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SISTEMAS SILVIPASTORIS NO CONTEXTO DA AGRICULTURA FAMILIAR DA REGIÃO NORDESTE DO ESTADO DO PARÁ 1

Camila Dayane Perrone AMADOR *1 ; Rodrigo Silva do VALE *2 ; Wilza Silveira PINTO *3 ; Leidy

Alves dos SANTOS

*4

; Danila Gonçalves de SOUSA *5

1 Acadêmica do curso de Engenharia Florestal da - UFRA, Belém, PA. Email:

2

5

camilaperrone@yahoo.com.br;

Professor, D. Sc, UFRA. Email: rodrigo.vale@ufra.edu.br;

3 Engenheira Agrônoma, email: wilza.pinto@ufra.edu.br; 4 Mestranda em Ciências Florestais - UFRA.

Acadêmica do curso de Engenharia Florestal da UFRA. Email:

danila09@hotmail.com

Email: dossantos.leidy@gmail.com;

RESUMO Os sistemas silvipastoris apresentam-se como modelos alternativos de utilização e manejo do solo, e contribuem com a sustentabilidade do sistema produtivo. O presente trabalho objetivou analisar a viabilidade econômica de um sistema silvipastoril no contexto da agricultura familiar, considerando a integração da cultura da Tectona grandis Linn f. com a ovinocultura na região Nordeste do Estado do Pará. Para análise de viabilidade econômica, foram elaborados os custos e receitas oriundos da implantação do sistema silvipastoril até o final de 20 anos. Para a determinação dos custos foram consideradas as operações necessárias para a implantação e manutenção do sistema. As receitas obtidas com o sistema de produção proposto advêm da venda de animais para abate e da madeira em pé. Os indicadores econômicos para avaliação econômica, com taxa de desconto de 10% ao ano foram: valor presente líquido (VPL) e taxa interna de retorno (TIR). A análise financeira mostrou que o sistema silvipastoril a uma taxa de desconto de 10% é economicamente viável, sendo evidenciado pelo valor positivo do VPL (R$16.677,17/ ha) e TIR (15%) superior a taxa de desconto considerada no estudo.

Palavras-chave: Viabilidade econômica, Sistema silvipastoril, Tectona grandis Linn f., Agricultura Familiar.

1. INTRODUÇÃO A atividade antrópica e a ocupação desordenada do solo, ocasionada pela expansão da fronteira agrícola e pelo estabelecimento de pastagens, concorreram para um processo de fragmentação da

cobertura florestal nativa (MEIRA NETO & SILVA, 1995). A substituição da cobertura vegetal, juntamente com práticas inadequadas de cultivo, tem levado os solos à degradação, seja pela perda de fertilidade ou diretamente pela perda de solo por meio de processos erosivos. Como conseqüência disto, pode-se observar redução na vazão de mananciais hídricos e o assoreamento de córregos, rios

e lagos.

Neste sentido os sistemas silvipastoris apresentam-se como protótipos alternativos de uso e manejo do solo que surgem como mecanismo para contribuir com a sustentabilidade do sistema produtivo, principalmente diante da condição de instabilidade das áreas de pastagens em quase todo o Brasil. Visando alcançar a sustentabilidade na produção florestal, agrícola e animal, Macedo et al. (1999) salientam que a combinação entre as espécies deve ocorrer de forma científica, ecologicamente desejável, praticamente factível e socialmente aceitável pelo produtor rural, para que se obtenham os benefícios esperados. Segundo Bittencourt e Bianchini (1996), agricultor familiar é todo aquele (a) agricultor (a) que tem na agricultura sua principal fonte de renda (+ 80%) e que a base da força de trabalho utilizada no estabelecimento seja desenvolvida por membros da família. É permitido o emprego de terceiros temporariamente, quando a atividade agrícola assim necessitar. Neste contexto Carmo (1999), abordando o perfil da agricultura brasileira, se refere à agricultura familiar como forma de organização produtiva em que os critérios adotados para orientar as decisões relativas à exploração agrícola não se subordinam unicamente pelo ângulo da produção/rentabilidade econômica, mas leva em consideração também as necessidades e objetivos da família. Contrariando

o modelo patronal, no qual há completa separação entre gestão e trabalho, no modelo familiar estes fatores estão intimamente relacionados.

1 Parte do trabalho de iniciação científica da primeira autora como bolsista PIBIC/CNPq/UFRA.

O trabalho objetivou analisar a viabilidade econômica de um sistema silvipastoril no contexto da

agricultura familiar, considerando a integração da cultura da Tectona grandis com a ovinocultura na região Nordeste do Estado do Pará.

2.

MATERIAL E MÉTODOS

O

presente estudo foi desenvolvido para a região Nordeste do Estado do Pará, o qual foram utilizados

dados coletados no município de Castanhal, PA. Foi considerada a integração da cultura da Tectona grandis Linn f. (Teca), no espaçamento 3 x 3m, totalizando 1111 plantas por hectare e a criação de

Ovinos (Raça Santa Inês). Para alcançar o objetivo do presente estudo considerou-se a implantação de um modelo de sistema silvipastoril com Teca associada à criação de ovinos da raça Santa Inês. O sistema adotado é o semiconfinamento, com pastoreio durante o dia e confinamento no período noturno. O sistema de pastoreio considera uma lotação de 10 animais/ha e a capacidade do pasto é para 1 macho, 5 fêmeas e 4 borregos (machos) /ano.

A interação entre os componentes do sistema Silvipastoril proposto ocorreu a partir do Ano 2, com a

implantação da pastagem (Capim mombaça – Panicum maximum cv. Mombaça) dividida em piquetes por categoria animal e a aquisição e introdução dos animais no sistema. No presente estudo foram levantadas as operações necessárias para implantação e condução de 1

ha do sistema silvipastoril analisado (pastagem + Teca), seguido do levantamento dos custos e receitas até o final de 20 anos. Para constatar a viabilidade técnica do sistema foi realizado um trabalho de revisão de literatura e visitas a empresas, órgãos públicos e privados, bem como a algumas propriedades rurais na região, visando obter informações que mostrem as características e

as perspectivas de mercado dos produtos oriundos do sistema.

No trabalho foram ajustados os índices técnicos (demanda necessária) de cada elemento de

despesa, além da pesquisa em mercado para obtenção dos valores unitários (R$) de despesas para

cultura da Teca e criação de Ovinos. Com os dados de custos e receitas foi elaborado um fluxo de caixa para o sistema avaliado, por um período de ocorrência do item de custo e, ou, receita.

a

A

manutenção anual do sistema de produção de ovinos considerou os custos com mão-de-obra para

o

manejo dos animais, sal mineral, vacinas e medicamentos. Na atividade florestal para as

manutenções anuais nos anos 2 e 3 considerou-se: o coroamento, roçagem mecanizada, conservação de estradas e aceiros, poda dos galhos, custos operacionais e custo da terra. Nas manutenções anuais do reflorestamento do 5º ao 20º ano considerou-se a conservação de estradas, aceiros e cercas, custo operacional e custo da terra. Foram desconsiderados os custos de exploração, transporte e serração que ficaram por conta do

comprador. No ano 10 considerou-se a realização um desbaste de 50% e no ano 14 um outro desbaste de 50% no povoamento de Teca. As receitas obtidas com o sistema de produção proposto advêm da venda de animais para abate em Kg de Peso Vivo (Kg.P.V) e da madeira em pé. Para tanto, foi utilizado um cenário teórico para a atividade florestal com corte raso no 20 o ano . No ano 10, com a realização de um desbaste, considerou-se a R$ 486,00 o preço do m 3 da madeira,

no ano 14 (segundo desbaste a 50%) o

preço do m 3 equivalendo a R$ 800,00 e no ano 20 (corte

raso) o m 3 da madeira custando R$1.500,00. Para estimar as receitas com a venda de madeira e animais, foi considerado uma produtividade média para a Teca aos 10 anos de 0,15m 3 /árvore, aos 14 anos 0,41m 3 /árvore e aos 20 anos de

0,61m 3 /árvore e a produção de ovinos foi avaliada em Kg.P.V, considerando o peso unitário a R$ 3,50

e a produção anual por hectare de 540 Kg.P.V.

Para consumo familiar foi considerada que cada família possui 5 membros com um consumo de 24

Kg de peso vivo/família/ano. O consumo e as transferências para outras atividades foram computados como receita para as famílias.

A taxa de desconto escolhida foi de 10% ao ano, por ser uma das mais utilizadas pelo setor florestal

brasileiro, que tradicionalmente trabalha com taxas entre 6 e 12%, embora a aplicação de taxas de

longo prazo sejam mais indicadas, calculadas em função de seus fatores formadores, conforme salienta JÚNIOR et al. (1997). Para a análise de viabilidade econômica foram utilizados os seguintes indicadores: Valor Presente líquido (VPL) e Taxa Interna de Retorno (TIR).

3.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O

custo total para implantação da ovinocultura foi de R$13.447,35 e o do reflorestamento de R$

3.856,40/ha, totalizando R$ 17.303,75 para implantação do sistema em cada 1 ha da propriedade.

O custo total envolvendo a implantação e as manutenções anuais até o final de 20 anos para o

sistema silvipastoril (Teca + ovinos) foi de R$ 47.684,30/ha. No ano 10 as receitas oriundas do desbaste originam um total de R$ 7.699,35/ha, no ano 14 R$ 91.184,00/ha e no corte final, ano 20, a receita foi de R$ 37.033,22/ha.

Uma vez obtido os índices e valores, foi elaborado um fluxo de caixa e em seguida realizada a análise de viabilidade econômica com os parâmetros propostos no trabalho. Para a taxa de desconto de 10% ao ano, o sistema silvipastoril (Teca + ovinos) apresentou um VPL

de R$16.677,17/ha, que representa o lucro líquido e descontado para o horizonte de 20 anos.

Portanto, a viabilidade econômica do sistema, pelo método do VPL, é indicada pela diferença positiva entre as receitas e os custos, atualizados de acordo com a taxa de desconto de 10% ao ano, conforme descrito anteriormente.

A taxa interna de retorno (TIR) é a taxa de desconto que iguala o valor atual das receitas futuras ao

valor atual dos custos futuros do projeto, ou seja, é a taxa média de crescimento de um investimento.

O sistema silvipastoril (teca + ovinocultura) apresentou uma TIR de 15%. A viabilidade é apresentada

uma vez que a TIR encontrada superou a taxa de desconto de 10% ao ano, considerada no estudo. Segundo Drescher (2004), as plantações de Teca (Tectona grandis Linn F.), espécie oriunda do Sudeste Asiático, surgem como uma alternativa substituta de outras espécies de alto valor econômico, como o Mogno (Swietenia macrophylla G. King) e a cerejeira (Torresia acreana Ducke),

por exemplo. Oferecendo excelentes perspectivas aos madeireiros, proporcionando segurança no atendimento da reposição florestal por ser vigorosa e de resultados comprovados e, ao mesmo tempo, apresentando-se como uma alternativa para a possibilidade de suprimento sustentável da indústria de base florestal.

4. CONCLUSÔES

De acordo com os métodos de análise financeira utilizados no estudo, o sistema silvipastoril

envolvendo a espécie Tectona grandis Linn. F. (Teca) consorciada com os ovinos da raça Santa Inês

a uma taxa de juros de 10% ao ano é economicamente viável, sendo evidenciado pelo valor de VPL positivo (R$16.677,17/ha) e TIR (15%) maior do que a taxa de desconto considerada no estudo.

A análise de viabilidade econômica foi um parâmetro muito importante no estudo, pois permitiu

observar os custos e as receitas obtidas com o sistema avaliado. Dessa forma, verificou-se que o sistema silvipastoril modelizado no estudo apresentou receitas durante o horizonte de 20 anos que

justificam o plantio de teca na pastagem. Portanto, o consórcio entre os componentes do sistema analisado gera maiores receitas para o produtor, tornando a atividade economicamente viável, além de manter o potencial produtivo e otimizar a produção por unidade de área.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BITTENCOURT, G. A.; BIANCHINI, V. Agricultura familiar na região sul do Brasil, Consultoria

UTF/036-FAO/INCRA, 1996. CARMO, R.B.A. A Questão Agrária e o Perfil da Agricultura Brasileira 1999 Disponível em http://www.cria.org.br/gip/gipaf/itens/pub/sober. Acesso em: 10 de abril de 2009.

DRESCHER, RONALDO. Crescimento e produção de Tectona grandis Linn F., em povoamentos jovens de duas regiões do estado de Mato Grosso – Brasil. Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria - RS, Brasil, p. 18, 2004. JUNIOR, V. B. L.; REZENDE, J. L. P.; OLIVEIRA, A. D. Determinação da taxa de desconto a ser usada na análise econômica de projetos florestais. Revista Cerne, v. 3, n. 1, p. 45-66, 1997. MACEDO, R.L.; PEREIRA, A.V.; PEREIRA, E.B.C.; VENTURIN, N. Análise técnica do potencial de utilização da seringueira em sistemas agroflorestais permanentes. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL

SOBRE ECOSSISTEMAS FLORESTAIS, 5, FOREST, Curitiba, 1999. Anais

Biosfera, 1999. 4p. MEIRA NETO, J. A. A.; SILVA, A. F. Caracterização dos fragmentos florestais das áreas de influência e diretamente afetada da UHE de Pilar. Vale do Rio Piranga, Zona da Mata de Minas Gerais. Viçosa: FUNARBE, 1995. 57 p.

Rio de Janeiro,