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ESCOLA SECUNDÁRIA JORGE PEIXINHO Ficha de Consolidação dos Conteúdos

ESCOLA SECUNDÁRIA JORGE PEIXINHO Ficha de Consolidação dos Conteúdos

ESCOLA SECUNDÁRIA JORGE PEIXINHO Ficha de Consolidação dos Conteúdos

Mensagem de Fernando Pessoa

“Minha pátria é a língua portuguesa” Fernando Pessoa

Génese, estrutura e classificação da obra

Mensagem, o único livro de versos portugueses organizado e publicado por Fernando Pessoa, é, das suas obras, aquela onde a visão ocultista 1 mais perfeitamente se concretiza, sendo também aquela onde o itinerário da sua inteligência poética nos aparece intimamente associado à realidade histórica. Considera o próprio autor que este livro se integra numa linha de criação poética que designa de »nacionalismo mítico». Em carta, de 1935, a Casais Monteiro, sobre a génese dos heterónimos, escreve:

«Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com um livro da natureza da Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou; à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a Mensagem não as inclui.» mais à frente, Pessoa diz que concorda com os factos (a publicação), acentuando que o aparecimento do livro coincide «com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional.» O facto de as poesias que constituem o livro possuírem datas que oscilam entre 1913 e 1934 (o ano da publicação, que é o ano anterior à morte de Fernando Pessoa) pode ser visto como a afirmação da constância de uma linha de nacionalismo profético declarada já em 1912, em artigos sobre «A Nova Poesia Portuguesa», publicado na revista Águia. Aí se afirma o propósito de contribuir para a criação do «supra-Portugal de amanhã». O poema «D. Fernando. Infante de Portugal». Datado de 1913, constitui a reformulação de uma versão que originalmente não pertencia ao projecto da obra (tendo sido publicado em Orpheu 3 com o título «Gládio») e cuja inserção nesta é indicadora da sua longa germinação. A obra nasce principalmente em três períodos criadores: do primeiro, entre 1918, se não antes, e 1922, resulta Mar Português; o segundo são os últimos meses de 1928, em que surgem predominantemente composições de Brasão; o terceiro são os primeiros meses de 1934, que precedem imediatamente a

publicação do volume. Constituem as datas dos poemas um elemento de ligação à sociedade e à cultura de uma época, que seria motivo de equívoco se a sua leitura não mostrasse que o nacionalismo da Mensagem é uma proposta de renascer para a diversidade, compatível com um ideal cosmopolita. A totalidade «Portugal» (o livro esteve para ser intitulado deste modo) é um mundo aberto para o futuro que só existe num processo de criação dramática. Para Pessoa, a existência de Portugal como nação anda a par com a sua existência poética e é esta que considera em perigo, estagnada, propondo-se engrandecê-la. A concretização do «propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade» passa pelo fazer outra a história nacional. Encontrar nela a disponibilidade que o move. Sabê-la, como a si, uma ficção interminável. Mensagem, enquanto poema épico-lírico, rivaliza com o canto épico da literatura portuguesa Os Lusíadas de Luís de Camões e prossegue, noutro sentido, a História do Futuro do Padre António Vieira. Como parte do diálogo intertextual interior à obra de Fernando Pessoa, este livro conduz-nos perante aspectos fundamentais para a compreensão, nomeadamente os seguintes:

- A relação entre a estética e a política, ou melhor, entre a criação artística e o empenhamento pluridimensional do autor, a sua responsabilidade perante a comunidade.

- A conjugação do processo que dá origem ao «drama em gente» (antimito da personalidade) e a busca de uma supra-identidade, o mito do mito, do «nada que é tudo». A ligação do pensamento poético-filosófico de Pessoa ao saudosismo 2 profético da tradição portuguesa.

1 Ocultismo crença na existência de realidades ocultas, supra-sensíveis, e de métodos susceptíveis das apreender (magia, astrologia, espiritismo, etc.) 2 Saudosismo - Movimento nacionalista, poético e filosófico português do primeiro quartel do século XX, inspirado por Teixeira de Pascoaes. Constituiu-se como a expressão filosófica de uma pretensa «alma portuguesa», própria de uma hipotética «Raça» portuguesa, que este poeta expôs num artigo intitulado «Renascença» na revista A Águia em 1912. Embor a contemporâneo da estética simbolista, considera-se que o Saudosismo consiste num desenvolvimento de um misticismo que se acentua na fase de declínio da Geração de 70. Tal como Gomes Leal e Raul Brandão, Pascoaes parte da formulação metafísica do mal e da dor para fazer uma apologia da saudade como carácter nacional português.

Súmula

Levantamento dos aspectos caracterizadores de Mensagem referidos no texto:

o

único livro de versos portugueses publicado por Pessoa (1-12-1934);

o

a visão ocultista da história;

o

a relação entre a inteligência poética e a realidade histórica;

o

a presença de um nacionalismo místico aliado a um sebastianismo racional e a sua integração num momento de remodelação do subconsciente nacional;

o

o nacionalismo profético e a criação do “supra-Portugal de amanhã”;

o

as três fases de criação da Mensagem;

o

o nacionalismo cosmopolita;

o

o conceito de nação ligado ao da sua existência poética;

o

as características épico-líricas do poema;

o

a relação entre a estética e a política;

o

a valorização do mito;

o

o pensamento pessoano e o saudosismo profético (Sebastianismo) da tradição portuguesa.

Explicitação, dentro da filosofia da Mensagem, de alguns conceitos referenciados no texto:

o a visão ocultista da história

a história e os seus heróis são sempre apresentados como o produto e os intérpretes de uma vontade divina e transcendente;

o nacionalismo místico

os conceitos de pátria e de nação estão sujeitos a um processo de mitologização,

valorizando-se os aspectos espirituais em detrimento dos materiais;

o sebastianismo racional/profético

Pessoa opõe ao sebastianismo passadista e tradicional um outro aberto para o futuro,

decididamente virado para a construção de um império da língua e da cultura portuguesas. Arquitectura e símbolos da Mensagem

As três partes em que se divide o livro e a organização de cada uma delas revelam a importância fundamental da estruturação triádica e a oscilação tendente para um esquema de síntese quíntupla. As três divisões principais são as seguintes: heráldica BRASÃO; descobertas MAR PORTUGUÊS; profecia O ENCOBERTO. A posição intermédia de «Mar Português» estabelece a sucessão império material-império espiritual, porquanto no mar se simboliza a essência de um ideal ser-se português o estar com a distância é o jamais aceitar ser-se vencido, o não se contentar de ser vencedor. A unidade do poema é construída a partir de valores simbólicos que integram o passado histórico transfigurado em mito e a intervenção de um futuro. Os heróis míticos figuram sucessivamente: a formação e a consolidação da nacionalidade; as descobertas e a expansão imperial: a esperança de um novo império. Em cada uma das partes que concorrem para a totalidade se podem encontrar figuras dominantes: Nun’Álvares, o Infante, D. Sebastião. Todavia, o que ressalta desse conjunto originado numa rigorosa selecção é que não são factos ou feitos gloriosos, empíricos, que criam o destino, mas o processo de mitologização que lhes confere vida espiritual fazendo que concorram para uma conjunção de atitudes e valores. Num plural harmonioso se reúne a inconsciência e a consciência, como motores de acção; os heróis movidos por um instinto obscuro e os que agem voluntariamente. Nele confluem o activo e o passivo, a coragem guerreira e a capacidade de sacrifício, o desejo de posse e a contemplação sem objectivos.

Súmula

Levantamento dos aspectos caracterizadores de Mensagem presentes no texto:

o estrutura triádica:

“Brasão” – heráldica, as origens, a fundação, “Mar Português” – as descobertas,

“O Encoberto” – a profecia;

o

a passagem do império material (consubstanciado em “Brasão”) ao império espiritual (anunciado em “O Encoberto”);

o

a construção da unidade do poema a partir de valores simbólicos, dos heróis míticas e da esperança de um novo império;

o

os heróis como intérpretes de uma vontade transcendente.

Como conclusão a esta primeira aproximação à Mensagem dever-se-á referenciar alguns aspectos diferenciadores entre Os Lusíadas e a Mensagem:

Os Lusíadas

dimensão real e concreta (acção)

carácter narrativo e descritivo

conceito tradicional de herói

valorização do passado

nacionalismo

Mensagem

dimensão simbólica e emblemática

carácter abstractivo e interpretativo

o verdadeiro heroísmo é o da criação poética

exaltação do futuro

nacionalismo universalista

POEMAS DA 1.ª PARTE: “Brasão”

PRIMEIRO / O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto. Fita, com olhar esfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado.

ABORDAGEM DO TEXTO

Poema de abertura da Mensagem.

Explicitação do título: aquele que apresenta castelos na sua bandeira, ou seja, Portugal.

Levantamento das características da Europa:

o

figura feminina que se apresenta numa posição estática: ”(

)

jaz, fitando”;

o

importância dos olhos na globalidade do retrato, uma vez que o olhar é esfíngico (vazio) e fatal;

Descodificação do simbolismo presente na postura da Europa: um continente que já desvendou, no passado, o futuro (“O Ocidente, futuro do passado.”), assume agora uma atitude expectante e contemplativa.

Referência, a partir do último verso, ao papel que cabe a Portugal, o de guiar a Europa e o Mundo até a um império espiritual liderado por um “super-Portugal”. Este aspecto constitui a essência do nacionalismo profético que percorre toda a Mensagem.

PRIMEIRO / ULISSES

O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo - O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou.

Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre.

ABORDAGEM DO TEXTO

Justificação da referência a Ulisses num conjunto de poemas que glorificam a história e figuras nacionais. Segundo a lenda, após a vitória em Tróia e quando regressava e Ítaca, Ulisses perdeu -se no Mediterrâneo e durante essa viagem atribulada teria chegado até ao estuário do Tejo e fundado Lisboa. Assim, e porque Lisboa significa aqui metonimicamente Portugal, esta referência a Ulisses, figura mítica vinda do mar, simbolizaria o destino marítimo dos Portugueses.

Explicitação do paradoxo contido no primeiro verso do poema: “o mito é nada” porque é uma explicação fantasiosa do real, no entanto, porque explica esse mesmo real, acaba por se tornar, também ele, concreto.

Constatação do valor e das possibilidades criadoras do mito presentes na 2.ª estrofe.

Chamada de atenção para a valorização constante do mito, elevado pelo sujeito poético, a um estatuto criador e divino (“Assim a lenda escorre/ A entrar na realidade, / E a fecundá -la decorre.”).

Constatação de que o tom eufórico que percorre todo o texto evolui para uma evidente disforia contida nos dois últimos versos, facto que evidencia, de novo, a valorização do mítico e do lendário

e a desvalorização do real e do concreto.

SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver, E ouve um silêncio múrmuro consigo:

É o rumor dos pinhais que, como um trigo De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro, Busca o oceano por achar; E a fala dos pinhais, marulho obscuro, É o som presente desse mar futuro, É a voz da terra ansiando pelo mar.

ABORDAGEM DO TEXTO

Levantamento dos aspectos caracterizadores de D. Dinis.

Constatação do aspecto mítico ligado à missão transcendente e profética do rei, apresentado como

o intérprete de uma vontade superior e divina.

Referência ao carácter metafórico (ex.: “O plantador de naus a haver”) e anafórico (“É o rumor dos

do texto, factores que sublinham o aspecto visionário da

pinhais (

missão de que o rei foi imbuído.

)”,

“É

a

voz da terra

(

)”)

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?

ABORDAGEM DO TEXTO

Constatação de que o emissor/personagem do texto se assume como um louco, característica sublinhada pela repetição do adjectivo.

Levantamento das consequências dessa loucura explicitadas nos dois últimos versos da 1.ª estrofe (o que ficou no areal foi apenas o material, não o lendário, não o mítico).

Referência ao carácter exortativo de alcance nacional e universal presente na 2.ª estrofe. O apelo à loucura e a valorização do sonho aqui presentes constituem o oposto do discurso do Velho do Restelo onde se faz o elogio do bom senso e da razão.

Relacionação entre a variação métrica dos versos e o conteúdo do poema.

Constatação de que a presença de um certo autobriografismo do texto o afasta das características épicas que predominam em muitos dos textos da Mensagem.

Poemas da 2.ª parte: “Mar Português”

I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

ABORDAGEM DO TEXTO

Identificação da relação existente entre o sujeito poético e o infante: admiração, cumplicidade veiculadas pelo emprego do discurso de 2.ª pessoa.

Referência às imagens visuais presentes na segunda quadra e que apontam para o desvendar da terra e a conquista do mar (orla branca, clareou, correndo, redonda, azul profundo).

Constatação de que após o cumprimento da missão no passado (“Cumpriu-se o Mar”) sobreveio

uma época de desencanto e decadência (“(

)

o império se desfez.”) no presente.

Identificação do destinatário do apelo contido no último verso: Deus. É esta vontade transcendente que levará Portugal, no futuro, a cumprir o seu destino mítico, o de se constituir como líder

espiritual, onde, de novo, o homem português seja mitificado.

Referência ao facto de n’Os Lusíadas serem praticamente inexistentes as referências ao Infante D. Henrique, o que corrobora a posição claramente africana de Camões no que diz respeito à política expansionista portuguesa. Pelo contrário, Pessoa apresenta o Infante como um dos “escolhidos” de Deus imbuído de uma missão: desvendar o mar e unir a terra.

IV. O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tetos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso. «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as repreendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!»

ABORDAGEM DO TEXTO

Referência histórica ao reinado de D. João II, passagem do Cabo das Tormentas por Bartolomeu Dias.

O gigante não tem direito a uma identidade, é uma “coisa” informe, cuja carga pejorativa é reforçada pelo emprego do sufixo “engo”.

O interlocutor é o símbolo de um povo, é um herói mítico que tem uma missão a cumprir.

à neutralização do mostrengo pela imposição da vontade de um povo que não abdica da sua missão.

X. MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

ABORDAGEM DO TEXTO

Carácter abstracto de pendor metaforizante

Atmosfera de sofrimento que conduz à conquista do absoluto

No mar e na sua conquista simboliza-se a essência de um idela: ser-se português. O mar é o símbolo do sofrimento, mas é nele que se espelha o céu, símbolo do Absoluto, por isso a conquista do mar é também a partilha do Absoluto, é o aceder ao divino.

Poemas da 3.ª parte: “O Encoberto”

É evidente que Pessoa não inventou o Sebastianismo, encontrou-o na tradição portuguesa; mas ao adoptá-lo, aprofundou-o e transfigurou-o. Sobretudo, uniu-o de uma forma pessoal ao outro grande mito tradicional português: o do Quinto Império. Para Pessoa, os quatro primeiros impérios já não são os da tradição, mas os quatro grandes momentos da civilização ocidental: a Grécia, a Roma antiga, o Cristianismo, a Europa do Renascimento e das Luzes. Já não se fala da Assíria nem da Pérsia, nem, aliás, do Egipto ou da China: o mundo é europeu. Mas, sobretudo, quando fala do Império vindouro, já não se trata de todo do exercício de um poder temporal, nem sequer espiritual, mas da irradiação do espírito universal, reflectido nas obras dos poetas e dos artistas. Ele condena a força armada, a conquista, a colonização, a evangelização, todas as formas de poder. O Quinto Império será «cultural», ou não será. E se diz, como Vieira, que o Império será português, isso significa que Portugal desempenhará um papel determinante na difusão dessa ideia apolínea 3 e órfica 4 do homem que toda a sua obra proclama. Um português como ele, homem sem qualidades, infinitamente aberto, menos marcado que os outros, tem mais vocação para a universalidade. Não há dúvidas de que aquilo a que chama metaforicamente o Quinto Império se realizaria por ele e nele; é o sentido de um texto de 1935, em que afirma que «a segunda vinda» de D. Sebastião já se verificou, cumprindo a profecia de Bandarra, em 1888, data que marca «o início do reino do sol».

Súmula

Indicação dos aspectos temáticos fundamentais:

o

os mitos tradicionais portugueses: o Sebastianismo e o Quinto Império;

o

o conceito pessoano de império ligado ao de civilização;

o

o Quinto Império de Pessoa: universal, espiritual e cultural, centrado em torno do papel preponderante de Portugal.

SEGUNDO / O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa, Contente com o seu lar, Sem que um sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raiz Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem No tempo que em eras vem. Ser descontente é ser homem. Que as forças cegas se domem Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro Tempos do ser que sonhou, A terra será teatro Do dia claro, que no atro Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade, Europa os quatro se vão Para onde vai toda idade. Quem vem viver a verdade Que morreu D. Sebastião?

3 APOLÍNEO - de Apolo; relativo ao Sol; formoso como Apolo; (filosofia) em Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900), princípio da harmonia, da

beleza, da mesura ou domínio de si.

4 ÓRFICO - feito ou celebrado em honra de Baco, deus do vinho; relativo a Orfeu.

Abordagem do texto

Identificação da(s) oposição (ões) dominante(s) ao longo do poema:

Calma

/vs.

Sonho

felicidade

/vs.

carácter negativo

descontentamento

carácter positivo

Indicação da característica essencial do homem: o descontentamento que levou ao sonho, mola impulsionadora do progresso e do avançar constante.

Identificação entre o sonho e a verdade.

Referência aos quatro impérios civilizacionais.

Apelo para a construção do Quinto Império.

Reformulação do Sebastianismo. O Sebastianismo pessoano é aberto ao futuro, é regenerador, é aquele que transmite um desejo absoluto de contínua renovação.

O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?

O Quinto Império. O futuro de Portugal que não calculo, mas sei está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas de Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundidos portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a Terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são de verdade.

Entrevista a Fernando Pessoa, in Revista Portuguesa, n.º 23-24, Lisboa, Outubro de 1923

QUINTO / NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo 5 encerra.

Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro

Abordagem do texto

É a Hora!

Indicação dos aspectos temáticos fundamentais:

o

a caracterização pela negativa e pela indefinição de Portugal do presente;

o

a falta de identidade nacional;

o

o sentimento de incerteza e dispersão;

o

o apelo messiânico para a construção de um futuro diferente.

Referência a aspectos formais relevantes:

5 FÁTUO adj. que tem fatuidade; presumido; néscio; ignorante; muito estulto; pretensioso; que só dura um instante.

o

a acumulação das construções negativas;

o

as construções anafóricas;

o

as aliterações;

o

o discurso apelativo.

O ESSENCIAL

Fernando Pessoa, na Mensagem, procura anunciar um novo império civilizacional. O «intenso sofrimento patriótico» leva-o a antever um império que se encontra para além do material.

Estrutura tripartida da Mensagem:

Nascimento;

Vida;

Morte/renascimento

Os 44 poemas que constituem a Mensagem encontram-se agrupados em três partes:

Primeira Parte Brasão (os construtores do Império) A 1.ª parte o «Brasão» - corresponde ao nascimento, com referência aso mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.

Segunda Parte Mar Português (o sonho marítimo e a obra das descobertas) Na 2.ª parte - «Mar Português» - surge a realização e vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas porque «tudo vale a pena», a missão foi cumprida.

Terceira Parte O Encoberto (a imagem do Império moribundo, a fé de que a morte contenha

em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e

civilizacional na diáspora

Na 3.ª parte - «O Encoberto» - aparece a desintegração, havendo, por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois «falta cumprir-se Portugal». É preciso acontecer a regeneração que será anunciada por símbolos e avisos.

6

lusíada. A esperança do Quinto Império)

Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói o Encoberto que se apresenta como D. Sebastião. Note- se que o ocultismo remete para um sentimento de mistério, indecifrável para a maioria dos mortais. Daí que só o detentor do privilégio esotérico (= oculto/secreto) se encontra legitimado para realizar o sonho do Quinto Império.

O ocultismo:

Três espaços: o histórico, o mítico e o místico;

“A ordem espiritual no homem, no universo e em Deus”;

Poder, inteligência e amor na figura de D. Sebastião.

A conquista do mar não foi suficiente (o império material desfez-se, ou seja, a missão ainda não foi cumprida):

falta concretizar este novo sonho um império espiritual

A construção do Futuro (a revolução cultural) tem que ter em conta o Presente e deve aproveitar as lições do Passado, fundamentando-se nas nossas ancestrais tradições.

A atitude heróica é importante para a aproximação a Deus, mas o herói não pode esquecer que o poder baseado na justiça, na lealdade, na coragem e no respeito é mais valioso do que o poder exercido violentamente pelo conquistador a opção clara pelo poder espiritual, pelo poder moral, pelos valores

6 Diáspora emigração ou saída forçada da pátria