e o próprio tema da Aids – não apenas do ponto de vista psico-sócio-cultural mas, sobretudo, a partir do pressuposto de que é a linguagem o que constitui o mundo.

38

É interessante destacar que, por abrangerem um vasto campo teórico, as ciências da

linguagem, além dos livros mais específicos das áreas de lingüística e semiótica, levaram ao contato com textos de antropologia, psicanálise, sociologia, filosofia, todos

extremamente importantes na configuração da pesquisa. Destes, os textos de J.-F. Lyotard se destacam. Por realizarem a ponte entre a reflexão filosófica e os processos de comunicação e das novas tecnologias, foram fundamentais para a configuração da Aids enquanto fenômeno comunicacional e objeto teórico. As leituras, assim organizadas tematicamente, possibilitaram que, aos poucos, fosse se configurando um quadro referencial amplo que, de forma dispersa e indireta, pode ser visto no percurso apresentado neste texto. Um texto levava a outro, que levava a outro, num movimento incansável que não se encerra. Mesmo após a conclusão do texto final da dissertação (final porque ao texto é necessário, eventualmente, colocar um ponto final), certamente serão acrescentados aos livros já lidos ainda outros, que levarão a outros, ininterruptamente.

O quadro teórico aqui constituído parece ser feito de vários pedaços, verdadeira “colcha

de retalhos”. Apesar de diverso, traz pontos de contato que, nesta pesquisa, se dão por meio do eixo central em torno das teorias sobre a linguagem e seus desdobramentos. As leituras realizadas para as disciplinas cursadas no cumprimento dos créditos foram de extrema importância para problematizar posturas, deslocar crenças e, sobretudo, levar à reflexão crítica a partir do confronto e contraste das mais variadas posições e correntes teóricas apresentadas nos diversos livros lidos. De certa forma, a proposta de articulação teórica na seqüência em que é aqui apresentada representa a própria seqüência de leituras (senão cronológica, ao menos com respeito a sua assimilação). Claro que os caminhos bibliográficos não são tão ordenados

ao serem lidos (no próprio curso das leituras) como quando são articulados em texto, posteriormente. Diria mesmo que o processo de leitura crítica da bibliografia faz-se no próprio andar das leituras, ou seja: é como um caminho circular, em que, ao chegar ao que se chama de “final” está-se, de fato, voltando novamente para o começo, e só depois de percorrer tal caminho várias vezes é que se pode estabelecer relações entre os textos, ou uma ordem operacional para o trabalho de pesquisa.

39

Essa leitura circular assemelha-se a uma espiral, em que o local tocado não é nunca exatamente o mesmo, apesar de apresentar alguns pontos de contato. Dessa forma, além das relações estabelecidas entre livros (muitas vezes, apenas após ler um outro é que o

alguns foram lidos e relidos diversas vezes, cada

leitura apresentado uma nova – e sempre desafiadora – surpresa.

primeiro passava a fazer sentido

),

40

capítulo 1

1. jornalismo: a ilusão do real

“Both nation and society are social constructs which, for all practical purposes, do not exist until someone acts or speaks for them.” Herbert Gans, Deciding what’s news

O jornalismo organiza-se a partir de regras estabelecidas. Desde a seleção das matérias e

sua redação, até a definição da organização interna das páginas e da distribuição das matérias nas mesmas, há uma série de fatores que determinam seu fazer. Tais fatores não são aleatórios, mas dependem de determinações internas ao próprio fazer jornalístico.

Em geral, busca-se, no jornalismo, construir narrativas impessoais e objetivas, nas quais

o narrador não se coloque como aquele que relata determinado fato. A objetividade, a

neutralidade, o distanciamento, a negação de opiniões ou posicionamentos políticos, a exclusão de ideologias são alguns dos ideais buscados pela imprensa. A eles, soma-se o

critério de seleção de notícias por sua atualidade, disponibilidade e conveniência e tem-se

o quadro correspondente ao jornalismo contemporâneo.

Entretanto, tal estrutura mostra-se uma falácia desde suas bases. A começar pela busca da objetividade do jornalista, até a crença no fato de que as notícias a serem relatadas são também escolhidas a partir de fatores objetivos, vê-se que a questão da inclusão de fatores não tão objetivos não pode ser negligenciada. Afinal, os profissionais dos media em geral, e o jornalista em particular, enquanto sujeitos falantes, são os organizadores das notícias que relatam. Não há, portanto, a possibilidade de que se relate objetivamente o fato porque os “fatos” não existem como entidades autônomas, esperando que o jornalista vá até eles para “revelá-los”. Os fatos, assim como aquilo que normalmente é chamado de “real”, são construídos na linguagem, e os mecanismos de tal operação não são, de forma alguma, mecânicos.

41

É a própria constituição do humano enquanto tal, e sua complexidade, que torna impossível falar-se de “objetividade jornalística”. Ao afirmar isso, não se quer, simplesmente, opor a objetividade à subjetividade tida como inerente ao ser humano. Mais do que considerar apenas os valores de cada sujeito, suas opiniões conscientes ou inconscientes, sua vulnerabilidade para mudar tais opiniões, seus julgamentos acerca da realidade, trata-se, sobretudo, de indicar que há sempre algo que escapa a essa suposta divisão racional/irracional, objetivo/subjetivo, consciente/inconsciente. Pensado assim, o jornalismo não pode se pautar pela crença de que existe uma realidade a ser retratada e uma verdade a ser revelada àqueles que não a estão vendo. Talvez as grandes contradições do jornalismo possam ser creditadas a essa crença, ingênua, que ainda parece fundamentá-lo. Herbert Gans, no livro Deciding what’s news, afirma ser ilusória a idéia de que a tarefa primordial dos jornalistas seja “informar o público”. Ao contrário, a eles atribui algo muito mais abrangente:

Instead, I would argue that the primary purpose of the news derives from the journalists’ functions as constructors of nation and society, and as managers of the symbolic arena. The most important purpose of the news, therefore, is to provide the symbolic arena, and the citizenry, with comprehensive and representative images (or constructs) for nation and society (Gans, 1980: 312).

Visto dessa forma, o papel do jornalista – e dos próprios media – torna-se irrelevante em relação à questão da objetividade ou não das notícias e de quem as relata e seleciona, já que quanto mais abrangentes e variadas elas forem, mais enriquecerão a construção da arena simbólica em que se inserem. A definição proposta por Schudson de considerar as notícias não como simples informação de fatos, mas como produtos culturais, reforça a definição de Gans sobre o papel dos jornalistas: “The difference is not only that the journalist has the opportunity, indeed the professional obligation, to frame the message. It is also that the newspaper story or television broadcast transforms an event or statement into the cultural form called news” (Schudson, 1995: 27). Nessa perspectiva, a

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informação não seria o que de mais importante há nos jornais, mas sim as notícias, vistas como produtos culturais e geradoras de conhecimento público. Nos limites deste trabalho, à medida que forem sendo apresentadas as concepções teóricas que o norteiam, buscar-se-á romper com as definições simplistas muitas vezes norteadoras da reflexão sobre o fazer jornalístico. Os pressupostos do jornalismo e a própria produção de jornais impressos, cujos textos constituirão o corpus desta pesquisa, são envolvidos por questões muito mais complexas do que aquelas geralmente discutidas. Ao introduzir o tema do jornalismo e as razões que justificam sua escolha como objeto privilegiado para tratar do tema da Aids, serão apresentadas algumas concepções que tentam colocá-lo não apenas como um fazer objetivo dotado de regras de funcionamento próprio mas como uma instituição simbólica determinada por fatores diversos, externos e internos a ela. Uma primeira mudança será proposta ao introduzir o jornalismo como sendo organizado a partir de uma estrutura narrativa, a mesma que organiza os relatos de ficção da literatura. Convém apontar, ainda que brevemente, as principais características dessa estrutura narrativa (o que será feito no tópico seguinte, a estrutura narrativa da notícia) naquilo que pode ser pensado em relação ao jornalismo para, finalmente, efetuar um deslocamento mais significativo: tratar do jornalismo não como um produto da organização social mas, sobretudo, como algo instituído pela organização de cadeias discursivas na linguagem. Afinal, todo discurso é interligado. As palavras que o constituem estão ancoradas em um ponto que determina o ponto de vista da construção discursiva. O lugar a partir do qual o jornalista fala determina, portanto, aquilo que ele fala. Um dos aspectos considerados de extrema importância ao discutir o jornalismo são as relações atuais entre os conceitos de público e de privado. Se considerado em seus fundamentos, o jornalismo “torna público aquilo que é de interesse público”. Entretanto, torna-se cada vez mais difícil determinar e esclarecer os limites entre o que seja público e o que seja privado. Daí as constantes acusações e processos contra os media (há, inclusive, uma matéria deste corpus que trata disto), demonstrando que, muitas vezes, seus profissionais não têm limites para definir tal distinção. Perguntar sobre como um

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assunto chega a ser notícia – como passa a ser incluído no discurso dos media – talvez possa fornecer algumas indicações para tratar essa questão. Um dos fascínios exercidos pela atividade jornalística é justamente essa possibilidade de tornar público e amplamente conhecido aquilo que é privado, pertencente a uma esfera pequena. Se o jornalista fosse movido por sua função de “construtor do discurso público”, possibilitando que cada pessoa pudesse articular os discursos da realidade em que vive, talvez pudesse realizar de forma mais satisfatória a tarefa a que se propõe. O efeito de um discurso é o deslocamento do que está arranjado para organizá-lo de outra forma. Possibilitando tal deslocamento às pessoas, o jornalismo estaria se pautando por uma lógica diferente daquela implicada na simples transmissão mecânica de informações, transmissão esta que, além de tudo, pretende-se objetiva. Formar um discurso é dar sentido àquilo que está disperso socialmente. Essa poderia ser

a intervenção social possível do jornalista, sua forma de interferir na realidade, e não a pretensão muitas vezes alardeada de que vai julgar o mundo e resolver seus problemas.

A

realidade se constrói por meio do discurso, e é por isso que se pode afirmar que não

realidade pré-discursiva, pois

cada realidade se funda e se define a partir de um discurso. A realidade é o discurso. Inclui-se aí tudo, menos um: esse menos um, aquilo que falta, é o que chamamos de real. De onde a diferença entre o real e a realidade: o real está na Linguagem como faltante e a realidade está na linguagem (e não há outro lugar) como articulação discursiva, como discurso. Mas os discursos e, portanto, as realidades que fundam e definem, não são quaisquer: são articulações (relações) determinadas, estruturam o mundo histórico-social e são por eles estruturadas. Além disso, são passíveis de transformações e têm funções (Freitas, 1997) 2 .

2 Texto apresentado como nota introdutória ao curso “Jornalismo, política e ideologia”, ministrado pela profa. dra. Jeanne Marie Machado de Freitas no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP, no segundo semestre de 1997.

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É este o princípio que sustenta este trabalho, e a distinção real/realidade colocar-se-á como primordial em diversos momentos. Dessa forma, ao organizar a realidade por meio do discurso, dotando-a de sentido, o jornalista interfere naquilo que de “mais real” possa existir – a realidade discursiva, o limite do “real possível”, já que, ao real (como definido acima), não se poderá nunca ter acesso, pois ele sempre falta. Organizando-a de outro modo, o jornalista modifica a realidade ao construí-la discursivamente. Os atuais profissionais dos media, quer sejam jornalistas ou não, trabalham sobre discursos instituídos, tomando-os como se fossem o real, e não a realidade. Mas se considerados como construtores da realidade discursiva, os media reassumem seu sentido de mediação e deixam de ser um mero meio técnico de produção e reprodução de mensagens. O discurso coloca algo que estava fora da realidade discursiva em sua organização, incluindo-o. Pode-se dizer mesmo, seguindo Lacan, que o real é esse algo que está fora e insiste, mas não consiste naquilo que se institui nessa realidade discursiva. Para que algo possa chegar ao discurso público e ser passível de criar laço social (ou seja, de possibilitar que uns se comuniquem com os outros), deve sair do anonimato e tornar-se narrativa, criando expectativas e, assim, possibilitando que “algo aconteça”. Essas expectativas são criadas no leitor, que inclui a suposta informação recebida no aparato técnico chamado narrativa, para expandi-la e criar espaços de memória, construindo a própria sociedade em que vive. Os diversos temas apresentados pelos jornais, entre eles a Aids, se recolocados em sua estrutura narrativa individual podem formar, cada um deles, pequenas narrativas que vão se constituindo a cada nova notícia publicada. Nesse sentido, um outro fator importante a ser destacado é que, ao contrário do que se propaga, o jornalismo não está ligado à busca do “novo todo dia”, mas a algo que se repete e, ao se repetir, torna-se uma referência permanente àquilo que faz o comum de todos. As notícias interessantes não são aquelas absolutamente novas, mas as que repetem alguma coisa e, portanto, articulam-se a uma expectativa, dando continuidade à grande narrativa que vem sendo escrita. Assim, não é um assunto específico que se repete (ou as notícias seriam, literalmente, as mesmas), mas grandes temas, como o tema da Aids. Essa redundância indica que algo insiste na cadeia discursiva e não consegue se inscrever no

45

discurso e nas formas culturais, repetindo-se ainda. Portanto, é dessa redundância, desse “algo ainda não inscrito”, que surge a possibilidade de mudança, ao sinalizar que algo novo está nascendo, está tentando se inscrever no discurso. As características dessa estrutura narrativa, constituinte dos textos jornalísticos, são apresentadas a seguir.

1.1. a estrutura narrativa da notícia

No percurso teórico traçado nesta pesquisa, as discussões sobre questões mais específicas das ciências da linguagem iniciam-se na semiótica narrativa. Tal escolha se deve ao fato de o jornalismo estar sendo aqui considerado como possuidor de uma estrutura narrativa por excelência, sendo ela o local privilegiado para identificar a articulação da cadeia discursiva. A semiótica narrativa oferece alguns elementos que possibilitam a operacionalização dos conceitos para estabelecer uma metodologia específica na leitura dos textos jornalísticos. Além disso, essa teoria será tratada em primeiro lugar por apresentar conceitos básicos necessários ao entendimento posterior das demais teorias. Por ser aqui reconhecida como a estrutura mesma do jornalismo – e, portanto, das notícias –, num primeiro momento são apresentados os principais conceitos envolvidos nesta teoria para, em seguida, destacar aqueles que têm maior relevância nos limites deste trabalho. A análise das construções discursivas do jornal enquanto uma narrativa fundamenta-se nos conceitos da teoria da narrativa e do discurso conforme proposta originalmente por V. Propp, ampliada por A. J. Greimas, e rearticulada em uma teoria semiótica do texto. Barros afirma:

A sintaxe narrativa deve ser pensada como um espetáculo que simula o fazer do homem que transforma o mundo. Para entender a organização da narrativa de um texto, é preciso, portanto, descrever o espetáculo, determinar seus participantes e o papel que representam na historiazinha simulada (Barros, 1994: 16).

46

O esquema básico da narrativa supõe, portanto, um destinador-manipulador (que “faz-

fazer”) e um destinatário (que deve “querer fazer” ou “poder fazer”), este último cumpridor de um programa de ação proposto pelo destinador e que, após terminado, implica em uma sanção, que pode ser positiva ou negativa. O que move a narrativa é a existência de um dano, uma perda, uma ausência a ser reparada. Nesse sentido, a questão da Aids é exemplar. Ao ser caracterizada enquanto doença mortal, é algo que deve ser curado, portanto, algo carregado de negatividade, um dano a ser reparado por meio da realização de um percurso narrativo no qual, ao final, será dada uma recompensa (a vacina ou a cura) ou um castigo (o contágio e a morte). É interessante observar que, no caso da Aids, esse percurso não foi concluído, já que não

houve ainda o esperado reparo ao dano. No sentido de tornar mais clara essa proposição, tratar-se-á de apresentar, de forma sintética, como se organizaram os princípios da semiótica e, em seguida, de esclarecer alguns de seus conceitos-chaves. As raízes da semiótica situam-se no estruturalismo, e podem ser identificadas pelo menos três de suas origens básicas: a lingüística, através da semântica estrutural; o formalismo russo; a antropologia, principalmente em Lévi-Strauss. Da semântica estrutural, além de Saussure, é herdeira de Hjelmslev, trabalhando com dois princípios básicos: a) a questão da relação, tomando-a como base da significação e trabalhando com sistemas e processos de significação e não com signos, já que não parte de unidades para relacioná- las mas sim da própria relação. Ou seja: não está em busca de unidades, mas de relações que significam, sendo as unidades resultantes dessas relações; b) a questão da separação entre expressão e conteúdo, buscando, assim, examinar o conteúdo sem examinar o plano da expressão. Tal separação, vale ressaltar, é de caráter metodológico, procurando examinar o conteúdo fazendo abstração da expressão, e vice-versa. Nesse sentido, a teoria semiótica procura mostrar como se constrói a significação ou o plano de conteúdo dos textos. Dos formalistas russos, a semiótica herdou a noção de que os textos têm uma organização sintagmática invariante. Dessa forma, todos eles apresentam uma organização narrativa. Ainda que não tratando dos mesmos elementos, mas elevando-os

a um grau mais alto de abstração ao falar de “enunciados” e não de “funções”, a

47

semiótica manteve as idéias básicas dos formalistas. Realizou, porém, mudanças em diversos níveis, como por exemplo a modalização da sintaxe narrativa, que passa a tratar não apenas da ação realizada pelo sujeito (como nos estudos de Propp, o qual, mesmo não pertencendo ao grupo dos formalistas, tem com eles pontos em comum) mas também de questões cognitivas entre sujeitos para construção de significados de textos diversos.

A organização paradigmática do sentido foi buscada na antropologia, diferenciando a

organização narrativa (existente em qualquer texto) da narração (forma de contar o texto), entendendo a significação como uma “rede de relações”:

coube à antropologia, de visão estrutural, desenvolver as pesquisas

taxionômicas, como por exemplo a descrição das terminologias do parentesco. A elaboração metodológica das etnotaxionomias e as análises paradigmáticas, de Lévi-Strauss sobretudo, procuraram explicar as regularidades estruturais subjacentes e são comparáveis ao modelo lógico- conceptual constituído por Greimas para a representação das estruturas profundas (Barros, 1988: 11).

) (

O texto pode ser, portanto, definido como “um todo que significa”. Nesse sentido, a

semiótica seria uma teoria que procura explicar o sentido ou os sentidos do texto examinando, em primeiro lugar, seu plano do conteúdo. Para realizar tal propósito, “concebe seu plano do conteúdo sob a forma de um percurso gerativo” (Barros, 1994:

8). Dessa forma, define-se como uma teoria dos sistemas e processos de significação no plano do conteúdo. Assim, as rupturas da frase para o texto, do enunciado para a

enunciação, constituem-se como preocupações da semiótica.

O percurso gerativo de significação concebido a partir da semiótica greimasiana é

constituído por três etapas, cada uma delas possuidora de uma gramática própria, a

saber:

48

(

)

a primeira etapa do percurso, a mais simples e abstrata, recebe o

nome de nível fundamental ou das estruturas fundamentais, e nele surge a significação como uma oposição semântica mínima;

no segundo patamar, denominado nível narrativo ou das estruturas

narrativas, organiza-se a narrativa, do ponto de vista de um sujeito;

o terceiro nível é o do discurso ou das estruturas discursivas em que a

narrativa é assumida pelo sujeito da enunciação (Barros, 1994: 9).

) (

) (

Ao analisar um texto a partir de seu percurso gerativo e suas etapas, diversos elementos devem ser considerados separadamente. Sabe-se que, no texto, tais elementos não se encontram colocados de forma isolada, muitas vezes confundindo-se entre os níveis. Entretanto, para fins didáticos, faz-se uma apresentação sucinta das etapas envolvidas em cada um dos níveis. No nível das estruturas fundamentais, o mais simples e abstrato, trata-se de determinar a oposição ou as oposições semânticas a partir das quais se constrói o sentido do texto. Por meio da leitura do texto, podem ser identificadas as diversas manifestações dessa oposição básica (por exemplo, vida x morte) em diferentes momentos. Após serem identificadas, essas categorias fundamentais são classificadas como positivas ou eufóricas e negativas ou disfóricas. A categoria “vida”, por exemplo, pode apresentar- se, em oposição à categoria “morte”, como eufórica em um texto e disfórica em outro, dependendo da forma como é caracterizada. Ainda no nível das estruturas fundamentais estabelece-se um percurso entre os termos opostos, que apresenta desdobramentos da oposição básica. No exemplo vida/morte, esse percurso indica se o desenvolvimento do texto vai da vida para a morte, podendo variar também como não-vida e não-morte, ou vice-versa. Nesse momento, negam-se ou afirmam-se determinados valores. No nível das estruturas narrativas, “os elementos das oposições semânticas fundamentais são assumidos como valores por um sujeito e circulam entre sujeitos, graças à ação também de sujeitos” (Barros, 1994: 11). Não se trata mais de afirmar ou negar conteúdos, de estabelecer entre eles um percurso e caracterizá-los como positivos ou negativos, mas de transformar estados pela ação de um sujeito – que é levado a agir a

49

partir da manipulação realizada por um outro sujeito. No exemplo vida/morte, seria transformar, pela ação do sujeito, o estado de vida ou de morte em outra coisa.

O sujeito da manipulação (destinador-manipulador do discurso) oferece ao sujeito da

ação valores que julga desejáveis a este. O sujeito da ação deve responder a essa manipulação e cumprir sua parte no acordo para receber os valores prometidos. Assim, um destinador deve “fazer-fazer” um destinatário desempenhar determinada performance. Ao final de seu percurso, o sujeito da ação passa por uma sanção, que

estabelece se o programa foi adequadamente cumprido. Em caso afirmativo, é recompensado, recebendo o valor prometido (como nos contos de fada, por exemplo, nos quais o príncipe, após cumprir uma série de tarefas ordenadas pelo rei, recebe sua filha em casamento). Em caso negativo, o sujeito da ação é punido.

É interessante destacar, nesse momento, o caráter polêmico da narrativa, já que nela

podem ser opostos valores contraditórios e podem também ser desempenhados papéis contraditórios pelo sujeito. Um exemplo (entre outros possíveis) é que, no momento da sanção, o sujeito que julga (destinador-julgador do discurso) pode não cumprir seu contrato, ou seja: mesmo reconhecendo que o sujeito da ação desempenhou satisfatoriamente sua performance, pode desistir de lhe entregar o valor prometido, quebrando, assim, o contrato estabelecido. Finalmente, na última etapa do percurso gerativo “as estruturas discursivas devem ser examinadas do ponto de vista das relações que se instauram entre a instância da enunciação, responsável pela produção e pela comunicação do discurso, e o texto-

enunciado” (Barros, 1994: 11). Dependendo dos recursos discursivos utilizados, produz-

se a ilusão de verdade. Por exemplo, ao projetar um narrador em “eu” (aproximando-o

do “aqui-agora”), obtém-se o efeito de subjetividade ou proximidade; se o narrador for projetado em “ele”, o efeito é de objetividade ou distanciamento (caso, por exemplo, da maioria dos textos jornalísticos, que utilizam, além disso, as categorias do “lá-então”, o que poderá ser visto na análise das matérias). Ao delegar palavra ao sujeito da manipulação (o que “faz-fazer”), tem-se ilusão de realidade ou referente por meio da sintaxe discursiva; ao ancorar o texto em indicadores externos (datas, nomes, locais reconhecidos como existentes), tal ilusão é criada por meio de recursos da semântica discursiva.

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Ainda no nível discursivo, as oposições fundamentais do primeiro nível, assumidas depois como valores narrativos, desenvolvem-se sob a forma de temas que podem ser revestidos por figuras. Os conteúdos mais abstratos dos temas realizam os valores propostos como objetos a serem alcançados, e as figuras podem revesti-los de conteúdos mais concretos, remetendo-os ao mundo natural. O nível discursivo é o patamar mais próximo da manifestação textual, portanto, mais complexo do ponto de vista semântico. Ao serem assumidas pelo sujeito da enunciação, as estruturas narrativas convertem-se em estruturas discursivas:

O sujeito da enunciação faz uma série de “escolhas”, de pessoa, de tempo, de espaço, de figuras, e “conta” ou passa a narrativa, transformando-a em discurso. O discurso nada mais é, portanto, que a narrativa “enriquecida” por todas essas opções do sujeito da enunciação, que marcam os diferentes modos pelos quais a enunciação se relaciona com o discurso que enuncia (Barros, 1994: 53).

Assim, o nível discursivo opera com os mesmos elementos do nível narrativo. Entretanto, amplia-os, passando a considerar aspectos que eventualmente tenham sido deixados de lado na análise das estruturas narrativas. No nível narrativo, o percurso se dá entre sujeitos. No nível discursivo, o enunciador e o enunciatário, desdobramentos do sujeito da enunciação, cumprem os papéis de destinador e de destinatário do discurso. O enunciador é definido como o destinador-manipulador, responsável pelos valores do discurso. Ao exercer uma ação persuasiva sobre o enunciatário, pode levá-lo a “crer” e/ou a “fazer”. Ao tratar do jornalismo como sendo ele também estruturado como uma narrativa, outras abordagens, além daquelas ligadas aos conceitos da semiótica narrativa acima expostos, fazem-se necessárias enquanto suporte metodológico e teórico. A divisão em níveis, por exemplo, não parece satisfazer as especificidades próprias da narrativa jornalística, por serem estes apresentados como partes estanques e hierárquicas. Além disso, apenas alguns dos elementos da análise semiótica podem ser identificados como constituintes dos textos jornalísticos. Neste trabalho, utiliza-se principalmente os conceitos referentes

51

ao nível das estruturas narrativas como metodologia para as primeiras leituras e análise

do corpus.

A organização da semiótica narrativa é interessante para um primeiro contato com o

objeto de estudo aqui proposto. Entretanto, por apresentar os limites acima apontados, faz-se necessário buscar, em outras fontes, contribuições teóricas que possam concorrer para a caracterização da relação jornalismo-narrativa, ou da narrativa jornalística. Essas contribuições se somam àquelas advindas da semiótica narrativa, e são tratadas a seguir.

1.2. para além da semiótica narrativa

Como uma primeira tentativa de buscar elementos para além da semiótica narrativa greimasiana, introduzem-se aqui as contribuições de J.-F. Lyotard sobre a questão da narrativa por acreditar-se que nelas há um avanço e uma reordenação da teoria semiótica. Além disso, o pensamento de Lyotard, da forma como se constitui, indica algumas das limitações dessa teoria. No texto “Pragmática do saber narrativo”, este autor estabelece uma diferença entre saber e conhecer e contrapõe dois tipos de saberes:

o científico e o narrativo. Antes de apresentar a definição de cada um deles, ele conceitua

as noções de saber, conhecimento e ciência:

O saber em geral não se reduz à ciência, nem mesmo ao conhecimento. O conhecimento seria o conjunto dos enunciados susceptíveis de serem declarados verdadeiros ou falsos, que denotam ou descrevem objetos, com exclusão de todos os outros enunciados. A ciência seria um subconjunto do conhecimento. Constituída também de enunciados denotativos, a ciência tem de impor duas condições suplementares para a sua aceitabilidade: que os objetos a que se referem sejam acessíveis recursivamente, portanto, em condições de observação explícita; que se possa decidir se cada um destes enunciados pertence ou não à linguagem considerada como pertinente pelos peritos. Mas, pelo termo saber não se entende somente, longe disso, um conjunto de enunciados denotativos, misturando-se nele as idéias de saber fazer, de

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saber viver, de saber escutar etc. (

)

Daí resulta um de seus principais

traços: ele coincide com uma “formação” extensiva das competências, sendo a forma única encarnada num sujeito composto pelos diversos

gêneros de competência que o constituem (Lyotard, 1989: 47).

O termo saber implica, portanto uma competência que vai além da determinação e da aplicação de um simples critério de verdade e do estabelecimento de critérios de eficiência (qualificação técnica), de justiça e/ou de felicidade (sabedoria ética), de beleza, envolvendo uma competência que, longe de ser meramente técnica, pode ser chamada de geral. De acordo com Lyotard, no interior dos relatos atuais, incluindo os relatos jornalísticos, há dois tipos de saber: o saber científico e o saber narrativo. O saber científico, “concepção pragmática do saber atual”, tem na argumentação e na prova as bases fundamentais para sua sustentação. Nele, o narrador precisa provar, por meio de seu próprio procedimento, que o conhecimento por ele transmitido é a verdade. O saber narrativo, por sua vez, é definido como “o conjunto de regras pragmáticas que constitui o vínculo social”. Nele, o narrador se autolegitima pelas formas de narrar da própria estrutura narrativa. Ou seja, para demonstrar que o que fala é verdade, não é necessário que use de argumentação nem de prova (ao contrário do saber científico). Tanto o saber narrativo como o saber científico são legitimados por meio de um “jogo de linguagem”, que envolve suas regras de funcionamento e operação, dando autoridade e finalidade para esses tipos de saber se expressarem. Mais do que isso, a linguagem seria, com o estabelecimento desse “jogo” e da possibilidade de expressão, o lugar da troca social e do conhecimento modernizante. Em Lyotard, como em Lacan, a linguagem apresenta-se como fundante do humano. Lacan afirma em seus Escritos que a “linguagem em ato” transita sob “dois discursos”: o do “sujeito do consciente”, que fala, opina e demonstra a verdade do conhecimento, e o do “sujeito do inconsciente”, que revela nos seus lapsos, esquecimentos e erros a estrutura das regras de um saber que só vem à tona nos procedimentos do próprio sujeito falante. O saber do inconsciente equivaleria aos significantes da linguagem, que vão se encadeando – como numa cadeia formada por elos ligados uns aos outros – e

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dando significados aos modos de ser e de falar dos sujeitos. Essa cadeia de significantes entrelaça-se de forma radical: ao puxar um dos elos, todos os demais se soltam. As narrativas jornalísticas apresentam, portanto, discursos ambíguos na medida em que são sustentadas por esses dois saberes: o científico e o narrativo. Por um lado, ao descrever os fatos reais e tentar ancorá-los na estrutura narrativa por meio de recursos discursivos próprios de embreagem e desembreagem (colocação de nomes, datas, locais, idades, entre outros), estabelecem-se como conhecimento científico, buscando provas e argumentos para sua fundamentação. Por outro lado, ao utilizar as regras narrativas como formadoras de vínculos sociais que legitimam, por elas mesmas, a narrativa, estabelecem-se enquanto um saber narrativo que procura legitimar o próprio desempenho. Quéré apresenta de forma sintética essa definição:

L’information est une science-fiction. Non pas au sens habituel de cette expression, qui désigne des oeuvres d’imagination scientifique décrivant un état futur du monde. Mais en ceci que lui est sous-jacente une structure mixte, combinant ces deux composantes fondamentales: science et fiction, constat e simulation, relevé de faits et récit (Quéré, 1982: 157).

Por um lado, a informação jornalística tem um regime de verdade semelhante ao da ciência; por outro, dela se distingue pela ficção, inerente à forma narrativa. Dessa estrutura mista, resulta que a verossimilhança é condição para sua credibilidade. O texto jornalístico, além de apresentar-se como coerente, deve mover-se no domínio do verossímil, e não do verdadeiro. Os enunciados apresentados não precisam ser verdadeiros, mas devem ter aparência de verdade. Dessa ilusão referencial depende sua credibilidade. Por não poder assegurar a seu leitor (ou destinatário) que suas informações são verdadeiras (já que não podem por ele ser verificadas ou checadas), a narrativa jornalística compensa essa fraqueza utilizando as diversas possibilidades do relato ficcional. A estratégia do narrador está em tornar o enunciado capaz de produzir sentido, aliando os esquemas da opinião comum a referentes e destinatários, encerrando-os num espaço perspectivo: o espaço simbólico.

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As narrativas jornalísticas, portanto, não podem ser consideradas como meras descrições de acontecimentos ou processos. Ao contrário, não apenas os jornais, mas os media em geral, retiram fragmentos desses acontecimentos e processos, encenando-os e introduzindo-os em esquemas pré-construídos, dotando-os de coerência e instituindo, com essa construção, a realidade. O jornalismo assim considerado é possuidor de um estatuto simbólico. Nessa perspectiva,

l’information narrative n’intervient jamais comme une force mécanique agissant de l’extérieur sur les opinions, les attitudes, les comportements. Elle opère symboliquement en introduisant de manière insidieuse son récepteur dans de jeu des simulations qui instituent le réel et produisent le social comme espace perspectif (Quéré, 1982: 173).

Ao instituir a realidade, o jornalismo passa a ser considerado como uma instituição

fundadora do espaço social. Nas narrativas jornalísticas, o narrador se apaga em seu relato para deixar falar uma suposta “realidade dos fatos”. Algumas vezes, o “jornalista- narrador” chega mesmo a trocar de lugar com seu referente e seu “leitor-destinatário”. Isso não equivale a dizer que haja uma separação entre o espaço social e o espaço simbólico, mas, ao contrário, indica a forma de operação simbólica dos media em geral:

c’est précisément cette simulation généralisèe qui, actualisée par l’activité narrative

constituant l’information, crée l’espace perspectif où se réalise l’assujetissement, circonscrit le champ où viennent se former les pratiques sociales” (Quéré, 1982: 160). Considerar o jornalismo como sendo construído fundamentalmente a partir das regras de operação e funcionamento das estruturas narrativas já começa por deslocá-lo do campo teórico das ciências sociais, em que tem sido geralmente colocado. Se está sendo deslocado de um lugar, é necessário indicar em qual “outro lugar” pretende-se alocá-lo. É o que se faz a seguir, apresentando as teorias que vieram a configurar as chamadas ciências da linguagem, lugar no qual se insere o jornalismo nos limites desta pesquisa.

“(

)

55

capítulo 2

2. as ciências da linguagem

“A nuvem da linguagem faz escrita.” Jacques Lacan, Encore

Este trabalho norteia-se pelos pressupostos do jornalismo visto como uma atividade que desenvolve um fazer específico, articulando nas suas modalidades discursivas as narrativas que, de um modo ou de outro, orientam as crenças e as expectativas possíveis na sociedade. Assim, utilizando os conceitos da teoria narrativa, a notícia não é tratada aqui como simples informação, devendo obedecer aos princípios de objetividade, imparcialidade, neutralidade. Antes, é vista como um “produto cultural” e uma narrativa, implicando a existência de um “jornalista-narrador” que conta histórias a um suposto “leitor- destinatário”, este último com expectativas sobre o desdobramento destas histórias lidas no jornal, esperando, ao folheá-lo, nele encontrar a continuação das narrativas traçadas, conceitos já explicitados anteriormente. A Aids, doença relativamente nova no cenário médico tendo em vista a data em que foi isolado pela primeira vez seu vírus causador (1983), não é narrada desde sempre pelos jornais. Para localizar o momento em que passa a fazer parte do discurso público instituído pelo jornalismo é preciso levar em consideração o como um assunto ou tema torna-se de domínio público. Em outras palavras, se o jornalismo for considerado como a instância que deve “tornar público o que pertence ao público”, como já foi dito anteriormente, cabe perguntar em que momento a Aids passou a ser considerada como parte deste discurso público. Mesmo que a Aids tenha tido durante um certo tempo um lugar no discurso médico, ela

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só passou a se integrar ao domínio público a partir da sua inserção no discurso articulado pelos media. Note-se que o termo discurso público já indica um primeiro deslocamento: deslocar o jornalismo da área das ciências sociais e recolocá-lo no âmbito das ciências da linguagem, referencial teórico no qual se insere este trabalho. A partir das teorias constituintes das ciências da linguagem (a teoria lingüística conforme proposta por F. de Saussure, a semiótica narrativa a partir de A. J. Greimas, a etnologia em C. Lévi-Strauss, e a psicanálise freudiana, na releitura de J. Lacan), a leitura dos textos jornalísticos foi deslocada da área das ciências sociais para a área de confluência das correntes teóricas voltadas para a linguagem. As ciências da linguagem, assim colocadas, supõem um campo que integra uma vasta gama de teorias e de outras ciências. Saussure já havia antecipado que, “tomada no seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita” (Saussure, 1970: 17). Daí se falar em ciências, no plural, sendo também plural o leque de conceitos aqui explicitados: “Pela complexidade e pela diversidade dos problemas que levanta, a linguagem tem necessidade da análise da filosofia, da antropologia, da psicanálise, da sociologia, sem falar das diferentes disciplinas lingüísticas” (Kristeva, 1974: 20), o que leva Kristeva a afirmar que a linguagem será, sempre, uma desconhecida. Realizar tal deslocamento, portanto, significa recuperar uma série de conceitos advindos dessas várias ciências. Assim, deve-se resgatar toda a tradição antropológica inaugurada por Lévi-Strauss ao afirmar que o que há de comum e de fundante em todas as sociedades humanas é a ordem simbólica: é a partir daí que se instaura o humano, a humanidade. Essa instauração deixa um resto. É a este resto que Freud chama de inconsciente, “parte inconquistável da natureza humana”. De um certo modo, pode-se dizer que as ciências da linguagem integram o conceito de inconsciente na sua ordenação. Porém, o inconsciente se integra nessa ordenação por meio da leitura retroativa do conceito de signo de Saussure em sua articulação significado/significante. Da mesma forma, ao tentar traçar a narrativa que a Aids vem construindo pelos escritos do jornal (entendendo o jornalismo como uma instituição social e, portanto, produzido no e pelo discurso, como já foi visto) não se pode negligenciar a lingüística proposta por Saussure em sua concepção do signo como sendo composto por duas partes, o

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significante e o significado, e a linguagem como uma articulação entre língua e fala. Do mesmo modo, as contribuições de J. Kristeva sobre a linguagem em seu livro História da linguagem, bem como de E. Benveniste (enunciado/enunciação) e R. Jakobson (metáfora/metonímia) são necessárias para o trabalho. Na verdade, porém, é a teoria da linguagem elaborada por J. Lacan que, absorvendo e reelaborando as contribuições da lingüística e da antropologia, pode fornecer o aporte teórico para a pesquisa. Interessa aqui, sobretudo, a questão do sujeito pensado como

uma topologia, ou seja, uma articulação entre três topoi (ou lugares): o real, o simbólico

e o imaginário.

A fim de melhor compreender a radicalidade do deslocamento proposto e esclarecer os

conceitos nos quais este trabalho está fundamentado, são expostos, a seguir, os elementos teóricos que vieram a configurar as ciências da linguagem.

2.1. jornalismo: das ciências sociais às ciências da linguagem

Tradicionalmente, os estudos da comunicação têm se colocado na linha das pesquisas norte-americanas, com seus estudos quantitativos e positivistas, ou das pesquisas

européias, na linha da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Além delas, uma linha de pesquisa mais recente tratou de abordar a comunicação não a partir dos produtos e dos meios mas dos chamados “receptores”. O que todas essas linhas teóricas têm em comum

é o fato de estarem baseadas na representação clássica do esquema da comunicação:

emissor – mensagem – receptor. Esse esquema tem como pressuposto a representação do que considera como sendo o

“real” (enquanto “realidade”, para ser coerente com os termos propostos neste trabalho), entendendo mundo e língua como uma representação na qual a língua simboliza o mundo. A teoria da representação considera que mundo e linguagem são duas ordens distintas, separadas e independentes, em que a linguagem representaria e simbolizaria o mundo existente fora dela.

A partir da descoberta freudiana do inconsciente, é necessário considerar esse “a mais”,

situado para além da representação, do visível, do previsível. Para Freud, o inconsciente

é o que faz do humano um humano, e isso se refere ao fato de não representar uma mera

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oposição ao consciente, pois é algo que o transcende e está presente em todos os atos humanos. O próprio “consciente” está, assim, mergulhado nas tramas do inconsciente. No texto “O mal estar na civilização”, Freud busca transportar para a esfera da sociedade – e para outras ciências – aquilo que havia descoberto como constituinte do cada um: o inconsciente. Quer entender sua descoberta como sendo constituinte do cada um em termos da sociedade como um todo. Um mito – o mito do pai primitivo – é contado como “mito do princípio”. Origem de todos os humanos e fundador da sociedade, este mito lança a possibilidade de conciliação da vida mental do homem com as criações da vida social. De forma sintética, trata-se do seguinte:

Teria havido uma horda primitiva comandada por um violento e feroz pai

que mantinha as mulheres para si e expulsava os filhos, quando esses se tornavam adultos. Um dia, os irmãos tiveram coragem de fazer o que não fariam individualmente. Mas o pai violento era o modelo que os irmãos invejavam e, devorando-o, identificaram-se com ele, cada um retirando

uma porção de sua força (

apaziguou-se e o amor, que durante todo esse tempo esteve soterrado, emerge sob a forma de remorso. O sentimento de culpabilidade, coincidente com o remorso, aparece, pois afinal odiavam o pai porque este representava o obstáculo ao poder e aos desejos sexuais, mas também o amavam e o admiravam (Freitas, 1992b: 19).

)

Após a cerimônia de identificação, o ódio

Ao mostrar que a sociedade nasce na repressão direta dos instintos e no surgimento de leis e proibições, Freud começa a construir o caminho pelo qual a sociedade teria se formado. Crime e memória estariam no começo da civilização. O processo civilizatório seria, assim, um processo que resulta, para os humanos, em sentimentos de medo e abandono. Sendo o processo civilizatório gerador de uma relação cada vez maior entre os humanos, por conseguinte é ele que pode gerar as maiores insatisfações e infelicidades. Ao aproximar as pessoas nas relações sociais, afasta-as de sua busca do princípio do prazer:

“O processo civilizatório tem assim que criar sempre novos meios que limitem essa

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agressividade original no homem, limitem a sua onipotência e restrinjam o amor sexual, cuja tendência conduz ao isolamento do par apaixonado em relação aos demais membros da comunidade” (Freitas, 1992b: 26). Além disso, o desvio da agressividade humana e sua sublimação, por meio da substituição na pulsão em busca de um objeto de prazer desviada para outro objeto, socialmente aceito, também contribui para a geração de mais e maiores conflitos no decorrer do processo civilizatório. Somado a isso, verifica-se no homem um processo de buscar no outro o seu próprio reflexo, ou seja: buscar nos objetos externos a sua própria imagem. A autopreservação do ego (interna) e a busca de amor (externa) provêm, assim, de uma mesma origem, o ego. O homem vê nos outros sua própria imagem, outros esses que querem as mesmas coisas que ele mesmo e, portanto, representam uma ameaça permanente.

No processo civilizatório concorrem duas forças antagônicas: a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Tânatos). Ao mesmo tempo que deseja nos outros aquilo que é ele mesmo, o outro como eu, o homem, por isso mesmo, vê-se ameaçado, pois “se o outro é igual a mim, deseja o mesmo que eu”. Essa relação entre Eros e Tânatos pode ser compreendida como a síntese de todas as dificuldades e complicações colocadas para se estudar as relações do ego com os objetos do mundo: “A evolução da civilização representa a luta entre Eros e a Morte, entre a pulsão de vida e a pulsão de destruição

A vida consiste essencialmente nessa luta, e a evolução da civilização pode ser assim simplesmente descrita como a luta pela vida da espécie humana” (Freitas, 1992b: 27). Daí a complexidade envolvida nas relações humanas:

(

)

Desse modo, além do princípio do prazer, do bem e da felicidade que todo homem deseja, jaz um vazio, incontornável, a morte. A pulsão de morte é então um ponto de cisão que, por um lado, busca a anulação, o inanimado, o princípio de Nirvana, e, por outro, tem uma dimensão histórica, onde se estrutura a tirania da memória, a memória de um esquecimento (Freitas, 1992b: 28).

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Além disso, a pulsão de morte constitui-se como força criadora e geradora do novo: da vontade de destruição surge também a vontade de que haja algo novo, de que tudo recomece novamente:

Se ela atinge tudo o que existe e se, ainda, tudo pode recomeçar novamente, resta-nos elaborar o vazio desses recomeços. O mito fundador construído por Freud supõe a morte do Pai, porque sem esse pai morto, sem a sua ausência, não haveria história para ser contada; tudo seria, digamos, sempre o mesmo (Freitas, 1992b: 29).

Em Freud, o processo de hominização – de tornar-se humano – é o processo de renúncia, cada vez mais exigente, renúncia necessária para conter a agressividade própria do homem. Lacan, ao realizar a passagem da psicanálise pela lingüística, coloca o processo de reconhecimento do outro na linguagem. Assim, os significantes da linguagem são a causa da transformação do homem em humano. Nesse processo, as coisas do mundo são substituídas pelas coisas da linguagem. Tem-se então, de acordo com Lacan, dois processos articulados: 1) o estádio do espelho, no qual se dá o reconhecimento do outro, ou seja, nele surge o outro; 2) o ato de falar, que implica neste outro e, assim, as demandas e os pedidos necessariamente passam pela rede da linguagem. Essas demandas, entretanto, nunca são satisfeitas, pois a cada demanda satisfeita surge uma outra ainda, indicando que há sempre algo mais, algo que irá sempre faltar porque o pedido se refere a um antes, ao teria sido. Por essa razão, a falta não poderá jamais ser preenchida, sendo constituinte mesma do humano. Desse modo, não há correspondência absoluta entre aquilo que é pedido e aquilo que é doado: a cada demanda respondida há sempre um resto, que continua a existir ou como demanda que se repete ou como desejo, isto é, a própria falta. Instaura-se, então, entre o sujeito que pede e o objeto que busca uma relação assimétrica: se o objeto surge, o sujeito desaparece; se, porém, é o sujeito que aparece, o objeto se esvai. É por isso que, ao considerar as ciências humanas, tem-se o enunciado: “S’il fallait définir ce qu’est l’homme pour les sciences humaines, il faudrait évoquer une double absence, une double manque: le manque d’un objet et le sujet comme manque” (Hollier, 1973: 19).

61

A questão dessa ausência complica ainda mais as ciências humanas, já que o nome

“homem” designa apenas uma falta: “Les sciences humaines ne rencontrent pas l’homme, mais son absence; l’absence est la modalité sous laquelle il peut être l’objet de leur

discours. Le nom d’homme désigne seulement un intervalle, ce qui est ‘entre’ (

désigne les trous, as lacunes, les ‘inter-dits’ (

A realidade social, na perspectiva das ciências da linguagem, é constituída pelo

entrelaçamento de vários discursos, organizados a partir dessa falta primordial. Instaura-

se como uma ordem simbólica instituída a partir da linguagem, ordem determinante,

autônoma e independente, à qual o homem acede a partir do momento que se instaura como falante/faltante, ou seja: substitui as coisas do mundo pelas coisas da linguagem.

Retomando as referências feitas à teoria da representação, estabelece-se aqui um corte

radical e definitivo com a concepção clássica da linguagem, que a vê de forma utilitarista, impondo uma divisão entre o mundo e a linguagem. O mundo seria visto como o “real”(neste trabalho, o que se chama a “realidade”) e a linguagem como mero aparato técnico utilizado para representar esse mundo. As coisas do mundo, nessa perspectiva, existiriam de per si na natureza e estariam ali, estáticas, esperando apenas ser descobertas pela linguagem, que as transformaria em signos e símbolos passíveis de serem transmitidos e entendidos pelos humanos. Entretanto, a concepção da qual parte este trabalho subverte essa ordem e estabelece que, ao contrário de representar as coisas do mundo, a linguagem institui e cria o próprio mundo ao instituir o próprio do humano. O humano é um ser na e pela linguagem. Assim, a linguagem não é um mero objeto a ser usado pelos humanos mas,

ao contrário, é ela mesma articuladora das relações sociais.

Nessa perspectiva, a própria divisão da ciência entre sujeito que conhece e objeto a ser

Il

)

)”

(Hollier, 1973: 19).

conhecido pertence ao registro do imaginário, já que os objetos que os sujeitos observam fazem, também eles, parte desse universo da linguagem. O sujeito é visto como tal numa ordem que lhe escapa, a ordem da linguagem, efeito de algo sobre o que não tem

controle:

En effet, le langage tire sa situation privilégiée de ce qu’il ne peut pas être un objet, mais que par lui les rapports du sujet et de l’objet dont la science

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a vécu sont dénoncés. L’objectivité comme extériorité d’un objet et d’un sujet n’est plus possible: loin que le langage puisse devenir l’objet d’un sujet, le sujet ne sera jamais qu’un sujet du verbe: pris dans le langage, il s’y voit assigner une place en fonction d’une syntaxe qu’il ne contrôle pas. Le sujet n’est plus dès lors que le lieu où se manifestent les effets d’ordres qui lui échappent (Hollier, 1973: 14).

A realidade discursiva na qual o homem se inscreve é, pois, diferente de uma suposta

“realidade” tomada como sendo o “real”, conceitos já distinguidos anteriormente. Os acontecimentos só estão presentes como ausência e como falta, pois ao elaborá-los na

linguagem – ainda que seja no “aqui e agora” da televisão ao vivo –, eles já desapareceram, já deixaram de existir, passando a existir apenas enquanto realidade

discursiva. O acontecimento é, assim, o acontecido desaparecido. Para Lacan, “o real” (não no sentido de realidade, mas de real mesmo) se caracteriza como aquilo que está sempre no mesmo lugar mas, ao mesmo tempo, como o lugar de um eterno desencontro,

já que, se se vai atrás de um fato, ele não estará mais lá na chegada. “O real”, nesta

concepção, é sempre esse “algo mais” que falta, que não está mais “lá” e por isso não é jamais encontrado. Dessa forma, pode-se avançar com Lacan e dizer que os homens, as mulheres e as crianças são significantes da linguagem: “Não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de que o que se faz coletividade, e que chamei de os homens, as

mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as mulheres e as crianças não são mais do que significantes” (Lacan, 1985: 46),

só existem na linguagem.

Seres habitados pela linguagem e habitantes da linguagem, é como realidade discursiva que os humanos procuram estabelecer entre si laços sociais, pedaços de comunicação. Neste caso, é pertinente perguntar: por que a língua comunica? Para responder a essa pergunta, são convocados, inicialmente, os conceitos vindos da antropologia estrutural, principalmente no desenvolvimento proposto por C. Lévi-Strauss. Ao perguntar “o que os seres humanos têm em comum – o que possibilita que se comun iquem”, a antropologia pode fornecer algumas indicações sobre a própria questão

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relativa ao estatuto da linguagem na comunicação. Não se trata de buscar a história das relações sociais mas sim o que as estruturas sociais têm em comum, aquilo que ultrapassa e atravessa todas as sociedades, ou seja: aquilo que permite que haja a própria comunicação. Pensando este problema, Lévi-Strauss, na introdução ao livro de Marcel Mauss, ao analisar a extensa obra do autor, introduz, no campo das ciências sociais, uma abertura que viria a apresentar uma solução para um problema fundamental deste campo: a relação observador e observado. Trata-se do conceito de ordem simbólica, essencial para o deslocamento que se está ensejando. É sua leitura que será agora acompanhada. Nas palavras de Lévi-Strauss, Mauss se diferencia do pensamento que dizia que não há relação causa-efeito entre a ordem psíquica e a ordem social:

Ninguém mais do que Mauss, que se comprazia em traçar os limites da expansão céltica na forma dos pães expostos na vitrina dos padeiros, poderia ser sensível a esta solidariedade entre o passado e o presente, inscrita nos nossos usos mais simples e mais concretos. Mas, ao sublinhar a importância da morte mágica ou das técnicas corporais, ele pensava também em estabelecer um outro tipo de solidariedade, que fornece o tema principal a uma terceira comunicação publicada neste volume:

relações reais e práticas entre a psicologia e a sociologia (Lévi-Strauss, 1974: 6).

Mais do que momentânea, tal concepção estendeu-se por toda a sua vida: “Ora, Mauss, durante toda a vida, mostrou-se obcecado pelo preceito comtista, que aparece constantemente neste volume, segundo o qual a vida psicológica só pode adquirir um sentido em dois planos: o do social, que é linguagem; o do fisiológico, ou seja, a outra forma, a forma muda, da necessidade do que vive” (Lévi-Strauss, 1974: 36). Para ele, a vida social seria constituída por um mundo de relações simbólicas. Dirigindo- se aos psicólogos, dizia: “Enquanto os senhores seguem esses casos de simbolismo, muito raramente e com freqüência em séries de fatos anormais, nós seguimos inúmeros deles de uma maneira constante e dentro de séries imensas de fatos normais” (Lévi-

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Strauss, 1974: 6). Resta, entretanto, saber o que vem a ser este simbólico, considerado aqui como “aquilo que está no lugar de outra coisa”. Para Mauss,

toda cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos em cuja linha de frente colocam-se a linguagem, as regras matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência, a religião. Todos estes sistemas visam a exprimir certos aspectos da realidade física e da realidade social e, ainda mais, as relações que estes dois tipos de realidade mantêm entre si e que os próprios sistemas simbólicos mantêm uns com os outros (Lévi-Strauss, 1974: 9).

É na história que se dá a relação simbólica, história esta marcada pela mudança e pela

descontinuidade. Para Mauss, no circuito das obrigações sociais inscrevem-se três relações – dar, receber e retribuir – subsumidas por Lévi-Strauss no conceito de troca:

“(

aparentemente heterogêneas entre si. Mas, tal troca, ele não chega a vê-la nos fatos. A

observação empírica não lhe fornece a troca, mas somente – como ele mesmo diz – ‘três

obrigações: dar, receber retribuir’” (Lévi-Strauss, 1974: 24). Ao falar dessas três relações, Lévi-Strauss explicita-as, colocando o simbólico com uma operação relacional: para que haja essa relação, é preciso que não haja duas coisas completas, que alguma coisa falte. Dessa forma, a sociedade se fundaria sobre uma operação de doação, de troca, e as três operações seriam uma só, a doação: “Pode-se

(

circularem, a serem dadas, a serem retribuídas” (Lévi-Strauss, 1974: 25). A separação

aqui suposta envolve um eu mesmo e um outro, e propõe a união; para que se unam, deve estar faltando algo nas partes. Como em Freud, tem-se aqui a tentativa de reconstituir uma unidade que “um dia teria sido”, relacionada pela operação de doação. Tal operação supõe que teria havido uma unidade (que foi perdida) que a operação de doação pode repor. Ao afirmar que o simbólico supõe, no seu começo, uma unidade que “um dia teria sido”, Lévi-Strauss repõe Marcel Mauss:

existe uma virtude que força as dádivas a

a troca é o denominador comum de um grande número de atividades sociais

)

)

provar que nas coisas trocadas (

)

65

A troca não é um edifício complexo, construído a partir das obrigações de dar, de receber e de retribuir, com o auxílio de um cimento afetivo e mítico. É uma síntese imediatamente dada ao e pelo pensamento simbólico, que, na troca como em toda outra forma de comunicação, supera a contradição que lhe é inerente de perceber as coisas como os elementos do diálogo, simultaneamente sob a relação de si e de outro e destinadas por natureza a passar de um para o outro. Que elas sejam de um ou de outro, representa uma situação derivada por relação com o caráter relacional inicial (Lévi-Strauss, 1974: 32).

É por estar privado de algo e por esse algo ser ausente que ele pode ser simbolizado. O símbolo se instala, então, na ausência e na descontinuidade. Na questão da ordem simbólica, o essencial é que não se trata de dar nome a coisas que são extrínsecas a esta ordem. Não se trata de considerá-la como representante do “mundo concreto”: a ordem simbólica seria ela mesma o mundo concreto, mais “real” (no sentido lacaniano) que a “realidade” (o mundo em que se vive e que é tomado pelo “real”):

É nesse caráter relacional do pensamento simbólico que podemos procurar a resposta para o nosso problema. Quaisquer que tenham sido o momento e as circunstâncias de seu aparecimento na escala da vida animal, a linguagem só pode ter nascido de uma só vez. As coisas não puderam passar a significar progressivamente (Lévi-Strauss, 1974: 33).

A relação entre simbolismo e conhecimento apresenta, assim, características comuns entre as sociedades industriais e as sociedades não-industriais, à medida que o significante precederia e determinaria o significado:

mantém-se uma

situação fundamental inerente à condição humana, isto é: o homem dispõe

desde sua origem de uma integralidade de significante que o embaraça

Porém, alhures, em toda parte, e também entre nós (

)

66

muitíssimo na aplicação a um significado, dado como tal sem ser entretanto conhecido. Há sempre entre os dois uma inadequação que somente a compreensão divina pode desfazer, que resulta na existência de

uma superabundância de significante em relação aos significados sobre os quais ele pode aplicar-se. Em seu esforço para compreender o mundo, o

homem dispõe, portanto, de um excedente de significação (

absolutamente necessário para que, no total, o significante disponível e o significado penetrado permaneçam entre si na relação de complementaridade que é a própria condição do exercício do pensamento simbólico (Lévi-Strauss, 1974: 34).

)

Ao estabelecer tal relação, Lévi-Strauss completa o percurso que vinha desenvolvendo até então para, finalmente, chegar ao conceito de inconsciente como “o termo mediador entre eu e o outro” (Lévi-Strauss, 1974: 19). Se não houvesse um lugar no qual as subjetividades, incomparáveis e incomunicáveis, pudessem ser superadas – superando, assim a oposição entre mim e o outro –, a dificuldade colocada pela questão da comunicação seria insolúvel. Este lugar, onde o objetivo e o subjetivo se encontram, é o terreno do inconsciente. Assim, o que torna humanos os homens é o fato de serem comandados pelo inconsciente, comum a todos, lugar em que todos são iguais. Nas relações entre dois humanos – dois sujeitos – seria impossível compatibilizá-los ou compará-los se não houvesse nada comum entre eles. Enquanto sujeitos dotados de diferenças físicas ou culturais, seriam incomunicáveis se essa oposição não fosse superada no terreno do inconsciente. Há, portanto, algo estrutural para sustentar a função simbólica. Esse lugar “neutro”, comum a todos, por não pertencer nem a si nem ao outro, permite que os humanos sejam, todos e ao mesmo tempo, sujeitos e objetos; permite, ainda, que sejam superadas as subjetividades, diferenças e contradições do diálogo. Para que vários sujeitos se entendam (os vários “eus”), é preciso que haja um contrato mínimo: a linguagem. Essa comunicação não depende tanto do idioma falado mas de regras inconscientes já estabelecidas. Há um lugar que permite aos humanos falar que

67

não pertence nem ao “si” nem ao “outro”, e, por essa razão, tem suas próprias leis, às quais todos os humanos estão subordinados. Essa lei tem na linguagem o seu lugar maior; daí o fato de a linguagem ser o lugar onde o inconsciente pode ser mais facilmente apreendido.

É nestes limites que se gostaria de inserir a questão do próprio fazer jornalístico

enquanto discurso e enquanto articulador de discursos. Prosseguindo na apresentação dos elementos que constituem o campo das ciências da linguagem, faz-se necessário introduzir as contribuições de J. Kristeva neste campo, contribuições essas que virão se somar àquelas de Lévi-Strauss. Note-se que, sem a definição da ordem simbólica como apresentada acima, tal discussão teria se tornado inviável nos limites deste trabalho.

2.2. “a linguagem, essa desconhecida”

A importância de estudar a linguagem é destacada por Kristeva no livro História da

linguagem (no original em francês, Le langage, cet inconnu, título que expressa melhor a idéia desenvolvida pela autora, que não acredita que da linguagem se possa fazer uma

“história”). Na introdução ao livro, questiona-se se haveria um pensamento independente

da linguagem ou se a linguagem seria, ela própria, pensamento:

Pois hoje em dia, nada, ou quase nada, se faz sem fala, e é necessário saber apesar de tudo se essa coisa que fala quando eu falo e que me implica totalmente em cada som que enuncio, em cada palavra que escrevo, em cada signo que faço, se essa coisa é realmente eu, ou um outro que existe em mim, ou ainda um não sei quê de exterior a mim mesmo que se exprime através da minha boca em virtude de qualquer processo ainda inexplicado (Kristeva, 1974: 11).

Essa questão, que remete ao conceito de inconsciente, não é respondida neste livro. Nele, Kristeva apresenta os mecanismos constituintes da linguagem e apresenta-a como fundadora do humano e, assim, da própria sociedade. Daí advém a importância de estudá-la. Não se pode desconsiderar as dificuldades decorrentes do fato de tomar a

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linguagem como objeto de estudo, por ser muito difícil separá-la da condição humana – de nós mesmos –, uma vez que ela é habitualmente pensada como imanente, existindo desde sempre no homem e inseparável dele. Na relação sujeito/linguagem, Kristeva identifica duas etapas. Na primeira, a linguagem teria passado a ser considerada como objeto específico de conhecimento, falando sobre si própria, sobre suas próprias leis, obrigando o sujeito falante a “dizer como ele diz”. No fundamento de todo dito há um dizer, e é isso que interessa aqui: o dizer que está sob todos os ditos. Se a linguagem é construída como um sistema, o próprio homem é um sistema falante. Na segunda etapa, tornou-se possível estudar como linguagens as diversas manifestações significantes. Se considerado assim, o sujeito falante/faltante é que seria o universal possível – o algo comum a todos os humanos buscado por Lévi-Strauss –, estabelecendo, portanto, o espaço que, ao mesmo tempo, propicia e ilude a comunicação. O intercâmbio entre culturas diferentes se dá porque podemos supor esse sujeito lógico universal, pensável a partir da ordem simbólica. Nesse sentido, o homem é um ser genérico que permite a formação de hierarquias, de diferenças (como por exemplo, o homem africano, o europeu, o latino-americano). O sujeito falante/faltante, como já foi anteriormente apresentado, não permite tais distinções; por isso, é ele o sujeito lógico, que rege as estruturas. Assim, conhecendo-se as leis de funcionamento da linguagem pode-se conhecer esse homem. A lingüística permitiria, de acordo com Kristeva, desmistificar essas relações. A linguagem seria, portanto, aquilo que demarca, significa e comunica, movida pela falta, possibilitando que algo se torne um sistema simbólico. Esse algo, que já não está onde deveria estar, é o que aqui está sendo chamado de “o real”. Não se trata, portanto, de representar ou organizar “o real”, mas, articulando a falta, tornar “o real” em realidade discursiva. Isso equivale a dizer que por ser o referente da linguagem a própria linguagem, fora dela não há nada; ou, nas palavras de Lacan, já destacadas em outros momentos, não há realidade pré-discursiva. O corpo, no entanto, é o único “real” (no sentido de Lacan) verdadeiro. Há, portanto, o vivido do corpo, mas é apenas por meio da linguagem que ele se torna concebido. Uma defasagem se estabelece entre o vivido e o concebido e, dessa forma, como já foi dito, há

69

sempre um resto resultante desse processo. Há sempre algo que falta e, assim, nunca há uma “última palavra” – há sempre uma a mais para ser dita.

O ponto central aqui destacado, como em outros momentos do texto, é a afirmação de

que a linguagem cria, ordena e constrói o mundo, e não o contrário. O humano é, assim, um sujeito falante/faltante. “O real” não se confunde com a “realidade”, não é algo concreto e sólido mas sim aquilo que falta nesse mundo ordenado e simbolizado, que só

o é por meio da linguagem, ou seja: as coisas só se transformam em “coisas do mundo”

ao passarem pela linguagem.

Mas qual seria a estrutura específica da linguagem, suas regras de funcionamento e leis estritas? A lingüística saussuriana oferece respostas a essa pergunta. Ao estabelecer a distinção entre língua e fala, e ao apresentar o conceito de signo como algo formado por uma combinação de significantes e significados, Saussure contribui decisivamente para a

construção de uma teoria da linguagem, a lingüística, na qual a língua seria o que há de básico na formação das relações humanas: a instituição social por excelência. A língua e

a ordem social se recobrem; sem a língua, não haveria sociedade.

A Saussure, como destaca Kristeva, deve-se o primeiro desenvolvimento exaustivo e

científico do signo lingüístico. O signo saussuriano associa um conceito a uma imagem

acústica. Esta última “não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos

sentidos (

(Saussure, 1970: 80). Ao conceito equivaleria o termo significado, e à

imagem acústica, o termo significante. O significado não é uma “coisa”, mas uma representação psíquica da “coisa”; o significante é um mediador. Significado e significante seriam, assim, como duas faces de uma moeda, unidos e inseparáveis. Uma das características principais de tal associação é

sua arbitrariedade, ou seja: não há nenhuma relação necessária entre significado e significante.

A teoria do signo construída por Saussure estabelece-se sobre a dominância do conceito

– do significado enquanto estruturador da linguagem – sobre a imagem acústica – o

significante. Dessa forma, ficam de fora todos os elementos que não sejam da ordem do conceito, como, por exemplo, o sonho, o inconsciente e a poesia.

)”

70

Em Saussure, a língua não se confunde com a linguagem, sendo apenas sua parte social, exterior ao indivíduo. “É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para

permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (Saussure, 1970: 17). Na língua, uma imagem acústica (significante) associa-se a um conceito (significado), formando o signo. Os signos, na língua, combinam-se segundo regras específicas.

A fala seria aquilo que pertence a cada um, “um ato individual de vontade e de

inteligência”, ou seja: as combinações pessoais realizadas pelo sujeito falante e o mecanismo psicofísico possibilitam que tais combinações sejam articuladas exteriormente. Embora apresentadas separadamente, língua e fala são inseparáveis uma

da outra: “Para que a fala se possa produzir, a língua é necessária anteriormente, mas ao

mesmo tempo não há língua em abstrato sem o seu exercício na fala” (Kristeva, 1974:

24).

De Jakobson, é importante destacar o duplo caráter atribuído ao signo lingüístico. Lendo Saussure, desenvolvendo o seu trabalho príncipe sobre a fonologia, Jakobson enfatiza duas operações fundamentais implicadas no ato de falar: a seleção de certas unidades lingüísticas do léxico comum e a combinação dessas unidades em unidades cada vez

maiores: “(

sistema sintático da língua que utiliza; as frases, por sua vez, são combinadas em

enunciados. Mas o que fala não é de modo algum um agente completamente livre na sua

escolha de palavras (

A seleção caracteriza-se como uma relação de similaridade: “É a escolha de um termo

dentre outros possíveis e implica a possibilidade de substituição de um termo por outro,

visto o número de associações que podem ser feitas entre as palavras, à base de

quaisquer semelhanças”. A combinação, por sua vez, caracteriza-se como uma relação

de contigüidade: “Este termo faz referência à idéia de laço, de contexto, de ligação. Cada

unidade lingüística serve de contexto às unidades mais simples e encontra seu contexto numa unidade mais complexa” (Lemaire, 1986: 71; 72). Em Jakobson, o eixo da seleção (ou paradigmático) é o eixo metafórico (vertical), no qual os termos são unidades in absentia. Este eixo está mais ligado à língua como sistema, apresentando-se sincronicamente enquanto pontualidade no tempo. É nessa

)

quem fala seleciona palavras e as combina em frases, de acordo com o

)”

(Jakobson, s/d: 37).

71

ordem que estariam colocados os significantes da língua. O eixo da combinação (ou sintagmático) é o eixo metonímico (horizontal), e seus termos são unidades in praesentia. O plano da combinação está mais ligado à fala, apresentando-se diacronicamente enquanto sequencialidade. A ele estaria associada a ordem dos significados.

De forma simplificada, pode-se afirmar que a metáfora, enquanto figura de linguagem, é

aquela em que um termo é substituído por outro, próximo a ele. Na metonímia, uma parte é tomada pelo todo. É nesse sentido que tais figuras estariam sendo colocadas nos dois eixos da linguagem (seleção e combinação). Note-se aqui as relações de similaridade e contigüidade, apontadas acima, como relativas, respectivamente, à metáfora e à

metonímia. Associada aos conceitos de metáfora e metonímia, pode-se acrescentar a questão da temporalidade enquanto relação sincrônica do significante e diacrônica dos significados, o significante gerando efeitos de significado no discurso. Aos conceitos de língua e de fala, portanto, é preciso acrescentar o conceito de discurso, essencial para o trabalho. As teorias da linguagem diversificam-se na concepção do que seja discurso. Este trabalho se limita, aqui, ao que propõe E. Benveniste referindo-o ao universo teórico articulado por J. Lacan. Assim proposto, o discurso seria o ato de colocar em prática a língua, lugar onde são formados os laços sociais. O discurso caracteriza-se, assim, como sendo produzido pela articulação língua/fala em sua relação com o inconsciente, a língua considerada enquanto sistema e a fala enquanto processo, dois termos interdependentes que o discurso articula. Considerando-se os dois eixos da linguagem, tem-se que o discurso não é, de forma alguma, linear. É, sim, complexo: cada vez que alguém fala alguma coisa, todo esse processo da língua se coloca em movimento. O discurso seria o ato mesmo pelo qual a língua revive na fala de cada um.

A contribuição de Benveniste, sublinhada a seguir, é, neste primeiro momento,

esclarecedora para a concepção de discurso que deve ser estabelecida. Benveniste, ao

tratar da questão da linguagem, aponta a experiência central pela qual se determina a possibilidade mesma do discurso. O “eu” que fala na comunicação mudaria alternadamente de estado, estando sempre relacionado àquele que fala. Dessa forma, aquele que ouve – “outro” para o “eu” que fala –, ao falar estaria assumindo o “eu” por

sua própria iniciativa. Relacionando comunicação e discurso, Benveniste escreve:

72

Uma dialética singular é a mola desta subjetividade. A língua provê os falantes de um mesmo sistema de referências pessoais de que cada um se apropria pelo ato de linguagem e que, em cada instância de seu emprego, assim que é assumido por seu enunciador, se torna único e sem igual, não podendo realizar-se duas vezes da mesma maneira. Mas, fora do discurso efetivo, o pronome não é senão uma forma vazia, que não pode ser ligada nem a um objeto nem a um conceito. Ele recebe sua realidade e sua substância somente do discurso (Benveniste, 1989: 69).

Ao tratar da língua e da fala, Benveniste elabora os conceitos de enunciação e de

enunciado, fundamentais neste trabalho. A enunciação é, em suas palavras, o ato mesmo

de produzir um enunciado, e não o texto deste enunciado, aproximando-se do discurso.

As características específicas dos conceitos de enunciado e enunciação serão aprofundadas no capítulo 5, ao tratar da metodologia de análise do corpus deste trabalho. Nessa seqüência, convém ainda mencionar Barthes. Ele destaca a repercussão que os conceitos de língua/fala alcançaram em outros domínios, demonstrando a importância dos conceitos saussurianos. Na antropologia, por exemplo, a referência a Saussure se faz sentir em vários momentos, dos quais um dos mais fecundos talvez seja “que o caráter inconsciente da língua naqueles que nela colhem sua fala, postulado explicitamente por Saussure, reencontra-se numa das mais originais e fecundas posições de Claude Lévi- Strauss, a saber que não são os conteúdos que são inconscientes (crítica aos arquétipos de Jung), mas as formas, isto é, a função simbólica” (Barthes, 1992: 27).

A teoria lacaniana, ao subverter o signo saussuriano, estabelece a primazia do

significante sobre o significado, vistos como duas redes de relações que não se recobrem.

Ao falar sobre o signo, Lacan afirma: “Os signos são plurivalentes: eles representam sem

dúvida alguma algo para alguém; mas esse alguém, seu estatuto é incerto, do mesmo modo que o da linguagem pretensa de certos animais, linguagens de signos que não admite a metáfora, nem engendra a metonímia” (Lacan, 1992a: 325). Essa relação será

melhor aprofundada na análise dos textos jornalísticos.

73

Para compreender a subversão do signo proposta por Lacan – e sua própria teoria da linguagem –, é fundamental compreender os conceitos de real, simbólico e imaginário, fundamentais na teoria lacaniana. Definidos como três ordens distintas mas intrinsicamente ligadas (vale dizer, que não existem separadamente mas relacionam-se permanentemente umas com as outras), o real, o simbólico e o imaginário constituiriam a topologia do sujeito falante. Ao ilustrar a interrelação entre essas três ordens, Lacan utiliza como exemplo a estrutura constitutiva do nó borromeano. Entrelaçando o que chama de três “rodinhas de barbante”, estabelece entre elas uma relação tal que, se for rompida qualquer uma das rodinhas, todas se separam. Ao mesmo tempo, as rodinhas não estão presas por nós comuns (que de fato prendem e amarram os fios que os constituem) mas apenas se tocam e se entrelaçam em alguns pontos de contato. Da mesma forma, o real, o simbólico e o imaginário obedeceriam a tal estruturação, ou seja, não obedecem nenhuma forma de hierarquia ou prevalência de um sobre os outros. Embora os três conceitos não tenham sido propostos simultaneamente, estavam em germinação no desenvolvimento do conceito de imaginário, pois Lacan já antecipava as três ordens inseparáveis constituintes do sujeito. O conceito de imaginário, usado pela primeira vez no texto “O estádio do espelho”, está ligado à identificação narcísica do sujeito com sua imagem no espelho. Relaciona-se, portanto, à identificação do sujeito consigo mesmo, sendo fortemente ligado à formação de imagens. Depois do conceito de imaginário, o conceito de ordem simbólica é introduzido por Lacan como sendo a ordem da linguagem. Num primeiro momento, o simbólico reunia várias noções diferentes, envolvendo o estruturalismo, a antropologia e a questão do reconhecimento. Apenas posteriormente é que a ordem simbólica passou a ser vista como uma estrutura autônoma. A identificação imaginária está, assim, ligada ao modo como um sujeito vê a si mesmo, e a identificação simbólica aponta para o lugar de onde este sujeito está sendo observado. Apesar do imaginário e do simbólico serem distintos e opostos, cabe ao simbólico organizar e direcionar o imaginário.

74

O real, conceito desenvolvido paralelamente ao conceito de simbólico, seria o que resiste ao processo de simbolização, aquilo que se coloca como impossível de ser simbolizado, não podendo, portanto, existir sem a barreira imposta a ele pelo simbólico. Está, portanto, fora do simbólico e do imaginário, e por apresentar-se como excluído, é também imprevisível. É importante reafirmar que a noção atribuída por Lacan à ordem do real não tem nenhuma relação com o que se chama de “mundo concreto” ou “realidade”. As três ordens articuladas, na teoria dos nós, como uma topologia, definem-se, a cada momento, relacionalmente:

The Imaginary and the Symbolic are not successive stages but are intertwined. The Real comes close to meaning “the ineffable” or “the impossible” in Lacan’s thought. It serves to remind human subjects that their Symbolic and Imaginary constructions take place in a world which exceeds them (Sarup, 1992: 105).

Essas três ordens constituiriam, assim, os sujeitos falantes. Pode-se, portanto, afirmar que um dos pressupostos mais importantes deste trabalho é a noção de que a linguagem enquanto discurso não representa nem simboliza a realidade – ela é a própria realidade (e não “o real”), na medida que a cria. “O real” (como definido por Lacan) está na linguagem enquanto fórmula que daí é retirada como estrutura. Não há algo como “de um lado o mundo, do outro lado a linguagem”. A linguagem não representa o mundo, ela é o mundo. Em outras palavras, sem a linguagem não existiria mundo, nem humanidade, nem humanos, nem mesmo a realidade, já que “o real” (Lacan) seria apenas uma massa amorfa, alheia a qualquer simbolização. Entretanto, o discurso dos media, e do próprio jornalismo, é concebido como algo elaborado, racional, didático – como ciência que vai dar conta de um mundo concreto já organizado. Mas não se pode desconsiderar o fato de que esse discurso também se desloca para outro – desliza pelas tramas do inconsciente –, elaborado a partir da organização narrativa da notícia, impregnado de imaginário, marcando, assim, seu caráter ambíguo. Para acompanhar este deslizamento nos textos sobre a Aids, para tentar

75

encontrar o que neles aparece como fantasma-espectro-fantasia daquele discurso outro, do Outro, torna-se imprescindível pautar-se pelo referencial teórico-conceitual das ciências da linguagem, privilegiando, neste momento, as contribuições de J. Lacan para seu estudo.

2.3. dos desfiladeiros da linguagem

Lacan realiza uma releitura de Freud para tentar resgatar o que acredita ter sido perdido em relação aos diversos desdobramentos da teoria freudiana. Sua finalidade principal é fundamentar a psicanálise como uma ciência, um saber específico que seja, antes de tudo, passível de ser transmitido. Ao tratar da psicanálise, resgata a importância de Descartes, afirmando que sem o Cogito cartesiano – a divisão estabelecida entre sujeito que conhece e objeto a ser conhecido – não haveria ciência e, consequentemente, a própria psicanálise não existiria. Foi preciso, primeiramente, haver o lugar do saber e da ciência para que depois pudesse haver o lugar do não-saber e do inconsciente:

Se há fechamento e entrada, não é dito que elas separam: elas dão a dois

domínios seu modo de conjunção. São respectivamente o sujeito e o Outro, esses domínios não estando aqui a substantificar senão a partir de nossas teses sobre o inconsciente. O sujeito, o sujeito cartesiano, é o pressuposto do inconsciente, demonstramo-lo em seu lugar.

O

Outro é a dimensão exigida de que a fala se afirme em verdade.

O

inconsciente é entre eles seu corte em ato (Lacan, 1992a: 324).

A forma como se dá esta relação passa por diversos conceitos, começando por aqueles elaborados por Descartes. Em suas Meditações metafísicas, Descartes afirma que falta aos sentidos permanência e identidade. Seus dados não possuem estabilidade e seus julgamentos não são seguros – levam ao erro. O mundo dos sentidos representa a falsa liberdade, é um lugar que aprisiona, sendo, portanto, impossível utilizar os sentidos sem método:

76

Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de me haver encontrado, desde a juventude, em certos caminhos, que me conduziram a considerações e máximas, de que formei um método, pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento, e de alçá-lo, pouco a pouco, ao mais alto ponto, a que a mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir (Descartes, 1987a: 29).

O preceito metodológico básico apontado no Discurso do método é que só se considere

como verdadeiro o que for evidente, o que puder ser intuído com “clareza e distinção”.

Para melhor conhecer os caminhos da razão e não se deixar ludibriar pelos sentidos, é

que surge, em Descartes, o conceito da dúvida metódica: “Agora, pois, que meu espírito

aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir

em geral todas as minhas antigas opiniões (

encontrar bastará para me levar a rejeitar a todas” (Descartes, 1987b: 17). A dúvida assim colocada distingue-se da dúvida vulgar, já que não é dada pela experiência, mas

deliberadamente, caracterizando-se como dúvida sistemática e generalizada: “Consistirá, pois, em tratar como falso o que é apenas duvidoso, como sempre enganador o que alguma vez me enganou” (Descartes, 1987b: 17).

A exacerbação da dúvida, através da hipótese do gênio maligno, coloca em xeque a

objetividade do conhecimento científico, para depois restituí-lo através de um bom Deus, cuja bondade impede a sustentação da hipótese do gênio enganador e justifica o otimismo científico e a crença na razão. A evidência, é assim, estabelecida como critério de verdade e garantia da objetividade do conhecimento científico:

o menor motivo de dúvida que eu nelas

está livre de todos os cuidados (

)

)

O Deus cartesiano é, assim, a garantia da objetividade do conhecimento científico; enquanto bon Dieu, torna-se a expressão do otimismo racionalista que pressupõe que ao máximo de clareza subjetiva corresponde o cerne da objetividade. O bon Dieu é na verdade uma deusa: a Deusa-Razão, que Descartes cultua e que será exaltada pelo Iluminismo do século XVIII (Descartes, 1987a: XVII, Introdução).

77

Da máxima incerteza surge, assim, uma primeira certeza: “Se duvido, penso”. Esta é, contudo, uma certeza a respeito da própria subjetividade (“penso”), na qual não está garantido que haja algo exterior ao pensamento, mas já é apontado um caminho: “Basta uma primeira certeza plena para que a ‘ordem natural’ faça jorrar luz sobre o que até então permanecia desconhecido” (Descartes, 1987a: XVI, Introdução). O “Se duvido, penso”, leva à máxima cartesiana “Penso, logo existo”, e a seu desdobramento natural:

“Existo enquanto ser pensante”: “Do pensamento ao ser que pensa – realiza-se, então, o salto sobre o abismo que separa a subjetividade da objetividade” (Descartes, 1987a:

XVI, Introdução). No final de sua Geometria, obra escrita em 1637, Descartes afirma: “Em matéria de progressões matemáticas, quando se tem os dois ou três primeiros termos, não é difícil encontrar os outros” (Descartes, 1987a: XV, Introdução). O mesmo se dá com relação à razão: essa idéia de ordem natural é, para ele, inerente à progressão do conhecimento – progressão linear, cumulativa e com objetivo de chegar à verdade última da realidade. O que Descartes prescreve como recurso para a construção da ciência e também para a sabedoria de vida é que os imperativos da razão sejam seguidos. Tal concepção dominou toda a cena da ciência moderna, influenciando o sistema de pensamento ocidental até este século, constituindo-se, em sua forma final, em um sistema no qual “a formulação rigorosa e bem articulada, o modelo bem aplicado, tornam-se critérios de verdade em detrimento da interrogação e da dúvida” (Freitas, 1992a: 42). Dessa forma, o campo da comunicação não poderia estar imune a essa concepção de conhecimento. Entretanto, ao apropriar-se do cogito cartesiano de forma mecânica, as teorias da comunicação não levaram em conta toda a extensão desse conceito, como antevista por Lacan, tornando-se fragéis do ponto de vista científico. Pode-se mesmo afirmar que

a ciência da comunicação não dispõe de um núcleo disciplinar de teorias e pesquisas modelares. Qualquer autoridade que a ciência da comunicação possui deve-a principalmente à ressonância e à atratividade da “comunicação” como um símbolo que evoca os principais problemas e

78

oportunidades característicos de um mundo cada vez mais fragmentado e ainda interdependente (“pós-moderno”). Assim, os aspectos de que trata a comunicação são considerados importantes, significativos e, especialmente, úteis, não do ponto de vista da sua utilidade científica, mas prática (Craig, 1995: 40).

A apropriação mecânica dos preceitos da ciência baseada na razão contribui de forma significativa para este quadro. Entretanto, ao rever o cogito cartesiano e instituir o sujeito como sujeito dividido, Lacan oferece possibilidades de reorganizar tal campo e repensá-lo, pois substitui o “eu penso” cartesiano por um “isso fala” freudiano: “Ao convocar Descartes junto com Freud, ou seja, um sujeito fundado pela ciência, Lacan reintroduzia o sujeito da dúvida no inconsciente: um sujeito dividido, um ‘eu não sei quem sou’” (Roudinesco, 1994: 278). Assim, Lacan dotou “a doutrina psicanalítica de uma teoria ‘cartesiana’ do sujeito e de uma concepção ‘pós saussuriana do inconsciente’” (Roudinesco, 1994: 280). Esse “sujeito dividido” instituído por Lacan significa uma subversão total da ciência:

Localizando o ser do homem na Linguagem – o ser é ser falante –, coloca como pressuposto básico que o sujeito só é, sendo-o em Outro lugar. O sujeito é assim marcado por um paradoxo: para ser é preciso que ele fale, mas esta fala é produzida no Outro, o que equivale dizer que há uma disjunção fundamental entre o gozo da fala (o corpo que fala) e o lugar da sua produção; é a isto que nos referimos quando dizemos sujeito dividido (Freitas, 1992a: 56).

A teoria lacaniana do inconsciente caracteriza-se, então, como “o discurso do outro, onde o do é a determinação objetiva. O desejo do homem é o desejo do Outro, onde o do significa a determinação subjetiva, a saber, é como Outro que ele deseja” (Lacan, apud Freitas, 1992a: 61). O inconsciente se instaura, então, sobre o vazio.

79

Portanto, pensar o discurso dos media e, no caso específico deste trabalho, do próprio jornalismo, implica em considerar esse sujeito a quem os mesmos se referem e que, ao mesmo tempo, produzem:

O sujeito pensado na sua dependência fundamental à Linguagem, o que significa colocar como condição necessária a postulação deste Outro lugar, difere do Eu, e quer este seja pensado como sujeito do conhecimento, sujeito da certeza, sujeito da comunicação, vem a ser sempre o sujeito imaginário e o Inconsciente será, entre este sujeito e o Outro lugar, o ato de ruptura (Freitas, 1992a: 84).

Ao propor repensar a questão do sujeito, o sistema de pensamento de Lacan fornece

pistas para a inversão desse trajeto e nega a primazia predominante do significado sobre

o significante, que pressupunha “a anterioridade do pensamento ao ser” (Freitas, 1992a:

38). Em suas teorias, Lacan aponta para a falha primordial constituinte de todo sujeito – sujeito dividido e, portanto, sempre em busca do “objeto @”, representante da falta, objeto perdido para sempre: “O desejo só existe no universo da privação e da falta e exige, para sua satisfação, o seu reconhecimento por outro, o que significa dizer que o desejo do homem só existe enquanto passa pelos desfiladeiros dos significantes da linguagem, pelo acordo da fala” (Freitas, 1992a: 49). Retoma-se, aqui, os conceitos de língua, fala e signo de Saussure. Em sua releitura, Lacan inicia o que seria o estabelecimento da ligação entre o sujeito, a linguagem e a fala. A tese central do sistema de pensamento lacaniano estabelece o primado do significante, subvertendo, como já apontado anteriormente, o signo saussuriano. É a

partir de 1954 que Lacan inicia sua segunda leitura de Saussure. Nesse momento, “Lacan não mais se refere simplesmente a noções de língua, fala ou linguagem, e passa a comentar a teoria saussuriana do signo” (Roudinesco, 1994: 275).

Paralelamente a essa releitura, Lacan se volta para as teses de Jakobson sobre a metáfora

e a metonímia para, finalmente, em 1957, introduzir “pela primeira vez a fórmula que

define o significante (no sentido lacaniano) e faz do sujeito um elemento numa estrutura

(ou cadeia simbólica)” (Roudinesco, 1994: 276). O termo “cadeia significante” refere-se

80

à figura de uma corrente feita de elos que se prendem aos elos de outra corrente. De

onde afirma: “Um significante é o que representa o sujeito para um outro significante” (Lacan, 1992a: 302). E continua: “Esse significante será pois o significante para o qual

todos os outros significantes representam o sujeito: é dizer que por falta desse significante, todos os outros não representariam nada. Posto que nada não é representado senão para” (Lacan, 1992a: 302). Dessa forma,

A instauração do indivíduo na ordem simbólica, designado em relação a seu lugar na trama das relações sociais, é também sua instauração na linguagem, sendo reconhecido e reconhecendo-se na leitura das denominações que ele pode ser sujeito para outros sujeitos, em relação a outros sujeitos. As duas ordens são de tal modo imbricadas que a condição de ser social e ser falante se indistinguem enquanto ordem simbólica (Freitas, 1992a: 47).

Assim, o termo crucial passa a ser o significante, “reanimado da retórica antiga pela lingüística moderna, numa doutrina cujas etapas não podemos marcar aqui, mas da qual os nomes de Ferdinand de Saussure e de Roman Jakobson indicarão a aurora e a atual combinação” (Lacan, 1992a: 282). Uma vez que reconhece a estrutura da linguagem no inconsciente, Lacan desenvolve a teoria sobre o tipo de sujeito concebido para essa estrutura, um sujeito que não significa mas que é significante para. Para mostrar a diferença entre a representação lacaniana e a clássica representação saussuriana, Barthes argumenta: “O significado e o significante são, na terminologia

O plano dos significantes constitui o plano de

expressão e o dos significados o plano de conteúdo” (Barthes, 1992: 39; 43). Ou seja:

saussuriana, os componentes do signo (

)

Saussure denominava significante a imagem psíquica de um conceito, e significado o conceito propriamente dito. O significado era colocado sobre o significante, separados por uma barra de significação: “A significação pode ser concebida como um processo; é

o ato que une o significante e o significado, ato cujo produto é o signo” (Barthes, 1992:

51).

81

De acordo com Barthes, Lacan difere da representação saussuriana em dois pontos. Para Lacan, em primeiro lugar, o significante é global, constituído por uma cadeia de níveis múltiplos, na qual significante e significado estão numa ligação flutuante e só coincidem por certos pontos de ancoragem. Em segundo lugar, a barra de separação entre o significante e o significado tem um valor próprio, e representa o recalcamento do significado (Barthes, 1992: 52). Como explicitado por Roudinesco:

Enquanto Saussure colocava o significado sobre o significante, separando

os dois por uma barra dita de “significação”, Lacan invertia essa posição. Punha o significado abaixo do significante e atribuía e este último uma função primordial. Depois, retomando por sua conta a noção de valor,

sublinhava que toda significação remetia a outra significação, e através disso deduzia a idéia de que o significante deveria ser isolado do

desprovida de significação mas

determinante para o destino inconsciente do sujeito (Roudinesco, 1994:

significado, como uma letra (

)

277).

Nessa perspectiva, portanto, o sujeito não existiria como plenitude, mas seria representado por uma cadeia de significantes na qual o plano do enunciado não corresponde ao plano da enunciação. Assim, “o sujeito é representado por um significante para um outro significante no interior de um conjunto estrutural” (Roudinesco, 1994: 278). Em Lacan, a incidência do significante sobre o significado poderia ser representada de três formas:

A fórmula geral descrevia a função significante a partir da barra de

resistência à significação. A fórmula da metonímia traduzia a função de conexão dos significantes entre si, na qual a elisão do significado remetia ao objeto do desejo sempre ausente na cadeia. Enfim, a fórmula da metáfora fornecia a chave de uma função de substituição de um significante por outro, por meio do qual o sujeito era representado (Roudinesco, 1994: 280).

82

Somados a isso, outros dois termos introduzidos por Lacan assumem enorme importância em seu sistema de pensamento, o “grande Outro (A)” e o “pequeno objeto

@ (a)”: “Do inconsciente como ‘discurso do outro’, tal como era definido em Roma, Lacan passava, em sua segunda retomada, a um inconsciente como ‘discurso do Outro’. Quanto ao pequeno @, lugar do eu imaginário, ele tornava-se a questão de um resto, preso no real e não simbolizável: objeto como falta e objeto como causa do desejo” (Roudinesco, 1994: 290). O desejo aparece, aqui, como “resto de alguma coisa”, memória primordial, lembrança do futuro.

A

linguagem seria constituída, portanto, nos significantes que constituem a sua ordem. E

o

significante só poderia ser definido por meio de uma diferença em relação a outro

significante: “Ser na Linguagem, então, vem significar ser um significante para outro

A realização do sujeito é marcada, deste modo, por sua dependência

significante à Linguagem, ao lugar do Outro” (Freitas, 1992a: 54). Para Lacan, o sujeito

tem início no lugar do Outro pois é neste lugar que surge o primeiro significante: “O sujeito, então, nasce quando, no campo do Outro, surge o significante. Deste modo, tudo depende da estrutura do significante” (Freitas, 1992a: 54). Assim, o sujeito falante/faltante não busca outro sujeito, mas os objetos que perdeu. A comunicação, portanto, se dá entre sujeitos iguais que buscam objetos de seu desejo. Não se trata, portanto, de um sujeito-emissor que envia uma mensagem para um sujeito- receptor, mas de sujeitos em permanente busca. As teorias da comunicação e do jornalismo concebidas a partir do clássico esquema emissor, receptor e mensagem, parecem não corresponder às complexidades desse processo que se dá sempre entre sujeitos – significantes para outros significantes –, colocados de forma igual no processo comunicacional: um e outro representariam, alternada e simultaneamente, os papéis de emissor e receptor, e a mensagem não seria apenas algo transmitido por meio de um código – a linguagem – constituído com fins utilitaristas. Nesta ordem de raciocínio, o indivíduo “eu” e o indivíduo “você” seriam incomunicáveis

e incomparáveis se entre eles não fosse colocado um elemento de mediação: formas

inconscientes (e não conteúdos inconscientes) que organizam a sociedade e que têm um

significante (

)

83

dinamismo próprio que nos permite vê-las. No simbólico, o esquema emissor-mensagem- receptor apresenta uma ordem relacional diferente, já que nele é criada uma relação que não “representa” a realidade, mas que cria uma outra ordem, a ordem humana. Emissor e receptor são “dois” apenas na aparência da realidade. De fato, esse “um” e esse “outro” formam uma figura de quatro pontas onde o “um” é também “outro” e o “outro” é também “um”:

Situar a posição da subjetividade humana na estrutura quadripartida (distinta do esquema especular do mesmo e do outro que reina nos estudos de comunicação) significa mostrar que o sujeito não é duplo mas dividido, que fala sem o saber de um Outro lugar de onde recebe a verdade contraditória que o constitui. Significa mostrar, também, que o lugar do inconsciente é um lugar de inscrição, marcando a divisão do sujeito e que o objeto – objeto da falta, do desejo – é a marca de sua impossível completitude (Freitas, 1992a: 74).

A concepção de sujeito aqui implicada contrapõe-se àquela que pensa a comunicação

como algo que

vai perdendo a polaridade centrada ora no eu ora no tu e se

enriquecendo com uma relação dinâmica entre identidade e alteridade – que vai ocupar o centro de suas preocupações atuais. Para ela, o centro da relação não está nem no eu nem no tu, mas no espaço discursivo criado entre ambos. O sujeito só constrói sua identidade na interação com o

outro. E o espaço dessa interação é o texto (Brandão, 1995: 62).

) (

O texto não é também o lugar da linguagem, estrutura inconsciente enquanto espaço de

interação como proposto por Lévi-Strauss? Ora, esse espaço é também aquele que simboliza a língua e a fala, cada um e o Outro, justamente o espaço denominado discurso. É assim, na ordem do discurso, que se pode tratar da comunicação: “O discurso, trânsito do inconsciente, imbricação da sociabilidade e da singularidade, o laço

84

social, delineia-se como a possível direção em que recolocar o problema da comunicação” (Freitas, 1992a:122). É este um dos aspectos do conceito de discurso que norteia este trabalho. No entanto, é preciso ser cauteloso para que não se julgue o trabalho que se coloca nesta perspectiva como a abertura de uma possibilidade de acumular um saber e, como tal, permitir o controle e a manipulação. Pois, diz Lacan:

Não há saber do inconsciente. O inconsciente é o saber e, por definição, é um saber que não sabe de si. Somente o discurso pode enunciar o inconsciente e assim determiná-lo como saber não sabido com o qual se goza. Somente o discurso, a despeito da ilusão que suscita, e justamente por ser sempre especulativo, pode formar o conceito do inconsciente (Juranville, 1987: 296).

O discurso assim concebido organiza-se a partir de quatro lugares: o lugar do agente (aquele que move o discurso), o lugar da verdade, o lugar do outro e o lugar da produção (aquilo em que o discurso resulta), da seguinte forma:

agente

outro

verdade

produção

Note-se que a disposição dos quatro lugares, e o próprio fato de serem quatro, marca a questão da não-linearidade do discurso. Sobre esses lugares, “articulam-se quatro categorias produzidas pelo discurso psicanalítico: o significante do poder, o significante do saber, o sujeito, e o a-mais do gozo”, respectivamente, S 1 (o agente do discurso do

poder), S 2 (o saber sobre alguma coisa), $ (o sujeito do inconsciente) e @ (o resto que

se desprende como objeto do desejo, a falta permanente; aquilo que determina o próprio sujeito). Assim, “a combinação dos lugares e das categorias estrutura diferentes discursos, cada um deles determinado pelo significante que assume posição dominante (o lugar de agente). Toda a lógica do discurso é determinada, assim, pelo significante que

85

estiver em posição dominante” (Freitas, 1992a: 115). Os significantes deslizam nos lugares do discurso e, a cada vez, organizam discursos diferentes. De acordo com Lacan, os quatro discursos apresentados abaixo organizam o mundo contemporâneo e funcionam como certos aparatos construídos na linguagem, estando no lugar da enunciação e do ato pelo qual cada um nela entra. Seriam eles:

Discurso do Senhor (dominante)

S 1

S 2

$

@

Discurso da Ciência

$

S 1

@

S 2

Discurso do Saber

 

S 2

@

S 1

$

Discurso Analítico

@

$

S 2

S 1

Cada um deles mobiliza as quatro categorias em diferentes lugares; os lugares são fixos:

o que varia é a categoria que o ocupa em cada um dos discursos. No discurso da ciência, por exemplo, quer-se eliminar os outros saberes (considerados fantasiosos) e estabelecer sobre eles o “saber do um” (citado acima), dominar o olhar e o desejo. Tal discurso, segundo Lyotard, não é capaz de criar laços – pois não envolve o corpo e não o toca –, e visa apenas a si próprio, não ao bem comum. Na ciência, o “outro” é o próprio discurso por ela criado. Retoma-se, agora, a questão dos jornais caracterizados como instituição jornalística. Se for considerado que a finalidade do jornal é organizar o discurso público, pode-se também sugerir que o fundamento dessa publicidade é o Estado. Caberia assim aos jornais, na partição governantes/governados, mediar entre a vontade de um e a vontade de todos, que o Estado democrático representaria. Assim, referindo-se aos quatro discursos pode-se supor que os jornais têm como significante organizador uma imagem ideal do Estado (S 1 ), imagem essa que, entretanto, pode variar de um jornal para outro.

Esse ideal, colocado como base, impulsiona a organização do jornal, que organiza o mundo para os leitores. Os elementos constituintes dessa “base” não são, muitas vezes, percebidos nem pelos próprios jornalistas nem pela empresa jornalística, mas é isto que

86

estrutura o discurso jornalístico e faz com que as notícias se organizem da forma como aparecem. Nessa ordenação pode-se elaborar as questões que norteiam o trabalho: como esses discursos foram apreendendo e narrando a Aids? De que modo esse desconhecido – a Aids – é dado a conhecer? Antes, porém, de passar à descrição e análise das matérias, uma possível narrativa da Aids será aqui introduzida – uma possibilidade de contar sua história, ainda que de forma breve.

87

capítulo 3

3. breve história da aids

“ dizer o nome da doença, pronunciá-lo muitas vezes e com facilidade, como se fosse

apenas outra palavra, por exemplo rapaz ou galeria ou cigarro ou dinheiro ou coisa,

por exemplo coisa sem importância.” Susan Sontag, Assim vivemos agora

O título deste capítulo, Uma breve história da Aids, talvez pareça ser abrangente demais

em relação àquilo que efetivamente apresenta. Faz-se, então, a ressalva de que esta “breve história”, além de ser datada, é também a proposta de um determinado olhar em

relação à Aids. Não se pretende esgotar as possibilidades em relação à doença, seja do ponto-de-vista médico-científico, seja do ponto-de-vista social, político ou cultural. Não

se pretende, também, tratar da Aids sob o ponto-de-vista dos diversos discursos que a

recobrem (médico, científico, religioso, moral, ou outros) mas, antes de tudo, estabelecer um lugar de fala em relação à Aids. Com isso, quer-se estabelecer um ponto de partida para pensar a Aids, ponto este que se refere à própria relação da pesquisadora com o tema e, portanto, que determina – mesmo que não diretamente – as leituras e olhares feitos a partir dos referenciais teórico- metodológicos em relação às matérias analisadas.

A Aids, mesmo não sendo o tema exclusivo deste trabalho, será retomada como eixo nos

capítulos referentes à descrição e à análise, sem esquecer que o discurso jornalístico – considerado a partir do prisma das ciências da linguagem – é o lugar privilegiado nesta pesquisa para estabelecer relações com o discurso da Aids.

3.1. a aids e o ponto de vista das ciências humanas

88

No início dos anos 80, uma doença misteriosa e desconhecida começou a assustar a comunidade médica americana. Apareceram os primeiros casos, até que, em 1983, chegou-se à descoberta de seu vírus causador, um novo vírus, o HIV 3 . A doença a ele associada passou a ser chamada de Aids – Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Inicialmente misteriosa e desconhecida, aos poucos foi sendo construído um corpo de conhecimentos e teorias a seu respeito. Seu nome já diz muito sobre si mesma. Primeiramente, a Aids é uma síndrome: “Do grego syndromé, expressa o significado de concurso, ou seja, a circunstância de se encontrarem juntas duas ou mais coisas. Assim, o paciente de Aids está numa circunstância em que vários fatores concorrem para levá-lo ao óbito” (Mariguela, 1995: 3). A imunodeficiência refere-se à incapacidade do sistema imunológico cumprir suas funções. O termo “adquirida” refere-se à forma pela qual se instala essa imunodeficiência – através de um retrovírus, o HIV: o “Human Immunodeficiency Virus”. Do HIV, pode-se dizer que, talvez, seu aspecto mais significante seja sua singularidade

biológica: “Ele reproduz-se dentro da estrutura das células do sistema imunológico denominadas T-4 (ou linfócitos auxiliares), de maneira bem diferente dos causadores das

permanecendo lá durante toda a existência dessas células”

viroses mais conhecidas (

(Mello, 1994: 23). Daí a dificuldade em isolar esse vírus – na verdade um retrovírus – e em desenvolver vacinas que sejam eficientes contra ele. Dessa forma, “vários cientistas estão mais encorajados a pesquisar novos métodos para a proteção do sistema imunológico contra o ataque e a reprodução do HIV dentro de seus hospedeiros, os linfócitos T-4” (Mello, 1994: 24), e não em eliminar diretamente o próprio vírus.

)

3 A título de informação, registro aqui, ainda que rapidamente, uma polêmica existente no meio científico (mas em geral ignorada pela própria ciência e pelos media) quanto à identificação do HIV como vírus causador da Aids. No livro Um mundo sem Aids (Leon Chaitow e Simon Martin, São Paulo, Ground, 1991), os autores propõem tratamento e cura para a doença por meio da medicina holística, afirmando que a Aids é muito mais causada pelas condições deterioradas de vida nas grandes cidades contemporâneas do que por problemas físicos. O autor de Inventing the Aids virus (1996), Peter

Duesberg, professor de biologia molecular na Universidade da Califórnia em Berkeley, afirma ser a Aids “uma doença singular, com diferentes causas, talvez uma para cada grupo que a contrai: homens

homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas intravenosas, mulheres heterossexuais etc. (

) O clamor

da opinião pública para que se identificasse a causa de uma doença tão avassaladora motivou conclusões apressadas e interesses diversos transformaram essas conclusões em dogmas”. Para Duesberg, o fato do HIV estar presente em todas as pessoas com Aids não significa ser ele o causador da doença. Em sua opinião, “apesar de mais de 100 mil documentos científicos e bilhões de dólares em pesquisas, a hipótese do HIV como agente causador da Aids não conseguiu produzir um só benefício de saúde pública: nem

89

Pesquisas recentes, divulgadas pela imprensa durante a 11 a Conferência Internacional de Aids, realizada no Canadá em 1996, apontam que talvez seja esse realmente o caminho mais eficaz para controle da infecção pelo HIV. Novas drogas divulgadas durante a conferência, os chamados “inibidores de protease” – combinados em “coquetel” – impedem que o vírus complete a fase final de seu amadurecimento, bloqueando o aparecimento de novas partículas do vírus que pudessem invadir células ainda não contaminadas (Folha de S. Paulo, 14/07/96, p.1-20). Há muitas crenças ocultas em torno da Aids. Muitas delas cristalizadas nos discursos médico e científico, especialmente no início da epidemia. A forma como a Aids foi se caracterizando ao longo da história já indica esse percurso: primeiramente, o advento social da doença, no início dos anos 80, deu-se em torno da categoria “grupo de risco” 4 .

vacina, nem medicamento eficiente, nem prevenção, nem cura, nenhuma vida salva. Não é hora de mudar?” (Folha de S. Paulo, 02/06/96, p.1-20). 4 A trajetória da transformação do conceito de “risco” em “vulnerabilidade”, ocorrida nos anos 90, é uma abordagem bastante interessante para se pensar a questão da Aids enquanto construção social e suas campanhas de prevenção. Mesmo não sendo tratada neste trabalho, buscar-se-á apresentar, de forma sintética, as principais diferenciações por ela demarcadas. Ayres, França e Calazans apresentam tais diferenciações com precisão. Seguindo a periodização apresentada por J. Mann e D. J. M. Tarantola no livro Aids in the world II (New York, Oxford University Press, 1996), os autores dividem os “quinze anos de epidemia” em três períodos, a saber: a) período da descoberta (1981-1984), quando se falava em fatores de risco associáveis à então nova doença, que, entretanto, rapidamente deixaram de ser categorias analíticas abstratas para se transformarem em categorias concretas associadas a agrupamentos sociais específicos, os chamados grupos de risco; b) período das primeiras respostas (1985-1988), momento em

que a Aids já não se restringia a fronteiras geográficas, étnicas ou sociais específicas, configurando-se como uma pandemia, e, portanto, não sustentava mais a concepção de “grupos de risco”; em seu lugar, surgiu a expressão comportamentos de risco, um avanço em relação ao conceito anterior mas, ainda assim, atribuindo muito mais ao “indivíduo” a responsabilidade pela prevenção ou não em relação à doença; neste momento, as campanhas de prevenção concentraram-se em dizer quais os comportamentos “seguros” e quais os que deveriam ser modificados pelas pessoas; c) período atual (1989 até hoje), em que o conceito de vulnerabilidade (amplamente difundido na América Latina nos anos 70) é retomado com novo significado – de suscetibilidade dos indivíduos e grupos sociais a agravos ou riscos em relação

a doenças –, sendo definido a partir de três planos interdependentes de determinação: comportamento

pessoal (ou vulnerabilidade individual), contexto social (ou vulnerabilidade social) e programas de prevenção (vulnerabilidade programática). Em relação a este período, destaca-se a “resposta que a

vulnerabilidade vem tentando dar à necessidade de extrapolar a tradicional abordagem comportamentalista das estratégias individuais de redução de risco” (Ayres; França; Calazans, p.5) para além do conceito epidemiológico de risco (que opõe os “grupos de risco”, ou as pessoas com “comportamentos de risco”, à população em geral), central na maioria das estratégias de prevenção e controle da epidemia mas problemático e contraditório do ponto de vista operacional e conceitual. É interessante notar que os media não divulgaram os conceitos de “comportamentos de risco” e “vulnerabilidade” com a mesma intensidade com que divulgaram o conceito de “grupos de risco”, e nem

a própria sociedade os incorporou tão largamente. Ainda hoje, quando se pensa em prevenção, parece

que a maioria das pessoas se coloca como não estando inserida nos chamados “grupos de risco” – o que as isentaria de qualquer relação com a Aids –, desconsiderando, assim, o conceito de “comportamentos de risco” (que, mesmo sendo menos estigmatizador, também oferece problemas em termos de

90

A imprensa assumiu o discurso da “peste gay”, “câncer cor-de-rosa” etc., e a ciência,

num primeiro momento, foi responsável pela formação dessa imagem. A associação Aids/homossexualidade parecia definitivamente estabelecida:

O primeiro comunicado médico que ouvi a respeito da doença que depois foi denominada Aids chegou no verão de 1981 da Universidade da

onde detectaram um conjunto de casos de pneumonia em

homossexuais jovens que moravam em Los Angeles (

Medicina de Nova York encontraram entre os homossexuais uma incidência de casos de sarcoma de Kaposi (KS), até então muito raros; quase ao mesmo tempo, colaboradores da Escola de Medicina Monte Sinai de Nova York comunicaram haver encontrado um conjunto semelhante de casos da mesma doença em homossexuais masculinos de Nova York. O sarcoma de Kaposi apresentava-se na forma de lesões roxas na pele, parecidas com as de câncer. Outros clínicos começaram a comunicar o aumento de volume de gânglios linfáticos de homossexuais masculinos jovens, assim como um aumento na incidência de um estranho linfoma de célula B (Gallo, 1994: 139).

Na Escola de

Califórnia (

)

)

Coincidência ou não, apenas homossexuais apareciam associados ao início da doença. A comunidade científica, que desde os primórdios da Aids identificou-a como uma doença nova e rara, sendo documentada pela primeira vez e sem precedentes na história, divulgou tal associação baseada no que considerava evidências, e os meios de comunicação reforçaram essa visão. Foi criado o termo “grupos de risco”, talvez uma

forma de tranqüilizar a sociedade: se você não fosse gay, drogado, promíscuo, estaria salvo. E claro, nenhum de “nós” o seria, apenas os outros.

A partir dessa identidade de “grupo de risco” é que foram se estabelecendo a maior parte

dos preconceitos que se tornaram elementos fundamentais para a transformação da Aids

em epidemia, já que a doença parecia estar sempre associada a comportamentos considerados “desviantes” pela sociedade:

Nos Estados Unidos quase todos os indivíduos que apresentaram os primeiros sinais de infecção eram homossexuais residentes em Nova York ou em San Francisco. Os sintomas observados com maior freqüência eram fraqueza, calafrios, gânglios linfáticos inchados e em muitos casos, surpreendentemente, manchas roxas na pele, características de um certo tipo de câncer de desenvolvimento lento que fora detectado antes em homens de certa idade de ancestralidade mediterrânea. Esses sintomas forneceram mais uma pista aos médicos: uma queda precipitada da contagem de células de glóbulos brancos, particularmente da contagem de linfócitos CD4. Em poucos anos a doença hoje denominada Aids começou a devastar a comunidade homossexual. Pouco tempo depois percebemos que qualquer pessoa que precisasse de uma transfusão de sangue também estava arriscada a contrair o agente da Aids (Gallo, 1994:

138).

A Aids foi marcada como uma doença moral, adjetivando a morte do portador do HIV por meio de códigos socialmente constituídos. Em consonância com as próprias expectativas da sociedade em geral, a ciência identificava anticorpos do vírus HIV no organismo de pessoas que podiam facilmente ser delimitadas dentro de um “grupo” com determinados códigos de comportamento. Estava firmado o preconceito, o terror e o isolamento, esquecendo-se que, no entanto, grupos humanos não são isolados, nem estanques. Dava-se muito mais importância, por exemplo, ao contágio pelo HIV via drogas introvenosas ou relações homossexuais. Esqueceu-se que um modo também comum de transmissão, a transfusão de sangue contaminado, poderia afetar qualquer pessoa, muitas vezes sem que esta nem ao menos soubesse (já que o vírus pode ficar latente vários anos). No final da década de 80, a história da Aids, como toda narrativa, já possuía muitas datas e fatos:

92

Em 1981 a doença foi identificada. Em 1983 o agente responsável por ela foi isolado pela primeira vez. Em 1984 a demonstração do papel causal desse agente na Aids foi aceita por toda a comunidade científica. Em 1985 surgiram os primeiros testes comerciais de detecção. A rapidez desse avanço conseguiu gerar a crença de que a luta contra a Aids seria uma guerra relâmpago, rapidamente ganha. Hoje, é uma guerra de posição que travamos (Montagnier, 1995: 9).

Nessa época, a Aids, que já fazia parte do cenário internacional, ganhou ampla repercussão nacional, ainda que tardiamente. A imprensa não parava de noticiar os novos avanços da ciência e os acontecimentos sociais a ela ligados: “Fiocruz estuda relação com mal de Chagas”; “Juiz aceita pedido de indenização de médica que contraiu Aids em NY”; “França investe US$ 113 milhões em educação e pesquisa sobre Aids”; “Igreja Católica acredita que aidéticos são ‘satanizados’ na América Latina”; “Aids ainda é considerada ‘doença capitalista’ na União Soviética”; “OMS calcula em 10 milhões os contaminados no mundo” 5 . O percurso dessa doença causava certo estranhamento. Primeiro, afirmaram que só afetava homossexuais masculinos. Logo depois, surgiu a história dos macacos africanos que teriam transmitido o vírus aos humanos. Em seguida, usuários de drogas começaram a ser infectados. Até esse momento, apenas grupos considerados marginais, fora-da-lei, desviantes haviam sido infectados. Estava criado o estigma do “grupo de risco”: pessoas que possuíssem determinados comportamentos estariam mais sujeitas à infecção pelo HIV. Mas surgiram novas descobertas: o vírus é encontrado em mulheres, heterossexuais, crianças. E outra síndrome foi criada – a do pânico. As pessoas se perguntavam se faziam ou não parte dos tais “grupos de risco”; contavam com quantos parceiros já haviam tido relações sexuais, se algum deles teria sido “de risco”. Aids virou sinônimo de medo, vergonha e pecado.

5 Manchetes extraídas do jornal Folha de S. Paulo, dos dias 1/12/88, 5/11/80, 5/11/80, 6/10/87, 1/12/88, 1/12/88, respectivamente.

93

Mais algum tempo, e o próprio conceito de “grupo de risco” começou a ser questionado:

se somos homens, mulheres e crianças, não estaríamos todos arriscados? A resposta a essa pergunta não tardou. De estrangeiros distantes, a imprensa passou a falar de pessoas famosas do Brasil mesmo: artistas, cantores, escritores. Vieram os Cazuzas, Lauros, Claudias. Mais alguns meses e já se ouvia: “Meu primo tem um amigo que tem um tio que tem um vizinho que está com Aids”. Ou: “Minha tia tem uma amiga que tem uma

O cerco foi se fechando: minha tia tem uma vizinha, minha vizinha tem um

filho, minha tia, minha amiga, meu irmão, minha filha. Eu? No início dos anos 90, era difícil não conhecer alguém que não conhecesse alguém com Aids. A doença foi se aproximando, as pessoas começaram a se dar conta de que poderia ser com elas. Para uma doença que se propaga em progressão geométrica, já era tarde. De repente, aconteceu. Dois amigos meus, entre 30 e 40 anos, e uma amiga, ela muito jovem nos seus 16, souberam-se soropositivos. Ainda que envergonhadamente, confesso:

foi aí que me dei conta de que somos todos mortais. Mas a Aids já havia se caracterizado como uma doença “moral” antes mesmo de ser mortal. Émile Dickens escreveu: “É uma doença em que a morte e a vida se acham tão estranhamente fundidas que a morte toma o brilho e a cor da vida, e a vida toma a forma sombria e terrível da morte” (Dickens, apud Mariguela, 1995: 9). Não falava da Aids, mas de outra doença mortal, mal de seu século: a tuberculose. Como bem indicou Susan Sontag, de tempos em tempos surgem doenças que se caracterizam como metáforas. Tal concepção é exemplar para tratar dos problemas relativos à Aids.

sobrinha”

As fantasias inspiradas pela tuberculose no século passado, e pelo câncer agora, constituem reflexos de uma concepção segundo a qual a doença é intratável e caprichosa – ou seja, um mal não compreendido –, numa era em que a premissa básica da medicina é a de que todas as doenças podem ser curadas. Tal tipo de enfermidade é misterioso por definição. Pois enquanto não se compreendeu a sua causa, e as prescrições dos médicos mostraram-se ineficazes, a tuberculose foi considerada uma insidiosa e implacável ladra de vidas. Agora é a vez do câncer ser a doença que não bate à porta antes de entrar (Sontag, 1984: 7).

94

Em anos recentes, o câncer perdeu parte de seu estigma devido ao surgimento da Aids, uma doença cuja capacidade de estigmatizar, de gerar identidades deterioradas, é muito maior. Toda sociedade, ao que parece, precisa identificar uma determinada doença com

o próprio mal, uma doença que torne culpadas as suas “vítimas”; porém, é difícil

obcecar-se por mais de uma. Em se tratando de uma doença ainda não inteiramente conhecida, além de extremamente resistente a tratamentos e, até o momento, incurável, o advento dessa nova e terrível epidemia – nova ao menos nesse sentido – proporcionou uma excelente oportunidade para a metaforização da moléstia (Sontag, 1989: 20; 21).

Durante dez anos, idéias distorcidas sobre a Aids foram sendo alicerçadas, talvez devido

à associação morte–sexo estabelecida. Falava-se muito mais do “doente” do que da

doença. A curiosidade deslocou-se para os “aidéticos”, identificados como parte de um grupo de seres humanos “diferentes”, “anormais”, que fugiam dos códigos coletivos, estabelecendo padrões próprios de busca do prazer ou vivendo formas de relacionamento diferentes das consagradas pela maioria moral. Por outro lado, nunca se pergunta ao “hepatético”, por exemplo, onde e como ele pegou hepatite (Paiva, 1992: 8), caracterizando de forma clara as relações entre a doença Aids e seu doente.

É comum ouvir, quando se sabe de alguém com câncer, manifestações de pesar e

lamentações. Entretanto, quando alguém é portador do vírus da Aids, é visto como transgressor, culpado. O “aidético”, assim colocado, não é digno nem de pena. Seria de

se esperar que, mais de dez anos depois da descoberta do HIV como sendo o retrovírus

causador da Aids, mudanças já tivessem ocorrido, ainda que lentamente, em termos de mentalidades e posturas sociais e individuais com relação à doença. Entretanto, é inquietante que ainda hoje um filme recente produzido por Hollywood tenha cristalizado um sentimento que não se diferencia muito do quadro inicial quanto à doença. No filme Filadélfia, o personagem interpretado por Tom Hanks, homossexual, alega ter sido despedido da empresa onde trabalha – e é considerado como tendo uma carreira de sucesso – por contrair Aids. Um dos argumentos usados pela advogada de defesa da empresa para negar que aquela tenha sido a razão da demissão é o fato de que uma outra funcionária, também portadora do vírus, não é desligada da empresa. Essa outra

95

funcionária havia contraído o HIV por meio de uma transfusão de sangue, o que a isentaria da culpa pela doença. Esse caso é exemplar para ilustrar que a Aids caracteriza-se ainda hoje como uma doença envolta em julgamentos, preconceitos, juízos de valor, questões morais e de comportamento: quer-se sempre saber “como” a pessoa passou a ser portadora, o que ela fez de “errado”. Diferencia-se, dessa forma, de muitas outras das doenças atuais. Algumas delas já foram consideradas estigmas em outros tempos: a tuberculose, já referida anteriormente, era associada, no final do século passado, a comportamentos boêmios e desregrados, a artistas, escritores, poetas. Sinal dos tempos, talvez. Ou a eterna necessidade humana de encontrar sempre culpados, ainda que inocentes. Em 1995, pôde-se acompanhar, pelos jornais, a prisão de uma portadora do vírus HIV no interior do Estado de São Paulo, veiculada pela imprensa em abril daquele ano: “O juiz Emílio Gimenez Filho, de Paraguaçu Paulista (510 km a oeste de São Paulo), condenou anteontem a um ano de prisão Selma Regina de Jesus, 36, acusada de contagiar seus parceiros com vírus HIV, do qual é portadora” (Folha de S. Paulo, 12/04/95, p.3-1). A prisão de Selma parece efetivar, fundamentada juridicamente, a exclusão social do portador do HIV. Quais seus efeitos sociais e suas dimensões morais sobre a representação social da Aids? Os media, arena desse debate, em seu trabalho de vertiginosa busca do novo procuram manter-se na linha da “neutralidade da notícia”. Em vez de promover debate, relatam o acontecimento pelo que tem de inusitado, de atual. Lembro-me da minha amiga de 16 anos. Lembro-me de como foi difícil para ela conviver com sua soropositividade e, ao mesmo tempo, parecer “normal” a seus amigos

adolescentes, tão críticos e exigentes como só os adolescentes sabem ser. Suas perguntas

Como ter

namorados? Como arranjar emprego? Além das perguntas do cotidiano, a morte, a dor e

eram simples, até ingênuas: como contar para eles (e não contou

)?

o

sofrimento, sempre longo, que se impingiram à Aids, e que ela, mesmo assintomática,

pressentia. “Mas ela só tem 16 anos!”, pensava.

Lembro-me da minha própria adolescência, de como a morte era algo ao mesmo tempo dramático e distante. Repeti, inúmeras vezes, que se tivesse algum acidente ou doença

séria preferiria morrer rapidamente. Mas como, agora, dizer para essa menina que ela

96

devia morrer? Ao contrário, gostaria que ela vivesse muito, e fosse feliz, mesmo que apenas por alguns meses, ou alguns anos, ou muitos anos, quem sabe. Sete anos se passaram e ela continua viva, saudável e cheia de sonhos. Mesmo soropositiva, faz parte dos chamados “assintomáticos” – pessoas que nunca desenvolveram qualquer sinal da doença – e surpreende por sua demonstração de força, equilíbrio e esperança. Hoje, sabe-se que terapias de prevenção e de tratamento da Aids são só uma questão de tempo. Até lá, há que criar meios na sociedade para que os soropositivos possam viver bem e integrados até que elas venham, para que novas imagens – mais positivas – sejam associadas a esta doença. Para os não-infectados, a prevenção é o melhor caminho, apesar da dificuldade em estabelecê-lo. Em relação à epidemia, estimativas da Organização Mundial de Saúde divulgadas pela Folha de S. Paulo (09/07/96, p.1-12) calculam que, até o ano 2000, 44 milhões de pessoas estarão infectadas em todo o mundo pelo HIV. Atualmente, cerca de 22 milhões de pessoas no mundo são portadoras do vírus. Tratamentos eficazes ou vacinas ainda não foram descobertos, mas já se sabe como a Aids é transmitida: através do sangue, esperma ou leite materno contaminados. Para não ser contaminado, é necessário evitar o contato com esses líquidos das pessoas já infectadas pelo HIV, ou soropositivas. Entretanto, evitar esse contato significa modificar e interferir em padrões de comportamento, valores éticos, morais, sociais e culturais das pessoas. Nesse sentido, a Aids pode ser caracterizada como uma doença singular, que pode mudar padrões de comportamento e idéias, que obriga a repensar valores e conceitos, questionar posturas e concepções. Como expressado por Betinho, em uma palestra proferida em 1987, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo:

Meu tema é direitos humanos e doenças epidêmicas, e eu vou tratar da questão da Aids. Estou convencido de que a Aids é uma doença revolucionária. Ela recoloca de forma radical para a nossa sociedade, tanto brasileira quanto internacional, uma série de problemas vitais que durante muito tempo tentamos ignorar. Nossa cultura foi se afastando do real e tenta ignorá-lo, ao invés de desafiá-lo. A medicina moderna foi criando uma idéia de onipotência e nos dizia, de forma indireta, que todas

97

as doenças eram curáveis e que finalmente a morte não podia existir.

E eis

que surge um vírus, o HIV, que se esconde no sistema imunitário e está

Estávamos já tratando o câncer como a última doença mortal (

)

produzido o pânico do século XX (Souza, 1994: 11).

Associando sexo, sangue e morte, a Aids trouxe à superfície medos ancestrais e desvelou a própria fragilidade das sociedades contemporâneas em relação ao diverso, divergente. Os inúmeros preconceitos em relação à Aids e ao portador do HIV explicitaram os preconceitos que a sociedade guarda com relação às pessoas. A combinação desses elementos, por si só, já é motivadora de mudanças e questionamentos: pode-se agir em relação à Aids como se ela não existisse – isolando aqueles por ela afetados de forma concreta (nos chamados “asilos”) ou de forma simbólica (pelas estruturas sociais) – ou pode-se criar novas formas de relações humanas e concepções sobre a vida e a morte por meio dela.

Este vírus, sob todos os aspectos, apareceu de forma espetacular, mortal, com manifestação rápida, fulminante, sem cura. E, até o presente momento, sem nenhum meio de ataque direto que possa destruí-lo. Ele se transmite através da relação sexual. A relação sexual, queiramos ou não, é vital para a humanidade e é universal, e na nossa cultura está marcada por todo tipo de preconceito, culpabilidade, pecado, danação, inferno. Ele veio relacionado também ao sangue, que é outro elemento universal na cultura da humanidade; o sangue está na nossa cultura sob mil formas, há pessoas que entram em pânico quando o vêem, embora seja parte constituinte da nossa realidade. E o vírus se transmite, fundamentalmente, pelo sangue, mata-nos através do sangue (Souza, 1994: 13).

Mas esse vírus também vinha associado a uma coisa já lembrada, e

) (

muito brutal para a nossa cultura enfrentar: a morte. Uma nova doença passou a revelar para o século XX que a morte é absolutamente inevitável (Souza, 1994: 14).

98

Falar de Aids é, portanto, falar de morte. A morte no fundo. É falar de sexualidade, um dos discursos que a recobre. A sexualidade não seria, ela mesma, a morte? O ser humano constitui-se como um ser pela falta. O real é sempre este ausente. Vive-se em função de desejos, demandas, daquilo que falta. Há sempre um a mais, que falta, e é nesse ciclo da

falta, de ir atrás do que falta (para completar-se, nostalgia de um todo que um dia teria

sido mas nunca foi

Sem a falta não haveria mudanças, transformações, criação, nem mesmo movimento. Quando não há falta, quando não falta nada, isto é a morte. O ser humano só deixa de desejar – de querer o algo “a mais” – quando morre. O sexo, sua consumação no orgasmo, é o que de mais próximo há da morte – aquela sensação, ainda que fugaz, de

que se está completo (no outro), de que nada falta. A própria morte, ali, corporificada. A morte tão temida. A Aids, como nenhuma outra doença, reúne dois termos de uma equação complexa: a sexualidade e a morte. É, ela mesma, a materialização dessa sexualidade que mata. Em seu caso, literalmente. Em sua narrativa, esses fantasmas espreitam. À espera. Como entrar no universo da sexualidade – dos interditos, do proibido – com a morte tão presente? Há também na língua zonas proibidas, fechadas, interditas. Há palavras que não são feitas para falar,

A

ainda que se saiba delas. São palavras inomináveis, impronunciáveis, indizíveis

música do “Tchan”, do grupo Gerasamba, tornou-se sucesso nacional no Brasil na época

do carnaval de 1996. Seu refrão diz apenas: “Segura o tchan, amarra o tchan, segura o

tchan, tchan, tchan, tchan, tchan

Mas o que seria esse “tchan”? Ainda que esta não seja, no eixo sintagmático da língua, uma palavra com algum significado, em seu eixo paradigmático sabe-se das possibilidades de escolha e substituição para este termo. As pessoas que ouvem, cantam

e dançam a música sabem o que é o “tchan”, ainda que este seja impronunciável. Sabem do seu significado, dos possíveis significados dos quais esse significante “tchan” pode se revestir. Coloca-se aqui a autonomia da língua em relação ao sentido, pois a ela é

a língua se utiliza bem de

possível “significar outra coisa do que diz”. Nesses casos, “(

outra coisa para dizer aquilo que diz, se a tomarmos palavra por palavra. Um pouco à maneira do chiste, onde uma verdade se faz entender entre as linhas, graças às possíveis

acrobacias com as palavras” (Lemaire, 1986: 83).

),

ir atrás dos desejos, que o ser humano se move.

”,

acompanhado de uma coreografia sugestiva.

)

99

Todo o repertório sobre a sexualidade, os nomes feios, os palavrões, os xingamentos, faz parte dessa zona proibida e impenetrável, ao menos que se transgrida a lei, ou que se o diga nos locais e horários permitidos (pois há, sim, o momento certo mesmo para o que não deve ser dito). Nesse mundo dos não-ditos, dos mal-ditos (e dos mal-entendidos), é que se inscreve também a Aids. Por estar tão inseparavelmente ligada à sexualidade, dela não se pode dizer. Como então trabalhar com os seus lugares comuns de prevenção- campanhas-controle-comportamentos? Como desfazer preconceitos-prejuízos- esteriótipos? Como não se sentir só, irremediavelmente sozinho, no meio dessa humanidade que criou tantas exclusões, proibições, interdições e interditos? Talvez por isso, as campanhas de prevenção oficiais no Brasil tenham sido sempre tão ruins, pobres, frutos de uma moral-moralista pesada, reflexo dos nossos próprios traços culturais. Talvez por isso sejam coisas tão complicadas. Como fazer campanhas públicas

e massivas de algo que não pode ser dito? Como divulgar aquilo que deve ser escondido,

que deve ficar nos cantos escuros da linguagem? Essas perguntas, de fundamental importância em se tratando de prevenção à Aids, escapam aos limites deste trabalho. Mas podem ser feitas em relação aos escritos do jornal a ser pesquisado, já que em seus

interditos pode ser lido o “saber que não se sabe”, aquele saber que o sujeito não sabe

que sabe, saber impossível mas que pode ser inter-dito: “(

esse saber impossível é

censurado, proibido, mas não o é se vocês escreverem convenientemente o inter-dito, ele é dito entre palavras, entre linhas. Trata-se de denunciar a que sorte de real ele nos permite acesso” (Lacan, 1985: 162). É esse saber não sabido e escrito entre os ditos das narrativas da Aids que será buscado neste trabalho, por meio das leituras das matérias do jornal Folha de S. Paulo. O trajeto destas leituras será traçado a seguir.

)

3.2. aids: narrativas no jornal folha de s. paulo

Esta pesquisa busca traçar uma trama re-velando de que forma a questão da Aids se

articula numa grande narrativa tecida pelos discursos instituintes da sociedade, entre eles

o jornalismo. Ao final, poderá ser re-velada uma grande narrativa sobre a Aids que vai se

100

construindo pelos jornais a partir dos traços (pequenas narrativas) deixados na notícia enquanto produto cultural da linguagem. Para selecionar as matérias sobre Aids a serem lidas, optou-se por trabalhar com um jornal diário a partir da convicção de que o jornalismo é uma das instituições sociais contemporâneas e, portanto, instituído e instituinte, instituição na qual, das manifestações ali colocadas, algumas se cristalizam em significados. Considerado enquanto instituição, o jornal pode ser caracterizado como destinador do discurso sobre

a Aids por ele produzido, como aquilo que faz esse sujeito ser e existir. É possível dizer que tal processo aconteceu e vem ainda ocorrendo, de maneira exemplar, com relação à Aids.

O jornal Folha de S. Paulo tem publicado matérias sobre Aids com regularidade: “De

setembro de 1987 a dezembro de 1996, a Folha de S. Paulo publicou 7.074 matérias que, de alguma forma, faziam referência à Aids. Ao longo de quase uma década, foram duas matérias por dia. No ano passado, 1.550 reportagens trataram da doença, média de

4,24 matérias por edição referindo-se a algum aspecto da Aids” (Biancarelli, 1997: 144).

A matéria mais antiga sobre Aids a que se teve acesso para esta pesquisa data do dia 03

de junho de 1983. Por ser a primeira publicada pela Folha, é reproduzida a seguir.

Congresso debate doença comum entre homossexuais

Uma doença que a literatura médica registrou somente em 1981 e tem incidido com maior freqüência entre a população homossexual dos Estados Unidos, ocupou a maior parte dos trabalhos matinais do 2 o . Congresso Brasileiro de Infectologia, que se encerra neste Domingo, no Maksoud Plaza. Uma exposição sobre essa doença – conhecida como o “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ou simplesmente AIDS (Acquired immunne deficiency syndrome) – foi feita pelo médico norte-americano Warren Johnson, do hospital de Nova York, que ao apresentar dados sobre a alta taxa de mortalidade provocada por essa síndrome lamentou as dificuldades encontradas para combatê-la. Até agora, disse nem mesmo foi possível localizar o agente que a causa”.

101

Para o cientista Albert Sabin, também participante do Congresso, está havendo muito “alarde” em torno da doença. Ele alegou que ainda se sabe muito pouco sobre os motivos que levaram ao surgimento de tantos casos (1.366 nos Estados Unidos) em pouco tempo e indagou se essa doença é realmente nova ou “apenas foi reconhecida agora”. Sabin também criticou a insistência com que se procura definir as lesões de Kaposi – um dos mais freqüentes sintomas da AIDS – como sarcomas ou câncer. Para ele trata-se de granulomas que não são os responsáveis pela morte dos pacientes portadores do sintoma. Diante de uma atenta platéia com perto de 500 pessoas, Warren Johnson apresentou diversos dados levantados nos Estados Unidos, explicando que o aspecto clínico do paciente costuma evidenciar no início alguns sintomas leves – como febre, fadiga e falta de ar –, evoluindo posteriormente para infecções múltiplas. Sem imunidade para combater essas infecções, cerca de 50% dos pacientes acabam morrendo seis meses depois de diagnosticada a doença. A multiplicidade de infecções, acrescentou, dificulta ainda mais seu combate, aumentando o índice de mortalidade com o decorrer do tempo. Calcula-se que em dois anos deverão morrer 85% das pessoas que tiveram diagnosticada a doença a partir de 1979. A peculiaridade da AIDS também se verifica em moléstias que o paciente passa a contrair em conseqüência de suas deficiências imunológicas. O sarcoma, ou, como prefere Albert Sabin, o granuloma de Kaposi já foi definido há mais de 100 anos. Suas características, contudo, são diferentes nos casos diagnosticados como sendo vítimas dessa síndrome. O sarcoma, como era conhecido, afetava homens idosos e permitia uma sobrevida longa – de sete anos em média. Já os pacientes com AIDS que apresentam esse sintoma têm em média 34 anos e o período de sobrevida situa-se na média dos 24 meses. Além da população homossexual – na qual se registram 71% dos casos conhecidos nos Estados Unidos –, também junto aos dependentes de drogas ingetadas (sic) por vias intravenosa verifica-se uma incidência acentuada (grifos da autora).

102

Ainda devido ao congresso, no dia 06 de junho de 1983 foi publicada outra matéria:

Congresso termina com crítica de médico ao Inamps

“Chega a ser um absurdo que num País com tantas doenças infecciosas, o Inamps não tenha um especialista na área”. A crítica foi feita por Celso Carmo Maza, um dos

organizadores do 2 o Congresso Brasileiro de Infectologia, encerrado ontem em São Paulo. Com a participação de cerca de mil pessoas o Congresso foi considerado “um sucesso

científico e de público”. Maza informou terem sido discutidas inúmeras doenças novas, pouco conhecidas no Brasil, entre elas a AIDS Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ou doença de homossexuais.

A doença dos legionários – ainda não diagnosticada no Brasil – foi um dos novos temas

debatidos no Congresso. “Trata-se de uma doença nova, de três ou quatro anos”, explicou Maza. Durante o encontro foram discutidas também novas drogas para tratamento antivirales, como o Interferon, ainda não comercializado no Brasil. Albert Sabin foi, segundo os congressistas, a presença mais importante, lançando a possibilidade da vacina contra o sarampo por aerosol. Celso Maza afirmou que com isso “poderemos erradicar a doença na comunidade” (grifos da autora).

Após essas primeiras aparições, foram publicadas as seguintes matérias (grifos da autora): “Aids já preocupa países europeus” (06/07/83), “Programa contra Aids começa amanhã” (04/09/83), “Programa contra a Aids iniciado por Secretaria” (06/09/83), “Prevenção da Aids” (07/11/83), “Vírus da Aids espalha-se pelo mundo, advertem os cientistas” (11/12/84), nenhuma delas assinada por algum jornalista ou articulista específico.

O início de publicação das matérias (ao menos na Folha de S. Paulo, já que se tem

notícia que outros jornais diários, como Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo também publicaram matérias sobre Aids no início da década de 80) coincide com o ano em que o vírus foi isolado pela primeira vez. Antes dessa data, entretanto, já haviam sido acompanhados casos de contágio, sintomas e desenvolvimento da doença enquanto

103

epidemia. A descoberta do agente causador da Aids foi, assim, posterior ao aparecimento dos primeiros casos registrados, ocorridos já no final da década de 70 e início da década de 80. No Brasil, ações como campanhas preventivas ou controle de

qualidade dos bancos de sangue (com realização de testes para detectar possível infecção pelo HIV) passaram a ser feitos tardiamente, fato relatado pelas matérias.

O que se destaca nessas primeiras matérias é que, apesar de naquela época o

desconhecimento científico ainda ser grande em relação à Aids enquanto doença, alguns

elementos que permanecem nas matérias até os dias de hoje já começam a ser nelas cristalizados. Entre eles, destacam-se as referências aos homossexuais (“AIDS ou doença de homossexuais”) e usuários de drogas, o tom alarmista das matérias demonstrando que a ciência – que tudo sabe – não sabia sobre a doença e, de início, nem sobre seu agente transmissor, a idéia de que a doença “espalhava-se” pelo mundo, a imagem da doença como um “mal a ser combatido”. Foi assim que a Aids começou a escrever sua história pelos primeiros escritos sobre ela publicados na Folha de S. Paulo. Nos capítulos 4 e 5, são apresentadas leituras de matérias publicadas onze e doze anos depois dessas primeiras notícias.

O desenvolvimento do tema proposto na forma desta pesquisa identifica o discurso

articulador construído por meio da grande narrativa da Aids escrita pela imprensa – ela que é hoje assunto obrigatório nos jornais –, discurso esse impregnado por todas as construções imaginárias que cercam a Aids. A partir da análise dos jornais, a pesquisa identifica os significantes que geram tais efeitos de significados cristalizados por meio da leitura daquilo que se repete nos textos, de suas re-ocorrências. Para tal leitura, o jornal será considerado como ordenador de discursos nos quais é possível destacar uma estrutura narrativa, conceitos já explicitados anteriormente.

É este movimento que será apresentado a seguir, em forma de descrição e análise das matérias do jornal selecionadas para esta pesquisa.

104

capítulo 4

4. primeiras leituras, temáticas da aids: narrativas

“De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia

da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza

inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer, faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada. De repente, dei-me conta de que a cura da Aids existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.” Herbert de Souza, A cura da Aids

mesmo que a morte seja

A pesquisa se propõe, no primeiro momento, a organizar uma descrição geral do corpus, para, num segundo momento, analisá-lo à luz dos referenciais teóricos propostos pelas ciências da linguagem. Esta pesquisa, como pode ser percebido pelos referenciais teóricos com os quais trabalha, não se caracteriza como uma pesquisa “quantitativa” ou como simples “análise de conteúdo” de matérias de jornal. Ao contrário, ao inserir-se nas ciências da linguagem parte dos pressupostos da narrativa e do discurso em sua articulação de significantes e significados, além de tratar de forma também específica o próprio sujeito falante envolvido nos processos comunicacionais. Entretanto, antes de proceder a análise do corpus à luz dos conceitos propostos, foi necessário desenvolver um quadro geral de referência, contendo dados básicos sobre as matérias selecionadas, aqui chamado de Primeiras leituras. Assim, neste capítulo será apresentada a organização temática das matérias selecionadas para, num segundo momento, introduzir esse quadro geral de referência (já englobando as 31 matérias de jornal constituintes do corpus), dividido em três partes: a) descrição

105

geral das edições selecionadas; b) matérias sobre Aids publicadas a cada edição; c) descrição das matérias sobre Aids publicadas a cada edição. Toda classificação por temas ou categorias é falha e pode apresentar incorreções e imprecisões. Por exemplo, é possível que uma mesma matéria possa ser incluída em mais de um grupo, ou que algumas matérias, por serem muito específicas, escapem às categorias assinaladas. Entretanto, faz-se aqui uma tentativa de numa primeira leitura organizar as matérias em grandes categorias, já apontadas no item da introdução que trata do corpus da pesquisa, mesmo correndo o risco de se parecer superficial. Sempre que houve dúvida, o critério de decisão foi por aproximação, ou seja, a matéria foi colocada no grupo com o qual mais se identificava. Isto dito, faz-se necessário, ainda, assinalar que seria no mínimo incoerente, após fazer as análises aqui colocadas sobre o jornalismo, os media, os processos comunicacionais e a própria estrutura da linguagem, supor ou sugerir que tais classificações não sejam arbitrárias. Ao fazê-las, não estão nelas implicados critérios de objetividade ou de distanciamento. Ao contrário, há absoluta convicção de que desde a escolha dos títulos gerais para cada uma das categorias até a inclusão das matérias em uma ou outra, o que influenciou foi apenas a própria determinação pessoal e subjetiva da pesquisadora, o subjetivo aqui entendido como referido ao “sujeito falante” e, portanto, determinado por processos inconscientes/conscientes em suas escolhas. As categorias abaixo foram escolhidas por serem as que mais se repetiram ao longo das matérias:

I. Estado (legislação, saúde pública, convênios médicos). II. Pessoas (soropositivos, homossexuais, pessoas afetadas ou não-afetadas pela Aids, direta ou indiretamente). III. Ciência (descobertas científicas, informações médicas, medicamentos, testes de novos remédios). IV. Questões sociais (grupos organizados, eventos, pesquisas sociológicas, drogas).

Distribuindo as matérias analisadas nessas categorias, tem-se os seguintes quadros (os números entre parênteses referem-se à numeração de cada uma das matérias conforme aparecem nos quadros gerais de referência, por ano, posteriormente descritos).

106

I. Estado (legislação, saúde pública, convênios médicos)

1. Câmara analisa projeto para plano de saúde

08/02/94 (3)

2. Ministro define regra para convênio médico

16/03/94 (4)

3. Filmes ironizam convênio de saúde

16/03/94 (5)

4. Zurique quer deixar de ser centro de drogas

14/02/95 (1)

5. Novo convênio cobre terapias alternativas

15/03/95 (2)

6. Novos rumos na política de drogas alemã

09/04/95 (4)

7. Falta paz na saúde de São Paulo

05/05/95 (7)

8. Justiça italiana caça imunidade penal de aidético

22/10/95 (13)

9. Fiocruz vai ter hospital para tratar aidéticos

23/12/95 (18)

II. Pessoas (soropositivos, homossexuais, pessoas afetadas ou não pela Aids)

1. Atualidade determina o preço de ser feliz

03/01/94 (1)

2. Inglês é preso por falsificar documentos de namorado

28/04/94 (6)

3. Xuxa diz que aceita fazer teste de HIV

28/04/94 (7)

4. Paixão homossexual é novo tema de Begley

17/07/94 (10)

5. “Morango e chocolate” vinga sonho tropical

23/08/94 (11)

6. Bispo anglicano defende sacerdotes homossexuais

09/04/95 (5)

7. As agonias da confissão

09/04/95 (6)

8. Os gays e a visita do papa

06/09/95 (12)

9. Pacientes fogem de médicos no final do ano

23/12/95 (16)

10. 47% dos gays não usam preservativos

23/12/95 (17)

107

III.

Ciência (descobertas científicas, informações médicas, medicamentos,

testes de novos remédios)

1. A pílula não é para todos

03/01/94 (2)

2. Água pode transmitir infecção a aidéticos

06/05/94 (8)

3. Produtora carioca é a 1 a . voluntária a se

submeter à

15/03/95 (3)

vacina anti-Aids

4. Exame de audição pode detectar HIV

10/06/95 (8)

5. Falta de voluntários atrasa pesquisa de Aids

17/07/95 (9)

6. Doente grave deve receber nova droga contra HIV

06/09/95 (11)

7. Substância bloqueia “Aids de macacos”

17/11/95 (14)

8. Ser unicelular pode ativar HIV

17/11/95 (15)

IV.

Questões sociais (grupos organizados, eventos, pesquisas sociológicas,

drogas)

1. Sedes se preparam para festival erótico

11/06/94 (9)

2. Sexo exótico perde fogo na Gringolândia

13/10/94 (12)

3. Preconceito também mata

24/12/94 (13)

4. Brasileiros (quem diria) anunciam cura da Aids

06/09/95 (10)

As principais características de cada uma das matérias, com seus títulos e datas, quantidade de matérias encontradas por dia, referências que nelas se faz à Aids, página e caderno da publicação, ilustrações e fontes (definidas aqui como origem da matéria em relação a quem a redigiu ou de onde foi retirada a informação) serão apresentadas a seguir, em textos e quadros de referência.

108

4.1. descrição geral das edições selecionadas

Esta primeira parte irá descrever as vinte edições selecionadas nas quais apareceram matérias sobre Aids (dez em 1994 e dez em 1995) de forma genérica, considerando as principais matérias veiculadas no dia, o número de páginas da edição do jornal e as divisões dos cadernos e editorias. Tem como objetivo possibilitar a localização das matérias sobre Aids no todo da edição em que estão inseridas, visualizando-as, portanto, em relação a outras matérias do dia.

1994

DIA 03/01/94 (segunda-feira) Edição com 42 páginas; 8 de Folhateen, 2 de Acontece SP; 477.725 exemplares Índice: 1 brasil; 2 negócios/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 folhateen

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para ILUSTRADA e FOLHATEEN.

“Collor fez acordo com ‘anões’ do Orçamento”, que afirma a inclusão de propostas de liberação de recursos dos “anões” no projeto orçamentário de 92 antes deste ser enviado ao Congresso (p.1-5). Manchete em duas colunas.

“Impostos sobem a partir de hoje”, sobre as novas alíquotas dos tributos (Imposto de Renda, IPMF, tarifas bancárias, IOF) (p.1-4, 1-5 e 2-4). Manchete em quatro colunas, com gráfico ilustrativo em duas colunas.

Foto-legenda: “FERIADO LEVA UM MILHÃO AO GUARUJÁ O primeiro fim- de-semana do ano atraiu ao Guarujá (SP) mas de 1 milhão de pessoas (na foto, a praia de Pitangueiras), segundo a prefeitura da cidade”. Em quatro colunas.

Foto-legenda: “Policial pára mas não multa carro em que Fernando Henrique Cardoso (à esq.) ia para Angra em alta velocidade; ele e Antônio Britto (PMDB-RS) fecharam acordo para a sucessão presidencial” (p.1-5). Em três colunas.

DIA 08/02/94 (terça-feira)

109

Edição com 66 páginas; 18 de Classifolha, 4 de Agrofolha, 2 de Acontece SP; 468.437 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 agrofolha; 7 classifolha

Destaques na primeira página

SÃO PAULO “Chuvas isolam litoral paulista”, sobre chuvas na Baixada Santista e Litoral Sul que deixaram aproximadamente 900 pessoas desabrigadas (p.3-1- a 3-5). Manchete em quatro colunas, com foto em três colunas.

“Fernando Henrique Cardoso cobra Congresso e afirma estar no ‘limite’”, sobre o ministro da Fazenda, que teria cobrado “responsabilidade” do Congresso em cadeia nacional de rádio e TV (Brasil). Manchete em duas colunas.

BOA NOTÍCIA “Projeto beneficia portador de Aids”: “Começou a tramitar ontem na Câmara dos deputados projeto já aprovado pelo Senado que proíbe os planos de saúde de recusarem tratamento a doenças infecto-contagiosas ou crônicas, como Aids e diabetes” (p.3-8). Box em uma coluna.

DIA 16/03/94 (quarta-feira) Edição com 78 páginas; 24 de Informática, 4 de Acontece SP; 473.610 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 informática

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para DOMINGO e INFORMÁTICA

“Revisão mantém voto obrigatório”, sobre rejeição de parlamentares de introdução de voto facultativo nas eleições, por 236 a 193 votos (p.1-12). Manchete em seis colunas.

“Cid Moreira lê resposta de Brizola no ‘Jornal Nacional’”, sobre direito de resposta ganho por Brizola para rebater críticas e ele feitas na Globo no Jornal Nacional (p.1- 11). Manchete em uma coluna.

“Arcebispo é refém de presos no Ceará”, sobre um grupo de onze detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate, na Grande Fortaleza, que fugiu do prédio levando

110

catorze reféns, entre eles d. Aloísio Lorscheider (São Paulo). Manchete em duas colunas, com foto em três colunas.

DIA 28/04/94 (quinta-feira) Edição com 106 páginas; 28 de Classifolha, 20 de Turismo, 2 de Especial Via SP, 4 de Especial Acontece SP; 479.348 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 turismo; 7 classifolha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para DOMINGO, TURISMO e DINHEIRO.

EDITORIAL, na íntegra, publicado na capa, lado esquerdo, sobre a revisão constitucional, criticando os procedimentos até então adotados. Em duas colunas.

“Aliança impede votação e MP do plano é reeditada”, sobre aliança da bancada ruralista com os partidos de esquerda (PT, PDT, PSB e PCdoB) que impediu a votação da medida provisória da Unidade Real de Valor.

Foto-legenda: “Ricardo Fiuza se defende na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que vota hoje o pedido de cassação do deputado por irregularidades no Orçamento”(p.1-4). Em duas colunas.

Foto-legenda: “O goleiro são-paulino Zetti faz defesa em lance do empate (0 a 0) com o Palmeiras no Pacaembu pela Libertadores; os times se enfrentam domingo pelo Paulista” (p.4-1). Em duas colunas.

DIA 06/05/94 (sexta-feira) Edição com 84 páginas; 8 de Especial Senna, 2 de Especial Via SP, 8 de Especial Liga Mundial, 12 de Especial Acontece SP; 516.112 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada

Destaques na primeira página

Chamada no alto da página, em três colunas, para DOMINGO.

111

“Senna tem honras de presidente no enterro”, sobre enterro do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, no cemitério do Morumbi, em São Paulo (Senna). Manchete em duas colunas, com foto em quatro colunas.

“Lula sobe e Fernando Henrique cai”, com resultados da nova pesquisa Datafolha sobre eleições presidenciais (p.1-7). Manchete em seis colunas, com gráfico em duas colunas.

DIA 11/06/94 (sábado) Edição com 108 páginas; 30 de Classifolha, 12 de Folhinha, 2 de Especial Via SP, 4 de Acontece SP, 6 de Especial Vacinação; 497.135 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 copa 94; 5 ilustrada; 6 folhinha; 7 classifolha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para AMANHÃ e ESPECIAL VACINAÇÃO.

“Itamar quer limitar juros a 12%”, sobre preocupação da equipe econômica com altas taxas de juros, o que levaria a um descontrole do real (p.1-5). Manchete em seis colunas.

“Titulares goleiam por 10 a 0 sem o meia Raí”, sobre jogo de treino da seleção brasileira de futebol em que os reservas jogaram contra os titulares (Copa 94). Manchete em uma coluna, com foto em três colunas.

Foto-legenda: “Damon Hill, sexto ontem, passa pela inscrição ‘Senna vive’ no treino para o GP do Canadá em que Alesi (Ferrari) fez a volta mais rápida; o grid será definido hoje” (p.4-7). Em duas colunas.

Foto-legenda: “Funcionários em greve da Universidade de São Paulo fazem passeata na av. Paulista; o protesto, unido ao de servidores da Saúde, causou congestionamento de 14 km” (p.3-4). Em três colunas.

DIA 17/07/94 (domingo)

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Edição com 262 páginas; 16 de Mais!, 22 de Empregos, 12 de Tudo, 20 de Veículos, 24 de Imóveis, 16 de TV Folha, 64 de Revista da Folha, 4 de Acontece SP, 12 de Autofolha, 4 de Especial Atlas, 8 de Fascículo; 734.616 exemplares Índice: 1 brasil; 2 finanças; 3 mundo; 4 são paulo; 5 copa 94; 6 mais!; 7 empregos; 8 veículos; 9 tudo; 10 imóveis

Destaques na primeira página

“É hoje a decisão do tetra”, sobre final da Copa do Mundo de futebol com disputa entre Brasil e Itália, os dois atuais tricampeões mundiais, que já se enfrentaram em finais cinco vezes (Copa 94). Manchete em seis colunas, com foto em quatro colunas.

ESPECIAL “Folha lança atlas em dezenove fascículos” (Atlas). Box em duas colunas.

DIA 23/08/94 (terça-feira) Edição com 78 páginas; 26 de Classifolha, 4 de Especial Supereleição, 8 de Agrofolha, 4 de Acontece SP, 2 de Especial Via SP; 458.447 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 agrofolha; 7 classifolha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para ATLAS e DINHEIRO.

“Vantagem de FHC vai a vinte pontos”, sobre sucessão presidencial. Os vinte pontos de vantagem são em relação ao segundo colocado, Lula. FHC ampliou para cinco pontos a vantagem sobre a soma dos outros candidatos (Supereleição). Em seis colunas, com gráfico em três colunas.

Foto-legenda: “FHC grava programa do horário gratuito; o tucano disse que Ricupero ‘não entende nada de política’ ao comentar ontem declarações do ministro sobre o PSDB” (Especial, p.3). Em três colunas.

Foto-legenda: “Acompanhado da filha Lurian, Lula participa do ‘Programa Livre’, do SBT, em que disse que Brizola não está preparado para governar o país” (Especial, p.4). Em três colunas.

113

DIA 13/10/94 (quinta-feira) Edição com 90 páginas; 28 de Classifolha, 20 de Turismo, 4 de Fovest 95, 2 de Acontece SP, 2 de Via SP; 525.337 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 turismo; 7 classifolha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para ATLAS e BRASIL.

“TSE intervém na apuração no Rio”, sobre acompanhamento de agentes do Tribunal aos juízes que sofreram ameaças; há suspeita de fraude em votos da zona oeste da cidade (p.1-7). Manchete em seis colunas.

“FHC prepara revisão com Itamar”, sobre reunião entre o presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso, e o presidente Itamar Franco, para negociar a revisão constitucional (p.1-5). Manchete em duas colunas.

“Internados 19 após tumulto entre torcidas”, sobre briga entre torcedores do Corinthians e do Guarani em jogo do Campeonato Brasileiro realizado em Campinas (p.4-1). Manchete em uma coluna, com foto em três colunas.

Foto-legenda: “Luiz Antonio Fleury (PMDB) cumprimenta o candidato à sua sucessão Mário Covas (PSDB) em missa em S. Paulo para Ulysses Guimarães; o governador disse que ‘o caminho de Quércia não é o seu’, sinalizando apoio ao tucano” (p.1-7). Em quatro colunas.

Foto-legenda: “Instalação do artista Nuno Ramos, feita de parafina, foi danificada no 1 o . dia da Bienal, que fechou 3 horas antes do previsto devido ao excesso de público” (Via SP e p.5-1). Em duas colunas.

DIA 24/12/94 (sábado) Edição com 54 páginas; 14 de Classifolha, 2 de Acontece SP, 2 de Via SP; 541.640 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 classifolha

114

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para FOLHÃO e NATAL.

“FHC pede dossiê sobre ministros”, sobre encomenda de Fernando Henrique à SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) de dossiês sobre seus futuros auxiliares (p.1- 18). Manchete em seis colunas.

“Serra restringe crise ao México”, ao afirmar que a crise cambial mexicana não vai afetar o Brasil (p.2-1 e 2-3). Manchete em três colunas, com foto em duas colunas.

1995

DIA 14/02/95 (terça-feira) Edição com 92 páginas; 12 de Agrofolha, 16 de Autofolha, 2 de Acontece SP, 2 de Via SP, 16 de Classifolha; 541.313 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 agrofolha; 7 classifolha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para ILUSTRADA, AGROFOLHA e DINHEIRO.

“FHC veta socorro nas concessões”, sobre lei de concessões que foi sancionada com três vetos ao projeto do Senado, possibilitando que a iniciativa privada explore serviços tradicionalmente prestados pelo Estado (p.1-9 e 1-10). Manchete em seis colunas.

“Malan diz que país volta a ter superávit”, sobre resultado de transações financeiras com o exterior, de acordo com o ministro da Fazenda, superando o déficit do final de 1994. Manchete em duas colunas.

“Passa mudança salarial de Maluf”, sobre aprovação na Câmara Municipal de projeto de lei do prefeito Paulo Maluf que desvincula os reajustes aos servidores do crescimento da receita municipal. Manchete em duas colunas.

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Foto-legenda: “Em Campo Mourão (PR), o presidente acena a manifestantes com faixa contra o mínimo; FHC afirmou que há inchaço em universidades e que elas serão avaliadas” (Especial, p.A-1). Em três colunas.

Foto-legenda: “O funcionário municipal Paulo Siqueira de Souza, 32, eletricista do hospital Tide Setubal, é contido por manifestantes após ser ferido em choque com a PM junto à Câmara” (p.3-1). Em três colunas.

DIA 15/03/95 (quarta-feira) Edição com 88 páginas; 32 de Informática, 6 de Acontece SP e 2 de Via SP; 565.368 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada; 6 informática

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para INFORMÁTICA e SÃO PAULO.

“Cargos acirram disputa no governo”, sobre decisão do presidente FHC de acelerar preenchimento dos cargos federais (p.1-6). Manchete em seis colunas, com foto em três colunas.

“Borges leva 2 o . ouro na natação”, sobre a vitória do nadador brasileiro Gustavo Borges (medalha de ouro) nos 100m nado livre nos Jogos Pan-Americanos (p.4-6). Manchete em três colunas, com foto em três colunas.

“Serra quer reserva acima de US$ 25 bi”, sobre a intenção do governo em voltar a obter superávits na balança comercial para manter em nível “confortável” as reservas cambiais do país (p.2-3). Manchete em duas colunas.

Foto-legenda: “O ministro Serra toma café com o senador José Sarney no gabinete do presidente do Congresso antes de falar para a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado” (p.2-3). Em duas colunas.

DIA 09/04/95 (domingo) Edição com 282 páginas; 16 de Mais!, 22 de Empregos, 40 de Imóveis, 18 de Veículos, 12 de Tudo, 16 de TV Folha, 88 de Revista da Folha, 6 de Acontece SP, 12 de Finanças; 1.573.433 exemplares

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Índice: 1 brasil/mundo; 2 finanças; 3 são paulo; 4 esporte; 5 mais!; 6 empregos; 7 veículos; 8 tudo; 9 imóveis

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para EXCLUSIVO (“Leia biografia de João Paulo 2 o .”, com foto), MAIS! e COLECIONE.

“Globo monopoliza setor de TV a cabo”, sobre pesquisa em cartório realizada pela Folha que indica que Roberto Marinho é sócio de 42 das 70 operadoras de TV a cabo no Brasil (TV Folha). Manchete em três colunas.

Foto-legenda: “Alemão perde a bola dividida durante treino do São Paulo para o jogo contra o Santos, hoje às 16h na Vila Belmiro; ontem, Corinthians e Rio Branco empataram em 2 a 2 e o Palmeiras venceu o XV de Piracicaba por 3 a 1” (p.4-1 a 4- 4). Em quatro colunas.

Foto-legenda: “O cobiçado modelo Fabio Ghirardelli, junto com Claudia Ávila, mostra no número especial da moda outono-inverno da Revista da Folha a roupa inspirada em ‘Pulp Fiction’” (Revista da Folha). Em duas colunas.

DIA 05/05/95 (sexta-feira) Edição com 76 páginas; 8 de Folhinha, 4 de Clubefolha, 12 de Acontece SP, 2 de Via SP; 539.883 exemplares Índice: 1 brasil; 2 dinheiro/mundo; 3 são paulo; 4 esporte; 5 ilustrada/ clubefolha; 6 folhinha

Destaques na primeira página

Chamadas no alto da página, em seis colunas, para ESPORTE e FIM-DE-SEMANA.