Você está na página 1de 110

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

2

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

3

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

4

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

5

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

6

eles não o poderiam ser. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. Tem que ser assim por força. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. retomamos após dezessete anos esse projeto. Nada o pode impedir”3. responder a essas perguntas ou pelo menos. 2 SOSA.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. Fernando (Alberto Caeiro). Maureli Costa e Pedro Braga. Mercedes. 7 . como o poeta há muito afirmou. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. Raimundo Palhano. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. e quem sabe. fornecer indicativos para elas. 3 PESSOA. publicada na forma de livro. Volver A Los 17. Se eu morrer de novo. com Ignacio Rangel.. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. incompletos dez anos tinha. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. É certo. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. Não conheci Ignacio Rangel. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. o que dele sei me vem. Quando partiu deste mundo. que em sendo seus versos belos.. Portanto. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. tão presente. como é característico do mister do ladrilhador da História. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. que mesmo não podendo voltar até lá. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES.

Fogo. Tecnologia e Custo de Produção. 2. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. isto é. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. Maranhão: antigo e novo. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. Ao analisar a história das guerras em “Fogo. devemos é buscá-las no presente. construí-las no agora e por diante. pensando GRANDE. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. Os artigos identificados foram: 1. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. todos de 1989. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. ao civismo. Por último. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. Profeticamente disse “ora somente. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. o desenvolvimento endógeno. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. sustentável. operação que deve ser planificada. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. blindagem e conjuntura e 3. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. 8 . a “conspiração do silêncio” como ele denominava. não se manteve. eco de sua formação cepalina.

Maureli Costa. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. ou melhor. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. e 3. São Luís: SIOGE. v. o intelectual. para alguns inconciliáveis. A volta por cima de Ignacio Rangel. mas para nós não. 2. outros quatro sobre ele são postos. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. Na franja tênue entre a razão e a emoção. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. 5 BRESSER-PEREIRA. amigos. O Pensamento de Ignacio Rangel. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. a poesia e a prosa. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos.1 (Coleção Ignacio Rangel. al. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. Ignacio. Os do primeiro foram: 1. admiradores. familiares. publicados na revista FIPES. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. o decifrador e o ídolo. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. setembro 2005: 9093. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. et. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. Luiz Carlos. Me refiro a RANGEL. dando conta das várias dimensões. 1). SANTOS. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. 1991. Entrevistado por Rossini Corrêa. Primeira Leitura nº 43. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. Milton. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. 4 9 .

tanto vulto. às vezes. com Rossini Corrêa. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. preocupado com a distribuição de renda. Ele não diz isso como que para se auto-promover. PEDRÃO. melhor do que está hoje. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. O Pensamento de Ignacio Rangel. na sociedade exprimindo em palavras. heterodoxo e extraordinário. capaz de pensar por conta própria. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. entre muitas dessas tardes que viraram noite. com valor e atrevimento. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. de. enfim. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). segundo ele. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. sem ufanismos ou covardia. se ressentem disso. Hoje. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. BRESSER-PEREIRA. Acredito no futuro. no país. com marchas e contramarchas. Ele será. mas por que “o trabalho era tremendo. melhor do que o passado”. São Paulo: Editora 34. nitidamente autodidata. sua busca por caminhos e sua realização prática.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. um homem de ação. Prefácio. 1998. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. Fernando Cardoso. tantas coisas. serem centenas. 10 . participando da resolução dos mais diferentes problemas. podemos dizer que foram milhões. não por cangas ideológicas. na presença dos interessados que acontecia. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. Num homem só. 2001. com pensamento e ação. conheci Ignacio Rangel. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. Ignacio Rangel. mas um criador que se arriscava. na verdade. o Brasil e em especial o Maranhão. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. Luiz Carlos. alguém que podemos dizer que pensou antes.

Outro eixo é o do desenvolvimento. isto é. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. Um terceiro eixo é a tecnologia. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. É preciso inovar e inovar é preciso. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. que agreguem valor às matérias-primas. dinamizando as economias locais. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. mas pavimenta 11 . advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. adequada às especificidades do local. mas agir depois de pensar. Como quarto eixo – a infra-estrutura. não basta apenas pensar antes de agir. sem perder de vista o global. Agora a mera existência deles per si. assim sendo. significado singular do planejamento. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. não ocorre de fora para dentro. mas de dentro para fora. Para tanto. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos.

ao mesmo tempo. Sem dúvida. Objetivamente se constituirá. São Luís. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. atentos à realidade maranhense. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. a partir dessa Cátedra. avançamos e avançamos. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. à luz da contemporaneidade. avançamos. no dizer rangeliano. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . cuja aula inaugural está nas páginas deste livro.

............................................. 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL ..................................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ...................... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ......................................... 95 13 ..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL......................................................................................................................... 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO......................................... BLINDAGEM E CONJUNTURA ............... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ........................ 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ..................... 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ...........................................................

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 14 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 16 .

Benedito Buzar. com menos de trinta anos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Haymir Hossoé. inspirados pelo brilho da lua. nos propomos. editadas e organizadas por César Benjamin. a partir de inícios dos anos 1980. que nos honra com sua presença. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. Raimundo Arruda. privilégio imerecido. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. entre nós. primorosamente editados pela Contraponto. Benjamin Mesquita. os fios de ouro que criaram a obra-prima. filha e herdeira do legado rangeliano. presidido por Dilma Pinheiro. Hiroshi Matsumoto. Cursino Moreira. Flávia Mochel. em evento do Conselho Regional de Economia. Sebastião Moreira Duarte. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. Nesta noite. ajudou a tecer. Luis Augusto Mochel. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. Neste lugar em que nos encontramos agora. neste lugar privilegiado. e outros estudiosos coetâneos. Maureli Costa. Niomar Viegas. Jomar Moraes. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. a realçar o significado e a importância do lançamento. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. sob a presidência de Carlos Lessa. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. os conterrâneos de Rangel. 6 17 . Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. Pedro Braga dos Santos Filho. e que. Emanoel Gomes de Moura. jovens intelectuais como nós que. como Tetsuo Tsuji. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. Carlos Gaspar. de suas “Obras Reunidas”. durante seis anos. Roberto Gurgel Rocha. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. poderiam estar Rossini Corrêa. em alentados dois volumes. no dia 22 de junho de 2005. João Evangelista da Costa Filho. da Academia Maranhense de Letras. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. * Economista. Joaquim Itapary. embora conhecedores das nossas limitações. sob o reitorado de Fernando Ramos. com o apoio do BNDES. hoje relançado por seus idealizadores. Alberto Arcangeli. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. com mãos delicadas de artista.

Instituto 18 . lúcida e ativamente. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. história e economia. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. nesta oportunidade. no Rio de Janeiro. modestamente. como jurista. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. Atuou inicialmente como jornalista. A partir dos anos 50 esteve presente. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. e São Luís. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. que inventaria e analisa. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. para ele uma verdadeira apostasia. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. de modo primoroso e didático. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. em Mirador. ideário. publicado pela Revista FIPES. Derrotado em 1935. historiador e. aos 16 anos. economista do BNDES. hoje BNDES. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. como economista. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. com rigor. edição de jul/dez de 1989. onde permaneceu até o final de sua vida. principalmente. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. Ademais. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. o que já o fizemos. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. De forma autodidata estudou. mas na ação prática cotidiana. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. Foi um homem sólido de caráter. Não apenas no discurso bem construído. combatendo a política econômica do governo Collor. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. posteriormente.

como pelos ideólogos da esquerda nacional. e dos maiores jornais do país. de onde era originário. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. sendo um dos seus patronos. Seu livro “A Inflação Brasileira”. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. em favor de uma nova humanidade. Assessorias de Vargas e Goulart. Sociologia e PolíticaIBESP. um clássico do pensamento econômico. Plano de Metas de Juscelino. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. Um criativo produtor de idéias. sempre fiel aos seus princípios e valores. Respeitava as questões que a academia pautava. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. Clube dos Economistas. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. como a Revista de Economia Política. 19 . Instituto Brasileiro de Economia. conferências e ministrou cursos. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos.. profundos. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. Sérgio Buarque de Holanda. sobretudo os econômicos. em especial a Folha de São Paulo. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. Gilberto Freyre e Celso Furtado. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. Não fez carreira acadêmica nem como docente. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. nem como pesquisador. sociais e políticos.

presente na Teoria da Dualidade Básica. portanto. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. somada à coragem política. Robinson. Juglar. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. o fio de Ariadne de sua obra. Luxemburg. Hilferding.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. como Smith. ou com as matemáticas ou com a econometria. Kondratieff. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento.. José Lucas Mourão Rangel. Engels. dificultaram a difusão de sua obra. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. Kitchin. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. além de outros notáveis. Harrod. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. Marx. Fábio Comparato. Schumpeter. a começar pelo próprio pai. . bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional... com quem aprendeu direito. Keynes. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. o grande jurista brasileiro. “A economia. Kalecki. com quem aprendeu latim. Arimatéia Cisne. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. como tem sido a lamentável tendência da atualidade. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. Muito antes de Comparato. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. como costumava dizer. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões.é a sabedoria de tomar decisões”. Na economia. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. Irmãos & Cia.

além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. sejam econômicos. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. sociais e políticos. seus problemas e crises. Segundo Rangel. a dinâmica capitalista. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. livros e monografias. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. tanto da direita como da esquerda. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. consideradas. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. um modo de produção sofisticado e complexo. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. Os processos internos da formação brasileira. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. o princípio organizador de suas idéias. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. a seu juízo. As teses em voga. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. precisavam ser revistas criticamente. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. a inflação brasileira. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. 21 . O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. Para decifrar o país. quando vem a falecer. sem nenhum exagero. a questão agrária e o papel do Estado. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL.

ser rompido. justamente os últimos de sua vida magistral.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. precisa. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. um decifrador de enigmas. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. mais do que nunca. ao contrário. política. sociologia. geografia e história deste país. na ética e na justiça social. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. que teve o Brasil como maior desafio. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. sem o menor sucesso. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. E aí ele nos levava. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. Sobretudo pelos seus estudantes. baseado na geração de empregos. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. à convicção de que o mundo tinha saída. mas para poucos”. 22 . um pregoeiro destemido e sério. em expedições fantásticas. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. em especial à sua ciência econômica. um anunciador corajoso. Nós. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. Era.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. ao chegarmos em nossos lares. um relógio e uma reguinha de calcular. Evandro Lucas. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. 23 . se. Paulo de Jesus. Não será surpresa para nós. como as de Ludmila e Ana Rangel. uma bússola. um compasso. José Lucas e Alberto. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. o Velho. Será. de beijos e abraços com Aliete. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. sem nenhuma dúvida. nestes tempos de canalhice organizada”. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. como diria Rossini Corrêa. observados por Solon Sylvio. Celso Augusto. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. como presentes por esta festa.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 24 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 26 .

1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. É um desafio muito árduo para nós. São Luís. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. v. 7 27 . fato que põem por terra tais tendências. n. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB.2. por outro lado. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. elaborado em período específico da nossa história. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. involuntariamente. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. Há. Convém deixar claro. pois. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. contrapondo-se às formulações do ISEB. 1988. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. Procura. como nacionalismo e desenvolvimentismo. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. no entanto.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. Com efeito. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu)./dez. realmente relevante e inovadora. jul. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural.3. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. * Economista do IPES. É preciso reverter esse processo. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano.

um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. É. Criado em 1955. pela própria natureza do sistema econômico mundial. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. Não há assim. no entanto são mais recuadas. O que foi possível. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. sobretudo. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. como se sabe. necessários à expansão industrial. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. diante dessa problemática que 28 . Sociologia e Política (IBESP). nascido do antigo grupo Itatiaia. sem declinar o nível das importações. tarefa esta. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. enfim. por ato de Ranieri Mazzili. considerada. Suas origens. pretensão de grandiloqüência. e a singularidade de Ignacio Rangel. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. como é retratado do título. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. atribuída exclusivamente ao setor industrial. foi extinto em 1964. Com efeito. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. por Café Filho. até então centralizada na agricultura. por aqueles diagnósticos. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. em obras como “A Inflação Brasileira”. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. São provas dessas modificações estruturais. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB.

Tinham uma 29 . etc. ampliado e fortalecido. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. como BNDE. sejam da área estatal. aliados à ausência de planejamento. Com efeito. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. e Glycon de Paiva. Uma dessas correntes. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. com participação moderada do planejamento estatal. e o capital estrangeiro. etc. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. seguramente a mais significativa. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). Em outro pólo de interpretação. Como é sabido. divergem do seu enfoque nacionalista. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. Lucas Lopes. já um pouco sintetizadas acima. inaugurado nos anos 40. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. baseava-se no pós-keynesianismo. predominantes ao longo de seu período de existência. sejam aqueles da área privada. em Prebish. vamos encontrar no seu interior. Américo de Oliveira. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. Assessoria econômica de Vargas. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. associado ao capital nacional. CEPAL.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. envolvendo personagens como Roberto Campos. Para os seus adeptos. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. envolvendo nacionalistas e liberais. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. “fonte complementar de poupança”. Ewaldo Lima. como o CNI e a FIESP. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. (envolvendo nomes como Celso Furtado. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. Rômulo de Almeida. Do mesmo modo. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). contando com a participação de empreendimentos estatais.

como Nelson Werneck Sodré. enfim. É. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. um pouco em cima das teses leninianas. aberta. o subdesenvolvimento. Ou. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. como o industrial. tanto uma quanto outra não eram 30 . Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. ou a indústria versus a agricultura. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. Pois o antinacional simboliza o atraso. por razão desta dicotomia. a existência de setores dinâmicos e estáticos. Caio Prado Jr. que além do ISEB. não viam com simpatia o intervencionismo. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. portanto. momentos de unidade e de identificação.. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. A. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. Passos Guimarães e Aristóteles Moura. para a economia de mercado. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. Na verdade. Esta era a corrente socialista. o moderno e o urbano. contava adeptos como o PCB. e. dentre outras coisas. assim. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. ainda que nos anos 50. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. produtivos e improdutivos. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). A despeito da polimorfia. fazendo emergir. a qual se perpetuava por erros de política econômica. Ao lado de uma reforma agrária geral. Admitiam. o arcaico. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises.

o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. atitude semelhante atinge também o ISEB. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. através de figuras como Kalecki. em termos de filiação teórica. Schumpeter e Myrdal. a rigor. este último de enorme influência. por exemplo. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. a CEPAL. de outras influências mais próximas. discípulos de outras influências como Sraffa. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. Keynes. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. J. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). Robinson e Chamberlim. Raul Prebish. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. de evidentemente. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). de cuja ação todos seriam beneficiados. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. 31 . portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. Eis porque. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. aquele que defendia o não-intervencionismo. assentado em bases nacionais. Além. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. Surgida em fins dos anos 40. todos eles. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. De certa maneira. Jaguaribe.

É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. ao imperialismo (a rigor. fortemente inspirado nas teses de Nukse.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. não dera os resultados esperados. a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. com incrementos constantes de renda e consumo. 32 . atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. quando necessário. promover a reforma agrária. que se nutria do modelo agroexportador). Longe de propiciar vantagens bilaterais. o comércio internacional. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. também. ao imperialismo comercial e financeiro. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. de maneira eficiente. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. como especialização e processo técnico. Myrdall. proceder o planejamento das mudanças de rumo. contrária. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. baseado no comércio cambial. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). dentre outros. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas.

“Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . complexos e globais. que era. mas não supera os marcos da economia convencional”. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. é de se supor. 4 E RANGEL. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. Mas tal não é novidade. segundo alguns analistas. É como diz Octávio Rodriguez. como bom isebiano. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. em suas formulações. cepalino e isebiano. Gudin. 1958). Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). Defende. publicada primeiramente em 1963. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. davam àquela instituição uma feição progressista. Rangel detém-se. “A Inflação Brasileira”. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. essencialmente. etc. É justamente em sua obra mais completa e representativa. pelas singularidades de suas análises e concepções. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. que ele vai desenvolver essas idéias. “o pensamento da CEPAL altera. que está quase sempre presente em todas suas exposições. Rangel destaca-se. simultaneamente. Igualando-se a Furtado. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. Desses cruzamentos. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. gestado monopolista e oligopolista. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. em relação às demais. para os anos 40 e 50. já transparentes em outras obras iniciais. Contudo. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. aqui e ali. À primeira vista. não se pode negar que. é possível encontrar. como Furtado. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. como veremos no tópico seguinte. Como Furtado. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. principalmente. respectivamente.

implicando em taxas incrementais de exploração. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. implicando em preços elevados e. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. A rigor. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. o que implicaria. uma vez que a massa salarial tendia para baixo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. por exemplo. em uma situação como esta. em função de integração entre os setores primários e secundários. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). o que implicava na diminuição da demanda. até nutrir aspiral inflacionária. principalmente pelas massas de salários). o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. em detrimento do consumo de industrializados. a curtos e médios prazos. tinham. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. segundo sua análise. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. Por seu turno. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. Isto porque. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. e de outro. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. por outro lado. Os estruturalistas (dentre eles. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. assim. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. 34 . Assim. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. Furtado). Assim. Com isso. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. 1962). logicamente. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. forma-se um grande exército industrial de reserva. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. Com efeito. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. E mais.

A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização).). chegando a dizer que. por força de seu próprio atraso. mais consumo/demanda. Trabalhando com as teses estruturalistas. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. Rangel. a qual poderia até se agravar. Como dissemos no começo. contudo. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. onde as taxas de juros eram baixas. outra vez. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. confirma. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. pelo rumo. bens duráveis. Rangel reafirmava. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. logicamente. o que. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. mais renda e. como estamos vendo. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . podendo gerar mais emprego. discordava desse ponto de vista. um pouco ao estilo cepalino. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. terrenos. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. nessa direção. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. Ou seja. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. etc. a antevisão de sua análise. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação.

Segundo seu ponto de vista. suas causas e fatores impeditivos. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. e mais ainda. É. obviamente. 4. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. sem ser. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. para um “mundo só”.. no essencial o desenvolvimento rangeliano. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. trata-se. a seguir.o Brasileiro. ora pode ser. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. nesta segunda metade do século XX. e de Werneck Sodré. isebiano quando desenvolvemos. publicado em 1960. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. do desenvolvimento capitalista. Contudo há uma 36 . da sua relação com a sociedade e. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. na sua maneira de dizer. principalmente em “A Inflação Brasileira”. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. obviamente. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. na verdade. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. além. um caso específico de desenvolvimento .10). É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. por encerrar especificidades. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. Eis porque.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. pelo ISEB. evidentemente. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista. ou as de Caio Prado Jr. Homem de sua época. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. Logo no início de ROEN. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. sobretudo.

pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. afirmava ele. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. tem suas raízes em concepções smithianas. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. comprováveis ao longo do texto. Rangel. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. por exemplo). todavia. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. através da qual se daria a superação do atraso existente. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. Em ROEN. que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. gás xisto ou eletro-siderurgia. Conclui afirmando que nesse caso. decorrência direta do progresso tecnológico. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. Mais adiante. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Sedimenta essas suas observações. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. mirando-se no próprio exemplo mundial. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. retomando questão anterior. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. Sob o império dessas determinações. fatalmente. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. sintonizado com seu método da análise. como em outros 37 . para viabilizar o desenvolvimento. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. Começa por afirmar. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. asseverava o nosso autor. à internacionalização dos fatores produtivos. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional.

capaz de reverter àquela perspectiva. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. Segundo ele. no principal fator de unidade e de soberania. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. criticando a posição das correntes cosmopolitas. Prosseguindo suas análises. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. Entendo-o. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. Assim para o pensamento rangeliano. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. portanto.14). Ou seja. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. em vez de eliminar. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira.. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. porque não era para centralizar. mas para 38 . porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. Isto posto. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. as disparidades inter-regionais. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”.17). no pensamento de Rangel. não é tecnocrática. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. Ouçamo-lo: “. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. Sua visão do planejamento.. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. e simultaneamente.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. Estas colocações não significam. Segundo ele. pois. em função de importação efetivada anteriormente. Não poupa os empresários. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. mas. evidentemente. tem havido sempre mais fusão de classe. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. além de agravar os problemas de ociosidade. ao invés de eliminar. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. Com efeito. provocados por eventuais crises de pagamentos. Assim. Chegavam mesmo a afirmar que. os seus conceitos para cada uma delas). É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. sobretudo. na história do Brasil. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. mas consolidação das soberanias nacionais. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. Conclui dizendo que. as barreiras nacionais. do que contradição. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . Para destacar a relevância de suas formulações. E isto ocorreria. soberania e planejamento (conforme. Este seria um procedimento inteiramente condenável. Feitas essas considerações. contudo. segundo a análise rangeliana.21). que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. nos momentos de contração às importações. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. alianças de classes. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. ou mesmo. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. que ela deveria existir. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional.

para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira.43). onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. que tanto poderia obter bens de produção.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. pois.38). o que inibiria o desenvolvimento global da economia. isto é. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. Apontava.” (p. A proposta de Rangel.38). cuja utilização. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. a seu ver. do desenvolvimento” (p. aumentar o que é mais importante ainda. Para ele. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. segundo ele. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. assim. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. em grande parte. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. dos quais depende.”) (p. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. Não negará. aliás. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. Nesse sentido. prescindindo-se. Sobre os investimentos. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. pelo emprego de indústria de bens de consumo. além de melhorar seus padrões de consumo. do capital estrangeiro. a ulterior expansão do produto nacional. para vencer esse dilema. assim. 40 . mais adiante. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. o que. ou a compressão do consumo. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico.. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. o volume de seus investimentos. 41). Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção.. sem que ocorresse a compressão do consumo. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. ou na renúncia ao desenvolvimento.

se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. de um lado.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. não se sustentam integralmente. se. Os primeiros são mais rigorosos. como o da ociosidade. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. de outro. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. ideológicos. a nosso ver. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. por exemplo. tratam a produção isebiana sem a menor competência. Sem contar os riscos do paroxismo. enfim. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. por estarem legitimadas em fontes eruditas). guiada pela luz do planejamento. que em ROEN. curiosamente) tenha que passar por ali. liderado pela industrialização. Assim. A rigor. simplifica o problema. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. invariavelmente. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. de uma hora para outra. racionais e equilibrados. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. pois. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. os segundos são ufanísticos e em geral. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito.Isto é uma coisa. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. 41 . que. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. começo dos anos 60. Embora não fale claramente. representam os pontos de estrangulamentos básicos. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. não contemplam a matéria econômica de per si. lacunar. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu.

evidentemente. acima de tudo. por exemplo. Eram também. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . é ilustrativo a esse respeito. Não é nenhuma heresia admitir-se. por exemplo. Não são simples mistificações da realidade. Era por isso mesmo. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). seria crítica da ideologia. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. Não queremos. além dessas preocupações. são mais progressistas do que muitos pensam. fazia mistificação ideológica. como muitos estudos parecem indicar. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. no que escamotiava a luta de classes. consciência das desigualdades. enquanto órgão produtor de cultura especializada. que as suas propostas e análises da realidade nacional. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. da matéria econômica. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. Não devemos esquecer que. Acredita que. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. Segundo Lamounier. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. Afinal. O debate travado em fins da década de 70. mas também a alguns outros da escola paulista. continentais e mundiais. analistas do ISEB. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. para os anos 50. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. entre Lamounier e seus colegas paulistas.

São Paulo: Ática. A Questão Nordeste. Rio de Janeiro: Poli/Vozes. O ISEB: notas à margem de um debate. FRANCO. CHAUÍ. 28). d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. JAGUARIBE. Miriam Limoeiro. 1958. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Discurso n. Bolívar. (Textos Brasileiros de Economia. 9 (Ciências Humanas). Rio de Janeiro: ISEB. 1978. (Ensaios. Guido. São Paulo: Brasiliense.1) RANGEL. 1984. LAMOUNIER.14). 1981. Recursos ociosos na economia nacional. Gilberto. 1960. RODRIGUEZ. O nacionalismo na atualidade brasileira. Rio de Janeiro: ISEB. Industrialização e economia natural. Marilena. 43 . São Paulo: Brasiliense. 1984. 1984. CHAUÍ. Ignacio. A economia política brasileira. 1979. Hélio. 1960. ________. Ideologia e mobilização popular. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. v. Marilena. v. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Octávio. A inflação brasileira. Maria Sylvia de Carvalho. ISEB: fábrica de ideologias. FURTADO. PAIM. Seminários.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. (Estudos Brasileiros. Rio de Janeiro: ISEB. comme proposition pour le développment brésilien . 1978. Celso. 1982. MANTEGA. TOLEDO. Rio de Janeiro: ISEB. 1957. Caio Navarro de. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 44 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 46 .

ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”. este é um texto sucinto que se propõe.4. de 1954. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. O título deste texto é pretensioso. no Brasil. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. sobretudo. no IBESP. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. obra pela qual Rangel reserva grande apreço.2. v./v. n. Na verdade.6. no Rio. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. em homenagem a Ignacio Rangel. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano.2. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. jul. monografia de conclusão de curso na CEPAL. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. de “Literatura Econômica”. através de levantamentos em outras fontes. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. de São Paulo. correspondente ao período 1955-1985. tanto em extensão quanto em conteúdo. 47 . cuja primeira edição é de 1959./dez. São Luís. de 1957. pelo ISEB. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. n. 1989. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. Isto porque. elaborada em 1953.ENE. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. se conseguir. conferências pronunciadas em 1955. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”.

Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. originalmente de 1963. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. Boyer. em 1960. [7] trabalhos de fôlego. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro.J. a UFMG. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. defendida na Universidade de Leicester. de R.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. Cadernos do Nosso Tempo. São Paulo. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. reeditado posteriormente pela Zahar. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. estando próximo da 10ª edição. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. Revista da Civilização Brasileira. publicada pela HUCITEC. Revista Agrária. de 1982. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. reunião de artigos. Estudos CEBRAP. Recife-PE. [12] “Ciclo. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. período de 1983 a 1987. Tecnologia e Crescimento”. publicado pelo CONDEPE. de Paris. Rio de Janeiro-RJ. Brasiliense e Bienal. Inglaterra. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. tais como Digesto Econômico. no ISEB. [10] “A Inflação Brasileira”. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. reunindo textos selecionados. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. em cuja tese de doutorado. Desenvolvimento e Conjuntura. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. de 1985. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. 48 . Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. de 1987. de 1961. no Rio de Janeiro-RJ. abordando a economia brasileira durante o regime militar. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. de 1959. Rio (RJ). integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. publicado pela Editora Bienal.C. editado pelo Tempo Brasileiro. Revista do BNDE. atualmente na 3ª edição. no campo da Economia e das Ciências Sociais. está arrolada. publicação pela Civilização. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. publicada no Rio pelo BNDE.

o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. em 1953. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. podemos dizer. a obra de Ignacio Rangel. estudos e projetos. 1986 (26 artigos). Inscreve-se como uma resposta 49 . ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. e até de universidades estrangeiras. 1988 (15 artigos). 1984 (24 artigos). da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. São artigos. de Keynes. palestras e depoimentos. e em termos gerais. só na Folha. entrevistas. em sua extensividade e profundidade. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. nos últimos 10 anos. originalmente. 1989 (39 artigos). Em 1957. ainda não foi inteiramente trabalhada. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. A despeito de suas proporções consideráveis. em seu trabalho citado. foi publicada pela primeira vez. com alguns retoques. Isto longe de desmerecer. entre 1983 e 1990. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. a jornais e revistas especializadas em economia. O que constitui sem dúvida. de Smith. 1985 (83 artigos). 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. perfazendo. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. Isto posto. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. São pareceres. relatórios técnicos. ensaios. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). Quando redigiu. 1987 (32 artigos). veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. interessadas em ouvir suas conferências. Segundo nossos dados. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. Rangel publicou 247 artigos. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. onde tem veiculado sua produção. 1990 (23 artigos). atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. a saber: 1983 (25 artigos). Não menos volumosa é sua contribuição.

Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. que articula as teorias dos ciclos. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. com extraordinária clareza. no sentido da superação do capitalismo. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. no Brasil. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. Mantega. transformada. político. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). Em 1981. ainda hoje. apoiados em Kondratieff. desenvolve. out. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. o qual. inquestionavelmente. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. Rangel. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. o da “dialética da ociosidade”. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. é o maior dos pioneiros. com o qual se definia o 50 . aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. [3] Tese da Inflação Brasileira. Para efeitos analíticos. Tolmasquim. como Monteiro de Castro et Belshowsky. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. social.. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil./dez. [4] Tese da Questão Agrária. contida em seu famoso livro do mesmo nome. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. Davidoff Cruz. pela sua densidade analítica.

Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. História e Economia. Em 1954. em Mirador (MA). Chile. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. original e inovadora. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. com rigor. De forma autodidata. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. onde ocupou a função de membro consultivo. Pela envergadura do seu poder criador. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. atuando. no Rio de Janeiro e Agronomia. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. do qual foi presidente no início dos anos 80. como economista.) afirma. ao longo dos últimos 30 anos. Dono de uma obra monumental. participa em Santiago. Tolmasquim (op. textualmente: . Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. bem poucos. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. principalmente.. que o motivo 51 . 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Castro et Bielchowsky afirmam. na capital do Maranhão. estuda. cit.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. posteriormente como jurista. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. convictamente. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. um ano após seu ingresso no BNDE. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. “Ignacio Rangel se tornou. Gudim ou Conceição Tavares. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. historiador e.. Seu lado mais conhecido. pelo Instituto Brasileiro de Economia.

Suas análises. mas. além do assessoramento a Presidência da República. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. um escritor refinado. em São Luís. a teoria da inflação. O criador original. Em meados daquela década integrou a ANL. do movimento de 8 de outubro de 1930. mas pouco destacada. as propostas pioneiras à época. quase sempre. Há o Rangel pensador. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. participou. Fora do setor público. Aqui também sua biografia é expressiva. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Há o Rangel militante. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. pegou dois anos de prisão e. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. Como conseqüência do levante de 1935. Que. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. como o militante político. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. 8 anos de “domicílio coacto”. O pioneiro. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. dono de um estilo invejável. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. ricas metáforas. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. de domicilio forçado em São Luís. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. que. de repente. em seguida. autêntico e destemido. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. igualmente. no clube dos economistas e em centros universitários. Sua face reconhecida. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. as análises sobre reserva de mercado. onde chefiou o Departamento de Economia. sua militância foi também relevante no ISEB. na introdução de seu livro “Economia: 52 . vêm recheadas de erudição histórica.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. como o de tornar público o seu pensamento. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. Com apenas 16 anos. fina ironia. a vários ministérios e governos estaduais. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia.

Neste particular. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. recusou o convite. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. vem. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. Há ainda um Rangel muito especial. Instado pelo então presidente Goulart. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. Rangel. de vida. Além disso. Já de algum tempo. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). quebrando esse adágio. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. Rangel em relação ao Maranhão. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. O Rangel conselheiro. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. hoje Banco Central. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. honrado e agradecido. voz que muitos escutam ou querem ouvir. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. O Rangel profeta. envolvendo UFMA. a SUMOC. Com efeito. quando era para dizer e disse não. aos poucos. quando foi preciso. desde o início dos anos 80. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. Em 1989. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. do IPES. preferindo semear na planície. no dia em que completava seus 50 anos. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. Há ainda o Rangel missionário. O cidadão que soube dizer sim. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. como ele mesmo confessaria. vinculados ao IPES. O Rangel funcionário público. aliás.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”.

no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. magistralmente. porque Rangel é um otimista. “Parece que. 54 . fez e continuará fazendo. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. ouvi-lo dizer satisfeito. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. Aplausos que eles. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. a produção e a obra do economista maranhense. verdadeiramente. falando a um grupo de admiradores. entre modesto e orgulhoso. Oportuna. Sua marca é o nascimento e o humanismo. Finalmente o dia de hoje. modernização e democracia. Em sua última visita a São Luís. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. minha voz faz eco”! Faz. Ao seu lado. o Dr. de 13. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. os merecem! Sumary In this article. Aplausos companheiros. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. através da Secretaria de Cultura. cujo sentido é o de difundir.1951. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. Feliz. sim. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina.. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro.411. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth.. através de livros. como bálsamo e esteio. sim. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. Crê no país e em seu povo. enfim. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. desenvolvimento econômico e justiça social.08. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO Ignacio de Mourão Rangel 55 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 56 .

4. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. Assim. O navio a vapor viria romper esse isolamento. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. Autor do clássico A Inflação Brasileira. começo dos anos 60. O Maranhão foi como é sabido. um modo mais avançado de produção. era a Atenas Brasileira. n. já o vizinho Ceará havia./jun. Mas restava outro fato. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. * 9 57 . Mas significava que a economia cearense. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. de fato. como era natural que o fizessem. mas um passo atrás. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. libertados os cativos. Não a passagem ao feudalismo. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. ao comunismo primitivo. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. v. contrabandeados para o Sul e. Quase isolado do resto do Brasil. Um dos fundadores do BNDES. um modo superior de produção. os quais eram. não raro. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. São Luís. 1. jan. isto é.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. Economista. desde os tempos do império. do que do Rio de Janeiro. ou melhor. Quando chegou a 13 de maio. Por outras palavras. para o Maranhão. 1989. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. que era terra de ninguém. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. O Maranhão. mas o retrocesso à tarde e à cubata. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. Não por acaso. estes usaram sua liberdade. inclusive. uma das províncias mais ricas do Império. não se havia cumprido no Maranhão. Com efeito. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. e a Amazônia.

É certo que. Queimada a mata uma vez. entrou a caminhar. meias e cânhamo. voltaria a começar a crescer. da Bahia e de São Paulo que. O migrante do 58 . na composição da mão-de-obra escrava. Somente por meados dos anos 60. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. Além das fábricas de fiação e tecelagem. Seguindo-se a Minas Gerais. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. somente em 1960. Entrementes. Assim. suponho Engenho Central. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . Assim. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. entraram em decadência. 12 e 10 fábricas. quebrando nosso isolamento dourado. Burgos ricos. isto é. 14. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. inclusive.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. nessa ordem tinham 15. como Alcântara. compensou com sobras essa perda. além de flagelados nordestinos. Mas o surto agrícola. com a indústria do Nordeste oriental. nas cinzas da velha mata. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. a passos largos.a Abolição representava um formidável passo à frente. inclusive de lã. segundo o Prof. deu um golpe fatal nesse parque industrial. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. aí por 1895. no Nordeste. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. especialmente em São Luís. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. no Maranhão).. raros no Brasil de então. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. somente. A seca de 1958. A epopéia rodoviária. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . Era outro processo que se abria. demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. Com efeito. para a préhistória. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. Turiaçu e. a área ocidental do Estado. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. no corpo do Brasil. Demograficamente. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. Especialmente a Guiana Maranhense. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. pela ferrovia São Luís-Teresina.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. etc.

o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. conversando sobre esse processo – na primeira fase. mas protegida. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. ao que ouvi. Uma cerca única. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. depois. sociologicamente. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. em minha recente passagem por São Luís. penetrara no Maranhão. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. muito mais gregário. para encerrar essas notas. são as áreas problemas do país. porque ao contrário do cerrado. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. que havia em seu Estado. não raro emitia outro parecer. toda a área por uma única cerca. que começava na Paraíba e. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. isto é. a caatinga não está. O surgimento do Estado do Tocantins. Lembro-me de que. que é a penetração do capitalismo no campo. envolvendo todo o município. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. sendo Presidente da República. Aí por princípios dos anos 60. eu. Um pouco mais demoradamente. que estava desocupado. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. não estava fora de cogitações. em nossos dias. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. O Porto do Itaqui. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. com água dos rios que formam o Golfão. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental. sob. que eu o saiba não teve seguimento e.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. o que implicava numa colossal economia de material. Jânio Quadros. atendendo a uma ordem do chefe do governo. Os vastos campos da Baixada Maranhense. Bacabal é hoje um município pecuarista. Mas. fileiras de mamona. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. este último expelido pelo boi. havendo cruzado o Piauí. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. não deve ser estranho a esse processo. Vi roçados nordestinos. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. na direção geral 59 . encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. Na seqüência natural deste. Essa utopia. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal.

até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás.maio/89 . centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. do Rio Fresco. apenas começando. isto é. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. Ora. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. as ferrovias canadense e transiberiana. para Açailândia. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. 60 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. é indústria pesada o que teremos. somente pensando GRANDE. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. que não impediram o lançamento da BAMUR. a Floresta Amazônica. que Carajás. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. esteja preferindo. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. Minha recente viagem ao Maranhão . com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. Como meio de transporte – excluído o duto. Embora geograficamente situado no Pará. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. e em Vladivostok. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. respectivamente. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. tanto mais quanto. Ora. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. combinadas. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. com antracite. nada menos. Com uma peculiaridade: que. em vez de indústria leve. (A menos que. Há muito que sabemos que. Hoje. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. Por outro lado. hoje. poderá confluir o gás natural amazônico). a saber. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. na direção geral de Callao. Sabemos. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico.

61 . Os quais nos apontam uma posição de elite. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. cada vez mais energicamente e. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. e imperativos geo-econômicos. O Brasil unifica-se. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. herdados do antigo latifúndio feudal. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. depuis lês temps de l´empire.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 62 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

4./1989. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. e. contra fogo. 2/ v. Economista. culminação da arte militar helênica. Esse dispositivo buscava. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. provavelmente aprendida por Felipe. como vem acontecendo. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. ganha por Aníbal. dotando a infantaria de armamento leve. Ao contrário de grandes exércitos.c. deixar-se cercar pelo inimigo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. n. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada.) ganha por Alexandre. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. em campo. Paulo Emilio. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. da Pérsia. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. Refiro-me a Canas./dez. de Epaminondas. responsáveis pelo choque e. não para o sitiado. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. contra multidões asiáticas incontáveis. e Canas (216 a. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. v. São Luís. Era uma verdadeira fortaleza. contra o cônsul romano Paulo Emilio. contra Dario III. revelaram-se inanes. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. prenunciando guerra de movimento. ante o poder de fogo da infantaria. escalonados em profundidade. Ainda na antiguidade. com a propriedade de poder mover-se. porque. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. pela imposição da guerra de movimento. 2. Os esquadrões de cavalaria. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. jul.). sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. n. entre uma guerra e outra. de caso pensado. a tecnologia. portanto. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. 65 . Em nossos tempos. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. 6.c. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. ao longo da história. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. na guerra como na economia . Alexandre colocou a falange macedônica. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. Em Arbelas. travou-se.

o imperialismo. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. por interpostas pessoas. como os nazistas depois de Stalingrado. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. do tipo Arbelas. nem. “by proxy”. Em Arbelas. em campo aberto . reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. Assim. o qual teve que bater-se em retirada. Não há como não pensar nessa possibilidade. nem pedra de fundo. em Arbelas. nas alas. plausivelmente em nossos dias. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. porque Aníbal. o quadro da tecnologia inverteu-se. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. nem flexa. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. por ter feito. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. ordenou a inversão do próprio dispositivo. isto é. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. Assim. nos versos do nosso grande Bilac. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. em última instância. já com as tropas romanas em movimento. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. sob a forma de “blitzkrieg”. com os Estados Unidos à frente. Ora. naturalmente. lança. Já não era mais assim no final do conflito. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. sendo mister resistir a este com artilharia leve. de pouca confiança. O tanque. certeza arrecadou. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . Como em Canas. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. convertido em saco. não se perdia. saiu mal aos romanos. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. no exemplo de Alexandre. o expediente por muito brilhante que parecesse. Com efeito. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. que as alas de elite cartaginesas fecharam. levaram a resultados diametralmente opostos. formando um saco. inspirado. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. exposta ao fogo aéreo .

nas batalhas passadas. no futuro. . que os nazistas não lograram romper. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. Ora. pelos russos. com defesas escalonadas em profundidade. como seria de esperar-se. Sabemos. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. O que nos levaria. no caso da indústria bélica. não fez senão estruturarse. Ora. Para isso. e consolidada em Stalingrado e Kursk. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. depois de Stalingrado. com os russos metidos num saco. na espécie. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. no campo de batalha. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. Em conseqüência. uma “blitz”. mas no fundo. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. O meio século que está por concluir-se. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. dizíamos. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. O exército soviético suspendera sua ofensiva. agora. Ora. nas condições presentes. Com efeito. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. de então para cá. as batalhas típicas do último conflito mundial. ao qual faltava apenas amarrar a boca. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. até Berlim. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. Em Kursk a maior batalha da história. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. como Alexandre em Arbelas. não obstante o terrível preço pago na tentativa. isto é. a história não parou aí. que justifiquem a produção em série. mesmo depois de Kursk. que os nazistas não haviam aprendido a lição. seguiu-se uma guerra de movimento. em vez de. como vimos essas batalhas. O cerco. não se consumaram. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. Paradoxalmente. porém. é a mesma coisa – esse meio século. 67 . ou ao contrário. a buscar Arbelas e não Canas.

nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. árcadios. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. novíssimos. porque tudo se faz em sua intenção. ainda para refinar-se e. é como se já tivesse acontecido. os soviéticos deram aos coreanos. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. do ponto de vista da arte da guerra. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. na batalha de Canas. Na Guerra da Coréia. ao que se sabe. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. os vencidos. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. mas ao contrário do Pentágono. por exemplo. por equipamentos inovadores. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. para variar. mas o modesto MIG-15. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. nem as batalhas econômicas nem. porque “resolvem” problemas pretéritos. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. que talvez não aconteça nunca. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. no mínimo. O Pentágono e. isto é. Na Coréia. um pequeno avião. o Estado-Maior Soviético. Por isso as batalhas da história são ganhas. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. ao que parece. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. inclusive em nossos dias. mas. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. numa trincheira. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. o Estado-Maior Soviético. uma temeridade. por isso. não basta para alterar o quadro histórico básico. tampouco. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. como aquela que. escondê-lo consigo. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. foram eles os perdedores. como o noticiário nos está mostrando. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. apesar dos gorbatchovos. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. não bombardeiros ainda modernos. Nem se ganham. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. de fato. mas. mas que. Ninguém. todos os dias. geralmente. barato (porque produzido em série). Os norteamericanos. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. não problemas vindouros ou. Assim. como todos devem estar lembrados. Quando não uma tolice. ou num simples buraco. que não tiveram tempo. a fortiori. são simples e toscos. nesse Estado Maior. consequentemente. sequer correntes.

para ganhar guerras. na fronteira com a Sibéria. para matar gente. Como foi na Coréia. em “blitz” ao Rio Yalú. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. acontecido com as armas químicas e biológicas. estava cumprida quando. como disse o nosso Brigadeiro Piva. como um gigantesco produtor de sucata. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. surgiram as armas nucleares soviéticas. tiveram que bater em retirada. como às vezes é mister. de onde não mais se moveram. Ora. não tanques “ainda mais modernos”. Ao que noticiou a imprensa.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. no anterior conflito mundial. depois de chegarem. Mas é apanhado de surpresa. Uma sucata “moderna”. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. proteger-se por detrás do escudo 69 . serviços públicos e monumentos. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. pouco antes da Guerra da Coréia. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. nem mesmo na minúscula Nicarágua. mas sucata em todo caso. “reluzente”. nem a bomba de hidrogênio. o MIG-15. Para vencê-la. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. evidentemente.. A Segunda Grande Guerra. “refinada”. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. no Camboja. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. E. já provado antes. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. tratava-se de um foguete. Não para aniquilar exércitos. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. a missão estratégica desse aparelho.. no Afeganistão. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. por causa do seu refinamento de fabricação. surgido no estágio final da segunda grande guerra. é que este está excelentemente preparado para ganhar. havia ou quase. seria mister ocupar o Iraque e. no paralelo 38. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. isto é. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. no passado século-e-meio. que não podem. no Vietnã. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. isso não seria fácil. eventualmente. assim. uma versão tosca de armamento anti-tanque. Como. pois já invadira três vezes. quando se trata de partir para a terceira. para as posições de partida. ainda nem a bomba atômica. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico.

o caso do Iraque.0% ao ano. Com a paz tivemos. estão vivendo a sua segunda fase “b”. a taxa média de 70 . aparentemente. Em 1973. Com efeito. ou 6. a humanidade ingressou. Ou na medida em que não possam. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. Ou a recíproca é que foi verdadeira.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. portanto. ou quase. muito mais.6% ao ano. no decênio final da dita fase recessiva. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. pelo menos ao primeiro exame. Os homens e mulheres que. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. do Dr. tivemos a emergência do fascismo. carregado de significado. isto é. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. ou próspera do 3º Kondratiev. 449. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. como 100. Nos primeiros anos do decênio de 20. nos concílios do estado. em 1973. Os homens de minha geração. não apenas no campo econômico. o mago das finanças de Hitler. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. falam em nome da ciência econômica. para o Japão.2% ao ano. nos Estados Unidos. 550. nos cinco lustros da fase “a”.6% ao ano. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. na presente guerra. para comparação com os dados supra. Ora. porque atravessam. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. e o Plano Quadrienal. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. Von Schacth. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. é tempo de que nós. simultaneamente. de quebra. O armamentismo e a própria guerra. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e.6 % ao ano para a União Soviética. são jovens e. ou 4. para o Mercado Comum Europeu. que estão beirando os oitenta. atualmente. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). abriu-se. ou 7. na Alemanha nazista. O índice para a América do Norte passou a 305. os economistas. com essa depressão. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. ainda mais. num esforço ligado ao nome de Keynes. no Brasil. como está sendo. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. que América Latina (inclusive Brasil) e. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. para a América Latina. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). ou ciclo longo: o 4º. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. porque às vezes o podem.

Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito.2 %. ou melhor.6% ao ano. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. o do Japão.4% do ano.1% ao ano. Apenas. disse ele aproximadamente. e Japão de nossa época é flagrante. naturalmente. isto é. Afinal. isto é. e um renascimento do fascismo. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. a 3. promovida pelo Eixo Alemanha. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. porque no lustro intermédio. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. de fato. foi tragédia. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. Passando o conflito. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. não há como pensar nisso. o crescimento industrial da América do Norte. Mas também. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. do ponto de vista econômico. o Iraque. o do Brasil. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. a 3. está em gestação”. O Mercado Comum Europeu. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. Itália. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. passou de 2. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. Há meio século. quando vemos essa coalizão de 28 países. E Jorge Dimitrov. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. da primeira vez. a saber: uma crise econômica profunda. Estamos. uma guerra mundial aparentemente em marcha. Para começar. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. os valores caíram a níveis negativos.5% ao ano. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. a 1. segundo o qual a história dificilmente se repete. deram-nos um modelo de 71 . do antigo mundo socialista.3%. esses temores foram esquecidos. caiu a 4. e. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. Em média. o da União Soviética. “Uma nova vaga fascista. Ora.

como naquele tempo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. não há como pensar nisso. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. Isto é. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. ao subir ao poder. Só para exemplificar. Ora. não tem nenhuma grandeza. promovendo um direito trabalhista que. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. comandante do exército vietnamita que. respondeu que aquele fora um fato complexo. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. Naquele tempo. Soares Pereira. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. porém. como na França de 1789. Com a mesma diferença. de Mussolini. supostamente invencível. nossa experiência “collorida” de fascismo. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. isto é. Muito mais tarde. num enquadramento francamente corporativo. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. o general Giap. corporativas. mais que. os homens de esquerda. nem. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. para o dito desfecho. O Brasil. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. por exemplo. vale dizer. – Do que jamais me arrependi. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. Somente mais tarde. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. Em suma. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. do “Golfo”. a construção do capitalismo industrial aqui –. agora nos chegam. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. nós. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. 72 . e calcado nas instituições medievais. difícil de explicar. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. está fazendo eco ao surto fascista mundial.

que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars. havia sido meu comandante. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. isto é. 6. com escassos 16 anos. batendo todos os recordes. prócer aliancista maranhense. – Getúlio. consequentemente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo.5 vezes.8 vezes. como chefe da revolução. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. o Brasil e a União Soviética. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. procurando corroborar a ação de meu pai. On the contrary of big armys. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. da recessão e do desemprego. fizme conspirador e soldado voluntário. ao primeiro exame. cresceu 26. a do Japão. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. que estivemos construindo. dei razão.9 vezes. francamente parecera temerária. Quando da Revolução de 30. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. Conto estas coisas. 73 . Entrementes a produção industrial brasileira cresceu.9 vezes. É esta formidável potência. a do mundo capitalista. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. que aí temos. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. somente dois países. o mais próspero dos países capitalistas. que temos o dever de preservar. e como o epi-fenômeno que é. Com efeito. Para meu conhecimento. no mesmo período 23. 13. eu fora getulista por um breve momento. fazendo jus a toda minha lealdade.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 74 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 76 .

fiz-me um economista fora de série.2. haveríamos deixado que. sobretudo. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. no período. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. Mas não fizemos isso. e o segundo. como em muitos outros países. mas viúva de um comerciante português. da firma Martins e Cia. naquele tempo. em São Luís – dela ouvi este julgamento. diretor-presidente e chefe do escritório. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. n2. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. Talvez por estas e outras. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. n. nada sabiam de Direito e. radicada em São Luís. 77 . latim. São Luís. jul. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. Quando me despedi de Mrs. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava.6. Irmãos e Cia. a depressão criasse raízes./v. 1989 Economista. para ficar. na firma Martins. v. Imagine-se que. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. no curso de inglês.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. sobre meu desempenho. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. Minha experiência. ao lado de João Vasconcelos Martins./dez. Outros mestres assim. Mas nunca encontrei ninguém. a começar por Rui Costa Fernandes. preparou-me para entender o que. Silveira – aí por 1940. que aprendesse mais depressa do que tu –.4.. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. secretário geral da CEPAL.

– Como assim. isto é. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. na velha escola da Rua do Sol. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. isso me pareceu impraticável. opus-me ao esquema da Eletrobrás. a implantação de um Departamento moderno. Com efeito. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. mas de homens que. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. Noutros termos. não preciso de aduladores. que não teriam acontecido se. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. dentro e fora do país. esquina com a travessa do teatro. pelo menos durante algum tempo. Araújo Costa. sendo elas próprias parte do Estado. diretamente. Rangel. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. nos três decênios 1956-86. a receita pública com a qual o 78 . teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. A equipe conhecia esse mecanismo.5 vezes. Sem isso. sem outra garantia senão o aval do tesouro. não houvéssemos criado condições de investimento. a eletrificação – e. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. nossa produção de eletricidade cresceu 12. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. visto como. Ao primeiro exame. Ora. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. a exemplo de Tucuruí. Não foi por acaso que. no período. então. na época. como a União Soviética. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. possibilitariam coisas ainda impensáveis. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. uma receita estatal que. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. por essa via. mais do que o dobro da média mundial. de um modo geral. o que constituiria um absurdo. Entretanto. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. com uma receita pública cuja origem era afinal. a renda gerada pelos investimentos privados. até por que eu próprio lhe havia explicado. Isso significava que. nos quadros da reserva de mercado.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. eu já sabia. como sei ser o seu caso.

no fundamental. dos países mais avançados do mundo. Hoje. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. com o resto da economia mundial. sob certo ponto de vista. isto é. Naquele tempo. isto é. a saber: hoje. a mesma. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. Naquele tempo. como então. Com efeito. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. nas condições do emprego desse fator congênere. para a empresa. contrabalanceado por outro. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. Entretanto. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. Como venho insistindo. as reservas retardatárias. Parece predominar. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. atravessamos uma crise. como abri-las. estaria surgindo ex nihilo. para isso. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. Ora. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. não obstante o atraso tecnológico. hoje. 79 . as condições persistem. a renda nacional poderá crescer. mas teria sido pura ilusão esperar que. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. Noutros termos. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. no Brasil. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. se um fator de produção está desempregado. o custo de produção. do nada. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. mesmo que. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection. while. it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology. 80 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 82 .

A móvel manhã quente e derretida. calça. sabonete. mesmo estando em Pasárgada. varava as persianas do pequeno apartamento. dias 13 de junho de 1988. trazendo o seu cortejo de surpresas. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. Voltei para atendê-lo. pois. rítmico. camisa.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. Rossini. aliás. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. pão bolorento. carregando comigo. como vais? Quem está falando é Rangel. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. coisa. Tanto quanto possível. toalha. como me pus de pé. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. desimportante. por dentro.. bela viola. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA.. Membro da Academia Brasiliense de Letras. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. tragicamente. barba. Mal toquei o aparelho. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. Quase pronto e pensando no trânsito. a chave girando na porta. prossegui. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. Estava de saída. por fora. aquela voz inconfundível. a completar seis anos do dia em que foi. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. escova. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. Mais depressa. creme. quando escutei o alarido do telefone. não sou amigo do Rei. sabendo novamente ser a República. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. lâmina. o jornal político. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . mais do que ver. não recordo se na Globo ou na Manchete. Acordar acordei. com a sua linguagem trêfega. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. cueca.. Eu estou aqui em Brasília. Não só acordei.. 12 83 . um morto querido – meu tio. disparou: – “Alô. disputando com o ponteiro dos segundos: água. dentes.

em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. no BNDES. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil.. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. quando vence a diária. é uma espécie de banco legal..” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. o encontra”. – “É isto mesmo.. de tarde. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. É uma grande alegria para mim. e hoje há gente ocupando altos postos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou . às 15h.” 84 . Professor! – “Porém. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades.. – Perdeu? Que pena. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti. Tenho trabalhado muito. tudo bem.. ainda não tenho. – Sei.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. junto com Aliette. Volto hoje mesmo.. e ela.. que eu ajudei a formar.. aqui no Hotel” – . A bem da verdade.. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra. Perdi o meu genro domingo.. dando assistência para a minha filha Liudmila. cargos de direção etc. mas não estou largado. – “. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. nosso ponto de encontro de sempre. eu deixo o Hotel.” – Que pena..No Hotel Nacional? Não. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia. Muitos foram meus estagiários..E tive que parar um pouco e ficar..” – Que bom.Então. Vai-se levando. prontamente. que está comigo. no mais. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso. saber que eu estou velho. Vi este pessoal todo entrar no Banco.. algumas tristes. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas.

que lamentável. ao qual não basta desgostar do comunismo. telefonei para uma convidada minha. eu vou ao seu encontro no. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. Rossini. ou até mais do que eu. Eu gostava muito dele. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. Flávia Galiza. de qualquer jeito... – “Vai trabalhar.. passei pela Secretaria Geral do MinC.. conversei com Flávia Gomes de Galiza. compreendeu. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. no Hotel Nacional. rapidamente. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. preso em novembro de 1935. gentil.. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. Flávia Galiza e eu. Professor. que era um burguês diferente do burguês brasileiro.” – Vou. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. quem sabe. eu vou para o serviço agora. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. Olhe. na chamada Intentona Comunista. – “Ah. pois eu pensei que nós pudéssemos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro. No aeroporto? Bem. Um grande abraço para o senhor. contudo.Almoçar juntos? – “Sim. Ele realmente merece uma pesquisa. Decidida a documentar o encontro.. Um abraço para ti. – “Até mais.. Até mais. De qualquer maneira.” – Até mais. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. Ela.. ficou vibrando. então. – “. e almoçamos juntos. nos encontrar e . E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício. neta de Jesus Norberto Gomes. pois ele tem de ser é anticomunista. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa.. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. Tanto quanto. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. Em seguida. a terceira convidada solicitou 85 .” – ..” – Sem dúvida.

Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. a pequena comitiva partiu. também dos quadros superiores do MinC. reunindo textos esparsos e inéditos. a propósito da necessidade da reedição da obra. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. Eu o provoquei. logo tomamos a direção desejada. e de outros afazeres literários. tornada um clássico das ciências humanas no país. discorreu a respeito de projetos de livros. autografado. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. Realizava-se ainda o colóquio. Passando recibo ao meu desafio. em companhia de Dona Aliette.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. com a alegria de haver recebido. Fui buscá-lo à entrada do auditório. Necessitado de um paradigma. e confessou. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . de onde marchamos para a beira da piscina. a política e a história do Brasil. que fôssemos almoçar no aeroporto. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. em animada conversa. À beira da piscina. E o velho Rangel. no caminho... Celso Furtado. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. A marcha batida deste. premido pelo horário. a economia. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. Aceito o convite. o livro Economia Brasileira Contemporânea. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. Vi olhos marejados. com vivaz prosápia. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. neto de Demétrio Ribeiro. reagindo bem. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. Chamei-a. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. editada por Jorge Zahar. Sem demora. Ignacio Rangel sugeriu. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. em substituição à afoiteza que lhe é característica. no mínimo. onde evitaria contratempos. No horário combinado para a saída. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. sobre a sua produtiva atitude intelectual. o aguardamos. Aplaquei-lhe os justos reclames. como o de perder avião. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. em contrapartida. No intervalo. o evento foi encerrado. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. no auditório do Hotel Nacional. que integrou o primeiro Ministério da República. Chegamos.

. Mas o senhor pode reeditá-lo. declinou nomes. E confirmou. desaguando na divulgação do seu opúsculo. com uma introdução atualizadora. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. a sua ligação com os comunistas. referente à crise nacional. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. seriam depoentes abalizados a seu respeito. Afinal. que não é habitual. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. a prisão política em 1935. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. tanto quanto ele. 87 . onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. Ignacio Rangel.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. em uma autobiografia. com Isabel e Epitácio Cafeteira. agora. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. deparamos. com a ajuda material de Jesus Gomes.. as quais.” – Entendo. ao centro. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. Mourão Rangel. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. Sentamos. Chegada a sobremesa. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. mergulhou em um mundo de lembranças. voltando-se para mim. enfim. à frente de Flávia Galiza. Rossini. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. o Juiz e Professor Mourão Rangel. o que é uma necessidade. O testamento vai ficando para depois. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. o propalado ateísmo. intitulado Dr. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio.” Chegamos. o viajante. – “Esta é uma boa idéia. ainda. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. Tempo houve. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . Trocamos apenas olhares. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto.” – A redação de sua autobiografia. Conseguido um lugar no estacionamento. A facúndia do visitante. Ao chegarmos no amplo ambiente.

A. pois não passava bem. concluída a sua palavra. Aos oito anos. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. Como se não bastasse. de plano reconstruído e de declamado. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. logo acusando a lembrança em seu discurso. 88 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. A despeito da nova e moderna construção. que todo o dia Tinha levado a anadar. o velho Rangel. Tomado por violenta emoção. que nela. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. episódio de há muito esmaecido. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. no longínquo 7 de setembro de 1922. o velho. Chegando ao Rio de Janeiro. funcionou uma escola particular. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. feito por sua mãe. com a metralhadora da memória ligada. de O. educava os seus e os filhos de terceiros. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. Ignacio Rangel identificou a localidade. em época pretérita. Neste. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. fundada por Mourão Rangel. Mas saltam dois cães de gado. em companhia de sua esposa. de acordo com ensinamento de véspera. é lusófilo. verso por verso. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. no Dia da Pátria. Como um sopro. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. Diz o filho: "Oh minha mãe. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. estendendo-se a texto poético. Tornam os pobres à estrada.

. senhor... Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? . Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!. A triste n'um riso amargo). caçador! .Que importa... É escusado. Vendo a sua esperança vã..Boas tardes. .. lavadeira! . lavadeira! . Que ainda é perda maior.Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira. dessa maneira.....Boas noites.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" .... Com effeito a sentinela: . lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor.Olhai que.” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .Boas tardes. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . Até um dia. (diz ella."Quem vem lá?. senhor! .Boas noites.. caçador!” 89 . Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira.Se os cães deixarem. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho.Talvez que fosse melhor.. Perdereis a caçadeira.

provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. fugaz. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem.. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. declamou verso a verso a extensa peça literária. abraços. por suposto. e 1991. mas suspendera. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. para sempre. como se tivesse acabado de lê-la. entre outros. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. Almoçamos sem que Roberto Viana. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. o ano. em seguida.. Secretário de Governo. tardaram. retidos em Itamaracá. Conseguimos ainda. Depois. o doce vestígio de uma presença. Que tive mãe e. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro.. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. entretanto. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. Divididas democraticamente as despesas. repleta de inefável encantamento. com a sua passagem. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. Foi possível. Andei sempre assim perdida. Ele. cobrando detalhes do texto do poema. partimos em direção ao setor de embarque. a caminho. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. II O mês era o de junho ou de julho. aparecesse. a cidade. beijos e despedidas. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes.. os quais. não se fazendo de rogado. parar. deixando em todos. 90 . pois este só despontaria em meados da tarde. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. de João de Deus. de onde viajaria com destino a Brasília. o Recife. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. mas chegaram. foram passos rápidos. porém. Inteligente.

relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. o telefone do seu sobrinho. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. e a demanda foi resolvida. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. e esse. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. Assim foi feito. feito de pura louvação de Celso Furtado”.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga.. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. as infundadas notícias. demonstrei serem malévolas. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. ressalvadas a fonte. Motivei Viana sutilmente. de sua admiração. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. quase que à antevéspera do simpósio. Rebatendo-as. de imediato. e antecipando. ao ser comunicada.CNPq. era. em 8 e 9 de agosto. em processo de organização pelos dois. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. de forma irremediável e comprometedora. Roberto Viana foi explícito. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . em contrapartida. à sua maneira. em cujo domicílio ficaria no Recife. de texto concluído. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . ao regressar de João 91 . considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. em Brasília. valiosa. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. com Formiga. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. em João Pessoa. por seu relevo pessoal. com Sales. É o lançamento do seu nome no Brasil. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. de que a velhice o alcançara. Comuniquei-me. e o painelista maranhense. levando Formiga telefone e endereços anotados. você não pode deixar de participar. podendo.

Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. parabéns!” A resposta foi glacial. bêbados de cansaço. próximo à sua esposa. Ao desembarcar. Luciano Coutinho. mas bela homenagem de sua terra natal. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro.. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. Pedrão e Santos. À luz do dia. em uníssono. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. Sales. às 7h30min. Armando Souto Maior. à procura de Aspásia Camargo. Mal terminamos o abraço. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. E Pedrão. garantira a sua presença ali. a solução foi dormirmos. no Espaço Cultural José Lins do Rego. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. por intermédio da zelosa fonte que. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. o paraibano Celso Furtado. quanto ao cumprimento do cronograma. O também paraibano Paulo Bonavides. sem mínimo retardo possível. apareceu no corredor Ignacio Rangel. da portaria. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. partimos em vagaroso e confortável ônibus. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. contatou painelistas. Antecipando-se ao horário combinado. sorrindo. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. elegante. entre outros. Clóvis Cavalcanti. desde o Maranhão. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. cadenciado e de pasta executiva à mão. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. retraído: 92 . Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares. às 8h da manhã. cujos setent’anos recebiam tardia. Hélio Jaguaribe. pedindo a todos brevidade no café. homenageado e convidados. Sales e Formiga.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa.buscando confraternizar: – “Celso. começaria a solenidade oficial. que chegaria em vôo matinal.. Virando-se levemente. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. Paulo Bonavides e Armando Mendes. avisaram que. Ao chegarmos em Tambaú. para o Tambaú Tropical Hotel. Rosa Freire D’Aguiar.

Quase metediço. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre.?” – “Um dia melhora. com uma sobrinha de José 93 . Mourões e Rangéis da Paraíba. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. galhofeiro. evitando viajar só.” Gargalhamos. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo.. sua esposa. a tristeza. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. aliás. conterrâneo. que estava repleto. este.. Guedelhas. que não os cardíacos. a Bahia. combinando capoeira. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. – “Bom”.. por causa dos problemas de saúde. Desembarcamos. como coordenador do Mestrado em Economia”. todo o seminário. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. Explicou-me ainda que. retórica baiana e dialética de Hegel. entramos no ônibus e partimos.. como ficaríamos. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. Sentado em poltrona contígua à minha. Milton Santos. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa. o velho Rangel foi conversando. casado. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. Avisou–me que tivera problema de saúde. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. figura sempre simpática. para esconder.. A caminho do teatro do seminário. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. A solenidade começou pontualmente. Pedrão juntou-se a nós e. decerto. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. Santos sentenciou: E Pedrão. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada.

como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. entre sorrisos. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. abraçando-o: – “Salve. retiraram-se. elevada e corajosa. intelectuais. professores. Lamentando a frustração do seu propósito. à maneira isebiana. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. E foi. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. sentando-se de novo junto a mim. sem ser suntuoso. a dicção ignaciana. foi constituída por um confronto do seu. Surgiu a idéia da criação. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. Contudo. para a solenidade de encerramento do seminário. com o pensamento de Celso Furtado. Quinta-feira. pelo notável economista paraibano. segundo convite do Governador Cunha Lima. cumprimentando-me da passagem. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. – “Afinal. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. Tomado por um constante espírito crítico. o sábio maranhense deixou escapar a frase. o faria no encerramento do colóquio antológico. eu estou preocupado. vivido em estilo elogiável. a quem auxiliei a levantar-se. sexta-feira. problemas e dificuldades. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. e o festejou. sem nenhuma intenção de trocadilho. o Governador Cunha Lima chegaria. ponderando: – “Rossini. Arraes dirigiu-se a Rangel. emocionado. Rossini. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. 8. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. Marcos Formiga discursou na abertura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. assim como Sales Gaudêncio. grande Mestre!” 94 . a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. Admitida a aceitação. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. Estudantes. inquietações. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. na década de 50. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. a qualquer instante. quem é que é. Formiga explicou ao velho populista que.” A participação de Ignacio Rangel.

no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. comecei a providenciar o regresso. em abono do testemunho salesiano. A minha expectativa era. atencioso. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. como sói acontecer. convite para jantar. E. de minha parte. Ignacio. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. O motorista. houve a ruidosa entrega de certificados. entre léguas de cana de açúcar. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. onde recusei. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. Dona Aliette. com o estilo inteligente e cortante de sempre. Fiquei plantado à beira da churrascaria. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. O pedido foi aceito. matar a sede e tomar café. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. parou. Não obtendo sucesso. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. e descermos juntos para o Recife. quando. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. o burgo de Goiana aos Rangéis. em busca de um lugar para jantar. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. particularmente. findo o café. pois as mulheres falaram a contentos. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. 95 . sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. Falei-lhe. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. apareceu em companhia da esposa e amigas. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. Apontei. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. como se fossem novidades. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente.” Fiquei. Armando Souto Maior. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. levando a que eu aguardasse em vão. de sua lavra. mais à frente. ditado pelas musas da juventude. que fosse possível chegar ao Recife vindo. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. No sábado pela manhã. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade.

filho. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. e mísera cidade Sua justiça agora. mas terminara a vida no Recife. novelista e jornalista Odylo Costa. E Letras. e outra idade Desde que há tribunais. vencendo o cansaço do tempo. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. e quem os reja. A resposta foi objetiva. e vós. e o fiz sem reticências. revelando a sua íntima conexão com a poesia. e maranhas? É Ministro do império. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. e prende um Cristo”. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. Como previsto em trampas. e misto. e vós. Que se tem feito em uma. declamou com voz de cristal resoluto. Ignacio Rangel. com que a todos causam inveja. mero. Guerreiro Ramos. E logo em seguida. e iniqüidade. e tu”. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. para não perder o fio da meada. resgatou versos de Gregório de Mattos. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. Tão Pilatos no corpo. Perguntei a Dona Aliette. e eqüidade. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . Que solta um Barrabás. e nas entranhas. Nunca tiveram relacionamento com o poeta.

foi apresentada a Josué Montello. no ato.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. o prato servido foi Celso Furtado. mas sincero. juntos. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. O velho Rangel. Por quê? Dona Aliette. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. Sequer os adversários ideológicos. afirmando que o estudara em Oxford. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. sob elogio dos seus mestres. ele poderia ter sido muita coisa neste país. À noite. de fôlego e duradoura. que. que. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. Ele prometeu publicar o documento. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. que. disparou: – “Minha filha. encontrando o romancista maranhense em uma festa. Em seguida. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. estivera ausente. da competência e da probidade do seu marido. fui buscá-los no Engenho do Meio. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Tomando a palavra. em particular. Roberto Viana esteve presente. para a economia do seu quatriênio administrativo. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. garantiu-me que. cauteloso. admitiu que muito do 97 . ela. para sobreviver. sem que recebesse resposta.” Dona Aliette. de boa-fé. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. Chegamos ao Recife. lançara um sapato no rosto de um estudante. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. Disse-lhe que não. a qual. sem rebuços. em Londres. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. Sentenciou ainda que sua obra. para que. finalmente. ninguém duvidava no Brasil. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. eu redefini o curso da conversa. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. Daí a pouco. no qual a sua filha. Palavras ao vento. onde o habilidoso matemático não ficou. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. preferiu colocar à mesa episódio imediato. segura de si. seu amigo. que dela ousara discordar. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. nos jornais de Brasília. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou.

lembrando da menina que. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. vovô Rangel. ligaram para agradecer. editor da Bienal. entretanto. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. economista da Argentina. Prosa e verso. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. comunicada à Academia Maranhense de Letras. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. os Rangéis. para a Dona Aliette. fui deixá-los. muito prestigiado no ciclo cepalino. Muito prosa. que conversa como gente grande.” Terminado o café com muita prosa.. com menos de um ano e meio. movidos a cortesia. no qual lhes passei endereços e tudo mais. E mais: que Phaela a nada faltou. quase madrugada. sem necessidade. a referência original. sonegando. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. em termos de construção original. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. com os dois já no Maranhão. em Alternativas do Brasil. de toda maneira. muito que te quero 98 . Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. vai ficar deste tamanhão. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. minha filha. de José Márcio Rego. aqui em São Luís. Antes de partirem com destino a São Luís. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. procede do pensamento de Raúl Prebisch.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. desde ratinho até agora. cantava toda a música “Carinhoso”. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. Parabéns! Fiquei prosa. tua filha.. resguardado. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela.

conferimos quem tinha o quê. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. que. vem. vem. ficou hospedado comigo. seguindo recomendações de Dona Aliette. situada no Bairro do Recife. realizada na sede da Secretaria de Planejamento.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. vem. o deixou viajar sozinho. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. por exceção. respectivamente. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. com o qual lhe presenteei.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. inclusive o seu A Questão Agrária. filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. em matéria de bibliofilia. onde adquirimos alguns volumes. E também Carlos Osório. e. O velho Mestre dispensou o hotel. publicado aqui no Recife. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. Mestre Rangel. Conversamos à vontade. Percorrendo as livrarias. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. trocamos idéias. fomos à Livraria Brandão. foi um sucesso. enquanto Mestre 99 . observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. e. não satisfeitos. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. vem. onde estavam familiares. A conferência.

na manhã seguinte. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. chopes e uísques antecederam os pratos principais. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. findo o Governo Juscelino Kubitschek. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. todavia. como gostaria. de maneira generosa.” E assim foi feito. da democracia e do progresso social. por minha posição. Na tratoria. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. em círculo restrito. aplaudida ao final. o grande economista estava lívido. Nada obstante. similar ao do Governo Federal. sobretudo quando revelou que. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. com a palidez da angústia. com diversa óptica. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. ficou com algumas reservas mentais. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. houve emocionada saudação de Carlos Osório. comendo de tudo um pouco. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. só depois. e. Saber. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. facilitada pelo concurso de duplos microfones. Retruquei-o. muito embora eu o deixasse à vontade. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. ele e eu. defensor do recurso em si mesmo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. por minha causa. não devendo ambos. prontamente sugeriu: 100 . Rossini. mas temendo. Ele é o patrimônio da nossa família. Mestre Rangel. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. Antecipando-a. indagando-lhe. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. em seguida. confessadas. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. Na saída. não pôde conceder–lhe. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. bastante cedo. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. A explanação da temática foi meridiana. navegou em céu de brigadeiro.

Quando quase todos já tinham partido. com o pai e seu irmão caçula. ainda ali. a aerofogia estava vencida. ao encontro repentino do rio e da morte. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. portanto. desvãos e perspectivas. pois um morto. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. o pai e ele. Foi uma manhã iluminada. Fechada a porta da frente. significou a surpreendente colocação.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. nesta. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. em 1º de janeiro de 1930. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. e ele. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. O pai. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. retirando dele o peso do cadáver. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. com o fio de espada da dialética. segundo o seu filho. naquele vendaval de estremecimentos. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. Do quadro teórico à formação social. Quando do retorno. recebeu proposta de uma rica senhora. sua conterrânea. carregando na alma o mortal sentimento de culpa. Ignacio Rangel retornou a São Luís. a criança desventurada. e. infante ainda. esclareceu fundamentos e circunstâncias. porém. De tudo. já volátil. Ao término do café. limites e possibilidades. desculpando o pai e sentindo-se. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. Em viagem de navio para o Maranhão. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. quase um vintém de prosa. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. do magistrado revolucionário em disponibilidade. A chegada do 3 de outubro. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. E ficaram ambos. em Londres ou em Nova York. da estrutura à conjuntura. o pensador maranhense. a favor da Revolução de 30. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. nascido em 14 de abril de 1928. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. se em Paris. dialogamos um pouco.” 101 . Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida.

Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. Por recomendação médica. o cigarro e a máquina de escrever. manejá-las. em congresso de sua agremiação política. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. só à mão. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. escrita. porém. não deixe este congresso sem conversar comigo. a datilografar fumando. isolando-o de todos. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel. Mourão Rangel. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência.” Realizado o vaticínio paterno. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. histórica e sociologicamente.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. primeiro. passara. como passariam. com o seu saber velho e desatualizado. bem como de sua esposa Maria do Carmo . A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel.concluída no Rio de Janeiro. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. as sentenças do pai magistrado. de resto. entre faltas e segundas chamadas. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. O interesse agronômico. começada no Maranhão . que preparava o seu terremoto clandestino. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. o pensador 102 . sob a determinação de sua esposa. o Brasil. que é mais do que a sombra protetora. por reclamar.para alegria de Dr. Dona Aliette Martins Rangel. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. Na antiga Capital Federal. tê-las e segundo. que aos quinze anos passava a limpo. à força pessoal. Nada obstante. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. fruto de acidente de percurso. em máquina de escrever. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. Aceita a sedutora provocação. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. Não poderás negar.

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

103

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

104

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

PERFIL DE IGNACIO RANGEL

105

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 106 .

107 . História e Economia. no Plano de Metas de Juscelino. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. na capital do Maranhão. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. 1957). 1957). Desenvolvimento e Projeto (BNDE. hoje BNDES. no Clube dos Economistas. em Mirador. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. nas Assessorias de Vargas e Goulart. 1954). no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. estuda. De forma autodidata. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. no Rio de Janeiro e Agronomia. concluído no Rio de Janeiro. no Instituto Brasileiro de Economia. no Rio de Janeiro. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. dentre outros. Participa em Santiago. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. com rigor. Chile. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. Sociologia e Política-IBESP. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB.1957). no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB.

coligindo boa parte da sua produção intelectual. 108 . Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Desenvolvimento e Conjuntura. Cadernos do Nosso Tempo. e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. 1985). Revista da Civilização Brasileira. 1963). Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. 1961). Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. Revista Agrária.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. 1960). Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. Ciclo. 1959). 1961). a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Estudos CEBRAP. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. Revista do BNDE. Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. a UFMG. 1987). Ensaios FEE e Revista de Economia Política. 1982). Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. 1979). cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. Tecnologia e Crescimento (Civilização.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL 109 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 110 .