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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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É certo. e quem sabe. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. 7 . Quando partiu deste mundo. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. 3 PESSOA. Volver A Los 17.. com Ignacio Rangel. como o poeta há muito afirmou. que em sendo seus versos belos. o que dele sei me vem. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. responder a essas perguntas ou pelo menos. incompletos dez anos tinha. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. como é característico do mister do ladrilhador da História. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. Fernando (Alberto Caeiro). Raimundo Palhano. Se eu morrer de novo. 2 SOSA. eles não o poderiam ser. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. tão presente. publicada na forma de livro. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2.. fornecer indicativos para elas. Maureli Costa e Pedro Braga. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. que mesmo não podendo voltar até lá. Nada o pode impedir”3. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. Não conheci Ignacio Rangel. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. Mercedes. Tem que ser assim por força. Portanto. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. retomamos após dezessete anos esse projeto. mas as flores florescem ao ar livre e à vista.

ensinando que mais do que cantar glórias passadas. construí-las no agora e por diante. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. operação que deve ser planificada. Por último. não se manteve. Fogo. Tecnologia e Custo de Produção. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. blindagem e conjuntura e 3. Maranhão: antigo e novo. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. pensando GRANDE. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. devemos é buscá-las no presente. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. ao civismo. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. todos de 1989. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. eco de sua formação cepalina. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. isto é. sustentável. Os artigos identificados foram: 1.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. 8 . quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. 2. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. Ao analisar a história das guerras em “Fogo. Profeticamente disse “ora somente. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. o desenvolvimento endógeno.

admiradores. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. Na franja tênue entre a razão e a emoção. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. A volta por cima de Ignacio Rangel. 4 9 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. O Pensamento de Ignacio Rangel. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. Os do primeiro foram: 1. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. et. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. amigos. o decifrador e o ídolo. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. Luiz Carlos. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. Entrevistado por Rossini Corrêa. 5 BRESSER-PEREIRA. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. Milton. v.1 (Coleção Ignacio Rangel. setembro 2005: 9093. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. outros quatro sobre ele são postos. 1). Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. 2. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. Primeira Leitura nº 43. 1991. a poesia e a prosa. SANTOS. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. ou melhor. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. mas para nós não. al. para alguns inconciliáveis. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. publicados na revista FIPES. Maureli Costa. familiares. e 3. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. dando conta das várias dimensões. o intelectual. Me refiro a RANGEL. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. São Luís: SIOGE. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. Ignacio.

com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. mas por que “o trabalho era tremendo. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. não por cangas ideológicas. alguém que podemos dizer que pensou antes. heterodoxo e extraordinário. podemos dizer que foram milhões. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. 10 . capaz de pensar por conta própria. tantas coisas. o Brasil e em especial o Maranhão. Prefácio. com Rossini Corrêa. Num homem só. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. nitidamente autodidata. tanto vulto. mas um criador que se arriscava. Fernando Cardoso. Luiz Carlos. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. segundo ele. com pensamento e ação. 2001. serem centenas. entre muitas dessas tardes que viraram noite. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). de. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. São Paulo: Editora 34. às vezes. melhor do que está hoje. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. se ressentem disso. no país. Ele não diz isso como que para se auto-promover. preocupado com a distribuição de renda. com marchas e contramarchas. com valor e atrevimento. Ignacio Rangel. na presença dos interessados que acontecia. um homem de ação. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. PEDRÃO. Hoje. 1998. O Pensamento de Ignacio Rangel.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. na sociedade exprimindo em palavras. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. melhor do que o passado”. Acredito no futuro. participando da resolução dos mais diferentes problemas. sem ufanismos ou covardia. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. Ele será. BRESSER-PEREIRA. conheci Ignacio Rangel. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. enfim. sua busca por caminhos e sua realização prática. na verdade. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador.

dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. sem perder de vista o global. não basta apenas pensar antes de agir. mas agir depois de pensar. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual. Um terceiro eixo é a tecnologia. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. não ocorre de fora para dentro. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. dinamizando as economias locais. adequada às especificidades do local. Para tanto. Como quarto eixo – a infra-estrutura. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. É preciso inovar e inovar é preciso. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. assim sendo. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. Outro eixo é o do desenvolvimento. que agreguem valor às matérias-primas. mas pavimenta 11 . caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. isto é. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. mas de dentro para fora. significado singular do planejamento. Agora a mera existência deles per si.

expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. avançamos e avançamos. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. a partir dessa Cátedra. à luz da contemporaneidade.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. Objetivamente se constituirá. no dizer rangeliano. São Luís. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . avançamos. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. atentos à realidade maranhense. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. Sem dúvida. ao mesmo tempo. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana.

.............. BLINDAGEM E CONJUNTURA . 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL ................Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL.............................................................. 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ...... 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ......................... 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO............................................................................................................................... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ................. 95 13 ... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ..........................................................................................................................................

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

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Niomar Viegas. que nos honra com sua presença. Sebastião Moreira Duarte. em alentados dois volumes. de suas “Obras Reunidas”. da Academia Maranhense de Letras. Joaquim Itapary. e que. privilégio imerecido. com o apoio do BNDES.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Flávia Mochel. filha e herdeira do legado rangeliano. Benjamin Mesquita. os conterrâneos de Rangel. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. presidido por Dilma Pinheiro. embora conhecedores das nossas limitações. ajudou a tecer. * Economista. a partir de inícios dos anos 1980. jovens intelectuais como nós que. sob a presidência de Carlos Lessa. poderiam estar Rossini Corrêa. primorosamente editados pela Contraponto. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. durante seis anos. Emanoel Gomes de Moura. Maureli Costa. Carlos Gaspar. Neste lugar em que nos encontramos agora. Roberto Gurgel Rocha. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Alberto Arcangeli. como Tetsuo Tsuji. Nesta noite. Pedro Braga dos Santos Filho. Luis Augusto Mochel. com menos de trinta anos. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. 6 17 . Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. Haymir Hossoé. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. hoje relançado por seus idealizadores. os fios de ouro que criaram a obra-prima. em evento do Conselho Regional de Economia. inspirados pelo brilho da lua. entre nós. editadas e organizadas por César Benjamin. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. sob o reitorado de Fernando Ramos. nos propomos. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. com mãos delicadas de artista. no dia 22 de junho de 2005. e outros estudiosos coetâneos. Cursino Moreira. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. a realçar o significado e a importância do lançamento. Hiroshi Matsumoto. João Evangelista da Costa Filho. Raimundo Arruda. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. neste lugar privilegiado. Jomar Moraes. Benedito Buzar.

publicado pela Revista FIPES. Não apenas no discurso bem construído. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. Derrotado em 1935. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. Ademais. principalmente. modestamente. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. como jurista. hoje BNDES. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. história e economia. De forma autodidata estudou. em Mirador. o que já o fizemos. Instituto 18 . mas na ação prática cotidiana. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. lúcida e ativamente. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. nesta oportunidade.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. historiador e. e São Luís. aos 16 anos. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. como economista. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. que inventaria e analisa. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. combatendo a política econômica do governo Collor. para ele uma verdadeira apostasia. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. posteriormente. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. economista do BNDES. Atuou inicialmente como jornalista. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. com rigor. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. Foi um homem sólido de caráter. edição de jul/dez de 1989. ideário. no Rio de Janeiro. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. de modo primoroso e didático. onde permaneceu até o final de sua vida. A partir dos anos 50 esteve presente.

está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. sociais e políticos. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. um clássico do pensamento econômico. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. 19 . nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. Assessorias de Vargas e Goulart. Gilberto Freyre e Celso Furtado. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. profundos. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. Um criativo produtor de idéias. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. sendo um dos seus patronos. como pelos ideólogos da esquerda nacional. como a Revista de Economia Política.. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. Instituto Brasileiro de Economia. Sociologia e PolíticaIBESP. Respeitava as questões que a academia pautava. conferências e ministrou cursos. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. sempre fiel aos seus princípios e valores. Sérgio Buarque de Holanda. Clube dos Economistas. nem como pesquisador. em favor de uma nova humanidade. e dos maiores jornais do país. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. Plano de Metas de Juscelino. sobretudo os econômicos. em especial a Folha de São Paulo. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. Não fez carreira acadêmica nem como docente. de onde era originário. Seu livro “A Inflação Brasileira”. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. com quem aprendeu direito. Irmãos & Cia. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. “A economia. Luxemburg. Marx. Muito antes de Comparato. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. Schumpeter. com quem aprendeu latim. Kondratieff. Robinson. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. dificultaram a difusão de sua obra. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”.. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. Juglar. Arimatéia Cisne. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes.. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. a começar pelo próprio pai. como Smith. Kalecki. Kitchin. José Lucas Mourão Rangel.. presente na Teoria da Dualidade Básica. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. Keynes. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. além de outros notáveis. Fábio Comparato. como costumava dizer. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. ou com as matemáticas ou com a econometria. o grande jurista brasileiro. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. o fio de Ariadne de sua obra. somada à coragem política. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. Na economia. Hilferding. Harrod. portanto. . o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. Engels. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. como tem sido a lamentável tendência da atualidade.é a sabedoria de tomar decisões”.

precisavam ser revistas criticamente. sem nenhum exagero. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. tanto da direita como da esquerda. consideradas. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. Para decifrar o país. 21 . dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. quando vem a falecer. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. livros e monografias. As teses em voga. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. Os processos internos da formação brasileira. o princípio organizador de suas idéias. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. a seu juízo. sociais e políticos. um modo de produção sofisticado e complexo. a questão agrária e o papel do Estado. seus problemas e crises.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. a dinâmica capitalista. a inflação brasileira. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. Segundo Rangel. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. sejam econômicos.

que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. ser rompido. sociologia. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. em especial à sua ciência econômica. 22 . Nós. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. sem o menor sucesso.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. em expedições fantásticas. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. Sobretudo pelos seus estudantes. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. um anunciador corajoso. um decifrador de enigmas. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. ao contrário. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. um pregoeiro destemido e sério. E aí ele nos levava. precisa. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. justamente os últimos de sua vida magistral. baseado na geração de empregos. que teve o Brasil como maior desafio. geografia e história deste país. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. mas para poucos”. Era. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. política. na ética e na justiça social. à convicção de que o mundo tinha saída. mais do que nunca. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação.

Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. Evandro Lucas. um compasso. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. sem nenhuma dúvida. nestes tempos de canalhice organizada”. como presentes por esta festa. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. uma bússola. o Velho. como diria Rossini Corrêa. se. como as de Ludmila e Ana Rangel. ao chegarmos em nossos lares. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. Será. Paulo de Jesus. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. Não será surpresa para nós. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. observados por Solon Sylvio. José Lucas e Alberto. um relógio e uma reguinha de calcular. Celso Augusto. 23 . de beijos e abraços com Aliete.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

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no entanto. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. É um desafio muito árduo para nós. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. Há. * Economista do IPES. Convém deixar claro. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. por outro lado. É preciso reverter esse processo. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. jul. contrapondo-se às formulações do ISEB. 7 27 . dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. elaborado em período específico da nossa história.2. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise./dez. São Luís. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). Procura. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano.3. v. fato que põem por terra tais tendências. Com efeito. 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. realmente relevante e inovadora. involuntariamente. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). pois. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. como nacionalismo e desenvolvimentismo. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. n. 1988.

sem declinar o nível das importações. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. nascido do antigo grupo Itatiaia. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. pela própria natureza do sistema econômico mundial. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. por aqueles diagnósticos. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. no entanto são mais recuadas. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. sobretudo. São provas dessas modificações estruturais. Criado em 1955. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. considerada. Suas origens. como se sabe. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. até então centralizada na agricultura. Não há assim. enfim. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. como é retratado do título. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. atribuída exclusivamente ao setor industrial. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. foi extinto em 1964. necessários à expansão industrial. Sociologia e Política (IBESP). quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. tarefa esta. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. por Café Filho. e a singularidade de Ignacio Rangel. É. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. em obras como “A Inflação Brasileira”. por ato de Ranieri Mazzili. pretensão de grandiloqüência. diante dessa problemática que 28 . Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. O que foi possível. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. Com efeito.

envolvendo personagens como Roberto Campos. Do mesmo modo. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. associado ao capital nacional. com participação moderada do planejamento estatal. predominantes ao longo de seu período de existência. aliados à ausência de planejamento. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. Tinham uma 29 . sejam da área estatal. Com efeito. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. e o capital estrangeiro. e Glycon de Paiva.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. Américo de Oliveira. Em outro pólo de interpretação. seguramente a mais significativa. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. Uma dessas correntes. envolvendo nacionalistas e liberais. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). sejam aqueles da área privada. baseava-se no pós-keynesianismo. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo).) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Lucas Lopes. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. “fonte complementar de poupança”. ampliado e fortalecido. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. inaugurado nos anos 40. Para os seus adeptos. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. como o CNI e a FIESP. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. já um pouco sintetizadas acima. em Prebish. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. Rômulo de Almeida. (envolvendo nomes como Celso Furtado. contando com a participação de empreendimentos estatais. como BNDE. Ewaldo Lima. etc. Como é sabido. vamos encontrar no seu interior. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. etc. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. CEPAL. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. divergem do seu enfoque nacionalista. Assessoria econômica de Vargas.

e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. enfim. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. por razão desta dicotomia. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. que além do ISEB. É. Admitiam. o moderno e o urbano. como Nelson Werneck Sodré. o subdesenvolvimento. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. a qual se perpetuava por erros de política econômica. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. o arcaico. aberta.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. A despeito da polimorfia. tanto uma quanto outra não eram 30 . Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. Esta era a corrente socialista. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. ainda que nos anos 50. Caio Prado Jr. um pouco em cima das teses leninianas. dentre outras coisas. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. Ou. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). assim. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). Na verdade. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. ou a indústria versus a agricultura. portanto. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. produtivos e improdutivos. como o industrial.. a existência de setores dinâmicos e estáticos. momentos de unidade e de identificação. contava adeptos como o PCB. Passos Guimarães e Aristóteles Moura. Ao lado de uma reforma agrária geral. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. para a economia de mercado. Pois o antinacional simboliza o atraso. e. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. A. não viam com simpatia o intervencionismo. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. fazendo emergir.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. Robinson e Chamberlim. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. Keynes. Raul Prebish. a CEPAL. Schumpeter e Myrdal. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. em termos de filiação teórica. discípulos de outras influências como Sraffa. este último de enorme influência. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. de cuja ação todos seriam beneficiados. assentado em bases nacionais. todos eles. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. 31 . com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. De certa maneira. de evidentemente. a rigor. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. Jaguaribe. por exemplo. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). J. aquele que defendia o não-intervencionismo. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. de outras influências mais próximas. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). Surgida em fins dos anos 40. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. através de figuras como Kalecki. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. atitude semelhante atinge também o ISEB. Além. Eis porque. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata.

O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. que se nutria do modelo agroexportador). ao imperialismo comercial e financeiro. o comércio internacional. de maneira eficiente. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. baseado no comércio cambial. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. quando necessário. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). 32 . A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. como especialização e processo técnico.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. ao imperialismo (a rigor. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. Longe de propiciar vantagens bilaterais. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. com incrementos constantes de renda e consumo. não dera os resultados esperados. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. proceder o planejamento das mudanças de rumo. fortemente inspirado nas teses de Nukse. contrária. Myrdall. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. promover a reforma agrária. A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. dentre outros. também.

Rangel detém-se. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. Desses cruzamentos. mas não supera os marcos da economia convencional”. Igualando-se a Furtado. Contudo. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. cepalino e isebiano. É como diz Octávio Rodriguez. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). Defende. gestado monopolista e oligopolista. respectivamente. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. não se pode negar que. segundo alguns analistas. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. é de se supor. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. É justamente em sua obra mais completa e representativa. como Furtado. essencialmente. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. pelas singularidades de suas análises e concepções. À primeira vista. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. etc. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . é possível encontrar. 4 E RANGEL. 1958). que está quase sempre presente em todas suas exposições. já transparentes em outras obras iniciais.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. complexos e globais. simultaneamente. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. “A Inflação Brasileira”. que ele vai desenvolver essas idéias. publicada primeiramente em 1963. davam àquela instituição uma feição progressista. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. Rangel destaca-se. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. principalmente. como veremos no tópico seguinte. em relação às demais. “o pensamento da CEPAL altera. em suas formulações. Mas tal não é novidade. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. como bom isebiano. Como Furtado. Gudin. para os anos 40 e 50. aqui e ali. que era. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi.

em uma situação como esta. Assim. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. por exemplo. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). 1962). 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. Os estruturalistas (dentre eles. Por seu turno. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). uma vez que a massa salarial tendia para baixo. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. implicando em taxas incrementais de exploração. o que implicaria. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. até nutrir aspiral inflacionária. forma-se um grande exército industrial de reserva. tinham. em detrimento do consumo de industrializados. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. logicamente. assim. o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. implicando em preços elevados e. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. principalmente pelas massas de salários). O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. a curtos e médios prazos. segundo sua análise. Assim. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. e de outro. em função de integração entre os setores primários e secundários. elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. E mais. o que implicava na diminuição da demanda. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. Furtado). 34 . que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). Isto porque. A rigor. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. Com isso. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. por outro lado. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. Com efeito.

uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. Como dissemos no começo. podendo gerar mais emprego. bens duráveis. a qual poderia até se agravar. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). contudo. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. o que. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. Rangel. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. Trabalhando com as teses estruturalistas. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. mais consumo/demanda. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. terrenos. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. logicamente. confirma. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. outra vez. onde as taxas de juros eram baixas. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. discordava desse ponto de vista. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. nessa direção. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. como estamos vendo. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. chegando a dizer que. um pouco ao estilo cepalino. mais renda e. pelo rumo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. por força de seu próprio atraso. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial.). na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. a antevisão de sua análise. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . Rangel reafirmava. etc. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. Ou seja.

trata-se. evidentemente. sem ser. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. isebiano quando desenvolvemos. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo.. pelo ISEB. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. Contudo há uma 36 . é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. no essencial o desenvolvimento rangeliano.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. suas causas e fatores impeditivos. Logo no início de ROEN. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. obviamente. do desenvolvimento capitalista. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. É.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. da sua relação com a sociedade e. ou as de Caio Prado Jr. Segundo seu ponto de vista. sobretudo. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista. ora pode ser. um caso específico de desenvolvimento . principalmente em “A Inflação Brasileira”. 4. nesta segunda metade do século XX. e mais ainda. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. além. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. e de Werneck Sodré. na verdade.o Brasileiro. Eis porque. na sua maneira de dizer.10). a seguir. por encerrar especificidades. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. para um “mundo só”. Homem de sua época. publicado em 1960. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. obviamente. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação.

Rangel. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. através da qual se daria a superação do atraso existente. tem suas raízes em concepções smithianas. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. para viabilizar o desenvolvimento. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. decorrência direta do progresso tecnológico. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. retomando questão anterior. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. Em ROEN. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. asseverava o nosso autor. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. fatalmente. sintonizado com seu método da análise. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. Sob o império dessas determinações. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. Sedimenta essas suas observações. todavia. à internacionalização dos fatores produtivos. gás xisto ou eletro-siderurgia. comprováveis ao longo do texto. Mais adiante. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. Conclui afirmando que nesse caso. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). mirando-se no próprio exemplo mundial. por exemplo).Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. afirmava ele. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. como em outros 37 . que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. Começa por afirmar. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso.

portanto. Ou seja. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. Prosseguindo suas análises. criticando a posição das correntes cosmopolitas. em vez de eliminar. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. no principal fator de unidade e de soberania. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. e simultaneamente. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época.. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. Assim para o pensamento rangeliano. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. Segundo ele. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. as disparidades inter-regionais.. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. Sua visão do planejamento. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar.14). Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. Isto posto. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. Entendo-o. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. não é tecnocrática. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. capaz de reverter àquela perspectiva. Ouçamo-lo: “. mas para 38 . no pensamento de Rangel. porque não era para centralizar.17).

Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. Com efeito. ao invés de eliminar. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. as barreiras nacionais. mas. evidentemente. contudo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. mas consolidação das soberanias nacionais. do que contradição. Segundo ele. alianças de classes.21). que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. Assim. segundo a análise rangeliana. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. os seus conceitos para cada uma delas). Chegavam mesmo a afirmar que. Para destacar a relevância de suas formulações. Estas colocações não significam. provocados por eventuais crises de pagamentos. Feitas essas considerações. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. tem havido sempre mais fusão de classe. na história do Brasil. Conclui dizendo que. além de agravar os problemas de ociosidade. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . Este seria um procedimento inteiramente condenável. sobretudo. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. que ela deveria existir. nos momentos de contração às importações. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. Não poupa os empresários. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. em função de importação efetivada anteriormente. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. pois. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. ou mesmo. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. E isto ocorreria. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. soberania e planejamento (conforme.

onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento.”) (p. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. Para ele. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico. a seu ver. prescindindo-se. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. dos quais depende. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. Sobre os investimentos. A proposta de Rangel. 41). era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. ou na renúncia ao desenvolvimento. do desenvolvimento” (p. ou a compressão do consumo. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. segundo ele. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. que tanto poderia obter bens de produção. o que. Apontava. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. pelo emprego de indústria de bens de consumo. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção.. o volume de seus investimentos. mais adiante.” (p. pois. cuja utilização. isto é. assim.38). para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. Não negará. do capital estrangeiro. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. Nesse sentido. aumentar o que é mais importante ainda. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. em grande parte. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. assim. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços.. para vencer esse dilema. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim.38). sem que ocorresse a compressão do consumo. a ulterior expansão do produto nacional. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. 40 . além de melhorar seus padrões de consumo.43). aliás.

invariavelmente. simplifica o problema. por estarem legitimadas em fontes eruditas). Assim. Sem contar os riscos do paroxismo. curiosamente) tenha que passar por ali. liderado pela industrialização. pois. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. enfim. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. não se sustentam integralmente. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. os segundos são ufanísticos e em geral. guiada pela luz do planejamento. se. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. de outro. tratam a produção isebiana sem a menor competência. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. Os primeiros são mais rigorosos. 41 . de um lado. de uma hora para outra. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. como o da ociosidade.Isto é uma coisa. A rigor. que. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. racionais e equilibrados. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. por exemplo. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. ideológicos. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. que em ROEN. Embora não fale claramente. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. representam os pontos de estrangulamentos básicos. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. lacunar. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. a nosso ver. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. começo dos anos 60. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. não contemplam a matéria econômica de per si.

aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. que as suas propostas e análises da realidade nacional. como muitos estudos parecem indicar. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. enquanto órgão produtor de cultura especializada. é ilustrativo a esse respeito. Era por isso mesmo. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. Afinal. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. além dessas preocupações.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. entre Lamounier e seus colegas paulistas. Não queremos. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. continentais e mundiais. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . Não são simples mistificações da realidade. seria crítica da ideologia. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). da matéria econômica. por exemplo. para os anos 50. são mais progressistas do que muitos pensam. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. no que escamotiava a luta de classes. O debate travado em fins da década de 70. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. Acredita que. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. Não é nenhuma heresia admitir-se. por exemplo. acima de tudo. Eram também. Não devemos esquecer que. fazia mistificação ideológica. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. analistas do ISEB. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. consciência das desigualdades. mas também a alguns outros da escola paulista. evidentemente. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. Segundo Lamounier. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão.

São Paulo: Ática. 1957. Rio de Janeiro: Paz e Terra. JAGUARIBE. (Estudos Brasileiros. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . CHAUÍ. Ideologia e mobilização popular. 1984. A inflação brasileira. Marilena. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. 1979. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. (Ensaios. Miriam Limoeiro. 1978. comme proposition pour le développment brésilien . Maria Sylvia de Carvalho. Guido. Recursos ociosos na economia nacional. 1984. v. 1960. 1981. ISEB: fábrica de ideologias. Ignacio. Caio Navarro de. (Textos Brasileiros de Economia. Rio de Janeiro: ISEB. O ISEB: notas à margem de um debate. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. Seminários. O nacionalismo na atualidade brasileira. A Questão Nordeste. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. 1960. FRANCO. 1978. Gilberto. MANTEGA. 1982. Bolívar. 43 . Rio de Janeiro: Poli/Vozes. São Paulo: Discurso n.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. TOLEDO. 9 (Ciências Humanas). RODRIGUEZ. Industrialização e economia natural. CHAUÍ. v. Octávio. ________. 28).14). Rio de Janeiro: ISEB. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. FURTADO. 1984. Rio de Janeiro: ISEB. Rio de Janeiro: Forense. Hélio. São Paulo: Brasiliense. Marilena. 1958. A economia política brasileira. LAMOUNIER. PAIM. São Paulo: Brasiliense. Celso.1) RANGEL. Rio de Janeiro: ISEB.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. no IBESP. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. correspondente ao período 1955-1985. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. Isto porque. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. em homenagem a Ignacio Rangel. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. tanto em extensão quanto em conteúdo. Na verdade. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. v. conferências pronunciadas em 1955. [4] “Desenvolvimento e Projeto”.2. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. jul.6. São Luís. este é um texto sucinto que se propõe. O título deste texto é pretensioso. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. de 1957. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. 47 . O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. pelo ISEB. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel./v. sobretudo. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. elaborada em 1953. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. cuja primeira edição é de 1959. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. n. no Brasil. de “Literatura Econômica”. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. através de levantamentos em outras fontes. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. monografia de conclusão de curso na CEPAL. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. 1989. de 1954. no Rio.4.2. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. de São Paulo. se conseguir./dez.ENE. n.

no campo da Economia e das Ciências Sociais. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. no Rio de Janeiro-RJ. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. em cuja tese de doutorado. publicação pela Civilização. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. 48 . Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. Desenvolvimento e Conjuntura. em 1960. Boyer. publicado pela Editora Bienal. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. período de 1983 a 1987. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. está arrolada. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. [7] trabalhos de fôlego. São Paulo. [12] “Ciclo. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. Recife-PE. reeditado posteriormente pela Zahar. reunindo textos selecionados. Rio (RJ). publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. tais como Digesto Econômico. publicada no Rio pelo BNDE. Revista do BNDE. publicado pelo CONDEPE. Revista Agrária. Estudos CEBRAP. reunião de artigos. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. Inglaterra. Revista da Civilização Brasileira. Cadernos do Nosso Tempo. de 1959. no ISEB. de R. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. atualmente na 3ª edição. originalmente de 1963. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. de 1985. abordando a economia brasileira durante o regime militar. publicada pela HUCITEC. Tecnologia e Crescimento”. Brasiliense e Bienal.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. Rio de Janeiro-RJ. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida.C. estando próximo da 10ª edição. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. defendida na Universidade de Leicester.J. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. a UFMG. de 1987. editado pelo Tempo Brasileiro. [10] “A Inflação Brasileira”. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). de 1982. de Paris. de 1961. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro.

ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. onde tem veiculado sua produção. e em termos gerais. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. estudos e projetos. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. em 1953. Rangel publicou 247 artigos. palestras e depoimentos. com alguns retoques. Quando redigiu. Em 1957. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. Não menos volumosa é sua contribuição. em sua extensividade e profundidade. 1987 (32 artigos). ainda não foi inteiramente trabalhada. interessadas em ouvir suas conferências. Inscreve-se como uma resposta 49 . o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. originalmente. de Keynes. Segundo nossos dados. O que constitui sem dúvida. 1990 (23 artigos). a saber: 1983 (25 artigos). entrevistas. 1984 (24 artigos). e até de universidades estrangeiras. 1988 (15 artigos). em seu trabalho citado. 1989 (39 artigos). ensaios. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. foi publicada pela primeira vez. a jornais e revistas especializadas em economia. A despeito de suas proporções consideráveis. Isto posto. Isto longe de desmerecer. de Smith. perfazendo. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. 1985 (83 artigos). tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. nos últimos 10 anos. São pareceres. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. podemos dizer. entre 1983 e 1990. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. 1986 (26 artigos).Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. relatórios técnicos. São artigos. só na Folha. a obra de Ignacio Rangel. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky.

apoiados em Kondratieff. pela sua densidade analítica. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. Tolmasquim. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. Em 1981. no Brasil. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. Para efeitos analíticos. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial.. no sentido da superação do capitalismo. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. é o maior dos pioneiros. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. que articula as teorias dos ciclos. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). Davidoff Cruz. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. inquestionavelmente. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. com o qual se definia o 50 . a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. desenvolve. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. [4] Tese da Questão Agrária. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. contida em seu famoso livro do mesmo nome. como Monteiro de Castro et Belshowsky. ainda hoje. social. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Mantega. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura. out. Rangel. político. [3] Tese da Inflação Brasileira./dez. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. o qual. com extraordinária clareza. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. o da “dialética da ociosidade”. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. transformada.

“Ignacio Rangel se tornou.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. onde ocupou a função de membro consultivo. Em 1954. original e inovadora. cit. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. do qual foi presidente no início dos anos 80. Dono de uma obra monumental. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. História e Economia. como economista. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. Castro et Bielchowsky afirmam. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. convictamente.. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. Chile. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. bem poucos. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. estuda. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e.) afirma. textualmente: . em Mirador (MA). que o motivo 51 . com rigor. um ano após seu ingresso no BNDE. participa em Santiago. Tolmasquim (op. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. Gudim ou Conceição Tavares. na capital do Maranhão. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. no Rio de Janeiro e Agronomia. Pela envergadura do seu poder criador. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. pelo Instituto Brasileiro de Economia. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. ao longo dos últimos 30 anos. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. posteriormente como jurista. atuando. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. De forma autodidata. principalmente. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro.. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. historiador e. Seu lado mais conhecido.

Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. quase sempre. participou. como o de tornar público o seu pensamento. Com apenas 16 anos. as análises sobre reserva de mercado. a vários ministérios e governos estaduais. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. O pioneiro. mas pouco destacada. Que. em seguida. sua militância foi também relevante no ISEB. um escritor refinado. Suas análises. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. dono de um estilo invejável. de domicilio forçado em São Luís. igualmente. ricas metáforas. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Aqui também sua biografia é expressiva. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. Há o Rangel militante. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. Sua face reconhecida. pegou dois anos de prisão e. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. mas. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. fina ironia. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. vêm recheadas de erudição histórica. Como conseqüência do levante de 1935. Em meados daquela década integrou a ANL. além do assessoramento a Presidência da República. Há o Rangel pensador. na introdução de seu livro “Economia: 52 . A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. em São Luís. a teoria da inflação. de repente. as propostas pioneiras à época. que. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. onde chefiou o Departamento de Economia. 8 anos de “domicílio coacto”. como o militante político. Fora do setor público. do movimento de 8 de outubro de 1930. autêntico e destemido. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. no clube dos economistas e em centros universitários. O criador original.

mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. Instado pelo então presidente Goulart. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. O Rangel conselheiro. Em 1989.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. Com efeito. aos poucos. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. Além disso. recusou o convite. Há ainda o Rangel missionário. a SUMOC. desde o início dos anos 80. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. voz que muitos escutam ou querem ouvir. O Rangel funcionário público. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. Rangel em relação ao Maranhão. Há ainda um Rangel muito especial. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. O Rangel profeta. no dia em que completava seus 50 anos. preferindo semear na planície. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. hoje Banco Central. honrado e agradecido. quando era para dizer e disse não. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. vinculados ao IPES. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. Já de algum tempo. Rangel. aliás. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. quebrando esse adágio. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. quando foi preciso. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. Neste particular. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). de vida. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. do IPES. vem. O cidadão que soube dizer sim. envolvendo UFMA. como ele mesmo confessaria. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado.

por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. Aplausos companheiros. ouvi-lo dizer satisfeito. cujo sentido é o de difundir. verdadeiramente. Sua marca é o nascimento e o humanismo. a produção e a obra do economista maranhense. Crê no país e em seu povo. 54 . desenvolvimento econômico e justiça social.. modernização e democracia. Oportuna. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. Finalmente o dia de hoje. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. “Parece que. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. porque Rangel é um otimista. entre modesto e orgulhoso. como bálsamo e esteio. através da Secretaria de Cultura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. Aplausos que eles. Em sua última visita a São Luís. falando a um grupo de admiradores. sim. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. Feliz. de 13. enfim.08. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. os merecem! Sumary In this article. através de livros. Ao seu lado. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. sim. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. minha voz faz eco”! Faz. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras.411..1951. o Dr. fez e continuará fazendo. magistralmente. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO Ignacio de Mourão Rangel 55 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 56 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. n. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. 1989. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. Com efeito. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. um modo superior de produção. Mas significava que a economia cearense. São Luís. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. uma das províncias mais ricas do Império. um modo mais avançado de produção. não se havia cumprido no Maranhão. v. estes usaram sua liberdade. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. começo dos anos 60. Economista. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. jan. os quais eram. 4. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. não raro. Mas restava outro fato. para o Maranhão. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. * 9 57 . de fato. desde os tempos do império. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. Não por acaso. que era terra de ninguém./jun. libertados os cativos. e a Amazônia. mas um passo atrás. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. O Maranhão. já o vizinho Ceará havia. Não a passagem ao feudalismo. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. ou melhor. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. 1. Por outras palavras. Quando chegou a 13 de maio. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. Um dos fundadores do BNDES. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. do que do Rio de Janeiro. contrabandeados para o Sul e. O Maranhão foi como é sabido. Assim. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. inclusive. mas o retrocesso à tarde e à cubata. era a Atenas Brasileira. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. Quase isolado do resto do Brasil. O navio a vapor viria romper esse isolamento. ao comunismo primitivo. como era natural que o fizessem. isto é. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. Autor do clássico A Inflação Brasileira. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50.

segundo o Prof. Seguindo-se a Minas Gerais. deu um golpe fatal nesse parque industrial. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. É certo que. A epopéia rodoviária. nas cinzas da velha mata. isto é. na composição da mão-de-obra escrava. somente. no Nordeste. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. quebrando nosso isolamento dourado. O migrante do 58 . somente em 1960.a Abolição representava um formidável passo à frente. meias e cânhamo. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. inclusive. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. Com efeito.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. como Alcântara.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. Assim. entraram em decadência. a passos largos. 12 e 10 fábricas. Mas o surto agrícola. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. Especialmente a Guiana Maranhense. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. da Bahia e de São Paulo que. Burgos ricos. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. A seca de 1958. entrou a caminhar. 14. a área ocidental do Estado. suponho Engenho Central. nessa ordem tinham 15. Além das fábricas de fiação e tecelagem. pela ferrovia São Luís-Teresina. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. etc. Queimada a mata uma vez. no Maranhão). demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. inclusive de lã. Turiaçu e. Entrementes. especialmente em São Luís. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura.. voltaria a começar a crescer. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. Assim. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro. Era outro processo que se abria. além de flagelados nordestinos. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. Demograficamente. Somente por meados dos anos 60. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . para a préhistória. com a indústria do Nordeste oriental. raros no Brasil de então. compensou com sobras essa perda. no corpo do Brasil. aí por 1895. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição.

sendo Presidente da República. Vi roçados nordestinos. que começava na Paraíba e. O surgimento do Estado do Tocantins. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. sob. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. fileiras de mamona. havendo cruzado o Piauí. em nossos dias. isto é. não raro emitia outro parecer. conversando sobre esse processo – na primeira fase. são as áreas problemas do país. penetrara no Maranhão. que é a penetração do capitalismo no campo. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. para encerrar essas notas. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. atendendo a uma ordem do chefe do governo. muito mais gregário. com água dos rios que formam o Golfão. Bacabal é hoje um município pecuarista. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. Aí por princípios dos anos 60. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. toda a área por uma única cerca. Na seqüência natural deste. eu. Uma cerca única. não estava fora de cogitações. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. Os vastos campos da Baixada Maranhense. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. depois. sociologicamente. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. Lembro-me de que. Essa utopia. que eu o saiba não teve seguimento e. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. em minha recente passagem por São Luís. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. O Porto do Itaqui. a caatinga não está. envolvendo todo o município. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. Jânio Quadros. este último expelido pelo boi. na direção geral 59 . não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. não deve ser estranho a esse processo. ao que ouvi. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. que havia em seu Estado. o que implicava numa colossal economia de material. mas protegida. Um pouco mais demoradamente. que estava desocupado. porque ao contrário do cerrado.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. Mas. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental.

apenas começando. Há muito que sabemos que. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. Ora. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. 60 . somente pensando GRANDE. do Rio Fresco. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. esteja preferindo. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. que não impediram o lançamento da BAMUR. combinadas.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. respectivamente. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. Como meio de transporte – excluído o duto.maio/89 . nada menos. isto é. para Açailândia. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. Embora geograficamente situado no Pará. na direção geral de Callao. que Carajás. Ora. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. poderá confluir o gás natural amazônico). as ferrovias canadense e transiberiana. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. a saber. a Floresta Amazônica. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. é indústria pesada o que teremos. hoje. Com uma peculiaridade: que. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. Hoje. tanto mais quanto. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. e em Vladivostok. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. Minha recente viagem ao Maranhão . aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. Por outro lado. Sabemos. com antracite. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. em vez de indústria leve. (A menos que.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito.

e imperativos geo-econômicos. cada vez mais energicamente e. herdados do antigo latifúndio feudal.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. O Brasil unifica-se. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. depuis lês temps de l´empire. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. Os quais nos apontam uma posição de elite. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. 61 . no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .

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revelaram-se inanes. responsáveis pelo choque e. Em Arbelas. pela imposição da guerra de movimento. Economista. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. Os esquadrões de cavalaria. entre uma guerra e outra. de caso pensado. prenunciando guerra de movimento. ante o poder de fogo da infantaria. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. Paulo Emilio. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. São Luís. Alexandre colocou a falange macedônica. provavelmente aprendida por Felipe. de Epaminondas. a tecnologia. contra o cônsul romano Paulo Emilio. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. na guerra como na economia . Em nossos tempos. culminação da arte militar helênica. não para o sitiado. 2. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. Refiro-me a Canas./1989. contra multidões asiáticas incontáveis. deixar-se cercar pelo inimigo. 2/ v. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. v. com a propriedade de poder mover-se. como vem acontecendo. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. contra fogo. n. escalonados em profundidade. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. Esse dispositivo buscava. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. n. dotando a infantaria de armamento leve. jul. da Pérsia. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras.c. ao longo da história./dez. 65 . em campo. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. travou-se. e.). Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. Era uma verdadeira fortaleza. Ainda na antiguidade. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. 4. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. ganha por Aníbal. 6. contra Dario III. porque. e Canas (216 a. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a.c. Ao contrário de grandes exércitos.) ganha por Alexandre. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. portanto.

ordenou a inversão do próprio dispositivo. certeza arrecadou. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. por ter feito. formando um saco. Ora. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. convertido em saco. isto é. em campo aberto . observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. levaram a resultados diametralmente opostos. inspirado. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. Como em Canas. já com as tropas romanas em movimento. o imperialismo. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. o expediente por muito brilhante que parecesse. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. Não há como não pensar nessa possibilidade. no exemplo de Alexandre. porque Aníbal. nem flexa. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. sendo mister resistir a este com artilharia leve. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. em Arbelas. o quadro da tecnologia inverteu-se. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. O tanque. que as alas de elite cartaginesas fecharam. saiu mal aos romanos. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. Já não era mais assim no final do conflito. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. naturalmente. o qual teve que bater-se em retirada. nem pedra de fundo. Em Arbelas. nem. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . por interpostas pessoas. nas alas. plausivelmente em nossos dias. nos versos do nosso grande Bilac. lança. sob a forma de “blitzkrieg”. exposta ao fogo aéreo . O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. em última instância. do tipo Arbelas. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. Com efeito. como os nazistas depois de Stalingrado. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. “by proxy”. Assim. com os Estados Unidos à frente. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. de pouca confiança. não se perdia. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. Assim. o exército cercado aniquilou o exército sitiante.

e consolidada em Stalingrado e Kursk. nas batalhas passadas. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. mas no fundo. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. Ora. não fez senão estruturarse. com defesas escalonadas em profundidade. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. agora. Em Kursk a maior batalha da história. como vimos essas batalhas. Em conseqüência. no futuro. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. ou ao contrário. porém. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. O cerco. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. dizíamos. Para isso. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. Sabemos. nas condições presentes. Paradoxalmente. Com efeito. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. é a mesma coisa – esse meio século. que justifiquem a produção em série. não se consumaram. a buscar Arbelas e não Canas. a história não parou aí. as batalhas típicas do último conflito mundial. que os nazistas não lograram romper. O que nos levaria. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. como seria de esperar-se. Ora. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. que os nazistas não haviam aprendido a lição.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. como Alexandre em Arbelas. com os russos metidos num saco. não obstante o terrível preço pago na tentativa. . até Berlim. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. no caso da indústria bélica. depois de Stalingrado. em vez de. de então para cá. na espécie. O meio século que está por concluir-se.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. no campo de batalha. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. ao qual faltava apenas amarrar a boca. Ora. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. seguiu-se uma guerra de movimento. pelos russos. O exército soviético suspendera sua ofensiva. mesmo depois de Kursk. 67 . uma “blitz”. isto é.

Na Guerra da Coréia. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. do ponto de vista da arte da guerra. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. porque tudo se faz em sua intenção. O Pentágono e. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. numa trincheira. os soviéticos deram aos coreanos. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. para variar. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. mas o modesto MIG-15. ainda para refinar-se e. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. porque “resolvem” problemas pretéritos. os vencidos. sequer correntes. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. geralmente. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. que não tiveram tempo. nem as batalhas econômicas nem.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. não bombardeiros ainda modernos. mas. nesse Estado Maior. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. um pequeno avião. mas que. são simples e toscos. por exemplo. como aquela que. Nem se ganham. árcadios. escondê-lo consigo. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. ao que parece. consequentemente. Na Coréia. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. foram eles os perdedores. não basta para alterar o quadro histórico básico. mas. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. novíssimos. ou num simples buraco. Quando não uma tolice. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. de fato. ao que se sabe. Assim. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . que talvez não aconteça nunca. o Estado-Maior Soviético. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. apesar dos gorbatchovos. isto é. a fortiori. inclusive em nossos dias. como o noticiário nos está mostrando. barato (porque produzido em série). Os norteamericanos. mas ao contrário do Pentágono. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. uma temeridade. como todos devem estar lembrados. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. tampouco. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. Ninguém. Por isso as batalhas da história são ganhas. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. o Estado-Maior Soviético. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. no mínimo. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. é como se já tivesse acontecido. não problemas vindouros ou. por isso. por equipamentos inovadores. na batalha de Canas. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. todos os dias. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é.

estava cumprida quando. como às vezes é mister. pouco antes da Guerra da Coréia. por causa do seu refinamento de fabricação. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. Mas é apanhado de surpresa. Como. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. eventualmente. quando se trata de partir para a terceira. Ora. Como foi na Coréia. Uma sucata “moderna”. a missão estratégica desse aparelho. Não para aniquilar exércitos. uma versão tosca de armamento anti-tanque. ainda nem a bomba atômica. no paralelo 38. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. em “blitz” ao Rio Yalú. “reluzente”. assim.. isto é. nem a bomba de hidrogênio. depois de chegarem. E. havia ou quase. é que este está excelentemente preparado para ganhar. nem mesmo na minúscula Nicarágua. o MIG-15. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. de onde não mais se moveram. serviços públicos e monumentos. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. A Segunda Grande Guerra. já provado antes. surgiram as armas nucleares soviéticas. no passado século-e-meio. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda.. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. “refinada”. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. como um gigantesco produtor de sucata. tratava-se de um foguete. tiveram que bater em retirada. que não podem. no Camboja. Ao que noticiou a imprensa. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. para matar gente. mas sucata em todo caso. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. seria mister ocupar o Iraque e. Para vencê-la. isso não seria fácil. acontecido com as armas químicas e biológicas. no anterior conflito mundial. proteger-se por detrás do escudo 69 . A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. como disse o nosso Brigadeiro Piva. para ganhar guerras. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. na fronteira com a Sibéria. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. no Afeganistão. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. não tanques “ainda mais modernos”. pois já invadira três vezes. evidentemente. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. para as posições de partida. surgido no estágio final da segunda grande guerra. no Vietnã. que o imperialismo norte-americano conhecia bem.

simultaneamente. Os homens e mulheres que. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. porque às vezes o podem. do Dr.6 % ao ano para a União Soviética. e o Plano Quadrienal. ou próspera do 3º Kondratiev. para o Japão. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. 449. o mago das finanças de Hitler. carregado de significado. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. com essa depressão. num esforço ligado ao nome de Keynes. que estão beirando os oitenta. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. ou 7. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. de quebra. nos Estados Unidos. O índice para a América do Norte passou a 305. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. O armamentismo e a própria guerra. como 100. no decênio final da dita fase recessiva. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. estão vivendo a sua segunda fase “b”. atualmente. portanto. abriu-se. como está sendo. 550. para a América Latina. na presente guerra. tivemos a emergência do fascismo. a taxa média de 70 . 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. o caso do Iraque. na Alemanha nazista. falam em nome da ciência econômica. ainda mais. que América Latina (inclusive Brasil) e. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. Com a paz tivemos. Ora. o qual levou à Segunda Guerra Mundial.6% ao ano. nos concílios do estado. muito mais. não apenas no campo econômico. aparentemente. porque atravessam. para o Mercado Comum Europeu. Os homens de minha geração. Em 1973.2% ao ano. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. ou 6. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. ou 4. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. Ou na medida em que não possam. são jovens e. Com efeito. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. em 1973. Nos primeiros anos do decênio de 20. Von Schacth. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. ou quase.6% ao ano. para comparação com os dados supra. a humanidade ingressou. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). que o resto da América Latina (exclusive o Brasil).0% ao ano. ou ciclo longo: o 4º. Ou a recíproca é que foi verdadeira.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. os economistas. nos cinco lustros da fase “a”. no Brasil. é tempo de que nós. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. pelo menos ao primeiro exame. isto é.

teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. está em gestação”. a 3. os valores caíram a níveis negativos. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. do ponto de vista econômico. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. passou de 2. o da União Soviética. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. Estamos. e um renascimento do fascismo. Para começar. Itália. E Jorge Dimitrov. quando vemos essa coalizão de 28 países. porque no lustro intermédio.6% ao ano.2 %. “Uma nova vaga fascista. caiu a 4. Ora. a 3. Afinal. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. o crescimento industrial da América do Norte. segundo o qual a história dificilmente se repete. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. não há como pensar nisso. promovida pelo Eixo Alemanha. do antigo mundo socialista. isto é. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. o do Japão. deram-nos um modelo de 71 . o Iraque. e Japão de nossa época é flagrante. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. foi tragédia. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. de fato. Há meio século.1% ao ano. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. Apenas. aberta a fase próspera do novo ciclo longo.4% do ano. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2.3%. e. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. ou melhor. Em média. O Mercado Comum Europeu. a 1. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. a saber: uma crise econômica profunda. disse ele aproximadamente. da primeira vez. Passando o conflito.5% ao ano. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. isto é. o do Brasil. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. uma guerra mundial aparentemente em marcha. Mas também. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. naturalmente. esses temores foram esquecidos.

que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. vale dizer. para o dito desfecho. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. – Do que jamais me arrependi. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. num enquadramento francamente corporativo. nem.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. agora nos chegam. a construção do capitalismo industrial aqui –. do “Golfo”. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. Isto é. não tem nenhuma grandeza. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. respondeu que aquele fora um fato complexo. promovendo um direito trabalhista que. Muito mais tarde. por exemplo. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. corporativas. O Brasil. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. supostamente invencível. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. mais que. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. nossa experiência “collorida” de fascismo. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. Com a mesma diferença. 72 . Em suma. ao subir ao poder. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. porém. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. comandante do exército vietnamita que. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. isto é. Soares Pereira. Somente mais tarde. como na França de 1789. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. como naquele tempo. os homens de esquerda. e calcado nas instituições medievais. difícil de explicar. o general Giap. está fazendo eco ao surto fascista mundial. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. Ora. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. de Mussolini. não há como pensar nisso. nós. Naquele tempo. Só para exemplificar.

o mais próspero dos países capitalistas.9 vezes. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. 73 . – Getúlio. prócer aliancista maranhense.5 vezes. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. cresceu 26. Para meu conhecimento. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. 6. Conto estas coisas. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. fazendo jus a toda minha lealdade. procurando corroborar a ação de meu pai. consequentemente. a do mundo capitalista. a do Japão. 13. da recessão e do desemprego. On the contrary of big armys.9 vezes. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. Com efeito. e como o epi-fenômeno que é. isto é. fizme conspirador e soldado voluntário. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. como chefe da revolução.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. que temos o dever de preservar. com escassos 16 anos. havia sido meu comandante. eu fora getulista por um breve momento. que aí temos. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. batendo todos os recordes.8 vezes. ao primeiro exame. Quando da Revolução de 30. que estivemos construindo. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. o Brasil e a União Soviética. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. somente dois países. no mesmo período 23. É esta formidável potência. francamente parecera temerária. dei razão. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

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n. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. que aprendesse mais depressa do que tu –. diretor-presidente e chefe do escritório. Imagine-se que. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. mas viúva de um comerciante português. preparou-me para entender o que. como em muitos outros países. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. Minha experiência. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. Irmãos e Cia. Mas não fizemos isso. 1989 Economista. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. a depressão criasse raízes. sobre meu desempenho. Outros mestres assim. secretário geral da CEPAL. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu./dez. a começar por Rui Costa Fernandes. no período. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava. n2. sobretudo. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. na firma Martins. ao lado de João Vasconcelos Martins.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. v. para ficar. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. fiz-me um economista fora de série. haveríamos deixado que. Mas nunca encontrei ninguém. em São Luís – dela ouvi este julgamento. da firma Martins e Cia. Quando me despedi de Mrs. São Luís.4. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. radicada em São Luís. Talvez por estas e outras. 77 ./v. naquele tempo. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos.2. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. e o segundo. Silveira – aí por 1940.. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. no curso de inglês. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. jul.6. latim. nada sabiam de Direito e.

não houvéssemos criado condições de investimento. Araújo Costa. mais do que o dobro da média mundial. Não foi por acaso que. Sem isso. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. a implantação de um Departamento moderno. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. sendo elas próprias parte do Estado. no período. de um modo geral. com uma receita pública cuja origem era afinal. nossa produção de eletricidade cresceu 12. que não teriam acontecido se. sem outra garantia senão o aval do tesouro. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. a eletrificação – e. até por que eu próprio lhe havia explicado. como a União Soviética. diretamente. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. o que constituiria um absurdo. na época.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. isso me pareceu impraticável. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. mas de homens que. a renda gerada pelos investimentos privados. Ora. nos quadros da reserva de mercado. Noutros termos. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. uma receita estatal que. pelo menos durante algum tempo. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. visto como. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. Com efeito. como sei ser o seu caso. na velha escola da Rua do Sol. Rangel. Entretanto. A equipe conhecia esse mecanismo. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. a receita pública com a qual o 78 . a exemplo de Tucuruí. nos três decênios 1956-86. dentro e fora do país. opus-me ao esquema da Eletrobrás. por essa via. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta.5 vezes. Isso significava que. então. não preciso de aduladores. possibilitariam coisas ainda impensáveis. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. esquina com a travessa do teatro. Ao primeiro exame. eu já sabia. – Como assim. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. isto é.

com o resto da economia mundial. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. a renda nacional poderá crescer. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. mesmo que. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. no fundamental. atravessamos uma crise. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. Naquele tempo. como abri-las. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. sob certo ponto de vista. mas teria sido pura ilusão esperar que. Com efeito. se um fator de produção está desempregado. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. Entretanto. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. a saber: hoje. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. Ora. 79 . em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. isto é. nas condições do emprego desse fator congênere. a mesma. Hoje. hoje. Como venho insistindo. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. as condições persistem. do nada. isto é. estaria surgindo ex nihilo. dos países mais avançados do mundo. para isso. Noutros termos. no Brasil. Parece predominar. as reservas retardatárias. como então. contrabalanceado por outro. não obstante o atraso tecnológico. o custo de produção. para a empresa. Naquele tempo. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection. while. 80 . it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 82 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. dias 13 de junho de 1988. Quase pronto e pensando no trânsito. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. Rossini. com a sua linguagem trêfega. por fora. disputando com o ponteiro dos segundos: água. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. o jornal político..” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. rítmico. por dentro. quando escutei o alarido do telefone. mais do que ver. sabendo novamente ser a República. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. pão bolorento. aquela voz inconfundível. a chave girando na porta.. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. Mais depressa. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. coisa. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . varava as persianas do pequeno apartamento. escova. bela viola. trazendo o seu cortejo de surpresas. lâmina. não recordo se na Globo ou na Manchete. cueca. A móvel manhã quente e derretida. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. Mal toquei o aparelho. carregando comigo. Não só acordei. prossegui. barba. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. creme. não sou amigo do Rei. dentes. camisa.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. um morto querido – meu tio.. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. como me pus de pé. como vais? Quem está falando é Rangel. Membro da Academia Brasiliense de Letras. Acordar acordei. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. mesmo estando em Pasárgada. calça. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. toalha. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir. Eu estou aqui em Brasília. desimportante.. Voltei para atendê-lo. aliás. tragicamente. Tanto quanto possível. pois. disparou: – “Alô. Estava de saída. sabonete. 12 83 . a completar seis anos do dia em que foi.

que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil. A bem da verdade.. de tarde. prontamente. cargos de direção etc. Volto hoje mesmo.. Muitos foram meus estagiários. eu deixo o Hotel. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. Perdi o meu genro domingo. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso. Vi este pessoal todo entrar no Banco. que eu ajudei a formar.. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. o encontra”.. junto com Aliette.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou .. ainda não tenho. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti. Tenho trabalhado muito... e ela.” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está.. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas.No Hotel Nacional? Não. é uma espécie de banco legal.. – Sei.. que está comigo. tudo bem. dando assistência para a minha filha Liudmila.” 84 . no BNDES..” – Que bom. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. nosso ponto de encontro de sempre.E tive que parar um pouco e ficar. É uma grande alegria para mim. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades. Vai-se levando.. mas não estou largado. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia..Então.” – Que pena. Professor! – “Porém. quando vence a diária. – Perdeu? Que pena. – “. aqui no Hotel” – . algumas tristes. – “É isto mesmo.. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. saber que eu estou velho. e hoje há gente ocupando altos postos. no mais. às 15h.

.. Ele realmente merece uma pesquisa. – “Ah. De qualquer maneira. Tanto quanto. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. ao qual não basta desgostar do comunismo. ou até mais do que eu. quem sabe. Em seguida. No aeroporto? Bem. Professor. neta de Jesus Norberto Gomes. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. eu vou ao seu encontro no. Decidida a documentar o encontro.. Flávia Galiza e eu. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. – “Até mais. Eu gostava muito dele.” – . Um grande abraço para o senhor. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. Ela.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro. – “Vai trabalhar.. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. de qualquer jeito. e almoçamos juntos. Rossini. que lamentável. na chamada Intentona Comunista.. pois eu pensei que nós pudéssemos. contudo.” – Vou. então. Um abraço para ti. eu vou para o serviço agora.. pois ele tem de ser é anticomunista. compreendeu.. passei pela Secretaria Geral do MinC. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. Olhe.Almoçar juntos? – “Sim..” – Sem dúvida. nos encontrar e .” – Até mais. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício. preso em novembro de 1935. que era um burguês diferente do burguês brasileiro. Até mais. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. a terceira convidada solicitou 85 . em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. gentil. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural.. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa. telefonei para uma convidada minha. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. conversei com Flávia Gomes de Galiza.. – “. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. no Hotel Nacional. rapidamente. Flávia Galiza. ficou vibrando.

À beira da piscina. em animada conversa. onde evitaria contratempos. logo tomamos a direção desejada. no mínimo. reagindo bem. neto de Demétrio Ribeiro. que integrou o primeiro Ministério da República. autografado. Eu o provoquei. a economia. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. tornada um clássico das ciências humanas no país. também dos quadros superiores do MinC. Aceito o convite. Realizava-se ainda o colóquio. premido pelo horário. com vivaz prosápia. Chegamos. Chamei-a. Ignacio Rangel sugeriu. No intervalo. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. a pequena comitiva partiu. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. que fôssemos almoçar no aeroporto. Celso Furtado. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. o evento foi encerrado. o aguardamos. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. e de outros afazeres literários. de onde marchamos para a beira da piscina. Vi olhos marejados. E o velho Rangel.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. Passando recibo ao meu desafio. Sem demora. Necessitado de um paradigma. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. a política e a história do Brasil. o livro Economia Brasileira Contemporânea. Fui buscá-lo à entrada do auditório.. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . Aplaquei-lhe os justos reclames. editada por Jorge Zahar. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. e confessou. a propósito da necessidade da reedição da obra. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. no caminho. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. A marcha batida deste. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa.. em companhia de Dona Aliette. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. sobre a sua produtiva atitude intelectual. No horário combinado para a saída. reunindo textos esparsos e inéditos. em contrapartida. discorreu a respeito de projetos de livros. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. com a alegria de haver recebido. no auditório do Hotel Nacional. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. como o de perder avião. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. em substituição à afoiteza que lhe é característica.

Mas o senhor pode reeditá-lo. em uma autobiografia. a sua ligação com os comunistas. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. desaguando na divulgação do seu opúsculo. Chegada a sobremesa. intitulado Dr.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. Sentamos. – “Esta é uma boa idéia. declinou nomes. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. A facúndia do visitante. a prisão política em 1935. com uma introdução atualizadora. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. o Juiz e Professor Mourão Rangel. Mourão Rangel. Conseguido um lugar no estacionamento. as quais.” Chegamos. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. Afinal. ao centro. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável.” – Entendo. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . voltando-se para mim. ainda. O testamento vai ficando para depois.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. 87 .. o que é uma necessidade. o propalado ateísmo. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. que não é habitual. Ao chegarmos no amplo ambiente. com Isabel e Epitácio Cafeteira. deparamos.” – A redação de sua autobiografia. à frente de Flávia Galiza. seriam depoentes abalizados a seu respeito. mergulhou em um mundo de lembranças. referente à crise nacional. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. tanto quanto ele. enfim. agora.. E confirmou. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. Ignacio Rangel. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. com a ajuda material de Jesus Gomes. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez. Rossini. Trocamos apenas olhares. o viajante. Tempo houve.

fundada por Mourão Rangel. de acordo com ensinamento de véspera. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. de plano reconstruído e de declamado. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. que todo o dia Tinha levado a anadar. Chegando ao Rio de Janeiro. no Dia da Pátria. episódio de há muito esmaecido. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. no longínquo 7 de setembro de 1922. A. Aos oito anos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. com a metralhadora da memória ligada. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. de O. Tornam os pobres à estrada. é lusófilo. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. em companhia de sua esposa. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. pois não passava bem. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. concluída a sua palavra. logo acusando a lembrança em seu discurso. estendendo-se a texto poético. verso por verso. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. Como se não bastasse. Diz o filho: "Oh minha mãe. Neste. feito por sua mãe. o velho. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. A despeito da nova e moderna construção. Mas saltam dois cães de gado. 88 . Como um sopro. que nela. em época pretérita. Ignacio Rangel identificou a localidade. educava os seus e os filhos de terceiros. funcionou uma escola particular. o velho Rangel. Tomado por violenta emoção.

. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira... lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor.. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira.Boas tardes..Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. É escusado. Vendo a sua esperança vã. Que ainda é perda maior. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? . Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . Perdereis a caçadeira.... senhor! ..” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .Boas noites.. caçador! ... Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho. (diz ella. dessa maneira.. caçador!” 89 .Boas tardes.Olhai que.. . A triste n'um riso amargo). Até um dia.Que importa..Talvez que fosse melhor.Se os cães deixarem. Com effeito a sentinela: . senhor.Boas noites.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!.."Quem vem lá?. lavadeira! . lavadeira! .

no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. com a sua passagem. Foi possível. como se tivesse acabado de lê-la. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. Ele. Inteligente. a caminho. e 1991. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. beijos e despedidas. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. o doce vestígio de uma presença. Que tive mãe e. a cidade. entre outros. Conseguimos ainda.. Depois. Divididas democraticamente as despesas. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. retidos em Itamaracá. porém. o Recife. entretanto. mas suspendera. fugaz. aparecesse. Andei sempre assim perdida. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque. abraços. tardaram. por suposto. cobrando detalhes do texto do poema. repleta de inefável encantamento... Secretário de Governo. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. de onde viajaria com destino a Brasília. de João de Deus. parar. Almoçamos sem que Roberto Viana. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. o ano. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. II O mês era o de junho ou de julho. foram passos rápidos. em seguida. não se fazendo de rogado. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. partimos em direção ao setor de embarque. pois este só despontaria em meados da tarde. deixando em todos. declamou verso a verso a extensa peça literária. mas chegaram. os quais. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. para sempre. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas.. 90 . Em um restaurante da Avenida Boa Viagem.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu.

Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. ao regressar de João 91 . É o lançamento do seu nome no Brasil. e a demanda foi resolvida. era. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. Assim foi feito. com Formiga.. com Sales.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. em Brasília. de texto concluído. em contrapartida. demonstrei serem malévolas. em processo de organização pelos dois. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . podendo. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. você não pode deixar de participar. levando Formiga telefone e endereços anotados. de forma irremediável e comprometedora. de sua admiração. feito de pura louvação de Celso Furtado”. de que a velhice o alcançara. e o painelista maranhense. valiosa. Comuniquei-me. em cujo domicílio ficaria no Recife. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . e antecipando. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. Roberto Viana foi explícito. em 8 e 9 de agosto. ressalvadas a fonte. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. quase que à antevéspera do simpósio. as infundadas notícias. à sua maneira. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. ao ser comunicada. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. em João Pessoa.CNPq.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. e esse.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. por seu relevo pessoal. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. de imediato. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. Rebatendo-as. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. Motivei Viana sutilmente. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. o telefone do seu sobrinho. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa.

começaria a solenidade oficial. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. Luciano Coutinho. sorrindo. às 8h da manhã. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. Antecipando-se ao horário combinado. por intermédio da zelosa fonte que. no Espaço Cultural José Lins do Rego. quanto ao cumprimento do cronograma. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. o paraibano Celso Furtado. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. Armando Souto Maior. O também paraibano Paulo Bonavides. cujos setent’anos recebiam tardia. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. Pedrão e Santos. Ao desembarcar. Clóvis Cavalcanti. às 7h30min. parabéns!” A resposta foi glacial. à procura de Aspásia Camargo. desde o Maranhão. Mal terminamos o abraço. bêbados de cansaço. Rosa Freire D’Aguiar. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares.. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. a solução foi dormirmos. cadenciado e de pasta executiva à mão. retraído: 92 . homenageado e convidados. garantira a sua presença ali. mas bela homenagem de sua terra natal. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . Sales e Formiga. contatou painelistas. da portaria. em uníssono. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. elegante.buscando confraternizar: – “Celso. Hélio Jaguaribe. Virando-se levemente. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. Sales.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. E Pedrão. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. para o Tambaú Tropical Hotel. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. que chegaria em vôo matinal. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. entre outros. pedindo a todos brevidade no café. À luz do dia. Ao chegarmos em Tambaú. sem mínimo retardo possível.. partimos em vagaroso e confortável ônibus. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. avisaram que. apareceu no corredor Ignacio Rangel. Paulo Bonavides e Armando Mendes. próximo à sua esposa. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo.

Explicou-me ainda que. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. Avisou–me que tivera problema de saúde. a Bahia. Santos sentenciou: E Pedrão. casado. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. este. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada..?” – “Um dia melhora.. que estava repleto. – “Bom”. decerto. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. por causa dos problemas de saúde. evitando viajar só. entramos no ônibus e partimos... convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim.. A caminho do teatro do seminário. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho. Milton Santos. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. para esconder.” Gargalhamos. retórica baiana e dialética de Hegel. figura sempre simpática. Guedelhas. como ficaríamos. que não os cardíacos. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. combinando capoeira. conterrâneo. aliás. como coordenador do Mestrado em Economia”. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. o velho Rangel foi conversando. a tristeza. todo o seminário. Pedrão juntou-se a nós e. Desembarcamos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. sua esposa. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. galhofeiro.. Quase metediço. A solenidade começou pontualmente. Sentado em poltrona contígua à minha. Mourões e Rangéis da Paraíba. com uma sobrinha de José 93 . comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa.

grande Mestre!” 94 . pelo notável economista paraibano. sentando-se de novo junto a mim. professores. emocionado. assim como Sales Gaudêncio. elevada e corajosa. vivido em estilo elogiável. Estudantes. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. Tomado por um constante espírito crítico. sexta-feira. o sábio maranhense deixou escapar a frase. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. retiraram-se. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. o Governador Cunha Lima chegaria. sem nenhuma intenção de trocadilho. à maneira isebiana. entre sorrisos. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. o faria no encerramento do colóquio antológico. Formiga explicou ao velho populista que. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. para a solenidade de encerramento do seminário. e o festejou. Admitida a aceitação. inquietações. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. foi constituída por um confronto do seu. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. com o pensamento de Celso Furtado. Marcos Formiga discursou na abertura. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. abraçando-o: – “Salve. ponderando: – “Rossini. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. Lamentando a frustração do seu propósito. na década de 50. sem ser suntuoso. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. a dicção ignaciana. Surgiu a idéia da criação. intelectuais. problemas e dificuldades. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. cumprimentando-me da passagem. Rossini. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. Contudo. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. Quinta-feira. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. E foi.” A participação de Ignacio Rangel. 8. Arraes dirigiu-se a Rangel. a quem auxiliei a levantar-se. quem é que é. segundo convite do Governador Cunha Lima.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. a qualquer instante. – “Afinal. eu estou preocupado.

Rangel e eu fomos os mais silenciosos. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. o burgo de Goiana aos Rangéis. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. matar a sede e tomar café. findo o café. em abono do testemunho salesiano. Não obtendo sucesso. entre léguas de cana de açúcar. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. como sói acontecer. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. com o estilo inteligente e cortante de sempre. Armando Souto Maior. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. O pedido foi aceito. particularmente. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. e descermos juntos para o Recife. em busca de um lugar para jantar. mais à frente. que fosse possível chegar ao Recife vindo. quando. O motorista. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. houve a ruidosa entrega de certificados. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. atencioso. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. levando a que eu aguardasse em vão. parou. Dona Aliette. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. ditado pelas musas da juventude.” Fiquei. onde recusei. comecei a providenciar o regresso. A minha expectativa era. Fiquei plantado à beira da churrascaria. 95 . Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. convite para jantar. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. Falei-lhe. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. E. como se fossem novidades. Ignacio. No sábado pela manhã. Apontei. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. apareceu em companhia da esposa e amigas. de minha parte. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. de sua lavra. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. pois as mulheres falaram a contentos.

revelando a sua íntima conexão com a poesia. mas terminara a vida no Recife. e nas entranhas. e eqüidade. vencendo o cansaço do tempo. e misto. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. e prende um Cristo”. e vós. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. E Letras. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. A resposta foi objetiva. com que a todos causam inveja. declamou com voz de cristal resoluto. para não perder o fio da meada. Que solta um Barrabás. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. Perguntei a Dona Aliette. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. novelista e jornalista Odylo Costa.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. e outra idade Desde que há tribunais. resgatou versos de Gregório de Mattos. mero. Que se tem feito em uma. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. e iniqüidade. e tu”. e vós. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. e o fiz sem reticências. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. filho. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. Guerreiro Ramos. Como previsto em trampas. e maranhas? É Ministro do império. e quem os reja. Tão Pilatos no corpo. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. E logo em seguida. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. e mísera cidade Sua justiça agora. Ignacio Rangel. Nunca tiveram relacionamento com o poeta.

ela. sem que recebesse resposta. Roberto Viana esteve presente. nos jornais de Brasília. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. fui buscá-los no Engenho do Meio. finalmente. que. cauteloso. lançara um sapato no rosto de um estudante.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. Tomando a palavra. O velho Rangel. ele poderia ter sido muita coisa neste país. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. segura de si. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. foi apresentada a Josué Montello. eu redefini o curso da conversa. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. preferiu colocar à mesa episódio imediato. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. para que. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. Disse-lhe que não. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. para a economia do seu quatriênio administrativo. ninguém duvidava no Brasil. sem rebuços. Sentenciou ainda que sua obra. Ele prometeu publicar o documento. da competência e da probidade do seu marido. que. em Londres. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. o prato servido foi Celso Furtado. mas sincero. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. garantiu-me que. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. sob elogio dos seus mestres. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. que dela ousara discordar. juntos. onde o habilidoso matemático não ficou. Por quê? Dona Aliette. seu amigo. admitiu que muito do 97 .” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. Sequer os adversários ideológicos. a qual. Daí a pouco. Palavras ao vento. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. no qual a sua filha. estivera ausente. para sobreviver. em particular. À noite. Em seguida. no ato. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. disparou: – “Minha filha. afirmando que o estudara em Oxford. que. Chegamos ao Recife. de boa-fé. encontrando o romancista maranhense em uma festa. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello.” Dona Aliette. de fôlego e duradoura.

fui deixá-los. E mais: que Phaela a nada faltou. sonegando. de José Márcio Rego. resguardado. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. no qual lhes passei endereços e tudo mais. para a Dona Aliette. Antes de partirem com destino a São Luís.” Terminado o café com muita prosa. minha filha. muito que te quero 98 . comunicada à Academia Maranhense de Letras. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. muito prestigiado no ciclo cepalino.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. que conversa como gente grande. vai ficar deste tamanhão. economista da Argentina. cantava toda a música “Carinhoso”. aqui em São Luís. com menos de um ano e meio. lembrando da menina que. ligaram para agradecer. em Alternativas do Brasil. editor da Bienal. vovô Rangel. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. desde ratinho até agora. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida.. Muito prosa. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais.. a referência original. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. Parabéns! Fiquei prosa. Prosa e verso. entretanto. os Rangéis. com os dois já no Maranhão. em termos de construção original. movidos a cortesia. procede do pensamento de Raúl Prebisch. de toda maneira. tua filha. quase madrugada. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. sem necessidade.

nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. com o qual lhe presenteei. A conferência.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. que. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. Conversamos à vontade. seguindo recomendações de Dona Aliette. situada no Bairro do Recife. e. e. inclusive o seu A Questão Agrária. onde adquirimos alguns volumes. O velho Mestre dispensou o hotel. por exceção. conferimos quem tinha o quê. vem. enquanto Mestre 99 . filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. em matéria de bibliofilia. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. não satisfeitos. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. Mestre Rangel. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. vem. publicado aqui no Recife. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. trocamos idéias. realizada na sede da Secretaria de Planejamento. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. onde estavam familiares. ficou hospedado comigo. respectivamente. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. fomos à Livraria Brandão. vem. vem. foi um sucesso.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. Percorrendo as livrarias. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. o deixou viajar sozinho. E também Carlos Osório.

explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. confessadas. Ele é o patrimônio da nossa família. com a palidez da angústia. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. A explanação da temática foi meridiana. o grande economista estava lívido. da democracia e do progresso social. todavia. por minha causa. ficou com algumas reservas mentais. bastante cedo. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. Na tratoria. como gostaria. houve emocionada saudação de Carlos Osório. Mestre Rangel. aplaudida ao final. facilitada pelo concurso de duplos microfones. Saber. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. não devendo ambos. por minha posição. comendo de tudo um pouco. na manhã seguinte. Rossini. prontamente sugeriu: 100 . defensor do recurso em si mesmo. em seguida. sobretudo quando revelou que. Retruquei-o. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. de maneira generosa. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. ele e eu.” E assim foi feito. só depois. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. navegou em céu de brigadeiro. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. mas temendo. com diversa óptica. findo o Governo Juscelino Kubitschek. Antecipando-a. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. e. muito embora eu o deixasse à vontade. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. similar ao do Governo Federal. Nada obstante. chopes e uísques antecederam os pratos principais. Na saída. em círculo restrito. não pôde conceder–lhe. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. indagando-lhe.

do magistrado revolucionário em disponibilidade. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. Ao término do café. quase um vintém de prosa. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. desvãos e perspectivas. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. ainda ali. a aerofogia estava vencida. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. A chegada do 3 de outubro. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. Em viagem de navio para o Maranhão. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. Do quadro teórico à formação social. significou a surpreendente colocação. a criança desventurada. carregando na alma o mortal sentimento de culpa. dialogamos um pouco. retirando dele o peso do cadáver. o pai e ele.” 101 . Foi uma manhã iluminada. E ficaram ambos. em 1º de janeiro de 1930. nascido em 14 de abril de 1928. e. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. segundo o seu filho. nesta. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. o pensador maranhense. limites e possibilidades. e ele. esclareceu fundamentos e circunstâncias. Ignacio Rangel retornou a São Luís. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. com o fio de espada da dialética. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. já volátil. Fechada a porta da frente. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. Quando do retorno. ao encontro repentino do rio e da morte. da estrutura à conjuntura. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. De tudo. desculpando o pai e sentindo-se. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. portanto. em Londres ou em Nova York. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. com o pai e seu irmão caçula. pois um morto. naquele vendaval de estremecimentos. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. recebeu proposta de uma rica senhora. O pai. sua conterrânea. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. porém. se em Paris. Quando quase todos já tinham partido. infante ainda. a favor da Revolução de 30.

porém. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. escrita. que preparava o seu terremoto clandestino. que aos quinze anos passava a limpo. tê-las e segundo. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. à força pessoal. Na antiga Capital Federal. a datilografar fumando. não deixe este congresso sem conversar comigo. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. só à mão. o Brasil. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes.” Realizado o vaticínio paterno. histórica e sociologicamente. O interesse agronômico. passara. Não poderás negar. em congresso de sua agremiação política. as sentenças do pai magistrado.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai.para alegria de Dr. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. Dona Aliette Martins Rangel. sob a determinação de sua esposa. Mourão Rangel. Aceita a sedutora provocação. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. primeiro. que é mais do que a sombra protetora. com o seu saber velho e desatualizado. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. como passariam.concluída no Rio de Janeiro. Nada obstante. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. entre faltas e segundas chamadas. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel. fruto de acidente de percurso. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. Por recomendação médica. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. bem como de sua esposa Maria do Carmo . esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. começada no Maranhão . isolando-o de todos. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. em máquina de escrever. manejá-las. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. o cigarro e a máquina de escrever. o pensador 102 . o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. por reclamar. de resto. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança.

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. com rigor. Sociologia e Política-IBESP. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. no Rio de Janeiro e Agronomia. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. na capital do Maranhão. Participa em Santiago. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL.1957). Desenvolvimento e Projeto (BNDE. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. 107 . dentre outros. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. História e Economia. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. 1954). Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. Chile. concluído no Rio de Janeiro. De forma autodidata.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. nas Assessorias de Vargas e Goulart. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. no Rio de Janeiro. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. 1957). hoje BNDES. no Instituto Brasileiro de Economia. em Mirador. no Plano de Metas de Juscelino. 1957). Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. no Clube dos Economistas. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. estuda. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL.

cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. Cadernos do Nosso Tempo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). Tecnologia e Crescimento (Civilização. 1982). 108 . 1985). a UFMG. Revista Agrária. Ciclo. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. 1960). Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. 1961). e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. 1963). Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. Revista do BNDE. coligindo boa parte da sua produção intelectual. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. 1961). Revista da Civilização Brasileira. 1959). Ensaios FEE e Revista de Economia Política. 1987). a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Estudos CEBRAP. 1979). Desenvolvimento e Conjuntura.

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