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Exclusão socioeconômica e violência urbana 1
SÉRGIO ADORNO*

O contexto mais amplo
x-colônia portuguesa, a sociedade brasileira conquistou sua independência nacional em 1822 sob um regime monárquico. Suas bases socioeconômicas e políticas repousavam na grande propriedade rural, monocultora e exportadora de produtos primários para o mercado externo; na exploração extensiva de força de trabalho escrava, alimentada pelo tráfico internacional de negros desenraizados de suas tribos e comunidades de origem no continente africano; na organização social estamental (Weber, 1971; Fernandes, 1974) que estabelecia rígidas fronteiras hierárquicas entre brancos, herdeiros do colonizador português, negros escravizados, homens livres destituídos da propriedade da terra e populações indígenas. Esses fundamentos sociais conformaram uma vida associativa – isto é, padrões de socialidade e de sociabilidade – constituída em torno do parentesco, da mescla de interesses materiais e morais, da indiferenciação entre as fronteiras dos negócios públicos e dos interesses privados, no adensamento da vida íntima, na intensidade dos vínculos emocionais, no elevado grau de intimidade e de proximidade pessoais e na perspectiva de sua continuidade no tempo e no espaço, sem precedentes (Adorno, 1988, p. 28).
1 Originalmente preparado para o ciclo de conferências “Sociedad sin Violencia”, promovido pelo PNUD – El Salvador, abril

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Por sua vez, o poder político encontrava seus fundamentos institucionais no patrimonialismo, isto é, uma estrutura de dominação cuja legitimidade esteve assentada nas relações entre grandes proprietários rurais, representantes do estamento burocrático e clientelas locais às quais se distribuíam prebendas em troca de favores ou de apoio político. Vale dizer, um estilo próprio de regimes políticos oligárquicos com escassa organização político-partidária e frágil mobilização dos grupos subalternos. Neste contexto, a política convertia-se em “conversa entre cavalheiros” e os partidos, em colegiados de oligarcas (O’Donnell, 1988). Essa estrutura perdurou ao longo de seis décadas (1822-1889). Contribuiu para consolidar elites políticas regionais. Ao longo da segunda metade do século XIX, profundas transformações, provocadas pela intensa produção de café para o mercado exportador, produziram fendas neste edifício social e político. Seus principais resultados residiram em: a) transferência definitiva do eixo econômico da região Nordeste, cujas atividades produtivas se concentravam na monocultora agro-exportadora do açúcar, para a região Sudeste, em especial para o oeste da província de São Paulo; b) substituição da força de trabalho escrava pela força de trabalho livre (1888), sobretudo constituída de imigrantes europeus contratados, inicialmente para as lavouras sob regime de colonato (Martins, 1971) e, em seguida, incorporados às oficinas e indústrias recém-instaladas, em torno de 1870, na capital da província de São Paulo; c) substituição do regime monárquico pelo de República Federativa (1889). A história que se segue radicaliza este conjunto de processos sociais. Entre 1880 e 1930, a sociedade brasileira abandona progressivamente seu perfil agrário-exportador e ingressa na era da indústria e do trabalho livre e da maior dependência da política econômica face à dinâmica do mercado externo e do comércio cada vez mais internacionalizado. Desde os primeiros anos de vida republicana, as tendências sociais caminharam no sentido da substituição progressiva das relações hierárquicas estamentais pela

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moderna formação da moderna sociedade de classes, com a constituição de um vigoroso e combativo proletariado urbano, em particular nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e na portuária cidade de Santos, situada na mesma região Sudeste. Aprofundaram-se as desigualdades regionais e a concentração da riqueza sob controle dos cafeicultores, dos proprietários rurais e da nova classe de empresários industriais. A polarização social agravou-se, estimulando revoltas no campo e uma onda de greves nas cidades industriais. Em torno da segunda metade do século XX, desenvolveu-se, no Estado de São Paulo, complexo parque industrial, em grande parte estimulado pela substituição de exportações ocorrida durante a II Grande Guerra, pela política de subsídios estatais, por forte regulação das atividades econômicas e acentuado protecionismo da indústria nacional. Esta tendência contribuiu para aprofundar o capitalismo na sociedade brasileira, para o elevado crescimento econômico, em especial na década de 1970, e para a modernização da infra-estrutura tecnológica, da infra-estrutura urbana e para a emergência de amplas massas sociais no cenário político. Ao longo desse período é acelerado o associativismo, sob a forma de sindicatos e organizações profissionais. Cresce também o eleitorado, em particular urbano, em proporções muito superiores às da população como um todo (Santos, 1993). A violenta crise socioeconômica que se abateu sobre a sociedade brasileira na década de 1980 – a chamada década perdida – e primeiros anos da década de 1990, com suas elevadas taxas de inflação e baixo crescimento, mostraram que o modelo de substituição das exportações se havia esgotado. Os governos civis (1989 até o presente), eleitos por sufrágio universal, buscaram então saídas na abertura da economia, em amplo programa de privatizações, na integração da economia brasileira ao mercado globalizado. Nas duas últimas décadas, novas tendências de crescimento econômico e desenvolvimento social mudaram profundamente o perfil e a dinâ-

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mica desta sociedade. Foram modernizados importantes segmentos do mercado; ampliou-se o parque industrial e tecnológico; verificaram-se avanços na direção de serviços altamente informatizados; a despeito das enormes carências sociais e da dívida social acumulada, houve progressos nos domínios da escolarização fundamental e mesmo da saúde pública (conquanto a recente epidemia de dengue coloque sob suspeita os ganhos alcançados). Atravessou-se grave crise política que resultou no impeachment do presidente Collor de Mello (1989-1992), sem que a normalidade constitucional e a ordem democrática fossem interrompidas, como ocorrera em passado não muito distante. Avanços democráticos também puderam ser notados em não poucos domínios: maior transparência das decisões governamentais, maior liberdade de imprensa, maior liberdade de circulação de idéias e de associação, maior interesse dos cidadãos em questões públicas que se dizem diretamente respeito, como consumo e meio ambiente, maior atuação de órgãos de vigilância das ações governamentais, como o Ministério Público e ouvidorias. Aqui e acolá, governos democráticos buscaram enfim exercer o princípio republicano da responsabilidade pública e política. Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira tornou-se mais densa e mais complexa nas suas relações de classe, nas suas relações intersubjetivas, nas lutas sociais pelo reconhecimento de identidades e de direitos; mais reivindicativa, mais participativa, cada vez mais inconformada com a persistência de seus problemas, entre os quais a violência urbana cotidiana. Não obstante, os padrões de concentração de riqueza e de desigualdade social permaneceram os mesmos de quatro décadas. A desigualdade de direitos e de acesso à justiça agravou-se na proporção mesma em que a sociedade se tornou mais densa e mais complexa. Os conflitos sociais tornaram-se mais acentuados. Neste contexto, a sociedade brasileira vem conhecendo crescimento das taxas de violência nas suas mais distintas modalidades: crime comum, violência fatal conectada com o crime orga-

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nizado, graves violações de direitos humanos, explosão de conflitos nas relações pessoais e intersubjetivas. Em especial, a emergência do narcotráfico, promovendo a desorganização das formas tradicionais de socialidade entre as classes populares urbanas, estimulando o medo das classes médias e altas e enfraquecendo a capacidade do poder público em aplicar lei e ordem, tem grande parte de sua responsabilidade na construção do cenário de insegurança coletiva2.

O cenário da violência urbana
A sociedade brasileira, egressa do regime autoritário, há duas décadas, vem experimentando, pelo menos, quatro tendências: a) o crescimento da delinqüência urbana, em especial dos crimes contra o patrimônio (roubo, extorsão mediante seqüestro) e de homicídios dolosos (voluntários); b) a emergência da criminalidade organizada, em particular em torno do tráfico internacional de drogas, que modifica os modelos e perfis convencionais da delinqüência urbana e propõe problemas novos para o direito penal e para o funcionamento da justiça criminal; c) graves violações de direitos humanos que comprometem a consolidação da ordem política democrática; d) a explosão de conflitos nas relações intersubjetivas, mais propriamente conflitos de vizinhança que tendem a convergir para desfechos fatais3. Trata-se de tendências que, conquanto relacionadas entre si, radicam em causas não necessariamente idênticas.
de 2002. Nesta versão, introduzi modificações. *Departamento de Sociologia, FFLCH/USP Núcleo de Estudos da Violência/USP E-mail: sadorno@usp.br. . . 2 Para uma visão mais detalhada da história social e política da sociedade brasileira, ver Lamounier (1999). 3 Aqui é necessário fazer uma explicação de ordem conceitual. Crime é um conceito jurídico. Diz respeito à violência codificada nas leis penais. Sabe-se, porém, que nem todo fenômeno socialmente percebido como violento é categorizado como crime. Do mesmo modo, há modalidades de violência que, embora codificadas como crime, não encontram adequado enquadramento na legislação penal correspondente. Por exemplo, graves violações de direitos humanos não raro enquadradas como crime comum. Por isso, recorro ao conceito sociológico de violência. Segundo Zaluar (1999), “violência vem do latim violentia que remete a vis (força, vigor, emprego de força física ou os recursos do corpo para exercer sua força vital). Essa força torna-se violência quando ultrapassa um limite ou perturba acordos tácitos e regras que ordenam relações, adquirindo carga negativa ou

4 As estatísticas oficiais de criminalidade comportam não poucos problemas. pela redução do desemprego. 1989. 28). são superiores inclusive às taxas de algumas metrópoles norte-americanas. as “negociações” paralelas entre vítimas. crime e violência urbana. é verificar que as taxas de criminalidade violenta no Brasil em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.. 1994. (1994). É portanto a percepção do limite e da perturbação (e do sofrimento que provoca) que vai caracterizar o ato como violento. Não era de esperar que a sociedade brasileira estivesse imune a este movimento de tendências crescentes. Wright (1987). Robert et al. Fundação João Pinheiro (1986). sobretudo porque o país se encontra no circuito das rotas do tráfico internacional de drogas e de outras modalidades de crime organizado em bases transnacionais como o contrabando de armas. análises e estudos científicos estão apontando no sentido de uma tendência mundial. contudo. jul/dez 2002. atividades que parecem constituir-se na bomba de combustão do crescimento da criminalidade violenta. agressores e autoridades. Robert et al. .SOCIOLOGIAS 89 Sociologias. desde os anos 50. Dizem respeito à mortalidade por causas externas. para o crescimento dos crimes e da violência social e interpessoal. observa-se que os homicídios evoluíram de 21. Com base nessas informações. ainda que as taxas indiquem sensíveis declínios no curso da década de 1990. ano 4. dado extraído dos registros oficiais de óbito. Coelho (1988). as estatísticas oficiais de criminalidade4. Mais surpreendente. ao que parece estimuladas em parte pelo desenvolvimento econômico. quanto os Estados Unidos. ver sobretudo Moris. para a França. Maguire. 1997.04/ maléfica. Não há dados nacionais sobre delinqüência. ao lado certamente dos efeitos provocados por inovadoras políticas de segurança5. p. 5 Para o caso inglês. nº 8. Porém não estão baseados em registros policiais. cujo armazenamento é de responsabilidade do Ministério da Saúde. a implementação de políticas determinadas de segurança pública que conjunturalmente privilegiam a contenção de uma ou outra modalidade delituosa e ainda a desistência da vítima em denunciar ocorrência motivada por desinteresse pessoal ou descrença na eficácia das instituições. 84-135 Embora o crescimento da criminalidade urbana seja matéria controvertida. Os únicos dados nacionais disponíveis alcançam os homicídios. base sobre a qual se realizam diagnósticos. entre os quais a suspeição de elevadas “cifras negras”. pela expansão do mercado consumidor e do bem-estar. Porto Alegre. sobretudo nos Estados Unidos. avaliações. A respeito. a intervenção de critérios burocráticos de avaliação de desempenho administrativo. percepção essa que varia cultural e historicamente” (Zaluar. ver: Paixão (1983).

Irl an da Grécia Finlâ nd ia Esp an ha D ina ma rca Bél gica Au stria Ale m an ha Fra nça Ca na dá B rasil 1 . 4.31 C o m p a ra ç ã o In te r n a c i o n a l c e m m i l /h a b H o m i c í d i o s . 1995. of Justice . uma vez que.9 9 8. ano 4. enquanto o número total de óbitos cresceu 20%. Porto Alegre. nº 8. a partir de 1996.43. França. na Itália.11 0 . Garland. 1996. em 1991.83 2. U S A .90 SOCIOLOGIAS Sociologias.99. 1997.État de la C rim in ali té et l a D élin qu an ce e n Fra nce e t d an s l'U nio n Eu rop ee nn e Mi nistere de L'Inte rie ur.78 2. Ca nada . 6 Há controvérsia sobre a comparabilidade entre os dados para o período de 1991-95 e 1996-97. Camargo & outros (1995) observam que. ed.19 4 . U .11 (Brasil. na Grã-Bretanha.11.78 0 . Ministério da Saúde. Union Crime Reports. 1996).86 4. E urope .43 1. FBI. 4. na Bélgica. D ep t. p. 2. para 25. 4. Skogan. EU A Su écia R ei no U ni do Po rtug al L uxe mb urgo Itá lia R ep . os óbitos motivados por causas violentas cresceram 60%.43 3. 19 96 .11 1 . nos Estados Unidos acusou 8. a taxa alcançou 23.90. 84-135 100000 habitantes. na França. convém reportar-se aos dados internacionais para o ano de 1995: enquanto. . no Brasil.22 9 . Ministério do Interior. 1 99 5 So urce s: B ra sil . USA. Para melhor compreender essas taxas.Un iform C rim e R ep orts. ao longo da década de 1980. 3.99 2 3.S. 2001.65 2 . jul/dez 2002.33/100000. 1996.22.90 2. em 19976. 1997.83/100000 habitantes. no Brasil. em Portugal.Sta tca n.ca Gráfico 1 Donziger. Kelling & Coles.4 9 4.Da ta sus. Datasus.1 3 4.

ano 4. Nem todas as mortes registradas no Brasil. jul/dez 2002. bem como resultantes de conflitos nas relações intersubjetivas.8 22. no ano de 1997.5 7.). mortes praticadas por justiceiros e grupos de extermínio.3 (Dillon Soares. nos períodos. para o país em seu conjunto. Convênio Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados . capital do Estado do Rio de Janeiro (65.0 30.0 43. Distribuição das ocorrências policiais que envolvam adolescentes infratores segundo número de pessoas envolvidas – Município de São Paulo – 1988-91 e 1993-96(1) Número de pessoas envolvidas Total Ação isolada Ação em conjunto com um ou mais adolescente Ação em conjunto com um ou mais adulto Ação em conjunto com outros envolvidos não identificados Distribuição das ocorrências policiais 100. Em Brasília (Distrito Federal). Em algumas capitais brasileiras.0 11. capital do Estado do Espírito Santo (103.0 38.NEV/USP . estão relacionadas com a delinqüência e o crime urbanos. Compreendem também desfechos fatais resultantes de disputas no domínio do narcotráfico. b) esse número cresceu mais rapidamente do que o crescimento da população. a taxa de homicídios era de 13. 84-135 Tabela 1. segundo a classificação anteriormente referida. p. isto é. resultantes de graves violações de direitos humanos (como mortes praticadas por agentes policiais em situação de abuso de uso da força física. muito acima da média nacional: Recife.Seade/Núcleo de Estudos da Violência .40/100000 hab. Rio de Janeiro. saltou para 36. constatou que: a) o número de homicídios causados por armas de fogo vem crescendo desde 1979.5 44. (1) Refere-se ao número total de passagens dos adolescentes infratores pelo Sistema Judiciário.). as taxas encontram-se. Porto Alegre. mortes em linchamentos).3/ 100000 hab. em 1991. no período considerado.79/100000 .5 100. onze anos depois. Vitória. Recente estudo sobre as tendências do homicídio.4 Fonte: Poder Judiciário/Varas Especiais da Infância e da Juventude da Capital.3 2. 2000). capital do Estado de Pernambuco (105. nº 8.7 por cem mil habitantes. em 1980.SOCIOLOGIAS 91 Sociologias.

36. circunstância indicativa da intencionalidade na consumação da morte (Castro. no Brasil. Assis.). Yazabi & Ortiz Flores. Pesquisa realizada no início da década passada estimou em 2. na faixa de 15-19 anos. realizada mediante apoio do Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (FCBIA). Zaluar. escritório de São Paulo. Porto Alegre. capital do Estado de São Paulo (56. nº 8. em 1998. 1998). O gráfico 2. no ano de 1998. Saad e outros. Soares e outros. vale dizer um crescimento da ordem de 1800% (Mello Jorge. Enquanto a taxa de homicídio cresceu 209% no Brasil. ilustra esta tendência. em especial procedentes das chamadas classes populares urbanas. Cf. 1997. DATASUS. do sexo masculino.7% da população brasileira. nas doze regiões metropolitanas cresceu 262. No mesmo ano. passou de 9. 1998). 1993)7. Este mesmo estudo revelou que a grande maioria das vítimas havia sido morta mediante emprego de arma de fogo. o coeficiente de homicídios para adolescentes. o alvo preferencial dessas mortes compreende adolescentes e jovens adultos masculinos.). 1996. Nessas regiões.7/100000 habitantes. 84-135 hab. vivia. o banco de informações – DATASUS – modificou a classificação anteriormente utilizada. Ministério da Saúde.8%. Em torno de 21% de todos os homicídios registrados. 7 A pesquisa. no período de 35 anos (1960-1995). Governo Federal. No município de São Paulo. jul/dez 2002. as duas mais populosas do país: Rio de Janeiro e São Paulo. tendência que vem sendo observada em inúmeros estudos sobre mortalidade por causas violentas (Mello Jorge. 1988. .69/100000 hab. São Paulo. ano 4.6 para 186. concentraram-se apenas em duas capitais brasileiras. p.7% do total de mortes resultantes de homicídios voluntários ou agressões (cf. 1981. no período de 1980 a 1998. no ano de 1990. As respectivas regiões metropolitanas seguem padrão idêntico. 1994.7/dia o número de jovens assassinados no Estado de São Paulo. Em todo o país. a seguir. Brasil. Mesquita Neto. 2001). 1982 e 1986. respondeu por 57.92 SOCIOLOGIAS Sociologias.

C a p i ta i s . 84-135 3500 3000 Ocorrências 2500 2000 1500 1000 500 0 Menor 1 ano 1 a 4 anos 5 a 9 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos 20 a 29 anos 30 a 39 anos 40 a 49 anos 50 a 59 anos 60 a 69 anos 70 a 79 anos 80 anos e mais SOCIOLOGIAS Faixa Etária Belém Vitória Fortaleza Rio de Janeiro Natal São Paulo Recife Baixada Santis ta Salvador Curitiba Belo Horizonte Porto Alegre F o n te : D a ta s u s Gráfico 2 93 . ano 4.Ó b i to s p o r a g r e s s ã o s e g u n d o g r u p o s e tá r i o s . nº 8. p. Porto Alegre. jul/dez 2002. 1 9 98 5000 4500 4000 Sociologias.

Representou. Nesta última categoria. Estudo realizado para o Município de São Paulo. recente legislação penal promoveu distinção entre crimes e crimes hediondos. Casagrande e Marcelo Gomes Justo. identificou algumas tendências semelhantes. nº 8. 1995). Porto Alegre. entre os anos de 1989-1991 e 1993-1996. comparecem homicídios . a participação dos crimes violentos no total da massa de crimes registrados cresceu 10. Nelson A. Porém foram observadas. No segundo período. Entre os crimes violentos. Fortes tendências também podem ser observadas. No primeiro período. 1999). duas importantes mudanças. Estes últimos alcançam crimes como extorsão mediante seqüestro. p. distinguem-se crimes violentos (aqueles que representam ameaça à integridade física ou à vida de quem quer que seja) dos crimes não violentos. é baixa a proporção de jovens que cometem homicídios. Lima e Bordini. Não há dados nacionais a respeito. Os adolescentes também revelam-se mais comprometidos com a prática de atos infracionais em bandos ou quadrilhas (Adorno. as infrações previstas no Código Penal. O perfil dos adolescentes que se envolvem com atos infracionais não é distinto do perfil da criminalidade na população adulta. jul/dez 2002. era menor a proporção de crimes violentos cometidos pelos adolescentes face à proporção de crimes violentos cometidos na população em geral. a fonte originária compreende registros de ocorrências policiais. quanto ao crescimento do conjunto de crimes violentos8. em várias capitais brasileiras e respectivas regiões metropolitanas. Os dados disponíveis são estaduais. não houve crescimento estatisticamente significativo nas distintas modalidades infracionais.94 SOCIOLOGIAS Sociologias. Amarylis Nóbrega Ferreira. Ao contrário do que indicam expectativas no interior da opinião pública. pelo menos. 1. 84-135 Mas os jovens também comparecem como autores da violência. no segundo período. Em termos sociológicos. observando comportamento infracional de adolescentes de 1218 anos incompletos. ano 4. no Município de São Paulo.3% de todas as infrações cometidas. esta tendência se inverte. Este mesmo estudo aponta que o crescimento foi mais acelerado a partir de 1988. quando esta contou com a coordenação de Myriam Mesquita Pugliese de Castro e a participação dos pesquisadores Cristina Eiko Sakai. entre 1984 e 1993. 8 No Brasil. estupro e homicídios conectados com o tráfico internacional de drogas.1% (Feiguin & Lima. Aumentou a proporção de adolescentes representados na criminalidade violenta. Comparando-se ambos períodos. classificam-se em contravenção (infrações de menor gravidade) e crime (infrações de maior gravidade). A título de ilustração.

” (p. Polícia Militar e Polícia Civil. pelo promotor público. o furto é também subtração de propriedade alheia. Para o período posterior a 1988. Uma vez aberto e concluído. 2000). roubos. foi mais elevada a taxa de crescimento dos roubos que dos furtos. nota-se que os crimes violentos saltaram de uma taxa de 945. Trata-se. No MP o inquérito será apreciado . pertencem à esfera dos governos estaduais. oportunidade em que o indiciado no inquérito policial se transforma em réu perante à Justiça penal. em princípio. Entre 1991 e 1996. de crime não violento. Já na década de 1980. na região metropolitana de São Paulo. nº 8. relativa ao período de 1983 a 1987. As tarefas de polícia judiciária. Trata-se de um crime violento.. pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (Pinheiro et al. Ambas. 1999). o cenário da violência não é menos significativo. pesam os crimes violentos contra o patrimônio.. ambos compreendem crime contra o patrimônio. Feiguin & Lima atestaram a retomada do crescimento dessas taxas: “. para 1.8% do total das ocorrências registradas. como aliás sustenta Zaluar em inúmeros estudos (1994. contudo sem o recurso à violência. o inquérito policial é encaminhado ao poder Judiciário e distribuído ao juiz. 2000). o arquivamento do inquérito por insuficiência de provas ou apresentar denúncia. 9 Há que se fazer uma distinção entre roubo e furto. Por sua vez.SOCIOLOGIAS 95 Sociologias. estupro. de realização das investigações visando o reconhecimento da materialidade do delito e identificação de possível ou possíveis autores competem à Polícia Civil. Além dos homicídios já mencionados. instaura-se o processo para apuração de responsabilidade penal. Porto Alegre.119. notadamente dos homicídios voluntários. Persistiram as mortes causadas por policiais militares10 em confronto com civis. por conseguinte.000 habitantes.1 por 100. ano 4. 84-135 modalidade de delinqüência passou a representar. Porém. 1991). No domínio dos direitos humanos. Trata-se de um crescimento da ordem de 18.. Como se sugeriu anteriormente. o policiamento preventivo e repressivo compete à Polícia Militar.000 habitantes. em especial roubos9. em 1993. isto é. concluiu que voluntários. todo registro policial deveria. sobretudo o crescimento dos homicídios. Na legislação penal brasileira.. Salvo nos casos . ensejar a abertura de inquérito policial. por sua vez. p.. que parece estar na raiz dos sentimentos de medo e insegurança da população urbana (Cardia. jul/dez 2002. Estudos indicam que é o crime violento. responda à emergência do crime organizado no Brasil.2 por 100. Este. em 1988. que poderá solicitar novas investigações policiais. encaminha-o ao Ministério Público – órgão que possui independência face ao Executivo e ao Judiciário. roubos seguido de morte (latrocínio) extorsão mediante seqüestro. o roubo é a subtração de propriedade alheia mediante grave ameaça à integridade física ou à vida de quem quer que seja. Essa taxa foi ainda mais elevada nos bairros que compõem a periferia comparativamente às áreas centrais dessa região (Caldeira. Caso a denúncia seja aceita pelo juiz. 1998. em média 28. 76).4% num período de seis anos. É bem provável que o aumento desses crimes. 10 No Brasil.

Argentina e Brasil a respeito das mortes cometidas pelas forças policiais encontra-se em Chevigny (1990). eles ficam a cargo da Polícia Federal. ano 4. 13 Não se pode fazê-las porque o maior ou menor envolvimento de policiais militares nesses episódios depende não apenas das características locais da organização. veja-se também Barcellos (1993) e Caldeira (2000). 46 vezes menos11. São Paulo. Quanto aos crimes de competência da União. subordinada ao Ministério da Justiça e sob a jurisdição dos tribunais federais. essas incursões resultam em mortes de delinqüentes. Folha de S. esta escalada da violência policial pôde ser observada em outros Estados da federação. ou seja. favelas e áreas de concentração de habitações populares com o propósito de prender traficantes ou conter o tráfico de drogas.900 pessoas (foram) mortas. bem como da maior ou menor ascendência do Executivo estadual sobre suas . onde são freqüentes as incursões policiais nos morros. nº 8. em confronto com a polícia e são justificadas em nome de resistência à ordem de prisão. pouco menos que a da região da Grande São Paulo. Amaral. Como comparação. ela foi constante e voltou novamente de homicídios dolosos. 11 Instigante estudo comparativo entre Jamaica. com a máxima de 1. Não raro. Fleury [governador do Estado de São Paulo] diz que massacre fez PM mudar. H. valor que inclui 111 mortos no massacre da Casa de Detenção.6 em 1985.470 pessoas. No ano de 1992. entre as vítimas. 29/03/1993. [. O número de mortos chega à média de 1. em especial no Rio de Janeiro. Porto Alegre. de 1974 a 1988 foram mortas 49 pessoas e 21 policiais. Em conseqüência. a Polícia Militar atingiu seu ápice.. abatendo 1.500 feridos. Na década seguinte.] Os totais de mortes em confronto com a polícia no Estado de São Paulo são extremamente altos. não foi diferente. dados apenas da Polícia Militar. cia policial tenha oscilado a partir de 1993. p. na Austrália. jul/dez 2002. 1998). em linhas gerais. entre policiais e não-policiais. Sobre o mesmo assunto. o processo de apuração da responsabilidade penal segue.2 morte por dia no período. L.96 SOCIOLOGIAS Sociologias. tendo também em vista outros países. em São Paulo12. 84-135 mais de 3. e mais de 5. o conjunto de agências que intervêm nesse processo compreende o que se costuma chamar de sistema de justiça criminal. Embora não se possam fazer generalizações13. Paulo. Mas há também. que possui uma população de cerca de 17 milhões de habitantes. essa trajetória. Embora esta modalidade de violên. moradores ou transeuntes não envolvidos em atividades criminosas ou sob suspeita de estarem envolvidas14 (NEV-USP 1993. 12 V. Cano. Caderno 1-9..

não é possível explorar melhor esse quadro histórico. jul/dez 2002. 84-135 a crescer no curso de 1998. bem como de chacinas. Porto Alegre. há pelo menos duas décadas. no processo de construção da sociedade e do Estado nacionais. Graves violações de direitos humanos praticadas por policiais não se encontram desacompanhadas neste ciclo. por exemplo. Nos limites deste artigo..SOCIOLOGIAS 97 Sociologias. nº 8. através da mídia impressa e eletrônica. ver Caldeira (2000). parecem terse intensificado casos de linchamentos e execuções sumárias praticados por grupos de extermínio. em um bairro determinado. Freqüentemente a vítima é levada a espaço . no curso das duas últimas décadas. de casos de linchamento15 . contra alguém que tenha sido identificado. embora fosse desejável fazê-lo. Para uma análise recente. remontam ao modo pelo qual. ao que parece crescente.br). de esquadrões da morte. p. como responsável por crimes ou pela ocorrência de um grave crime. resultando em desfechos fatais.gov. praticados em momento de explosão emocional. modelo que outros governos estaduais perfilharam. Neste cenário. essas rupturas afetam organizações policiais. 14 As razões para explicar este padrão de atuação são históricas. convém ainda ressaltar a veiculação.ouvidoria-policia. em particular em cidades como São Paulo e Salvador (Pinheiro. de violência ilegal e de vinganças privadas. 15 Grosso modo. Ao que tudo indica. instituto criado pelo governo do Estado de São Paulo. como os Estados do Rio de Janeiro e Pará. Verificou-se. Os estudos disponíveis sugerem que tais conflitos tendem a ocorrer em contextos de profundas rupturas nas hierarquias sociais tradicionais. em particular nos bairros onde habitam majoritariamente classes trabalhadoras de baixa renda. linchamentos consistem em atos de vingança coletiva e de aplicação de justiça privada. 1999)16 . conforme apontam registros oficiais e especialmente os relatórios da Ouvidoria da Polícia (www. como estupro. impulsionadas pelo crescimento do crime violento e seu impacto sobre as formas de socialidade e sociabilidade anteriormente dominantes. Cardia e col. Em particular. de forma que o Estado jamais logrou completo controle do monopólio estatal da violência. Embora não se trate de fenômeno recente – a historiografia registra inclusive a ocorrência de casos desta espécie desde a Colônia (15001822) – eles parecem ter-se intensificado nas duas últimas décadas. Adorno. verdadeira explosão de litigiosidade no seio da sociedade civil.sp. em 1996. ano 4. sobretudo em bairros que compõem a periferia de grandes regiões metropolitanas como a de São Paulo. se articularam o poder judicial e o poder político local. justamente para o monitoramento destes casos.

1980-1999 . Total de casos de linchamento e violência policial – Brasil. ano 4. nº 8. 84-135 1980-89 2498 408 1990-99 3073 585 V iolência P olicial Lincham entos F onte: B anco de D ados da Im prensa S obre as G raves V iola ções de D ireitos H um anos N E V /U S P . p. jul/dez 2002.98 1980-89 V iolência P olicial Lincham entos 1990-99 3073 585 3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 2498 408 SOCIOLOGIAS Sociologias.F O R D /F A P E S P /C N P q S ecretaria de E stado de D ireitos H um anos/M inistério da Justiça Gráfico 3. Porto Alegre.

do Departamento de Sociologia da USP (Martins. jul/dez 2002. mas em tentativa de linchamento. acordo ou cumplicidade de outros agentes sociais – notadamente policiais. Adorno. p. comerciantes locais. Trata-se de coletivos organizados em caráter permanente para execução sumária de suspeitos de cometimento de crimes. historiadores e psicólogos sociais) vêm ocupando-se do exame dos casos. ano 4. Além do estudo realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência (Pinheiro. moradores tradicionais -. nº 8. em especial em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. em particular na periferia do Município de São Paulo e em sua região metropolitana. Predominam nas grandes metrópoles brasileiras. quase sempre originários da mesma localidade. Compõem-se de civis. que agem sob contrato. não raro. tem membros ou órgãos mutilados ou decepados. Suspeita-se que suas motivações principais residam na falta público. a crise do poder pessoal (mais propriamente. que parecem ter-se intensificado nos últimos cinco anos. No entanto. os quais não se envolvem diretamente nas ações. Cresceram notadamente a partir da década de 1980. associadas ou não ao tráfico de drogas. 16 Ainda é tímido o interesse dos pesquisadores pelo estudo deste fenômeno. Suas vítimas compreendem cidadãos. cidadãos comuns. Pouco conhecidas. tais modalidades de ação. ultrajada e. a mais completa pesquisa foi realizada por José de Souza Martins. atacada com paus e pedras. nacional e local. Portanto. sobretudo quando envolvem crianças e adolescentes. sobretudo noticiados pela imprensa periódica. 84-135 justamente as hierarquias que estruturam e organizam as relações entre cidadãos e autoridades públicas encarregadas do controle social no quadro do Estado de direito. Porto Alegre. Igualmente desconhecidas são as chacinas17. citados). concebidas como legítimas e moralmente imperativas. Cardia. do patrimonialismo ancorado nas relações sociais) encontra-se na raiz destes casos extremos de justiça popular e vingança privada. bem como roubos e homicídios voluntários de pessoas benquistas na comunidade -. vêm contribuindo para exacerbar a explosão de litigiosidade que se espraia nos bairros onde predominam habitações populares. as ações de grupos de extermínio e de justiceiros parecem impulsionadas por um senso de justiça privada frente a circunstâncias consideradas social e culturalmente insuportáveis do ponto de vista da moralidade pública popular – como sejam tentativas ou atos consumados de estupro. 1999). a maior parte destas ocorrências não resulta em desfecho fatal. habitantes dos bairros populares.SOCIOLOGIAS 99 Sociologias. Poucos estudiosos (sociólogos. Ver . considerados delinqüentes ou portadores de antecedentes criminais (Adorno e Cardia. no Brasil. 1995 e 1996). 1989.

não pareciam convergir tão abruptamente para um desfecho fatal18. tal modalidade de ação vem aumentando a intranqüilidade entre cidadãos procedentes das classes populares. jul/dez 2002. mãe. não comprometidos com as operações ilegais. vêem-se repentinamente à mercê da guerra entre quadrilhas. p. acerca de compromissos não saldados. quer pela mídia eletrônica e impressa. mulher. Porto Alegre. entre patrões e empregados. acerca de expectativas não preenchidas quanto ao desempenho convencional de papéis como os de pai. Certo ou não. em não poucas circunstâncias. 1997. etc. entre conhecidos que freqüentam os mesmos espaços de lazer. No mais das vezes. Tavares dos Santos. cujo desfecho acaba. a violência doméstica (Izumino. muitas vezes até acidental e inesperadamente.100 SOCIOLOGIAS Sociologias. 17 ‘Chacinas’ tem sido o termo empregado. a violência das galeras e bailes funks (Ceccheto. 84-135 de pagamento de dívidas contraídas com o comércio e consumo de drogas. de desentendimentos variados acerca da posse ou propriedade de algum bem. entre colegas de trabalho. Finalmente haveria que se computarem as mortes violentas provocadas por tensões nas relações intersubjetivas e que nada parecem ter em comum com a criminalidade cotidiana. 2001). filho. no passado. Indefesos. na morte de um dos contendores. revelam quanto o tecido social encontra-se sensível a tensões e confrontos que. entre parentes. ano 4. entre outros). Trata-se de um infindável número de situações. muitos destes populares. 2001. as gangues e quadrilhas de jovens também Menandro & Souza (?) e Fischer e Benevides (1982). carentes de proteção legal e policial. A esse quadro de violência interpessoal haveria que acrescentar a violência nas escolas (Spósito. estudante. nº 8. entre pessoas que se cruzam diariamente nas vias públicas. 1996). entre comerciantes e seus clientes. em geral envolvendo conflitos entre pessoas conhecidas. entre amigos. Resultam. entre vizinhos. Compreendem conflitos entre companheiros e suas companheiras. provedor do lar. Viana. 1998. acerca de paixões não correspondidas. trabalhador. quer pelas autoridades policiais para . acerca de reciprocidades rompidas.

b) crise do sistema de justiça criminal. assiste-se a uma aceleração de mudanças. Spagnol. alocação. 84-135 (Diógenes. não parece ainda haver consenso entre os cientistas sociais – antropólogos. nas formas de recrutamento. por exemplo). mutações substantivas nos processos de produção. promovendo acentuada mutação nas relações dos indivíduos entre si. Grosso modo. jamais conhecida e experimentada anteriormente: novas formas de acumulação de capital e de concentração industrial e tecnológica. transbordamento das fronteiras do Estado-nação. 2001). Porto Alegre. da violên- . p. 1996. jul/dez 2002. Essas mudanças repercutem também no domínio do crime. cientistas políticos e sociólogos – quanto às causas deste crescimento. pelo menos. c) desigualdade social e segregação urbana. os assassinatos sistemáticos de homossexuais (Mott. face ao pouco que se sabia em passado não distante. nos processos de trabalho. Não obstante. dos indivíduos com o Estado e entre diferentes Estados. Desde a década passada. Em recente e exaustivo balanço analítico da literatura especializada. Zaluar (1999) demonstrou quanto já se avançou na caracterização do fenômeno. o impacto deste problema vem estimulando o desenvolvimento de pesquisas no domínio das ciências sociais. o que repercute na natureza dos conflitos sociais e políticos e nas modalidades de sua resolução (com a criação de legislação e tribunais paralelos ao Estado. três direções: a) mudanças na sociedade e nos padrões convencionais de delinqüência e violência. distribuição e utilização da força de trabalho com repercussões consideráveis nos padrões tradicionais de associação e representação sindicais. 1998). nº 8. ano 4.SOCIOLOGIAS 101 Sociologias. podem-se agrupar os esforços de explicação em. Mudanças na sociedade e nos padrões convencionais de delinqüência e violência Em particular nos últimos cinqüenta anos.

nº 8. mais de três pessoas. que vitimam. em pequenos bandos e cuja ação tinha alcance apenas local. o tráfico internacional de drogas é uma de suas modalidades mais significativas19. Em outras palavras.102 SOCIOLOGIAS Sociologias. Crise no sistema de justiça criminal Não são poucos os estudos que reconhecem incapacidade do sistema de justiça criminal – agências policiais. numa mesma operação. contra o patrimônio. Porto Alegre. O crime cresceu e mudou de qualidade. cada vez mais. tribunais de justiça e sistema penitenciário – em conter o crime e a violência nos marcos do Estado democrático de direito. desorganização das formas convencionais de controle social. quando muito. . contra a economia popular). 84-135 cia e dos direitos humanos. jul/dez 2002. Seus sintomas mais visíveis compreendem emprego de violência excessiva mediante uso de potentes armas de fogo (daí a função estratégica do contrabando de armas). sintomas repreidentificar ações de grupos de extermínio ou esquadrões da morte. Transformam-se os padrões tradicionais e convencionais de delinqüência anteriormente concentrados em torno do crime contra o patrimônio. acentuados desarranjos no tecido social. contra o sistema financeiro. o crime organizado opera segundo moldes empresariais e com bases transnacionais. Como se sabe. p. via de regra cometido por delinqüentes que agiam individualmente ou. Na atualidade. Os sintomas mais visíveis deste cenário são as dificuldades e desafios enfrentados pelo poder público em suas tarefas constitucionais de deter o monopólio estatal da violência. aumentou sobremodo o fosso entre a evolução da criminalidade e da violência e a capacidade de o Estado impor lei e ordem. corrupção de agentes do poder público. porém o sistema de justiça permaneceu operando como o fazia há três ou quatro décadas atrás. Na mesma direção. ano 4. colonizando e conectando diferentes formas de criminalidade (crimes contra a pessoa. Ministério Público. agrava-se o cenário das graves violações de direitos humanos. vai-se impondo.

pressionados a rapidamente promoverem a desmontagem dos aparelhos repressivos que tiveram vigência durante o regime anterior e ao mesmo tempo exercerem pertinaz controle sobre os abusos de poder cometidos por agentes públicos (policiais militares nas ruas. pelo tráfico de drogas em detrimento da aplicação das leis. Do mesmo modo. convém mesmo sublinhar que algumas avaliações sugerem a queda dos investimentos em segurança pública e justiça durante toda a década de 1980. Este cenário ainda estaria incompleto se a ele não se agregasse acentuada crise no sistema de justiça criminal. guardas de prisão nas instituições carcerárias). a existência de áreas das grandes cidades onde prevalecem as regras ditadas. o acúmulo histórico de problemas na área se acentuou. O profundo hiato entre o crescimento da violência e o desempenho do sistema de justiça criminal agravou-se em virtude dos novos problemas de reforma e controle institucional propostos pela transição política e pela consolidação do regime democrático. cada vez mais é flagrante a ousadia no resgate de presos. Trata-se de um . responsável pelo motim simultâneo de vinte e nove grandes prisões. no Rio de Janeiro e o Primeiro Comando da Capital. nº 8. Porto Alegre. por exemplo. 84-135 sentados pela sucessão de rebeliões nas prisões. Além do mais. ano 4.SOCIOLOGIAS 103 Sociologias. grande parte dessas ocorrências organizadas de dentro das prisões por dirigentes do crime organizado como o Comando Vermelho e Terceiro Comando. nas habitações populares e nas instituições de reparação social. policiais civis nas delegacias e distritos policiais. p. Na década de 1980. em São Paulo. em janeiro de 2001. jul/dez 2002. no Estado de São Paulo. os novos governos estaduais demoraram a responder com eficiência aos novos problemas decorrentes do crescimento e da mudança do perfil da criminalidade urbana violenta. E o agravamento se dá a despeito das iniciativas de reforma da legislação penal promovidas pelo governo federal e de reaparelhamento do sistema de justiça criminal executadas pelos novos governos estaduais civis que se seguiram à queda do regime autoritário. Neste domínio.

O resultado mais visível dessa crise do sistema de justiça criminal é. a grande maioria da população urbana depende de guardas privados não profissionalizados. 1999. Cada vez mais descrentes na intervenção saneadora do poder público. Indicam. os cidadãos buscam saídas. Adorno. a impunidade penal20. Crimes como furtos ou que compreendem a chamada pequena criminalidade não chegam a ser investigados. seus possíveis autores não são identificados e conseqüentemente processados e condenados. parecem altas as taxas de impunidade para crimes do colarinho branco cometidos por cidadãos procedentes das classes médias e altas da sociedade. tais como: homicídios praticados pela polícia. embora protegidas pelas leis penais. pressões da opinião pública em exigir resposta do sistema de justiça criminal. Cardia e outros. p. algumas avaliações parciais já indicam algo a respeito. 1993) sugerem que as taxas de impunidade são mais elevadas no Brasil do que em outros países. Pinheiro. ou procura resolver suas pendências e conflitos por conta própria. 1993). cada vez mais. 20 A carência de dados estatísticos e de levantamentos sistemáticos periódicos impede de conhecer a efetiva magnitude e extensão da impunidade penal no Brasil. 1989. No Brasil. jul/dez 2002. sem dúvida. tudo parece indicar que as taxas de impunidade sejam mais elevadas para crimes que constituem graves violações de direitos humanos. 1994 e 1995. nos Estados Unidos (Gurr. Do mesmo modo. Aqueles que dispõem de recursos apelam. 1994). A despeito dessas limitações. em especial encarregadas de distribuir e aplicar sanções para os autores de crime e de violência. duas décadas. 84-135 cenário que adentra os anos 90. pelo menos. ou ainda homicídios consumados durante linchamentos e naqueles casos que envolvem trabalhadores rurais e lideranças sindicais. Castro. nº 8. um segmento que vem crescendo há. Donziger. como na França (Robert et al.104 SOCIOLOGIAS Sociologias. A conseqüência mais grave deste processo em cadeia é a descrença dos cidadãos nas instituições promotoras de justiça. que determinadas áreas de comportamento. Em contrapartida. 1996. tráfico de influências diversas procu- . por grupos de patrulha privada. Em decorrência. por exemplo. para o mercado de segurança privada. Mesmo casos mais graves como roubos. compõem as chamadas “áreas de exclusão penal”. apóia-se perversamente na “proteção” oferecida por traficantes locais. na Inglaterra (Jefferson e Shapland. tráfico de drogas e até homicídios. Os poucos estudos disponíveis (Soares e outros. estão praticamente isentas de sua aplicação. ano 4. Porto Alegre. por esquadrões da morte e/ou grupos de extermínio. 1996).. A maior ou menor capacidade de serem esses crimes investigados vai depender de uma série de fatores. Adorno. como interesse das agências policiais em investigá-los.

69% das razões alegadas para não interpor ação judicial se classificam nessa ordem de motivos. embora esse princípio esteja estabelecido no Artigo 5o.075 entrevistados. ano 4. criminal. privilegiando outros. pensão alimentícia. Entre estes. A Justiça não é vista. como Vox Populi e Datafolha. sondagem de opinião Jornal do Brasil/Vox Populi. na Justiça. Acresce notar que 23.20% de todas as pessoas que se envolveram em diferentes conflitos (trabalhista. 42. p.SOCIOLOGIAS 105 Sociologias. pelos cidadãos. 55. O Vox Populi perguntou se negros e brancos. em particular. Esses dados são indicativos da baixa confiabilidade nas instituições públicas e. conflitos por posse de terra. a lei não é igual para todos. conflito de vizinhança. não há dúvida: o pobre será . 1990) investigou o comportamento social face à Justiça Pública. da Constituição. Para 80%. jul/dez 2002. no entender da maioria da população. realizada entre 13-16 de abril de 1995. pobres e ricos recebem o mesmo tratamento para crimes iguais. Os resultados são surpreendentes. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE-PNAD. herança). cobrança de dívida. no período de outubro de 1983 a setembro de 1988. seus resultados contribuem ainda mais para enfraquecer a busca de soluções proporcionada pelas leis e pelo funcionamento do sistema de justiça criminal. Institutos de pesquisa de opinião. conjugal. com freqüência têm sondado as inquietações públicas com relação ao crime e à violência. As respostas dadas ao questionário mostraram que. Em meados da década passada. Porto Alegre. conclui na mesma direção: 73% dos brasileiros não confiam na Justiça. não recorreram à justiça. como instrumento adequado de superação da conflitualidade social. o motivo preponderantemente alegado foi: “resolveu por conta própria”.77% dos entrevistados revelaram não confiar nos serviços jurídicos e judiciais. Eles revelaram que. a lei é mais rigorosa para alguns. Para 82% dos 3. 84-135 Tanto num como noutro caso. desocupação de imóvel. nº 8.

Recente inquérito. o que levou à rando dissuadir investigações em função da importância social dos envolvidos. muitas delas irregulares. Não é de surpreender que 59% dos entrevistados tenham manifestado mais medo da polícia do que confiança. Cardia observou mudanças sensíveis. realizado pelo Datafolha para o conjunto do país. A despeito de que as estatísticas oficiais de criminalidade venham indicando tendência à estabilização das ocorrências de maior gravidade e de maior incidência. p. Rio de Janeiro. importantes municípios industriais desse Estado21. 28/04/95. Em sucessivos estudos sobre a representação da violência. órgão das pastorais católicas. p. nº 8. jul/dez 2002. ambos do Partido dos Trabalhadores – PT. Jornal do Brasil. 10/03/2002).91 milhões. e do assassinato de dois Prefeitos. porém significativas. 84-135 julgado mais rigorosamente. a explosão do medo e da insegurança parece ter vindo na esteira da onda de seqüestros. a proporção de pessoas que haviam feito essa declaração era de 8%. Foram realizados em São Paulo pela Comissão Justiça e Paz. sobretudo no Estado de São Paulo. Revelaram acentuada desconfiança nos direitos humanos e acentuada imagem negativa dos presos. revelou que o número de brasileiros que consideram a violência o mais grave problema do país duplicou em apenas dois meses. Não é estranho também a subnotificação dos crimes: 64% das vítimas de roubo e 71% das vítimas de furto não apresentaram queixa à polícia (Folha de São Paulo. Os primeiros levantamentos datam de 1989-1991. 1). O mesmo levantamento indica que 12% de pessoas declararam viver em moradias onde há armas de fogo.106 SOCIOLOGIAS Sociologias. um volume seguramente abaixo de estimativas esperadas. etc. 21 O assassinato de figuras políticas introduz a suspeita de que a sociedade brasileira estaria adentrando uma era de . Porto Alegre. em fevereiro de 2002. Em dezembro de 2001. Em 1999. C-1/4. ano 4. representavam 10%. Este cenário de desconfiança revela também suas nuanças. esta proporção saltou para 21%. dado que o número de armas registradas é de 2. e 62% acreditam que o negro receberá punição mais pesada (Cf. o de Campinas e o de Santo André.

a polícia estava sendo eficiente. entre outras questões. Tratava-se. razão por que poderiam até ser eliminadas sem julgamento. fala-se cada vez com maior freqüência na necessidade de observância rigorosa das leis e no aperfeiçoamento das instituições de justiça. violência e eficácia da ação policial (Porto. desigualdade social e segregação urbana Há cerca de três décadas. Porto Alegre. 84-135 conclusão de que estava em curso. ano 4. Grossi Porto. 1994. Constatou que. nº 8. realizado em dez capitais de Estados da federação. Embora a violência fosse um fenômeno endêmico na sociedade . revelou quanto permanece frágil o equilíbrio entre segurança. Sinal dos novos tempos. em especial no desempenho da polícia em suas tarefas de repressão da violência. 2001). 1999 e 2001). na sociedade brasileira. mesmo entre aqueles que persistem associando direitos humanos como proteção para bandidos. p. ao contrário. No penúltimo dos levantamentos. não há mais forte apoio à aplicação de medidas extrajudiciais para contenção da delinqüência (Cardia. Violência. porque nem todos parecem dispor de antecedentes criminais). a desconfiança nas instituições de justiça. estavam apenas iniciando. um processo de exclusão moral. também destituídas de humanidade. mais que isso. em seus estudos sobre violência policial. ainda que os fatos cotidianos pareçam desmentir estas tendências. no Brasil. finalmente. não se traduz necessariamente em aprovação à violência. jul/dez 2002. de um debate suscitado pela esquerda e pelos primeiros defensores de direitos humanos. as imagens a respeito do Plano Nacional de Direitos Humanos.SOCIOLOGIAS 107 Sociologias. mereceu imediata acolhida popular sob o argumento de que. pelo qual delinqüentes e infratores das leis penais eram percebidos como pessoas não apenas destituídas do direito a ter direitos. em ação praticada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo com o propósito de prevenir planejada ação de ataque a um aeroporto local. Recentes mortes de 12 supostos delinqüentes (supostos. mas. Cardia examinou. em verdade. o debate e a reflexão sobre a violência e o crime.

Em decorrência. ano 4. a criminalidade e a brutalidade contra o delinqüente tinham raízes estruturais. para o mundo do crime e da violência. de modo a eliminar as raízes da violência estrutural. trabalhadores urbanos pauperizados eram vistos como pertencentes às classes perigosas e passíveis de estreito controle social que incluía detenções ilegais. jul/dez 2002. aplicação de torturas e maus tratos nas delegacias e postos policiais e perseguições arbitrárias. no Município de São Paulo. se articulasse para . Há muito. Quando. Compreendiam trabalhadores urbanos arrastados.108 SOCIOLOGIAS Sociologias. p. Quanto maior a pobreza. visitar o cenário social das prisões para confirmar essa tese. Por conseguinte. antes de tudo. Bastava. dominação e exclusão inerentes a este modo de organização societário. contra sua vontade e natureza. Não demorou muito para que as forças conservadoras. entre pobreza e violência. introduzir radicais transformações na sociedade brasileira com o propósito de erradicar a pobreza. começaram a aparecer as primeiras inquietações com a persistência da violência institucional como forma rotineira e organizada de conter os crimes. A violência urbana aparecia então como expressão de lutas entre as classes dominantes e o conjunto dos subalternos. desde os primórdios da República. Devia-se ao capitalismo. nº 8. Superar esse cenário significava. os criminosos compareciam às representações sociais como vítimas potenciais de um modelo fundado na injustiça social. em meados dos anos 70. estabelecia-se uma sorte de associação mecânica. às estruturas de exploração. também. O fim do regime autoritário havia deixado mostras de que a violência institucional sob a forma de arbítrio do Estado contra a dissidência política não se restringia à vigência do regime de exceção. maior a violência. por assim dizer. parte das quais herdeira ou comprometida com o regime autoritário. para tanto. sua visibilidade ganhou foro público durante a transição da ditadura para a democracia. Porto Alegre. pobreza e desemprego com a criminalidade patrimonial. 84-135 brasileira. acreditava-se que o crime. Estudo de Pezzin (1986) confirmava correlações positivas e significativas entre urbanização.

crime e punição. os crimes continuariam a crescer. mesmo que se lograsse alcançar uma sociedade mais justa. crime e violência suscitava mais problemas do que os solucionava. no foco privilegiado conferido pelas agências de controle social contra a delinqüência cometida por cidadãos pobres. Esse confronto de entendimentos. Afinal. O problema não residia na pobreza. 84-135 contestar esses argumentos. Logo se percebeu que a associação mecânica entre pobreza. submetidos às mesmas condições sociais de vida. . de Coelho (1987). a reverem seus argumentos. não enveredava pelo mundo do crime. Ainda em fins da década de 1980. Polícia e justiça pareciam revelar maior rigor punitivo contra negros. delinqüência e violência está hoje bastante contestada em inúmeros estudos. bem como pesquisadores. Estudando os determinantes da criminalidade no Estado de Minas Gerais. p. liberal-democratas. Insistiam que a violência antes tinha a ver com a falência de políticas retributivas. período caracterizado pela crise econômica e por elevadas taxas de desemprego. Porto Alegre. conclusão a que também chegou mais recentemente Wacquant (1999). constrangeu as forças políticas progressistas – liberais. maior parte desses trabalhadores. nº 8. A tese que sustentava relações de causalidade entre pobreza. de estupro e de roubo. 1994 e 1995). Coelho constatou o declínio das taxas de homicídio. ano 4. porém na criminalização dos pobres. jul/dez 2002. Argumentavam que. Suas conclusões indicaram correlações entre crise econômica e tendências à superpopulação prisional. fundadas na repressão dos crimes e na aplicação rigorosa de leis penais. Em particular. os estudos de Zaluar (1994 e 1999). Observando o comportamento da criminalidade violenta na região metropolitana do Rio de Janeiro entre 1980 e 1983. migrantes (Adorno. Box (1987) realizou instigante estudo sobre as relações entre recessão.SOCIOLOGIAS 109 Sociologias. vale dizer. embora a maior parte dos delinqüentes proviesse das classes trabalhadoras urbanas pauperizadas. de Beato (1998) e Sapori e Wanderley (2001) contestam profundamente essa associação. do que na falência de políticas distributivas. pobres. socialistas –.

ano 4. Cano e Santos inventariam obstáculos metodológicos. Cano e Santos (2001) afirmam não ser possível identificar clara influência da renda sobre as taxas de homicídio. observando quatro regiões metropolitanas do Brasil – Rio de Janeiro. 84-135 Beato concluiu que os municípios de menor incidência de crimes são justamente os mais pobres. não às vítimas” (p. em seu estudo sobre as relações entre renda. a riqueza e a circulação de dinheiro estão mais associadas à maior incidência e prevalência de crimes. por sua vez. concluíram que o risco de ser vítima de violência letal entre crianças e adolescentes de 5 a 20 anos dobra quando a mãe pertence a uma família cuja renda per capita é inferior a um salário mínimo. O risco é também maior para mães que vivem em favelas.110 SOCIOLOGIAS Sociologias. Sabe-se que as recentes transformações na economia brasileira e na . Belo Horizonte e Porto Alegre. esse debate não parece. 81). e as taxas de criminalidade. p. capital do Estado do Rio Grande do Sul – aplicaram testes estatísticos (medida de Granger e testes econométricos). não encontraram indícios significativos de que as variações nas taxas de desemprego implicassem variações. presentes ou futuras. Porto Alegre. em especial os violentos. os estudos que exploram relações entre desemprego e crime se baseiam em dados sobre o mercado formal de trabalho. desigualdade social e violência letal. comparativamente ao resto da população. No entanto. Monteiro e Zaluar (1998). estar concluído. Beato e Reis (1999) não identificaram qualquer correlação positiva entre as taxas de desemprego urbano no Município de Belo Horizonte. nº 8. Sapori e Wanderley. Ademais. outros relacionados ao eixo que sustém a maior parte dos estudos: “a hipótese de que a pobreza e a desigualdade aumentam a violência se fundamenta em teorias que se referem basicamente aos autores de crimes. a partir de dados do censo de 1991. alguns dos quais relacionados às fontes de informações que impedem rigorosa comparabilidade de dados. jul/dez 2002. Por fim. São Paulo. capital do Estado de Minas Gerais. nas taxas de criminalidade. ao contrário. observando estimativas de mortalidade indireta. sob qualquer hipótese.

2000) desenvolve a hipótese segundo a qual. mas um país com muitos pobres. acreditamos que os elevados níveis de pobreza que afligem a sociedade encontram seu principal determinante na estrutura da desigualdade brasileira – uma perversa desigualdade na distribuição da renda e das oportunidades de inclusão econômica e social (p. mas também vêm contribuindo para o aumento das taxas de desemprego disfarçado e para o inchaço do mercado informal. Porto Alegre. 1991). 1994. Recente estudo (Paes de Barros e outros. ano 4. De fato. Em segundo lugar. 123). o Produto Interno Bruto .SOCIOLOGIAS 111 Sociologias. o Brasil não é um país pobre. conforme sugere o gráfico 4 abaixo. Adorno e Bordini. de cuja magnitude não temos preciso conhecimento. nº 8. 84-135 flexibilização das relações trabalhistas não apenas aumentaram as taxas de desemprego aberto. jul/dez 2002. Estudos sobre população prisional indicam proporções elevadas de delinqüentes procedentes do mercado informal que jamais tiveram carteira profissional assinada ou contrato formal de trabalho firmado (Brant. p.

Riqueza nacional versus desigualdade social No entanto não há como deixar de reconhecer relações entre a persistência. instituído no Governo Itamar Franco (1992-93). na sociedade brasileira. Se hoje. logrou reduzir e controlar a inflação. realizados para algumas capitais brasileiras na década passada. 2000). A despeito disso. 1993-1997 e 1998 até o presente). jul/dez 2002. fenômeno característico dos bairros onde habitam preferencialmente trabalhadores urbanos de baixa renda (Cardia e Schiffer. p. nesses bairros. maior predisposição para desfechos fatais em conflitos sociais. a maior concentração de homicídios estava associada ao congestionamento habitacional. Recente estudo sugeriu que. da concentração da riqueza. convém lembrar que o Plano Real. contribuindo para a estabilidade da moeda e do mercado financeiro. Porto Alegre. ano 4. por serviços de lazer e cultura.112 SOCIOLOGIAS Sociologias. da concentração de precária qualidade de vida coletiva nos chamados bairros periféricos das grandes cidades e a explosão da violência fatal. 84-135 cresceu acentuadamente no período de 1990-2000. Gráfico 4. na sociedade brasileira. Esse hiato manifesta-se sobretudo através de um conflito entre as exigências de democracia política e as de democracia social. Muitos outros dados de desempenho econômico e crescimento da riqueza nacional poderiam ser aqui agregados. que sucedera ao presidente Collor de Mello. Tudo isso parece indicar. indicavam que as taxas de homicídios eram sempre e flagrantemente mais elevadas nessas áreas do que nos bairros que compõem o cinturão urbano melhor atendido por infraestrutura urbana. Em especial. no Município de São Paulo. pode-se dizer que o processo de transição democrática promoveu a ampliação da participação e da representação política. por oferta de postos de trabalho. nº 8. sociais e econômicos. Mapas da violência. interpessoais e intersubjetivos. aspectos que seriam ainda mais valorizados nos governos subseqüentes (Governo Fernando Henrique Cardoso. esse movimento de ampliação dos direitos políticos não . permaneceu acentuado o hiato entre direitos civis.

74%.86%. para o ano de 1990.49 anos.5 anos entre aqueles que auferiam até um salário mínimo.22 anos). jul/dez 2002. Há fortes disparidades regionais entre os Estados do Sudeste e Nordeste. 22 Os dados que se seguem foram extraídos e selecionados do Relatório brasileiro preparado para a Cúpula Mundial para o . indicador do volume de atividades econômicas. 16. e 5.5 anos à esperança média de vida dos mais pobres da região Sudeste. • disparidades também podem ser observadas no que concerne à mortalidade infantil. Projeção para o ano de 1992 indicava a seguinte participação regional na composição do PIB: 56. O aprofundamento das desigualdades sociais persiste sendo um dos grandes desafios à preservação e respeito dos direitos humanos para a grande maioria da população. região Sudeste. 84-135 resultou em ampliação da justiça social. foi da ordem de U$464. Enquanto na região Sul essa taxa “colombiazação”. A esperança média de vida é maior nos estratos de rendimento superior.4 anos. região Sul. comparativamente aos índices correspondentes às regiões Sul (68. Neste horizonte social e político.6 por mil nascidos vivos.SOCIOLOGIAS 113 Sociologias. região Norte. região Centro-Oeste.53 anos). ano 4. 15. Dados relativos ao ano de 1984 indicavam que a esperança média de vida era de 57.6 bilhões no ano de 1990.68 anos) e Sudeste (67. A taxa de mortalidade infantil no Brasil. Este índice é ligeiramente menor no Nordeste (64. entre aqueles que auferiam até cinco salários mínimos. ao passo que. convém lembrar que o Brasil continua a ter o pior índice de concentração de renda entre todos os países do mundo com mais de dez milhões de habitantes. Mais surpreendente é verificar que o grupo mais rico do Sudeste revela uma esperança média de vida superior em 23. esse índice se elevava para 73.53%.69%. • a esperança média de vida para o ano de 1990 é de 65. nº 8. região Nordeste.18%. na qual movimentos de resistência política e de luta armada se associam ao crime organizado para impor seus interesses. 5. p. é de 51. Trata-se de matéria controvertida. Porto Alegre. Os principais indicadores deste cenário podem ser ilustrados como segue22: • o Produto Interno Bruto (PIB).

34/mil nascidos vivos na Venezuela (World Bank. embora essa taxa tenha decrescido acentuadamente ao longo da década de 1980. a taxa de mortalidade infantil alcançava 75. Convém observar que. p. • conquanto a década de 1980 tenha acusado substantiva expansão do saneamento básico. Do mesmo modo. Table of Social and Economic Conditions. A título de ilustração: no ano de 1990. entre as famílias com renda de até um salário mínimo. era de 51. Enquanto 48.114 SOCIOLOGIAS Sociologias. em termos de rede geral de água e de esgoto ou fossa séptica. ela é ainda elevada. 84-135 é da ordem de 26. essa taxa correspondia a 33. no Nordeste é de 88. a taxa de mortalidade infantil em famílias que dispunham de infra-estrutura familiar adequada. apurou-se que 63. Porto Alegre. Assim.6%) por comparação aos domicílios rurais (12%). Dados relativos ao ano de 1991 indicam uma taxa de 25/mil nascidos vivos na Argentina.3/mil nascidos vivos. bem como as diferentes regiões do país. 23/mil nascidos vivos na Colômbia. 36/mil nascidos vivos no México. apenas o eram 5% dos domicílios rurais.6 por mil nascidos vivos.2/mil nascidos vivos.7/mil nascidos vivos. Já entre aquelas com renda superior a um salário mínimo. Esta disparidade é ainda maior no caso das instalações sanitárias. das famílias sem acesso a essa infra-es- . Conforme aponta o relatório citado. manifestando-se acentuadas disparidades. essa taxa é mais alta entre os estratos de rendimento inferior. entre famílias com renda per capita mensal de até meio salário mínimo. É de se destacar os efeitos deste quadro sobre a saúde pública. conforme se pode depreender a partir de comparações internacionais. jul/dez 2002. no segundo caso. No entanto essa proporção era significativamente superior para os domicílios urbanos (81.2/mil nascidos vivos. sua distribuição não alcançou igualmente as áreas urbanas e as rurais. 17/mil nascidos vivos no Chile.5% da população brasileira tinha acesso ao abastecimento de água no interior do próprio domicílio. nº 8.5% dos domicílios urbanos eram servidos por tais instalações. ano 4. 1992).

uma proporção superior à de outros países latinoamericanos como Argentina (5%). No entanto. Somente no Nordeste localizam-se 17. Trata-se de uma proporção próxima de países como Colômbia. ano 4. 1995.92% da população brasileira. 13). e de doenças crônicas e degenerativas. em especial no tocante à escolaridade. A previsão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que.9 por mil nascidos vivos (Lampreia e outros. esta proporção é três vezes maior.2 milhões de analfabetos com dez ou mais anos de idade.9% do conjunto da população. em março de 1995. típicas de cenários de pobreza. Vide Lampreia e outros (1995). Chile (7%) e Uruguai (4%) (Cf. a despeito dos avanços que se verificaram no domínio da educação. O Brasil é o sétimo país em número de analfabetos. Há. a taxa de analfabetismo de pessoas de dez anos e mais é da ordem de 10. p.233. a taxa elevava-se para 107. nº 8. tendo em vista a magnitude . World Bank. no Nordeste. jul/dez 2002. de 20. as disparidades regionais também são gritantes. Conseqüências do acesso desigual ao saneamento básico refletem-se igualmente na distribuição desigual de doenças infectocontagiosas. No terreno da escolarização formal. 23 A mesma fonte informa que o índice oficial de analfabetos no país é.758 pessoas com mais de 15 anos de idade. próprias de cenários sociais caracterizados pelo desenvolvimento e pela generalização do bem-estar no interior de uma população determinada. realizada em Copenhague. Na região Sudeste.SOCIOLOGIAS 115 Sociologias. documentos mais atualizados que já apontam sensíveis mudanças em alguns aspectos da questão social brasileira. Trata-se de uma proporção sujeita a reparos. Table of Social and Economic Conditions. Esse contigente representa a proporção de 12. p.07%. México e Venezuela. alcançando a proporção de 35.9% da população. 08/09/95)23. para o ano de 1991. somente no ano de 2030. correspondente a 19. 3-6. 84-135 trutura. • no que concerne à escolarização formal.2 milhões dos atin- Desenvolvimento Social. 1992). contudo. Porto Alegre. os anos 90 herdaram 20. é que será possível erradicar completamente o analfabetismo entre os cidadãos brasileiros (Folha de São Paulo. • estima-se a existência de nove milhões de famílias enfrentando o problema da fome.

9 milhões de pessoas (Lampreia e outros. sob o argumento de que ele deixa à margem um grande contingente de pessoas efetivamente analfabetas. professor e pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP o Bird baseou suas . entre 24 e 59 meses. World Bank. Panamá. nº 8. os investimentos brasileiros. Paulo. o que. o governo federal havia gasto US$78. 1995). no Brasil é precoce a privatização dos serviços de saúde. para o qual a proporção de crianças.76% do BIB. portadoras de nanismo nutricional24. estão atrás dos investimentos feitos em outros países latinoamericanos como Costa Rica. Segundo Carlos Monteiro. na região sudeste. entre 1975 e 1989. quando o limite aceito e reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 3. manifestam índice de CPO (dentes permanentes cariados. Argentina. havia gasto US$65. ao que se vem associar um modelo de saúde pública centrado em torno do atendimento hospitalar. treze anos mais tarde (1993). informações em pesquisa com crianças nordestinas. 84-135 gidos. entre outros aspectos. critério este criticado por não poucos educadores e por ONGs. Convém observar. em 1990. no limite. correspondendo a 2. Nesta mesma área. Uruguai. 1990). contribui para o agravamento dos problemas existentes (Lampreia e outros.58 per capita. Estudo realizado por pesquisador do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP identificou 15. p. No mais. motivada por investimentos . outrossim.5 – um dos mais altos do mundo. 24 Esta informação corrige dado contido no Relatório “Investimento em Saúde: Indicadores de Desenvolvimento Mundiais”. Nunca é demais sublinhar da população brasileira no período. esse contingente é da ordem de 7. perdidos ou obturados) de 6. em 1980. indicativo de sinais epidêmicos -. na faixa de 12 anos. jul/dez 2002. ao passo que.4% de crianças brasileiras. Chile e México (Cf. convém salientar. crianças. 08/09/95. 1995). A despeito dos investimentos sociais em saneamento básico e em campanhas de vacinação.0. portadoras de nanismo nutricional era da ordem de 29%. Assim. Porto Alegre. Segundo o mesmo pesquisador. 72% de pessoas entre 50-59 anos já extraiu todos os dentes. Folha de S. verificou-se evolução do estado nutricional das crianças brasileiras. Resultados dessa retração em investimentos na área de saúde revelam-se. 36. ano 4. Cf. naquela faixa etária. na saúde bucal: apenas 40% dos jovens dispõem de dentição completa até os 18 anos. cujo padrão nutricional é inferior à média nacional. divulgado pelo Bird em 1995.40 per capita25. que o critério utilizado pelo IBGE para definir o cidadão alfabetizado é “saber ler e escrever um bilhete simples”. no conjunto os investimentos públicos em saúde vêm declinando.116 SOCIOLOGIAS Sociologias.

Evolução dos índices de concentração de renda – Brasil – 19601990 Fonte: Barros & Mendonça (1993). Mais grave ainda é constatar distorções na aplicação de recursos públicos. jul/dez 2002. motivada pela ausência de uma efetiva política de prioridades.63 Índice 100 120 118 126 10+/1034 40 47 78 Índice 100 118 138 229 as entre classes sociais.50 0.59 0. 84-135 que cerca de 23% da população brasileira desfruta de seguro privado de saúde. Estes dados indicam que. nº 8. aprofundaram-se as desigualdades na distri- . Porto Alegre.60 0. ano 4. Apud Lampreia & outros (1995). sem dúvida. p. 26). acumularam-se problemas e dificuldades na implementação de medidas de atenção médica primária (O Estado de São Paulo. Este é. no início da década de 1980. em 1960. Em contrapartida. para realizar tratamento médico inexistente no país. No mesmo sentido. • é crescente a concentração da renda nos últimos trinta anos. A tabela 2. Trinta anos mais tarde. com seus acompanhantes. p. consumiu 6% com a manutenção de um universo inferior a 2 mil pacientes de hemodiálise. Estudo realizado pelo Banco Mundial revelou que. fala por si própria: Tabela 2. o Inamps consumiu cerca de 15% de seu orçamento com despesas decorrentes do envio ao exterior de 127 crianças. o índice que melhor traduz as disparidades regionais e as distânciAno 1960 1970 1980 1990 Coeficiente Gini 0.SOCIOLOGIAS 117 Sociologias. a seguir transcrita. 11/07/93. Os restantes 77% (118 milhões de brasileiros) dependem dos recursos públicos. a renda apropriada pelos 10% mais ricos era 34 vezes superior à renda apropriada pelos 10% mais pobres.

em contrapartida. Tais estudos sugerem que houve inequívoca melhoria do bem-estar. São Paulo. os 10% mais pobres apropriam-se de tão somente 0. Folha de S. 1995.1% do total de rendimentos (Lampreia et al. Estado de S. a propósito. Observe-se. A participação dos 50% mais pobres elevou-se de 10. Cf. e os 50% mais pobres detêm 12. 1995). do Ministério do Planejamento. coordenador de Políticas Sociais do Instituto de Estudos do Setor Público do Governo do Estado de São Paulo.. a despeito de avanços no campo da escolaridade e sociais nas áreas de saneamento básico e campanhas de vacinação. p. Paulo.1%. Lampreia et al. a despeito dos ganhos trazidos pelo Plano Real. ano 4. 26 O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Hoffmann. No mesmo período. Porto Alegre.7% .4% (setembro de 1994) para 11. e os 1% mais ricos detêm 13. decresceu a participação dos 20% mais ricos na apropriação da renda (de 65. isto é. p. realizado por Paes de Barros e outros (2000) indica que.9%. Paulo e O Estado de S. jul/dez 2002. Paulo. acaba de concluir estudo no qual constata sensível melhoria na distribuição da renda. 84-135 buição da renda pois esse gap se eleva para 78 vezes (Cf. Estudo já mencionado. 25. quase metade de toda a renda nacional. 1995). O perfil da distribuição da renda para o ano de 1990 permite aquilatar a magnitude dessa desigualdade: os 10% dos mais ricos apropriam-se de 48. julho de 1993.. 1995. 1990. Em outras palavras.118 SOCIOLOGIAS Sociologias. 11/07/93. nº 8. Dito de outro modo. Barros & Mendonça. que o PNUD anota como 15% a porcentagem de crianças afetadas por nanismo nutricional. reconhecem que os ganhos foram alocados de modo tão desproporcional que teve por efeito acentuar pesadamente as desigualdades sociais. No entanto.8%. estudos demonstram o crescimento da renda beneficiando em termos absolutos todos os grupos sociais. nos últimos trinta anos. 16)26. 25 Informações prestadas por André Cézar Médici. o crescimento do bem-estar e a diminuição relativa da pobreza não lograram neutralizar as profundas disparidades socioeconômicas (Rocha. p. a desigualdade de renda no ano de 1998 é um dos mais elevados das últimas décadas.6% (setembro de 1995). Vale notar que.

SOCIOLOGIAS 119 Sociologias. Porto Alegre. 84-135 Gráfico 5 . nº 8. jul/dez 2002. p. ano 4.

5%. a concentração da renda e da riqueza mantiveram-se nos mesmos padrões de cerca de três ou quatro décadas atrás. a despeito dos interditos constitucionais. fragilizando a institucionalização das relações de trabalho e agravando as situações possíveis de pobreza parecem constituir indicadores desta experiência brasileira de “modernidade inconclusa”. este cenário manteve-se relativamente estável. p.95% da ocupação total.9% das crianças entre dez a 14 anos já trabalham. como a informalização progressiva das relações de trabalho (crescimento da ordem de 8% entre 1989 e 1992). A expansão acelerada do mercado informal. a partir desse cenário social. no Brasil. a elevada taxa de rotatividade de mão-de-obra.12% dos trabalhadores.120 SOCIOLOGIAS Sociologias. De início convém ressaltar que. ilustra esta tendência: • as disparidades na distribuição da renda espelham.23% da população economicamente ativa. Porto Alegre. Pode-se inferir. O mercado informal abrigava 28. jul/dez 2002. a par da concentração da riqueza em particular sob a forma de propriedade privada da terra e do solo urbano. apesar de algumas tendências que se acentuaram. cerca de 16. ano 4. o acesso desigual ao mercado de trabalho. a participação de pessoas com dez anos ou mais no mercado formal de trabalho compreendia 54. a seguir. 84-135 escolarização verificados ao longo dos anos 90. Trabalhadores por conta própria representavam o percentual de 25. Ao longo da década de 1990. a intensidade de emprego de trabalhadores não-qualificados ou de baixa qualificação e a grande heterogeneidade de situações de emprego e de relações de trabalho. que não se logrou universalizar o modelo contratual de organização societária no Brasil.. . 1995). O gráfico 5. Segundo dados compilados pelo Relatório brasileiro sobre desenvolvimento social (Lampreia et al. e a taxa de desemprego era de 6. para o ano de 1981. o que revela o aproveitamento do trabalho infantil como estratégia de sobrevivência familiar. nº 8.

Não é raro que estudantes de ciências sociais. Seja o que for. Ampliaram-se os padrões de consumo e de acesso a bens duráveis. Decerto melhorou o acesso dos segmentos mais pobres ao conforto proporcionado pelo progresso tecnológico. 235). fenômenos que persistiram ao longo dos anos 90 a despeito do crescimento da riqueza e das profundas mudanças por que vem passando a economia brasileira. surpreendam-se com os equipamentos eletrônicos domésticos. p. mesmo entre os segmentos urbanos mais pauperizados. no início deste século. Se a crise econômica afeta a qualidade de vida de imensas populações urbanas. jul/dez 2002. coincidiram com a crise fiscal. A maior parte deles não recebe bonificação de natal (o chamado 13o salário). algo em torno de 53%. à expansão do mercado de trabalho e à garantia de um mínimo de qualidade de vida para o conjunto da população. No entanto permanecem acentuadas restrições de direitos e de acesso às instituições promotoras do bem-estar e da cidadania. inclusive computadores. 1993. nº 8. 1998a. ano 4. entretanto. 84-135 Além do mais. se a concentração da renda permanece a mesma de duas ou três décadas atrás. ela afeta também a capacidade do Estado em aplicar as leis e garantir a segurança da população (O’Donnell. sobretudo de seus segmentos pauperizados e de baixa renda. Adorno. a desigualdade social não é socialmente vivida e experimentada como era há duas ou três décadas. Entre 1996 e o ano passado. p. mais propriamente com fortes restrições ao Estado. é elevada também a proporção daqueles que não percebem férias remuneradas (54%). para reduzir a violência através do estímulo ao desenvolvimento econômico-social. Porto Alegre. aumentou consideravelmente. Por exemplo. a desigualdade social e a concentração de riqueza. o percentual de brasileiros com . Recentes análises têm.SOCIOLOGIAS 121 Sociologias. ao visitarem habitações populares. como explicar então a influência da desigualdade social sobre a violência? Tratase evidentemente de matéria controvertida. a proporção de trabalhadores que jamais tiveram contrato de trabalho formal assinado. argumentado que.

Trata-se de bairros onde é precária a infra-estrutura urbana. Se alguns direitos foram conquistados. Registros de mortes violentas revelam maior incidência nos bairros que compõem a periferia urbana onde são precárias as condições sociais de existência coletiva e onde a qualidade de vida é acentuadamente degradada. vide também Dillon Soares. em um bairro como Perdizes.122 SOCIOLOGIAS Sociologias. 2001. no ano de 1995. 96. outros foram perdidos e outros ainda não alcançaram a maioria dos trabalhadores. onde a ocupação do solo é irregular e. O acesso à internet ainda é restrito.68 ocorrências/cem mil.52 ocorrências/cem mil. Parelheiros. 84-135 16 anos ou mais que se declararam sem ocupação e em busca de emprego saltou de 4% para 11% (Folha de São Paulo. como a cidadania eletrônica e informativa. alguns bairros da periferia urbana acusavam taxas muito mais elevadas: Jardim Ângela. Cano e Santos. Em compensação. como aliás sugerem os mapas de risco elaborados para diferentes capitais brasileiras (CEDEC. quase sempre. Grajaú. jul/dez 2002. Cano.80 ocorrências/ cem mil. de revistas e de jornais. 2000). Porto Alegre.59 ocorrências por 100. repressão incontida e descaso de atendimento nos postos policiais. Por exemplo. ano 4. 2000. ilegal e onde é flagrante a ausência de instituições públicas encarregadas de promover o bem-estar – sobretudo acesso a lazer para crianças e adolescentes – como também de instituições encarregadas de aplicar lei e ordem. como também permanecem restritos os números indicativos do mercado consumidor de livros. p. onde habitam preferencialmente cidadãos proce- . enquanto a taxa de homicídios era de 42. 101. Cardia e Schiffer. no Município de São Paulo. não raro. 1998. nº 8. A presença destas agências é. 111. onde são elevadas as taxas de mortalidade infantil. associada aos fatos que denotam violência desmedida. Há fortes evidências de que o risco de ser vítima de homicídio é significativamente superior entre aqueles que habitam áreas. 24/03/02). regiões ou bairros com déficits sociais e de infra-estrutura urbana. 1996 e 1997.000 habitantes.

ano 4. (mapa) . p. Porto Alegre. jul/dez 2002. nº 8. 84-135 Fonte: Infurb-FAU/USP .SOCIOLOGIAS 123 Sociologias. Gráfico 6.

Tendências idênticas podem ser observadas quando se examinam o congestionamento habitacional e a distribuição espacial dos homicídios: Somos levados a perguntar: é possível falar em respeito aos direitos humanos numa sociedade na qual vigem extremas desigualdades sociais? Vale dizer. à educação. 84-135 dentes das classes médias profissionalizadas. ano 4. Nesse bairro. ao lado do crescimento econômico pós-Plano Real e o aumento médio dos salários respondem pelas principais causas na mudança do perfil da distribuição da renda no Brasil. Observou igualmente que os 10% mais pobres revelaram um aumento de renda em redor de 30%. Também é a região de menor oferta de empregos. a taxa é de 2. a proporção de crianças e adolescentes. é acentuada a distribuição desigual do direito à vida. seguem ilustrações deste fenômeno.4%). como não falar em violência se sequer os direitos sociais fundamentais – o direito ao trabalho. à saúde. . Os mapas têm por referência o Município de São Paulo. É. predominam adequadas condições de vida.124 SOCIOLOGIAS Sociologias. o congestionamento domiciliar (isto é. Porto Alegre. jul/dez 2002. Nesta área. o crescimento demográfico. 1996). de menor oferta de leitos hospitalares e de menor oferta de espaços e agências de promoção de lazer. que ambas as formas de distribuição espacial – maior concentração da violência e maior concentração da desigualdade – são visíveis. De acordo com o economista Paulo Levy. circulação e acesso ao comércio e ao lazer.65 homicídios/ cem mil habitantes (CEDEC. É também nelas que se concentram as taxas mais elevadas de homicídio. nº 8. a proporção de pessoas vivendo por cômodo da habitação). 2000) procura estabelecer relações entre a distribuição espacial da violência e a distribuição espacial das condições de vida e de infra-estrutura urbana. aqueles para 63. por conseguinte. Como se vê. O estudo revela que uma série de indicadores de má distribuição de recursos e de equipamentos urbanos encontra-se concentrado fora da chamada zona expandida do centro – uma área onde as condições e infra-estrutura urbana são mais favoráveis. Abaixo. a estabilização dos preços. Estudo que vem sendo realizado no Núcleo de Estudos da Violência (Cárdia e Schiffer. ou seja. p. é maior a concentração populacional. nos chamados bairros que compõem a periferia do Município de São Paulo. coordenador da pesquisa.

ano 4. p. jul/dez 2002. 84-135 Fonte: Infurb-FAU/USP Gráfico 7.SOCIOLOGIAS 125 Sociologias. (mapa) . Porto Alegre. nº 8.

nº 8. jul/dez 2002. ano 4. p. (mapa) . 84-135 Gráfico 8.126 SOCIOLOGIAS Sociologias. Porto Alegre.

84-135 direitos que recobrem a dignidade da pessoa humana – não estão universalizados. por um lado. Ao mesmo tempo. a partir dos quais se dá a intolerância e a resistência moral dos cidadãos para com a violação de seus direitos fundamentais. entre os quais o mais importante desses direitos – o direito à vida. A pobreza e suas conseqüências. princípios gerais. Sob esta perspectiva. conduziria inevitavelmente a superá-los e a decretar sua definitiva extinção em nossa sociedade. de medidas de eqüidade que traduzam diferenças em cidadania universal e que assegurem o reconhecimento de um espaço – o espaço público – como locus privilegiado de realização do bem comum. antes de um problema de natureza econômica relacionada quer a perturbações momentâneas do mercado e do processo de produção industrial. Porto Alegre. entre os quais a sistemática e cotidiana violação dos direitos fundamentais da pessoa humana. diretas e indiretas. vale dizer. pela desigualdade social e pela exclusão social. e a preservação dos direitos fundamentais da . à igualdade. É nesta medida que se podem estabelecer as conexões entre justiça social e justiça penal. Diz respeito à construção de um repertório de normas. Sua superação requer o reconhecimento de direitos. a vida torna-se o mais precioso bem. jul/dez 2002. ao menos exclusivamente. socialmente pactuados e compartilhados. não constituem resíduos patológicos de um processo inexorável de crescimento econômico cujo ciclo de evolução e desenvolvimento. nº 8. isto é. tudo indica que os problemas postos pela pobreza. sob o qual se encontram edificados todos os demais direitos à liberdade. tudo isso diz respeito também ao reconhecimento de critérios universais e legítimos. de um modelo de desenvolvimento econômico-social incompleto. entre a redução do hiato entre direitos políticos e direitos sociais. não resultam.SOCIOLOGIAS 127 Sociologias. à propriedade e à segurança. de julgamento dos litígios e das contendas sociais. assegurados para todos os cidadãos?27 De fato. ano 4. p. Ao contrário. a pobreza e as desigualdades sociais que lhe subjazem são da ordem da justiça social. quer a estágios incompletos do desenvolvimento. tudo converge para sugerir que. uma vez concluído.

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