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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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Coleção Ignacio Rangel

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APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. eles não o poderiam ser. Nada o pode impedir”3. 7 . isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. como é característico do mister do ladrilhador da História. Maureli Costa e Pedro Braga.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. responder a essas perguntas ou pelo menos. É certo. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel.. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. com Ignacio Rangel. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. Não conheci Ignacio Rangel.. que mesmo não podendo voltar até lá. Fernando (Alberto Caeiro). Quando partiu deste mundo. Volver A Los 17. como o poeta há muito afirmou. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. 3 PESSOA. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. incompletos dez anos tinha. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. fornecer indicativos para elas. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. Se eu morrer de novo. tão presente. o que dele sei me vem. que em sendo seus versos belos. e quem sabe. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. publicada na forma de livro. 2 SOSA. Mercedes. Raimundo Palhano. Portanto. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. retomamos após dezessete anos esse projeto. Tem que ser assim por força. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus.

ensinando que mais do que cantar glórias passadas. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. Os artigos identificados foram: 1. devemos é buscá-las no presente. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. todos de 1989. operação que deve ser planificada. Ao analisar a história das guerras em “Fogo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. isto é. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. Fogo. 2. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. blindagem e conjuntura e 3. sustentável. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. Maranhão: antigo e novo. ao civismo. não se manteve. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. eco de sua formação cepalina. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. Profeticamente disse “ora somente. o desenvolvimento endógeno. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. construí-las no agora e por diante. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. pensando GRANDE. 8 . Por último. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. Tecnologia e Custo de Produção. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro.

pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. familiares. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. setembro 2005: 9093. O Pensamento de Ignacio Rangel. SANTOS. 4 9 . Primeira Leitura nº 43. 1991. Na franja tênue entre a razão e a emoção. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. v. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. o decifrador e o ídolo. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. 1). verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. a poesia e a prosa. admiradores. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. A volta por cima de Ignacio Rangel. dando conta das várias dimensões. Me refiro a RANGEL. o intelectual. 2. Os do primeiro foram: 1. amigos. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. publicados na revista FIPES. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. para alguns inconciliáveis. al. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. Maureli Costa. Milton. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. e 3. mas para nós não. outros quatro sobre ele são postos. Luiz Carlos. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. São Luís: SIOGE. et. Entrevistado por Rossini Corrêa. 5 BRESSER-PEREIRA. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5.1 (Coleção Ignacio Rangel. ou melhor. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. Ignacio. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano.

com valor e atrevimento. mas por que “o trabalho era tremendo. se ressentem disso. São Paulo: Editora 34. participando da resolução dos mais diferentes problemas. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. melhor do que está hoje. 10 . de. tanto vulto. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. PEDRÃO. às vezes. com pensamento e ação. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. Prefácio. na presença dos interessados que acontecia. não por cangas ideológicas. O Pensamento de Ignacio Rangel. mas um criador que se arriscava. Num homem só. Hoje. capaz de pensar por conta própria. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. sem ufanismos ou covardia. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. um homem de ação. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. no país. melhor do que o passado”. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. segundo ele. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. Ele não diz isso como que para se auto-promover. nitidamente autodidata. o Brasil e em especial o Maranhão. podemos dizer que foram milhões. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. sua busca por caminhos e sua realização prática. com Rossini Corrêa. BRESSER-PEREIRA. 1998. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. com marchas e contramarchas. heterodoxo e extraordinário. preocupado com a distribuição de renda. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. enfim. Ignacio Rangel. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. 2001. Acredito no futuro. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. conheci Ignacio Rangel. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. alguém que podemos dizer que pensou antes. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. entre muitas dessas tardes que viraram noite. Fernando Cardoso. serem centenas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. tantas coisas. Luiz Carlos. na sociedade exprimindo em palavras. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. Ele será. na verdade.

Agora a mera existência deles per si. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. mas agir depois de pensar. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. Como quarto eixo – a infra-estrutura. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. sem perder de vista o global. não ocorre de fora para dentro. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. isto é. significado singular do planejamento. É preciso inovar e inovar é preciso. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. mas de dentro para fora. que agreguem valor às matérias-primas. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. Para tanto. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. assim sendo. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. mas pavimenta 11 . De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. Um terceiro eixo é a tecnologia. Outro eixo é o do desenvolvimento. não basta apenas pensar antes de agir. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. dinamizando as economias locais. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. adequada às especificidades do local. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento.

ao mesmo tempo. à luz da contemporaneidade. São Luís. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. a partir dessa Cátedra.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. Sem dúvida. no dizer rangeliano. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. Objetivamente se constituirá. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. avançamos. avançamos e avançamos. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. atentos à realidade maranhense. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel.

..................................... 95 13 ......................................................................... 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL..................................... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ....................................................................................................................................................................... 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL ........................... BLINDAGEM E CONJUNTURA ... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ........................... 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ............... 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO.................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ....................

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liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. Maureli Costa. sob o reitorado de Fernando Ramos. ajudou a tecer. Niomar Viegas. como Tetsuo Tsuji. Neste lugar em que nos encontramos agora. Alberto Arcangeli. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. Cursino Moreira. Roberto Gurgel Rocha. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. sob a presidência de Carlos Lessa. Benjamin Mesquita. os fios de ouro que criaram a obra-prima. que nos honra com sua presença. e outros estudiosos coetâneos. durante seis anos. filha e herdeira do legado rangeliano. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. com menos de trinta anos. inspirados pelo brilho da lua. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. Hiroshi Matsumoto. e que. da Academia Maranhense de Letras. a partir de inícios dos anos 1980. poderiam estar Rossini Corrêa. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. neste lugar privilegiado. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. a realçar o significado e a importância do lançamento. hoje relançado por seus idealizadores. Benedito Buzar. entre nós. Luis Augusto Mochel. com o apoio do BNDES. Flávia Mochel. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. Jomar Moraes. * Economista. os conterrâneos de Rangel. Nesta noite. nos propomos. no dia 22 de junho de 2005. presidido por Dilma Pinheiro. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. embora conhecedores das nossas limitações. Raimundo Arruda. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. Haymir Hossoé. em evento do Conselho Regional de Economia. primorosamente editados pela Contraponto. Carlos Gaspar. Joaquim Itapary. com mãos delicadas de artista. 6 17 . Pedro Braga dos Santos Filho. jovens intelectuais como nós que. em alentados dois volumes. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. Sebastião Moreira Duarte. editadas e organizadas por César Benjamin. de suas “Obras Reunidas”. João Evangelista da Costa Filho. privilégio imerecido.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Emanoel Gomes de Moura.

no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. hoje BNDES. para ele uma verdadeira apostasia. posteriormente. o que já o fizemos. nesta oportunidade. principalmente. combatendo a política econômica do governo Collor. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Atuou inicialmente como jornalista. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. Não apenas no discurso bem construído. em Mirador. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. história e economia. De forma autodidata estudou. mas na ação prática cotidiana. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. onde permaneceu até o final de sua vida. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. Foi um homem sólido de caráter. que inventaria e analisa. publicado pela Revista FIPES. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. Derrotado em 1935. como jurista. como economista. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. economista do BNDES. aos 16 anos. ideário. edição de jul/dez de 1989. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. lúcida e ativamente. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. no Rio de Janeiro. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. historiador e. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. e São Luís. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. A partir dos anos 50 esteve presente. Ademais. com rigor. de modo primoroso e didático. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. modestamente. Instituto 18 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Clube dos Economistas. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. como pelos ideólogos da esquerda nacional. Sérgio Buarque de Holanda. como a Revista de Economia Política. sempre fiel aos seus princípios e valores. 19 . 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. Respeitava as questões que a academia pautava. Instituto Brasileiro de Economia. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. em especial a Folha de São Paulo.. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. de onde era originário. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. sendo um dos seus patronos. em favor de uma nova humanidade. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. um clássico do pensamento econômico. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. Um criativo produtor de idéias. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. conferências e ministrou cursos. sobretudo os econômicos. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. nem como pesquisador. Plano de Metas de Juscelino. Não fez carreira acadêmica nem como docente. Sociologia e PolíticaIBESP. Seu livro “A Inflação Brasileira”. e dos maiores jornais do país. Gilberto Freyre e Celso Furtado. profundos. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. Assessorias de Vargas e Goulart. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. sociais e políticos. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita.

Fábio Comparato.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. portanto. Schumpeter. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. como Smith. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. Juglar. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. o fio de Ariadne de sua obra. Hilferding. Irmãos & Cia. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. além de outros notáveis. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. somada à coragem política. o grande jurista brasileiro.é a sabedoria de tomar decisões”. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. Marx. Kondratieff. Engels. Arimatéia Cisne.. Na economia. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. Keynes. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. como costumava dizer. como tem sido a lamentável tendência da atualidade. Luxemburg. José Lucas Mourão Rangel. Muito antes de Comparato. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. Robinson.. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. Kalecki. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. Harrod. Kitchin. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. “A economia. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. a começar pelo próprio pai. presente na Teoria da Dualidade Básica. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. com quem aprendeu latim. com quem aprendeu direito. ou com as matemáticas ou com a econometria.. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . . via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. dificultaram a difusão de sua obra.

Segundo Rangel. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. As teses em voga. a seu juízo. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. o princípio organizador de suas idéias. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. a questão agrária e o papel do Estado. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. sem nenhum exagero. Para decifrar o país. 21 . a dinâmica capitalista. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. consideradas. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. precisavam ser revistas criticamente. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. sociais e políticos. Os processos internos da formação brasileira. um modo de produção sofisticado e complexo. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. sejam econômicos. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. quando vem a falecer. seus problemas e crises. livros e monografias. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. a inflação brasileira. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. tanto da direita como da esquerda. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional.

O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. mas para poucos”. mais do que nunca. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. um decifrador de enigmas. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. Nós. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. baseado na geração de empregos. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. Era. um pregoeiro destemido e sério. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. política. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. sociologia. sem o menor sucesso. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. à convicção de que o mundo tinha saída. ao contrário. um anunciador corajoso. Sobretudo pelos seus estudantes. em expedições fantásticas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. ser rompido. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. em especial à sua ciência econômica. precisa. E aí ele nos levava. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. que teve o Brasil como maior desafio. na ética e na justiça social. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. 22 . geografia e história deste país. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. justamente os últimos de sua vida magistral. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável.

para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. Paulo de Jesus. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. se. como diria Rossini Corrêa. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. como as de Ludmila e Ana Rangel. como presentes por esta festa. uma bússola. o Velho. sem nenhuma dúvida. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. Será.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. um compasso. Não será surpresa para nós. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. 23 . observados por Solon Sylvio. um relógio e uma reguinha de calcular. nestes tempos de canalhice organizada”. Evandro Lucas. Celso Augusto. de beijos e abraços com Aliete. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. ao chegarmos em nossos lares. José Lucas e Alberto.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

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apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. É um desafio muito árduo para nós. n. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. v. jul. involuntariamente. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. 1988. no entanto. fato que põem por terra tais tendências. realmente relevante e inovadora. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. Procura. Convém deixar claro. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. como nacionalismo e desenvolvimentismo. contrapondo-se às formulações do ISEB. Com efeito. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. pois. * Economista do IPES.3. É preciso reverter esse processo./dez. Há.2. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. elaborado em período específico da nossa história. por outro lado. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. 7 27 . Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. São Luís.

os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. sem declinar o nível das importações. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. foi extinto em 1964. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. como se sabe. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. Sociologia e Política (IBESP). Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. pela própria natureza do sistema econômico mundial. tarefa esta. por ato de Ranieri Mazzili. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. Com efeito. por aqueles diagnósticos. até então centralizada na agricultura. no entanto são mais recuadas. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. como é retratado do título. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. pretensão de grandiloqüência. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. atribuída exclusivamente ao setor industrial. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. São provas dessas modificações estruturais. e a singularidade de Ignacio Rangel. em obras como “A Inflação Brasileira”. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. enfim. necessários à expansão industrial. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. Não há assim. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. nascido do antigo grupo Itatiaia. Criado em 1955. sobretudo. considerada. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. por Café Filho. É. diante dessa problemática que 28 . incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. Suas origens. O que foi possível. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial.

era a chamada desenvolvimentista nacionalista. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. divergem do seu enfoque nacionalista. Em outro pólo de interpretação. Com efeito. Como é sabido. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. e Glycon de Paiva. Do mesmo modo. e o capital estrangeiro. como BNDE. já um pouco sintetizadas acima.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Américo de Oliveira. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. contando com a participação de empreendimentos estatais. aliados à ausência de planejamento. Assessoria econômica de Vargas. predominantes ao longo de seu período de existência. em Prebish. baseava-se no pós-keynesianismo. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). envolvendo personagens como Roberto Campos. ampliado e fortalecido. Rômulo de Almeida. Para os seus adeptos. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. CEPAL. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. sejam da área estatal. com participação moderada do planejamento estatal. como o CNI e a FIESP. etc. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. inaugurado nos anos 40. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. Ewaldo Lima. vamos encontrar no seu interior. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. envolvendo nacionalistas e liberais. (envolvendo nomes como Celso Furtado. seguramente a mais significativa. Tinham uma 29 . Lucas Lopes. sejam aqueles da área privada. Uma dessas correntes. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. etc. associado ao capital nacional. “fonte complementar de poupança”.

. Na verdade. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. Caio Prado Jr. assim. É. Passos Guimarães e Aristóteles Moura. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. tanto uma quanto outra não eram 30 . Ou. como Nelson Werneck Sodré. o subdesenvolvimento. Pois o antinacional simboliza o atraso. por razão desta dicotomia. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. ou a indústria versus a agricultura. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. e. o moderno e o urbano. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. contava adeptos como o PCB. ainda que nos anos 50. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. Ao lado de uma reforma agrária geral. o arcaico. a existência de setores dinâmicos e estáticos. para a economia de mercado. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). fazendo emergir. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. A despeito da polimorfia. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. um pouco em cima das teses leninianas. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. a qual se perpetuava por erros de política econômica. Admitiam. Esta era a corrente socialista. como o industrial. produtivos e improdutivos. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. portanto. não viam com simpatia o intervencionismo. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. enfim. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). A. aberta. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. que além do ISEB. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. momentos de unidade e de identificação. dentre outras coisas.

discípulos de outras influências como Sraffa. de outras influências mais próximas. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. Jaguaribe. Além. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. a rigor. todos eles. este último de enorme influência. de evidentemente. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. por exemplo. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. Raul Prebish. a CEPAL. Surgida em fins dos anos 40. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. De certa maneira. J. Schumpeter e Myrdal. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. em termos de filiação teórica. atitude semelhante atinge também o ISEB. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. 31 . através de figuras como Kalecki. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. de cuja ação todos seriam beneficiados. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. aquele que defendia o não-intervencionismo. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. Keynes. Robinson e Chamberlim. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. Eis porque. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. assentado em bases nacionais.

não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. fortemente inspirado nas teses de Nukse. com incrementos constantes de renda e consumo. como especialização e processo técnico. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. proceder o planejamento das mudanças de rumo. também. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. de maneira eficiente. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. Myrdall. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. ao imperialismo comercial e financeiro. não dera os resultados esperados. ao imperialismo (a rigor. 32 . caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. o comércio internacional. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. que se nutria do modelo agroexportador). a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). baseado no comércio cambial. promover a reforma agrária. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. contrária. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. Longe de propiciar vantagens bilaterais. quando necessário. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. dentre outros.

Rangel destaca-se. Defende. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. 1958). teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). Mas tal não é novidade. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. cepalino e isebiano. é possível encontrar. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. em suas formulações.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. já transparentes em outras obras iniciais. como veremos no tópico seguinte. essencialmente. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. que ele vai desenvolver essas idéias. Igualando-se a Furtado. davam àquela instituição uma feição progressista. publicada primeiramente em 1963. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. Gudin. À primeira vista. em relação às demais. principalmente. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. pelas singularidades de suas análises e concepções. para os anos 40 e 50. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. É justamente em sua obra mais completa e representativa. “o pensamento da CEPAL altera. Desses cruzamentos. respectivamente. segundo alguns analistas. mas não supera os marcos da economia convencional”. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. etc. 4 E RANGEL. é de se supor. como Furtado. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. que era. Como Furtado. não se pode negar que. Contudo. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. “A Inflação Brasileira”. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. como bom isebiano. aqui e ali. gestado monopolista e oligopolista. que está quase sempre presente em todas suas exposições. complexos e globais. É como diz Octávio Rodriguez. Rangel detém-se. simultaneamente.

tinham. o que implicava na diminuição da demanda.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. e de outro. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. em função de integração entre os setores primários e secundários. por outro lado. implicando em preços elevados e. logicamente. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. uma vez que a massa salarial tendia para baixo. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. em uma situação como esta. 1962). Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. a curtos e médios prazos. o que implicaria. principalmente pelas massas de salários). assim. por exemplo. A rigor. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. 34 . E mais. em detrimento do consumo de industrializados. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). Furtado). na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. até nutrir aspiral inflacionária. elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. forma-se um grande exército industrial de reserva. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). Isto porque. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. Assim. Com efeito. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. Assim. implicando em taxas incrementais de exploração. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. Com isso. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. Os estruturalistas (dentre eles. Por seu turno. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. segundo sua análise. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população.

contudo. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. o que. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. outra vez. a qual poderia até se agravar. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. bens duráveis. Ou seja. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. discordava desse ponto de vista. Rangel. confirma. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. onde as taxas de juros eram baixas. podendo gerar mais emprego.). ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. chegando a dizer que. Trabalhando com as teses estruturalistas. por força de seu próprio atraso. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. nessa direção. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). mais renda e. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. mais consumo/demanda. pelo rumo. terrenos. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. logicamente. um pouco ao estilo cepalino. Como dissemos no começo. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). etc. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. a antevisão de sua análise. Rangel reafirmava. como estamos vendo.

sobretudo. ou as de Caio Prado Jr. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. e mais ainda. por encerrar especificidades. evidentemente. Homem de sua época. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. um caso específico de desenvolvimento . publicado em 1960. É. na verdade. isebiano quando desenvolvemos. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. no essencial o desenvolvimento rangeliano. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano.10). além. sem ser. Contudo há uma 36 . um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. Eis porque.o Brasileiro. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. 4. suas causas e fatores impeditivos. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. para um “mundo só”. a seguir. do desenvolvimento capitalista. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. Logo no início de ROEN. ora pode ser. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. obviamente.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. trata-se. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. obviamente. nesta segunda metade do século XX. da sua relação com a sociedade e. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. principalmente em “A Inflação Brasileira”. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. e de Werneck Sodré. pelo ISEB. Segundo seu ponto de vista.. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. na sua maneira de dizer. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista.

tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. para viabilizar o desenvolvimento. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. Rangel. por exemplo). Conclui afirmando que nesse caso. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. Mais adiante. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. todavia. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. Sob o império dessas determinações. tem suas raízes em concepções smithianas. retomando questão anterior. Sedimenta essas suas observações. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. afirmava ele. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. decorrência direta do progresso tecnológico. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. através da qual se daria a superação do atraso existente. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. Em ROEN. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. fatalmente. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. sintonizado com seu método da análise. como em outros 37 . há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). mirando-se no próprio exemplo mundial. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. asseverava o nosso autor. comprováveis ao longo do texto. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. Começa por afirmar. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. à internacionalização dos fatores produtivos. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. gás xisto ou eletro-siderurgia.

Segundo ele. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. mas para 38 . porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. porque não era para centralizar. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. Sua visão do planejamento. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. no principal fator de unidade e de soberania.. em vez de eliminar.17). A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. e simultaneamente. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. Ouçamo-lo: “. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. não é tecnocrática. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. Assim para o pensamento rangeliano.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. capaz de reverter àquela perspectiva. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. as disparidades inter-regionais. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. no pensamento de Rangel. criticando a posição das correntes cosmopolitas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. portanto. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base.14). Entendo-o.. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. Ou seja. Prosseguindo suas análises. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. Isto posto. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas.

Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil.21). Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. Não poupa os empresários. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. Feitas essas considerações. soberania e planejamento (conforme. que ela deveria existir. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. mas consolidação das soberanias nacionais.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. contudo. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. Este seria um procedimento inteiramente condenável. Assim. Com efeito. ao invés de eliminar. em função de importação efetivada anteriormente. além de agravar os problemas de ociosidade. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. Para destacar a relevância de suas formulações. do que contradição. as barreiras nacionais. segundo a análise rangeliana. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. os seus conceitos para cada uma delas). o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. na história do Brasil. Conclui dizendo que. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. sobretudo. alianças de classes. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. tem havido sempre mais fusão de classe. E isto ocorreria. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. mas. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. evidentemente. ou mesmo. Estas colocações não significam. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. Segundo ele. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. pois. Chegavam mesmo a afirmar que. provocados por eventuais crises de pagamentos. nos momentos de contração às importações. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”.

para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. a seu ver.. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. mais adiante. do capital estrangeiro. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. cuja utilização. o volume de seus investimentos. Apontava. aliás. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção.38). considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico.”) (p. pois. prescindindo-se. ou a compressão do consumo. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. sem que ocorresse a compressão do consumo. Para ele. Sobre os investimentos. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento.” (p. além de melhorar seus padrões de consumo. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. aumentar o que é mais importante ainda. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. dos quais depende. assim. Nesse sentido. do desenvolvimento” (p. para vencer esse dilema. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. 41). em grande parte. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. pelo emprego de indústria de bens de consumo.43). ou na renúncia ao desenvolvimento. 40 . o que. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. A proposta de Rangel.. assim. segundo ele. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. a ulterior expansão do produto nacional. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. isto é. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. Não negará. que tanto poderia obter bens de produção.38). se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios.

não contemplam a matéria econômica de per si. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. racionais e equilibrados. enfim. ideológicos. a nosso ver. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. Sem contar os riscos do paroxismo. guiada pela luz do planejamento. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. se. os segundos são ufanísticos e em geral. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. começo dos anos 60. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. como o da ociosidade. simplifica o problema. Assim. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. invariavelmente. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. por exemplo. A rigor. curiosamente) tenha que passar por ali. que em ROEN. que.Isto é uma coisa. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. tratam a produção isebiana sem a menor competência. Embora não fale claramente. de um lado. por estarem legitimadas em fontes eruditas). 41 . não se sustentam integralmente. Os primeiros são mais rigorosos. lacunar. representam os pontos de estrangulamentos básicos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. de uma hora para outra. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. pois. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. liderado pela industrialização. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. de outro. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade.

Era por isso mesmo. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). entre Lamounier e seus colegas paulistas. enquanto órgão produtor de cultura especializada. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. além dessas preocupações. Não são simples mistificações da realidade. como muitos estudos parecem indicar. Não é nenhuma heresia admitir-se. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. Não queremos. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. fazia mistificação ideológica. é ilustrativo a esse respeito. da matéria econômica. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. são mais progressistas do que muitos pensam.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. no que escamotiava a luta de classes. Afinal. evidentemente. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. para os anos 50. por exemplo. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. continentais e mundiais. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. consciência das desigualdades. Não devemos esquecer que. Eram também. seria crítica da ideologia. Acredita que. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. O debate travado em fins da década de 70. por exemplo. Segundo Lamounier. mas também a alguns outros da escola paulista. analistas do ISEB. acima de tudo. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . que as suas propostas e análises da realidade nacional. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “.

43 . (Textos Brasileiros de Economia. ________. (Ensaios. Marilena. 1978. FRANCO. 1984. 1981. O ISEB: notas à margem de um debate. A economia política brasileira. A Questão Nordeste. CHAUÍ. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. (Estudos Brasileiros. v. FURTADO. A inflação brasileira. 1960. São Paulo: Discurso n. 1958. Hélio. Industrialização e economia natural. Maria Sylvia de Carvalho. Rio de Janeiro: ISEB. PAIM. 1982. CHAUÍ.1) RANGEL. Miriam Limoeiro. 1984. LAMOUNIER. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1979. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. 28). TOLEDO. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. Rio de Janeiro: ISEB. Ignacio. Ideologia e mobilização popular. O nacionalismo na atualidade brasileira. MANTEGA. Celso. Caio Navarro de. São Paulo: Brasiliense. Marilena. 1978. 9 (Ciências Humanas). Rio de Janeiro: Poli/Vozes. JAGUARIBE. Rio de Janeiro: Forense. 1960. Guido. Rio de Janeiro: ISEB. 1957. RODRIGUEZ. v. Seminários. Octávio. ISEB: fábrica de ideologias.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO.14). comme proposition pour le développment brésilien . Recursos ociosos na economia nacional. Bolívar. São Paulo: Ática. 1984. Rio de Janeiro: ISEB. São Paulo: Brasiliense. Gilberto. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel .

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. de “Literatura Econômica”.6. n./dez. Isto porque. de 1954. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. em homenagem a Ignacio Rangel.ENE. monografia de conclusão de curso na CEPAL.4. n. este é um texto sucinto que se propõe. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. Na verdade.2. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. correspondente ao período 1955-1985./v. no Brasil. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. [5] “Elementos de Economia do projetamento”.2. de 1957. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. tanto em extensão quanto em conteúdo. sobretudo. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. de São Paulo. no Rio. 47 . 1989. pelo ISEB. O título deste texto é pretensioso. jul. conferências pronunciadas em 1955. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. no IBESP. elaborada em 1953. se conseguir. através de levantamentos em outras fontes. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. cuja primeira edição é de 1959. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. v. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. São Luís. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”.

Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. originalmente de 1963. abordando a economia brasileira durante o regime militar. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. a UFMG. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. Estudos CEBRAP. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. Rio de Janeiro-RJ. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. de 1961. 48 . [12] “Ciclo. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. publicado pela Editora Bienal. Rio (RJ). publicação pela Civilização. publicada no Rio pelo BNDE. Revista do BNDE. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. Revista da Civilização Brasileira. publicada pela HUCITEC. defendida na Universidade de Leicester.J. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. de 1982. Brasiliense e Bienal. São Paulo. Inglaterra. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. de 1959. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. Boyer. Revista Agrária. reunião de artigos. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. tais como Digesto Econômico. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. no ISEB. [7] trabalhos de fôlego.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. estando próximo da 10ª edição. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. em 1960. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. de Paris. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. Cadernos do Nosso Tempo. Recife-PE. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. publicado pelo CONDEPE. de 1987. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. está arrolada. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”.C. reeditado posteriormente pela Zahar. Tecnologia e Crescimento”. no campo da Economia e das Ciências Sociais. de 1985. reunindo textos selecionados. no Rio de Janeiro-RJ. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. em cuja tese de doutorado. de R. Desenvolvimento e Conjuntura. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). período de 1983 a 1987. editado pelo Tempo Brasileiro. atualmente na 3ª edição. [10] “A Inflação Brasileira”.

que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. São pareceres. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. Isto posto. estudos e projetos. e até de universidades estrangeiras. 1990 (23 artigos). período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. 1985 (83 artigos). onde tem veiculado sua produção. entrevistas. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. Não menos volumosa é sua contribuição. Em 1957. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. 1988 (15 artigos). originalmente. nos últimos 10 anos. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. ainda não foi inteiramente trabalhada. palestras e depoimentos. ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. 1984 (24 artigos). A despeito de suas proporções consideráveis. 1986 (26 artigos). só na Folha. Segundo nossos dados. foi publicada pela primeira vez. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. Inscreve-se como uma resposta 49 . no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. de Keynes. com alguns retoques. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. 1987 (32 artigos). de Smith. Quando redigiu. interessadas em ouvir suas conferências. em sua extensividade e profundidade. a jornais e revistas especializadas em economia. e em termos gerais. perfazendo. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. Rangel publicou 247 artigos. relatórios técnicos. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. Isto longe de desmerecer. São artigos. ensaios. em 1953. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). O que constitui sem dúvida. a saber: 1983 (25 artigos). provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. a obra de Ignacio Rangel. podemos dizer. 1989 (39 artigos). em seu trabalho citado. entre 1983 e 1990.

com extraordinária clareza. o qual. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. é o maior dos pioneiros. ainda hoje. Tolmasquim. como Monteiro de Castro et Belshowsky. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento.. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. com o qual se definia o 50 . que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx)./dez. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. desenvolve. pela sua densidade analítica. apoiados em Kondratieff. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. transformada. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. Em 1981. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. [4] Tese da Questão Agrária. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. out. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. Davidoff Cruz. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. contida em seu famoso livro do mesmo nome. [3] Tese da Inflação Brasileira. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. no sentido da superação do capitalismo. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. social. Rangel.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. Para efeitos analíticos. inquestionavelmente. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. Mantega. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. político. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura. o da “dialética da ociosidade”. que articula as teorias dos ciclos. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. no Brasil.

Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos.. com rigor. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Chile. historiador e. De forma autodidata. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. Seu lado mais conhecido.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. pelo Instituto Brasileiro de Economia. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. cit. em Mirador (MA). Tolmasquim (op. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. Gudim ou Conceição Tavares. Castro et Bielchowsky afirmam. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. textualmente: . convictamente. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. onde ocupou a função de membro consultivo. do qual foi presidente no início dos anos 80. no Rio de Janeiro e Agronomia. estuda. Em 1954. que o motivo 51 . participa em Santiago. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. de quilate semelhante ao de Celso Furtado.. ao longo dos últimos 30 anos. original e inovadora.) afirma. na capital do Maranhão. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. Dono de uma obra monumental. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. bem poucos. Pela envergadura do seu poder criador. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. “Ignacio Rangel se tornou. principalmente. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. História e Economia. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. como economista. um ano após seu ingresso no BNDE. atuando. posteriormente como jurista.

a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. fina ironia. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. a vários ministérios e governos estaduais. mas. além do assessoramento a Presidência da República. na introdução de seu livro “Economia: 52 . Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. Aqui também sua biografia é expressiva. de repente. Sua face reconhecida. as propostas pioneiras à época. no clube dos economistas e em centros universitários. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. Que. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. onde chefiou o Departamento de Economia. dono de um estilo invejável. Em meados daquela década integrou a ANL. 8 anos de “domicílio coacto”. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. como o militante político. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. participou. ricas metáforas. Há o Rangel pensador. que. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. um escritor refinado. O criador original. do movimento de 8 de outubro de 1930. Suas análises. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. igualmente. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. sua militância foi também relevante no ISEB. Há o Rangel militante. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. de domicilio forçado em São Luís. O pioneiro. vêm recheadas de erudição histórica. quase sempre. autêntico e destemido. a teoria da inflação. em seguida. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Com apenas 16 anos. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. Fora do setor público. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. em São Luís. pegou dois anos de prisão e. Como conseqüência do levante de 1935. as análises sobre reserva de mercado. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. mas pouco destacada. como o de tornar público o seu pensamento.

O cidadão que soube dizer sim. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. voz que muitos escutam ou querem ouvir. do IPES. O Rangel conselheiro. aliás. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. vinculados ao IPES. no dia em que completava seus 50 anos. envolvendo UFMA. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. Há ainda o Rangel missionário. O Rangel profeta.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. preferindo semear na planície. Rangel. Em 1989. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. Já de algum tempo. Instado pelo então presidente Goulart. como ele mesmo confessaria. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . vem. hoje Banco Central. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. quando foi preciso. O Rangel funcionário público. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. Além disso. desde o início dos anos 80. aos poucos. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. Rangel em relação ao Maranhão. quando era para dizer e disse não. quebrando esse adágio. Neste particular. Há ainda um Rangel muito especial. honrado e agradecido. Com efeito. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. de vida. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. a SUMOC. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. recusou o convite.

ouvi-lo dizer satisfeito. cujo sentido é o de difundir. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. através de livros. verdadeiramente. sim. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”.411.08. fez e continuará fazendo. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. o Dr. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth. desenvolvimento econômico e justiça social. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. a produção e a obra do economista maranhense. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. entre modesto e orgulhoso. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. os merecem! Sumary In this article. Aplausos companheiros. falando a um grupo de admiradores.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. Feliz. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. Oportuna. porque Rangel é um otimista. como bálsamo e esteio.1951. Finalmente o dia de hoje. Crê no país e em seu povo. sim. Ao seu lado. Em sua última visita a São Luís. enfim. através da Secretaria de Cultura. minha voz faz eco”! Faz. 54 . “Parece que. de 13. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão.. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. modernização e democracia. magistralmente. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. Sua marca é o nascimento e o humanismo.. Aplausos que eles. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO Ignacio de Mourão Rangel 55 .

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Não por acaso. Assim. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. e a Amazônia. inclusive. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. como era natural que o fizessem. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. 1. jan. estes usaram sua liberdade. n. desde os tempos do império. O Maranhão. Não a passagem ao feudalismo. * 9 57 . voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo./jun. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. Quase isolado do resto do Brasil. era a Atenas Brasileira.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. de fato. uma das províncias mais ricas do Império. mas o retrocesso à tarde e à cubata. mas um passo atrás. Um dos fundadores do BNDES. já o vizinho Ceará havia. começo dos anos 60. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. que era terra de ninguém. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. Com efeito. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. um modo superior de produção. São Luís. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. do que do Rio de Janeiro. Autor do clássico A Inflação Brasileira. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. não raro. O Maranhão foi como é sabido. Por outras palavras. ou melhor. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. 1989. libertados os cativos. 4. Mas restava outro fato. contrabandeados para o Sul e. os quais eram. um modo mais avançado de produção. Mas significava que a economia cearense. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. Economista. isto é. v. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. O navio a vapor viria romper esse isolamento. ao comunismo primitivo. não se havia cumprido no Maranhão. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. Quando chegou a 13 de maio. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. para o Maranhão. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento.

Somente por meados dos anos 60. Com efeito. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. no Nordeste. O migrante do 58 . não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. voltaria a começar a crescer. demográfica e economicamente o peso de nossa velha província.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. a área ocidental do Estado. no Maranhão). É certo que. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. Especialmente a Guiana Maranhense. além de flagelados nordestinos. Burgos ricos. suponho Engenho Central.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. Além das fábricas de fiação e tecelagem. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. Mas o surto agrícola. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. Entrementes. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . A epopéia rodoviária. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. inclusive. Era outro processo que se abria. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . deu um golpe fatal nesse parque industrial. Assim. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro. especialmente em São Luís. isto é.a Abolição representava um formidável passo à frente. somente em 1960. aí por 1895. Queimada a mata uma vez. 14. nessa ordem tinham 15. com a indústria do Nordeste oriental. raros no Brasil de então. pela ferrovia São Luís-Teresina.. nas cinzas da velha mata. meias e cânhamo. a passos largos. para a préhistória. 12 e 10 fábricas. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. entrou a caminhar. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. quebrando nosso isolamento dourado. somente. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. inclusive de lã. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. segundo o Prof. Seguindo-se a Minas Gerais. na composição da mão-de-obra escrava. como Alcântara. entraram em decadência. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. A seca de 1958. etc. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. Turiaçu e. da Bahia e de São Paulo que. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. no corpo do Brasil. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. Assim. Demograficamente. compensou com sobras essa perda.

não deve ser estranho a esse processo. Na seqüência natural deste. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. não estava fora de cogitações. muito mais gregário. o que implicava numa colossal economia de material. O Porto do Itaqui. Lembro-me de que. fileiras de mamona. na direção geral 59 . sendo Presidente da República. ao que ouvi. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. para encerrar essas notas. atendendo a uma ordem do chefe do governo. que começava na Paraíba e. que estava desocupado. nada menos que 53 prefeitos maranhenses.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. penetrara no Maranhão. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. em minha recente passagem por São Luís. toda a área por uma única cerca. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. mas protegida. Os vastos campos da Baixada Maranhense. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental. não raro emitia outro parecer. sociologicamente. Vi roçados nordestinos. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. são as áreas problemas do país. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. depois. havendo cruzado o Piauí. isto é. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. Um pouco mais demoradamente. com água dos rios que formam o Golfão. em nossos dias. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. Uma cerca única. Mas. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. Essa utopia. O surgimento do Estado do Tocantins. que eu o saiba não teve seguimento e. eu. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. sob. porque ao contrário do cerrado. este último expelido pelo boi. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. que havia em seu Estado. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. Bacabal é hoje um município pecuarista. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. envolvendo todo o município. a caatinga não está. que é a penetração do capitalismo no campo. Jânio Quadros. conversando sobre esse processo – na primeira fase. Aí por princípios dos anos 60. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo.

Ora. isto é.maio/89 . 60 . tanto mais quanto. nada menos. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. e em Vladivostok. Há muito que sabemos que. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. Com uma peculiaridade: que. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. na direção geral de Callao. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. (A menos que. a Floresta Amazônica. Como meio de transporte – excluído o duto. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. respectivamente. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. do Rio Fresco. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. em vez de indústria leve. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. as ferrovias canadense e transiberiana. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. com antracite. é indústria pesada o que teremos. combinadas. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. a saber.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. somente pensando GRANDE. Hoje. que não impediram o lançamento da BAMUR. Ora. hoje. Sabemos. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. para Açailândia. que Carajás. Embora geograficamente situado no Pará. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. Minha recente viagem ao Maranhão . que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. apenas começando. poderá confluir o gás natural amazônico). esteja preferindo. Por outro lado.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. 61 . O Brasil unifica-se. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo. herdados do antigo latifúndio feudal. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. Os quais nos apontam uma posição de elite. cada vez mais energicamente e. depuis lês temps de l´empire. e imperativos geo-econômicos.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 62 .

BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

Alexandre colocou a falange macedônica. contra o cônsul romano Paulo Emilio. Em Arbelas. contra multidões asiáticas incontáveis. Economista. dotando a infantaria de armamento leve. 65 . com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. portanto. em campo. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. jul. ante o poder de fogo da infantaria. culminação da arte militar helênica. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. e Canas (216 a./dez. prenunciando guerra de movimento. e. Paulo Emilio. travou-se. da Pérsia. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. Ao contrário de grandes exércitos. não para o sitiado. n. n. contra Dario III. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. escalonados em profundidade. de Epaminondas. Ainda na antiguidade. com a propriedade de poder mover-se.) ganha por Alexandre. 2. 4. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. v. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis.). como vem acontecendo. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. deixar-se cercar pelo inimigo. 2/ v. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. ganha por Aníbal. Em nossos tempos. na guerra como na economia . Os esquadrões de cavalaria. Era uma verdadeira fortaleza. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. revelaram-se inanes. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. contra fogo. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. de caso pensado. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. entre uma guerra e outra. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. a tecnologia. 6.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. ao longo da história. provavelmente aprendida por Felipe. Esse dispositivo buscava./1989. São Luís.c. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. Refiro-me a Canas. pela imposição da guerra de movimento.c. porque. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. responsáveis pelo choque e.

também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Como em Canas. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. nem. do tipo Arbelas. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. em Arbelas. sendo mister resistir a este com artilharia leve. o qual teve que bater-se em retirada. exposta ao fogo aéreo . porque Aníbal. não se perdia. por ter feito. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. Com efeito. nem flexa. ordenou a inversão do próprio dispositivo. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. como os nazistas depois de Stalingrado. sob a forma de “blitzkrieg”. levaram a resultados diametralmente opostos. em campo aberto . sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. em última instância. o quadro da tecnologia inverteu-se. Assim. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. no exemplo de Alexandre. Assim. lança. nem pedra de fundo. o expediente por muito brilhante que parecesse. com os Estados Unidos à frente. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. “by proxy”. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. O tanque. por interpostas pessoas. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. Não há como não pensar nessa possibilidade. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. inspirado. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. naturalmente. já com as tropas romanas em movimento. Já não era mais assim no final do conflito. que as alas de elite cartaginesas fecharam. certeza arrecadou. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. nas alas. Ora. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. isto é. plausivelmente em nossos dias. nos versos do nosso grande Bilac. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. Em Arbelas. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. de pouca confiança. formando um saco. saiu mal aos romanos. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. o imperialismo. convertido em saco.

Com efeito. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. que os nazistas não haviam aprendido a lição. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. Ora. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. no campo de batalha. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. . é a mesma coisa – esse meio século. em vez de.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. até Berlim. mas no fundo. que os nazistas não lograram romper. e consolidada em Stalingrado e Kursk. Para isso. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. que justifiquem a produção em série.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. no futuro. na espécie. Sabemos. O exército soviético suspendera sua ofensiva. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. com os russos metidos num saco. isto é. agora. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. O que nos levaria. seguiu-se uma guerra de movimento. nas batalhas passadas. Em Kursk a maior batalha da história. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. como Alexandre em Arbelas. como vimos essas batalhas. Em conseqüência. nas condições presentes. não obstante o terrível preço pago na tentativa. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. Paradoxalmente. no caso da indústria bélica. não fez senão estruturarse. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. porém. as batalhas típicas do último conflito mundial. ao qual faltava apenas amarrar a boca. mesmo depois de Kursk. pelos russos. uma “blitz”. Ora. 67 . dizíamos. depois de Stalingrado. O cerco. Ora. ou ao contrário. a buscar Arbelas e não Canas. de então para cá. a história não parou aí. como seria de esperar-se. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. O meio século que está por concluir-se. com defesas escalonadas em profundidade. não se consumaram.

inclusive a presente “Guerra do Golfo”. mas que. os soviéticos deram aos coreanos. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. numa trincheira. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. na batalha de Canas. sequer correntes. os vencidos. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . apesar dos gorbatchovos. Nem se ganham. do ponto de vista da arte da guerra. mas o modesto MIG-15. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. como aquela que. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. por exemplo. ao que parece. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. geralmente. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. a fortiori. Na Coréia. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. o Estado-Maior Soviético. um pequeno avião. ao que se sabe. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. mas ao contrário do Pentágono. inclusive em nossos dias. Assim. porque tudo se faz em sua intenção. porque “resolvem” problemas pretéritos. Na Guerra da Coréia. não bombardeiros ainda modernos. uma temeridade. o Estado-Maior Soviético. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. mas. que não tiveram tempo. nem as batalhas econômicas nem. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. de fato. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. não basta para alterar o quadro histórico básico. todos os dias. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. Quando não uma tolice. mas. consequentemente. por equipamentos inovadores. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. O Pentágono e.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. é como se já tivesse acontecido. não problemas vindouros ou. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. no mínimo. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. Ninguém. nesse Estado Maior. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. tampouco. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. Por isso as batalhas da história são ganhas. árcadios. barato (porque produzido em série). são simples e toscos. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. ainda para refinar-se e. foram eles os perdedores. novíssimos. isto é. que talvez não aconteça nunca. como o noticiário nos está mostrando. ou num simples buraco. como todos devem estar lembrados. para variar. Os norteamericanos. por isso. escondê-lo consigo.

Ao que noticiou a imprensa. serviços públicos e monumentos. E. no paralelo 38. para as posições de partida. eventualmente. A Segunda Grande Guerra. no anterior conflito mundial. para ganhar guerras. seria mister ocupar o Iraque e. ainda nem a bomba atômica. mas sucata em todo caso. no Camboja. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. a missão estratégica desse aparelho. “refinada”. acontecido com as armas químicas e biológicas. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. de onde não mais se moveram. o MIG-15. Ora. como às vezes é mister. uma versão tosca de armamento anti-tanque. Para vencê-la. surgiram as armas nucleares soviéticas. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. não tanques “ainda mais modernos”. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. que não podem. é que este está excelentemente preparado para ganhar. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. tiveram que bater em retirada. nem mesmo na minúscula Nicarágua. “reluzente”. por causa do seu refinamento de fabricação. em “blitz” ao Rio Yalú. tratava-se de um foguete.. pouco antes da Guerra da Coréia. Como foi na Coréia. isso não seria fácil. já provado antes. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. no passado século-e-meio. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. assim. na fronteira com a Sibéria. como um gigantesco produtor de sucata. no Vietnã. Não para aniquilar exércitos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. quando se trata de partir para a terceira. no Afeganistão. isto é. estava cumprida quando. Uma sucata “moderna”. havia ou quase. nem a bomba de hidrogênio.. depois de chegarem. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. Como. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. para matar gente. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. proteger-se por detrás do escudo 69 . o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. evidentemente. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. surgido no estágio final da segunda grande guerra. pois já invadira três vezes. como disse o nosso Brigadeiro Piva. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. Mas é apanhado de surpresa. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez.

Os homens e mulheres que. Ou na medida em que não possam. que América Latina (inclusive Brasil) e. porque às vezes o podem. estão vivendo a sua segunda fase “b”.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. a humanidade ingressou. num esforço ligado ao nome de Keynes. para o Japão. pelo menos ao primeiro exame. os economistas. a taxa média de 70 . é tempo de que nós. abriu-se. atualmente. na presente guerra.6% ao ano. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev.2% ao ano. simultaneamente. O índice para a América do Norte passou a 305. na Alemanha nazista. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. tivemos a emergência do fascismo. ou 4. muito mais. são jovens e. com essa depressão. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). 1244 (mais de doze vezes) ou 10. Em 1973. O armamentismo e a própria guerra. isto é. o caso do Iraque. e o Plano Quadrienal. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. para a América Latina.6 % ao ano para a União Soviética. que estão beirando os oitenta. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. nos cinco lustros da fase “a”. para comparação com os dados supra. ou quase. ou 6. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. do Dr. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. Nos primeiros anos do decênio de 20. ainda mais. nos Estados Unidos. no decênio final da dita fase recessiva.0% ao ano. Os homens de minha geração. Ou a recíproca é que foi verdadeira. ou 7. nos concílios do estado. como 100. Ora. aparentemente. no Brasil. 550. não apenas no campo econômico. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. carregado de significado. portanto. em 1973. Von Schacth. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. como está sendo. Com a paz tivemos. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. porque atravessam. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). o mago das finanças de Hitler.6% ao ano. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. de quebra. ou próspera do 3º Kondratiev. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. para o Mercado Comum Europeu. Com efeito. falam em nome da ciência econômica.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. ou ciclo longo: o 4º. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. 449.

Passando o conflito. a saber: uma crise econômica profunda. “Uma nova vaga fascista. uma guerra mundial aparentemente em marcha. disse ele aproximadamente. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. não há como pensar nisso.5% ao ano. Mas também. o do Brasil. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. está em gestação”. O Mercado Comum Europeu. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. Itália.3%. quando vemos essa coalizão de 28 países. o Iraque. de fato. a 3.6% ao ano. Em média. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. Ora. o da União Soviética. Estamos. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. porque no lustro intermédio.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. e um renascimento do fascismo. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. a 3. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. isto é. E Jorge Dimitrov. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. os valores caíram a níveis negativos. e Japão de nossa época é flagrante.1% ao ano. passou de 2. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. promovida pelo Eixo Alemanha. do ponto de vista econômico. Para começar. isto é. ou melhor. o crescimento industrial da América do Norte. Apenas. esses temores foram esquecidos. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. Afinal. caiu a 4. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. Há meio século. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. segundo o qual a história dificilmente se repete. o do Japão. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo.4% do ano. deram-nos um modelo de 71 . do antigo mundo socialista. a 1. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. da primeira vez. foi tragédia. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. e.2 %. naturalmente. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica.

respondeu que aquele fora um fato complexo. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. difícil de explicar. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. Soares Pereira. nossa experiência “collorida” de fascismo. ao subir ao poder. como naquele tempo. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. e calcado nas instituições medievais. os homens de esquerda. como na França de 1789. – Do que jamais me arrependi. está fazendo eco ao surto fascista mundial. Naquele tempo. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. a construção do capitalismo industrial aqui –. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. num enquadramento francamente corporativo. comandante do exército vietnamita que. promovendo um direito trabalhista que. O Brasil. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. por exemplo. 72 . embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. não há como pensar nisso. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. nem. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. do “Golfo”. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. Em suma. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. isto é. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. Só para exemplificar. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. agora nos chegam. de Mussolini. Com a mesma diferença. corporativas. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. mais que. Somente mais tarde. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. não tem nenhuma grandeza. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. Muito mais tarde. para o dito desfecho. porém. nós. supostamente invencível. vale dizer. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. Ora. o general Giap. Isto é.

fizme conspirador e soldado voluntário. que temos o dever de preservar. o Brasil e a União Soviética. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. On the contrary of big armys. É esta formidável potência. prócer aliancista maranhense. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples.8 vezes. com escassos 16 anos. ao primeiro exame. Quando da Revolução de 30.9 vezes. no mesmo período 23. 73 . – Getúlio. eu fora getulista por um breve momento. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. e como o epi-fenômeno que é. 6. Com efeito. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. fazendo jus a toda minha lealdade. francamente parecera temerária. somente dois países. havia sido meu comandante. Conto estas coisas. consequentemente. que estivemos construindo. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. 13. da recessão e do desemprego. que aí temos. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. Para meu conhecimento.5 vezes. a do Japão. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. cresceu 26. como chefe da revolução. isto é.9 vezes. batendo todos os recordes. procurando corroborar a ação de meu pai. o mais próspero dos países capitalistas. dei razão. a do mundo capitalista. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars.

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1989 Economista. no período. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. v. a depressão criasse raízes. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. Mas nunca encontrei ninguém. São Luís. mas viúva de um comerciante português.4. nada sabiam de Direito e. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. como em muitos outros países. Silveira – aí por 1940. na firma Martins. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. n./v. sobretudo. jul. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. que aprendesse mais depressa do que tu –. Imagine-se que. Quando me despedi de Mrs. fiz-me um economista fora de série. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. da firma Martins e Cia.. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. sobre meu desempenho. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. e o segundo. haveríamos deixado que. a começar por Rui Costa Fernandes.6. Talvez por estas e outras. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava. preparou-me para entender o que./dez. para ficar. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu. secretário geral da CEPAL. ao lado de João Vasconcelos Martins. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. radicada em São Luís. Mas não fizemos isso. Outros mestres assim. naquele tempo. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. latim. em São Luís – dela ouvi este julgamento. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –.2. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. 77 . Irmãos e Cia. no curso de inglês. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. Minha experiência. n2. diretor-presidente e chefe do escritório.

como sei ser o seu caso. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. não houvéssemos criado condições de investimento. com uma receita pública cuja origem era afinal. nos quadros da reserva de mercado. sendo elas próprias parte do Estado. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. pelo menos durante algum tempo. opus-me ao esquema da Eletrobrás. então. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. esquina com a travessa do teatro. uma receita estatal que. Rangel. possibilitariam coisas ainda impensáveis. mais do que o dobro da média mundial.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. o que constituiria um absurdo. Entretanto. isto é. Isso significava que. não preciso de aduladores. – Como assim. a renda gerada pelos investimentos privados. Noutros termos. Com efeito. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. Ao primeiro exame. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. a exemplo de Tucuruí. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. a implantação de um Departamento moderno. até por que eu próprio lhe havia explicado. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. por essa via. eu já sabia. de um modo geral. sem outra garantia senão o aval do tesouro. Araújo Costa. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. dentro e fora do país. mas de homens que. como a União Soviética. A equipe conhecia esse mecanismo. diretamente. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. isso me pareceu impraticável. Ora.5 vezes. na velha escola da Rua do Sol. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. nos três decênios 1956-86. visto como. que não teriam acontecido se. no período. Não foi por acaso que. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. a eletrificação – e. Sem isso. nossa produção de eletricidade cresceu 12. a receita pública com a qual o 78 . sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. na época. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. as condições persistem. Naquele tempo. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. Com efeito. hoje. estaria surgindo ex nihilo. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. Entretanto. no fundamental. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. isto é. a renda nacional poderá crescer. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. contrabalanceado por outro. como abri-las. do nada. para isso. as reservas retardatárias. se um fator de produção está desempregado. Parece predominar. como então. não obstante o atraso tecnológico. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. nas condições do emprego desse fator congênere. 79 . Como venho insistindo. isto é. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. sob certo ponto de vista. dos países mais avançados do mundo. no Brasil. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. Ora. atravessamos uma crise. com o resto da economia mundial. Noutros termos. Naquele tempo. o custo de produção. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. a saber: hoje. para a empresa. a mesma. Hoje. mesmo que. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. mas teria sido pura ilusão esperar que. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados.

while. it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology. 80 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

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mais do que ver. disputando com o ponteiro dos segundos: água. 12 83 . Mais depressa. Mal toquei o aparelho. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. Membro da Academia Brasiliense de Letras. Tanto quanto possível. desimportante.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. varava as persianas do pequeno apartamento. A móvel manhã quente e derretida. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. dentes. o jornal político.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. toalha. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional .. dias 13 de junho de 1988. mesmo estando em Pasárgada. por fora. sabendo novamente ser a República. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. creme. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. cueca. por dentro. Acordar acordei. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. quando escutei o alarido do telefone. coisa. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa.. a completar seis anos do dia em que foi. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir. camisa. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. Eu estou aqui em Brasília. não recordo se na Globo ou na Manchete. bela viola.. disparou: – “Alô. pão bolorento. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. aquela voz inconfundível. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. Voltei para atendê-lo. prossegui. trazendo o seu cortejo de surpresas. um morto querido – meu tio.. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. carregando comigo. como vais? Quem está falando é Rangel. Rossini. escova. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. Estava de saída.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. não sou amigo do Rei. tragicamente. calça. Quase pronto e pensando no trânsito. aliás. sabonete. barba. com a sua linguagem trêfega. como me pus de pé. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. Não só acordei. a chave girando na porta. lâmina. pois. rítmico.

saber que eu estou velho. quando vence a diária. que está comigo.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. – Perdeu? Que pena. ainda não tenho... Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória... dando assistência para a minha filha Liudmila.. mas não estou largado.” 84 .. às 15h. no BNDES. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência.Então. de tarde. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita.. nosso ponto de encontro de sempre.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou . – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades. Vi este pessoal todo entrar no Banco.. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra.” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está.. eu deixo o Hotel. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas. é uma espécie de banco legal. – “. prontamente. Perdi o meu genro domingo. Tenho trabalhado muito. e ela. aqui no Hotel” – . tudo bem. – Sei.No Hotel Nacional? Não. Volto hoje mesmo...E tive que parar um pouco e ficar. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia. que eu ajudei a formar. o encontra”. Professor! – “Porém. no mais.. A bem da verdade. – “É isto mesmo. algumas tristes. É uma grande alegria para mim. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso. Vai-se levando. cargos de direção etc. junto com Aliette. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti. e hoje há gente ocupando altos postos. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional.” – Que pena. Muitos foram meus estagiários..” – Que bom.. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil.

Um abraço para ti. – “Ah. Até mais. – “Vai trabalhar. Decidida a documentar o encontro. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. Olhe. – “.. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. preso em novembro de 1935. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. e almoçamos juntos. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. a terceira convidada solicitou 85 . Professor. de qualquer jeito..” – . ao qual não basta desgostar do comunismo. neta de Jesus Norberto Gomes.. contudo. eu vou ao seu encontro no.” – Até mais.” – Sem dúvida.Almoçar juntos? – “Sim. gentil. Um grande abraço para o senhor. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício.. que era um burguês diferente do burguês brasileiro. Flávia Galiza e eu. conversei com Flávia Gomes de Galiza. quem sabe. eu vou para o serviço agora. rapidamente. Tanto quanto.. nos encontrar e .. Ela.” – Vou. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. pois ele tem de ser é anticomunista.. De qualquer maneira.. telefonei para uma convidada minha. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro.. que lamentável. compreendeu. ficou vibrando. na chamada Intentona Comunista. no Hotel Nacional. Em seguida. então. No aeroporto? Bem. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. pois eu pensei que nós pudéssemos.. passei pela Secretaria Geral do MinC. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. Eu gostava muito dele. Rossini. Flávia Galiza. – “Até mais. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. Ele realmente merece uma pesquisa. ou até mais do que eu. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa.

Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira.. No horário combinado para a saída. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. E o velho Rangel. em animada conversa. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. reagindo bem. com a alegria de haver recebido. Aceito o convite. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. editada por Jorge Zahar. Eu o provoquei. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. e confessou. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. Sem demora. o evento foi encerrado. tornada um clássico das ciências humanas no país. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. Celso Furtado. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. Passando recibo ao meu desafio. sobre a sua produtiva atitude intelectual. de onde marchamos para a beira da piscina. a política e a história do Brasil. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. neto de Demétrio Ribeiro. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. no auditório do Hotel Nacional. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. o livro Economia Brasileira Contemporânea. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. No intervalo. A marcha batida deste. o aguardamos. Realizava-se ainda o colóquio. Fui buscá-lo à entrada do auditório. Vi olhos marejados. no mínimo. em substituição à afoiteza que lhe é característica. como o de perder avião. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. em contrapartida.. e de outros afazeres literários. Necessitado de um paradigma. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . em companhia de Dona Aliette. que integrou o primeiro Ministério da República. que fôssemos almoçar no aeroporto. À beira da piscina. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. reunindo textos esparsos e inéditos. Chegamos. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. no caminho. Chamei-a. a economia. com vivaz prosápia. a pequena comitiva partiu. autografado. Ignacio Rangel sugeriu. a propósito da necessidade da reedição da obra. discorreu a respeito de projetos de livros. também dos quadros superiores do MinC. Aplaquei-lhe os justos reclames. logo tomamos a direção desejada. onde evitaria contratempos. premido pelo horário.

deparamos. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. E confirmou. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. Chegada a sobremesa. referente à crise nacional. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. declinou nomes. Ignacio Rangel. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro.. Ao chegarmos no amplo ambiente. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. A facúndia do visitante. o que é uma necessidade. à frente de Flávia Galiza. enfim. a prisão política em 1935. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez. com uma introdução atualizadora. ao centro. seriam depoentes abalizados a seu respeito. desaguando na divulgação do seu opúsculo. o viajante. voltando-se para mim. Mas o senhor pode reeditá-lo. o propalado ateísmo. que não é habitual. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. ainda. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. Mourão Rangel. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. a sua ligação com os comunistas.” – Entendo. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. – “Esta é uma boa idéia. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . Rossini. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. o Juiz e Professor Mourão Rangel. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. 87 .. com a ajuda material de Jesus Gomes. Conseguido um lugar no estacionamento. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. mergulhou em um mundo de lembranças. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. intitulado Dr. Trocamos apenas olhares.” Chegamos. Sentamos. O testamento vai ficando para depois. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. Tempo houve. agora. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. Afinal. as quais. em uma autobiografia. tanto quanto ele.” – A redação de sua autobiografia. com Isabel e Epitácio Cafeteira.

o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. verso por verso. Ignacio Rangel identificou a localidade. Diz o filho: "Oh minha mãe. é lusófilo. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. pois não passava bem.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. A. que todo o dia Tinha levado a anadar. com a metralhadora da memória ligada. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. educava os seus e os filhos de terceiros. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. Como se não bastasse. fundada por Mourão Rangel. Neste. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. episódio de há muito esmaecido. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. em época pretérita. Chegando ao Rio de Janeiro. A despeito da nova e moderna construção. de O. Mas saltam dois cães de gado. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. de plano reconstruído e de declamado. no longínquo 7 de setembro de 1922. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. em companhia de sua esposa. logo acusando a lembrança em seu discurso. o velho. feito por sua mãe. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. de acordo com ensinamento de véspera. 88 . regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. que nela. o velho Rangel. Aos oito anos. concluída a sua palavra. no Dia da Pátria. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. Como um sopro. estendendo-se a texto poético. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. Tomado por violenta emoção. Tornam os pobres à estrada. funcionou uma escola particular.

. É escusado. lavadeira! . caçador! .Que importa.. Com effeito a sentinela: .. . (diz ella. lavadeira! . Que ainda é perda maior.Boas noites...Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira. Perdereis a caçadeira...Se os cães deixarem.Boas tardes. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor... Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! .Talvez que fosse melhor... senhor. Até um dia. Vendo a sua esperança vã..Boas tardes. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? .Olhai que.."Quem vem lá?. Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!. dessa maneira..Boas noites. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira.Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira.. A triste n'um riso amargo). caçador!” 89 .” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .. senhor! .

Andei sempre assim perdida.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. Ele. a caminho. retidos em Itamaracá. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. o doce vestígio de uma presença. de onde viajaria com destino a Brasília. Inteligente. como se tivesse acabado de lê-la. repleta de inefável encantamento.. os quais. tardaram. em seguida.. Depois. abraços.. parar. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. não se fazendo de rogado. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. II O mês era o de junho ou de julho. Conseguimos ainda. por suposto. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. partimos em direção ao setor de embarque.. deixando em todos. com a sua passagem. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. de João de Deus. Divididas democraticamente as despesas. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. entretanto. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. entre outros. o ano. foram passos rápidos. mas suspendera. mas chegaram. declamou verso a verso a extensa peça literária. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. 90 . provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. cobrando detalhes do texto do poema. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. Que tive mãe e. Almoçamos sem que Roberto Viana. Secretário de Governo. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. e 1991. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. porém. o Recife. aparecesse. beijos e despedidas. Foi possível. pois este só despontaria em meados da tarde. para sempre. fugaz. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. a cidade.

Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. à sua maneira. e antecipando. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. valiosa. de sua admiração. com Formiga. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. levando Formiga telefone e endereços anotados. Roberto Viana foi explícito. de imediato. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. por seu relevo pessoal. É o lançamento do seu nome no Brasil. de forma irremediável e comprometedora. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. com Sales. ao regressar de João 91 . em 8 e 9 de agosto. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. em contrapartida.CNPq. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. Comuniquei-me. de que a velhice o alcançara. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . ressalvadas a fonte. Motivei Viana sutilmente. quase que à antevéspera do simpósio. de texto concluído. podendo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. o telefone do seu sobrinho. em cujo domicílio ficaria no Recife. em João Pessoa.. as infundadas notícias. era. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . Assim foi feito. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. e o painelista maranhense. e a demanda foi resolvida. em processo de organização pelos dois.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. você não pode deixar de participar.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. e esse. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. ao ser comunicada. em Brasília. feito de pura louvação de Celso Furtado”. Rebatendo-as. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. demonstrei serem malévolas.

o paraibano Celso Furtado. retraído: 92 . Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. sorrindo. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. desde o Maranhão. parabéns!” A resposta foi glacial. da portaria. O também paraibano Paulo Bonavides. no Espaço Cultural José Lins do Rego. às 8h da manhã. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. Armando Souto Maior. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. apareceu no corredor Ignacio Rangel. Paulo Bonavides e Armando Mendes.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. entre outros. bêbados de cansaço. quanto ao cumprimento do cronograma. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. Mal terminamos o abraço. Rosa Freire D’Aguiar. partimos em vagaroso e confortável ônibus. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. À luz do dia. Virando-se levemente. avisaram que. Ao chegarmos em Tambaú. garantira a sua presença ali. E Pedrão. que chegaria em vôo matinal. pedindo a todos brevidade no café.buscando confraternizar: – “Celso. homenageado e convidados. a solução foi dormirmos. começaria a solenidade oficial. elegante. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. contatou painelistas. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. à procura de Aspásia Camargo. perguntou: – “Pedrão onde você está?”.. mas bela homenagem de sua terra natal. Luciano Coutinho. cadenciado e de pasta executiva à mão. por intermédio da zelosa fonte que. para o Tambaú Tropical Hotel. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. Clóvis Cavalcanti. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. próximo à sua esposa.. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . Hélio Jaguaribe. Sales e Formiga. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. sem mínimo retardo possível. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. cujos setent’anos recebiam tardia. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. às 7h30min. Sales. Antecipando-se ao horário combinado. em uníssono. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. Ao desembarcar. Pedrão e Santos.

a qual tinha todo um programa de família a cumprir. o velho Rangel foi conversando. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. Guedelhas. Santos sentenciou: E Pedrão. decerto. Avisou–me que tivera problema de saúde. evitando viajar só. figura sempre simpática... comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa.. conterrâneo. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo..” Gargalhamos. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. Pedrão juntou-se a nós e. este. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. a Bahia. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo.?” – “Um dia melhora. galhofeiro. combinando capoeira. Mourões e Rangéis da Paraíba. como coordenador do Mestrado em Economia”. Milton Santos. aliás.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. que estava repleto. A solenidade começou pontualmente. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim.. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho.. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. a tristeza. casado. por causa dos problemas de saúde. sua esposa. Explicou-me ainda que. todo o seminário. Quase metediço. com uma sobrinha de José 93 . Desembarcamos. entramos no ônibus e partimos. para esconder. – “Bom”. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. como ficaríamos. que não os cardíacos. retórica baiana e dialética de Hegel. Sentado em poltrona contígua à minha. A caminho do teatro do seminário. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel.

e o festejou. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. Arraes dirigiu-se a Rangel. sexta-feira. sem nenhuma intenção de trocadilho. 8. a qualquer instante. foi constituída por um confronto do seu. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. Tomado por um constante espírito crítico. Estudantes. eu estou preocupado. a dicção ignaciana. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. o faria no encerramento do colóquio antológico. entre sorrisos. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. pelo notável economista paraibano. Surgiu a idéia da criação. Marcos Formiga discursou na abertura. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. ponderando: – “Rossini. a quem auxiliei a levantar-se. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. – “Afinal. E foi. retiraram-se. intelectuais. Quinta-feira. Rossini. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. inquietações. assim como Sales Gaudêncio. Formiga explicou ao velho populista que. segundo convite do Governador Cunha Lima. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. problemas e dificuldades. sem ser suntuoso. sentando-se de novo junto a mim. grande Mestre!” 94 . em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. o Governador Cunha Lima chegaria. elevada e corajosa. emocionado. vivido em estilo elogiável. professores. à maneira isebiana. Lamentando a frustração do seu propósito. quem é que é. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. abraçando-o: – “Salve. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. Contudo.” A participação de Ignacio Rangel. o sábio maranhense deixou escapar a frase. cumprimentando-me da passagem. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. para a solenidade de encerramento do seminário. na década de 50. Admitida a aceitação. com o pensamento de Celso Furtado.

ditado pelas musas da juventude. em busca de um lugar para jantar. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. quando. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. com o estilo inteligente e cortante de sempre. apareceu em companhia da esposa e amigas. 95 . ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. comecei a providenciar o regresso. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. convite para jantar. levando a que eu aguardasse em vão. Apontei. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. onde recusei. A minha expectativa era. Não obtendo sucesso. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. Falei-lhe. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. como sói acontecer. O motorista. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. de minha parte. E. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. como se fossem novidades. Fiquei plantado à beira da churrascaria. pois as mulheres falaram a contentos. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. Armando Souto Maior. que fosse possível chegar ao Recife vindo. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. findo o café. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. entre léguas de cana de açúcar. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. No sábado pela manhã. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. O pedido foi aceito.” Fiquei. parou. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. o burgo de Goiana aos Rangéis. de sua lavra. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. atencioso. houve a ruidosa entrega de certificados. mais à frente. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. em abono do testemunho salesiano. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. Ignacio. e descermos juntos para o Recife. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. Dona Aliette. particularmente. matar a sede e tomar café.

novelista e jornalista Odylo Costa. e iniqüidade. Guerreiro Ramos. e prende um Cristo”. vencendo o cansaço do tempo. E logo em seguida. para não perder o fio da meada. e vós. mero. e misto. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. Que se tem feito em uma. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . Como previsto em trampas. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. com que a todos causam inveja. e tu”. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. e outra idade Desde que há tribunais. filho. e nas entranhas. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. mas terminara a vida no Recife. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. e o fiz sem reticências. e vós. Perguntei a Dona Aliette. Ignacio Rangel. declamou com voz de cristal resoluto. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. A resposta foi objetiva. e eqüidade. e quem os reja. resgatou versos de Gregório de Mattos. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. e maranhas? É Ministro do império. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. E Letras. Que solta um Barrabás. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. revelando a sua íntima conexão com a poesia. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. Tão Pilatos no corpo. e mísera cidade Sua justiça agora.

da competência e da probidade do seu marido. estivera ausente. finalmente. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. que. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. Chegamos ao Recife. cauteloso.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. juntos. no ato. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. ele poderia ter sido muita coisa neste país. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. afirmando que o estudara em Oxford. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. Palavras ao vento. foi apresentada a Josué Montello. que. admitiu que muito do 97 . em particular. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Ele prometeu publicar o documento.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. ela. disparou: – “Minha filha. de boa-fé. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. mas sincero. encontrando o romancista maranhense em uma festa. Sentenciou ainda que sua obra. ninguém duvidava no Brasil. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. que. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. em Londres. para que. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. À noite. onde o habilidoso matemático não ficou. eu redefini o curso da conversa. Sequer os adversários ideológicos. preferiu colocar à mesa episódio imediato. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. no qual a sua filha. nos jornais de Brasília. Daí a pouco. sem rebuços. fui buscá-los no Engenho do Meio. para a economia do seu quatriênio administrativo. Em seguida. seu amigo. segura de si. Por quê? Dona Aliette. Tomando a palavra. O velho Rangel. lançara um sapato no rosto de um estudante. que dela ousara discordar. Roberto Viana esteve presente. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. Disse-lhe que não. garantiu-me que. o prato servido foi Celso Furtado. sob elogio dos seus mestres. sem que recebesse resposta. a qual. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. de fôlego e duradoura. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. para sobreviver. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas.” Dona Aliette.

do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. de toda maneira. com os dois já no Maranhão. em Alternativas do Brasil. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. economista da Argentina. Parabéns! Fiquei prosa. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. aqui em São Luís. vovô Rangel. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. sem necessidade. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. no qual lhes passei endereços e tudo mais. comunicada à Academia Maranhense de Letras. Mantivemos posteriores contatos telefônicos.” Terminado o café com muita prosa. com menos de um ano e meio. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida.. muito prestigiado no ciclo cepalino. lembrando da menina que. quase madrugada. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. desde ratinho até agora. os Rangéis. muito que te quero 98 . entretanto. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. Muito prosa. vai ficar deste tamanhão. editor da Bienal. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. E um livrão grande assim ninguém vai ler”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. resguardado. a referência original. para a Dona Aliette. tua filha. minha filha. E mais: que Phaela a nada faltou. ligaram para agradecer. em termos de construção original. procede do pensamento de Raúl Prebisch. cantava toda a música “Carinhoso”. sonegando. Prosa e verso. que conversa como gente grande. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. de José Márcio Rego. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. fui deixá-los.. Antes de partirem com destino a São Luís. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. movidos a cortesia. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração.

conferimos quem tinha o quê. vem. filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. trocamos idéias. onde adquirimos alguns volumes. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. vem. A conferência. vem. onde estavam familiares. respectivamente. inclusive o seu A Questão Agrária. vem. ficou hospedado comigo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. fomos à Livraria Brandão. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. seguindo recomendações de Dona Aliette. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. situada no Bairro do Recife. foi um sucesso. E também Carlos Osório. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. Conversamos à vontade. em matéria de bibliofilia. Percorrendo as livrarias. O velho Mestre dispensou o hotel. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. por exceção. realizada na sede da Secretaria de Planejamento. e.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. que. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. publicado aqui no Recife. não satisfeitos. com o qual lhe presenteei. e. Mestre Rangel. o deixou viajar sozinho. enquanto Mestre 99 . com destaque para dois sobrinhos engenheiros. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE.

ele e eu. não devendo ambos. prontamente sugeriu: 100 . findo o Governo Juscelino Kubitschek. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. Antecipando-a. bastante cedo. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. Na tratoria. ficou com algumas reservas mentais. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. muito embora eu o deixasse à vontade. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. A explanação da temática foi meridiana. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. de maneira generosa. só depois. chopes e uísques antecederam os pratos principais. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. facilitada pelo concurso de duplos microfones. navegou em céu de brigadeiro. Nada obstante. com diversa óptica. o grande economista estava lívido. na manhã seguinte. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. Mestre Rangel. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. similar ao do Governo Federal. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. em círculo restrito. houve emocionada saudação de Carlos Osório. da democracia e do progresso social. mas temendo. todavia. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. Saber. Rossini. e. comendo de tudo um pouco. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. com a palidez da angústia. confessadas. por minha posição. Na saída. por minha causa. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. em seguida. aplaudida ao final.” E assim foi feito. sobretudo quando revelou que. Ele é o patrimônio da nossa família. indagando-lhe. Retruquei-o. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. não pôde conceder–lhe. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. como gostaria. defensor do recurso em si mesmo.

portanto. Em viagem de navio para o Maranhão. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. Fechada a porta da frente. Ao término do café. recebeu proposta de uma rica senhora. quase um vintém de prosa.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. Quando do retorno. sua conterrânea. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. Foi uma manhã iluminada. ainda ali. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. A chegada do 3 de outubro. Ignacio Rangel retornou a São Luís. e. a criança desventurada. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. e ele. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. ao encontro repentino do rio e da morte. desvãos e perspectivas. pois um morto. desculpando o pai e sentindo-se. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. a aerofogia estava vencida. se em Paris. nascido em 14 de abril de 1928. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. esclareceu fundamentos e circunstâncias. dialogamos um pouco. em 1º de janeiro de 1930. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. limites e possibilidades. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. nesta. De tudo. infante ainda. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. segundo o seu filho. com o fio de espada da dialética. já volátil. E ficaram ambos. o pai e ele. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. carregando na alma o mortal sentimento de culpa.” 101 . em Londres ou em Nova York. retirando dele o peso do cadáver. naquele vendaval de estremecimentos. do magistrado revolucionário em disponibilidade. da estrutura à conjuntura. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. com o pai e seu irmão caçula. significou a surpreendente colocação. a favor da Revolução de 30. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. O pai. o pensador maranhense. Do quadro teórico à formação social. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. porém. Quando quase todos já tinham partido. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro.

Dona Aliette Martins Rangel. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. passara. em congresso de sua agremiação política. com o seu saber velho e desatualizado. fruto de acidente de percurso. porém. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. sob a determinação de sua esposa. Mourão Rangel. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. que aos quinze anos passava a limpo. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. primeiro. Por recomendação médica. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. que preparava o seu terremoto clandestino. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. Nada obstante. por reclamar. de resto. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. o cigarro e a máquina de escrever.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. tê-las e segundo. só à mão. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel.concluída no Rio de Janeiro. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. não deixe este congresso sem conversar comigo. o Brasil. bem como de sua esposa Maria do Carmo .” Realizado o vaticínio paterno. escrita. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. à força pessoal.para alegria de Dr. começada no Maranhão . em máquina de escrever. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. as sentenças do pai magistrado. que é mais do que a sombra protetora. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. Na antiga Capital Federal. isolando-o de todos. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. Não poderás negar. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. Aceita a sedutora provocação. manejá-las. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. histórica e sociologicamente. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. entre faltas e segundas chamadas. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. como passariam. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. O interesse agronômico. a datilografar fumando. o pensador 102 .

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. estuda. Desenvolvimento e Projeto (BNDE. na capital do Maranhão. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. dentre outros. 1957). Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. 1954).Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. em Mirador. nas Assessorias de Vargas e Goulart. com rigor. no Rio de Janeiro e Agronomia. no Instituto Brasileiro de Economia. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. Chile. 1957). Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. concluído no Rio de Janeiro. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. Participa em Santiago. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. hoje BNDES. Sociologia e Política-IBESP. no Clube dos Economistas. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. História e Economia. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. 107 . Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. De forma autodidata. no Rio de Janeiro. no Plano de Metas de Juscelino.1957). no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras.

coligindo boa parte da sua produção intelectual. Revista da Civilização Brasileira. Revista Agrária. 108 . 1982). Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. 1960). 1963). Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. Cadernos do Nosso Tempo. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. 1961). Desenvolvimento e Conjuntura. 1987). Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. 1961). Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. 1985). 1979). A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. a UFMG. Tecnologia e Crescimento (Civilização.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Estudos CEBRAP. a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Ciclo. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. Revista do BNDE. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. 1959).

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