HISTÓRIA CONTEPORÂNEA II

1ª Edição - 2007

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Antonio França de S. Filho Antonio França de S. Filho

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Autor(a)

Equipe Antonio França Filho, Angélica de Fátima Jorge, Alexandre Ribeiro, Bruno Benn, Cefas Gomes, Cláuder Frederico, Danilo Barros, Francisco França Júnior, Herminio Filho, Israel Dantas, Lucas do Vale, Marcio Serafim, Mariucha Ponte, Tatiana Coutinho e Ruberval da Fonseca Imagens Corbis/Image100/Imagemsource
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SUMÁRIO

O MUNDO CONTEMPORÂNEO ( 1870-1939) ___________________ 6
O CONTEXTO HISTÓRICO DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL __________ 6
ANTECEDENTES GERAIS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL __________________________ 6 CRISES INTERNACIONAIS PRÉ-PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL _________________________ 8 AS FASES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL ______________________________________ 11 CONSEQÜÊNCIAS DA PRIMEIRA GUERRA ________________________________________ 13 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 17

PERÍODO ENTRE-GUERRAS _________________________________________ 18
A REVOLUÇÃO RUSSA ______________________________________________________ 18 A CRISE MUNDIAL DE 1929 ___________________________________________________ 22 OS ESTADOS TOTALITÁRIOS _________________________________________________ 26 FASCISMO, NAZISMO, FRANQUISMO ___________________________________________ 28 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 38

O MUNDO CONTEMPORÂNEO A PARTIR DE 1939 __________ 40
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO BIPOLAR ___________ 40
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: CONTEXTO HISTÓRICO ___________________________ 40 SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: CONTEXTO HISTÓRICO _____________________________ 44 A DESCOLONIZAÇÃO DA ÁFRICA E DA ÁSIA _____________________________________ 46 GUERRA FRIA: PRINCIPAIS MOMENTOS _________________________________________ 49 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 57

A NOVA ORDEM MUNDIAL _________________________________________ 59

SUMÁRIO

A CRISE DO SOCIALISMO _____________________________________________________ 59 A QUEDA DO SOCIALISMO NO LESTE EUROPEU __________________________________ 63 ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO _____________________________________________ 64 GLOBALIZAÇÃO ___________________________________________________________ 66 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 71

GLOSSÁRIO _____________________________________________________________ 74 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS __________________________________________ 76

Apresentação da Disciplina

Caro (a) Aluno (a),

O século XX foi o século de grandes descobertas científicas, principalmente na área dos transportes e comunicação, alfabetização em massa, maior capacidade de produzir bens e serviços. Também foi marcado por duas guerras mundiais, com seus cenários de atrocidades humanas, uma guerra fria, além de revoluções socialistas e movimentos contestatórios. Este foi o século em que nascemos e que nesta disciplina buscaremos melhor compreender. A disciplina propõe o estudo crítico dos principais eventos sociais, políticos, econômicos e culturais, ocorridos entre o final do século XIX e o século XX: dando ênfase ao neocolonialismo, às duas guerras mundiais, ao totalitarismo, à Guerra Fria, às revoluções socialistas, à ascensão do neoliberalismo e à globalização. Por que a Primeira Guerra Mundial não pôde ser evitada através de acordos? Como as teorias racialistas fundamentaram a política imperialista? Por que o nazismo foi tolerado pela população alemã? Por que a guerra civil espanhola é considerada um fenômeno de cunho internacional? O que fomentou os diversos movimentos de libertação na África e na Ásia? Por que os países que formavam a ex-União Soviética tiveram dificuldade em se inserir na nova ordem mundial? Essas são algumas das perguntas que tentaremos responder e entender ao longo desta disciplina. Que o aprendizado seja estimulante e fomente novas pesquisas e outras questões. Saudações, Jacira Primo

O MUNDO CONTEMPORÂNEO (1870-1939)
O CONTEXTO HISTÓRICO DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
ANTECEDENTES GERAIS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Em seu livro a Era dos Extremos (2001), o historiador Eric Hobsbawm caracteriza o período entre a Primeira Guerra Mundial até a Guerra Fria como a era da catástrofe. Hobsbawm (2001), mas não somente ele, entende que o século XX tem início com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), também chamada de Grande Guerra. Desprezando as balizas temporais (1901-2000), ele enxerga o evento da primeira guerra como o ponto de mudança das relações políticas, econômicas e culturais que imperavam no mundo antes de 1914. O que de tão importante mudou? Segundo o autor, depois da primeira guerra, o mundo foi deixando de ser eurocêntrico, ou seja, centrado na Europa como local inquestionável de poder, riqueza e intelecto. As instituições políticas e os valores intelectuais da sociedade liberal burguesa do século XIX entram em decadência. Houve um aumento na capacidade de produzir bens e serviços, tornando o mundo mais rico, mas não menos desigual. A humanidade vai se tornando mais culta, como resultado do sistema de alfabetização em massa, e o mundo se tornará uma aldeia global no final do século. Um mundo mais interligado e dependente em termos políticos e econômicos, com as pessoas mais voltadas para si mesmas. (2001; 21-25). A Primeira Guerra Mundial teve início em 1914 e foi decorrente do confronto entre as principais potências mundiais que disputavam novas áreas de influência. Impelidos pela busca de novos mercados consumidores e de matérias-primas para sua produção industrial, os europeus dividiram o continente africano e parte do asiático. Durante 30 anos, através de acordos e diplomacia, foi possível evitar grandes conflitos, mas a repartição desigual das zonas de influência acabou acirrando a competitividade e gerou um estado de tensão permanente entre os países imperialistas, provocando rupturas no frágil sistema de acordos. A insegurança levou os países imperialistas a uma corrida armamentista que resultou no primeiro conflito armado em escala mundial. Imediatamente após a Grande Guerra pelo menos três impérios (Russo, Austro-Húngaro, Alemão) foram desmembrados, com a queda de suas respectivas dinastias (Romanov, Habsburgo, Hohenzolern), aproximadamente 10 milhões de pessoas foram mortas e uma nova nação surgiu como potencia mundial: os Estados Unidos da América (EUA). Como se deu o desenrolar dos acontecimentos que levaram a essa guerra? Vamos tentar compreendê-los? O avanço tecnológico no século XIX gerou um excedente produtivo, causando um dilema aos países mais industrializados: encontrar novos mercados consumidores para poder vender os produtos excedentes, aplicar capitais, conseguir mão-de-obra barata e, ao mesmo tempo, encontrar novas fontes de matéria-prima (petróleo, ferro e cobre) para alimentar a crescente produção industrial.

A saída foi encontrar outros territórios, fora da Europa, capazes de atender às necessidades mais prementes das nações que atingiram o alto nível de industrialização, dando origem ao chamado neocolonialismo. Alguns países europeus já tinham colônias no continente africano. Antes, os aventureiros e particulares, em sua maioria, estavam tomando a frente na exploração, mas, com o imperativo de encontrar novos mercados e a descoberta de diamantes no Transvaal (1867) e de ouro e cobre na Rodésia (1889), o cenário foi alterado. Houve uma corrida pela conquista de territórios e o avanço de algumas nações em territórios já conquistado por outro país. O continente africano e o asiático foram rapidamente tomados e submetidos à exploração para suprir as necessidades econômicas das nações européias. Alguns discursos foram pronunciados para explicar as razões da expansão européia. Vamos observar o trecho de um discurso pronunciado por Jules Ferry, colonialista francês: Afirmo (...) que esta política colonial é um sistema concebido, definido e limitado do seguinte modo: repousa sobre uma tríplice base econômica, humanitária e política (...). A questão colonial é, para os países voltados a uma grande exportação, pela própria natureza de sua indústria, como o nosso uma questão de salvação. No tempo em que vivemos e na crise que atravessam todas as indústrias européias, a fundação de uma colônia é a criação de uma válvula de escape. (...) É preciso dizer abertamente que as raças superiores têm direito sobre as raças inferiores (...) porque têm um dever com elas – o dever de civilizá-las (...) Afirmo que a política colonial da França, que nos tem levado (...) a Saigon, na Conchichina, à Tunísia e Madagascar inspira-se numa verdade sobre a qual é preciso atrair um instante da nossa atenção (...). Senhores, na Europa tal como ela é feita, nessa concorrência de tantos rivais que vemos crescer em torno de nós, quer pelo aperfeiçoamento militar ou marítimo, quer pelo desenvolvimento prodigioso de uma população que cresce incessantemente; na Europa, ou antes, num universo assim feito, a política de recolhimento ou de abstenção é simplesmente o grande caminho da decadência. (citado por Henri Brunschwing, 1960: 73-74). Podemos perceber no trecho acima que, além de Ferry expor as necessidades de obtenção de novos mercados e da concorrência, ele utiliza o discurso racialista para justificar o direito sobre os territórios conquistados. Vamos entender melhor como esse discurso racialista contribuiu para fundamentar o discurso dos colonialistas?

IDEOLOGIAS RACISTAS
Ao lado do neocolonialismo foi utilizado o racismo científico. Este funcionou como ideologia do imperialismo europeu, que buscava legitimar seu domínio sobre o continente africano através da construção de uma hierarquia racial na qual o homem branco seria superior às outras raças. O francês Dr. Paul Broca aparece como um referencial na politização da teoria cientifica, ao utilizar os métodos da ciência para identificar quem seria apto para estar no comando da política, justificando a expansão européia. Especialista no campo da craniologia, Broca relacionou o cálculo do peso da massa encefálica como um método de determinação da superioridade racial, fazendo assim uma associação direta entre o volume do cérebro e o nível de inteligência. Quanto mais pesada a massa encefálica mais inteligente o indivíduo seria e isso deveria explicar as supostas baixas capacidades intelectuais das raças consideradas inferiores. Além disso, a medição do ângulo da face foi utilizada numa tentativa de aproximar os negros dos símios. A negritude e as protuberâncias da face foram estabelecidas como sinais de inferioridade. A imagem feita dos africanos nessas teorias era de animalescos, infantis, ignorantes, cruéis e selvagens. Mesmo havendo contestações a essas teorias, havia um terreno fértil para que o racismo científico se propagasse, pois estava sendo utilizado como ideologia de um projeto político de expansão e dominação de alguns povos sobre outros. Desta forma, as críticas terminaram não ganhando visibilidade. Segundo o antropólogo Renato da Silveira (2000:115).

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Não foi a craniologia que estabeleceu a superioridade de uns sobre os outros, a superioridade de uns sobre os outros é que foi previamente considerada um dado objetivo; cabia à ciência craniológica apenas dar o seu aval. O racismo científico foi biologicamente reducionista e arbitrário na seleção dos dados. Devido à parcialidade, desleixo teórico e generalizações abusivas dos cientistas, ocorreram situações constrangedoras que foram difíceis de contornar. Um exemplo disso foi a pesagem do cérebro de Léon Gambetta, líder da terceira república. Quando este morreu, em 1882, seu cérebro foi doado para a Sociedade da Autópsia, que se destinava ao estudo do cérebro, considerando-o o órgão da função intelectual. A massa encefálica do ilustre deveria corroborar as teses científicas sobre a hierarquia racial, mas, ao ser colocado na balança, o cérebro de Gambetta pesava apenas 190 gramas. O historiador Pierre Damon escreveu que “o cérebro de Gambetta não pesava mais que o cérebro de um pigmeu e, para salvaguardar a honra da nação, tornava-se urgente demonstrar que fatores intercorrentes haviam alterado a verdade”. Diante da dificuldade em reverter a situação, a pesagem do cérebro de Gambetta permaneceu em absoluto sigilo por mais de 3 anos, como salvaguarda da honra dos franceses. Assim, jogando para debaixo do tapete tudo aquilo que não se encaixava com as teorias racialistas, o racismo foi se difundido e alcançando outros níveis. A própria raça branca começou a ser subdividida e hierarquizada. Mulheres, pobres, criminosos, camponeses e operários foram classificados como classe inferior. Taylor afirmou que “a diferença entre um camponês inglês e um africano mal chegava a um palmo”. Essa assimilação tinha o mesmo princípio: a dominação de uns sobre os outros, construindo uma hierarquia de classe, raça e gênero. Portanto, o darwinismo social foi utilizado tanto para a diferença racial como sexual. Silveira (2000: 126) coloca que: Nas últimas três décadas do século (XIX), quando a idéia imperialista levou uma parte importante dos estudos científicos a reforçar justamente o militarismo, as manipulações religiosas e a injustiça social, o fato cientificamente mais significativo e politicamente mais massivo é que os “selvagens” de lá e de cá começaram a ser igualmente assimilados às crianças, às mulheres, aos marginais e aos animais. Eram considerados ora passivos e refratários ao progresso, ora “impuros”, irresponsáveis e perigosos. Deveriam, portanto, ser neutralizados. Ou aniquilados, caso fosse necessário. Aos poucos, o discurso racista começou a ser confundido com o discurso classista. Essas teorias serão posteriormente utilizadas durante o nazismo para justificar o massacre de milhões de judeus, ciganos e marginalizados sociais, como veremos mais adiante.

CRISES INTERNACIONAIS PRÉ-PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Foi em 1876 que o rei Leopoldo da Bélgica adquiriu um domínio particular no Congo. Em vista da contestação de outras nações européias interessadas no mesmo território, o chanceler alemão Bismarck convocou a conferência de Berlim (1885-1887) para discutirem e fixarem as regras da partilha do continente africano. Vamos olhar com atenção o mapa abaixo para entendermos o produto dessa conferência.
MAPA RETIRADO DE: PAZZINATO, ALCEU LUIZ; SENISE, MARIA HELENA VALENTE. HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, SÃO PAULO, EDITORA ÁTICA, 1994.

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Como pode ser observado, os franceses e os ingleses tinham maiores possessões, ficando a Alemanha e a Itália com territórios diminutos, de poucas possibilidades econômicas. Enquanto a partilha causava descontentamento entre alemães e italianos, por um lado, de outro provocou um acirramento na antiga rivalidade entre franceses e ingleses que quase entraram em confronto direto em 1898, quando suas fronteiras territoriais se encontraram em Fachoa, no Alto Nilo. Do lado africano, essa partilha separou comunidades e juntou outras historicamente inimigas, transformando a África num barril de pólvora. Povos e culturas foram violentamente extirpados na tentativa de se ocidentalizar os continentes africano e asiático.

EUA e o Big Stick
Diante dos conflitos que se desenrolavam na Europa, os EUA decidiram manter-se afastados como melhor caminho para seu engrandecimento político-econômico, assim como o domínio que o país procurava exercer sobre o continente americano. Isso foi decidido na Primeira Conferência Pan-Americana, que veio, de certa forma, confirmar as pretensões imperialistas dos EUA dentro do continente americano. Desde a Doutrina Monroe, que pode ser sintetizada na frase “a América para os americanos”, criada em 1923, impedindo os europeus de interferirem nos assuntos no continente americano e de criar colônias no mesmo território, já eram claras as intenções imperialistas dos estadunidenses. Os EUA não estavam sendo protecionistas, pois suas ambições eram altamente imperialistas. Ele preparava o terreno para que seus objetivos expansionistas fossem alcançados com êxito. Como não pôde deixar de ser, assim como os europeus, lançou mão de teses para comprovar sua superioridade, consolidada no destino manifesto que afirmava sua missão em civilizar os “povos inferiores”. Em 1904, o presidente Roosevelt lançou o corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, que ficou conhecido com o nome de Big Stick (grande porrete), advindo da frase utilizada por Roosevelt: “Fale macio e use um porrete”. A política do Big Stick justificava a intervenção armada dos EUA em alguns países da América para “preservar a democracia” e “restabelecer a ordem no continente”. Ele se colocava como salvaguarda do continente americano e começou a ajudar nos movimentos de independência que surgiram. O caso de Cuba e do Panamá são dois exemplos que explicitam as pretensões imperialistas estadunidense. Os EUA já se mostravam interessados na produção açucareira e na posição geograficamente estratégica de Cuba (na entrada do Golfo do México e próxima do Panamá) ao tentar comprar a ilha dos espanhóis. Como sua tentativa não obteve resultado positivo, ele buscou auxiliar o movimento de independência cubana (1895), que saiu vencedor do conflito. Algo semelhante aconteceu com o Panamá. França, Inglaterra e EUA se mostravam interessados no Canal do Panamá: um canal estava sendo construído por uma empresa francesa na passagem que ligava o Atlântico ao Pacífico. Quando esta faliu, os EUA imediatamente obtiveram as suas ações (1901) para terminar a construção do canal. O único empecilho era que a Colômbia não permitia interferência em seu território. O caminho encontrado foi fortalecer o diminuto movimento de independência do Panamá para garantir a liberdade de influência nessa área. Conseguida a independência do Panamá, os EUA puderam terminar a construção do Canal do Panamá e foram aumentando sua influência e consolidando sua hegemonia política na América Latina.

A Paz Armada
O período entre 1871 e 1914 ficou conhecido como Paz Armada. Foi caracterizado pelo maior investimento na indústria bélica, produzindo novas tecnologias, política de exaltação cívica e patriótica e o serviço militar tornado obrigatório. Com as zonas de tensões cada vez mais próximas e os países se preparando militarmente para o confronto, a explosão da guerra era uma questão de tempo. Seria pertinente nos perguntar: por que essa guerra não pôde ser evitada através de acordos? Uma resposta coerente é pensarmos que acordos apenas adiariam o confronto, porque houve uma fusão entre política e economia no imperialismo. Uma ficou estreitamente ligada à outra, de forma que a política

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internacional começou a ser determinada pelo crescimento econômico e a competição crescente. Eram grandes as ambições dos países que se envolveram no conflito armado e a perda da guerra poderia levar ao declínio econômico e político dos vencidos. Vamos perceber as principais motivações de cada país para entrarem na guerra? A Inglaterra, como maior império neocolonial e país mais industrializado, temia o avanço da Alemanha, que estava alcançando grandes produções de aço, e sua expansão na conquista de novos territórios ameaçava a estabilidade inglesa A Alemanha conseguiu sua unificação tardiamente e adotou uma política externa agressiva para tentar alcançar seus concorrentes ingleses e franceses. Assim como a Alemanha, a Itália havia se unificado na segunda metade do século XIX e estava lutando por um alinhamento político que lhe trouxesse vantagens. A França não estava conseguindo atingir altos índices de produção e alimentava um revanchismo em relação à Alemanha, que havia lhe retirado dois territórios importantes: a Alsácia e a Lorena. A Rússia estava iniciando seu processo de industrialização e lutava por seu lugar ao sol junto às outras nações. Através da teoria do pan-eslavismo, ela mascarava suas pretensões expansionistas. A Sérvia, igualmente, utilizava a teoria do pan-eslavismo buscando aumentar seu território e conseguir saída para o Mar Adriático. Projeto ao qual o Império Austro-Húngaro vinha colocando empecilhos. O Império Austro-Húngaro e o Turco estavam em decadência, mas, ao dominarem regiões que eram ricas e importantes geograficamente, acabaram sendo arrastados para os conflitos, pois as áreas que dominavam reluziam como ouro aos olhos das outras nações. Os Estados Unidos, como acabamos de verificar, não se envolveram nos conflitos europeus, pois tentavam consolidar sua influência na América Latina.

Alianças
Não foi possível fazer acordos para evitar a guerra, mas foi possível manter acordos para não perder a guerra. Não sendo crível a nenhum dos países imperialistas realizar seus objetivos sozinhos, optaram por tecer alianças. Dos diversos acordos firmados, dois deles terminaram predominando: A Tríplice Aliança e a Tríplice Entente. A Tríplice Aliança surgiu em decorrência da aproximação da Alemanha com a Itália e o Império Austro-Húngaro. A Tríplice Entente passou a existir por iniciativa da França, que reuniu Inglaterra e Rússia para equilibrar as forças políticas depois da formação da Tríplice Aliança.

EUROPA ÀS VÉSPERAS DA PRIMEIRA GUERRA - MAPA RETIRADO DE: PAZZINATO, ALCEU LUIZ; SENISE, MARIA HELENA VALENTE. HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, SÃO PAULO, EDITORA ÁTICA, 1994

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AS FASES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O cenário e os motivos para a efetivação da primeira guerra já estavam preparados; faltava apenas a primeira agressão considerada relevante para o início do confronto. Esta aconteceu em Sarajevo, em 1914. A península balcânica era um barril de pólvora devido à constante tensão alimentada pela rivalidade entre os diferentes povos (sérvios, eslovenos, bósnios, albaneses, búlgaros, croatas, romenos e gregos). Sérvia, Bulgária, Montenegro e Romênia eram independentes, mas viviam sob o predomínio do Império Austro-Húngaro e o Turco-Otomano. Na Sérvia, alguns grupos alimentavam a idéia do pan-eslavismo, que consistia no desejo de reunir todos os povos eslavos nos Bálcãs. O principal empecilho era o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, que pretendia anexar os territórios eslavos ao Império Austro-Húngaro. Quando da visita do arquiduque a Sarajevo, capital da Bósnia, este foi assassinado por uma facção radical e o governo da Sérvia acusado de ter tramado a execução. Este foi o motivo que se precisava para que a guerra tivesse inicio. Um mês depois do assassinato de Ferdinando, o confronto começou com a declaração de guerra da Áustria à Sérvia. A primeira guerra é dividida em dois momentos: A guerra de movimento e a guerra de trincheiras. A guerra de movimento, iniciada em 1914, marcou o movimento e avanço dos exércitos sobre os territórios inimigos. A certo ponto, houve um equilíbrio das forças bélicas e os exércitos foram obrigados a ficarem parados em trincheiras esperando o melhor momento para novamente avançar. Nessa guerra de trincheiras, os exércitos utilizaram de toda a tecnologia disponível (gases, tanques, aviões) para abrir espaço e ultrapassar as barreiras montadas pelos exércitos inimigos. Hobsbawm (2001: 33) nos passa uma visão de como seria essa guerra de trincheiras: Milhões de homens ficaram uns diante dos outros nos parapeitos de trincheiras, barricadas com sacos de areia, sob os quais viviam como – e com – ratos e piolhos. De vez em quando seus generais procuravam romper o impasse. Dias e mesmo semanas de incessante bombardeio de artilharia “amaciavam” o inimigo e o mandavam para debaixo da terra, até que no momento certo levas de homens saíam por cima do parapeito, geralmente protegidos por rolos e teias de arame farpado, para a “terra de ninguém”, um caos de crateras e de granadas inundadas de água, tocos de árvore calcinados, lama e cadáveres abandonados, e avançavam sobre metralhadoras que os ceifavam como eles sabiam que aconteceria. Essa guerra de trincheiras esgotou as forças dos soldados, que passavam longo tempo sujeitos a doenças, frio e fome. Um soldado alemão, que morreu em combate, descreveu o estado em que se encontravam ele e seus companheiros. Estamos tão exaustos que dormimos mesmo sob imenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não somos revezados. Os aviões lançaram projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas – pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água! É o próprio inferno! (carta, 1974:160)

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TRINCHEIRA BRITÂNICA – FONTE: HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES

Veja também outros trechos de relatos de soldados e cartas encontradas nos bolsos dos soldados nas diversas batalhas da primeira guerra. Ao ouvir alguns gemidos, quando eu ia para as trincheiras, olhei para um abrigo ou buraco cavado ao lado e achei nele um jovem alemão. Ele não podia se mover porque suas pernas estavam quebradas. Implorou-me que lhe desse água, eu corri atrás de alguma coisa e encontrei um pouco de café que logo lhe dei para beber. Ele dizia todo o tempo ‘Danke, Kamerad, danke, danke (Obrigado, Camarada, obrigado, obrigado). Por mais que odeie os boches, quando você os está combatendo, a primeira reação que ocorre ao vê-los caídos por terra e feridos é sentir pena.(...) Nossos homens são muito bons para com os alemães feridos. Na verdade, gentileza e compaixão com os feridos foram talvez as únicas coisas decentes que vi na guerra. Não é raro ver um soldado inglês e outro alemão lado a lado num mesmo buraco, cuidando um do outro e fumando calmamente. (Tenente Arthur Conway Young, França, 16 de Setembro de 1916 In. História Contemporânea Através de Textos p. 120). O campo de batalha é terrível. Há um cheiro azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afundados no pântano e nos campos de nabos em crescimento. As pernas de um soldado inglês, ainda envoltas em polainas, irrompem de uma trincheira, o corpo está empilhado com outros; um soldado apóia o seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. Ninguém se importa com o inglês pálido que apodrece alguns passos adiante. No cemitério de Langermark, os restos de uma matança foram empilhados e mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provocaram uma horrível ressurreição. Num determinado momento, eu vi 22 cavalos mortos, ainda com os arreios. Gado e porcos jaziam em cima, meio apodrecidos. Avenidas rasgadas no solo, inúmeras crateras nas estradas e nos campos. (De Um Fatalista na Guerra, de Rudolf Binding, que serviu numa das divisões da Jungdeustschland In. História Contemporânea Através de Textos p. 119)

1917 – A guerra muda de rumo
O ano de 1917 representou uma virada de rumos na guerra, sendo decisivo na mudança para o término do conflito. Por um lado, a insatisfação de soldados e população civil com o encaminhamento da guerra fez surgir protestos nas trincheiras e nas cidades. A própria Revolução Russa foi, em parte, uma reivindicação contra a guerra, com seus apelos de saída imediata da Rússia do confronto. Podemos ler abaixo uma carta de um soldado insatisfeito com a política de guerra. Sou um soldado convencido de estar agindo pelos soldados. Acredito que esta guerra, na qual ingressei como se fora uma guerra de defesa e libertação, converteu-se, agora, numa guerra de agressão e conquista. [...] Vi e suportei os sofrimentos das tropas e não posso mais contribuir para prolongar esse sofrimento com vistas a objetivos mais cruéis e injustos. Não estou protestando contra a direção da guerra, mas contra os erros políticos e as insinceridades
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pelos quais os combatentes estão sendo sacrificados. Em nome daqueles que estão sofrendo agora, protesto contra o engano de que estão sendo vitimas: acredito também poder contribuir a complacência indiferente com que a maioria dos que estão em casa contemplam o prosseguimento de agonias que não compartilham, e que não possuem imaginação suficiente para conceber (Extraído do Bradford Pionner, 27 de julho de 1917 (1975: 690)). Em 1917, os EUA decidem entrar na guerra ao lado da Tríplice Entente, declarando guerra à Alemanha. Sua entrada foi decisiva e deu-se em vista da preocupação de que a Alemanha pudesse ganhar a guerra. Além disso, a guerra submarina alemã ameaçava as exportações estadunidenses de chegaram até à Europa. Os EUA exportavam principalmente para França e Inglaterra que, se saíssem derrotadas da guerra, não poderiam pagar pelos empréstimos e mercadorias estadunidenses. Em 1918, com tratado feito entre Alemanha e Rússia, as tropas alemãs foram deslocadas, aumentando a ofensiva contra os Aliados. A ajuda dos EUA à Entente foi decisiva para a vitória dos Aliados e a derrota alemã. Em 11 de novembro de 1918, a Alemanha assinou sua rendição, pondo fim ao conflito. Houve, anteriormente, uma revolta, liderada pelos sociais-democratas, que depôs o Kaiser Guilherme II pondo fim ao Segundo Reich e instituindo a República de Weimar.

CONSEQÜÊNCIAS DA PRIMEIRA GUERRA
No fim, a guerra arrasou vencedores e vencidos. Ambos saíram quebrados economicamente e arrasados fisicamente com a destruição de suas cidades. Em média, 10 milhões de pessoas foram mortas e de 4 a 5 milhões de refugiados se deslocaram de uma região para a outra. Alguns se perguntavam sobre um possível declínio da Europa. Até aqui, era fator elementar da Geografia Econômica que a Europa dominava o mundo com toda a superioridade de sua grande e antiga civilização. Sua influência e seu prestígio irradiavam, desde séculos, até às extremidades da Terra. Ela enumerava, com orgulho, os países que havia descoberto e lançado na civilização. Povos que ela havia alimentado de sua substância e modelado à sua imagem, as sociedades que ela tinha obrigado a imitá-la e a servi-la. Quando se pensa nas conseqüências da Grande Guerra, que agora finda, pode-se perguntar se a estrela da Europa não perdeu seu brilho, e se o conflito do qual ela tanto padeceu não incitou para ela uma crise vital que anuncia a decadência... Desde a época dos grandes descobrimentos, a Europa impôs ao universo sua orientação econômica. Já no fim do século XIX, nos eram velados a vitalidade e o poderio de certas nações extra-européias, umas, como os Estados Unidos, alimentadas do próprio sangue da Europa; outras, como o Japão, formadas por seu modelo e conselhos. Ao precipitar o surgimento desses recém-chegados, ao provocar o empobrecimento das bases produtoras da Europa, ao criar, assim, um profundo desequilíbrio entre eles e nós, a guerra não abriu para o nosso velho continente uma crise de hegemonia e expansão?. Demangeon (1920: 13-15). A situação para os países europeus não era animadora, causando receio à população sobre a sua restauração e os custos a pagar. Os EUA, no entanto, saíram fortalecidos da guerra. Sua breve participação no conflito não lhe proporcionou pesadas baixas, além disso, nenhum confronto foi feito em seu próprio território. Os EUA foram o principal fornecedor de armas e alimentos para a Europa, o que lhe proporcionou grandes dividendos econômicos. Eles saíram como uma grande potência mundial e seus próximos passos firmaram esse posto conquistado (continuará aumentando sua influência na América Latina). Um sinal dos tempos foi o lançamento do plano que continha 14 pontos, do presidente americano

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Wilson, e que tinha por objetivo orientar o armistício de paz, ao tempo que seus planos econômicos buscarão ajudar a Europa em sua crise financeira e reverterão altas quantias para seus cofres.

Os 14 pontos de Wilson
Em 1918, o presidente dos EUA divulgou um plano de 14 pontos que deveria nortear as discussões de paz. Seus principais pontos foram: • O fim das negociações e cláusulas secretas em todos os acordos internacionais • A abertura definitiva dos estreitos de Bósforo e Dardanelos • A devolução da Alsácia-Lorena à França • Liberdade de comércio e navegação entre todos os países • A aplicação do princípio das nacionalidades como forma de resolver os problemas da península balcânica e dos povos da Áustria-Hungria • Evacuação da Rússia • Limitação dos armamentos nacionais ao nível mínimo comparado com a segurança. • Criação da Liga das Nações para arbitrar conflitos internacionais e evitar futuros conflitos armados. • Restauração da Polônia, Sérvia e Montenegro. Como podemos observar, os 14 pontos não previam pesadas sanções para os derrotados. Talvez o presidente americano estivesse mais preocupado com a Rússia e a disseminação do bolchevismo pelo mundo. Na prática, poucas foram as propostas de Wilson aplicadas, provavelmente porque a idéia de não punir os vencidos desagradava a França e a Inglaterra.

Tratado de Versalhes
Depois da guerra, alguns tratados de paz foram firmados. O mais importante deles foi o Tratado de Versalhes, acordo de paz firmado com a Alemanha, realizado no palácio de Versalhes, em 1919. Apenas os vencedores participaram da conferência e impuseram condições de rendição árduas. A Alemanha foi responsabilizada pelo conflito e obrigada a pagar altas indenizações; a Alsácia-Lorena foram reapropriadas pelos franceses; o exército alemão foi drasticamente reduzido a 100 mil homens e a fronteira francogermânica desmilitarizada. Além disso, os Aliados obtiveram concessões de privilégios aduaneiros e a Alemanha foi privada de todas as suas colônias do ultramar. Observe abaixo algumas determinações do Tratado de Versalhes. Artigo 42 – A Alemanha está proibida de manter ou construir quaisquer fortificações, seja na margem esquerda do Reno, seja na margem direita, a oeste de uma linha traçada 50 quilômetros a leste do Reno... Artigo 80 – A Alemanha reconhece e respeitará rigorosamente a independência da Áustria, dentro das fronteiras que podem ser fixadas num Tratado entre aquele Estado e o Aliado Principal e as Potências Associadas; concorda em que esta independência será inalienável, a não ser com o consentimento do Conselho da Liga das Nações. Artigo 81 – A Alemanha, de conformidade com a ação já realizada pelas Potências Aliadas e Associadas, reconhece a completa independência do Estado Tchecoslovaco, que incluirá o território autônomo dos Rutenianos, ao sul dos Cárpatos. Com isso, a Alemanha reconhece as fronteiras deste Estado, como determinadas pelo Aliado Principal e as Potências Associadas e os outros Estados interessados... Artigo 89 – A Polônia incumbe-se de conceder liberdade de trânsito a pessoas, bens, navios, transportes, comboios e correios em trânsito entre a Prússia Oriental e o restante da Alemanha, através do território polonês, inclusive das águas territoriais, e tratá-los pelo menos tão favoravelmente quanto as pessoas, bens, navios, transportes, comboios e correios respectivamente de nacionalidade polonesa ou outras mais favorecidas. Artigo 168 – Numa data que não deve ser posterior a 31 de março de 1920, o Exército Alemão não deve compreender mais que sete divisões de infantaria e três divisões de cavalaria.
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Depois daquela data, o número total de efetivos no Exército dos Estados que constituem a Alemanha, não deve exceder de cem mil homens, inclusive oficiais e estabelecimentos de depósitos. O exército dedicar-se-á exclusivamente à manutenção da ordem dentro do território e ao controle das fronteiras. A força efetiva total de oficiais, inclusive o pessoal administrativo, qualquer que seja sua composição, não deve exceder de quatro mil... Artigo 232 – Os Governos Aliados e Associados reconhecem que os recursos da Alemanha não são adequados, depois de levar em conta as diminuições permanentes desses recursos, que resultarão de outros itens deste Tratado, para realizar a indenização completa por todas essas perdas e danos. Os governos Aliados e Associados, contudo, exigem e a Alemanha promete que fará compensações por todos os danos causados à população civil das Potências Aliadas e Associadas e a sua propriedade durante o período de beligerância de cada uma, como uma potência Aliada ou Associada contra a Alemanha... Artigo 428 – Como fiança pela execução do presente Tratado pela Alemanha, o território alemão situado a oeste do Reno, junto às cabeças de ponte, será ocupado pelas tropas Aliadas e Associadas por um período de quinze anos, a partir da entrada em vigor do presente tratado... Artigo 431 – Se antes da expiração do período de quinze anos a Alemanha cumprir com todas as promessas resultantes do atual Tratado, as forças de ocupação serão retiradas imediatamente”. (Fenton, Edwin. 32 Problemas na História Universal. São Paulo, Edart. 1975. p. 134-135 in História Contemporânea Através de Textos e Documentos, p. 114-118) Vamos observar o mapa abaixo para percebermos como ficou a nova divisão das áreas pós-Tratado de Versalhes.

MAPA RETIRADO DE: PAZZINATO, ALCEU LUIZ; SENISE, MARIA HELENA VALENTE. HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, SÃO PAULO, EDITORA ÁTICA, 1994

Um dos objetivos do Tratado de Versalhes era manter a Alemanha enfraquecida e sem possibilidades de voltar a combater em um curto período de tempo. Ela era temida por, praticamente sozinha, quase ter derrotado a coalizão aliada. Um outro ponto era que o mapa da Europa deveria ser redesenhado. A intenção era criar Estadonações étnico-liguísticos para que cada nação tivesse o direito de autodeterminação sobre seus territórios. Para que isso fosse conseguido era preciso uma definição precisa de territórios pertencentes a cada nação, determinada também por questões étnico-liguísticas. Como o número de migrações aumentou no período da guerra, essa tarefa teria sido muito difícil caso houvesse uma preocupação maior na definição dos territórios de cada nação. Em acréscimo, com a ascensão dos regimes totalitaristas, as migrações tenderam a aumentar e a conseqüência dessa redefinição do mapa europeu foi a explosão de diversos conflitos nacionais na década de 90. De todo modo, com o Tratado de Versalhes, novos países surgiram no cenário.
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Um terceiro ponto era isolar a Rússia, para impedir que bolchevismo se espalhasse pelo mundo. Apesar de Versalhes seguir algumas determinações dos 14 pontos de Wilson, os EUA não endossaram o acordo de paz devido aos atritos com a Grã-bretanha e a França. A saber, os demais acordos de paz foram: O tratado de Saint Germain-en-Laye, que selou a paz com a Áustria e estabeleceu que esta reconhecia a independência da Hungria, Tchecoslováquia e Iugoslávia, foi assinado em 10 de setembro de 1919. Em 27 de novembro, assinou-se o tratado de Neuilly com a Bulgária; seguiu-se o tratado de Trianon, em 4 de julho de 1920, com a Hungria; e Sèvres, em 10 de agosto de 1920, com a Turquia. Outra reunião acontecida para resolver os problemas gerados pela primeira guerra foi a Conferência de Genebra, realizada em 1925. Esta determinou a proibição da utilização de substâncias venenosas pelas nações beligerantes. No dia 22 de abril de 1915, cerca de 150 toneladas de gás clorídrico foram lançadas nos campos de Flandres (Bélgica) por soldados alemães, provocando a morte de centenas de soldados. A morte provocada pelo gás foi descrita como afogamento em terra seca. Depois de ser quebrada a proibição da utilização de substâncias venenosas na guerra, outras nações utilizaram gás mostarda nos combates. Esse gás costuma queimar a pele, além de provocar cegueira temporária. No ano de 1918, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) fez um apelo público contra a utilização de gases venenosos durante os conflitos. O CICV descreveu o gás como uma “invenção bárbara que a ciência está aperfeiçoando”. Seu protesto era contra a guerra e as feições de barbárie que a guerra estava tomando. Essa manifestação pública do CICV contribuiu para que a Conferência de Genebra fosse efetivada e que fosse proibido o uso de substâncias venenosas pelas nações beligerantes. Porém, logo em seguida a Espanha utilizou gás mostarda para reprimir uma revolta no Marrocos; em 1931 foi a vez do Japão quebrar o protocolo, ao usar armas químicas na invasão da Manchúria. A Itália, em 1936, usou gás mostarda na Etiópia.

Liga das Nações
Foi criada em 1919 como um órgão internacional destinado à preservação da paz e arbitramento de conflitos internacionais. Seu conselho era composto pela Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e, posteriormente, Alemanha e União Soviética juntaram-se ao seleto grupo. Como os EUA se recusaram a aceitar o Tratado de Versalhes, não puderam participar dessa organização. Por não ter armas próprias, o poder de coerção da Liga baseava-se em sanções econômicas e militares. Ela foi bem-sucedida em pequenos conflitos ocorridos nos Bálcãs e na América Latina, na administração de territórios livres como a cidade de Dantzig, na assistência econômica e proteção a refugiados e na supervisão do sistema de mandatos coloniais. Porém, a organização se mostrou ineficaz nos conflitos de maior envergadura, como foi a invasão Japonesa na Manchúria (1931), a agressão da Itália à Etiópia (1935) e o ataque russo à Finlândia (1939). A Liga das Nações teve fim após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, e sua responsabilidade foi entregue à Organização das Nações Unidas (ONU).

Atenção
Brasil na guerra só para esquecer a crise interna A declaração de guerra à Alemanha foi mais um gesto político, pois a fragilidade de nossa marinha de guerra (até 1910, considerada a terceira do mundo, mas não reequipada) não permitia a participação efetiva no conflito. Apesar disso, o governo enviou uma força-tarefa à África, que não pôde combater devido a um surto de gripe espanhola que atingiu 90% da tripulação e provocou dezenas de mortes. Uma missão médica, comandada pelo Dr. Nabuco de Gouvêa, prestou trabalho na França, e diversos navios alemães foram aprisionados em águas brasileiras. Várias razões levaram o Brasil a suspender a neutralidade decretada pelo governo do mare-

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chal Hermes da Fonseca. A mais divulgada delas foi a série de afundamentos de navio mercantes brasileiros pelos submarinos alemães, que começou com o torpedeamento do Paraná, em 5 de abril de 1917. A admiração dos intelectuais brasileiros pela França, a entrada dos Estados Unidos na guerra e a necessidade de união interna também influenciaram na decisão do presidente Venceslau Brás. A declaração brasileira de guerra foi sancionada no dia 27 de outubro de 1917 e serviu para que o governo desviasse a atenção popular dos problemas econômicos e sociais internos. Dentro desse espírito, foi decretado o Estado de Sítio no dia 17 de novembro, medida que agitou a política nacional, pois, utilizando o pretexto da guerra, tinha o objetivo de proibir os comícios de organizações operárias, prender líderes populares e acabar com as constantes greves. Epitácio Pessoa, que seria eleito presidente em 1919, foi o representante brasileiro do armistício. Se a participação do País nos combates foi modestíssima, a comitiva que negociou a paz foi um exagero: eram dez membros com suas respectivas famílias, que quase lotaram um navio. (Diário Popular – um século de lutas pela liberdade. 8/11/1914, p. 34.).

Atividade complementar
1. Por que a Primeira Guerra Mundial não pôde ser evitada através de acordos?

2. Qual a importância do racismo científico para os países imperialistas e quais os seus principais problemas?

3. Depois da leitura do texto complementar, aponte as razões para a declaração de guerra feita pelo Brasil.

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4. Quais as principais conseqüências da primeira guerra?

5. Para Hobsbawm, o que muda depois da primeira guerra?

Estante do historiador
A Era dos Extremos – O breve século XX – 1914-1991 – Escrito pelo historiador Eric Hobsbawm, é leitura obrigatória para todos aqueles que pretendem entender o século XX, suas ideologias, seus conflitos e suas conseqüências para o mundo contemporâneo.

Cinema e história
Carlitos nas trincheiras (Shoulder Arms) – Lançado por Charles Chaplin em 1918, através do seu memorável personagem Carlitos, que representa um soldado inapto para a batalha, mostra o panorama da guerra no ambiente das trincheiras e suas características, amenizando situações extremas, mas não deixando de estabelecer um tom crítico para o contexto da guerra. O Último batalhão – Baseado em fatos reais, conta a história de Charles White, advogado nos EUA e elevado à patente de major durante da primeira guerra, comandando um batalhão no perímetro MeuseArgone, cercado por alemães e esperando apoio estratégico do exército francês, que nunca chegou. Flyboys – Produzido no ano de 2006, baseia-se na história verídica de jovens americanos que, antes da entrada definitiva dos EUA na primeira guerra, aventuraram-se pilotando aviões franceses, formaram a esquadrilha Lafayette e foram os primeiros americanos a combater nos céus da Europa durante o conflito. Apesar de carregar o espírito americano, dá uma boa dimensão da tecnologia áerea utilizada na Primeira Guerra Mundial.

O historiador e a internet
http://www.firstworldwar.com/ - Apesar de estar em inglês, o site tem uma sessão de mapas e vídeos que ajudam bastante na compreensão de vários elementos da Primeira Guerra Mundial. http://www.bbc.co.uk/history/worldwars/wwone/ - Site da BBC de Londres, com uma ótima navegação e muitas informações sobre a Primeira Guerra Mundial.

PERÍODO ENTRE-GUERRAS
A REVOLUÇÃO RUSSA
Assim como boa parte das revoluções, esta foi inesperada quando aconteceu, apesar do seu breve

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anúncio. Foi em meio aos problemas decorrentes da primeira guerra, que gerou grandes baixas no exército, escassez de gêneros alimentícios (devido à falta de mão-de-obra nos campos), inflação galopante e a falta de abastecimento nos centros urbanos. Em protesto, a população, em cinco dias de movimentos sociais consecutivos, em fins de fevereiro, derrubou o Czar (monarquia), provocando a queda da dinastia Romanov. Estava iniciado o processo revolucionário. A Rússia era regida por uma monarquia (Czar) e tinha partidos que eram orientados por três correntes de pensamento: os democratas constitucionais, que representavam as aspirações da burguesia em efetivar um regime liberal e parlamentar. Os populistas, que consideravam ser possível a passagem do feudalismo para o socialismo sem passar pelo capitalismo e pregavam um socialismo agrário com base nas sociedades rurais. Por fim, os sociais-democratas, que se baseavam nas teses de Marx e Engels, que consideravam a passagem pelo capitalismo para chegar ao socialismo. Essa passagem seria comandada por uma classe operária urbana organizada e consciente. Os sociais-democratas dividiam-se em mencheviques (minoria) que defendia uma aliança com a burguesia e bolcheviques (maioria), que eram contra qualquer tipo de acordo com a burguesia Para Marx e Engels a revolução socialista aconteceria no país mais desenvolvido economicamente. Desta forma, a Rússia, que tinha uma economia agrária, com as terras em poder de poucos proprietários, com formas de trabalho feudais e uma industrialização incipiente, estava bem longe do pensamento marxista de ser considerada o berço do socialismo. A Alemanha era considerada a mais apta para desencadear uma revolução desta natureza, mas foi na Rússia que a revolução aconteceu, dando origem ao regime comunista. Não da forma pensada por Marx, mas, sem dúvida, foi a experiência comunista que vimos a conhecer. Nos 30 primeiros anos do século XX, a Rússia foi palco de três revoluções. Segundo Daniel Arão Reis Filho (2003: 14), houve uma tendência entre os revolucionários vitoriosos e alguns especialistas no tema em criar um nexo entre os três acontecimentos. Seguindo esta linha, “a revolução de 1905 seria o prólogo, a de 1917 o epílogo e a de 1921 apenas uma revolta”. Porém, na opinião do autor, as revoluções aconteceram sem prévia determinação de qualquer natureza e não estavam inscritas em nenhuma lógica. “Foram construídas no contexto de entrecruzamentos e de choques de imensas forças sociais e políticas em ação, de opções de forças tomadas por suas lideranças e partidos, condicionadas por circunstâncias nacionais e internacionais que nenhuma delas, individualmente, controlava”. Em 1905, depois de presenciar a derrota de seu país pelo Japão na guerra russo-japonesa, os operários russos dirigiram-se até o palácio do Czar para requerer diminuição da jornada de trabalho para oito horas, salário mínimo e formação de uma assembléia constituinte por sufrágio universal. Os manifestantes foram violentamente reprimidos e o episódio foi chamado de Domingo Sangrento. Houve explosão de diversas greves e por fim uma greve geral, em vista da não-realização de novas eleições para a Duma. Foi em meio à greve que surgiu uma nova forma de organização chamada de Soviete (conselho), um órgão formado por delegados eleito pelos trabalhadores, camponeses que deveriam tomar decisões de caráter político, estando à frente o soviete de São Petersbugo, liderado por Trótski. Esse modelo estaria presente nas revoluções seguintes. Apesar do czar Nicolau II ter cedido e assegurado algumas mudanças no manifesto de outubro, com liberdade de imprensa, reunião e associação, houve novamente violenta repressão sobre os manifestantes para debelar a agitação, sendo que as medidas anunciadas no manifesto de outubro não foram postas em prática. A segunda revolução foi em 1917. Começou em fevereiro e teve fim em outubro, igualmente surgida pela insatisfação relativa ao governo e à participação da Rússia na Grande Guerra, que estava matando os soldados nas trincheiras e a população de fome. O esforço de guerra canalizou os recursos para a indústria bélica em detrimento das indústrias de bens de consumo, que estavam fechando. A agricultura apresentava baixa produção e redução dos estoques, pois os camponeses foram deslocados para as trincheiras. A derrubada do czar, promovida pela população insatisfeita, criou um vácuo no poder que procurou ser preenchido por uma frente política que reunia liberais e cadetes que tentavam comandar e/ou coordenar o processo que resultou na queda do czarismo e que continuava em curso. Esse governo provisório, chamado de Duma, decretou anistia para os presos e exilados políticos e programou algumas reformas no calendário político. Neste, era fundamental não perder a guerra, pois, depois da queda da dinastia,
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os planos mudaram: Não se tratava mais de defender um governo autocrático, mas de salvar a revolução. Instaurou-se uma situação de duplo poder: Por um lado, a Duma querendo honrar os acordos e não aceitando a retirada da Rússia da guerra e, por outro, os sovietes, que pediam o cumprimento imediato das reivindicações, que consistiam em pão, terra e paz. O resultado em não atender às reivindicações dos sovietes foi o confronto entre os dois poderes que coexistiam em julho. Dois meses antes, Lênin, recém saído do exílio, lança as teses de abril, que pediam a saída imediata da guerra, a nacionalização das empresas privadas e a entrega do poder aos sovietes: todo poder aos sovietes! era a palavra de ordem. Ao mencionar um dilema que precisava ser resolvido, Lênin expõe seu ponto de vista numa proclamação por ele assinada e publicada no jornal Rabotchi Put: Todo soldado, todo operário, todo verdadeiro socialista democrata sincero compreende que a situação atual só oferece duas alternativas: Ou o poder permanece nas mãos dos burgueses e proprietários das terras e significará todo tipo de repressão para os operários, soldados e camponeses e a continuação da guerra, a fome e a morte inevitáveis... Ou o poder se transfere para as mãos dos operários, soldados e camponeses revolucionários: e nesse caso, significará a abolição total da tirania dos donos da terra, o aniquilamento imediato dos capitalistas, a proposta urgente de uma paz justa. A paz estará garantida para os camponeses, o controle da indústria assegurada aos operários. Haverá pão para os que têm fome e esta guerra absurda chegará ao fim! (citado por Reed, 136). Impulsionados pela proclamação de Lênin, houve a decisão por parte dos bolcheviques, em outubro, de que somente a tomada do poder pela via armada poderia transferir o governo para as mãos dos sovietes, e criou-se a Guarda Vermelha que, na madrugada de 24 para 25 de outubro, invadiu o Palácio de Inverno e derrubou o governo provisório. Trotsky nos revela um pouco sobre essa madrugada: O público da Nevsky (principal avenida de Petrogrado) começou a assustar-se lá pela noite. Pela manhã, o alarme era tão intenso que, nos quarteirões burgueses, pouca gente ousava aparecer nas ruas. [...] Num pequeno grupo de gente comum contava-se que, durante a noite, os bolcheviques tinham se apoderado dos telefones, dos telégrafos, do Banco do Estado. (Trotsky, 1980: 895) Com a ascensão ao poder dos bolcheviques, liderados por Lênin, iniciou-se a chamada “construção do socialismo” com a abolição do direito à propriedade privada, entrega das terras cultiváveis aos camponeses, nacionalização dos bancos, administração das fábricas passadas para as mãos dos operários, acordo de paz com a Alemanha. Com essas medidas, os bolcheviques tiveram que enfrentar a reação das antigas classes dominantes que, apoiadas pelos países imperialistas, tentaram retomar o poder. A vitória dos bolcheviques consolidou seu domínio no governo e as futuras medidas foram mais duras com a expropriação das grandes indústrias e o confisco das colheitas para alimentar o exército. A terceira revolução deu-se pela insatisfação dos camponeses que reivindicavam contra as medidas adotadas pelo governo dos bolcheviques, em especial o confisco das colheitas e dos operários com diversas greves. A resposta do governo foi a violenta repressão contra os manifestantes, tornando ainda mais intransigente o governo, com a proibição das atividades dos diversos grupos políticos, permitindo ações apenas ao Partido Comunista. Em 1922 foi fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) com a adesão além da Ucrânia e da própria Rússia, do Uzbequistão, do Turcomenistão e do Tadjiquistão. Depois de formada, a União Soviética voltou-se para seu enorme território e tentou crescer como potência mundial. Com a morte de Lênin, em 1924, o poder foi disputado entre Stalin e Trotsky. Stalin representava a proposta de limitação do socialismo apenas à URSS, enquanto Trotsky, com uma visão internacionalista dos bolcheviques, defendia a difusão do socialismo para diversos outros países, com sua teoria de revolução permanente. Depois de vencer a disputa, Stalin baniu Trotsky da Rússia, afastou a oposição e burocratizou o Estado, tornando-se um ditador. Stalin costumava ordenar que a polícia política fuzilasse os inimigos do Estado ou os enviasse para campos de concentração para executar trabalhos forçados. Esses crimes foram publicamente denunciados por Kruchev, em 1956, depois da morte de Stalin. Muitos militantes comunistas que se opuseram foram expulsos do partido e execrados da política. Sem oposição
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consistente, Stalin centralizou cada vez mais o poder em suas mãos, iniciando o culto a sua personalidade e transformando a ditadura do proletariado em ditadura pessoal e intransferível.

STALIN, RETIRADO DE: www.davidosler.com/stalin%20with%20kids. jpg

Um culto a sua personalidade foi elaborado e difundido para diversos países. O Pravda (jornal do Partido Comunista Soviético) inaugurou a prática de homenagear diariamente o líder. Em 1939, o seu nome começou a ser objeto de epítetos como “gênio”, “pai dos povos”, “guia do proletariado mundial”. Ferreira identifica que foi depois da Segunda Guerra Mundial que se iniciou o culto à personalidade de Stalin no Brasil, como o grande guia dos povos, dos oprimidos, o homem de aço, tendo suas obras e ações exaltadas. Depois de sua morte, os membros do Partido Comunista Brasileiro publicaram uma nota dirigida à classe operária e ao povo. Imensa desgraça caiu sobre a humanidade. Morreu o grande Stalin. Cessou de bater o coração generoso que sempre pulsou pelos explorados e oprimidos do mundo inteiro. Deixou de trabalhar o cérebro genial que durante mais de três décadas iluminou o caminho da libertação dos povos. Nenhum homem fez tanto pela humanidade. Ninguém até hoje foi tão amado pelo povo. O desaparecimento do grande Stalin atinge dolorosamente os trabalhadores e todos os homens honestos da pátria. Segundo Ferreira (2002:219), enquanto no Brasil, como em diversos outros países, comunistas e simpatizantes lamentavam sua morte, em Moscou milhões de pessoas se dirigiram espontaneamente para a Praça Vermelha. Queriam ver, pela última vez, o camarada Stalin. Segundo testemunhas, os manifestantes, entre lágrimas e gritos, demonstravam sentimentos de abandono e impotência. No dia 8 de março, o pânico se estabeleceu na multidão que insistia em vê-lo. As autoridades soviéticas não previram a imensa concentração humana e tiveram dificuldade de em lidar adequadamente com a comoção popular. Seria muito simplista colocar que apenas a propaganda política tenha construído o mito de Stalin. Segundo Ferreira (2002; 223), “não há propaganda política que transforme um personagem em líder salvacionista, em figura legendária, sem realizações que afetem sua vida material e simbólica”. De fato, a figura de Stalin produzia motivação e esperança para os revolucionários de várias partes do mundo. Além disso, em seu governo, Stalin criou uma indústria pesada, coletivizou as terras e mecanizou a agricultura através dos planos qüinqüenais que permitiram, entre outras coisas, um desenvolvimento econômico que conseguiu superar o atraso tecnológico em relação às potencias imperialistas. Colada aos planos qüinqüenais, houve uma política cultural de erradicação do analfabetismo, com a implantação do ensino técnico.

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A CRISE MUNDIAL DE 1929
Essa é uma história que teve seu ápice em Nova York (EUA), numa quinta-feira, 24 de outubro de 1929, e se espalhou numa onda de depressão pelo mundo com conseqüências catastróficas. Como os EUA, que saíram economicamente fortalecidos da Primeira Guerra Mundial, tiveram uma fase de ouro nos anos 20, puderam ir à bancarrota levando o mundo consigo? Quando a onda bateu, foi difícil segurar-se em pé. De fato, os EUA, por terem sido o maior fornecedor de armas e alimentos aos europeus durante o conflito, como também seu maior credor, saiu da Grande Guerra com os cofres abarrotados. Além de mais rico, os EUA, que já tinham conquistado a posição de maior produtor do mundo, agora eram também o maior credor mundial, e esta situação privilegiada tendeu a continuar, principalmente se levarmos em conta as soluções encontradas para resolver a situação delicada em que se encontrava a Alemanha. Com pesadas dívidas nas costas, impostas pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha não tinha condições de saldar seus débitos, principalmente porque França e Inglaterra queriam que a indenização fosse paga em dinheiro e em curto prazo, não aceitando em parte das rendas dos produtos exportados, porque isso estimularia a produção industrial alemã, fortalecendo sua economia. Por outro lado, tanto França quanto Inglaterra precisavam do dinheiro para quitar suas dívidas adquiridas na Primeira Guerra Mundial junto aos Estados Unidos. Então, a saída encontrada pela Alemanha foi adquirir altos empréstimos com os EUA, passando sua dívida para o outro lado do Atlântico. Mesmo fazendo os empréstimos, os estadunidenses continuavam endinheirados, o que mostra uma assimetria da economia internacional. Então, esse período de ouro foi para quem? Certamente, podemos dizer que a fase de crescimento econômico foi somente para os Estados Unidos porque a Europa continuava passando por sérias dificuldades. O desemprego era altíssimo (entre 12 e 17%), considerando-se o período anterior à guerra. Além disso, a produção dos países europeus não estava sendo elevada. Gohthier e Troux, ao falar da França no trecho abaixo, nos passa uma idéia de como foi difícil a reconstrução na Europa. A reconstrução das regiões devastadas pela guerra foi o principal problema das nações européias. O termo reconstrução, muito usado na época, adquiriu todo seu significado na França, onde, em 1926, a reconstrução das regiões devastadas tinha praticamente terminado. Foi uma obra muito grande, inesquecível, que realizou nosso país. Uma obra que necessitou de muita energia e na qual se vê uma obra de vitalidade francesa. Algumas cifras darão uma idéia dos resultados obtidos em 1925. A população da região devastada era, em 1914, de 4,69 milhões; caiu a 2,07 milhões no fim de 1918, estando, em 1925, com 4, 27 milhões. Foram destruídas 2,40 milhões de vias férreas, 1.566 quilômetros de canais. Em 1925, 2.361 quilômetros de vias férreas e 1.505 quilômetros de canais tinham sido recuperados. Do 1,92 milhão de hectares de terras cultivadas e destruídas, cerca de 900 mil estavam ainda incultos em 1921; somente 125 restavam em 1925. (Gohthier e Troux, p. 286). Somente foi possível para França e Inglaterra quitarem seus débitos com os EUA em 1922. Parte dessa quantia foi reinvestida em pesquisa e mecanização, aperfeiçoando a produção em série, em especial de eletrodomésticos e carros, proporcionando uma expansão acelerada das indústrias de bens de consumo. Na indústria automobilística, Henry Ford aperfeiçoou a linha de montagem e, com isto, o tempo de produção de um carro foi reduzido de 14 horas para 1hora e 33 minutos, permitindo a produção de mais de 2 milhões de carros por ano na década de 20. Ao produzir em série, Ford buscava baratear o preço dos automóveis, tornando-os acessíveis a uma quantidade maior de pessoas. Em sua empresa, a Ford Motor
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Company, fundada em 1903, o modelo Ford Model T era o mais produzido e foi muito bem vendido. Paralelo à produção em série começou a ser criado o American way of life (modo de vida americano). Esse estilo de vida pode ser caracterizado pelo estímulo ao consumismo, em especial eletrodomésticos, carros e outros produtos industrializados. Uso intenso dos meios de comunicação, principalmente cinema e televisão, para difundir esse modo de vida americano, gerando uma cultura de massa. Divisão sexista dos papéis, pois o trabalho masculino era estimulado e valorizado, sendo o homem considerado intelectualmente superior às mulheres, que eram estimuladas a serem donas-de-casa. Assim, além de exportador de produtos, e de credor, os EUA vendiam um modelo de civilização ao mundo. Esse modelo de vida americano, apesar de novo, era sexista e conservador, pois a sociedade precisava ser moralmente exemplar. Essa postura conservadora pode ser observada na instituição da lei seca, em 1919, proibindo o fabrico, venda, distribuição, exportação e importação de bebida alcoólica no país. A proibição fez crescer o contrabando, o crime organizado e a corrupção policial. A venda ilegal de bebidas tornou-se um negócio lucrativo, aumentando a ação de gângsteres que pagavam propina para que os policiais permitissem a ação ilícita e a venda de armas. Alfonso Capone (Al Capone) ficou conhecido como um dos maiores contrabandistas do período, mas a justiça só conseguiu processá-lo por sonegação de imposto, pois não havia provas de seus crimes. A lei foi abolida em 1933. Houve também um aumento da defesa dos ideais nacionais, que gerou o surgimento de grupos que utilizavam ações agressivas contra as minorias não-brancas, não-protestantes, imigrantes e judeus. Um exemplo emblemático foi a Ku Klux Klan (KKK), nome dado a várias organizações secretas e racistas surgida nos EUA que defendiam a supremacia branca e o protestantismo. O primeiro grupo foi fundado por 6 pessoas, em 1856, em Nashville. Inicialmente era uma brincadeira, mas, com a radicalização da segregação racial no fim da Guerra de Secessão, a organização foi agregando mais participantes e começou a ser utilizada para outros fins. O objetivo principal passou a ser impedir a integração dos negros na sociedade após a abolição da escravidão. O segundo grupo surgiu no Arizona em 1915, alcançando grande popularidade nos anos 20, agregando milhares de pessoas, entre elas políticos, policiais e outros grupos influentes na sociedade. Era odiada e temida pelas minorias e ficou famosa por seus atos violentos que incluíam linchamentos, espancamentos, assassinatos e atentados contra a propriedade.

Depressão
Devido ao crescimento industrial favorecido pelas taxas protecionistas e com a possibilidade de compra a crédito, houve uma euforia da população, que passou a ter como meta comprar diversos produtos industrializados, principalmente os eletrodomésticos, para atingir o novo padrão de vida. No entanto, esse consumismo foi feito apenas por uma parcela da população, pois os diversos bens de consumo não estavam ao alcance de todos. Os trabalhadores, com seus baixos salários, nem sempre puderam viver o bem-estar do estilo de vida americano. Muitos não podiam adquirir o produto de seu próprio trabalho. Tomamos, como exemplo, o operário “Alex Anderson que trabalhava 12 horas por dia, inclusive aos sábados, na montadora de caros da Ford, em Detroit. Ele ganhava 22 dólares por semana, morreu de gripe espanhola, nunca teve um Ford T” (informação retirada do documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos). A crescente mecanização resultou na dispensa de muitos operários que, desempregados não tinham renda para consumir. Como a exportação de produtos agrícolas estava gerando altos lucros, alguns agricultores hipotecaram suas terras junto aos bancos para poder expandir suas propriedades e mecanizar a produção. Isso funcionou até os países europeus adotarem tarifas protecionistas para fortalecer sua economia. Depois disso, o mercado consumidor diminuiu, obrigando ao armazenamento dos produtos agrícolas. As altas taxas a que os agricultores foram submetidos os impossibilitaram de quitar suas dívidas e muitos deles faliram.

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IMAGEM DA CRISE DE 1929 COM AS TRADUÇÕES: O MAIS ALTO PADRÃO DE VIDA DO MUNDO E NADA MELHOR DO QUE O MODO DE VIDA AMERICANO

A crise de superprodução - tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que não encontravam mercado consumidor interno e externo - fez os grandes empresários começarem a especular suas ações, aumentando ficticiamente seu valor no mercado. Desconfiados dessa elevação repentina nos preços, os investidores colocaram seus títulos à venda no mercado financeiro. No dia 24 de outubro, em Wall Street (Nova York), diversos títulos não encontraram compradores e houve uma quebra (crack) da bolsa de Nova York. Com a desvalorização dos títulos muitas empresas faliram, enquanto outras cortaram drasticamente seus custos, provocando demissões em massa dos operários. Com a crise, “o engenheiro Paul Davis (1895-1955) virou vendedor de maçã nas ruas e avenidas” (informação retirada do documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos). A crise atingiu todos os países capitalistas, devido à dependência econômica existente entre eles. Os países latino-americanos, produtores de matérias-primas, perderam seu principal mercado consumidor, os EUA. Os EUA pediram a devolução dos capitais emprestados às outras nações, numa tentativa de amenizar os efeitos da crise. O diretor executivo do Welfare Council (conselho do bem estar) escreveu: O espectro da fome ronda milhões de famílias que nunca haviam experimentado a realidade do desemprego por um período prolongado e que certamente nunca conheceram o que era estar entregues a uma situação absolutamente desesperadora (citado em Hunt & Sherman, 1997:165)

Mr. Slang e o Brasil
Um admirador entusiasta dos EUA e que acompanhou seu período de euforia e depressão foi o escritor brasileiro Monteiro Lobato. Ele viajou para os EUA como adido comercial brasileiro, em 1927, permanecendo até 1931. Segundo Sérgio Lamarão, antes de sua viagem para os EUA é possível perceber a admiração de Lobato pelos States, pois seus textos já estavam permeados por concepções fordistas e ideologias estadunidenses que podem ser vistas em Mr. Slang e o Brasil, How Henry Ford is regarded in Brazil, o Presidente Negro, entre outras. Nestes textos, Lobato via os EUA como ponto de referência obrigatório para o Brasil, acreditando que a adoção do progresso material e da eficiência trazida pela máquina, embutida nos valores da american way of life, seriam fundamentais para a superação do atraso brasileiro. (Lamarão, 2002:56). Em 1928, ele visitou a Ford, em Detroit, e a General Motors, e isso o levou a organizar uma empresa brasileira para produzir aço, acreditando ser este o caminho para o progresso da “terra brasilis”. Lobato parecia animado com tudo a sua volta, pois, em 1927, escreveu: “Estou encantado com a América. O país com que sonhava. Eficiência! Galope! Futuro! Ninguém andando de costas!” (Lobato, 1950: 302). Quanto mais Monteiro convivia com o estilo de vida estadunidense, mais ele menosprezava o Brasil e sua cultura, como podemos perceber no seguinte trecho retirado de uma carta datada de 16/10/1929: Eu virei num sei o quê – cigano jump bean, e acabei expatriado nesse mundo tão avesso ao nosso mundinho latino afro-americano. Passei de água a vinho – a mais que vinho, a uísque. Nunca mais, senão ocasionalmente, li português.
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Meus jornais matutinos são o Times e o Sun. Minha revista brasileira é o American Mercury. (Lobato, 1950: 320). Em 1929, embalado pela euforia que tomava todo os EUA, Lobato investe na bolsa de New York e perde tudo. Para cobrir suas perdas, é obrigado a vender suas ações na Companhia Editora Nacional, em 1930. Porém, isso não abalou a confiança do escritor em que os EUA indicavam o caminho do progresso e que por isso seu modelo devia ser seguido. De volta ao Brasil, em 1931, ele publica no ano seguinte um romance chamado América. Revivendo Mr. Slang, Lobato continua identificando os EUA como o país do futuro: A incompreensão do fenômeno americano pode filiar-se à natural incompreensão que o carro de trás sempre há de ter da locomotiva. Há muito pouco “Hoje” no mundo. Na própria Europa, o “Ontem” ainda atravanca mor parte dos países. Naturalíssima, pois, a geral incompreensão relativa ao único povo onde o “Amanhã” da humanidade já vai adiantado (Lobato, 1950) Lobato prossegue em sua certeza quase fanática no aço e no petróleo, defendendo que a extração do petróleo deveria ser entregue à iniciativa privada. Foi preso na década de 40 depois de escrever carta a Vargas protestando pelo tratamento do governo brasileiro a essa questão. A luta pelo petróleo o deixou doente, pobre e desgostoso.

New Deal
As medidas que o presidente americano Hoover estava pondo em prática para reverter o quadro de crise alarmante não estavam funcionando, e isto influiu no processo eleitoral estadunidense, levando-o a uma derrota nas urnas e à eleição do presidente Franklin Roosevelt, em 1932. No poder, o recém-eleito presidente executa um plano de recuperação nacional, com o auxílio da escola de Keynes (economista), incluindo sucessivos programas de reforma, entre 1933-1937, que foi chamado de New Deal (novo acordo). As principais medidas foram: • Fechamento temporário dos bancos e a reaquisição dos estoques de ouro para sanar as dívidas. • Desvalorização da moeda, permitindo o aumento dos gêneros agrícolas para que os agricultores pudessem pagar suas dívidas. • A emissão do papel-moeda e o abandono do padrão ouro, permitindo ao banco financiar o seguro-desemprego para auxiliar os desempregados. • Foi fixado limite de produção na indústria para evitar outra crise de superprodução. • Legislação para controlar as atividades da bolsa • Foi estabelecido o salário mínimo, diminuição da jornada de trabalho e medidas de proteção aos trabalhadores. • Construção de obras públicas para diminuir o desemprego. Essas medidas de caráter protecionista foram orientadas pela idéia de que o Estado deveria intervir na economia para evitar que uma crise dessa magnitude voltasse a acontecer. O intervencionismo estatal significava o declínio do liberalismo econômico. O economista Gardner Means, pertencente à administração do New Deal, explicou, em 1935, a intervenção estatal e lançou uma nova cartilha para os empresários. Vamos ler abaixo? A Administração de Recuperação Nacional e Administração de Ajustamento Agrícola foram criadas em resposta a uma insistente exigência da parte de alguns setores, no sentido de que a política industrial (incluindose a agricultura como indústria) não deveria continuar relegada aos mercados e mecanismos do preço, mas sim colocadas nas mãos de órgãos administrativos – autoridades, comissões de controle de safras, etc. A inclinação do desenvolvimento social, tanto neste país como no exterior, tem sido para reconhecer o fracasso de uma política de completo ‘laissez-faire’. O homem de negócio deve fazer uma política de negócio de modo que aumente ao máximo o lucro

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da própria empresa. Quando ele tem o poder de escolher entre reduzir o preço ou a produção, a boa política de negócios freqüentemente impele-o, diante de uma queda de procura, a manter o preço e diminuir a produção, mesmo que isso signifique braços parados e máquinas paradas... Seus interesses só o levam a reduzir o preço quando pode diminuir o custo, especialmente das despesas com trabalhadores... O efeito líquido do controle dos negócios sobre a política industrial é, portanto, agravar quaisquer flutuações na atividade econômica e impossibilitar qualquer reajustamento necessário. Uma queda inicial na procura resultaria não num reajustamento do preço, mas na manutenção do preço e na diminuição da produção, desempregando, assim, trabalhadores e máquinas, reduzindo a renda em dinheiro e o poder de gastar, conseqüentemente diminuindo a procura. Os preços flexíveis administrados em conseqüência da transição do mercado para a administração agem, assim, como um fator negativo na economia e podem fazer com que uma pequena queda da procura venha a ser um desastre nacional (citado por L. M. Hacker,1964: 213-217). Como medida de precaução, iniciou-se, nos EUA, o fenômeno chamado de conglomerados multifuncionais, que consistia na compra de empresas menores e em dificuldade financeira pelas grandes empresas. O objetivo era aumentar o lucro, diminuição dos riscos de investimento e independência financeira. Essas mega-empresas passaram a dominar o mercado em diversas áreas, afetando a livre concorrência, como também passaram, depois da segunda guerra, a ser um sustentáculo da política dos estadunidenses, representando um instrumento de dominação sobre países periféricos. Apesar de todos os esforços dos estadunidenses para o reerguimento de sua economia, isto só viria a acontecer a partir de 1932, com o reativamento da indústria armamentista provocado pela iminência de uma nova guerra. Os maiores efeitos da crise de 29 sobre a política foi o fortalecimentos da extrema direita, com seu militarismo ameaçador, enquanto a esquerda foi praticamente reduzida fora da URSS, muito por conta da política que o país começou a desenvolver. Segundo Hobsbawm (2001: 109), os efeitos da depressão foram quase imediatos na América Latina. Nesta, 12 países mudaram de governo ou regime entre 1930-1, 10 deles por golpe militar, caindo mais para a direita do que para a esquerda. Apenas Peru, Chile, Colômbia e Cuba tiveram governos de esquerda. Depois da crise, o mundo começou a rever as propostas que estavam presentes no cenário: a primeira era o capitalismo, que o liberalismo acabava de provar suas fraquezas; a segunda era o socialismo, que apareceu desde a revolução de 1917 como uma proposta muito sedutora; e a terceira foi o totalitarismo, que teve no fascismo e no nazismo suas maiores e extremadas expressões.

OS ESTADOS TOTALITÁRIOS
Segundo Hobsbawm (2001), o termo totalitarismo foi utilizado para definir o fascismo, mas, depois, outros regimes foram associados ao termo. Assim, como nem toda extrema-direita era fascista, nem só a extrema-direita criou regimes totalitários. As características do totalitarismo podem ser resumidas em regime de partido único, burocratização do aparelho estatal, culto à personalidade do líder do partido e ao Estado, nacionalismo, censura aos meios de comunicação e expressão, patrulha ideológica, controle das forças armadas, repressão aos opositores do regime. Levando-se em conta essas peculiaridades, tanto regimes de direita quanto de esquerda foram considerados totalitários. A saber, fascismo, nazismo, stalinismo e o maoísmo, entre outros, considerando as suas especificidades, foram todos vistos como totalitários. A diferença é que o totalitarismo de esquerda era orientado pelo comunismo e, pelo menos em teoria, estava voltado para a coletivização dos bens de produção e de terras, enquanto o totalitarismo de direita era capitalista e buscava aumentar o poder do Estado com o fortalecimento da economia e o expansionismo. Os pontos semelhantes entre ambos já foram postos acima. O totalitarismo teve início no curso da Primeira Guerra Mundial, quando algumas democracias pre-

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cisaram acumular poderes e funções ao Estado, em detrimento do poder parlamentar, para resolver os problemas mais prementes gerados pela guerra. Essa medida, que deveria terminar depois da guerra, permaneceu devido à crise econômica posterior ao conflito mundial, que favoreceu o crescimento e a expansão do totalitarismo. A propaganda feita pelo regime era baseada nas promessas, por vezes exageradas, de construção de uma nação potente. Os líderes apelavam para as paixões e preconceitos da sociedade, controlavam os meios de comunicação para difundir os discursos e propagandas, e não proporcionavam espaço para a oposição. A adoção de uma polícia política era fundamental para vigiar a sociedade, prender e punir aqueles que não se enquadravam no regime. Em seu famoso livro de ficção 1984, George Orwell buscou retratar o cotidiano de uma sociedade regida por um regime totalitário. Neste, o Estado buscava controlar os pensamentos dos indivíduos, fazia uma vigilância permanente sobre a sociedade, elaborava uma nova língua que impediria expressões contrárias ao governo e apagava a história do seu país criando uma nova, segundo a vontade do Big Brother (grande irmão), alterando ao longo do tempo a memória popular. O personagem principal, Winston Smith, era membro do partido externo e trabalhava no Ministério da Verdade. Ironicamente, a função de Smith era alterar a verdade, manipulando os dados e repassando-os à população. Em seus pensamentos, Smith maquinava uma forma de escapar e de alterar a situação. Vigiado pela polícia política, logo foi preso e torturado até aceitar (ou fingir?), sem contestação, o governo do Big Brother. Escrito em 1948, o livro faz uma crítica ao Estado totalitário, que não permite oposição e livre expressão de pensamento e ação, à manipulação da verdade pela mídia e à ascensão e queda dos políticos, atendendo aos interesses de alguns grupos. É também feita uma crítica às alianças políticas que são formadas e desfeitas de acordo com os interesses dos estadistas, sacrificando, por vezes, aliados, como foi o caso do pacto entre Hitler e Stalin (veremos a seguir). Aliás, o autor inspirou-se em Stalin para criar a figura do Big Brother, sendo o seu arquiinimigo banido Godstein, Trotsky. Trotsky é usado como referência por ter sido expulso da União Soviética, em 1929, por Stalin. Durante o governo deste, o nome e a biografia de Trotsky “foram progressivamente varridos dos registros da União Soviética. Seu verbete na enciclopédia histórica foi apagado, junto com sua imagem, nas fotos da revolução” (informação sobre Trotsky, retirada do jornal A Tarde de 10/9/1988). Qualquer semelhança, não é mera coincidência. Porém, nos alerta Hobsbawm (2001: 383-384), essa imagem produzida por Orwell onde ninguém escapava ao olhar vigilante, seria o que Stalin gostaria de ter alcançado. “O sistema”, continua o autor, “não exercia efetivo controle sobre a mente nem uma absoluta conversão de pensamento, apesar de despolitizar e aterrorizar a sociedade”.

Propaganda como alma do negócio
Os líderes dos regimes totalitários utilizavam uma propaganda permanente e seu apelo às massas era enorme. A população era constantemente estimulada a participar de eventos políticos como os comícios, paradas militares, entre outras manifestações que se transformavam em espetáculo. O nazismo utilizava desses espetáculos para aumentar o ânimo do militante, segundo Alcir Lenharo (1998: 39-42). Vamos ler um texto em que o autor fala sobre a celebração das massas, para melhor compreender a importância para os regimes totalitários de transformar os eventos em espetáculos?

Atenção
A Celebração das Massas
A chave da organização dos grandes espetáculos era converter a própria multidão em peça essencial dessa mesma organização. Na paradas e desfiles pelas ruas ou nas manifestações de massa, estáticas, em praças públicas, a multidão se emocionava de maneira contagiante, participando ativamente da produção de uma energia que carregava consigo após os espetáculos, redistribuindo-a no dia-a-dia, para escapar à monotonia de sua existência e prolongar a dramatização da vida cotidiana.

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Hitler atribuía grande importância psicológica a tais eventos, pois reforçavam o ânimo do militante nazista, que perdia o medo de estar só diante da força da imagem de uma comunidade maior, que lhe transmitia gratificantes sensações de encorajamento e reconforto. O uso do uniforme, comum entre os militantes nazistas, servia à dissimulação das diferenças sociais e projetava a imagem de uma comunidade coesa e solidária.

MANIFESTAÇÃO NAZISTA

Os emblemas da águia e da cruz gamada, dispostos nas braçadeiras, nas bandeiras e nos estandartes funcionavam como marcas de identificação. O símbolo mágico da suástica, de conhecida ancestralidade, uma espécie de cruz em movimento, sugeria energia, a luz, o caminho da perfeição, como a trajetória do sol em sua rota. Cada acontecimento era preparado minuciosamente pelo próprio Hitler. Cada entrada em cena, marcha dos grupos, os lugares dos convidados de honra, a decoração geral, flores, bandeiras, tudo era previsto. Aos poucos, a forma foi sendo definida, e os acontecimentos ganharam o sentido de um ritual religioso – um ofício – que se manteve imutável em sua forma. Florestas de bandeiras, jogos de archotes, a multidão disposta disciplinadamente, a música envolvente, os canhões de luz. O modo como a multidão se comportava durante esse tipo de espetáculo e a maneira ritualística com que ele era organizado acentuavam o caráter de cunho religioso desses acontecimentos, a ponto de levar um observador francês a denominar o congresso anual de Nuremberg como o “concilio anual de religião hitlerista. Ali eram definidos os dogmas, e eram lançadas as encíclicas. O militante nazista é visto como um crente, um apóstolo e um fanático.

FASCISMO, NAZISMO, FRANQUISMO
O avanço da extrema direita no mundo significou um recuo do liberalismo político, que havia avançado pós-Primeira Guerra Mundial. A idéia de que os governos constitucionais não estavam conseguindo resolver os problemas que o mundo enfrentava, em especial a crise econômica, começou a pairar como nevoeiro, espalhando-se por diversas partes do mundo. As características das forças que derrubaram os regimes liberais democráticos podem ser resumidas em autoritarismo, antiliberalismo, anticomunismo, militarismo ou o uso da força militar como braço direito (muitos não teriam alcançado o poder sem ela) e o nacionalismo se sobrepondo ao indivíduo. A extrema-direita teve no fascismo e no nazismo suas principais e mais violentas expressões; no entanto, é preciso considerar que nem todo movimento de direita que derrubou os regimes liberais democráticos era fascista. Por outro lado, o socialismo fora da URSS estava sofrendo revezes, provocados, em grande medida, pela política que a Internacional Comunista (IC) adotou. A IC, a partir do VI Congresso, realizado em 1928, definiu uma linha política chamada de classe contra classe (ascensão de dirigentes com origem
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operária em detrimento dos de origem burguesa), o que representou momento único na história do comunismo em termos de radicalização, pela adoção de uma estratégia de não-identificação com outros grupos políticos e de constante rivalidade com eles. Esta orientação trouxe resultados negativos, levando determinados Partidos Comunistas (PC`s) ao imobilismo rígido e à diminuição do número de filiados, principalmente intelectuais, acusados de pequeno–burgueses e de se desviarem da política revolucionária proletária, provocando o isolamento político. (Carone; 1991: 170). Esse recuo, se não contribuiu para o crescimento e expansão do totalitarismo, terminou por enfraquecer a esquerda no mundo que não pôde apresentar-se como um contraponto à altura das novas forças da extrema-direita.

Fascismo
Depois da primeira guerra, a Itália, apesar de ter conseguido o domínio de alguns pequenos territórios na Áustria, nos tratados de paz pós-guerra, não se encontrava numa situação financeira muito confortável. O desemprego e a inflação eram altos e a insatisfação popular tendeu a crescer, assim como a organização de trabalhadores e a idéia de que o socialismo era a fórmula que tiraria o país da miséria. Iniciou-se um período de greves e manifestações de camponeses e operários, deixando os setores mais conservadores temerários. O fascismo italiano surgiu em 1919 como fasci di combattimento (organização paramilitar destinada a manter a ordem frente aos diversos movimentos grevistas), em Milão, e tomou forma de Partido Nacional Fascista em 1921, tendo como dirigente Benito Mussolini, que abandonou o Partido Socialista e começou a pregar um reordenamento da Itália através de um Estado forte e centralizado. Seu discurso era pautado no nacionalismo, no repúdio à “vitória mutilada” conseguida nos tratados de paz, no repúdio ao liberalismo, no medo da expansão do socialismo e nas promessas de uma Itália poderosa. Vamos ler um trecho de um discurso de Mussolini para identificar os itens elencados acima? O Estado deve torna-se um gigante. É ele que pode resolver as contradições dramáticas do capitalismo. Isto que chamamos de crise só pode ser sanado pelo Estado e no Estado. Onde estão as sombras de J. Simon, que, à aurora o liberalismo, proclamava que o Estado não deve intervir, torna-se inútil e prepara sua demissão...? Se o liberalismo significa indivíduo, fascismo significa Estado. Mas Estado fascista é único e é uma criação original. Ele não é reacionário, mas revolucionário e, nesse sentido ele precede a solução de certos problemas universais, mencionados acima. No domínio político, pelo fracionamento dos partidos, pelo abuso do poder do parlamentarismo, pela irresponsabilidade das assembléias; no domínio econômico, pelas funções sindicais sempre mais poderosas e mais numerosas, tanto pelo lado do trabalhador quanto do lado do patrão, cada vez com novos conflitos e acordos; no domínio da moral, pela necessidade da ordem, de disciplina, de obediência às regras morais da pátria. O fascismo vela para que o Estado seja forte, organizado e repouse ao mesmo tempo numa grande base popular. (Citado por Fernando Braudel, 1963:89). Mussolini apresentava-se como solução para a resolução da crise econômica e passou a ter espaço junto aos empresários e à classe média que financiou a ascensão do Partido Nacional Fascista. Da mesma forma que a depressão pós-guerra fez surgir uma atração pelo comunismo na classe trabalhadora, o avanço do sindicalismo e do comunismo gerou um medo na classe média e nos setores mais conservadores que permitiram a promoção de Mussolini ao poder. Houve uma aliança entre a alta burguesia e o fascismo, que começou a perder sua ideologia originalmente anticlerical, antiliberal e a aceitar a Igreja e a burguesia como aliadas. O discurso de Mussolini igualmente sensibilizava a população pobre do campo e das cidades. De fato, o fascismo procurou construir um discurso volMUSSOLINI E A PROPAGANDA tado para as massas, objetivando mobilizá-las. Podemos considerar que o fasFASCISTA cismo foi a primeira proposta de mobilização de massas pela direita. Enquanto a burguesia liberal pensava

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o poder de cima para baixo, olhando com certo preconceito e temor a população, que na sua concepção era inapta e precisava ser reduzida à passividade, o fascismo apelava para a mobilização das massas. Além da propaganda e do discurso feito em tom apocalíptico, o Duce (guia) promovia marchas paramilitares, com pessoas vestidas de camisas pretas numa demonstração de força. Em meio ao caos em que se vivia, numa mistura de crise econômica e sentimento de revolta, esse apelo à ordem parecia atraente. Em 1922, houve a explosão de uma greve geral contra a política do monarca Vitor Manuel III pela falta de um projeto político que mudasse a situação do país, como também contra a violência dos ataques fascistas, grupo que usufruía de certa anuência junto ao governo. Este acreditava poder usar o fascismo como arma para intimidar as organizações socialistas e os movimentos contestatórios. Mussolini, aproveitando-se da agitação em cena, marcha sobre Roma com seus seguidores, chamados de camisas negras, e toma o poder. Chegando ao posto de comando, os fascistas começam a organizar o governo, transformando-o numa ditadura, formando milícias para reprimir manifestações populares e opositores do governo. Os sindicatos foram colocados sob intervenção, houve censura à imprensa, os partidos políticos foram considerados ilegais, seguido de prisão, assassinato e exílio das lideranças mais combativas. Entre estas estava Gramsci, preso em 1926. Na prisão, ele escreve os famosos Cadernos do Cárcere, onde analisa o fascismo dentro do complexo quadro histórico, como também a Revolução Francesa e o capitalismo do seu tempo. A concepção do fascismo pode ser resumida na expressão Estado total, nada escapa ao Estado, ninguém pode ser contra o Estado. O indivíduo deve estar integrado nele, apoiando-o e servindo. O Estado aparece como superior à soma dos indivíduos e representa a encarnação da vontade coletiva e o instrumento único capaz de realizar o bem comum. Essa confusão entre Estado e nação não é acidental, assim justificava-se a necessidade de unidade, como também a eliminação da oposição. Como pode haver unanimidade numa sociedade dividida em classes? Não é possível. Então, a construção desse Estado precisou ser feita mediante o uso da força. Podemos comparar o fascismo a uma revolução? Alguns autores, e o próprio Mussolini, fizeram essa comparação; porém, é preciso perguntar, o que o fascismo revolucionou? Talvez o que ele tenha feito com sucesso foi retirar as antigas elites do poder e varrer os resquícios de estruturas institucionais imperiais, mas podemos afirmar que foi um regime mais recauchutado do que inovador. Apesar de conter alguns elementos novos em sua política, que não podem ser menosprezados, ele não inaugura uma política diferente, sendo por vezes bem conservador nos valores que prega e nas bandeiras que levanta. A questão com a Igreja Católica é decidida em 1929, com o Tratado de Latrão. A igreja granjeou seu apoio e em troca recebeu o monopólio sobre o Vaticano, transformado num Estado independente, como também recebeu influência sobre o sistema educacional e liberdade para organizar a ação católica. Na área sindical, foi instituída, em 1927, a Carta del Lavoro, que tinha como princípio o corporativismo, um atrelamento dos sindicatos ao Estado. A carta era uma combinação de cidadania e exclusão. Por um lado, reconhecia e concedia alguns direitos aos trabalhadores, como o direito a férias, 8 horas de trabalho, regulamentação do trabalho noturno e perigoso, seguro contra acidentes de trabalho, entre outros; e, por outro lado, proibia as greves e eliminava os sindicatos livres. No ano de 1938, o fascismo recebe o racismo e o anti-semitismo do nazismo, algo que estava ausente do fascismo italiano. De fato, além de trazer esse elemento novo altamente destrutivo, o nazismo trouxe uma força que tornou a extrema direita mais poderosa em todo o mundo e uma preocupação para as potências capitalistas rivais. Então, se o fascismo italiano forneceu o modelo, podemos dizer que o nazismo apareceu como uma força assustadora.

Fascismo Tupiniquim
Diversos outros países, se não tiveram governos fascistas, apresentavam organizações que comungavam das mesmas idéias. Segundo Fábio Bertonha (2001), a partir de 1922 surgiram no Brasil organizações de caráter fascista, intituladas Partido Fascista Brasileiro, Legião Cearense do Trabalho, Ação Imperial Patrionovista, Legião de Outubro, Partido Nacional Fascista, Partido Nacional Regenerador. Essas associações surgiram, em sua maioria, nas colônias italianas brasileiras por imigrantes que tinham

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admiração e afinidade pelo discurso do movimento fascista. Elas não tiveram uma expansão muito grande. Diferente sorte teve a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932. A AIB foi comparada por seus contemporâneos, em especial pela oposição, com o fenômeno do fascismo devido à semelhança que guardava nos símbolos, doutrina e propaganda, como também pelo apoio que recebeu das entidades citadas acima, que seguiam uma linha fascista. Plínio Salgado, que se tornou o líder máximo do integralismo, não escondia sua admiração pelo Duce, Benito Mussolini. Ao voltar da Itália, em 1930, contou que “numa tarde de junho, depois de ter visto a Itália Nova, depois de ter julgado com tanto rigor, eu me vi no Palácio de Veneza, frente a frente com o grande gênio da política do futuro” (Vianna, 1992:107). Posteriormente, em 1932, escreveu, em artigo publicado na revista Hierarquia, que “a concepção fascista da existência será a luz dos tempos novos”. (Rose, 2001: 54). Quando a AIB surgiu em cena seu manifesto pregava um Estado forte, autoritário e corporativista que fosse capaz de eliminar os males provocados pelo liberalismo. Seu lema: “Deus, Pátria e Família” traduzia o pensamento nacionalista e religioso dos integralistas. Ao longo dos anos, a entidade procurou negar a ligação com o movimento fascista em suas publicações e propagandas. A historiografia diverge quanto à questão de o integralismo ter sido uma simples transposição do modelo fascista, e de fato detectar a influência da ideologia fascista no integralismo não dá conta da complexidade do movimento, pois a AIB abriu diversos outros espaços de sociabilidade para seus militantes através das atividades educacionais, esportivas e de lazer que promovia. A AIB agia com liberdade no governo Vargas. Por diversas vezes, os opositores ao regime acusaram a política varguista de fascista, pela liberdade que concedia a AIB e pela política trabalhista adotada. Assim como associaram o governo Vargas ao regime fascista, as leis trabalhistas foram comparadas à Carta del Lavoro italiana. Segundo Michael Hall (2002: 17-27), que tratou sobre a tênue relação entre os dois regimes, de fato havia semelhanças entre a política trabalhista italiana e a brasileira. O que diferiu, entre outras coisas, foi que no Brasil as mudanças vieram em conta-gotas, já que as primeiras leis sindicais, de 1931 e 1934, incluíam “elementos liberais numa estrutura predominantemente corporativista”. A partir de 1937, as similaridades se acentuaram, em especial com a declaração de ilegalidade das greves e em alguns itens relativos ao trabalho contidos na Constituição brasileira de 37 retirados da Carta del Lavoro. Apesar disso, as leis trabalhistas formuladas no governo Vargas “acabaram provando ser únicas em sua longevidade”.

Nazismo
Como vimos, depois do tratado de Versalhes a Alemanha teve altas dívidas para saldar sem apresentar condições para tanto. Internamente, a população alemã vinha passando sérias privações. Segundo Ângela Mendes de Almeida (1987:36): A inflação assumiu um ritmo galopante: o dólar, que em abril de 1922 valia mil marcos em papel–moeda, passou a 56 mil em janeiro de 1923, a mais de 2 milhões em agosto, e a 350 milhões em setembro. Os preços subiram nessa proporção e a vida tornou-se quase impossível para a maioria da população. Jamais um país industrializado havia conhecido tamanha miséria, de forma que a situação política e social ficou inteiramente subvertida. Neste contexto surgiu a sedução pelo socialismo, assim como partidos ultranacionalistas e as brigas de rua entre ambos. O Partido Socialista dos Trabalhadores Alemãos (Partido Nazista), liderado por um ex-cabo que lutou na Primeira Guerra Mundial, Adolf Hitler, surgiu em 1919, na cidade de Munique. Apesar do termo socialismo estar em seu nome, o partido nazista não comungava tais idéias. As propostas dos nazistas assemelhavam-se com as dos fascistas em seu radicalismo e estavam reveladas para quem sabia e queria ler. Vamos observar alguns termos do programa do Partido Nacional Socialista? Este continha, entre outros pontos: • A revogação do Tratado de Versalhes e a igualdade de direito em relação às outras nações. • Somente os cidadãos, ou seja, pessoas de sangue alemão podem usufruir dos direitos cívicos, sendo que nenhum judeu pode ser considerado cidadão. • O Estado se compromete a cuidar de todos os cidadãos e, caso o Estado não possa arcar com as despesas, os não-cidadãos dever ser expulsos do território alemão.
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• Nacionalização das empresas e participação nos lucros das grandes empresas. • Supressão do exército mercenário e criação de um exército nacional. • Reforma agrária e uma lei que autorizasse a expropriação, sem indenização, de terrenos para fins de utilidade pública. • Proibir a participação de não-alemães, seja financeira ou outra, nos jornais alemães. O que transformou o partido nazista de uma simples agremiação política da cidade de Munique no partido da nação alemã foi a crise 1929. Se a depressão econômica causada pela crise de 1929 deixou diversos países em situação difícil, a Alemanha ficou em estado deplorável. O desemprego subiu para 5,5 milhões em 1931, 5 bancos quebraram e 120 mil empresas fecharam. A mudança de opinião da população foi sentida nas urnas. Diferente da eleição realizada em 1925 para presidente, onde o partido nazi teve um resultado irrisório, no pleito parlamentar de 1938 o partido nazista conseguiu mais votos do que qualquer outro. O resultado eleitoral positivo fez com que os nazistas pressionassem o governo para conceder a Hitler o cargo de chanceler. O que foi conseguido mediante a intervenção de grandes empresários, que solicitaram ao presidente que o pedido fosse apreciado positivamente. Como chanceler, a partir de janeiro de 1933, Hitler conseguiu que o parlamente lhe concedesse plenos poderes, chegando ao cargo de presidente no ano seguinte, após a morte do presidente alemão, quando Hitler passa a ser o Führer (guia) da nação alemã. Tem início o Terceiro Reich. Semelhante às atitudes do Duce, o Führer coloca na ilegalidade os partidos políticos (com exceção do partido nazi), dissolve o parlamento, centraliza o poder, cria a Gestapo (polícia política) e o Ministério do Reich para Educação e Propaganda. Para o reerguimento econômico, Hitler não permitiu a repatriação dos capitais estrangeiros para poder investi-los na agricultura e indústria. Iniciou HITLER E A PROPAGANDA NAZISTA uma série de obras públicas, para minimizar o desemprego, e o programa social para as massas: férias, esportes e o carro popular. As medidas trouxeram resultados positivos, melhorando parcialmente a economia e o bem-estar da sociedade. É preciso notar que a população alemã apoiou diversos atos do regime nazista, incluindo o racismo e o anti-semitismo. Como exemplo, podemos citar as muitas delações que eram apresentadas a polícia pela população. Ela se auto-vigiava. Foram muitas as delações e a maioria delas era seguida de nomes e endereços. Muitas eram feitas por motivos banais: contra o vizinho que desgostavam, o comerciante que faturava mais, o agiota que lucrava muito. Se havia uma ditadura em vigor para ajudá-los, população utilizava para resolver as suas querelas. Robert Gellately assinalou que, ao pesquisar denúncias endereçadas a Hitler, o sistema nazista também era manipulado a partir de baixo, tanto por motivos ideológicos como simplesmente por causa do preconceito, egoísmo ou ganância dos dedos-duros (depoimento retirado do documentário The Nazis, episódio 2). Para Ferreira (2001:95), esse tipo de comportamento ocorria porque a sociedade em si mesma não era tão boa e isenta de culpas e que nela circulavam preconceitos e rancores. “Em outras palavras, as relações entre Estado e sociedade não eram de mão única, de cima para baixo, mas, sim, de interlocução e muitas vezes de cumplicidade”, analisa o autor. Além das delações, a população participava dos atos públicos organizados pelo Estado para demonstrar apoio e solidariedade. Sentido-se mais seguro depois de amplo apoio popular, Hitler pôde rasgar o Tratado de Versalhes e voltou a reaparelhar o exército e a colocar a indústria bélica pra funcionar a pleno vapor. Por que França e Inglaterra não reagiram a esse rearmamento? Porque as duas nações consideraram que podiam utilizar-se da ascensão da extrema-direita contra o “perigo do comunismo”, mas este fechar de olhos não teve boas conseqüências. Aos poucos, a Alemanha, alegando que precisava aumentar o seu espaço vital, começou a anexar territórios. Em 1936, Hitler ocupa a Romênia, dois anos depois a Áustria e, logo em seguida, reivindica os Sudetos, região da Tchecoslováquia em que vivia uma minoria étnica alemã, conseguindo a anexação. Todas essas ocupações foram realizadas sem a intervenção e/ou protesto da Liga das Nações.
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Em 1939, Hitler ocupa a Polônia, país com o qual França e a Inglaterra mantinham um tratado de cooperação e auxílio militar. Sentido que essa ocupação geraria conflitos, Hitler, para evitar uma guerra em duas frentes, fez acordo (pacto germânico-sovietico) com a URSS, dividindo a Polônia. Segundo Oswaldo Coggiola, esse pacto permitiu a entrega dos comunistas alemães refugaidos na União Soviética para a Gestapo e o abastecimento da Alemanha de alimentos feito pela URSS. Portanto, um acordo político que foi além da não-agressão. Vamos olhar o mapa para melhor visualizar essa expansão?

MAPA RETIRADO DE: PAZZINATO, ALCEU LUIZ; SENISE, MARIA HELENA VALENTE. HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA, SÃO PAULO, EDITORA ÁTICA, 1994

O governo brasileiro também flertava com o nazismo, procurando estreitar as relações políticas. Em 1936, o embaixador brasileiro, Aragão Muniz, ao entregar as credenciais para Adolf Hitler, afirmou que o governo brasileiro “está sempre decidido a estreitar os laços que nos une, indo ao encontro da necessidade de intensificar a nossa colaboração nos domínios político, econômico, comercial e cultural e, especialmente, no da defesa da ordem e no fundamento das nossas civilizações.” No fim do discurso, Muniz disse esperar continuar recebendo “o benevolente apoio” com que foi honrado até aquele momento”. (Folha de São Paulo, 17/6/1936).

Racismo e Anti-Semitismo
“Somente uma raça pura poderia levar a nação ao apogeu, as raças impuras deveriam ser banidas e exterminadas”, professava Hitler em seu livro Mein Kampf (minha luta). O livro é autobiográfico, prega o anti-semitismo e contém idéias conspiratórias sobre os judeus que, segundo Hitler, visavam alçar ao poder alemão. Ainda em Mein Kampf, é posto que raças sem pátria são consideradas raças parasíticas. Esse argumento, em parte retirado das teorias eugênicas, justificou posteriormente o extermínio de eslavos, judeus, ciganos e homossexuais. Após a ascensão de Hitler ao poder, foi iniciada uma política de expulsão dos judeus da Alemanha, com boicote e destruição das lojas e estigmatização dos judeus para afastá-los de suas profissões e dos setores da economia. Com as leis de Nuremberg, os judeus perderam o direito à cidadania e foram forçados a se exilarem em outros países que estavam adotando medidas para não recebê-los. Surgiram decretos anti-semitas, uns após outros, em rápida sucessão. O anti-semitismo e o racismo não foram inaugurados pelo nazismo, apesar do regime ter levado as políticas eugênicas ao extremo e provocar o violento movimento de segregação, prisão e morte generalizada de judeus, eslavos, ciganos. O racismo e o anti-semitismo estavam espalhados pela sociedade, ganhando mais ou menos força de acordo com o cenário do momento.
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As teorias da eugenia foram criadas pelo inglês Francis Galton (primo de Charles Darwin), em 1883, baseadas na idéia de controle social da reprodução humana, visando o melhoramento das gerações futuras. As raças consideradas puras deveriam ser estimuladas a reproduzir e as consideradas impuras deveriam ser esterilizadas ou exterminadas. É uma teoria preconceituosa, pois categoriza pessoas como aptas ou inaptas. A eugenia que consistia na procriação das raças consideradas puras era dita como positiva, e a eugenia que pregava o extermínio das raças consideradas impuras, dita como negativa. O nazismo efetivou os dois tipos de eugenia, se considerarmos o surgimento das clínicas em fertilização e a construção dos campos de concentração para extermínio de judeus, ciganos e deficientes. No ano de 38, o jornal italiano Resto del Carilo propunha que os funcionários públicos deveriam ser submetidos a visitas médicas periódicas para examinar “o grave perigo social que representa a reprodução de homens doentes que perpetuam nas gerações micróbios que a ciência e a sociedade se obstinam em combater e extirpar” (A Folha de São Paulo, 8/9/1938). Para acelerar o processo de retirada dos judeus do território alemão, entre 8 e 9 de novembro de 1938 houve uma ação em que as lojas foram quebradas, as sinagogas incendiadas e milhões de judeus espancados, presos e colocados em campos de concentração, libertados somente se provassem que iriam emigrar em seguida. A intolerância espalha-se por várias nações que, se não comungavam das mesmas idéias do nazismo, também não permitiam a entrada de judeus em seus territórios. Vários países fecharam suas fronteiras, outros começaram um programa de expulsão e foram pressionados por alguns setores da sociedade. O jornal italiano II Popodio di Itália reclama das autoridades a abertura de inquérito sobre a infiltração judaica nas indústrias italianas. Se a indústria era o elemento básico da preparação militar, perguntou-se: “Como podemos tolerar que os judeus possam operar impunemente numa atividade tão delicada?” (informações retiradas da Folha de São Paulo, 8/9/1938). Como podemos observar, o racismo não esteve presente somente na Alemanha, ele foi multidirecional.

Atenção
Numa tentativa de questionar os critérios que norteiam a escolha dos novos governantes, uma matéria publicada na Folha de São Paulo em 1938 põe a descoberto o passado dos dois líderes do fascismo. Vamos ler e refletir? “Nada mais incerto nem mais fugaz que o prestígio político. Por isso mesmo, nenhum encargo é mais perigoso do que o da polícia política. Quantas vezes o preso de hoje vem a ser o chefe do governo de amanhã? Hitler, há cerca de 15 anos, era estrangeiro na Alemanha, preso como agitador, perseguido, espezinhado, e hoje é a vontade única do Reich. Nem mesmo é mais estrangeiro, porque, num lance de audácia, conseguiu incorporar à Alemanha o território da Áustria, sua terra natal. O caso de Mussolini é ainda mais interessante. A sua têmpera de lutador forjou-se justamente nas fileiras contra os quais ele, mais tarde, organizou o exército dos camisas negras. Expulso da Itália como elemento perigoso à ordem pública, asilou-se na Suíça, onde sofreu miséria. Enquanto estudava na Universidade, trabalhava ali numa salsicharia. Até que um dia a Suíça o expulsou do seu território, como vadio. Poucos anos depois, contudo, Mussolini regressava à Suíça, já chefe do governo italiano, para participar, em Genebra, dos trabalhos da Sociedade das Nações. Foi preciso então que o governo suíço, em dezembro de 1922, fizesse votar às pressas um decreto, revogando o mandato de expulsão de Benito Mussolini”.

Folha de São Paulo, 27/3/1938

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Frente popular
A ascensão de Hitler ao poder, em 1933, e o crescimento e expansão do nazismo tornaram–se uma das conseqüências nefastas da estratégia política adotada pelo Komintern e o principal motivo que levou a uma mudança de posição da Internacional Comunista, pressionada pelos PC`s dos países que faziam fronteira com a Alemanha, principalmente o suíço e o francês. Estes, ao sentirem o peso do avanço agressivo do nazismo, decidiram por livre iniciativa fazer acordos com a social democracia, no sentido de formar frentes únicas de combate à iminente ameaça nazi–fascista. Os frutos positivos dessas experiências, assim como a necessidade da Rússia de participar da política mundial através da sua inserção na Liga das Nações, é que proporcionaram, depois de lento processo, a mudança das diretrizes da Internacional Comunista. Estas foram divulgadas oficialmente no VII Congresso, realizado entre julho e agosto de 1935, com a argumentação de que a fraqueza e a divisão operária permitiram o avanço e consolidação dos regimes fascistas e o reconhecimento da urgente necessidade de se organizarem para contrabalançar a situação. Assim, na análise de Dimitrov, “os comunistas, sem renunciar ao seu trabalho independente, devem realizar ações comuns com os partidos sociais–democratas, os socialistas reformistas e outras organizações de trabalho, contra os inimigos de classe do proletariado, sobre base de acordos breves ou de longa duração”. (Carone; 1991:176). Estava selada a aliança política e eleitoral de centro-esquerda para combater o avanço do nazi-fascismo, considerado um inimigo comum. A primeira frente, conforme indicado acima, foi a francesa, que levou ao poder o socialista e intelectual LeonBlum. Foi seguida da frente espanhola, que também obteve êxitos eleitorais levando ao governo Manuel Azuña. A primeira frente criada no Brasil foi a Frente Única Antifascista (FUA), criada pelos trotskistas da Liga Comunista (LC) com participação do Partido Socialista Brasileiro, Partido Socialista Italiano, grupo Socialista Giacommo Matteotti e jornais de esquerda como A Lanterna, O Homem Livre, A Rua, A Plebe. Sua existência foi efêmera, funcionou entre 1933 e 1934, agregando importantes agremiações de esquerda com exceção do Partido Comunista Brasileiro, que claramente disputava com outros grupos de esquerda espaço político pela vanguarda do movimento antifascista. A organização não recebia adesões individuais, só coletivas, e sua política centrava-se na luta contra o integralismo. Concomitantemente ao desaparecimento da FUA, surgiu no cenário a Aliança Nacional Libertadora (ANL). A organização foi um movimento de frente única e popular antifascista, organizada por antifascistas e democratas, em reação à linha autoritária do governo Vargas. A frente atraiu para suas fileiras pcebistas, militares, operários e estudantes, transformando-se num movimento de massa durante o período em que funcionou na legalidade (março-julho de 1935). Os aliancistas levantaram as bandeiras do antifascismo, antiimperialimo e contra o latifúndio. Os cinco pontos da plataforma da ANL (cancelamento da dívida externa, nacionalização das empresas estrangeiras, plenitude das liberdades pessoais, direito a um governo popular, cessão dos latifúndios ao campesinato, mas proteção da pequena e média propriedade) apresentavam similitudes com outros programas de frentes populares formadas, no mesmo período, na América Latina, principalmente o do Chile, um ano mais novo, e o do Peru, favoráveis à justiça social e a reformas econômicas. No Brasil, os núcleos estaduais da ANL apresentavam outras aspirações, de acordo com as necessidades mais iminentes de cada região. As células paulistas davam atenção especial às condições de trabalho, as células cariocas enfatizavam as questões das liberdades civis (Levine, 112). De sua parte, a célula baiana misturou questões rurais (não-pagamento do forro de terras pelos rendeiros, posse imediata e sem ônus das terras da Marinha e proibição de venda de mais de cem hectares de terras devolutas) e urbanas (baixa do preço da gasolina e querosene, diminuição do preço dos transportes, consumo de energia e telefone), atentando para as reivindicações da classe média, assim como dos trabalhadores (salário mínimo e regime de oito horas de trabalho para os trabalhadores do campo, unidade sindical e aumento salarial para os operários em geral), mulheres (salário igual para as mulheres) e estudantes (autonomismo universitário). A frente atraía porque congregava tanto reivindicações por diferentes demandas sociais e políticas como a luta contra os integralistas, um passo adiante em relação às outras frentes de esquerda formadas
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no período. Segundo Ricardo F. de Castro (2000: 379), que faz uma comparação entre a FUA e ANL, a FUA não conseguiu permanecer muito tempo no cenário pois, reunindo apenas partidos de esquerda, não aceitando adesões individuais e fazendo frente apenas à AIB, foi derrotada politicamente pela ANL, que se propunha a uma luta mais ampla por reformas sociais.

Franquismo
O fascismo espanhol levou o nome de franquismo, em 1936, quando Francisco Franco assumiu o poder na Espanha por golpe militar, em meio à Guerra Civil Espanhola. A vitória da Frente Popular Espanhola (que reunia vários partidos de esquerda) nas eleições levou pânico à direita espanhola, em especial quando Manuel Azuña colocou em prática um programa de reformas que atingiu as áreas da educação (cortou a ajuda oficial dada às escolas e que eram controladas pela Igreja) e do trabalho (salário mínimo para trabalhadores urbanos e rurais). Líderes do exército ligados à direita fascista, chamada de Falange, se insurgiram contra a crescente tendência socialista e anticlerical do presidente espanhol, tentando efetivar um golpe de Estado (pronunciamento) e iniciando a Guerra Civil Espanhola. Não foi o primeiro, visto que em 122 anos ocorreram 52 tentativas de pronunciamento, com 11 êxitos. Os insurgentes receberam o apoio político e bélico tanto da Itália quanto da Alemanha, enquanto em 1936 foi selado o Pacto de Não-Intervenção por parte da França e Inglaterra, bloqueando o envio de armas para as duas partes beligerantes como tentativa de isolar o conflito espanhol. Contudo, esse pacto acabou auxiliando a direita espanhola, pois não cessou a ajuda alemã e italiana à Falange e somente a URSS continuava sua ajuda ao governo, em vista do não cumprimento do pacto pelas nações fascistas e por que a IC tinha apoiado a política de frentes populares. Esse pacto de não-intervenção, sob a aura de neutralidade, terminou por definir os rumos da guerra civil. Não intervir também é um posicionamento político e a conseqüência foi a vitória da extrema-direita. Por sua vez, Stalin gostaria de ter o apoio de franceses e ingleses caso a URSS fosse invadida pela Alemanha. Ele temia que houvesse um golpe de estado do Partido Comunista espanhol, então nunca oficializou o apoio aos republicanos. Em 1938 o auxílio soviético começou a diminuir, em vista do pacto germânico-soviético ou Molotov-Ribentropp, que seria assinado no ano seguinte.
GUERNICA, DE PABLO PICASSO, SIMBOLIZA O ATAQUE FEITO PELOS FRANQUISTAS COM O APOIO DOS NAZISTAS

Em outubro de 1936, organizaram-se Brigadas Internacionais (BI’s) reunindo voluntários arregimentados pelos partidos comunistas nacionais para contrabalançar a ajuda que a Alemanha e a Itália forneciam aos nacionalistas. As BI’s funcionaram como força militar independente e recebeuramcombatentes de diversos países, mesmo daqueles que preferiram concordar com o pacto de não-intervenção. O Partido Comunista francês lhes dava uma organização e direção. No momento em que prós e antifascistas entraram em confronto, a guerra civil adquiriu caráter internacional por suscitar questões que vários países ocidentais passavam e por isso houve intervenção externa.

CHARGE RETIRADA DE: CAMPOS, FLÁVIO; MIRANDA, RENAN GARCIA. A ESCRITA DA HISTÓRIA. SÃO PAULO, ESCALA EDUCACIONAL, 2005, P. 520

Dois civis e 14 militares brasileiros foram lutar na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicaFTC EaD | HISTÓRIA

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nos, enquanto o governo brasileiro manteve-se neutro temendo que a intervenção no conflito pudesse alterar a sua própria estabilidade. Os brasileiros foram arregimentados pelo PCB e chegaram à Espanha em 4 de abril de 1938. Segundo Nelson Alves, sua vida de militar pode ser dividida em duas partes: antes e depois da ida a Espanha. Para ele, a ida à guerra significou “uma experiência intensa que combinou habilidade profissional, ideal de luta, convívio com pessoas do mundo inteiro ligadas a uma causa coletiva” (2004: 86), e prossegue: A guerra civil significou um momento de solidariedade em favor da causa antifascista. Hoje eu me pergunto se valeu a pena o sacrifício de quase um milhão de vidas... às vezes, sinceramente, fico em dúvida, posto que assistimos aos ressurgimento do fascismo e do nazismo como se fossem ideologias válidas. Espero que as pessoas, em geral, se conscientizem da ameaça do autoritarismo e das conseqüências funestas para a sociedade (trecho retirado de Battibuggli, 2004:155). No relato de outro brasileiro, também participante das Brigadas Internacionais, Delcy Silveira, é ressaltado o medo de executar determinadas missões durante a guerra: A coisa que mais tive horror na guerra, as patrulhas noturnas. Você entra numa escuridão... não sabe o que vai encontrar. Eu fiz umas quatro ou cinco missões dessas, nunca encontrei patrulhas inimigas, mas outros companheiros encontraram, um combate assim...o sujeito dá de cara [com o inimigo], aquele tiroteio, aquela coisa e espalha gente para tudo quanto é lado. Muitos se perdem. Uma missão muito perigosa. (Depoimento de Delcy Silveira, retirado de Battibuggli, 2004:152). Apesar da ajuda de diversos voluntários, em vista do pacto de não-intervenção, da diminuição da ajuda soviética, acrescida de uma falta de unidade dos republicanos, a vitória da direita não surpreendeu. Franco tomou o governo e por lá permaneceu por 30 anos, instaurando uma ditadura na Espanha.

Atenção
Hitler e as causas da guerra A invasão da Polônia, é verdade indubitável, foi uma decisão, fundamentalmente, de Hitler. Ela expressou, de maneira surpreendente, as facetas contraditórias de sua personalidade: temeridade, monogamia, oportunismo hábil, bem como uma alternância ciclotímica [alternância de comportamento] entre indecisão paralisante e hipervoluntarismo. Mas também é verdade que, já no ano de 1932, os círculos principais da classe capitalista alemã tinham decidido – em consideração aos seus interesses conjunturais – que a única saída para a crise econômica da Alemanha era estabelecer a hegemonia sobre a Europa ocidental e central. [...] Se a decisão final de ocasionar à Wehrmacht, em 1º de setembro de 1939, foi sem dúvida de Hitler, o impulso em direção à guerra nasceu das avaliações, a curto prazo, da maioria da classe dominante alemã. Essas avaliações, em troca, foram condicionadas pelas contradições internas do imperialismo alemão, acentuadas pelas crises sucessivas de 1919/23 e 1929/32. O fato de que a classe dominante esteve mais ou menos unificada no projeto de modificar agressivamente a divisão do mundo do poder econômico não foi certamente acidental. A Alemanha chegou, tardiamente, à arena das grandes potências para adquirir um império colonial fora da Europa que correspondesse a sua importância no mercado mundial. O seu “destino manifesto”, portanto, foi interpretado como a busca da reposição de um império na Europa. A influência política desproporcional dos Junkers – um resultado do fracasso das tentativas do século XIX de uma revolução democrático-burguesa na Alemanha – acentuou os aspectos ousados e arrogantes da política externa alemã e ampliou o suporte para a expansão militar. Por isso, provavelmente não foi acidental o fato de a classe dominante alemã, apesar de seu orgulho cultural e suas tradições de sustentáculo da “lei e da ordem”, colocar o seu futuro nas mãos de um aventureiro negligente. Naturalmente, sob circunstâncias normais, a burguesia escolhe suas lideranças políticas dentro de sua própria classe. Em períodos de crise, entretanto, a burguesia tem tentado repetida-

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mente resolver os balanços desfavoráveis de poder de classe recorrendo à liderança parlamentar dos líderes trabalhistas reformistas, desejando preservar as estruturas e os valores básicos do regime capitalista. [...] Para uma burguesia poderosa, patrocinar uma autoridade tipo Hitler implica circunstâncias muito excepcionais: uma profunda crise sócio-econômica que produz tensões sociais generalizadas de caráter pré-revolucionário. Sob tais condições de crise excepcional, os estratos de classes de todas as classes sociais, mas especialmente da pequena burguesia, lançam um grande número de caracteres desesperados com o propósito de “resolver o problema da nação”, indiferentes ao custo, em termos humanos ou materiais, e, muito menos, em termos de valores tradicionais. Trotsky caracterizou de forma competente os aventureiros deste tipo, com wildgewordene kleinburger (pequeno burguês tornado selvagem) Hitler, enquanto um tipo de caráter político, é, portanto, o produto de uma concatenação específica de circunstâncias: a ruína dos pequenos lojistas, o desemprego em massa da casta dos funcionários públicos, a destruição de pequenas organizações financeiras, os receios competitivos anti-semitas de médicos e advogados de poucos clientes, a superprodução de acadêmicos, etc. A mentalidade de gângster já era claramente visível na formação dos freikorps, em novembro de 1918. Na verdade, havia, literalmente, centenas de Hitlers e Himmelers em potencial circulando na Alemanha após 1918 – muitos deles com feições ideológicas e de caráter quase idênticas àquelas do futuro Führer. Assim, a maneira pela qual o Terceiro Reich emergiu do colapso da República de Weimar e pavimentou a estrada para a outra guerra mundial foi determinada apenas em certa medida pelos talentos e debilidades particulares de Hitler como político individual. Incomparavelmente mais significativa, foi a crise social mais ampla da qual o “tipo Hitler” foi apenas um epifenômeno (subproduto). Mesmo a monomania de Hitler sobre os judeus pode agora ser vista como demência difundida entre os estratos reacionários da sociedade alemã. Ernest Mandel, Revista Olho da História on-line.

Atividade complementar
1. Como Ernest Mandel, no texto complementar, vê a ascensão de Hitler ao poder?

2. Associe nazismo e fascismo.

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3. Pesquise mais sobre a AIB e coloque as principais semelhanças e diferenças com o fascismo italiano.

4. Por que a Guerra Civil Espanhola é considerada um fenômeno internacional?

5. Qual a visão de Monteiro Lobato sobre os EUA?

Estante do Historiador
A Revolução Russa, editado pela Unesp, livro de Maurício Tragtenberg, foi publicado pela primeira vez em 1988, poucos meses antes do desmoronamento da URSS. Neste livro o autor faz uma análise da sociedade russa desde os czares até os momentos anteriores à sua queda. A escrita do livro é clara, mas ainda assim o autor não perde a complexidade dos problemas que trata.

Cinema e história
Reds – Produção que retrata a vida do jornalista John Reed, da sua militância comunista nos Estados Unidos até sua participação como testemunha ocular da Revolução Russa. A partir desta experiência Reed escreveu o livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, que ajudou na produção da obra e um dos únicos livros feito por estrangeiros indicados pelo governo soviético revolucionário do período. Ele mostra o processo revolucionário, o contato do escritor com os líderes da Revolução de Outubro e as primeiras divergências entre os comunistas. Reed morreu de tifo na União Soviética, aos 44 anos, e teve a honra de ser enterrado nas muralhas do Kremlin com Lênin. O Encouraçado Potemkin – Feito por Sergei Eisenstein em 1925, mostra o movimento de 1905, especificamente quando os marinheiros do navio que dá nome à produção revoltam-se contra o comando e assumem a embarcação. Tal ação demonstra claramente as tensões presentes na sociedade russa czarista no início do século XX. Terra e Liberdade – Produção que mostra a saída de David Carr (Ian Hart) de Liverpool, na Inglaterra, para lutar ao lado dos republicanos na Espanha, nas chamadas “Brigadas Internacionais”, em oposição ao golpe perpetrado por Franco contra o governo espanhol eleito democraticamente e responsável por mudanças de cunho social importantes no contexto do país, A Guerra Civil Espanhola apresentada no filme é considerada por muitos historiadores como o campo de testes hitlerista às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

O historiador e a internet
http://bd.folha.uol.com.br/bd_acervoonline.htm - site com textos jornalísticos da Folha de São
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Paulo, desde 1920 até 1999, um ótimo material para ver o panorama jornalístico dos acontecimentos nas épocas. http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/rev_russa.htm - Voltaire Schilling um dos mais promissores escritores de história na internet, faz uma viagem pela história da Rússia Soviética, da Revolução de 1917 até o stalinismo. http://www.eduquenet.net/criseeconomica29.htm - site em que você encontrará, além de textos sobre a crise de 1929, vários outros texto sobre a história mundial e brasileira.

O MUNDO CONTEMPORÂNEO A PARTIR DE 1939
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O MUNDO BIPOLAR
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: CONTEXTO HISTÓRICO
Como podemos perceber, a Primeira Guerra Mundial não conseguiu liquidar as contradições entre os países imperialistas. Eles mantiveram acesas as rivalidades e continuavam em sua busca incessante por mercados consumidores e matéria-prima. Não foi possível encontrar saída na nova correlação de forças para minimizar as divergências e evitar novos confrontos de grande magnitude. Isso seria obtido após a Segunda Guerra Mundial, não através de acordos, como dantes, mas através do medo de que um artefato nuclear pudesse destruir parte da espécie humana ou talvez todo o planeta. O tratamento dado aos vencidos, no Tratado de Versalhes, terminou por acirrar os ânimos e provocar um sentimento de revanchismo, principalmente na Alemanha, que sofreu punições severas. Versalhes foi uma paz punitiva imposta pelos vencidos que dificultou uma possível volta do equilíbrio de forças no continente europeu. O tratado foi considerado injusto e pouco aceitável pelos alemães. Havia insatisfação também pelo lado dos vencedores, principalmente entre os japoneses e italianos. Ambos estavam insatisfeitos com a fatia do bolo que receberam, frustrando suas expectativas. A política agressiva das três nações (Itália, Alemanha, Japão) descontentes com os tratados pósPrimeira Guerra Mundial, aliada à falta de ação da Liga das Nações e omissões de França e Inglaterra em intervir na Guerra Civil Espanhola e na ocupação da Áustria, impulsionaram a segunda guerra. Mas a vista grossa feita por França e Inglaterra não pode ser considerada acidental. Muito mais preocupadas com o avanço do socialismo, as duas nações, juntamente com os EUA, pensaram que o avanço da extrema direita no mundo poderia resolver esse problema sem precisar sujar as mãos, isto porque o pacto entre os países do Eixo era anti-komitern. Mas foi como deixar a caixa de pandora aberta, porque o objetivo dos governos fascistas e nazistas não se resumia a extinguir o socialismo do mundo ou impedir novas revoluções sociais, eles alimentavam também uma política expansionista e esta não incluía somente a invasão da URSS, mas de outros territórios também. Uma vez no poder, os fascistas tomavam o que podiam, recusando-se a jogar segundo as regras da política internacional. Os números da segunda guerra são maiores e sua capacidade de provocar sofrimento mais assustador do que a Primeira Guerra Mundial. No decorrer da década de 30, a imprensa em vários países já falava sobre a possibilidade de um novo conflito mundial. Uma revista européia, em 1931, fez uma enquete sobre a possibilidade de uma nova guerra.
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Os prognósticos não eram positivos. O ex-primeiro ministro da França, M. Caillaux, declarou: “Não tenhamos ilusões. A última guerra foi a guerra das metralhadoras, dos fuzis e dos submarinos. Se a humanidade for tão louca em aceitá-la, a próxima guerra será química” (Folha de São Paulo, 29/5/1931). Com a forte tensão internacional no ar, em 1938, a guerra começava a ser uma certeza. O ministro da defesa sul-africano declarou: A Europa caminha para a guerra, uma guerra que nenhuma nação deseja, mas contra a qual todos os governos estão se preparando. A não ser que haja uma completa mudança das perspectivas atuais, dentro de um ou dois meses, a tensão internacional atingirá, na primavera do próximo ano, seu ponto de explosão. (Folha de São Paulo, 6/12/1938). De fato, o cenário de guerra estava novamente montado e o mundo temia as conseqüências desse novo e provavelmente mais potente conflito mundial. O que fez a probabilidade de 1931 virar certeza em 1939? Vamos compreender? O armamento maciço reiniciado pela Alemanha assustou as potências capitalistas rivais, que também aceleraram a reposição de seu estoque bélico, procurando bloquear a soberania alemã na Europa. Esta estava novamente ganhando força e se tornando uma potência mundial. A Alemanha tinha necessidade de disparar a guerra antes que as potências mundiais rivais - leia-se Inglaterra e França – aumentassem seu poder bélico. O ônus do rearmamento alemão levou a uma crise financeira que precisava ser contornada com o saque de economias adjacentes, dando início à invasão e à anexação de outros territórios, que já observamos anteriormente. Segundo Oswaldo Coggiola, a segunda guerra foi uma solução possível para a superação da crise econômica que havia se instalado. Enquanto a primeira guerra teve por motivo a redistribuição de territórios entre as potencias imperialistas, o segundo confronto anexou um motor artificial (indústria de guerra) à máquina capitalista. A guerra foi ao mesmo tempo interimperialista e contra-revolucionária, pois tanto os países o eixo como as potencias aliadas estavam interessados em barrar a expansão do comunismo. Além da Alemanha, outras duas nações estavam pondo em prática sua política expansionista. A Itália, depois de ter invadido a Abissínia em 1935 e a Etiópia em 1936, anexa a Albânia, em 1939. O Japão, em 1931, invade a Manchúria e, posteriormente, a China, em 1937. Os três países formaram o chamado Eixo, a partir dos acordos de amizade e cooperação entre Alemanha e Itália em 1936, com o ingresso do Japão nesta aliança logo depois, em 1940. As potências européias rivais pensaram ter conseguido brecar a expansão do eixo na conferência de Munique, em 1938. Nesta, com a presença da Alemanha, Itália, França e Inglaterra, acordou-se a entrega dos Sudetos à Alemanha, definiram-se as fronteiras européias e houve declarações mútuas de não-agressão. Um ano depois, a Alemanha quebrou o acordo de não-agressão ao decidir invadir a Polônia para obter uma saída para o mar, reconquistando o corredor polonês. Diante da agressão, a reação inglesa e francesa foi declarar guerra à Alemanha. Além da Alemanha, ninguém parecia estar muito interessado em entrar em outra guerra. As conseqüências da Grande Guerra somadas à depressão de 1929 tinham deixado os países europeus em estado de calamidade, mas a possibilidade da Alemanha exercer uma hegemonia no continente europeu não podia ser confirmada e o novo confronto explodiu, mostrando um cenário de degradação e atrocidades que tornou essa segunda guerra bem mais desumana. Racismo e política sistemática de extermínio de civis, acrescentaram um tom diferente à segunda guerra, que diferiu dos conflitos anteriores. Utilizando-se da guerra relâmpago, os alemães, em 1940, ocupam a Dinamarca e a Noruega e, posteriormente, Holanda e Bélgica, objetivando chegar até à França. Em 1940, Paris é tomada após a vitória alemã sobre a coalizão franco-inglesa. Diante das vitórias alemãs, a Itália, que permanecia neutra, tomou coragem e entrou na guerra pelo lado alemão, honrando o acordo feito em 1940. A Itália sofreu mais derrotas do que vitórias, em especial da Inglaterra, e sua participação ficou aquém do apoio que os alemães esperavam.
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MAPA DO AVANÇO ALEMÃO NA EUROPA RETIRADO DO SITE www.historia.uff.br/nec/mapas/mapgfas.jpg

A segunda fase da guerra inicia-se em 1941, quando Hitler decide invadir a URSS. Os Estados Unidos saem do seu isolamento e passam a fornecer ajuda à União Soviética. A declaração de guerra estadunidense aconteceu depois que o Japão atacou a base militar americana de Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941. Em resposta, foi feita a declaração de guerra ao Eixo. Diferente do que é mostrado na filmografia estadunidense, a virada da guerra aconteceu depois da derrota alemã em Leningrado, cidade símbolo da revolução socialista de 1917, e posteriormente em Stalingrado, e não pela entrada dos Estados Unidos na guerra. Apesar de sua entrada ter influenciado nos combates posteriores, o acontecimento não foi determinante. Após 2 anos de conflito e com o inverno russo marcando 21º graus abaixo de zero, as tropas nazistas se renderam. Daí os soldados russos saíram do seu território e, como um rolo compressor, dirigiramse em direção a Berlim, libertando a Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Finlândia, que ficaram sobre influência soviética após o conflito.

Memórias de Guerra
Abaixo podemos ler trechos de escritos deixados por soldados de guerra que morreram durante o conflito. São três relatos diferentes. O primeiro é de um soldado alemão que expõe sobre parte do cotidiano da guerra: a angústia de esperar por novos acontecimentos. O segundo é de um soldado japonês que, no seu adeus aos pais, se questiona sobre o sentido da guerra e sua participação nela. O terceiro é de um metalúrgico que virou soldado de um grupo de resistência francês liderado por Misak Manouchian. Ele foi preso e fuzilado junto com 23 outros combatentes do grupo pelos alemães, no fim da guerra. As cartas dos combatentes do grupo têm em comum uma mesma passagem: a morte perto do fim da guerra e a impossibilidade de ver a vitória dos Aliados. Vamos acompanhar os escritos e refletir sobre eles? Tornamo-nos uma máquina de esperar. No momento esperamos a comida, depois será a correspondência e a qualquer momento uma bomba inimiga que poderia acabar com nossa ansiosa e tediosa espera. Heinrich Straken (1919-1945). Soldado de guerra. (Informação retirada do documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos). Com menos de 20 anos, Kato Matsuda (1927-1945) já participava da guerra. Em correspondência aos pais, ele escreveu: No meu silêncio já refleti muito sobre o sentido e a finalidade desta guerra, mas estar aí junto de vocês seria uma grande humilhação... Conforta-me aquele ditado japonês: “a morte é mais leve do que a

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pluma. A responsabilidade de viver é tão pesada quanto uma montanha”.

Adeus, Kato.
Assim como Kato, muitos refletiam sobre o sentido da guerra. Alguns perceberam que estavam na guerra para assegurar o poderio de seus governantes. Acreditavam que lutavam por certas ideologias, mas foi no front que entenderam as reais motivações que os colocaram naquela situação. Pelos motivos de outrem, muitos pereceram nos campos de batalha. No decorrer da guerra houve formação de grupos de resistência em oposição ao nazismo que procuravam auxiliar as tropas aliadas e pessoas perseguidas a emigrarem. Os membros da resistência eram chamados de partisans e atuaram em vários países sob o domínio alemão. Em 21 de fevereiro de 1944, membros da resistência dos trabalhadores imigrantes, liderados por Misak Manouchian, primeira resistência ao nazismo em território francês, foram presos e fuzilados. Abaixo, a carta escrita por um dos combatentes, Spartaco Fontanot. Querida mamãe: De todas as pessoas que conheço, a senhora é a única que vai sentir mais, por isso meus últimos pensamentos são para a senhora. Não culpe ninguém mais por minha morte, porque eu mesmo escolhi minha sorte. Não sei como lhe escrever, porque, mesmo tendo a cabeça clara, não consigo encontrar as palavras certas. Assumi meu lugar no Exército de Libertação, e morro quando a luz da vitória já começa a brilhar [...] vou ser fuzilado daqui a pouco com 23 camaradas. Depois da guerra a senhora deve exigir seus direitos a uma pensão. Eles lhe entregarão minhas coisas na prisão, só que estou ficando com o colete de papai, porque não quero que o frio me faça tremer [...] Mais uma vez, digo adeus. Coragem! Seu filho, Spartaco. Spartaco Fontanot, imigrante italiano na França, fugido do fascismo de Mussolini, metalúrgico, 22 anos, membro do grupo resistente de Misak Manouchian, 1944, in Hobsbawm (2001: 144).

Atenção
O Brasil participou, de forma mais efetiva, na Segunda Guerra Mundial, com o envio de homens para o conflito depois que navios brasileiros foram torpedeados pela marinha alemã. Vamos acompanhar o texto abaixo para entendermos de forma mais detalhada a situação. Durante 239 dias, entre setembro de 1944 e maio do ano seguinte, mais de 25.000 soldados e oficiais brasileiros estiveram na Itália combatendo o nazismo. Foi a maior e mais sangrenta operação de guerra em que o País esteve envolvido neste século, amargando um saldo de quase 500 mortos e 3.000 feridos nas fileiras nacionais. Do outro lado da trincheira, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) capturou cerca de 20.000 soldados inimigos, saindo vitoriosa em oito batalhas. A entrada do Brasil na guerra se deu contra o Eixo, em agosto de 1942. A decisão foi tomada depois do afundamento de vários navios brasileiros pela marinha alemã, o que desencadeara em todo o País uma série de campanhas populares e de manifestações públicas de indignação. Comprometido com as lutas internacionais, o governo Vargas rompia sua tradicional atitude de expectativa; e essa ruptura, implicando na decisão do bloco “democrático”, à frente única antifascista, revaloriza uma ideologia que não podia deixar de ter efeitos políticos internos. Vargas, prevendo o restabelecimento do sistema representativo, tenta capitalizar essas mudanças; daí a intensidade com que foram utilizadas as técnicas de propaganda, as paradas públicas, os discursos associando poderio militar e a industrialização de que o seu governo fora o principal promotor. Finalmente, o reatamento das relações com a União Soviética e sua reabilitação ideológica. A

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exibição das tropas integrantes da Força Expedicionária Brasileira, comandada pelo general Mascarenhas de Morais, antes de sua partida para a Europa, em 1944, foi mais uma oportunidade para revalorizar os efeitos do “Estado Nacional”. Já em fins de 1943, no sexto aniversário do golpe de 37, data que deveria ser realizado o plebiscito previsto na Constituição, Getúlio prometia eleições para o fim da guerra e reiterava as intenções em abril de 1944. Revista Veja 15/5/1985.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: CONTEXTO HISTÓRICO
A segunda guerra revelou sua face mais obscura no extermínio em massa de civis pelo seu requinte de crueldade. Câmaras de gás, experiências científicas em cobaias humanas, trabalho forçado, gases químicos e bombas atômicas geraram caos e pânico. Segundo Coggiola, tanto os EUA como a Igreja Católica estavam informados sobre os campos de concentração a partir de 1942, mas não se insurgiram contra a política de extermínio nazista. Os EUA, inclusive, usaram o território japonês para testar os efeitos da bomba atômica.

Holocausto
Logo no início da guerra, os alemães demarcaram os territórios em que os judeus poderiam transitar, guetizando-os. Nesses guetos muitos morreram de fome, doentes e executados. O pior estaria por chegar com o envio de judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, deficientes físicos, entre outros, aos campos de concentração. O diário de Anne Frank mostra como foi sentido esse período pelos judeus. Ela, juntamente com sua família e mais quatro pessoas, passou 2 anos escondida dos nazistas num anexo de quartos em cima do escritório de seu pai, em Amsterdã, Holanda. Frank escreveu em seu diário, durante esse período, suas impressões do que ocorria, até ser denunciada e deportada para campos de concentração, morrendo de febre tifóide aos 15 anos de idade, em 1945, nove meses após sua deportação e duas semanas antes das tropas aliadas chegarem ao confinamento onde ela se encontrava. Seu diário foi publicado em 1947. Neste, ela fala sobre o período dos guetos: “Surgiram os decretos anti-semitas uns após os outros, em rápida sucessão. Os judeus tinham que usar uma estrela amarela, os judeus tinham que entregar as bicicletas, os judeus não podiam andar de bonde, os judeus ficaram impedidos de dirigir automóveis”. (Frank, 1958: 13) Os campos de concentração foram construídos em toda a Europa, concentrando-se mais no Leste Europeu, principalmente Polônia, região onde se aglomerava parte da população considerada “indesejada” pelos alemães. Muitos campos de concentração combinavam trabalhos forçados, experiências científicas em cobaias humanas e extermínio sistemático. Auschwitz I, na Polônia, foi o primeiro a ser construído, servindo de base para todos os outros que começaram a ser erguidos a partir de 1941. O confinamento foi utilizado para isolar os “indesejados” da sociedade, “purificando-a”. Essa idéia transfigurou-se em extermínio em massa visto como solução para a purificação social. Foi denominada de solução final pelos nazistas. Para os nazistas, os judeus, assim como ciganos, homossexuais e os dissidentes políticos eram um problema para a sociedade européia e precisavam ser exterminados de forma rápida e eficiente. Com o início da segunda guerra, essa idéia ganhou força e ação. Como os judeus já tinham sido identificados e presos, a solução final foi executada de forma rápida e, posteriormente, foi considerada um holocausto. Como havia uma quantidade enorme de prisioneiros, elaborou-se um sistema de identificação pela cor. Os judeus eram obrigados a usar uma estrela amarela, o vermelho era para os dissidentes políticos, o roxo para as Testemunhas de Jeová, o verde era para o criminoso comum, castanho para ciganos. Uma cor para cada grupo discriminado. Em 1942, a identificação passou a ser feita por uma tatuagem no corpo. Uma marca para

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toda a vida. O escritor italiano Primo Levi, que passou pela experiência, conta o seu significado: A operação era pouco dolorosa e não durava mais de um minuto, mas era traumática. Seu significado simbólico estava claro para todos: este é um sinal indelével, daqui não sairão mais; esta é a marca que se imprime nos escravos e nos animais destinados ao matadouro, e vocês se tornaram isso. Você não tem mais nome: este é o seu nome. (Levi, 1990: 72). Aqueles que chegavam poderiam ser utilizados no trabalho forçado para empresas alemãs, que durava em média 12 horas por dia, com precária alimentação, ou ser levados diretamente para a câmara de gás, em especial doentes, crianças e velhos. As duras condições de trabalho, as precárias condições de higiene e alimentação revelavam-se nas altas taxas de mortalidade. Muitos morriam nas experiências científicas que consistiam, entre outras coisas, na remoção de ossos e nervos para estudar sua regeneração, exposição a agentes infecciosos e a baixas temperaturas para estudo da reação do corpo. As câmaras de gás e crematórios cuidavam do restante. O extermínio em larga escala começou em 1942. Com o avanço das tropas soviéticas, em 1944, as câmaras de gás foram destruídas para acobertar as suas atividades, e os campos de concentração foram evacuados.

Conferências
Nos anos finais da guerra, EUA, Inglaterra e URSS promoveram conferências para discutir a reorganização do mundo pós-conflito. Encontraram-se em Teerã, em 1943, em Yalta, em 1945, e em Potsdam com a Alemanha já capitulada. Novamente, a Alemanha sofreu pesadas sanções, ficando obrigada a pagar as reparações de guerra em máquinas, equipamentos e navios mercantes, seu território foi dividido em 4 zonas de ocupação, ficando cada parte para ser administrada pela URSS, Inglaterra, França e EUA, as forças armadas foram desmobilizadas, seu parque industrial reduzido e realizou-se o Tribunal de Nuremberg, para julgar os crimes cometido pelos nazistas. Esses encontros serviam para centrar fogo sobre o inimigo comum (o Eixo), como também para uma redefinição geopolítica do mundo. Quando a guerra ia se encaminhando para o final, ficava evidente o avanço das tropas russas. Até chegar à Alemanha, os soldados russos foram libertando a Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Polônia, sendo que, anteriormente, já havia anexado a Lituânia, Estônia, Letônia. Isto provocou preocupação entre EUA, Inglaterra e França, que continuavam temendo a expansão do comunismo pelo mundo. De fato, a URSS tinha aumentado bastante sua influência pelo mundo. Foi então que os EUA, alegando que era necessário acelerar o fim da guerra e evitar mais mortes, utilizou sobre o Japão, que estava quase vencido e sem aliados, o seu novo artefato bélico. Em agosto de 1945, o B-52 Enola Gay despejou sobre Hiroxima a primeira bomba atômica usada em guerra. Três dias depois foi a vez de Nagasaki receber a radiação, matando mais ou menos duzentas mil pessoas, em sua maioria civis. Calcula-se que mais da metade dos prédios foram queimados ou destruídos, sem falar dos efeitos radioativos sobre os sobreviventes. Os EUA demonstravam ao mundo, em especial à URSS, a força que possuíam. Foi mais do que um desfecho de guerra, foi um aviso. Em acréscimo, URSS também se concentrava em combater o Japão e os EUA não queriam dividir o território. Outro ponto a ser mencionado é que o impacto da bomba sobre uma cidade tinha de ser testado. “Ninguém, nem mesmo os cientistas do projeto Manhattan, sabia ao certo quais seriam os efeitos da bomba sobre uma população civil. Nesse sentido, o ataque foi mais ou menos uma experiência científica” (Folha de São Paulo, 6/8/1995). Lacouture desconfia que a escolha do Japão para o lançamento da bomba foi racista: “em circunstancias semelhantes às do Japão, os Estados Unidos não teriam ousado lançá-la numa cidade alemã”, explicou o autor. Em setembro o Japão capitulou frente à situação desfavorável e marcou o término da segunda guerra. A vitória foi de uma coalizão heterogênea que tinha como objetivo derrotar o inimigo em comum, mas que mantinha-se política e ideologicamente diferente. Após a conferência de Yalta, representantes de 50 países se uniram para a criação de um novo órgão internacional encarregado de arbitrar os conflitos, objetivando manter a paz e a defesa dos direitos humanos. Com este fim, em 26 de junho de 1945 foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU) ,que, assim
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como sua antecessora, a Liga das Nações, não tem conseguindo cumprir seu papel no cenário mundial. Os milhões de refugiados provocados pelo conflito aglutinaram-se num mesmo espaço, mesclando diferentes etnias. O resultado disso foram os diversos conflitos surgidos no mundo. Uma das primeiras ações da ONU foi criar o Estado de Israel na região da Palestina, em 1947, objetivando fornecer um território para os judeus que estavam espalhados pelo mundo. Esse Estado acabou tornando-se um ponto de discussão e conflito entre árabes e judeus quando a ONU resolveu dividir o território palestino, sem consulta prévia, e terminou por entregar a maior parte para os israelitas. Na declaração de criação do Estado de Israel estava posto que “o Estado de Israel será aberto à imigração de judeus de todos os países onde estão dispersos; eles desenvolverão o país, para benefício de todos os seus habitantes”. Foi lançado um apelo “ao povo judeu de todo o mundo para se ligar a nós na tarefa da imigração”, como também a “assistir no grande combate a que nos entregamos, para realizar o sonho perseguido de geração em geração: a redenção de Israel” (citado por Keila Grinberg, 2000:127). Ao tentar consertar um erro histórico, a ONU terminou por punir um outro povo, provocando nova desordem. A partir de sucessivos conflitos, os judeus foram ampliando sua área de ocupação e imprensando os árabes em um território diminuto.

Planos Econômicos e Acordos Políticos
Os EUA lançam a Doutrina Truman, em 12 de março de 1947, em resposta às preocupações do estadista britânico Winston Churchill com o avanço do comunismo. Ele afirmou que uma cortina de ferro havia caído sobre o Leste Europeu, separando o mundo livre do bloco comunista. A doutrina visava combater a ideologia vermelha em todo o mundo e, saindo na frente, os EUA mostravam que estavam dispostos a liderar uma coalizão. No ano seguinte, é aprovado o Plano Marshall para auxiliar a reconstrução da Europa. Novamente os EUA iriam lucrar com o fim da guerra. A execução do plano era importante por que precisavam continuar exportando para a Europa, como também era uma forma de barrar o comunismo. O próprio Marshall expõe os motivos: O ponto real da questão é que, para os próximos três ou quatro anos, as necessidades da Europa de gêneros importados do estrangeiro e outros produtos essenciais – principalmente na América – são muito maiores do que sua capacidade de resgatá-los na forma de pagamento. Assim, deve merecer ajuda adicional substancial, ou então defrontar-se com uma deterioração econômica, social e política de natureza bem grave (...). Ao lado do efeito desmoralizante em larga extensão no mundo e das possibilidades de distúrbios que surgem como resultado de desespero das populações envolvidas, devem ser visíveis de todo as conseqüências disso para a economia estadunidense. É lógico que os Estados Unidos devem fazer o que lhes for possível para ajudar a promover o retorno do poder econômico normal no mundo, sem o que não pode haver possibilidade política nem garantia de paz (...). Em 1949, deu-se a assinatura de um tratado militar de ajuda mútua entre doze nações da Europa e da Américas, dando vida à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para conter o avanço da União Soviética. Em contrapartida ao rearranjo dos países capitalistas, a URSS organiza o Conselho para Assistência Econômica de Ajuda Mútua (COMECON), em 1949, e, juntamente com seus aliados da Europa Oriental firmaram o Pacto de Varsóvia com termos semelhantes à OTAN, aceleram seu reabastecimento militar equiparando-se às potencias capitalistas. Esse equilíbrio, principalmente bélico, entre os blocos comunista e capitalista, acrescido da franca oposição política-ideológica entre eles, ao tempo que refluiu as intenções de guerra, gerou um aumento da tensão e esta permaneceu por um longo tempo.

A DESCOLONIZAÇÃO DA ÁFRICA E DA ÁSIA

A reação ao imperialismo e à colonização teve início com a Revolução Russa de 1917 que inspirou movimentos de libertação. Vislumbrando não somente a ruptura colonial como também a superação do
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atraso tecnológico e do fosso social entre ricos e pobres. Porém, foi no final da Segunda Guerra Mundial que esses movimentos de resistência ganharam mais visibilidade no cenário mundial e no âmbito da Guerra Fria, com os EUA e a URSS investindo contra os antigos impérios coloniais ingleses e franceses, buscando aumentar as suas áreas de influência, defendendo a autodeterminação dos povos. As guerras, de certa forma, enfraqueceram o domínio dos países imperialistas e possibilitaram uma reação mais forte das colônias, enquanto que nem os EUA nem a URSS estavam interessados em prorrogar a colonização. Por outro lado, muitos soldados africanos combateram na guerra do lado dos exércitos aliados, estimulando aos países coloniais a exigir um tratamento de igualdade frente aos países independentes. O crescimento econômico dos países coloniais fez surgir uma classe operária incipiente e uma burguesia com acesso à educação universitária européia. O modelo socialista influenciou diversos movimentos de independência, que o viam como alternativa ao modelo capitalista. A identificação de problemas políticos e sociais comuns enfrentados pelos países africanos e asiáticos aproximou o diálogo entre suas lideranças, pretendendo acelerar o processo de descolonização e fortalecer as posições de neutralidade no contexto da Guerra Fria. Neste sentido, foi realizada uma conferência em Bandung, em 1955, com países rotulados de Terceiro Mundo, resultando no surgimento do movimento dos não-alinhados. Com isso, eles estavam tentando manter-se longe dos conflitos entre EUA e URSS. Nos continentes africano e asiático, os países sob domínio inglês tiveram movimentos de libertação pacíficos, devido à postura da Inglaterra que, para preservar as relações econômicas, efetuou uma liberação controlada, enquanto as lideranças dos movimentos combinaram o apelo popular e as pressões políticas na conquista da liberdade. Nas colônias de domínio francês e português os movimentos de libertação sofreram repressão, fomentando a luta armada. Dentre os movimentos de luta armada ocorridos na África podemos citar o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Foi um movimento de luta pela independência de Angola, de inspiração marxista-leninista e que recebeu apoio da URSS. Entre os fins dos anos 50 e início dos anos 60, congregou personalidades que pregavam o nacionalismo angolano e insurgentes contra o colonialismo, que fugiam do interior de Angola. O MPLA, liderado por Antonio Agostinho Neto, organizou e dirigiu a luta contra o colonialismo português. Outros grupos, como a Frente Nacional de Libertação de Angola e a UNITA, também conduziam ações para a libertação angolana, mas a MPLA se valeu de um apoio majoritário, por seu discurso nacionalista, e terminou chegando ao poder e governando como partido único até 1991, quando aconteceu a abertura política. Vamos olhar o mapa para melhor visualizarmos a descolonização da África? Com a divisão arbitrária das colônias, feitas pelos países imperialistas, os países que se tornaram autônomos herdaram essa separação territorial que não levava em conta as diferenças de etnia, língua e cultura entre os povos. Isso continuou sendo fagulha para a explosão de diversos conflitos e guerras civis e dificultou a administração dos países descoHistória Contemporânea II
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MAPA RETIRADO DE: PAZZINATO, ALCEU LUIZ; SENISE, MARIA HELENA VALENTE. HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA. SÃO PAULO, EDITORA ÁTICA, 1994

lonizados. Foi por esse motivo que a idéia do pan-africanismo surgida nos EUA, pregando a união dos povos da África, não obteve êxito e permitiu que os países imperialistas continuassem a manter laços de dependência com as ex-colônias, principalmente laços econômicos. A independência das colônias não modificou consideravelmente o quadro de pobreza, miséria, conflitos armados, doenças, analfabetismo e mortalidade infantil. A necessidade de modernizar a indústria levou os líderes políticos dos países descolonizados a buscarem auxílio financeiro para desenvolver sua economia, levando-os a renovar os laços de dependência. Segundo Maria Yeda Linhares (2000: 58): A outorga da independência não significava, necessariamente, a conquista da felicidade para todos e, muito menos, o reconhecimento da autodeterminação do novo país no plano econômico, político e cultural. Os velhos interesses coloniais tinham raízes profundas, os elos de dependência eram resistentes e as bases de suas antigas culturas locais, com suas tradições tribais, haviam sido seriamente atingidas e, em muitos casos, destruídas pela ação do colonialismo. Com a Guerra Fria alguns conflitos foram mediados ou sofreram interferência de EUA e URSS. Podemos citar, entre outros exemplos, o Vietnã. Na conferência de Genebra, realizada em 1954, a França reconheceu a independência do Vietnã do Norte, do Laos e do Camboja. O Vietnã foi dividido entre um governo comunista no norte, e uma monarquia ligada ao ocidente, no sul. Haveria um plebiscito para que a população escolhesse sobre a unificação, mas, com os indícios de que os comunistas venceriam e reunificariam o país, o primeiro-ministro do sul, com o apoio dos estadunidenses, cancelaram as eleições e instauraram uma ditadura militar. A reação do Vietnã do Norte, que começou com conflitos esporádicos, espalhou-se. Houve envio de tropas estadunidenses para ajudar os combatentes do sul e bombardeio do Vietnã do Norte com bombas de napalm e substâncias químicas. Apesar da superioridade tecnológica dos EUA, o conflito era travado em terras desconhecidas e os combatentes do norte surpreenderam ao ganhar a guerra e conseguir unificar o país em 1976 sendo chamado de República Socialista do Vietnã.

Atenção
Origens da Guerra do Vietnã Orivaldo Leme Biagi – Mestre e Doutor em História pela Unicamp O Incidente de Tonquin foi a desculpa para a entrada definitiva dos Estados Unidos no conflito vietnamita, ou, melhor ainda, para institucionalizar a sua intervenção. O Vietnã faz parte da península da Indochina, no Sudeste Asiático. Dominada pelos franceses no final do século XIX, junto com os vizinhos Laos e Camboja, a região da Indochina foi transformada em colônia francesa, mas a resistência contra o invasor e colonizador nunca cessou. Com o início da Segunda Guerra Mundial e da capitulação francesa perante a Alemanha nazista, os japoneses, aliados dos nazistas, penetraram na Indochina. Em 1941, foi fundado o Viet Nam Doc-Lap Dong Minh, a Liga de Independência do Vietnã, conhecida pelo nome reduzido de Vietminh, formada por nacionalistas, incluindo o comunista Ho Chi Minh. Inicialmente lutaram contra os japoneses, com auxílio norte-americano, vencendo-os, tomando o país (Vietnã) e proclamando a independência, em 1945. A independência duraria menos de um mês. Com o fracasso das negociações entre o Vietminh e o governo francês, a França bombardearia o porto de Haiphong, em 1946, iniciando as batalhas do que foi chamado de Primeira Guerra da Indochina (1946-1954). Essa guerra, apesar de ser uma luta colonial – a França queria retomar sua antiga colônia –, acabou entrando num quadro mais complexo no imediato pós-guerra: para os Estados Unidos, esta era uma luta global entre o “mundo livre” democrático e a opressão comunista. Os norte-americanos começariam a financiar o esforço de guerra francês. As forças francesas na Indochina foram derrotadas na batalha de Dien Bien Phu, em 1954 (batalha

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esta que começara em novembro de 1953), o que levaria as partes em guerra à mesa de negociações em Genebra, negociações estas, iniciadas em 8 de maio e encerradas em 21 de julho de 1954, que dividiram a península da Indochina em quatro países: Vietnã do Norte (sob a liderança do Vietminh), Vietnã do Sul (que seria apoiado pelos Estados Unidos), Laos e Camboja. A divisão do Vietnã, na altura do paralelo 17, seria temporária, sendo que o destino dessa divisão seria decidido numa futura eleição, que indicaria os rumos da reunificação dos dois Vietnãs. Os Estados Unidos fizeram todos os esforços possíveis para que o Vietnã do Sul fosse um regime estável, pró-ocidental e que pudesse se defender caso o Vietnã do Norte resolvesse iniciar uma luta para a reunificação. Mas o governo que assumiu o Vietnã do Sul em 1954, de Ngo Dinh Diem (inicialmente como primeiro-ministro do imperador Bao Dai, depois como presidente), apresentava duas características básicas: corrupção e incompetência. No final da década de 50, os ataques guerrilheiros para unificar o país foram sendo retomados no Vietnã do Sul. Em dezembro 1960, foi criada a Frente de Libertação Nacional (FLN), organização nacionalista (como no Vietminh, nem todos eram comunistas) que visava a reunificação do país e era apoiada pelo Vietnã do Norte. Os guerrilheiros da FLN acabariam conhecidos como Vietcong. O governo Dwight Eisenhower (1953-1960) logo estaria mandando 200 conselheiros militares por volta de 1960 – a situação do Vietnã do Sul agravara-se. O número de conselheiros militares iria aumentar durante o governo de John Kennedy (1961-1963). A impopularidade do regime de Diem confirmou-se na crise do governo com os budistas. Depois de alguns confrontos violentos entre as forças de Diem e seitas budistas, no dia 11 de junho de 1963, aconteceu um fato marcante: um monge budista ateou-se fogo. A fotografia deste incidente, tirada por Malcowm Browe, seria uma das mais famosas do século XX, colocando o Vietnã nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro. Ainda em 1963, Diem não resistiu às pressões, sendo deposto e morto. Um mês depois do assassinato de Diem, Kennedy também encontraria a morte ao ser assassinado em Dallas (22/11/1963), sendo substituído pelo vice-presidente Lyndon Johnson, que aplicaria uma política mais radical na questão vietnamita. Logo, Johnson ordenou que aviões, secretamente, recolhessem informações sobre o Vietnã do Norte. A situação do Vietnã do Sul era a pior possível, já que poderia ser dominado pelo Vietcong em questão de meses. O Incidente de Tonquin fez com que os Estados Unidos entrassem definitivamente na guerra. Os norte-americanos iriam se retirar definitivamente do Vietnã em 1973 e a guerra, tendo como resultado a reunificação do país pelos comunistas, acabaria apenas em 30 de abril de 1975. Trecho adaptado do artigo: O (quase) envolvimento do Brasil na Guerra do Vietnã, em http://www. historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao05/materia03/ acesso em 22/08/2007 às 9:52.

GUERRA FRIA: PRINCIPAIS MOMENTOS
Terminada a segunda guerra com a explosão da bomba atômica e a posterior notícia de que a URSS estava testando o novo artefato em 1949, levou o mundo a se perguntar sobre a conseqüência catastrófica de um novo conflito. Duas potências rivais (EUA e URSS) com artefato de tamanha destruição levou a guerra a ser feita em outros termos. A Guerra Fria tinha início, bem mais psicológica que as anteriores. O mundo se dividia em dois blocos de poder, representando o capitalismo e o comunismo, e conhecia um novo tipo de guerra. Que bom que esta não foi quente! Apesar disso, como toda guerra, serviu aos interesses das grandes potências e não foi sem conseqüência. Mesmo sendo fria, a tensão fez o mundo prender a respiração em vários momentos.
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O historiador Eric Hobsbawm (2001) enxerga a Guerra Fria como uma breve era de ouro pela volta do desenvolvimento econômico e transformações sociais, principalmente devido às múltiplas revoluções que se insurgem no cenário, ricas em conteúdo ideológico. Para ele, a queda do socialismo, subseqüente à Guerra Fria, representou o desmoronamento de um ideal. Em acréscimo, retornaram as crises e incertezas e um profundo caos para os territórios da ex-URSS. A Guerra Fria dividiu o mundo no bloco capitalista e no comunista e esses dois mundos foram obrigados a uma coexistência tensa pela iminente possibilidade de um novo confronto mundial. O fato de uma terceira guerra não ter explodido não significou a ausência de conflitos localizados, da corrida armamentista e do emprego da espionagem em larga escala. Em vários momentos em que esses episódios ocorreram, a situação quase ficou quente. Vamos detectar quais foram esses momentos? A Alemanha representou o primeiro e mais permanente campo de tensão entre os dois blocos de poder. Depois da guerra, o país foi repartido em quatro zonas de ocupação. Havia a possibilidade de unificação, mas em vista da política da União Soviética de desmontar as grandes empresas e promover a reforma agrária no lado oriental alemão, o lado ocidental suspendeu as eleições que determinariam a reunificação e deu início ao reerguimento da economia através do fortalecimento das grandes empresas e da valorização do marco alemão ocidental. Em acréscimo, não aceitaram a administração conjunta de Berlim, que igualmente encontrava-se dividida em quatro zonas. Em represália, a URSS bloqueou os meios de transporte terrestre, em 1948, e os EUA, em resposta, reabasteceram o lado ocidental através do transporte aéreo com os mesmos aviões que anos antes haviam destruído as cidades alemãs. No ano seguinte, instauram a República Federal da Alemanha e a URSS cria a República Democrática Alemã. A agudização das tensões faz a União Soviética construir o muro de Berlim, em 1961, que se tornou símbolo da Guerra Fria. Mais do que a presença física, o muro tinha um efeito psicológico muito forte, tanto para os alemães como para o mundo. O efeito psicológico dos quase 165 quilômetros de concreto, arame farpado, armadilhas e soldados foi arrasador, e milhares de famílias ficaram divididas (...). Centenas de pessoas foram fuziladas ou eletrocutadas na tentativa de fugir da Alemanha Oriental através das cercas ou tentando pular o muro. (trecho retirado do jornal A Tarde, 13/8/1986).

Revolução Chinesa e Guerra da Coréia
Apesar do Partido Comunista Chinês (PCC) ter ajudado o Kuomitang a tomar o poder na China, este é colocado na ilegalidade, com sua militância sendo perseguida. Devido à invasão japonesa antes da Segunda Guerra Mundial houve um retorno da aliança que os comunistas aceitaram por ser uma luta contra o imperialismo e pela defesa do território nacional. Com a derrota japonesa, o Kuomitang, valendo-se da ajuda estadunidense, volta a reprimir os comunistas, que se mostraram mais organizados, insurgindo-se numa revolução liderada por Mao Tsé-tung. A revolução é vitoriosa, mesmo com o apoio bélico dos EUA ao governo. O PCC funda a República Popular da China, com Mao como chefe do novo Estado. As concepções políticas de Mao Tsé-tung afastam-se um pouco do leninismo na questão do voluntarismo, segundo o qual as condições objetivas da sociedade não são muito importantes se as condições subjetivas, isto é, a vontade revolucionária do povo, estão presentes. Isso leva os maoístas a defenderem a insurreição armada como método de tomar o poder. O pensamento de Mao influenciou diversos grupos guerrilheiros que surgiram na década de 60, como o Sendero Luminoso, o Partido Comunista do Nepal e o da Índia. Mao inicia a socialização do país e a estatização dos meios de produção, sela um pacto de amizade e colaboração com a URSS, que rende à república chinesa dinheiro, armas, tecnologia, médicos e pesquisadores. Este acordo deixou o lado ocidental temeroso e irritado. Como permitir que o país mais populoso do planeta fosse comunista? Este incômodo levou a sucessivas crises diplomáticas que conduziram à ruptura dos dois países socialistas. A agitação externa provocou uma instabilidade política interna com sucessivas crises e choques
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das diferentes correntes do Partido Comunista Chinês (PCC). A Revolução Cultural, lançada em 18 de abril de 1966, empreendida por Mao, tinha como finalidade pôr fim às estruturas do Estado burguês, aos velhos costumes, hábitos e idéias, à velha cultura e enquadrar a sociedade nos inflexíveis parâmetros doutrinários do PCC. Essa reforma empreendida pelo governo significou, ao mesmo tempo, um esforço de renovação ideológica e social e uma depuração partidária. A conseqüência mais nefasta dessa revolução foi a destruição de livros considerados não-revolucionários. Autores como Balzac e Baudelaire, entre outros, que não se enquadravam com a doutrina do regime, foram banidos do cenário chinês. Porém, não se pode deixar de considerar que as reformas no regime de Mao atingiram de forma positiva os campos da saúde, alimentação, esporte e educação. A Revolução Chinesa atingiu em cheio a Coréia. Depois da expulsão dos japoneses do território coreano, o país divide-se em dois: o norte, ligado ao comunismo e o sul, ligado ao capitalismo. As tensões entre os dois lados da Coréia aumentam com a vitória da Revolução Chinesa, em 1949. No ano seguinte, o lado comunista invade a parte sul tentando unificar o país, dando inicio a um violentíssimo conflito. A guerra foi resolvida pelo armistício, em julho de 1956, que ratificou a fronteira que dividia a Correia.

Revolução Cubana
Com a questão dos mísseis de Cuba foi que a guerra esteve perto de se iniciar. Desde a independência de Cuba, os EUA, que haviam ajudado o movimento de libertação, exerciam um domínio sobre a ilha. Além da produção açucareira, que passou para as mãos dos latifúndios estadunidenses, Cuba era cheia de cassinos e outros negócios ilegais, com elevado nível de prostituição. A dominação foi legalizada com a Emenda Platt, que fornecia aos EUA o direito de instalar bases americanas em Cuba e o poder de intervir militarmente, caso considerassem seus interesses ameaçados. Enquanto isso, a população cubana vivia, morava e comia mal. A primeira tentativa de reverter essa situação veio de um pequeno grupo de amigos, liderados por Fidel Castro, que em, 1953, tenta dar um golpe de Estado, buscando pôr em prática seus anseios liberais e reformistas. A experiência não foi bem sucedida, pela ausência de apoio popular. A nova tentativa viria três anos depois, quando o mesmo Fidel reuniu um grupo maior com o auxílio de Ernesto Guevara. Fracassada a primeira tentativa, eles sobem a Sierra Maestra e, com a ajuda do campesinato, começam uma guerra de guerrilha contra o ditador Fulgêncio Batista que teria fim em 1959 com a conquista do poder pelos revolucionários. As novas medidas do governo, que tinha amplo apoio popular, foi a reforma agrária, diminuição das tarifas de bens de primeira necessidade como água, luz, aluguel, preço de livros e a nacionalização das empresas. Logo após a vitória do grupo, os EUA iniciaram uma campanha nos meios de comunicação contra o novo governo cubano. Diante disso, Fidel fez um pronunciamento público, repudiando os atos dos EUA: A revolução tem sido exemplar. Se essa não houvesse sido uma revolução, não teríamos inimigos e não nos teriam atacado, nem teríamos sido caluniados. Enquanto viveu um tirano neste palácio, que vendeu os interesses do país e fez as mais onerosas concessões ao estrangeiro, ninguém o atacou, não houve campanha de imprensa contra ele no exterior, nem se ergueram vozes parlamentares para acusá-lo. Quando aqui estava um traidor miserável, um criminoso que assassinou vinte mil compatriotas, ninguém realizou essas campanhas contra Cuba ou contra ele. Quando havia bancos de ladrões no poder, que roubavam um milhão de dólares, não houve campanhas, nem sequer quando meia dezena de compatriotas eram assassinados todas as noites, quando os jovens apareciam com uma bala na cabeça. Quando os pátios e guarnições militares estavam cheios de cadáveres, as mulheres eram violadas e as crianças torturadas, essas campanhas não se realizavam contra Cuba, nem se levantavam parlamentares ali (nos EUA), com exceção de alguns, para condenar a ditadura. Foi organizada campanha contra Cuba porque esta se converteu num exemplo perigoso para a América, porque sabem que vamos pedir a abolição de todas as concessões onerosas a interesses estrangeiros, porque sabem que vamos reduzir as tarifas de eletricidades, porque sabem que todas as concessões da ditadura serão revistas e anuladas.

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Essa é, meus caros compatriotas, a causa principal de toda essa campanha... O objetivo é claro. Nossa revolução pode ser para o mundo um modelo de revoluções. Ao povo de Cuba não precisamos explicar muito o que se passa. É a opinião mundial que precisamos convencer. (Folha de São Paulo on-line, 22/1/1959). Apesar do pronunciamento de Fidel, a investida dos estadunidenses continuou. Sentindo-se prejudicados pelas novas medidas empregadas pelo governo cubano, deixaram de comprar o açúcar produzido na ilha, obrigando o país a firmar acordos econômicos com o bloco comunista, passando a vender para eles e transformando-se numa república socialista em 1961. Os EUA, em represália, invadem a Baía dos Porcos. Ao serem derrotados, os EUA mudam a estratégia, que era econômico-militar, para a estratégia político-econômica, conseguindo a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) e o embargo comercial ao país, em que todos os países da América Latina, excetuando o México, romperam as relações diplomáticas. A situação ficou difícil quando a URSS instalou mísseis de ogiva nuclear em Cuba e os direcionou para os EUA. A reação do presidente Kennedy foi exagerada e a crise só foi superada quando as duas potências mundiais entraram em acordo: a URSS retirou os mísseis frente às promessas de que os EUA não mais tentariam intervir militarmente em Cuba. Devido às pressões estadunidenses, Cuba cria a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) visando fomentar os movimentos antiimperialistas e estimular a formação de guerrilhas em outras regiões. Foi com essa missão que Guevara saiu de Cuba, em 1966, conseguindo formar uma guerrilha no ex-Congo Belga e Bolívia, onde foi preso e morto. Com a desintegração do bloco soviético, Cuba enfrentou o desafio da busca de novos mercados e tecnologia, recebendo apoio de alguns países da Europa e América Latina. Sua relação com os EUA tendeu a melhor no governo de Jimmy Carter (1977-1980), que se abriu para a uma relação mais diplomática, que voltou a ficar mais truncada com a ascensão de Ronald Reagan ao poder em 1980.

Conflitos no Oriente Médio
Logo após a criação do Estado de Israel, em 1948, deu-se início à primeira guerra entre israelenses e árabes. Como vimos, a criação do Estado de Israel foi feita sem consulta prévia aos povos árabes. Em represália à decretação desse Estado israelense e à divisão da Palestina, a Liga Árabe invadiu a Galiléia, norte do país, dando início ao confronto que foi vencido um ano depois por Israel, que ocupou o território palestino espremendo os árabes em um território diminuto, forçando os palestinos a emigraram para outros países árabes vizinhos e produzindo milhões de refugiados. As disputas pelas fronteiras entre os Estados de Israel e Palestina continuaram e acirraram os conflitos. Diversos grupos guerrilheiros foram formados na Palestina para combater o expansionismo israelense e a ocupação pelo exército nas áreas palestinas, na década de 50. Em 1959, foi criado o Movimento de Libertação da Palestina (MLP), liderado por Yasser Arafat, requerendo a devolução dos territórios palestinos ocupados e a construção de um Estado palestino. Vários grupos guerrilheiros se uniram ao MLP e criaram a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), igualmente liderada por Arafat. Na década de 80, Arafat passou da guerrilha para a mesa de negociações, buscando um entendimento entre as partes envolvidas na guerra. A criação do Estado palestino ganhou impulso com a repressão de Israel à Intifada (sobressalto), ocorrida em 1987. Um ano depois, a OLP reconheceu o Estado de Israel e proclamou o Estado da Palestina. Este foi um ato de caráter simbólico e legitimador do governo palestino, mas não criou o Estado palestino de forma imediata. Isto somente ocorreu depois de alguns anos de negociações com Israel intermediadas pelo governo estadunidense. Outra guerra ocorrida no Oriente Médio nesse período foi deflagrada entre Irã e Iraque pelos direitos da navegação do canal de Chatt-el-Arab, no Golfo Pérsico. O Iraque declarou guerra demonstrando posteriormente, as intenções de seu governante, Saddam Hussein, de conquistar a liderança do mundo árabe. O Irã era governado pelo xiita aiatolá Khomeini, que subiu ao poder depois de uma manifestação popular contra o xá (rei) Pahlevi, que comandava o país sob ditadura. O Iraque era comandado pelo sunita
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Hussein, que assumiu o poder por golpe militar e era, igualmente, um ditador. Essa guerra misturava aspectos imperialistas e religiosos, gerando atos terroristas. O Iraque tinha apoio de Estados Unidos, França, Inglaterra e URSS. A guerra teve seu desfecho em 1988, sem vencedores.

Grupos Guerrilheiros
Nas décadas de 60 e 70 diversos grupos guerrilheiros de inspiração marxista-leninista surgiram no cenário. Em sua maioria, são organizações paramilitares, formadas por estudantes universitários de classe média, que buscam intervir e transformar a realidade em que estão imersos. Considerando suas peculiaridades e diferentes realidades, vamos observar a formação e ação de alguns deles? O Sendero Luminoso (caminho iluminado) surgiu no Peru, em 1964, como uma dissidência do Partido Comunista do Peru (PCP). Após o XX Congresso do PCUS, em 1956, com a divulgação dos crimes de Stalin, houve uma divisão da esquerda em todo o mundo. No Peru, esse racha deu origem a um grupo que defendia a tese da necessidade da revolução comunista caminhar do campo para a cidade, numa alusão à Revolução Chinesa. Esse grupo foi denominado de Sendero Luminoso. Seu nome deriva de uma frase utilizada pelo peruano marxista Mariátegui (“o marxismo-leninismo abrirá o caminho iluminado para a revolução”). Para o Sendero, o Estado peruano seria uma ditadura configurada por latifundiários e alta burguesia e apoiada pelo imperialismo estadunidense. Este Estado se sustenta pela violência, violando os direitos dos cidadãos e fraudando as eleições para a permanência do status quo. Sua proposta é utilizar-se da mesma violência, cercando as cidades a partir dos campos. Eles entendem que a violência armada é o único caminho para a mudança da situação do país. Liderado pelo professor de filosofia Abimael Guzmán, na década de 80 passou da guerrilha rural para a urbana, aumentando sua área de atuação e filiados. Seu sucesso em arregimentar militantes pode ser explicado pela sua tentativa de integração com a população, em especial os camponeses. Os militantes do Sendero costumavam fazer seus discursos em idioma indígena e oferecer soluções práticas para resolver problemas do quotidiano, além da política de respeito à cultura camponesa que, na prática, era ignorada pelos governantes. O que não significa dizer que todo camponês dava apoio ao Sendero, mas que a mistura de violência e uma proposta de apelo popular lançada pelo grupo o tornou sério candidato às eleições nos anos 90. Apesar disso, o grupo sofreu críticas por parte da esquerda, pelos seus métodos violentos de luta empregados. Mas o que de fato representou sua perda de força foi a repressão maciça empregada pelo governo, inclusive com a captura de Guzmán, em 1992, e outras lideranças em 1995. A repressão do governo sobre camponeses que alimentavam ideais comunistas em Marquetalia, na Colômbia, em 1964, dá início às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Nesse contexto de repressão dos governantes colombianos, surgem também o Exército de Libertação Nacional e o Exército Popular de Libertação. AS FARC diz lutar contra as classes dominantes e se opõem às privatizações, expropriação de recursos naturais e corporações multinacionais. Para enfrentar a guerrilha, o governo, em 1968, aprovou uma lei que dá liberdade para a criação de milícias paramilitares. Isso levou o país a enfrentar uma guerra civil, com mortes de ambos os lados. EUA, ONU e União Européia consideram o grupo como uma organização terrorista o acusam de praticar extorsões, seqüestros e de ter ligações com o tráfico de drogas. No Brasil, os grupos guerrilheiros surgiram no cenário da ditadura militar. A maioria era inspirada nos ideais marxistas e lutava pela derrubada do regime autoritário. Para a deposição da ditadura eles propunham a luta armada e a guerrilha como instrumentos de ação política. Para sua estruturação, faziam assaltos a bancos, carros pagadores, supermercados. Utilizavam o seqüestro de personalidades influentes na política como forma de conseguir a liberdade de presos políticos. Das organizações de resistência armada que surgiram no Brasil entre 60 e 70, podemos citar a VAR-Palmares, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Aliança Libertadora Nacional. Eles tinham algumas divergências em termos de projeto político, mas realizavam atividades conjuntas e tinham em comum, além da resistência ao regime militar, chamar a atenção dos meios de comunicação, provocar a libertação dos

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presos políticos e pôr em pratica a revolução socialista.

Bloco Capitalista e Socialista: Caminhos Diferentes
Os Estados Unidos, repetindo os feitos da Primeira Guerra Mundial, saíram do confronto novamente fortalecidos. Internamente, iniciou uma política chamada de Fair Deal (acordo justo) que buscava eliminar o desemprego e converter a indústria bélica em indústria de bens de consumo. Além disso, o Estado passou a se utilizar dos impostos para gerar um amplo sistema de bem-estar social através de sistemas de saúde gratuitos de boa qualidade, seguro-desemprego, aposentadoria, ajuda financeira para famílias de baixa renda para aquisição de casa própria ou alimentação, rede de escolas gratuitas e de bom nível, etc. Isso foi chamado de Estado de bem-estar social ou assistencialista. A sensação de bem-estar propiciada pela aceleração econômica renovou os princípios do american way of life e começou a nascer um forte sentimento anticomunista dentro do país, aflorado pelos testes atômicos da União Soviética e a intervenção dos EUA na Guerra da Coréia. Segundo Dias e Roubiceck (1996: 24), depois dos primeiros testes soviéticos, gradualmente foi se cristalizando na opinião pública dos Estados Unidos a idéia de que a URSS preparava em segredo um fulminante ataque nuclear [...] Imaginava-se que os impiedosos soviéticos não hesitariam em cometer assassinato em massa como parte de seu projeto de conquistar o mundo. A montagem de abrigos subterrâneos antiatômicos tornou-se um dos ramos mais lucrativos da indústria de construção civil nos anos 50: nenhuma família se sentiria totalmente protegida, a menos que contasse com um deles em sua casa. As posturas anticomunistas radicais foram encarnadas na figura do senador Joseph McCarthy, que criou o Comitê de Atividades AntiAmericanas e desencadeou uma caça às bruxas aos comunistas, que atingiu intelectuais, artistas e funcionários do governo. As atividades do comitê continuaram até que a onda de delações atingiu pessoas importantes no exército, levando McCarthy a encerrar sua carreira política. No auge da Guerra Fria, um general republicano, Dwight Eisenhower, foi eleito por duas vezes presidente dos EUA (1952-1960). Em seu governo, houve tentativas de aproximação com a URSS, propiciada pelo fim da Guerra da Coréia e pela morte de Stalin, sucedido por Nikita Kruchev, que pôs em prática a política coexistência pacifica. A URSS, por sua vez, saiu da segunda guerra exaurida, com a economia frágil e com uma população fora da Rússia não muito comprometida com o regime. A política da URSS era, portanto mais defensiva e preocupada com o status da nação que comandava o capitalismo. Com a morte de Stalin, em 1953, e a subida de Kruchev ao poder, houve um processo de abertura política controlada na União Soviética, chamada de desestalinização. Esse processo consistiu na redução do poder policial, libertação de presos políticos, maior atenção à indústria de bens de consumo em detrimento da indústria pesada (equipamentos, aço e máquinas). A desestalinização teve como marco o XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, quando Nikita Kruchev denunciou os crimes cometidos no governo de Stalin. O novo líder soviético acusou Stalin de temperamento violento e grosseiro, sendo que em seu governo Stalin permitiu e incentivou a fabricação de processos, falsas acusações e tortura, levando à morte várias pessoas sem culpa alguma devido a esses processos falsos. Kruchev o caracterizou como arrogante, megalomaníaco, injusto, perverso, e de praticar perseguição em massa, fuzilamentos sumários, propaganda mentirosa e incentivar o culto a si mesmo. Jorge Semprún nos passa uma idéia de como foi a revelação pública dos crimes de Stalin por um político que havia sustentado, como muitos outros, o governo ditador. Kruchev participou de forma ativa do governo de Stalin e contribuiu, como muitos outros, para corroborar e apoiar as ações de Stalin. Naquele momento, Kruchev quis mostrar que estava dando início a uma nova etapa na URSS: Nikita Sergheievitch era um deles e as centenas de homens e mulheres reunidos nessa ocasião sinistra e solene podiam identificar-se com ele. Como ele, haviam contribuído para derrotar todas as oposições. Como ele, havia cantado louvores a Stalin. Muitos deles, sem dúvida, haviam assistido ao XVII Congresso do PCUS, em março de 1939. Lembravam-se, talvez, de que Kruschev já havia subido à tribuna, no dia 13 de março de 1939, para falar do sucesso do comunismo na Ucrânia. Talvez se lembrassem

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das palavras de Nikita Sergheievitch, naquele dia longínquo de 1939, no momento exato em que a guerra na Espanha terminava em sangue, derrota e confusão, por causa, principalmente, da nefasta política de Stalin, cegamente posta em prática pelos conselheiros do Komintern e pelo grupo dirigente do Partido Comunista Espanhol. [...] Lembravam-se, talvez, pelos menos alguns deles, da conclusão do discurso de Kruschev em março de 1939: “Viva o maior gênio da humanidade, o mestre, o chefe que nos conduziu vitoriosamente para o comunismo, nosso querido Stalin!” Eles se lembravam do nosso querido Stalin, sem dúvida. Tremiam, ainda, retrospectivamente, com um horror respeitoso e tímido (Semprún, 1980: 320-322). O discurso teve profundas conseqüências nacionais e internacionais depois de ter sido espalhado com grande alarde pela imprensa. Todos se perguntavam sobre quem sabia daqueles acontecimentos. Segundo Ferreira, muitos comunistas brasileiros mostraram-se cépticos diante das revelações, enquanto outros sentiram-se abalados emocionalmente. Um desses foi Hércules Correa, que, após saber do informe, passou mal e quase vomitou no jantar. Segundo ele, para os comunistas, era a fé que se pulverizava: “nossa convicção era uma questão de fé. Era nossa fé que estava sendo pulverizada” (2002:294) As mudanças não pararam por aí. No governo de Kruchev foram feitas as primeiras tentativas de aproximação com o EUA, iniciando as conversações de paz, que eram sempre interrompidas por conflitos localizados. Em especial o episódio dos mísseis de Cuba, em 1962, desgastou a imagem de Nikita, que foi destituído do cargo. Apesar de ser mais conservador, o sucessor de Kruchev, Brejnev, retomou as conversações com os States na década de 70, proporcionando, além da visita de Brejnev aos EUA e uma visita de Nixon a URSS, uma viagem espacial soviético-estadunidense, Soiuz-Apolo, em 1975. Com a invasão da União Soviética ao Afeganistão, novamente o diálogo foi encerrado, sendo retomado na década de 80 por Gorbatchev. O novo líder político soviético, Mikhail Gorbatchev, tendo uma visão mais aberta e modernizante, estava preocupado com a fragilidade da economia da URSS e a falta de democracia nos órgãos do Estado. Adotou dois planos de governo para alterar essa situação: a Perestroika (reestruturação), visando descentralizar a economia, e a Glasnost (transparência), que propunha uma maior abertura nas questões políticas, tentando combater a corrupção instalada nos órgãos públicos, significando uma separação entre Estado e partido. Houve contra essas medidas uma reação das forças conservadoras descontentes com a mudança do status quo. Tentaram, em 1991, um golpe de Estado para afastar Gorbatchev do poder e não permitir a continuidade das transformações. Com o apoio popular a favor de Gorbatchev e a resistência conduzida por Boris Ieltsin, o líder político soviético manteve-se no poder. Destituiu a KGB e confiscou os bens do Partido Comunista. Logo após o desfecho do episódio do golpe de Estado, Letônia, Lituânia e Estônia declararam-se independentes. Logo em seguida, a Ucrânia também declarou-se livre, dando mostras do processo de desintegração da União Soviética, que estava por vir. Em dezembro de 1991, foi decretado o fim da URSS e a criação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que reunia as repúblicas que formaram a União Soviética. Com a desintegração da URSS, a Guerra Fria conheceu seu fim. A Guerra Fria acabou, mas a CEI conserva parte do arsenal da extinta URSS, e outras nações como China, França e Reino Unido e, suspeita-se, Israel, Índia, Paquistão e África do Sul desenvolveram também eles seus artefatos nucleares. O preço, contudo, foi alto: 170 mil pessoas pereceram para que essa arma paradoxal mostrasse ao mundo um poder de destruição tão grande que forçou os dois ex-inimigos – EUA e URSS – a travar uma luta sem guerra. Para melhor refletir sobre os acontecimentos estudados neste bloco, vamos ler um texto escrito para a Folha de São Paulo sobre a bomba atômica? Há 12 anos, quando o lançamento da bomba em Hiroxima completava meio século, o jornalista Ricardo Bonalume Neto escreveu uma matéria colocando algumas questões sobre a utilização das bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial e sua influência para a realização de uma guerra posterior, chamada de fria. Vamos entender suas considerações para poder responder a atividade complementar?

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Atenção
Bomba atômica em Hiroxima faz meio século. Há 50 anos, duas cidades japonesas foram pulverizadas por bombas atômicas. Foram as únicas vezes em que esse tipo de arma foi usado em uma guerra. Só isso, já é motivo para comemorar o aniversário. Durante meio século de convivência com armas nucleares, não faltou vontade nem oportunidade para seu emprego por parte das superpotências da época, os Estados Unidos e a antiga União Soviética. O grande desafio da humanidade neste meio século foi convencer a sua parcela mais belicosa de que as armas nucleares eram essencialmente diferente das outras. O enorme arsenal criado em 50 anos, paradoxalmente, serviu para impedir uma Terceira Guerra Mundial, que poderia arrasar boa parte da espécie humana. União Soviética e Estados Unidos tinham armas para se destruir mutuamente várias vezes - depois da primeira vez, como disse o estadista britânico Winston Churchill, as outras bombas apenas fariam “as ruínas balançarem”. Muitos militares dos dois lados da “cortina de ferro” achavam – e muitos ainda acham - que usar uma arma capaz de matar milhares instantaneamente é uma maneira legitima de fazer guerra. Na guerra, vale tudo, dizem. O importante é vencer (e os vencedores sempre escrevem a maior parte da história) Para esses estrategistas, em vez de usar 1.000, 2.000 ou 3.000 aviões carregados de bombas convencionais, é mais fácil empregar um armado com uma bomba atômica, para obter o mesmo estrago. [...] O que torna essa arma diferente é a enorme concentração de energia em um pequeno espaço, capaz de ser liberada de repente, com resultados devastadores. E também um subproduto letal por muitos anos: radiatividade. A primeira bomba atômica teve o objetivo de testar a nova arma. Foi em 16 de julho de 1945, em um local batizado de Trindade (“Trinity”), em Alamogordo, deserto do Estado do Novo México, EUA. Ela tinha poder explosivo equivalente a 18 mil toneladas do explosivo TNT, ou 18 quilotons. [...] Mesmo as bombas usadas contra o Japão ficam pequenas se comparadas com o arsenal que foi construído pelas superpotências nestes 50 anos. Durante os seis anos da Segunda Guerra Mundial, em todos os continentes, foram empregados o equivalente a 3.000 quilotons (ou 3 megatons) de explosivos. EUA e URSS construíram um arsenal equivalente a 7.500 megatons. As armas nucleares existentes são suficientes para repetir a Segunda Guerra por 2.500 vezes. Tanto poder deu coceira no dedo de muitos políticos. O mesmo presidente americano que autorizou a explosão da bomba em Hiroxima e Nagasaki, Harry Truman chegou a pensar em usar bombas atômicas contra os comunistas norte-coreanos e chineses na Guerra da Coréia (1950-53). Truman só não precisou usar a bomba porque as forças americanas em terra conseguiram conter o ataque norte-coreano em 1950. O general Douglas MacArthur chegou a sugerir o uso da bomba contra os chineses, quando eles detiveram o ataque americano meses depois e ameaçavam tomar toda a península coreana. MacArthur foi demi-

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tido por Truman, não porque quisesse detonar bombas atômicas, mas por sua desobediência constante. Outro general, Mark Clark, que comandou tropas brasileiras na Itália em 1944-1945, também sugeriu a outro presidente americano, Dwight Eisenhower, lançar uma bomba sobre uma concentração de tropas chinesas em 1953. Eisenhower se recusou. Ricardo Bonalume Neto. Folha de São Paulo, 6/8/1995.

Atividade complementar
1. Depois de ler o texto complementar, responda o que torna a bomba nuclear uma arma diferente das outras e por que houve necessidade de convencer as superpotências a não fazerem uso dela.

2. Por que é possível considerar que a Segunda Guerra Mundial teve um caráter interimperialista e anti-socialista?

3. Escreva suas impressões sobre as memórias de guerra. Qual trecho lhe chamou mais a atenção?

4. Compare a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial com a Segunda Guerra. Fale sobre o contexto e as motivações políticas.

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5. O que fomentou os diversos movimentos de libertação na África e na Ásia, que tornaram possível a descolonização dos continentes?

6. Escreva sobre os movimentos localizados durante a Guerra Fria.

Estante do Historiador
No Bunker de Hitler: os últimos dias do Terceiro Reich: Neste livro, Joachim Fest nos revela os bastidores desse apocalipse, mostrando como o ocaso de um violento ditador arrastou consigo um país inteiro. O livro traz ainda perfis dos principais membros da entourage pessoal de Hitler, dominada pela competição e pela intriga até os instantes finais do Führer.

Cinema e história
Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra – Filmes do diretor Clint Eastwood que retratam o mesmo episódio: os sangrentos combates de fevereiro de 1945 na ilha de Iwo Jima, no Pacífico. Esses combates marcaram a reviravolta do conflito no Pacífico. O grande mérito de Eastwood nestes dois filmes é exatamente mostrar o momento histórico pelas duas lentes, a lente americana, cujo marco maior é a foto símbolo da conquista e que é explorada pela máquina de propaganda à exaustão, criando feridas incuráveis naqueles soldados; e pela lente japonesa, sendo uma produção americana única, já que humaniza os soldados japoneses apresentados com seus dramas, suas dúvidas, incertezas e ternura, um elemento nunca explorada numa produção americana. Filmes que mostram, que, na guerra, a idéia de vitória e vencedores é sempre relativa. A Queda – As Últimas Horas de Hitler – O filme tem como ponto de apoio as pesquisas do historiador Joachim Fest e as memórias de Traudl Junge, e apresenta os acontecimentos de 20/04 a 02/05 do líder alemão, até cometer o suicídio no bunker em meio a uma Berlim destruída e tomada pelos Aliados (russos). Lá encontramos Eva Braun, Goebbels e sua mulher Magda, associados às últimas medidas do führer, numa Alemanha já derrotada na Segunda Guerra Mundial. O Pianista – Dirigido por Roman Polanski, este filme é baseado na autobiografia de Wladyslaw Szpilman, pianista de renome na Polônia que, após a invasão do país pelos nazistas, sofre os horrores do conflito. Uma história de esperança e sobrevivência, ou melhor, uma história de luta pela sobrevivência .como poucas. Traz um panorama geral da presença alemã no país, da vida no gueto de Varsóvia e por fim, mostra um Szpilman que, ironicamente, sobrevive a partir da ajuda de um inimigo. Destaque do filme para o Noturno de Chopin, que estará presente no momento da invasão da Polônia, no seu momento de salvação e ao retomar as atividades na rádio estatal Polonesa. Boa Noite e Boa Sorte – Contando a trajetória de Ed Murrows e as perseguições sofridas por ele durante o período da Guerra Fria, quando uma verdadeira caça às bruxas feita pelo senador Joseph McCarthy colocava em risco todos que tivessem orientação comunista ou ligações com elementos de

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esquerda. A luta de Ed Murrows, ao enfrentar elementos e estruturas de poder muito maiores do que ele próprio, nos leva a continuar acreditando que o jornalista real deve sempre lutar para reportar a verdade de forma independente, um dever que, na atualidade, parece esquecido nos bancos da academia.

O historiador e a internet
http://www.grandesguerras.com.br/ - Site sobre conflitos do século XX, com ênfase na Segunda Guerra Mundial, bem variado, com textos, artigos, imagens, vídeos, sons. http://www2.ufba.br/~revistao/ - Site da revista Olho da História, da oficina de cinema-história da UFBA, que traz o tema Segunda Guerra Mundial, entre outros. http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/index_flash.html - Site com o especial da revista veja sobre a Segunda Guerra Mundial, reportagens, perfis, sons, vídeos, um rico material para ilustração das aulas. http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br – Site com vários números da revista on-line do arquivo público do Estado de São Paulo.

A NOVA ORDEM MUNDIAL
A CRISE DO SOCIALISMO

A desintegração do socialismo teve origem no seu centro gerador, a URSS. Depois das reformas de Gorbatchev, os países ligados ao bloco comunista foram se separando, em um processo acelerado. A Rússia, com Boris Ieltsin no poder, iniciou a mudança de uma economia planificada para uma economia de mercado, com a privatização das empresas e serviços. A abertura rápida dos mercados, sem uma infra-estrutura solidificada, levou o país à inflação, desemprego e pobreza. Essa transformação foi feita de cima para baixo, com pouca participação popular no processo. Os cidadãos dos países que compunham a ex-União Soviética tinham uma qualidade de vida mais igualitária do que as dos países capitalistas, apesar da carência de produtos e da falta de democracia, mas a transição para uma economia de mercado terminou por gerar o desemprego, aumento da pobreza e a recessão econômica. Com o aumento do desemprego, multiplicaram-se as formas de atividades clandestinas e/ou ilegais e a criminalidade. Posteriormente, alguns puderam afirmar que o pior não foi descobrir que aquilo que se dizia sobre o comunismo era mentira, mas saber que tudo que se falava sobre o capitalismo era verdade. Isso demonstra que alguns não demoraram a perceber que o capitalismo também traz inúmeros problemas, e a insatisfação voltou à tona. Segundo Adam Przeworski (1994: 226): Uma das muitas frases na Europa oriental era “se não fosse o sistema (isto é, o socialismo), nós estaríamos na mesma condição do ocidente”. Todavia muitos países nunca experimentaram o regime comunista e continuam imersos na pobreza. Mais da metade da população mundial vive em países capitalistas pobres, e, como disse um industrial latino-americano: “Nossos empresários acreditam que o comunismo fracassou. Eles só se esquecem de que o nosso capitalismo também é um fracasso colossal”. Misérias, desigualdades, ineficiência, repressão, dominação estrangeira: essas condições são vividas cotidianamente por milhões de pessoas para quem o ocidente é apenas o Norte. Apesar da intenção do sistema capitalista não ser a igualdade para todos, não é possível fazer uma análise da experiência dos países do bloco socialista tomando como base o capitalismo, como colocou Przeworski. Apesar da desintegração do bloco soviético alguns países ainda viviam sob a sombra da Rússia.
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Explodiram diversos movimentos nacionalistas que reivindicavam maior autonomia de seus territórios. A Chechênia foi invadida, em 1994, por requerer independência, o mesmo ocorrendo com o Tadjiquistão e Azerbaijão, nos anos seguintes. O processo de independência desses países foi feito de forma lenta, devido ao sufocamento da Rússia, que não abria mão de exercer sua influência nessas regiões. A desintegração da URSS não significou somente o fracasso dos regimes comunistas, mas igualmente o fracasso da ideologia que embalou diversos movimentos de libertação no Leste Europeu, na América Latina e África. A experiência de regime comunista da forma que foi realizada, fracassou, mas os problemas que animaram o surgimento da ideologia mantêm-se no mundo de hoje, onde as soluções encontradas não são capazes de resolver os problemas e impasses vividos.

China
Nos anos 60, a China, não aceitando a política de coexistência pacífica que a URSS adotou em relação aos EUA, criticou o governo soviético, e a relação diplomática entre China e bloco soviético foi rompida. Mao Tsé-tung governou seu país com mão de ferro. Apoiado pela Guarda Vermelha, o presidente afastou os opositores, muitos deles dirigentes do PCC, professores e autoridades consideradas reformistas. Assim como na URSS, a política de liberalização e modernização só foi possível com a morte de Mao e ascensão de um novo líder mais reformista e moderado. Em 1978, Deng Xiaoping assumiu o poder na China e propiciou a abertura da economia ao comércio exterior, transferiu os gastos com o serviço militar para a área social e, ao longo do tempo, as empresas e serviços foram privatizados. Contrariamente à URSS e aos países comunistas do Leste Europeu, a política interna na China manteve seu endurecimento com o Partido Comunista, monopolizando a política e reprimindo os grupos que requeriam a democracia. O massacre da Paz Celestial, em 1989, revelou ao mundo a continuidade da ditadura chinesa. O evento foi realizado por diversos estudantes, intelectuais e trabalhadores que, de 15 de maio a 4 de junho, faziam protestos pacíficos requerendo reformas democráticas, liberdade e igualdade e contra a corrupção do governo. Entre os dias 3 e 4 de junho, o exército chinês reprimiu violentamente os manifestantes, resultando num saldo de quase mil mortos civis. O jornalista José Abes Jr., que esteve por quarenta dias em contato com os jovens estudantes da Praça da Paz Celestial, coloca que os estudantes não acreditavam na hipótese de um massacre. Estavam convencidos de que o “Exército do Povo” não iria voltar suas armas contra jovens desarmados. Porém, o massacre aconteceu. Tornou-se símbolo desse episódio a imagem de um chinês tentando parar uma coluna de tanques para evitar o massacre. Seu nome foi descoberto posteriormente, Wang Weilin, assim como seu destino: foi preso e executado alguns dias depois. Ao ter sido fotografado e filmado pelas emissoras presentes durante o acontecimento, Weilin se tornou a imagem do massacre da Paz Celestial. Enquanto seu nome não era descoberto, ele foi chamado de “homem tanque”. Para termos uma idéia do que foi esse fato, vamos ler um trecho do artigo do jornalista Augusto Nunes, que escreveu para o Estado de São Paulo: O mundo não sabe seu nome, nem sequer vê-lhe o rosto. Conheceu apenas o gesto: sozinho no meio da praça, o corpo magro modestamente emoldurado pela calça escura e a camisa branca, um jovem chinês desarmado detém uma coluna de tanques. Imobilizados os mamutes de aço, o chinesinho sobe o dorso do primeiro deles e grita algo para o soldado que o pilota. Desce em seguida para o chão e novamente hasteia o próprio corpo diante da coluna. O tanque se move para a direita, o chinesinho acompanha seu movimento. É possível adivinhar a perplexidade que precede a fúria. O tanque avança alguns centímetros, o jovem o encara desafiadoramente. Há uma tragédia em seu começo, o soldado não pode recuar. Mas alguns braços providenciais convergem para o meio da praça e resgatam o combatente solitário, impedindo que o mundo pudesse identificar esse herói do nosso tempo. (Estado de São Paulo, 18/6/1989). O massacre da Paz Celestial foi seguido de protestos violentos pela população, que tentou destruir tanques e agredir soldados.
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Apesar da abertura política e econômica a outros países, inclusive com a reaproximação da URSS no governo de Gorbatchev neste mesmo ano, a política chinesa rendeu frutos econômicos ao país, com o aumento das exportações e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), revelando-se uma potencia em ascensão.

Problemas na Ilha
O desaparecimento da URSS gerou uma grave crise econômica para Cuba e em decorrência disso foram necessárias transformações na estrutura social e política da ilha. Devido ao bloqueio econômico imposto pelos EUA e o desaparecimento do intercâmbio comercial entre os países do bloco socialista, houve a retirada da estabilidade econômica cubana, revelando sua dependência financeira da URSS. Os EUA reafirmaram sua política ofensiva a Cuba depois do desmantelamento do bloco socialista e podemos notar isso através das leis que foram promulgadas. A lei Toricelli, de 1992, proíbe que filiais de empresas estadunidenses tenham qualquer vínculo comercial com Cuba, com sérias sanções para os infratores. A lei HelmsBurton, criada em 1996, objetiva recrudescer o bloqueio contra Cuba, atingindo com sanções países e empresas internacionais e estadunidenses que mantenham relações econômicas com os cubanos. Essas medidas têm como objetivo sufocar a economia de cuba e forçar a interferência norte-americana no território cubano. Com as dificuldades impostas, Fidel Castro precisou buscar novos mercados para exportar e importar produtos e utilizar uma nova política econômica. Entre as medidas estão a abertura do mercado interno à moeda estrangeira, permissão de associação econômica com Estado estrangeiro, autorização às empresas estrangeiras de exportar e importar diretamente, descentralização do sistema bancário nacional, permissão para a abertura de pequenos negócios para reduzir o desemprego, permissão para que qualquer pessoa pudesse ter propriedade privada e a comercialização do dólar. Os investimentos estrangeiros e o turismo passaram a ser os novos pilares da economia cubana. A crise econômica e as reformas promovidas pelo governo para solucioná-la acabou gerando conseqüências sociais. Logo após o desmantelamento do bloco socialista, a população sentiu a queda das importações por ter ocasionado redução do abastecimento de produtos básicos. Segundo Emir Sader (2001) Passaram a faltar produtos essenciais, que eram importados dos países do Leste Europeu e em relação aos quais Cuba não tinha possibilidade alguma de produzir com seus próprios meios, como os produtos de asseio pessoal (pasta de dente, sabonete, xampu...) e produtos alimentícios, fazendo com que a dieta alimentícia tivesse uma grande retração. A política de garantir emprego, utilizada pelo Estado cubano, sofreu forte abalo, gerando desemprego e criação de atividades ilegais e subemprego. Sem o petróleo soviético, o abastecimento dos transportes foi afetado e foi necessária a importação de bicicletas made China para sanar o problema. Com a diminuição da produção de energia elétrica, foi necessário montar um sistema de apagão, que consiste no corte do fornecimento de energia uma vez por semana em diferentes bairros. Mas o que esperar de um país com uma economia frágil e dependente do país que acabou por desmembrar-se? Segurar-se em meio às dificuldades não é tarefa fácil. A entrada de capital estrangeiro gerou uma grande diferenciação social entre aqueles que possuem o dólar e os que não possuem moeda americana. A diferenciação social terminou por colocar em cheque a legitimidade da revolução. Como é possível falar em construção de uma sociedade socialista utilizando a economia de mercado? Todos esses problemas contribuíram para o aumento da insatisfação popular e do êxodo para os EUA. O ápice da crise foi em 1994, com a chamada crise dos balseiros, quando foram resgatados milhões de balseiros nas águas do Estreito da Flórida. As medidas colocadas em prática tiveram êxito e o governo cubano conseguiu contornar a crise e começou a implementar um programa de desdolarização da economia de forma progressiva, pois sua rápida retirada do mercado pode gerar nova crise. Apesar das dificuldades enfrentadas, o governo mostra um esforço para manter as reformas sociais que continuaram sendo prioridade. Grande parte do orçamento estatal ainda é investida em escolas, alimentação e habitação. A abertura para a economia de mercado deu-se de forma lenta, não houve uma privatização generalizada das empresas estatais e não se firmaram acordos com organismos internacionais, como o FMI. Vamos observar o relato da historiadora Elaine Barbosa, que esteve em Cuba, em 1995, durante a crise, e perceber as contradições que o país apresentava?
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Atenção
A diferença está no Dólar
Um olhar superficial sobre Cuba pode fazer sonhar com a utopia em Havana, as primeiras atenções recaem sobre as ruas – limpas, sem lixo ou esgoto aberto, com praças e árvores seculares, indicando uma cidade que não sofreu grandes transformações urbanísticas. Os casarões que compõem a paisagem, onde raríssimos são os prédios que ultrapassam cinco a seis andares, desvendam um passado de riquezas que foi abandonado pela burguesia cubana e norte-americana nos anos subseqüentes à ascensão de Fidel Castro ao poder. Hoje, são habitadas por populares, que pagam um pequeno aluguel ao Estado. As crianças, saudáveis e com bons dentes, brincando pelas ruas sempre calçadas, mesmo que o tênis esteja velho e rasgado de um lado a outro. A propagada governamental sobre os benefícios médicos alcançados pelo regime é incontestável: toda criança recebe um litro de leite por dia até os seis anos, além de vacinas, acompanhamento pediátrico, creches e escolas. Cuba é governada pelo Partido Comunista, presente em cada quarteirão, através dos CDRs (Comitês de Defesa da Revolução). As pichações oficiais nos muros são sempre palavras de ordem de cunho nacionalista – enaltecendo a Revolução. É curioso notar que o nome de Fidel e sua imagem pouco aparecem. No seu lugar, as imagens de Martí e Che Guevara funcionam como os rostos e vozes que, subrepticiamente, legitimam o “comandante-em-chefe”. Um olhar mais acurado revela que o sonho da revolução se desvanece e dá lugar a um país em crise. A carência de energia e combustível transparece na frota de automóveis. Os carros – velhíssimos, norte-americanos da década de 50 ou russos da década de 70 – quebram freqüentemente e a persistência em fazê-los funcionar é explicada pelo insuficiente sistema de transporte público nacional. Os guáguas, como são chamados os ônibus, são velhos, demoram muito a passar e estão sempre lotados. O transporte popular na Ilha são as bicicletas chinesas. A falta de divisas para a importação de petróleo reduziu a dez litros mensais a cota de gasolina dos proprietários de automóveis. Resultado: os únicos congestionamentos que existem são nas filas de ônibus; a ausência do barulho de aceleradores e freadas e o ar puro criam uma paisagem pitoresca. Na autopista Nacional e na Carretera Central, as mais importantes rodovias, pode-se andar por vários minutos sem cruzar com um único automóvel ou caminhão. Entrar em contato com os turistas é, hoje, o esporte nacional: todos precisam obter dólares para viver. O sistema de empregos é irreal: trabalha-se em turnos de 24 ou 48 horas, que mascaram um desemprego imenso. A média salarial gira entre 150 e 200 pesos cubanos por mês que, se fossem convertidos no câmbio negro, representariam cinco ou seis dólares. Com este dinheiro adquire-se a libreta – uma por mês – que dá direito de adquirir nas bodegas, que só abrem aos sábados, os alimentos básicos. As cotas estabelecidas são insuficientes: todos concordam que a comida dá para no máximo, 15 dias. Roupas e sapatos só nas tiendas, em dólares. O que mais se pede ao turista que transita pela rua é sabonete. Na falta, a solução é tomar banho com detergente... Na madrugada e pela manhã, vêem-se inúmeras bóias, dessas de câmaras de pneu, adentrado o mar bem em frente ao Malecón, a avenida principal de Havana: são jovens e adultos tentando uns peixes para o almoço. O Estado tem no turismo a principal fonte de obtenção de divisas. Atrai o capital estrangeiro, sobretudo espanhol, para sociedades em empreendimentos hoteleiros. Restaurantes, bares, aluguel de carros, tudo é estatal e não admite concorrência privada. Foram liberadas algumas atividades privadas, mas nada que “desvie” o grosso dos dólares do turismo. A venda de charutos e rum nas ruas são algumas das atividades ilegais presentes em toda a Ilha, escudada nas propinas pagas aos policiais. A prostituição generaliza-se... No bar do restaurante Pátio, um grupo de turistas franceses cantava a Internacional, o hino comunista, acompanhado de prostitutas. Citado em Magnoli (1996:104)

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A QUEDA DO SOCIALISMO NO LESTE EUROPEU
Os países do Leste Europeu, ao contrário da União Soviética, adotaram o comunismo através da ocupação militar, efetivada pelo exército soviético durante a Segunda Guerra Mundial, ou da influência da URSS após o conflito mundial, e não pelas vias da revolução. Esses países, que viraram satélites da União Soviética, eram Bulgária, Romênia, Alemanha, Albânia, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia que buscava manter certa autonomia de ação. Nos anos 80, as condições de vida da população não eram boas. As indústrias de bens de consumo não acompanhavam as inovações tecnológicas, além da falta de produtos de primeira necessidade, como pão, leite, roupas e calçados, que provocava imensas filas. Isso atiçou a vontade pelo rompimento com o socialismo, mesmo porque, apesar do quadro desfavorável, não existia uma liberdade de protesto. As pessoas tinham receio de serem acusadas de espião e agente provocador a serviço do capitalismo. Segundo José Arbex Jr., “os funcionários do Estado e do Partido Comunista formavam uma camada de privilegiados que tinha acesso a bens e regalias fora do alcance da população comum” (1997:105). As manifestações contrárias à influência soviética tomaram fôlego a partir do processo de desestalinização, quando grupos de tendências democráticas apareceram para agitar o cenário. Algumas greves operárias e manifestações contra a influência soviética foram realizadas na Alemanha, Polônia e Hungria, sendo todas violentamente reprimidas. Em 1968, surgiu na Tchecoslováquia um movimento intitulado a Primavera de Praga, que recolheu milhões de assinaturas no Manifesto das Mil Flores pedindo a libertação dos presos políticos e de um regime mais aberto. Esse movimento forçou o presidente Dubceck, que iniciou um processo de reabilitação de comunistas que haviam sido presos ou banidos no regime de Stalin, a declarar a ruptura com Moscou. O sucesso inicial da Primavera das Flores foi limitado pela invasão das tropas soviéticas, que depuseram Dubceck e colocaram um governante obediente às ordens de Moscou. Com esses movimentos, ficou claro para a opinião pública que o comunismo no Leste Europeu tinha sua permanência através da coerção da União Soviética. Com a política de Gorbatchev de promover uma liberalização do regime, os focos de protestos aumentaram. Na Alemanha Oriental, as manifestações populares de protesto contra o governo de Honecher, dirigente stalinista, levaram à sua queda, em 1989. Em 9 de outubro do mesmo ano, a população dirigiu-se para o muro de Berlim e demoliu o símbolo maior da Guerra Fria. José Arbex Jr., que presenciou este momento, lembra-o de forma festiva: Eu acompanhei pessoalmente a crise dos refugiados, a comemoração do quadragésimo aniversário da República Democrática Alemã e a queda do Muro de Berlim. Às vezes, tenho a impressão de ter participado de um sonho. Lembro-me de dezenas de milhares de pessoas cruzando o Muro naquela noite fria de outono, dos encontros de familiares e casais que durante anos não puderam encontrar-se, dos fogos de artifício, das cervejas e champanhes, das conversas, dos risos e dos choros de emoção. Eu tinha a nítida sensação de estar presenciando a própria história. Era óbvio que dali para a frente o socialismo na Europa do Leste havia acabado. (1957:107). No ano seguinte, a Alemanha foi reunificada depois de 45 anos, como resultado do plebiscito em que a maioria da população votou a favor da reunificação do país. A realidade, um ano depois da queda do muro, não era animadora. A Alemanha Oriental, com sua economia mal-administrada, foi lançada ao mundo competitivo do capitalismo e moeda forte que era o marco ocidental. O reequilíbrio econômico e a adaptação aàs novas mudanças foi feita de forma lenta. Os movimentos de libertação foram sucessivos e a maioria sem violência. O movimento da Tchecoslováquia foi chamado de Veludo, pela ausência de atos violentos. O movimento da Iugoslávia provocou o surgimento de novos países e de diversos conflitos étnicos. A Iugoslávia era formada por seis repúblicas (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia e Montenegro) e, depois da morte de Tito, que mantinha todas as repúblicas coesas, houve uma disputa pelo poder político. O principal conflito deu-se entre a Sérvia de Milosevic, que declarou guerra à Croácia, e Eslovênia, que haviam pro-

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clamado sua independência. Com a declaração de independência da Bósnia novos e violentos conflitos voltaram a ocorrer na região, com o ataque dos sérvios aos muçulmanos e croatas.

ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO
O neoliberalismo é a volta à idéia de que a economia não precisa ser conduzida pelo Estado, preconizando a liberdade irrestrita do mercado e um recuo do Estado no setor econômico. Seu impulso foi dado pelo governo de Reagan, nos EUA, e Margareth Tatcher, na Inglaterra, nos anos 80. Os estadistas cortaram os gastos públicos e passaram a privatizar bens e serviços estatais, estimulando as empresas privadas a dominarem amplos setores da economia. Depois da desintegração da URSS não existia mais uma fronteira geopolítica para a economia de mercado. Com a desculpa da revolução tecnológica, houve eliminação das medidas protecionistas e a maior integração dos mercados nacionais, conferindo unidade à economia mundial. As piores conseqüências dessa política foram o aumento do desemprego, devido aos cortes na área social, e o enfraquecimento dos sindicatos, devido ao enorme exército de desempregados que passaram a aceitar péssimas condições de trabalho. Os países passaram e/ou continuaram a se integrar em blocos econômicos para fortalecer e proteger suas economias, mas esses acordos terminaram por beneficiar os países economicamente mais poderosos, levando alguns países subdesenvolvidos a quebrarem. Em especial, os EUA se beneficiaram desses acordos econômicos, como o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), e pressionaram para que a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que seria composta por todos os países da América Latina, exceto Cuba, passasse a vigorar. O colapso do regime comunista propiciou a defesa e expansão do modelo neoliberal. Este foi exportado para os chamados países do terceiro mundo. O México foi anexado à economia canadense e estadunidense. Pela sua fragilidade econômica em relação aos outros dois países, o México não demorou a quebrar financeiramente. Talvez o esquecimento da crise de 1929, período em que o liberalismo mostrou suas piores conseqüências, ou talvez uma confiança de que a economia de mercado fosse mais forte que a época de ouro anterior, permitiu a volta do liberalismo recauchutado, mas com os mesmos princípios do laissez-faire. Os efeitos do neoliberalismo fizeram surgir criticas negativas e movimentos contestatórios contra esse sistema econômico. Vamos entender como a guerrilha neozapatista surgiu no cenário mexicano e mundial?

O Efeito Tequila e os Neozapatistas
O México foi o primeiro país latino-americano a implantar o neoliberalismo e, conseqüentemente, o primeiro a entrar em colapso econômico e social. O presidente Salinas, que chegou ao poder ajudado por uma grande fraude eleitoral, dando seguimento à oligarquia do Partido Revolucionário Institucional (PRI), anunciava que acabaria com a recessão através da política econômica de abertura comercial, desregulamentação e liberação, assim como de privatização das empresas públicas. Nos quatro primeiros anos de governo, o Estado foi reduzido, liquidaram-se as indústrias, empresas e meios de comunicação paraestatais, privatizou-se os bancos e se implantou uma política tributária rígida, vendendo maciçamente, através dos meios de comunicação, a idéia de um México feliz, próspero, com baixa inflação e crescente consumo, seguindo a cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI). A entrada de capitais, promovida pela privatização e liberalização da economia, não originou maior disponibilidade de crédito nem investimento que favorecesse o crescimento da economia e gerasse empregos bem remunerados. Quatro anos depois, a situação era alarmante e o país mergulhava em desemprego, inflação, pobreza, déficit na balança comercial e sobrevalorização da moeda. O desabamento da cotação do peso (moeda mexicana) deu-se quando os homens de negócio, ao saberem antecipadamente da desvalorização do peso, transferiram bilhões de dólares para a fora do país, e, talvez, essa ação possa ter gerado a desvalorização da moeda. Apesar da situação alarmante, o Estado continuava a passar a idéia de estabilidade, principalmente para os investidores estrangeiros, no seu desejo de incorporação ao Nafta.
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O efeito provocado no México abriu para uma critica do modelo neoliberal. O debate foi polarizado por dois grupos: os defensores do modelo, que alegavam que o problema foi um reflexo dos erros da operação da política econômica, ocorridas no contexto de um modelo vitorioso. E aqueles que criticam o modelo devido aos altos custos sociais gerados. Pode-se citar, como elementos que resultaram na crise: • O exagerado aumento das importações, que resulta na perda de espaço dos produtores nacionais. • O desmedido processo de abertura mexicana sem uma base produtiva no país. • O crescente endividamento externo e interno do setor privado e público, endividamento das indústrias e agricultura. • Tendência a um crescente déficit na balança comercial, devido ao aumento das importações. Foi necessário uma operação de salvamento financeiro que mobilizou os EUA, O FMI e os países do G-7 (os sete países considerados os mais ricos do mundo), que levantaram uma alta quantia para injetar na economia mexicana e acalmar os investidores e especuladores de todo o mundo. Para que isso fosse efetuado, o México precisou penhorar suas reservas petrolíferas. O medo dos estadistas e economistas era que essa crise se espalhasse para outros países e afetasse o sistema financeiro internacional. A imprensa já tinha pensado num nome para o desdobramento da crise mexicana – “efeito tequila”. O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) ou neozapatistas - nome adequado pelo seu caráter militar, pela sua inspiração nos ideais zapatistas e pela bandeira de democracia que levanta – é formado pela fusão de guerrilheiros urbanos com movimentos indígena e camponês. Nascido em 1993, se insurgiu no cenário nacional e mundial, no dia que o México assinou o Acordo de Livre Comercio da América do Norte (Nafta), levantando a bandeira contra o neoliberalismo, a crise econômica e o desrespeito aos camponeses e índios. O grupo vive na selva Lancadona, mas montou estratégias para ser visualizado dentro e fora do país. Suas reivindicações contra o status quo não o impediram de usar técnicas modernas de expressão, diferente das guerrilhas latino-americanas anteriores. Os neozapatistas são considerados a primeira guerrilha pós-moderna, num mundo pós-muro, onde os principais grupos armados de ideologia marxista não alcançaram grandes êxitos. O principal ponto que joga o movimento na modernidade é a utilização da mídia e do ciberespaço para a divulgação de suas idéias, objetivos e denúncias. As estratégias utilizadas pelo grupo dialogam com a atualidade, chamando a atenção do mundo globalizado para o diferente e o local, desejando transcender a subserviência econômica. O ELZN entende o poder da mídia em sua instantaneidade na publicação dos fatos, a desterritorialização que permite a comunicação mesmo em lugares diferentes. Em acréscimo, eles querem difundir sua própria versão dos fatos defendendo que o acesso à informação e o direito à livre expressão precisavam ser garantidos, pois isso implica o diálogo intercultural. Para os neozapatistas, é direito da sociedade nacional ter acesso às vozes de todos aqueles que a integram. Os neozapatistas souberam ganhar espaço na mídia através da miscelânea de ancestralidade, simbolismo e contemporaneidade. A linguagem utilizada pelo porta voz oficial do grupo, subcomandante Marcos, combina ironia, irreverência e humor em seus discursos e comunicados, que são eloqüentes, politizados e impactantes. Toda essa linguagem nova, imaginativa e vivaz mistura-se ao redor das tradições, numa valorização da cultura indígena. O EZLN utiliza-se de figuras míticas, como o velho Antonio, personagem constante nas narrativas de Marcos, o velho morto, que traz a sabedoria da tradição indígena, dando substância ao conteúdo político das declarações. Outro personagem é a aranha Chibo, que representa o tentacular sistema do Estado mexicano. Todos os personagens servem para divulgar os FOTO RETIRADA DO SITE www.ezln.org.mx objetivos, frustrações, ansiedades e denúncias de forma imaginativa para não desgastar a imagem do grupo.
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Outro chamariz importante é o simbolismo da guerrilha, o Passamontanhas. Primeiro utilizado para a proteção do caudilhismo, ganhou novo significado e novas explicações. Transformou-se em símbolo de protesto. O Passamontanhas se constituiu em um símbolo intrínseco ao movimento, uma forma própria de identidade deste: como se o EZLN sem Passamontanhas não fosse admissível, não fosse fotografável. Sua divulgação obteve êxito. Foram computadas, entre 1994 e 1995, 250 matérias enviadas pelo EZLN à imprensa mexicana, posteriormente transformadas em livros, além de entrevistas em estações estrangeiras, artigos, reportagens, entrevistas, etc. No entanto, todo esse esforço de invenção e reinvenção do movimento não teria encontrado eco se não fosse o interesse da população pelo desenrolar dos acontecimentos e o desejo de mudança, além do surgimento de uma imprensa não-convencional interessada em transmitir as imagens e entrevistas no México e em outro locais. Inevitavelmente a imprensa tornou-se um limite que precisa ser ultrapassado, pois o governo começou a restringir a transmissão da mídia, enquanto parte da impressa recusava-se a transmitir os comunicados contundentes dos neozapatistas. Para furar esse bloqueio, o grupo guerrilheiro mexicano entrou no ciberespaço e seus textos e comunicados foram digitados, reformatados e enviados pela internet para audiências potencialmente receptivas em todo o mundo. Esse público reenviava as informações para outros grupos e assim foi se formando uma rede de comunicações em outro espaço, bem mais virtual. Com o tempo, esse espaço conquistado foi melhor organizado em páginas na internet (homepages), onde pode-se encontrar matérias na íntegra, entrevistas, pronunciamentos oficiais, história do grupo, fotos, etc. Pelo alto grau de imaginação e eficiência para ultrapassar os obstáculos impostos pelo governo, o EZLN ganhou respeitabilidade e credibilidade. O grupo ainda continua na selva Lancadona. Talvez o grande êxito do EZLN foi ter obrigado muitos a pensarem na realidade mexicana.

GLOBALIZAÇÃO
A globalização é a integração política, econômica, social e cultural do mundo, favorecida pelo avanço tecnológico nas áreas da educação e do transporte e uma diminuição do preço desses serviços em fins do século XX. A globalização prometia abertura de mercado e igualdade de oportunidades para todos. Isto significaria que todos os indivíduos fariam ou poderiam fazer parte de um mesmo mundo, de uma mesma realidade. Porém, a configuração de uma economia fortemente integrada acentuou a competição pelo controle dos meios de riqueza e poder em escala mundial e gerou crises em escala nacional e regional. As principais características da globalização são a homogeneização dos centros urbanos, a expansão das corporações para regiões fora de seus núcleos geopolíticos, a reorganização geopolítica do mundo em blocos comerciais regionais (não mais ideológicos), a hibridização entre culturas populares locais e uma cultura de massa mundial. Em termos de globalização da comunicação, a internet, que conecta milhões de pessoas de diferentes locais no mesmo instante, sem regulamentação ou controle oficial, é a ponta-de-lança. A rede mundial de computadores foi possível devido a acordos e protocolos entre diferentes entidades privadas na área de telecomunicações e governos no mundo. De um computador pessoal é possível acessar bases de dados diversas, além de transmitir textos e imagens para qualquer outro usuário, permitindo um fluxo de idéias e informações sem precedentes. O barateamento de telefones, TVs e demais equipamentos tem se mostrado eficaz nessa globalização das telecomunicações por fornecer acesso às informações para um número cada vez maior de pessoas. Por outro lado, apesar de uma miríade de informações, há uma tendência a serem veiculadas notícias semelhantes pela imprensa, de pessoas assistirem aos mesmos programas de TV que influenciam na repetição de comportamentos e idéias comuns ao produzirem uma cultura para as massas, homogeneizando e ofuscando as demais culturas. Samuel Hunttington vê a globalização como um processo de expansão da cultura ocidental e do capitalismo sobre os demais povos, provocando choques.

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Na economia, a integração se dá através da articulação dos mercados industriais, comerciais e financeiros dos países. Tem como ponta-de-lança as grandes corporações dos países mais desenvolvidos, que tentam abrir os mercados nacionais para facilitar sua inserção. O FMI e o Banco Mundial de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), surgidos em 1944, têm feito pressão e intervindo nas economias dos países em desenvolvimento, buscando abrir os mercados nacionais e consolidar a globalização. Europa, Ásia e América formaram conglomerados econômicos a partir dos acordos econômicos realizados. Vimos que o continente americano adotou o Nafta, a Europa, que já havia começado sua integração com a Comunidade Econômica Européia ou Mercado Comum Europeu, continuou a agregar mais países, formando a União Européia (UE) em 1992. Foi criado o euro, para substituir as moedas nacionais, algo que provocou desconfiança entre os países da União Européia que temiam perder sua soberania. A incorporação dos países do Leste Europeu, que tinha alcançado níveis diferenciados de desenvolvimento econômico e a ascensão de grupos de extrema-direita, foi outro ponto de discussão e tensão. O mundo observou a emergência dos Tigres Asiáticos. Com os altos investimentos japoneses na economia asiática e a abertura do mercado chinês, Hong-Kong, Cingapura, Taiwan, Tailândia, Malásia, Coréia do Sul e Indonésia expandiram suas economias. Essa expansão econômica atraiu capital volátil que determinou a crise financeira dos Tigres Asiáticos em 1997, depois que os especuladores transferiram bilhões de dólares da Ásia para outro continente. A interligação e dependência entre os mercados fez com que Europa e EUA fossem atingidos pela crise econômica. Em busca de fortalecimento e expansão econômica, alguns países latino-americanos reuniram-se no chamado Mercosul, a saber: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai; e Chile, Bolívia como países associados. Alguns problemas regem o Mercosul, impedindo maior integração dos países: as dificuldades políticas e econômicas de cada país, em especial depois da crise dos Tigres Asiáticos, diferenças no desenvolvimento econômico entre os países e pressão vinda dos EUA para a implantação da ALCA, desestimulando o Mercosul. Depois da crise do México e dos Tigres Asiáticos, o modelo neoliberal e a globalização sofreram criticas, inclusive de economistas e especuladores. O capital volátil tornou até as economias dos países mais ricos mais vulneráveis às rápidas transferências de capitais, propiciadas pelas redes de comunicação mundial. O desemprego, gerado pela crescente inserção de tecnologias na produção, e o deslocamento de empresas para áreas onde a mão-de-obra é mais barata, atingiu países pobres e ricos. O desenvolvimento do capitalismo global e a aceleração da mundialização do capital implicaram em impactos significativos em alguns setores industriais e na divisão do trabalho. O processo de desindustrialização contribuiu para o aumento do desemprego em massa e da precarização do trabalho. Com o aumento do desemprego, uma quantidade enorme de ex-operários precisou buscar inserções precárias no mercado de trabalho e nos setores de serviço em expansão. Isso surge como resultado dos efeitos da mundialização do capital e das mutações do capitalismo global. O desemprego tende a provocar uma miríade de dramas pessoais singulares nessa etapa de crise estrutural. São homens-inertes e ou personalidades suprimidas que buscam sobreviver diante de uma nova realidade. O desemprego atinge tanto jovens como homens de meia-idade, que terminam aceitando subempregos ou empregos com condições difíceis de trabalho para não permanecerem desempregados por um longo período. A globalização também tem propensão ao aumento dos riscos globais de transações financeiras, perda de parte da soberania dos Estados nacionais com ênfase nas organizações supranacionais, além de estar beneficiando mais os países ricos do que os países emergentes. Segundo Paul Kennedy (1993:59): O crescimento econômico global tem sido mais benéfico para o habitante médio das economias mundiais avançadas do que para as populações do sul. Em 1991 a renda per capita da Suíça tinha sofrido uma acentuada alta para 36.000 dólares, com a Suécia (32.600), Japão (29.000) e Alemanha (28.000) não muito atrás. Em contraste, a renda per capita da Índia ficou em 360 dólares e da Nigéria apenas 278. E

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há, na África subsaariana, dezenas de países com rendas médias ainda mais baixas. Em vista dessas conseqüências geradas pela globalização, em diversas partes do mundo tem surgido protestos antiglobalização. Militantes brasileiros contra a globalização têm requerido integração dos países e populações pobres, são contra a abertura sem restrições dos mercados nacionais, controle maior das ações das multinacionais, preservação de empregos e de políticas públicas.

Atenção
A Globalização da pobreza Michel Chossudovsky Ao contrário do que afirmam seus mentores, a implementação da política neoliberal generaliza a instabilidade econômica e espalha a miséria No limiar do século XXI, a economia global se encontra em uma encruzilhada perigosa. No mundo em desenvolvimento, o processo de reestruturação econômica tem levado à fome e a um brutal empobrecimento de grandes setores da população e, ao mesmo tempo, contribuído para a “terceiro-mundialização” dos países do antigo bloco Oriental. Desde o começo dos anos 80, os programas de “macro-estabilização” e “ajuste estrutural” impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial em países em desenvolvimento (como condição à renegociação de suas dívidas externas) provocaram o empobrecimento de centenas de milhões de pessoas. Contrariando o espírito do acordo de Bretton Woods, que preconizava a “reconstrução econômica” e a estabilidade da maioria das taxas de câmbio, o programa de ajuste estrutural tem contribuído largamente para desestabilizar as moedas nacionais e arruinar as economias dos países em desenvolvimento.

Dívida Global
No mundo em desenvolvimento, o peso da dívida externa já atingiu 1,9 trilhão de dólares: países inteiros têm sido desestabilizados como conseqüência do colapso de suas moedas nacionais, geralmente resultando na explosão de conflitos sociais, étnicos e guerra civil… A reestruturação da economia mundial, guiada por instituições financeiras baseadas em Washington, nega cada vez mais a cada país em desenvolvimento, individualmente, a possibilidade de construir uma economia nacional: a internacionalização da política macroeconômica transforma países em territórios econômicos abertos, e as economias nacionais em “reservas” de mão-de-obra barata e de riquezas naturais. Essa reestruturação enfraquece o Estado, mina a indústria voltada para o mercado interno e empurra as empresas nacionais para a falência. Além disso, essas reformas – quando aplicadas simultaneamente em mais de cem países – estão levando a uma “globalização da pobreza”, um processo que mina a comunidade humana e destrói a sociedade civil no Sul, no Leste e no Norte. Houve deterioração do poder de compra interno, disseminação da fome, fechamento de postos de saúde e de escolas, e centenas de milhões de crianças deixaram de ter acesso à educação primária. Na maioria das regiões do mundo em desenvolvimento, as reformas econômicas têm provocado o reaparecimento de doenças infecciosas, incluindo tuberculose, malária e cólera.

Ajuste estrutural em países desenvolvidos
Desde o começo dos anos 90, as reformas macroeconômicas adotadas nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) contêm vários ingredientes essenciais do programa de ajuste estrutural aplicado no Terceiro Mundo e na Europa Oriental. Essas reformas macroeconômicas têm levado à acumulação de grandes dívidas públicas. Desde o início da década de 80, as dívidas privadas de grandes corporações e bancos comerciais têm sido convenientemente anuladas e transformadas em dívida pública. Esse processo de “conversão de

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dívida” é uma característica central da crise: prejuízos de negócios e de bancos têm sido sistematicamente transferidos para o Estado. Durante o “boom de fusões” do final dos anos 80, a sobrecarga das perdas das corporações foi transferida para o Estado através da aquisição de empresas falidas. Estas últimas poderiam então ser fechadas e qualificadas como prejuízos fiscais. Em troca, os “empréstimos não garantidos” dos grandes bancos comerciais eram rotineiramente cancelados e transformados em perdas pré-fiscais. Os “pacotes de resgate” para corporações e bancos comerciais com problemas foram largamente baseados no mesmo princípio de transferência dos ônus das dívidas das grandes empresas para o Tesouro. Por outro lado, os diversos subsídios do Estado e “doações” às grandes empresas, ao invés de estimularem a criação de empregos, eram rotineiramente usados por elas para financiar suas fusões, introduzir tecnologia para economizar mão-de-obra e transferir a produção para o Terceiro Mundo. A defesa pública contribuiu diretamente para aumentar a concentração da propriedade e uma contração significativa da força de trabalho industrial. Ao mesmo tempo, a seqüência de falências de pequenas e médias empresas e demissões de trabalhadores (que também são contribuintes de impostos) provocou uma significativa queda na receita do Estado. No grupo dos países da OCDE, as dívidas públicas têm crescido de forma ilimitada (atualmente ultrapassando 13 trilhões de dólares). Ironicamente, o mesmo processo de “amortização dessa dívida global” tem conduzido ao seu crescimento através da criação sistemática de novas dívidas. Nos Estados Unidos – de longe a maior nação devedora - , a dívida pública cresceu cinco vezes durante a era Reagan-Bush. Ela é, atualmente, da ordem de 4,9 trilhões de dólares. Um círculo vicioso foi posto em movimento. Os beneficiários das doações do governo tornaram-se credores do Estado. As ações e títulos lançados pelo Tesouro para financiar grandes negócios foram adquiridos por bancos e instituições financeiras que eram simultaneamente beneficiários dos subsídios do Estado. Uma situação absurda: o Estado estava “financiando seu próprio endividamento”, e doações do governo foram sendo recicladas no sentido de troca da dívida pública. O governo estava sendo imprensado por lobbies de grupos empresariais reivindicando subsídios, de um lado, e por seus credores financeiros, de outro. E, como uma grande parte da dívida pública está nas mãos de bancos e instituições financeiras privadas, estes também são capazes de pressionar governos para um aumento do controle sobre os fundos públicos. A crise da dívida também estimulou o desenvolvimento de um sistema tributário altamente regressivo, que contribuiu para o aumento da dívida pública. Enquanto os impostos das empresas foram reduzidos, as novas receitas tributárias apropriadas da população assalariada (baixa e média), incluindo os impostos sobre valor agregado, foram recicladas no sentido de cobrir a dívida pública. Enquanto o Estado coletava impostos dos seus cidadãos, pagava “um tributo” às grandes empresas na forma de doações e subsídios.

Fuga de capital
Paralelamente, impulsionada pelas novas tecnologias bancárias, a saída dos lucros das corporações para praças bancárias estrangeiras nas Bahamas, Suíça, Ilhas Channel, Luxemburgo, etc. contribuiu para a posterior exacerbação da crise fiscal. As Ilhas Cayman, uma colônia da Coroa Britânica no Caribe, por exemplo, são o quinto maior centro bancário do mundo (em termos de volume de depósitos, dos quais a maioria é de companhias fantoches ou anônimas). O aumento do déficit no orçamento dos Estados Unidos esconde uma relação direta com a intensa evasão tributária e saída de lucros empresariais não declarados. Ao mesmo tempo, as grandes somas de dinheiro depositadas nas Ilhas Cayman e nas Bahamas (parte das quais é controlada por organizações criminosas) são utilizadas para financiar investimentos nos Estados Unidos.

Sob a tutela política dos credores
Os débitos de empresas paraestatais, serviços públicos, governos federais, estaduais e municipais são cuidadosamente categorizados e “classificados” pelos mercados financeiros (por exemplo, classi-

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ficações do Índice Moody’s e do Índice Standard and Poor’s.) Além disso, ministros das Finanças são cada vez mais compelidos a fornecerem relatórios a grandes casas de investimentos e bancos comerciais. O rebaixamento da classificação do Índice Moody’s da dívida sueca, em janeiro, foi fundamental na decisão do governo de minoria social democrata de reduzir importantes programas de seguridade, incluindo subsídios à infância e benefícios de seguro desemprego. Da mesma forma, a classificação do Índice Moody’s para a dívida pública do Canadá foi um fator decisivo na adoção de cortes maciços em programas sociais e demissões pelo ministro das Finanças do Canadá, em fevereiro passado. Nos Estados Unidos, a controvertida “emenda do orçamento equilibrado” (que sofreu uma derrota apertada no Senado em março de 1995) pretendia fortalecer, na Constituição, os direitos dos credores do Estado…

Crise do Estado
No Ocidente, o sistema democrático está sendo levado a um dilema: os eleitos para altos postos agem cada vez mais como burocratas. Os depositários do poder político real são os credores do Estado, que operam discretamente nos bastidores. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se uma ideologia política uniforme. O “consenso” no plano macroeconômico se estende para o espectro político. Um novo ambiente financeiro global também se manifestou: a onda de fusões de empresas no final dos anos 80 abriu caminho para a consolidação de uma geração de financistas agrupados em torno de bancos, de investidores institucionais, de corretores de valores, de grandes companhias de seguro etc. Nesse processo, as funções de bancos comerciais se misturaram com a dos bancos de investimentos e corretores de valores. Enquanto esses “administradores de fundos” desempenham um papel poderoso no mercado financeiro, entretanto, afastam-se cada vez mais da função de empreendedores na economia real. Suas atividades (que escapam do controle do Estado) incluem transações especulativas em mercados futuros, derivativos e manipulação do mercado de câmbio. Grandes agentes financeiros estão envolvidos em “aplicações de hot money” nos “mercados emergentes” da América Latina e Sudeste Asiático, sem mencionar a lavagem de dinheiro e o desenvolvimento de “bancos privados” especializados que “assessoram clientes milionários” nas várias praças bancárias do exterior. O movimento total de transações com divisas estrangeiras é da ordem de um trilhão de dólares por dia, dos quais somente 15% correspondem a negócios reais de mercadorias e movimentos de capital. Dentro dessa rede financeira global, o dinheiro transita em alta velocidade de uma praça bancária a outra, na intangível forma de transferência eletrônica. Atividades comerciais “legais” e “ilegais” tornaram-se cada vez mais entrelaçadas, e enormes somas de riquezas privadas não declaradas são acumuladas. Favorecidas pela desregulação financeira, as máfias criminosas também expandiram seu papel no âmbito da atividade bancária internacional.

O fim dos bancos centrais
Além disso, as práticas dos bancos centrais em vários países da OCDE têm sido modificadas para atender às demandas dos mercados financeiros. Os bancos centrais se tornam cada vez mais “independentes” e “protegidos contra influências políticas”. Na realidade, o que isso significa é que o Tesouro Nacional está cada vez mais à mercê dos credores privados. De acordo com o artigo 104 do Tratado de Maastricht, por exemplo, “o crédito do banco central para o governo é completamente discricionário, sendo que o banco central não pode ser forçado a dar tal crédito”. Esses estatutos, assim, conduzem diretamente ao crescimento da dívida pública mantida por financeiras e instituições bancárias privadas. Na prática, o banco central, que não presta contas nem ao governo, nem ao legislativo – opera como uma burocracia autônoma sob tutela de interesses financeiros e bancários privados. Estes últimos ( e não o governo) ditam a direção da política monetária. Em outras palavras: a política monetária não existe mais como uma forma de intervenção estatal; ela pertence, em sua maior parte, ao reino dos bancos privados. Em contraste com a falta acentuada de fundos estatais, “a criação de dinheiro” ( implicando o comando sobre os recursos reais) ocorre no interior da rede do sistema bancário internacional em conformidade com a busca exclusiva de riqueza privada. Contrastando com a instabilidade dos bancos centrais de agir efetivamente, agentes de poderosas financeiras

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privadas não apenas têm a habilidade de criar e movimentar capital sem obstáculo, mas também de manipular taxas de juros e provocar a desvalorização de importantes moedas, como ocorreu com a queda espetacular da libra esterlina em setembro de 1992. Ou seja: os bancos centrais não conseguem mais regular a criação de dinheiro de acordo com os amplos interesses da sociedade (por exemplo, visando ativar a produção ou a geração de empregos). A criação de dinheiro, incluindo o comando sobre os recursos reais, é controlada quase que exclusivamente por financistas privados.

A instabilidade dos mercados financeiros globais
A desregulação que acompanha o acúmulo de enormes dívidas públicas tem impulsionado padrões cada vez mais instáveis nos mercados financeiros globais. Desde a Segunda-Feira Negra (o dia 19 de outubro de 1987, considerado por analistas como bem próximo do colapso total da Bolsa de Valores de Nova York), um modelo altamente volátil se desenvolveu. Tal modelo foi marcado por convulsões freqüentes e cada vez mais graves nas principais bolsas de valores, pela ruína de moedas nacionais na Europa Oriental e na América Latina, sem mencionar o desabamento dos novos “mercados financeiros periféricos” (como México, Bangkok, Cairo, Bombay), precipitado pela “realização de lucros” e pela retirada repentina de grandes investidores institucionais… Um colapso financeiro global não pode ser mais descartado. Além disso, diferentemente do que ocorria nos anos 20, as principais transações ao redor do mundo estão interconectadas por ligações instantâneas de computadores: a instabilidade em Wall Street “transborda sobre os mercados de ações da Europa e da Ásia, e se espalha, assim, para todo o sistema financeiro, incluindo os mercados de câmbio e de commodities… Michel Chossudovsky é professor de Economia da Universidade de Ottawa, Canadá. (http://www.vermelho.org.br/museu/principios/anteriores.asp?edicao=37&cod_not=734 )

Atividade complementar
1. Quais as principais conseqüências do neoliberalismo e da globalização?

2. Quais os elementos que transformam a guerrilha dos neozapatistas em um movimento de caráter moderno e a diferem das outras guerrilhas latino-americanas?

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3. Por que os países da ex-URSS tiveram dificuldades em se inserir na nova ordem mundial?

4. Qual a diferença entre o comunismo da URSS e dos países do Leste Europeu?

Estante do Historiador
Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX: Neste livro, Hobsbawm revê sua trajetória pessoal, familiar e profissional, mas não perde de vista as perspectivas históricas do século XX. Ele analisa as crises financeiras e políticas dos anos de 1920, a ascensão de Hitler e os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, até chegar à Guerra Fria e ao fim da URSS. Fala, também, sobre o atentado de 11 de setembro e a sua utilização política.

Cinema e história
Adeus, Lênin – A partir do drama de Alexander, desfilamos pelas mudanças na Alemanha após a queda do muro de Berlim. No filme, a Sra. Kerner passa mal e entra em coma, quando a Alemanha Oriental ainda existe; no entanto, durante o período do coma, o mundo passa por mudanças significativas, cai o muro, as duas Alemanhas novamente são uma. Acordar neste novo mundo poderia ser um baque que levaria a Sra. Kerner, ativa no Partido Comunista, à morte, Alexander, então, resolve voltar no tempo e daí por diante as mais sufocantes situações irão acontecer. 13 dias que Abalaram o Mundo – Durante treze dias de outubro de 1962, o planeta aguardava com ansiedade o desfecho do confronto político-militar entre Estados Unidos e União Soviética em razão da instalação de mísseis antiaéreos soviéticos em Cuba. O confronto foi tão sério que quase provocou uma guerra nuclear entre as duas potências. Hotel Ruanda – Acompanhamos neste filme o drama vivido por Paul Rusesabagina (Don Cheadle), gerente do hotel Milles Coline durante a guerra civil de Ruanda. Administrando o hotel ele dá guarida há vários hutus e se vê num drama geral e particular, quando a ONU retira as tropas e os estrangeiros hospedados no hotel. O Jardineiro Fiel – Filme que mostra o panorama atual do continente africano e como este vive à mercê dos interesses das grandes companhias, dos grandes grupos empresariais e dos países desenvolvidos. Nesta obra de Fernando Meirelles, baseada no homônimo de John Le Carré, Tessa (Rachel Weisz) mulher do diplomata Justin Quayle (Ralph Fienes) é encontrada morta. A partir desta morte o diplomata envereda por uma investigação que o levará a conhecer de perto a sujeira que reveste as relações diplomáticas e os interesses de grandes companhias no continente africano. The Corporation – O filme mostra todo o processo de fortalecimento das corporações e de prejuízo que estas fazem com que o consumidor tenha. Uma boa leitura da realidade capitalista atual e os interesses das corporações no contexto deste capitalismo.

O historiador e a internet

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http://educaterra.terra.com.br/voltaire/atualidade/globalizacao.htm - Site de Voltaire Schilling, onde ele faz uma análise do processo de globalização, trabalhando com a idéia desde as Grandes Navegações até os dilemas da globalização na atualidade. http://dowbor.org/artigos/8neoliberalismo.pdf - Artigo de Ladislau Dowbor, Doutor em Ciências Econômicas, professor da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas. http://resistir.info/chossudovsky/globalizacao_intro.html - Introdução disponibilizada na internet do livro A Globalização da Pobreza e A Nova Ordem Mundial, de Michel Chossudovsky.

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Glossário
CAUDILHISMO – É o exercício do poder político caracterizado pelo agrupamento de uma comunidade em torno de um líder político que, em sua maioria, é carismático e ligado a setores conservadores da sociedade. ANTI-SEMITISMO – Rejeição violenta aos judeus e a tudo que está relacionado a ele. BANCO INTERNACIONAL DE RECONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO (BIRD) – Concede empréstimo para projetos de desenvolvimento e apoio técnico. CAPITAIS VOLÁTEIS – É uma grande quantidade de dinheiro em poder dos especuladores dos países mais ricos, que mudam rapidamente em busca de mercados financeiros que oferecem melhores e mais seguras condições de aplicação. EUGENIA – Teoria científica criada em 1883 pelo inglês Galton. A teoria baseava-se na idéia de controle social da reprodução humana, visando o melhoramento das gerações futuras. FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI) – É uma agência da Organização das Nações Unidas que coordena as políticas monetárias dos países associados e auxilia com empréstimos os países em dificuldade. GUERRILHA – Guerra não-convencional utilizada por um grupo de combatentes que normalmente constituem-se numa minoria política. Sua principal estratégia é a ocultação do grupo e a agilidade na movimentação. HOLOCAUSTO – Palavra de origem grega que significa sacrifício da vítima. Essa palavra foi associada aos campos de concentração e morte dos judeus e passou a significar extermínio em massa. KEYNES – John Maynard Keynes foi um economista inglês que se tornou conhecido por sua crítica ao liberalismo e pela utilização de suas teorias no período da crise de 1929. Ele considerava que para os países saírem da grande depressão era preciso promover investimentos do Estado em obras públicas para reativar as atividades econômicas e aumentar a oferta de emprego. MIRÍADE – Quantidade indeterminada, porém grandíssima. NEOZAPATISTAS – O nome é uma alusão ao movimento zapatista desencadeado durante a revolução mexicana, em 1919, feita contra o regime autocrático de Porfírio Dias. O grupo guerrilheiro do EZLN considera-se novos zapatistas. PASSAMONTANHAS – Uma espécie de capuz utilizado pelos guerrilheiros neozapatistas para esconder o rosto. RACISMO – Conjunto de noções pré-concebidas que valoriza as diferenças biológicas e prega a superioridade de uns sobre outros de acordo com a matriz racial. SEXISTA – Discriminação ou tratamento indigno a um determinado gênero ou identidade sexual. Diferencia-se do machismo por ser mais pretensamente racionalizado. SOVIETE – Uma organização política, democrática e aberta aos partidos socialistas e populares, excluindo os patrões e os partidos burgueses. STATUS QUO – Estado atual das coisas. SUNITA – Grupo religioso mulçumano que considera que os chefes políticos e religiosos precisam ser eleitos pelos representantes de todo o Islão. Aceitam, além do Corão, a Suna (textos que reúnem as tradições fundadas na vida de Maomé).

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SUPERPOTÊNCIAS – É um Estado ou nação com capacidade de influir em eventos de escala mundial. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1943 para referir-se a URSS, Estados Unidos e Inglaterra. TEORIAS RACIALISTAS – Ciência ou doutrina dedicada ao estudo dos tipos humanos e suas diferentes características hereditárias. XIITA – Grupo religioso mulçumano que aceita apenas os descendentes de Maomé para ocupar os altos postos políticos e religiosos. Aceita apenas o Corão como livro religioso e é contrários à ocidentalização.

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LINHARES, Maria Yeda. “Descolonização e lutas de libertação nacional”. In Daniel Arão Reis filho (org.). O tempo das dúvidas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. LOBATO, Monteiro. Obras Completas. São Paulo, Brasiliense, 1950. MANDEL, Ernest. Hitler e as Causas da Guerra. Revista Olho da História on-line. MAGNOLI, Demétrio (org.). Panorama do mundo. São Paulo, Editora Scipione, 1996. PAZZINATO, Alceu Luiz; SENISE, Maria helena valente. História moderna e contemporânea. São Paulo, Editora Ática, 1994. PRZEWOSLI, Adan. Democracia e mercado. No esse europeu e na América Latina. Rio de Janeiro, E. Dumará, 1994. REED, John. Dez dias que abalaram o mundo. Rio de Janeiro, Editora Record. REIS FILHO, Daniel Arão. As revoluções russas e o socialismo soviético. São Paulo, Editora da Unesp, 2003. ROSE, R. S. Uma das coisas Esquecidas: Getulio Vargas e o Controle Social do Brasil 1930 - 1945. Tradução Ana Olga de Barros Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. SEMPUPRUN, Jorge. Um Belo Domingo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. SADER, Emir. Cuba: um socialismo em construção. Petrópolis, Vozes, 2001. SILVEIRA, Renato. Os Selvagens e a massa: papel do racismo científico na montagem da hegemonia ocidental. Afro-Ásia. No 23, 2000. TROTSKY, Leon. História da Revolução Russa. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. INDICAÇÕES DE FILMES: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER – Filme baseado no romance de Milan Kundera que tem como pano de fundo o regime comunista Tcheco, o movimento da Primavera das Flores e a invasão russa a republica Tcheca A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA – filme que retrata o movimento neonazista nos Estados Unidos. BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA – O filme tem como pano de fundo as conseqüências da revolução cultural promovida no governo de Mao Tsé-Tung. BOM DIA VIETNÃ – retrata a guerra do Vietnã, através da visão bem-humorada de um locutor de uma rádio do exército americano. CONCORRÊNCIA DESLEAL – Durante o regime fascista, um vendedor delata seu concorrente a polícia política para eliminar a concorrência. Isso leva seu oponente a prisão. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA – Filme que mostra a viagem de Ernesto Guevara pela América Latina, quando o jovem estudante de medicina apelidado de fuser encontra dentro de si o guerrilheiro e revolucionário Che Guevara.
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HOMO SAPIENS – Documentário sobre as teorias racialistas construídas no século XIX e sua utilização pelos regimes totalitários. NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS – Documentários que faz um sobrevôo pelos principais momentos do século XX. OS INTOCÁVEIS – Tem como cenário a lei seca promulgada na década de 20 pelos EUA, provocando o surgimento de gangsteres, mostra a luta departamento de polícia para prender um dos mais famosos gangsteres de Chicago Al Capone. ROGER E EU – Documentário sobre o fechamento de indústria de automóvel, numa cidade dos Estados Unidos, levado milhões de operários ao desemprego. Mostra as conseqüências nefastas da globalização. SEGUNDA-FEIRA AO SOL – o filma trata da questão do desemprego de longa duração, vivido por um grupo de operários espanhóis, mostrando uma das conseqüências da globalização. THE NAZIS – Documentário em 6 capítulos sobre a ascensão e queda do nazismo.

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