A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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3 PESSOA. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. retomamos após dezessete anos esse projeto. com Ignacio Rangel. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. que em sendo seus versos belos. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. fornecer indicativos para elas. Fernando (Alberto Caeiro). 2 SOSA. e quem sabe. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. tão presente. 7 . Tem que ser assim por força. Raimundo Palhano. Quando partiu deste mundo. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. Volver A Los 17. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES.. responder a essas perguntas ou pelo menos. que mesmo não podendo voltar até lá. Portanto. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. Maureli Costa e Pedro Braga. Mercedes. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. como é característico do mister do ladrilhador da História. É certo. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. eles não o poderiam ser. Não conheci Ignacio Rangel. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. Se eu morrer de novo. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. como o poeta há muito afirmou.. o que dele sei me vem. incompletos dez anos tinha. publicada na forma de livro. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. Nada o pode impedir”3. me propiciaram aqui reiniciar o já começado.

vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. blindagem e conjuntura e 3. Profeticamente disse “ora somente. operação que deve ser planificada. construí-las no agora e por diante. Tecnologia e Custo de Produção. 2. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. Fogo. devemos é buscá-las no presente. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. todos de 1989. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. Por último. Maranhão: antigo e novo. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. o desenvolvimento endógeno. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. eco de sua formação cepalina. sustentável. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. Os artigos identificados foram: 1. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. ao civismo. isto é. 8 . sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. Ao analisar a história das guerras em “Fogo. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. não se manteve. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. pensando GRANDE.

publicados na revista FIPES. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. amigos. O Pensamento de Ignacio Rangel. Primeira Leitura nº 43. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. o intelectual. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. Entrevistado por Rossini Corrêa. 2. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”.1 (Coleção Ignacio Rangel. Ignacio. al. a poesia e a prosa. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. A volta por cima de Ignacio Rangel. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. dando conta das várias dimensões. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. Me refiro a RANGEL. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. 4 9 . mas para nós não. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. 1). situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. São Luís: SIOGE. outros quatro sobre ele são postos. e 3. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. ou melhor. v. Os do primeiro foram: 1. o decifrador e o ídolo. Luiz Carlos. Milton. admiradores. Na franja tênue entre a razão e a emoção. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. Maureli Costa. para alguns inconciliáveis. et. setembro 2005: 9093.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. 1991. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. familiares. SANTOS. 5 BRESSER-PEREIRA. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional.

Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. sua busca por caminhos e sua realização prática. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. mas um criador que se arriscava. 2001. com Rossini Corrêa. nitidamente autodidata. na presença dos interessados que acontecia. Luiz Carlos. Ele será. melhor do que o passado”. às vezes. entre muitas dessas tardes que viraram noite. Fernando Cardoso. capaz de pensar por conta própria. Ignacio Rangel. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. O Pensamento de Ignacio Rangel. Num homem só. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. com valor e atrevimento. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. tantas coisas. o Brasil e em especial o Maranhão. tanto vulto. participando da resolução dos mais diferentes problemas. preocupado com a distribuição de renda. BRESSER-PEREIRA. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. não por cangas ideológicas. melhor do que está hoje. conheci Ignacio Rangel. mas por que “o trabalho era tremendo. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. Ele não diz isso como que para se auto-promover. segundo ele. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. PEDRÃO. podemos dizer que foram milhões.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. 1998. serem centenas. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. heterodoxo e extraordinário. enfim. no país. na verdade. 10 . Acredito no futuro. São Paulo: Editora 34. se ressentem disso. com pensamento e ação. um homem de ação. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. de. Prefácio. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. na sociedade exprimindo em palavras. Hoje. alguém que podemos dizer que pensou antes. sem ufanismos ou covardia. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). com marchas e contramarchas.

Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. que agreguem valor às matérias-primas. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. mas pavimenta 11 . que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. assim sendo. Como quarto eixo – a infra-estrutura. dinamizando as economias locais. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. sem perder de vista o global. isto é. mas de dentro para fora. significado singular do planejamento. Para tanto. mas agir depois de pensar. Agora a mera existência deles per si. adequada às especificidades do local. É preciso inovar e inovar é preciso. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. Um terceiro eixo é a tecnologia. Outro eixo é o do desenvolvimento. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. não basta apenas pensar antes de agir. não ocorre de fora para dentro. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho.

ao mesmo tempo. no dizer rangeliano. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. avançamos e avançamos. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. atentos à realidade maranhense. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. avançamos. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. à luz da contemporaneidade. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. a partir dessa Cátedra. São Luís. Objetivamente se constituirá. Sem dúvida. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo.

BLINDAGEM E CONJUNTURA ............... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ........................................ 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL . 95 13 ................................................ 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ........................ 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO...........................................Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL.................................................................................................................................................................................. 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ....................... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ............................................... 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO .........

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inspirados pelo brilho da lua. Maureli Costa. sob a presidência de Carlos Lessa. poderiam estar Rossini Corrêa. de suas “Obras Reunidas”. Haymir Hossoé. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. Carlos Gaspar. primorosamente editados pela Contraponto. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. os conterrâneos de Rangel. embora conhecedores das nossas limitações. em evento do Conselho Regional de Economia. Pedro Braga dos Santos Filho. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. neste lugar privilegiado. sob o reitorado de Fernando Ramos. com menos de trinta anos. Emanoel Gomes de Moura. editadas e organizadas por César Benjamin. como Tetsuo Tsuji. * Economista. Raimundo Arruda. Cursino Moreira. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. João Evangelista da Costa Filho. e outros estudiosos coetâneos. com mãos delicadas de artista. durante seis anos. e que. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. que nos honra com sua presença. a realçar o significado e a importância do lançamento. ajudou a tecer. com o apoio do BNDES. filha e herdeira do legado rangeliano. jovens intelectuais como nós que. Sebastião Moreira Duarte. a partir de inícios dos anos 1980. Hiroshi Matsumoto. Jomar Moraes. Benjamin Mesquita. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. os fios de ouro que criaram a obra-prima. entre nós.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Joaquim Itapary. Flávia Mochel. presidido por Dilma Pinheiro. nos propomos. hoje relançado por seus idealizadores. Alberto Arcangeli. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. Niomar Viegas. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. da Academia Maranhense de Letras. Nesta noite. Roberto Gurgel Rocha. Neste lugar em que nos encontramos agora. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. privilégio imerecido. 6 17 . em alentados dois volumes. Benedito Buzar. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. Luis Augusto Mochel. no dia 22 de junho de 2005.

No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. economista do BNDES. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. aos 16 anos. no Rio de Janeiro. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. edição de jul/dez de 1989. como jurista. modestamente. de modo primoroso e didático. como economista. e São Luís. em Mirador. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. A partir dos anos 50 esteve presente. o que já o fizemos. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. combatendo a política econômica do governo Collor. Ademais. nesta oportunidade.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. hoje BNDES. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. Foi um homem sólido de caráter. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. para ele uma verdadeira apostasia. De forma autodidata estudou. que inventaria e analisa. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Não apenas no discurso bem construído. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. com rigor. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. publicado pela Revista FIPES. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. Atuou inicialmente como jornalista. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. lúcida e ativamente. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. mas na ação prática cotidiana. principalmente. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. historiador e. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. onde permaneceu até o final de sua vida. história e economia. ideário. Instituto 18 . Derrotado em 1935. posteriormente. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel.

19 . de onde era originário. Respeitava as questões que a academia pautava. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. conferências e ministrou cursos. Plano de Metas de Juscelino. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. Instituto Brasileiro de Economia. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário.. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. em favor de uma nova humanidade. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. como a Revista de Economia Política. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Gilberto Freyre e Celso Furtado. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. sempre fiel aos seus princípios e valores. Clube dos Economistas. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. sociais e políticos. Sérgio Buarque de Holanda. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. Sociologia e PolíticaIBESP. em especial a Folha de São Paulo. sobretudo os econômicos. Um criativo produtor de idéias. como pelos ideólogos da esquerda nacional. sendo um dos seus patronos. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. nem como pesquisador. e dos maiores jornais do país. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. Assessorias de Vargas e Goulart. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. profundos. Não fez carreira acadêmica nem como docente. Seu livro “A Inflação Brasileira”. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. um clássico do pensamento econômico. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil.

Harrod. como tem sido a lamentável tendência da atualidade... sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro.. com quem aprendeu latim. a começar pelo próprio pai.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. Na economia. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. Juglar. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. o grande jurista brasileiro. Engels. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. Kalecki. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . Robinson. além de outros notáveis. somada à coragem política. “A economia. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. Luxemburg. Fábio Comparato. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. presente na Teoria da Dualidade Básica. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. Keynes. Muito antes de Comparato. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. Schumpeter. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. como costumava dizer. Hilferding. ou com as matemáticas ou com a econometria. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. Marx. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. Kitchin. José Lucas Mourão Rangel.é a sabedoria de tomar decisões”. dificultaram a difusão de sua obra. Kondratieff. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. com quem aprendeu direito. Arimatéia Cisne. portanto. Irmãos & Cia. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. como Smith. . o fio de Ariadne de sua obra. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão.

21 . Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. a inflação brasileira. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. um modo de produção sofisticado e complexo. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. consideradas. sejam econômicos. seus problemas e crises.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. tanto da direita como da esquerda. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. As teses em voga. sem nenhum exagero. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. Para decifrar o país. a dinâmica capitalista. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. livros e monografias. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. Segundo Rangel. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. a questão agrária e o papel do Estado. sociais e políticos. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. quando vem a falecer. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. a seu juízo. precisavam ser revistas criticamente. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. Os processos internos da formação brasileira. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. o princípio organizador de suas idéias. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior.

em especial à sua ciência econômica. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. que teve o Brasil como maior desafio. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. um anunciador corajoso. um decifrador de enigmas. Era. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. sem o menor sucesso. justamente os últimos de sua vida magistral. Nós. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. baseado na geração de empregos. na ética e na justiça social. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. sociologia. à convicção de que o mundo tinha saída.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. mais do que nunca. um pregoeiro destemido e sério. 22 . Sobretudo pelos seus estudantes. mas para poucos”. precisa. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. política. E aí ele nos levava. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. geografia e história deste país. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. em expedições fantásticas. ser rompido. ao contrário. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos.

como as de Ludmila e Ana Rangel. como diria Rossini Corrêa. um relógio e uma reguinha de calcular. sem nenhuma dúvida. como presentes por esta festa. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. José Lucas e Alberto. Celso Augusto. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. Não será surpresa para nós. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. Será. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. ao chegarmos em nossos lares. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. 23 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. Paulo de Jesus. o Velho. um compasso. de beijos e abraços com Aliete. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. Evandro Lucas. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. nestes tempos de canalhice organizada”. uma bússola. observados por Solon Sylvio. se.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 24 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 26 .

É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. Convém deixar claro.3. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. Há. como nacionalismo e desenvolvimentismo. São Luís. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. É preciso reverter esse processo. realmente relevante e inovadora. Procura. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. n. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. É um desafio muito árduo para nós. * Economista do IPES. involuntariamente. contrapondo-se às formulações do ISEB. fato que põem por terra tais tendências. no entanto. 1988. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. pois. v. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. Com efeito. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. 7 27 .2./dez. jul.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. elaborado em período específico da nossa história. por outro lado. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel.

e a singularidade de Ignacio Rangel. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. É. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. São provas dessas modificações estruturais. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. por ato de Ranieri Mazzili. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. nascido do antigo grupo Itatiaia. Criado em 1955. tarefa esta. atribuída exclusivamente ao setor industrial. O que foi possível. diante dessa problemática que 28 . Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. até então centralizada na agricultura. Suas origens. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. por Café Filho. pela própria natureza do sistema econômico mundial. pretensão de grandiloqüência. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. sobretudo. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. Não há assim. como se sabe. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. como é retratado do título. por aqueles diagnósticos. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. enfim. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. Sociologia e Política (IBESP). sem declinar o nível das importações. Com efeito. considerada. no entanto são mais recuadas. em obras como “A Inflação Brasileira”. necessários à expansão industrial. foi extinto em 1964. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida.

já um pouco sintetizadas acima. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. inaugurado nos anos 40. vamos encontrar no seu interior. Assessoria econômica de Vargas. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. associado ao capital nacional. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. envolvendo personagens como Roberto Campos. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. sejam da área estatal. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. como o CNI e a FIESP. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. Para os seus adeptos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. contando com a participação de empreendimentos estatais. divergem do seu enfoque nacionalista. e o capital estrangeiro. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. Do mesmo modo. Tinham uma 29 . estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. Em outro pólo de interpretação. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. envolvendo nacionalistas e liberais. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. predominantes ao longo de seu período de existência. como BNDE. aliados à ausência de planejamento. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. com participação moderada do planejamento estatal. (envolvendo nomes como Celso Furtado. etc. em Prebish. Como é sabido. e Glycon de Paiva. “fonte complementar de poupança”. ampliado e fortalecido. Com efeito.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Américo de Oliveira. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. seguramente a mais significativa. Uma dessas correntes. etc. Lucas Lopes. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). baseava-se no pós-keynesianismo. Rômulo de Almeida. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). CEPAL. sejam aqueles da área privada. Ewaldo Lima. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes.

como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. portanto. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. Ao lado de uma reforma agrária geral. A. produtivos e improdutivos. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. aberta. a qual se perpetuava por erros de política econômica. Na verdade. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. A despeito da polimorfia. Passos Guimarães e Aristóteles Moura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. não viam com simpatia o intervencionismo. Pois o antinacional simboliza o atraso. Ou. ou a indústria versus a agricultura. o arcaico. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. Admitiam. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. contava adeptos como o PCB. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo.. Caio Prado Jr. como o industrial. para a economia de mercado. o subdesenvolvimento. que além do ISEB. como Nelson Werneck Sodré. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). Esta era a corrente socialista. É. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. ainda que nos anos 50. momentos de unidade e de identificação. e. assim. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. por razão desta dicotomia. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. um pouco em cima das teses leninianas. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. a existência de setores dinâmicos e estáticos. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. enfim. o moderno e o urbano. tanto uma quanto outra não eram 30 . fazendo emergir. dentre outras coisas.

de cuja ação todos seriam beneficiados. Robinson e Chamberlim. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. por exemplo. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. a rigor. em termos de filiação teórica. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. Raul Prebish. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). todos eles. De certa maneira. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. discípulos de outras influências como Sraffa. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. Schumpeter e Myrdal. Além. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. Jaguaribe. Eis porque. de evidentemente. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. este último de enorme influência. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). Surgida em fins dos anos 40. aquele que defendia o não-intervencionismo. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. Keynes. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. a CEPAL. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. de outras influências mais próximas. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. J.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. atitude semelhante atinge também o ISEB. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). 31 . Baran e Magdoff) e Raul Prebish. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. através de figuras como Kalecki. assentado em bases nacionais.

sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). dentre outros.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. de maneira eficiente. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. ao imperialismo comercial e financeiro. com incrementos constantes de renda e consumo. Myrdall. a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). proceder o planejamento das mudanças de rumo. não dera os resultados esperados. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. Longe de propiciar vantagens bilaterais. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. ao imperialismo (a rigor. contrária. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. fortemente inspirado nas teses de Nukse. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. promover a reforma agrária. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. que se nutria do modelo agroexportador). A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. o comércio internacional. como especialização e processo técnico. quando necessário. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. 32 . baseado no comércio cambial. também. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL.

envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. já transparentes em outras obras iniciais. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. simultaneamente. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. essencialmente. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. À primeira vista. pelas singularidades de suas análises e concepções. Contudo. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. etc. complexos e globais. Igualando-se a Furtado. Gudin. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. não se pode negar que. publicada primeiramente em 1963. Como Furtado. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. Mas tal não é novidade. como veremos no tópico seguinte. cepalino e isebiano. Defende. 1958). Desses cruzamentos. É como diz Octávio Rodriguez. aqui e ali. Rangel detém-se. davam àquela instituição uma feição progressista. que era. como Furtado. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. Rangel destaca-se. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). gestado monopolista e oligopolista. principalmente. como bom isebiano. respectivamente. 4 E RANGEL. em suas formulações. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . para os anos 40 e 50. em relação às demais. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. é de se supor. é possível encontrar. que está quase sempre presente em todas suas exposições. É justamente em sua obra mais completa e representativa. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. mas não supera os marcos da economia convencional”. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. “o pensamento da CEPAL altera. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. “A Inflação Brasileira”. que ele vai desenvolver essas idéias. segundo alguns analistas.

gerava a maiores graus de capacidade ociosa. segundo sua análise. Assim.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. o que implicava na diminuição da demanda. por exemplo. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). até nutrir aspiral inflacionária. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. implicando em preços elevados e. 34 . Com efeito. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. tinham. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). uma vez que a massa salarial tendia para baixo. forma-se um grande exército industrial de reserva. Por seu turno. em uma situação como esta. em detrimento do consumo de industrializados. implicando em taxas incrementais de exploração. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. 1962). seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. por outro lado. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. principalmente pelas massas de salários). elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. logicamente. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. Com isso. a curtos e médios prazos. Furtado). e de outro. assim. em função de integração entre os setores primários e secundários. A rigor. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. Isto porque. o que implicaria. Os estruturalistas (dentre eles. E mais. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. Assim. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista.

uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. Rangel. logicamente. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional.). obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. terrenos. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. o que. Como dissemos no começo. etc. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. a antevisão de sua análise. um pouco ao estilo cepalino. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. Ou seja. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . discordava desse ponto de vista. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). Rangel reafirmava. podendo gerar mais emprego. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. nessa direção. chegando a dizer que. confirma. Trabalhando com as teses estruturalistas. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. mais consumo/demanda. bens duráveis. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. contudo. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. pelo rumo. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. mais renda e. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. como estamos vendo. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. onde as taxas de juros eram baixas. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. por força de seu próprio atraso. a qual poderia até se agravar. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. outra vez.

isebiano quando desenvolvemos. obviamente. principalmente em “A Inflação Brasileira”.10). É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. um caso específico de desenvolvimento . e mais ainda. obviamente. ora pode ser.o Brasileiro. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. ou as de Caio Prado Jr. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. 4. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. Homem de sua época. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. do desenvolvimento capitalista. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. na sua maneira de dizer. além. sobretudo. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. publicado em 1960. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. da sua relação com a sociedade e.. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. no essencial o desenvolvimento rangeliano. pelo ISEB. suas causas e fatores impeditivos. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. nesta segunda metade do século XX. É. a seguir. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. por encerrar especificidades. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. e de Werneck Sodré. na verdade. para um “mundo só”. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. Contudo há uma 36 . Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. Eis porque. sem ser. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. Logo no início de ROEN. trata-se. Segundo seu ponto de vista. evidentemente.

afirmava ele. decorrência direta do progresso tecnológico. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. comprováveis ao longo do texto. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. para viabilizar o desenvolvimento. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. Começa por afirmar. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. Mais adiante. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. retomando questão anterior. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. Sob o império dessas determinações. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. através da qual se daria a superação do atraso existente. Em ROEN. sintonizado com seu método da análise. Sedimenta essas suas observações. como em outros 37 . gás xisto ou eletro-siderurgia. asseverava o nosso autor. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. por exemplo). quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. Rangel. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. mirando-se no próprio exemplo mundial. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. fatalmente. todavia. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. Conclui afirmando que nesse caso. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. tem suas raízes em concepções smithianas. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. à internacionalização dos fatores produtivos.

em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. no principal fator de unidade e de soberania. pelo menos naquele estágio da economia brasileira.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. em vez de eliminar. portanto. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. Ou seja. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. Sua visão do planejamento. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. Assim para o pensamento rangeliano. Ouçamo-lo: “. e simultaneamente. Segundo ele. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. não é tecnocrática. Isto posto. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. mas para 38 . a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. criticando a posição das correntes cosmopolitas. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. Entendo-o. capaz de reverter àquela perspectiva. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem.. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. as disparidades inter-regionais. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. Prosseguindo suas análises. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. porque não era para centralizar.17).14).. no pensamento de Rangel. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias.

ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. ou mesmo. nos momentos de contração às importações. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. E isto ocorreria. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. Estas colocações não significam. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . Segundo ele. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. Com efeito. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. segundo a análise rangeliana. os seus conceitos para cada uma delas). Chegavam mesmo a afirmar que. do que contradição. além de agravar os problemas de ociosidade. Assim. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. mas consolidação das soberanias nacionais. Este seria um procedimento inteiramente condenável.21). em função de importação efetivada anteriormente. ao invés de eliminar. tem havido sempre mais fusão de classe. contudo. as barreiras nacionais. Para destacar a relevância de suas formulações. na história do Brasil. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. provocados por eventuais crises de pagamentos. Conclui dizendo que. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. Feitas essas considerações. Não poupa os empresários. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. soberania e planejamento (conforme. mas. evidentemente. pois. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. alianças de classes. sobretudo. que ela deveria existir.

a ulterior expansão do produto nacional. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. a seu ver. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. assim. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. prescindindo-se. para vencer esse dilema. Apontava. Para ele. dos quais depende. em grande parte. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. o que. cuja utilização. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção. aliás. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. o volume de seus investimentos.”) (p. Sobre os investimentos. Não negará. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras..” (p. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos.43). ou na renúncia ao desenvolvimento. 41).. ou a compressão do consumo. 40 .38). assim. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico.38). do desenvolvimento” (p. A proposta de Rangel. além de melhorar seus padrões de consumo. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. isto é. pelo emprego de indústria de bens de consumo. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. aumentar o que é mais importante ainda. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. segundo ele. Nesse sentido. mais adiante. pois. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. do capital estrangeiro. sem que ocorresse a compressão do consumo. que tanto poderia obter bens de produção. renuncia a um adicional de riqueza que poderia.

racionais e equilibrados. que em ROEN. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. simplifica o problema. guiada pela luz do planejamento. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. enfim. começo dos anos 60. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. pois. A rigor. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. lacunar. como o da ociosidade. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. Sem contar os riscos do paroxismo.Isto é uma coisa. Embora não fale claramente. que.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. os segundos são ufanísticos e em geral. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. de um lado. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. a nosso ver. Assim. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. curiosamente) tenha que passar por ali. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. ideológicos. invariavelmente. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. se. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. de uma hora para outra. de outro. representam os pontos de estrangulamentos básicos. não se sustentam integralmente. 41 . por exemplo. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. por estarem legitimadas em fontes eruditas). tratam a produção isebiana sem a menor competência. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. não contemplam a matéria econômica de per si. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. Os primeiros são mais rigorosos. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. liderado pela industrialização.

Não é nenhuma heresia admitir-se. no que escamotiava a luta de classes. Não queremos. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. da matéria econômica. evidentemente. por exemplo. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. Não devemos esquecer que. analistas do ISEB. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. é ilustrativo a esse respeito. como muitos estudos parecem indicar. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. acima de tudo. O debate travado em fins da década de 70. enquanto órgão produtor de cultura especializada. por exemplo. além dessas preocupações. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . mas também a alguns outros da escola paulista. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). fazia mistificação ideológica. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. são mais progressistas do que muitos pensam. Afinal. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. seria crítica da ideologia. entre Lamounier e seus colegas paulistas. Não são simples mistificações da realidade. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. Segundo Lamounier. consciência das desigualdades. Era por isso mesmo. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. Eram também. Acredita que. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. para os anos 50. que as suas propostas e análises da realidade nacional. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. continentais e mundiais.

1978. TOLEDO. Gilberto. Hélio. Marilena. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro: ISEB. O ISEB: notas à margem de um debate. Ignacio. Rio de Janeiro: Poli/Vozes. comme proposition pour le développment brésilien . Ideologia e mobilização popular. Rio de Janeiro: ISEB. 43 . 1984. FRANCO. Rio de Janeiro: Paz e Terra. v. 1982. PAIM. Celso. MANTEGA. 1957. 1979. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . A inflação brasileira. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. 1984. Rio de Janeiro: Forense. 1984. 1960. LAMOUNIER. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. Bolívar. CHAUÍ. (Textos Brasileiros de Economia. Caio Navarro de. JAGUARIBE. (Estudos Brasileiros. FURTADO. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. A economia política brasileira. Guido. 1960.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. 9 (Ciências Humanas). 28). Rio de Janeiro: ISEB. Miriam Limoeiro. (Ensaios. A Questão Nordeste. 1981. 1978. São Paulo: Discurso n. Marilena. Seminários. CHAUÍ.14). O nacionalismo na atualidade brasileira. Rio de Janeiro: ISEB. ________. São Paulo: Brasiliense. 1958. Recursos ociosos na economia nacional. Maria Sylvia de Carvalho. São Paulo: Brasiliense. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. ISEB: fábrica de ideologias. v. Octávio. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. RODRIGUEZ. Industrialização e economia natural.1) RANGEL.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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de São Paulo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel./v. através de levantamentos em outras fontes. tanto em extensão quanto em conteúdo. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. de “Literatura Econômica”. São Luís. no IBESP. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. de 1957. pelo ISEB. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. elaborada em 1953. de 1954. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. cuja primeira edição é de 1959. n. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. O título deste texto é pretensioso. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. 47 . ampliada e atualizada pelo autor deste texto. no Rio. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. tendo merecido edição recente da Editora Bienal.6. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. 1989. monografia de conclusão de curso na CEPAL. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. se conseguir. no Brasil. sobretudo. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. Na verdade.4. conferências pronunciadas em 1955. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957.2. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. v./dez. Isto porque.2. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. em homenagem a Ignacio Rangel.ENE. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. jul. correspondente ao período 1955-1985. este é um texto sucinto que se propõe. n.

a UFMG. Boyer. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. Cadernos do Nosso Tempo. reeditado posteriormente pela Zahar. originalmente de 1963. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. Inglaterra. atualmente na 3ª edição. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. no Rio de Janeiro-RJ. publicada no Rio pelo BNDE. de R. 48 . Estudos CEBRAP.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. publicado pelo CONDEPE. estando próximo da 10ª edição. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. Revista do BNDE. abordando a economia brasileira durante o regime militar. publicação pela Civilização.C. editado pelo Tempo Brasileiro. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. [12] “Ciclo. São Paulo. [10] “A Inflação Brasileira”. período de 1983 a 1987. no ISEB. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. tais como Digesto Econômico. está arrolada. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. de Paris. de 1982. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. de 1987. em cuja tese de doutorado. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. Rio de Janeiro-RJ. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. Recife-PE. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. de 1959. publicada pela HUCITEC. em 1960. no campo da Economia e das Ciências Sociais. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). [7] trabalhos de fôlego. Brasiliense e Bienal. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Desenvolvimento e Conjuntura. Revista Agrária. Rio (RJ). reunião de artigos. de 1985. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. reunindo textos selecionados. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. Tecnologia e Crescimento”. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. de 1961. publicado pela Editora Bienal. defendida na Universidade de Leicester. Revista da Civilização Brasileira.J.

Isto posto. Segundo nossos dados. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. 1984 (24 artigos). seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. 1988 (15 artigos). relatórios técnicos. de Smith. entre 1983 e 1990. nos últimos 10 anos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. originalmente. entrevistas. interessadas em ouvir suas conferências. onde tem veiculado sua produção. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. A despeito de suas proporções consideráveis. de Keynes. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. ainda não foi inteiramente trabalhada. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. palestras e depoimentos. que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. com alguns retoques. 1990 (23 artigos). em seu trabalho citado. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. 1985 (83 artigos). Em 1957. em 1953. Isto longe de desmerecer. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. estudos e projetos. 1987 (32 artigos). São artigos. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. São pareceres. 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. Inscreve-se como uma resposta 49 . Quando redigiu. Rangel publicou 247 artigos. a jornais e revistas especializadas em economia. perfazendo. Não menos volumosa é sua contribuição. ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. foi publicada pela primeira vez. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. em sua extensividade e profundidade. só na Folha. 1989 (39 artigos). a saber: 1983 (25 artigos). e até de universidades estrangeiras. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. O que constitui sem dúvida. ensaios. a obra de Ignacio Rangel. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). e em termos gerais. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. podemos dizer. 1986 (26 artigos). entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília.

dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. out. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. pela sua densidade analítica. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. político. Tolmasquim. no sentido da superação do capitalismo. que articula as teorias dos ciclos./dez. apoiados em Kondratieff. o da “dialética da ociosidade”.. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). o qual. Davidoff Cruz. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. com o qual se definia o 50 . com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. contida em seu famoso livro do mesmo nome. ainda hoje. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. inquestionavelmente. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. [3] Tese da Inflação Brasileira. o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. é o maior dos pioneiros. Para efeitos analíticos. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. [4] Tese da Questão Agrária. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. Em 1981. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. transformada. Rangel. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. Mantega. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. no Brasil. desenvolve. com extraordinária clareza. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. como Monteiro de Castro et Belshowsky. social.

no Rio de Janeiro e Agronomia. Tolmasquim (op. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. principalmente. participa em Santiago. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. na capital do Maranhão. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. com rigor.. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro.) afirma. História e Economia. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. atuando. cit. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. Pela envergadura do seu poder criador. do qual foi presidente no início dos anos 80. estuda. Dono de uma obra monumental. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. um ano após seu ingresso no BNDE. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. Em 1954. ao longo dos últimos 30 anos. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. Castro et Bielchowsky afirmam. De forma autodidata. historiador e. onde ocupou a função de membro consultivo. Cursou Direito na Faculdade de São Luís.. “Ignacio Rangel se tornou. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. bem poucos. pelo Instituto Brasileiro de Economia. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. Chile. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. original e inovadora. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. Seu lado mais conhecido. textualmente: . Gudim ou Conceição Tavares. posteriormente como jurista. que o motivo 51 . convictamente. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. como economista. em Mirador (MA). É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”.

Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. que. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. como o de tornar público o seu pensamento. fina ironia. Há o Rangel pensador. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. 8 anos de “domicílio coacto”. igualmente. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. Fora do setor público.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. a teoria da inflação. mas. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. Que. Como conseqüência do levante de 1935. a vários ministérios e governos estaduais. as análises sobre reserva de mercado. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. do movimento de 8 de outubro de 1930. as propostas pioneiras à época. ricas metáforas. vêm recheadas de erudição histórica. Com apenas 16 anos. em seguida. Há o Rangel militante. Em meados daquela década integrou a ANL. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. de repente. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. no clube dos economistas e em centros universitários. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. Suas análises. participou. autêntico e destemido. de domicilio forçado em São Luís. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. pegou dois anos de prisão e. Sua face reconhecida. mas pouco destacada. onde chefiou o Departamento de Economia. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. além do assessoramento a Presidência da República. na introdução de seu livro “Economia: 52 . dono de um estilo invejável. O criador original. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. Aqui também sua biografia é expressiva. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. sua militância foi também relevante no ISEB. um escritor refinado. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. como o militante político. O pioneiro. em São Luís. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. quase sempre.

vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. vem. O Rangel funcionário público. Há ainda um Rangel muito especial. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. preferindo semear na planície. Neste particular. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. no dia em que completava seus 50 anos. como ele mesmo confessaria. de vida. Rangel. quando era para dizer e disse não. O Rangel profeta. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. recusou o convite. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. voz que muitos escutam ou querem ouvir. vinculados ao IPES. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. aliás. Instado pelo então presidente Goulart. Em 1989. Com efeito. hoje Banco Central. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . Há ainda o Rangel missionário. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. Além disso. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. Rangel em relação ao Maranhão. O Rangel conselheiro.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. O cidadão que soube dizer sim. quando foi preciso. quebrando esse adágio. honrado e agradecido. a SUMOC. aos poucos. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. do IPES. desde o início dos anos 80. Já de algum tempo. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. envolvendo UFMA. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado.

verdadeiramente.1951. através de livros. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. Aplausos companheiros. os merecem! Sumary In this article. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. de 13. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho.. Oportuna. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. Em sua última visita a São Luís. Aplausos que eles. modernização e democracia. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. porque Rangel é um otimista. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. entre modesto e orgulhoso. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. Sua marca é o nascimento e o humanismo. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. magistralmente.411. através da Secretaria de Cultura. sim. a produção e a obra do economista maranhense. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. Finalmente o dia de hoje. o Dr. falando a um grupo de admiradores. minha voz faz eco”! Faz. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. fez e continuará fazendo. 54 . porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. Feliz. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. Ao seu lado. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. enfim. ouvi-lo dizer satisfeito. desenvolvimento econômico e justiça social. sim. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. cujo sentido é o de difundir. “Parece que. como bálsamo e esteio. Crê no país e em seu povo. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth.08.. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”.

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como era natural que o fizessem. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. estes usaram sua liberdade. 1. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. O navio a vapor viria romper esse isolamento. do que do Rio de Janeiro. Um dos fundadores do BNDES. 4. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. Mas significava que a economia cearense. Por outras palavras. inclusive. jan. Assim. ou melhor. Quase isolado do resto do Brasil. Quando chegou a 13 de maio. um modo mais avançado de produção. * 9 57 . Com efeito. libertados os cativos. desde os tempos do império. Economista. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. ao comunismo primitivo. Não por acaso. uma das províncias mais ricas do Império. São Luís. um modo superior de produção. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. começo dos anos 60. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. não se havia cumprido no Maranhão. Não a passagem ao feudalismo. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. O Maranhão. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. mas o retrocesso à tarde e à cubata. n.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. Autor do clássico A Inflação Brasileira. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. não raro. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. O Maranhão foi como é sabido. mas um passo atrás. Mas restava outro fato. para o Maranhão. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente./jun. era a Atenas Brasileira. os quais eram. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. de fato. e a Amazônia. que era terra de ninguém. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. v. já o vizinho Ceará havia. isto é. contrabandeados para o Sul e. 1989. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional.

que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. voltaria a começar a crescer. A epopéia rodoviária. entraram em decadência. demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. 12 e 10 fábricas. especialmente em São Luís. meias e cânhamo. Queimada a mata uma vez. É certo que. Assim. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. O migrante do 58 . concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. no Nordeste. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. Demograficamente. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. Entrementes. somente em 1960. inclusive. somente. Turiaçu e. Era outro processo que se abria. no corpo do Brasil. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. com a indústria do Nordeste oriental. raros no Brasil de então. Além das fábricas de fiação e tecelagem. A seca de 1958. Especialmente a Guiana Maranhense. segundo o Prof. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. quebrando nosso isolamento dourado. Com efeito. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . no Maranhão).. isto é. além de flagelados nordestinos. Seguindo-se a Minas Gerais. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. compensou com sobras essa perda. Assim. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. nessa ordem tinham 15. entrou a caminhar.a Abolição representava um formidável passo à frente. deu um golpe fatal nesse parque industrial. da Bahia e de São Paulo que. Mas o surto agrícola. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. Burgos ricos. na composição da mão-de-obra escrava. nas cinzas da velha mata. a área ocidental do Estado. inclusive de lã. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. etc. para a préhistória. aí por 1895. suponho Engenho Central. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. 14. Somente por meados dos anos 60. pela ferrovia São Luís-Teresina. como Alcântara. a passos largos.

o que implicava numa colossal economia de material. O Porto do Itaqui. que é a penetração do capitalismo no campo. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. Na seqüência natural deste. que estava desocupado. envolvendo todo o município. conversando sobre esse processo – na primeira fase. sob. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. Lembro-me de que. Essa utopia. não raro emitia outro parecer. fileiras de mamona. não estava fora de cogitações. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. Mas. ao que ouvi. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. Bacabal é hoje um município pecuarista. para encerrar essas notas. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental. Os vastos campos da Baixada Maranhense. Aí por princípios dos anos 60. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. penetrara no Maranhão. sendo Presidente da República. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. são as áreas problemas do país. muito mais gregário. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. eu. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. que eu o saiba não teve seguimento e. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. na direção geral 59 . Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. com água dos rios que formam o Golfão. havendo cruzado o Piauí. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. sociologicamente. este último expelido pelo boi. isto é. toda a área por uma única cerca. que começava na Paraíba e. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. mas protegida. O surgimento do Estado do Tocantins. não deve ser estranho a esse processo. atendendo a uma ordem do chefe do governo. em minha recente passagem por São Luís. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. a caatinga não está. em nossos dias. porque ao contrário do cerrado. Vi roçados nordestinos. que havia em seu Estado. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. Uma cerca única. depois. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. Um pouco mais demoradamente. Jânio Quadros.

em vez de indústria leve. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. Ora. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. somente pensando GRANDE. que não impediram o lançamento da BAMUR. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. nada menos. que Carajás. respectivamente. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. e em Vladivostok.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. é indústria pesada o que teremos. (A menos que. a saber. esteja preferindo. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. Sabemos. para Açailândia. com antracite. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. Por outro lado. hoje. Com uma peculiaridade: que. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. as ferrovias canadense e transiberiana. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. isto é. a Floresta Amazônica. tanto mais quanto. poderá confluir o gás natural amazônico). aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. Minha recente viagem ao Maranhão . a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. Há muito que sabemos que.maio/89 . combinadas. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. Como meio de transporte – excluído o duto. do Rio Fresco. na direção geral de Callao. Hoje. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. 60 . Embora geograficamente situado no Pará. apenas começando. Ora. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. herdados do antigo latifúndio feudal.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo. O Brasil unifica-se. Os quais nos apontam uma posição de elite. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. 61 . cada vez mais energicamente e. e imperativos geo-econômicos. depuis lês temps de l´empire.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 62 .

BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

2/ v. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. responsáveis pelo choque e. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. Em Arbelas. Em nossos tempos. 2. ante o poder de fogo da infantaria. revelaram-se inanes. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. entre uma guerra e outra. não para o sitiado. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. Alexandre colocou a falange macedônica. 65 . pela imposição da guerra de movimento. escalonados em profundidade. n. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. a tecnologia. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. contra Dario III. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. Ainda na antiguidade. dotando a infantaria de armamento leve. deixar-se cercar pelo inimigo. provavelmente aprendida por Felipe.c. na guerra como na economia . de Epaminondas. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. ganha por Aníbal. contra fogo. culminação da arte militar helênica. Economista. Esse dispositivo buscava. porque. Os esquadrões de cavalaria. e Canas (216 a. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. jul.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. como vem acontecendo. portanto. n. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. São Luís. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. ao longo da história. Refiro-me a Canas. e. 6. de caso pensado./dez. Paulo Emilio. contra multidões asiáticas incontáveis. v. 4. Ao contrário de grandes exércitos.c. da Pérsia. prenunciando guerra de movimento. Era uma verdadeira fortaleza.) ganha por Alexandre.). franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. contra o cônsul romano Paulo Emilio. travou-se./1989. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. com a propriedade de poder mover-se. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. em campo. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES.

decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. no exemplo de Alexandre. nem pedra de fundo. Em Arbelas. Assim. o quadro da tecnologia inverteu-se. já com as tropas romanas em movimento. o qual teve que bater-se em retirada. nas alas. saiu mal aos romanos. sendo mister resistir a este com artilharia leve. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. o expediente por muito brilhante que parecesse. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. inspirado. isto é. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. formando um saco. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. convertido em saco. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. nem. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. “by proxy”. em campo aberto . sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. lança. nem flexa. do tipo Arbelas. por interpostas pessoas. levaram a resultados diametralmente opostos. Com efeito. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. nos versos do nosso grande Bilac. com os Estados Unidos à frente. sob a forma de “blitzkrieg”. certeza arrecadou.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. como os nazistas depois de Stalingrado. que as alas de elite cartaginesas fecharam. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. Assim. Como em Canas. o imperialismo. exposta ao fogo aéreo . duas batalhas travadas com a mesma inspiração. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. Já não era mais assim no final do conflito. naturalmente. O tanque. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. de pouca confiança. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . por ter feito. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. não se perdia. ordenou a inversão do próprio dispositivo. porque Aníbal. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. Ora. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. em última instância. em Arbelas. plausivelmente em nossos dias. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. Não há como não pensar nessa possibilidade. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada.

explicável menos pelo poder da blindagem soviética. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. Paradoxalmente. nas batalhas passadas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. porém. 67 . como Alexandre em Arbelas. isto é. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. no futuro. . uma “blitz”. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. Em Kursk a maior batalha da história. não fez senão estruturarse. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. mas no fundo.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. ao qual faltava apenas amarrar a boca. Ora. O que nos levaria. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. Ora. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. as batalhas típicas do último conflito mundial. dizíamos. Para isso. não obstante o terrível preço pago na tentativa. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. no caso da indústria bélica. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. é a mesma coisa – esse meio século. como seria de esperar-se. em vez de. a história não parou aí. O meio século que está por concluir-se. a buscar Arbelas e não Canas. de então para cá. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. no campo de batalha. O exército soviético suspendera sua ofensiva. nas condições presentes. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. O cerco. não se consumaram. Ora. e consolidada em Stalingrado e Kursk. seguiu-se uma guerra de movimento. como vimos essas batalhas. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. depois de Stalingrado. que os nazistas não lograram romper. que os nazistas não haviam aprendido a lição. pelos russos. até Berlim. Em conseqüência. na espécie. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. com defesas escalonadas em profundidade. que justifiquem a produção em série. mesmo depois de Kursk. Com efeito. agora. Sabemos. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. ou ao contrário. com os russos metidos num saco. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos.

mas que. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. Os norteamericanos. porque tudo se faz em sua intenção. como aquela que. é como se já tivesse acontecido. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. no mínimo. do ponto de vista da arte da guerra. não bombardeiros ainda modernos. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. isto é. foram eles os perdedores. por exemplo. por equipamentos inovadores. uma temeridade. que talvez não aconteça nunca. são simples e toscos. Na Coréia. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. Nem se ganham. apesar dos gorbatchovos. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. árcadios. não problemas vindouros ou. Assim. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. um pequeno avião. Ninguém. consequentemente. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . nem as batalhas econômicas nem. Quando não uma tolice. não basta para alterar o quadro histórico básico. escondê-lo consigo. para variar. O Pentágono e. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. porque “resolvem” problemas pretéritos. os soviéticos deram aos coreanos. inclusive em nossos dias. ao que se sabe. barato (porque produzido em série). novíssimos. mas ao contrário do Pentágono. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. a fortiori. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. mas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. como o noticiário nos está mostrando. ou num simples buraco. mas o modesto MIG-15. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. nesse Estado Maior. ainda para refinar-se e. o Estado-Maior Soviético. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. todos os dias. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. Por isso as batalhas da história são ganhas. geralmente. na batalha de Canas. sequer correntes. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. tampouco. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. que não tiveram tempo. numa trincheira. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. ao que parece. Na Guerra da Coréia. como todos devem estar lembrados. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. mas. os vencidos. o Estado-Maior Soviético. de fato. por isso.

nem mesmo na minúscula Nicarágua. Como foi na Coréia. uma versão tosca de armamento anti-tanque. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. não tanques “ainda mais modernos”. E. ainda nem a bomba atômica. no Camboja. tratava-se de um foguete. eventualmente. no Vietnã. de onde não mais se moveram. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. que não podem. Ao que noticiou a imprensa. evidentemente. quando se trata de partir para a terceira. Para vencê-la. surgiram as armas nucleares soviéticas. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. assim. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. no anterior conflito mundial. o MIG-15. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. como um gigantesco produtor de sucata. mas sucata em todo caso. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. no paralelo 38. depois de chegarem. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. para as posições de partida. para ganhar guerras. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. havia ou quase. “refinada”. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. acontecido com as armas químicas e biológicas.. a missão estratégica desse aparelho. para matar gente. é que este está excelentemente preparado para ganhar. Como. Ora. isto é. “reluzente”. na fronteira com a Sibéria. Não para aniquilar exércitos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. como às vezes é mister. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. tiveram que bater em retirada. proteger-se por detrás do escudo 69 . pois já invadira três vezes. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. estava cumprida quando. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. surgido no estágio final da segunda grande guerra. no Afeganistão. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. serviços públicos e monumentos. como disse o nosso Brigadeiro Piva. A Segunda Grande Guerra. por causa do seu refinamento de fabricação. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. nem a bomba de hidrogênio. pouco antes da Guerra da Coréia. isso não seria fácil.. seria mister ocupar o Iraque e. em “blitz” ao Rio Yalú. já provado antes. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. no passado século-e-meio. Uma sucata “moderna”. Mas é apanhado de surpresa.

6 % ao ano para a União Soviética. ou quase. não apenas no campo econômico. Os homens e mulheres que. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. ainda mais. ou 4. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. falam em nome da ciência econômica. carregado de significado. tivemos a emergência do fascismo. o mago das finanças de Hitler. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. a humanidade ingressou. ou ciclo longo: o 4º. o caso do Iraque. a taxa média de 70 .6% ao ano. para a América Latina. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. para o Japão. atualmente. na Alemanha nazista. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. como 100.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. que América Latina (inclusive Brasil) e. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. muito mais. são jovens e. nos concílios do estado. em 1973. O índice para a América do Norte passou a 305. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. porque atravessam. para comparação com os dados supra. porque às vezes o podem. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. e o Plano Quadrienal. Von Schacth. ou 7. no decênio final da dita fase recessiva. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. nos Estados Unidos. para o Mercado Comum Europeu. com essa depressão. ou 6. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. Com a paz tivemos. Ou na medida em que não possam. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. Os homens de minha geração. Ou a recíproca é que foi verdadeira. pelo menos ao primeiro exame. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. no Brasil. Em 1973. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. os economistas.2% ao ano. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. portanto.0% ao ano. 449. como está sendo. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). que estão beirando os oitenta. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. isto é. é tempo de que nós. Ora. num esforço ligado ao nome de Keynes. ou próspera do 3º Kondratiev. Com efeito. Nos primeiros anos do decênio de 20. do Dr. 550.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. estão vivendo a sua segunda fase “b”. na presente guerra.6% ao ano. aparentemente. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. O armamentismo e a própria guerra. abriu-se. de quebra. nos cinco lustros da fase “a”. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. simultaneamente.

isto é. promovida pelo Eixo Alemanha. O Mercado Comum Europeu. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. o da União Soviética. Para começar. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. isto é. o do Japão. passou de 2. Estamos. foi tragédia. do antigo mundo socialista. naturalmente. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. e um renascimento do fascismo. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz.4% do ano. da primeira vez. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. o Iraque. Apenas. Em média. a 3.1% ao ano.3%. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. disse ele aproximadamente. ou melhor. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. Ora. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag.2 %. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. Afinal. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. deram-nos um modelo de 71 . os valores caíram a níveis negativos. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. a 3. e Japão de nossa época é flagrante. Há meio século. do ponto de vista econômico. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. de fato. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. a saber: uma crise econômica profunda. uma guerra mundial aparentemente em marcha. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito.5% ao ano. não há como pensar nisso. Passando o conflito. a 1. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. quando vemos essa coalizão de 28 países. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. e. E Jorge Dimitrov. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. porque no lustro intermédio. “Uma nova vaga fascista. segundo o qual a história dificilmente se repete. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. Mas também. o crescimento industrial da América do Norte. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. Itália. o do Brasil. está em gestação”.6% ao ano. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. caiu a 4. esses temores foram esquecidos.

alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. nem. isto é. promovendo um direito trabalhista que. Naquele tempo. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. por exemplo. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. num enquadramento francamente corporativo. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. para o dito desfecho. vale dizer. a construção do capitalismo industrial aqui –. do “Golfo”. comandante do exército vietnamita que. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. nossa experiência “collorida” de fascismo. Ora. Isto é. Em suma. 72 . o general Giap. está fazendo eco ao surto fascista mundial. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. supostamente invencível. não há como pensar nisso. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. corporativas. respondeu que aquele fora um fato complexo. Só para exemplificar. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. como na França de 1789. não tem nenhuma grandeza. Somente mais tarde. de Mussolini. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. mais que. e calcado nas instituições medievais. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. O Brasil. agora nos chegam. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. os homens de esquerda. Muito mais tarde. nós. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. Soares Pereira. – Do que jamais me arrependi. ao subir ao poder. difícil de explicar. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. Com a mesma diferença. porém. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. como naquele tempo. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal.

fazendo jus a toda minha lealdade. Quando da Revolução de 30.8 vezes. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. fizme conspirador e soldado voluntário. cresceu 26. que temos o dever de preservar. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars.9 vezes. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. Com efeito. a do Japão. eu fora getulista por um breve momento. isto é. a do mundo capitalista. prócer aliancista maranhense. francamente parecera temerária. 13. no mesmo período 23. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. o mais próspero dos países capitalistas. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. dei razão. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. com escassos 16 anos. que aí temos. o Brasil e a União Soviética. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. e como o epi-fenômeno que é. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. É esta formidável potência. Para meu conhecimento. batendo todos os recordes.9 vezes.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. ao primeiro exame. havia sido meu comandante. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. Conto estas coisas. 6. da recessão e do desemprego. que estivemos construindo. 73 . ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. On the contrary of big armys. consequentemente. procurando corroborar a ação de meu pai. – Getúlio.5 vezes. como chefe da revolução. somente dois países.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

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batizaria como “crescimiento hacia adentro”. a depressão criasse raízes. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. mas viúva de um comerciante português. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. São Luís. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. da firma Martins e Cia. para ficar. no curso de inglês./dez. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. Silveira – aí por 1940. nada sabiam de Direito e. Mas não fizemos isso. fiz-me um economista fora de série.6. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. n. v.2. no período. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. jul. sobretudo. 1989 Economista. preparou-me para entender o que.4./v. Quando me despedi de Mrs. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. Mas nunca encontrei ninguém. naquele tempo. e o segundo. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. n2. a começar por Rui Costa Fernandes. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. latim. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. haveríamos deixado que. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. Irmãos e Cia. Outros mestres assim. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. radicada em São Luís.. Minha experiência. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. que aprendesse mais depressa do que tu –. em São Luís – dela ouvi este julgamento. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. Imagine-se que. ao lado de João Vasconcelos Martins. diretor-presidente e chefe do escritório. Talvez por estas e outras. como em muitos outros países. secretário geral da CEPAL. 77 . sobre meu desempenho. na firma Martins. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu.

mas de homens que. dentro e fora do país. esquina com a travessa do teatro. Entretanto. como sei ser o seu caso. então. a implantação de um Departamento moderno. por essa via. isto é. nos três decênios 1956-86. nos quadros da reserva de mercado. com uma receita pública cuja origem era afinal. de um modo geral. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. como a União Soviética. nossa produção de eletricidade cresceu 12. Não foi por acaso que. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido.5 vezes.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. eu já sabia. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. a exemplo de Tucuruí. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. não houvéssemos criado condições de investimento. uma receita estatal que. isso me pareceu impraticável. Noutros termos. na época. não preciso de aduladores. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. na velha escola da Rua do Sol. – Como assim. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. Rangel. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. no período. a receita pública com a qual o 78 . supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. mais do que o dobro da média mundial. sem outra garantia senão o aval do tesouro. que não teriam acontecido se. a renda gerada pelos investimentos privados. Sem isso. visto como. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. A equipe conhecia esse mecanismo. pelo menos durante algum tempo. Araújo Costa. diretamente. possibilitariam coisas ainda impensáveis. Ao primeiro exame. opus-me ao esquema da Eletrobrás. o que constituiria um absurdo. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. Ora. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. até por que eu próprio lhe havia explicado. Isso significava que. a eletrificação – e. Com efeito. sendo elas próprias parte do Estado.

Parece predominar. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. para a empresa. a renda nacional poderá crescer. nas condições do emprego desse fator congênere. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. isto é. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. estaria surgindo ex nihilo. 79 . sob certo ponto de vista. Naquele tempo. contrabalanceado por outro. atravessamos uma crise. como abri-las. a mesma. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. o custo de produção. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. as condições persistem. isto é. hoje. mesmo que. mas teria sido pura ilusão esperar que. não obstante o atraso tecnológico. Noutros termos. dos países mais avançados do mundo. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. Naquele tempo. do nada. Com efeito. como então. Ora. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. as reservas retardatárias. para isso. Entretanto. no Brasil. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. se um fator de produção está desempregado. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. no fundamental. a saber: hoje. com o resto da economia mundial. Como venho insistindo. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. Hoje.

while.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection. it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology. 80 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

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dias 13 de junho de 1988. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. bela viola. sabendo novamente ser a República. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. Tanto quanto possível. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional .. A móvel manhã quente e derretida. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA.. Mal toquei o aparelho. pão bolorento. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. pois.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. disputando com o ponteiro dos segundos: água. escova. prossegui. a chave girando na porta. aquela voz inconfundível. creme. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. barba. um morto querido – meu tio. disparou: – “Alô. lâmina. como vais? Quem está falando é Rangel. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. como me pus de pé. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. quando escutei o alarido do telefone. por dentro. por fora. dentes. desimportante. 12 83 . não sou amigo do Rei. mais do que ver. aliás. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. cueca. não recordo se na Globo ou na Manchete. varava as persianas do pequeno apartamento. rítmico. Mais depressa. Voltei para atendê-lo. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir. camisa. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. Estava de saída. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. trazendo o seu cortejo de surpresas. a completar seis anos do dia em que foi. com a sua linguagem trêfega. Não só acordei. Quase pronto e pensando no trânsito. Membro da Academia Brasiliense de Letras.. tragicamente. sabonete.. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. calça. mesmo estando em Pasárgada. Acordar acordei.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. toalha. coisa. carregando comigo. Rossini. Eu estou aqui em Brasília. o jornal político.

Muitos foram meus estagiários. e ela. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti..” – Que bom.E tive que parar um pouco e ficar. – Sei. A bem da verdade. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia.” – Que pena.No Hotel Nacional? Não..“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil.. dando assistência para a minha filha Liudmila.. Vai-se levando..Então. é uma espécie de banco legal. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil. Vi este pessoal todo entrar no Banco. – “. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra. aqui no Hotel” – . Tenho trabalhado muito. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência..” 84 . Perdi o meu genro domingo. nosso ponto de encontro de sempre. no mais. e hoje há gente ocupando altos postos. tudo bem. saber que eu estou velho.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou .” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. mas não estou largado. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. ainda não tenho. Volto hoje mesmo. às 15h. junto com Aliette. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas. – Perdeu? Que pena. algumas tristes. É uma grande alegria para mim. cargos de direção etc.. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita.. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. que eu ajudei a formar.... – “É isto mesmo. no BNDES. eu deixo o Hotel. que está comigo.. o encontra”. quando vence a diária. prontamente. Professor! – “Porém... de tarde.

. – “Vai trabalhar. No aeroporto? Bem. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. De qualquer maneira.” – Até mais.. Um abraço para ti. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô.. – “Até mais. Ele realmente merece uma pesquisa. de qualquer jeito.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. Eu gostava muito dele. ao qual não basta desgostar do comunismo.” – . na chamada Intentona Comunista. a terceira convidada solicitou 85 . telefonei para uma convidada minha. Professor. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. Tanto quanto. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. nos encontrar e . eu vou ao seu encontro no. contudo. e almoçamos juntos.Almoçar juntos? – “Sim. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. Ela. eu vou para o serviço agora. compreendeu.” – Vou. Rossini. que lamentável. conversei com Flávia Gomes de Galiza.. Olhe. preso em novembro de 1935. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. Um grande abraço para o senhor. rapidamente. que era um burguês diferente do burguês brasileiro. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. pois ele tem de ser é anticomunista. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. ou até mais do que eu.. – “. gentil. então.. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. pois eu pensei que nós pudéssemos.. ficou vibrando... Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa.. Até mais. passei pela Secretaria Geral do MinC.” – Sem dúvida. Flávia Galiza. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. Decidida a documentar o encontro. neta de Jesus Norberto Gomes. – “Ah. Flávia Galiza e eu. quem sabe. no Hotel Nacional. Em seguida. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes.

e de outros afazeres literários. que fôssemos almoçar no aeroporto. no caminho. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. o aguardamos. no mínimo. reagindo bem. editada por Jorge Zahar. no auditório do Hotel Nacional. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. também dos quadros superiores do MinC. a pequena comitiva partiu. o livro Economia Brasileira Contemporânea. reunindo textos esparsos e inéditos. Sem demora. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. em companhia de Dona Aliette. neto de Demétrio Ribeiro. como o de perder avião. Fui buscá-lo à entrada do auditório. Aplaquei-lhe os justos reclames. com a alegria de haver recebido. a economia. onde evitaria contratempos. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. Eu o provoquei. À beira da piscina.. Vi olhos marejados. premido pelo horário. Passando recibo ao meu desafio. da mesma dimensão do Ministro da Cultura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos.. Realizava-se ainda o colóquio. discorreu a respeito de projetos de livros. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. Chamei-a. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. tornada um clássico das ciências humanas no país. em animada conversa. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. Necessitado de um paradigma. com vivaz prosápia. Aceito o convite. a propósito da necessidade da reedição da obra. logo tomamos a direção desejada. o evento foi encerrado. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. autografado. A marcha batida deste. E o velho Rangel. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. em contrapartida. Celso Furtado. a política e a história do Brasil. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. em substituição à afoiteza que lhe é característica. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. sobre a sua produtiva atitude intelectual. que integrou o primeiro Ministério da República. No horário combinado para a saída. Chegamos. e confessou. Ignacio Rangel sugeriu. No intervalo. de onde marchamos para a beira da piscina. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira.

caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. 87 . Sentamos. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. desaguando na divulgação do seu opúsculo. enfim. seriam depoentes abalizados a seu respeito. com Isabel e Epitácio Cafeteira. à frente de Flávia Galiza. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. com uma introdução atualizadora. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. O testamento vai ficando para depois. a prisão política em 1935. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. Rossini. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. sem o esquecimento do Rio de Janeiro.” – Entendo. Trocamos apenas olhares. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez.” – A redação de sua autobiografia. – “Esta é uma boa idéia. o propalado ateísmo. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. agora. que não é habitual. mergulhou em um mundo de lembranças. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. o viajante. a sua ligação com os comunistas. Mas o senhor pode reeditá-lo. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. Ao chegarmos no amplo ambiente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. em uma autobiografia. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. ao centro. intitulado Dr. Conseguido um lugar no estacionamento. voltando-se para mim. Afinal. E confirmou. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. as quais. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. Ignacio Rangel. referente à crise nacional. tanto quanto ele.. Mourão Rangel.” Chegamos. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio. o Juiz e Professor Mourão Rangel. o que é uma necessidade. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. Tempo houve. com a ajuda material de Jesus Gomes. deparamos. ainda.. Chegada a sobremesa. A facúndia do visitante.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. declinou nomes.

de acordo com ensinamento de véspera. Mas saltam dois cães de gado. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. de O. fundada por Mourão Rangel. Aos oito anos. Como se não bastasse. Ignacio Rangel identificou a localidade. que nela. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. verso por verso. funcionou uma escola particular. logo acusando a lembrança em seu discurso. o velho Rangel. Tomado por violenta emoção. concluída a sua palavra. feito por sua mãe. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. o velho. Chegando ao Rio de Janeiro. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. com a metralhadora da memória ligada. Neste. em época pretérita. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. educava os seus e os filhos de terceiros. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. em companhia de sua esposa. A. Como um sopro. A despeito da nova e moderna construção. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. de plano reconstruído e de declamado. 88 . o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. Diz o filho: "Oh minha mãe. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. é lusófilo. no Dia da Pátria. estendendo-se a texto poético. episódio de há muito esmaecido. que todo o dia Tinha levado a anadar. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. no longínquo 7 de setembro de 1922.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. pois não passava bem. Tornam os pobres à estrada.

senhor! .Olhai que.Se os cães deixarem..” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . (diz ella.Boas tardes. Vendo a sua esperança vã..Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira.... E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira.. A triste n'um riso amargo).Boas noites..Que importa. Perdereis a caçadeira..Boas tardes. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho..Boas noites. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!. É escusado. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor. Até um dia.. caçador! . senhor.. dessa maneira.. lavadeira! .. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? ..Talvez que fosse melhor.. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira. Com effeito a sentinela: . . lavadeira! .. caçador!” 89 . Que ainda é perda maior."Quem vem lá?.

abraços. os quais. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. deixando em todos. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. com a sua passagem. beijos e despedidas.. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. aparecesse. Ele. o doce vestígio de uma presença. não se fazendo de rogado. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. a cidade. por suposto. Foi possível... como se tivesse acabado de lê-la. retidos em Itamaracá. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. declamou verso a verso a extensa peça literária. de João de Deus. Depois. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. o ano. foram passos rápidos. entre outros. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque.. de onde viajaria com destino a Brasília. tardaram. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. Andei sempre assim perdida. mas chegaram. Divididas democraticamente as despesas. em seguida. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. e 1991.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. entretanto. mas suspendera. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. cobrando detalhes do texto do poema. Secretário de Governo. fugaz. Almoçamos sem que Roberto Viana. 90 . a caminho. o Recife. parar. para sempre. II O mês era o de junho ou de julho. Inteligente. pois este só despontaria em meados da tarde. porém. repleta de inefável encantamento. Que tive mãe e. Conseguimos ainda. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. partimos em direção ao setor de embarque. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes.

e a demanda foi resolvida. Rebatendo-as. em processo de organização pelos dois. à sua maneira. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. em Brasília. por seu relevo pessoal. de forma irremediável e comprometedora. você não pode deixar de participar. em João Pessoa. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. quase que à antevéspera do simpósio. levando Formiga telefone e endereços anotados. ao ser comunicada.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. em cujo domicílio ficaria no Recife. de sua admiração. era. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. Assim foi feito.CNPq. com Sales. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. É o lançamento do seu nome no Brasil. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . Motivei Viana sutilmente. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. de que a velhice o alcançara. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. podendo. e antecipando. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. e esse. Comuniquei-me. e o painelista maranhense. ressalvadas a fonte. demonstrei serem malévolas. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. valiosa. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . em 8 e 9 de agosto. feito de pura louvação de Celso Furtado”. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. Roberto Viana foi explícito. com Formiga. de imediato. em contrapartida. as infundadas notícias. ao regressar de João 91 . motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. o telefone do seu sobrinho.. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. de texto concluído. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita.

Ao chegarmos em Tambaú. cujos setent’anos recebiam tardia. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. desde o Maranhão. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. pedindo a todos brevidade no café. sem mínimo retardo possível. E Pedrão. o paraibano Celso Furtado. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. cadenciado e de pasta executiva à mão. Sales. garantira a sua presença ali. Ao desembarcar. Antecipando-se ao horário combinado. parabéns!” A resposta foi glacial. começaria a solenidade oficial. Paulo Bonavides e Armando Mendes. quanto ao cumprimento do cronograma. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. a solução foi dormirmos. para o Tambaú Tropical Hotel. sorrindo. próximo à sua esposa. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . Hélio Jaguaribe. partimos em vagaroso e confortável ônibus. Armando Souto Maior. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. Luciano Coutinho. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. Rosa Freire D’Aguiar. Clóvis Cavalcanti. às 8h da manhã.. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. Pedrão e Santos. no Espaço Cultural José Lins do Rego.. às 7h30min. à procura de Aspásia Camargo. homenageado e convidados. Sales e Formiga. O também paraibano Paulo Bonavides. avisaram que. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. entre outros. bêbados de cansaço. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. contatou painelistas. em uníssono. mas bela homenagem de sua terra natal. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. por intermédio da zelosa fonte que.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. Virando-se levemente. que chegaria em vôo matinal. À luz do dia. da portaria. apareceu no corredor Ignacio Rangel. Mal terminamos o abraço. retraído: 92 . elegante.buscando confraternizar: – “Celso. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares.

este. sua esposa. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. A caminho do teatro do seminário. que estava repleto. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa. conterrâneo. – “Bom”.. todo o seminário. a tristeza.. Mourões e Rangéis da Paraíba. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. retórica baiana e dialética de Hegel. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho. Explicou-me ainda que.. Pedrão juntou-se a nós e. evitando viajar só. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. figura sempre simpática.” Gargalhamos. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas.. a Bahia. Guedelhas. decerto. que não os cardíacos.?” – “Um dia melhora. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. Quase metediço. combinando capoeira. com uma sobrinha de José 93 . O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. casado. como ficaríamos. Milton Santos. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada. como coordenador do Mestrado em Economia”. entramos no ônibus e partimos. galhofeiro.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. para esconder. Avisou–me que tivera problema de saúde.. o velho Rangel foi conversando. Desembarcamos. Sentado em poltrona contígua à minha. Santos sentenciou: E Pedrão. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. aliás. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. A solenidade começou pontualmente.. por causa dos problemas de saúde.

vivido em estilo elogiável. segundo convite do Governador Cunha Lima. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. o sábio maranhense deixou escapar a frase. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. Formiga explicou ao velho populista que. à maneira isebiana. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. Lamentando a frustração do seu propósito. grande Mestre!” 94 . a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. Rossini. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. Estudantes. a dicção ignaciana.” A participação de Ignacio Rangel. Marcos Formiga discursou na abertura. professores. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. abraçando-o: – “Salve. na década de 50. o Governador Cunha Lima chegaria. com o pensamento de Celso Furtado. a quem auxiliei a levantar-se. para a solenidade de encerramento do seminário. elevada e corajosa. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. sem ser suntuoso. Contudo. quem é que é. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. E foi. foi constituída por um confronto do seu. assim como Sales Gaudêncio. sexta-feira. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. Admitida a aceitação. Arraes dirigiu-se a Rangel. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. a qualquer instante. e o festejou. ponderando: – “Rossini. – “Afinal. pelo notável economista paraibano. intelectuais. inquietações. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. eu estou preocupado. entre sorrisos. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. problemas e dificuldades. retiraram-se. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. sentando-se de novo junto a mim. o faria no encerramento do colóquio antológico. Tomado por um constante espírito crítico. 8. emocionado. Surgiu a idéia da criação. sem nenhuma intenção de trocadilho. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. Quinta-feira. cumprimentando-me da passagem.

O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. Armando Souto Maior. houve a ruidosa entrega de certificados. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. O pedido foi aceito. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. onde recusei. como sói acontecer. apareceu em companhia da esposa e amigas. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. como se fossem novidades. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. atencioso. o burgo de Goiana aos Rangéis. comecei a providenciar o regresso.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. em busca de um lugar para jantar. quando. levando a que eu aguardasse em vão. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. Falei-lhe. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. de sua lavra. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. Fiquei plantado à beira da churrascaria. e descermos juntos para o Recife. findo o café.” Fiquei. No sábado pela manhã. O motorista. particularmente. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. matar a sede e tomar café. 95 . mais à frente. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. com o estilo inteligente e cortante de sempre. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. Ignacio. parou. Não obtendo sucesso. E. de minha parte. ditado pelas musas da juventude. convite para jantar. pois as mulheres falaram a contentos. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. Dona Aliette. entre léguas de cana de açúcar. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. em abono do testemunho salesiano. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. que fosse possível chegar ao Recife vindo. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. A minha expectativa era. Apontei.

consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . e iniqüidade. declamou com voz de cristal resoluto. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. Ignacio Rangel.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. e outra idade Desde que há tribunais. vencendo o cansaço do tempo. Perguntei a Dona Aliette. Tão Pilatos no corpo. revelando a sua íntima conexão com a poesia. e eqüidade. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. filho. com que a todos causam inveja. e vós. novelista e jornalista Odylo Costa. mas terminara a vida no Recife. e mísera cidade Sua justiça agora. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. mero. Que se tem feito em uma. resgatou versos de Gregório de Mattos. E Letras. e maranhas? É Ministro do império. e vós. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. e prende um Cristo”. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. para não perder o fio da meada. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. Como previsto em trampas. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. Guerreiro Ramos. e nas entranhas. e quem os reja. e misto. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. e o fiz sem reticências. A resposta foi objetiva. e tu”. E logo em seguida. Que solta um Barrabás. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro.

garantiu-me que.” Dona Aliette. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. cauteloso. foi apresentada a Josué Montello. que. mas sincero. finalmente. em Londres. Tomando a palavra. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. a qual. Palavras ao vento. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. ninguém duvidava no Brasil.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. disparou: – “Minha filha. sem que recebesse resposta. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. encontrando o romancista maranhense em uma festa. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. para a economia do seu quatriênio administrativo. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. que dela ousara discordar. onde o habilidoso matemático não ficou. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. o prato servido foi Celso Furtado. de boa-fé. ele poderia ter sido muita coisa neste país. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. que. sob elogio dos seus mestres. Sequer os adversários ideológicos. lançara um sapato no rosto de um estudante. admitiu que muito do 97 . afirmando que o estudara em Oxford. no ato. ela. Por quê? Dona Aliette. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. Roberto Viana esteve presente. Ele prometeu publicar o documento. da competência e da probidade do seu marido. Sentenciou ainda que sua obra.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. juntos. no qual a sua filha. O velho Rangel. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. À noite. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. eu redefini o curso da conversa. Disse-lhe que não. Chegamos ao Recife. fui buscá-los no Engenho do Meio. seu amigo. segura de si. para sobreviver. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. que. Daí a pouco. Em seguida. sem rebuços. preferiu colocar à mesa episódio imediato. em particular. de fôlego e duradoura. para que. estivera ausente. nos jornais de Brasília.

. editor da Bienal. entretanto. com os dois já no Maranhão. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer.” Terminado o café com muita prosa. em Alternativas do Brasil. os Rangéis. muito que te quero 98 . cantava toda a música “Carinhoso”. minha filha. vai ficar deste tamanhão. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. de José Márcio Rego. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. tua filha. Antes de partirem com destino a São Luís. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. quase madrugada. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. em termos de construção original. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. aqui em São Luís. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. Prosa e verso. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. E mais: que Phaela a nada faltou. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida. sem necessidade. sonegando. que conversa como gente grande. vovô Rangel. Parabéns! Fiquei prosa. lembrando da menina que. a referência original. comunicada à Academia Maranhense de Letras. procede do pensamento de Raúl Prebisch. movidos a cortesia. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. de toda maneira. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. no qual lhes passei endereços e tudo mais. economista da Argentina. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. para a Dona Aliette. resguardado.. ligaram para agradecer. com menos de um ano e meio.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. muito prestigiado no ciclo cepalino. Muito prosa. fui deixá-los. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. desde ratinho até agora. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel.

filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. trocamos idéias. inclusive o seu A Questão Agrária. onde adquirimos alguns volumes. seguindo recomendações de Dona Aliette.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. publicado aqui no Recife. Percorrendo as livrarias. em matéria de bibliofilia. realizada na sede da Secretaria de Planejamento. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. e. com o qual lhe presenteei. foi um sucesso. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. vem. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. Conversamos à vontade. onde estavam familiares. Mestre Rangel. por exceção. ficou hospedado comigo. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. vem. o deixou viajar sozinho. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. enquanto Mestre 99 . Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. O velho Mestre dispensou o hotel. situada no Bairro do Recife. não satisfeitos. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. respectivamente. A conferência. fomos à Livraria Brandão. E também Carlos Osório.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. conferimos quem tinha o quê. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. e. vem. vem. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. que.

Na saída. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. todavia. bastante cedo. defensor do recurso em si mesmo. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. facilitada pelo concurso de duplos microfones. Rossini. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. confessadas. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. comendo de tudo um pouco. Saber. como gostaria. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. e. prontamente sugeriu: 100 . Ele é o patrimônio da nossa família. indagando-lhe. em círculo restrito. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. findo o Governo Juscelino Kubitschek. Na tratoria. A explanação da temática foi meridiana. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. de maneira generosa.” E assim foi feito. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. com diversa óptica. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. Nada obstante. ele e eu. só depois. em seguida. similar ao do Governo Federal. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. navegou em céu de brigadeiro. Mestre Rangel. aplaudida ao final. por minha causa. muito embora eu o deixasse à vontade. por minha posição. Antecipando-a. não devendo ambos. o grande economista estava lívido. sobretudo quando revelou que.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. houve emocionada saudação de Carlos Osório. ficou com algumas reservas mentais. da democracia e do progresso social. Retruquei-o. não pôde conceder–lhe. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. na manhã seguinte. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. chopes e uísques antecederam os pratos principais. com a palidez da angústia. mas temendo.

naquele vendaval de estremecimentos. desvãos e perspectivas. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. Ao término do café. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. ainda ali. a favor da Revolução de 30. recebeu proposta de uma rica senhora. quase um vintém de prosa. em Londres ou em Nova York. da estrutura à conjuntura.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. O pai. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. E ficaram ambos. ao encontro repentino do rio e da morte. sua conterrânea. Foi uma manhã iluminada. esclareceu fundamentos e circunstâncias. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. A chegada do 3 de outubro. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. Quando do retorno. o pai e ele. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. com o pai e seu irmão caçula. em 1º de janeiro de 1930. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”.” 101 . retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. com o fio de espada da dialética. se em Paris. segundo o seu filho. e ele. o pensador maranhense. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. dialogamos um pouco. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. do magistrado revolucionário em disponibilidade. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. Em viagem de navio para o Maranhão. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. desculpando o pai e sentindo-se. a criança desventurada. De tudo. Quando quase todos já tinham partido. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. limites e possibilidades. pois um morto. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. nascido em 14 de abril de 1928. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. carregando na alma o mortal sentimento de culpa. porém. retirando dele o peso do cadáver. portanto. infante ainda. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. a aerofogia estava vencida. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. significou a surpreendente colocação. e. já volátil. nesta. Do quadro teórico à formação social. Fechada a porta da frente. Ignacio Rangel retornou a São Luís. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel.

” Realizado o vaticínio paterno. bem como de sua esposa Maria do Carmo . as sentenças do pai magistrado. histórica e sociologicamente. em máquina de escrever. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. o cigarro e a máquina de escrever.para alegria de Dr. com o seu saber velho e desatualizado. escrita. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. manejá-las. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. que é mais do que a sombra protetora. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. Dona Aliette Martins Rangel. o Brasil. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. como passariam. que aos quinze anos passava a limpo.concluída no Rio de Janeiro. por reclamar. primeiro. começada no Maranhão . logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. de resto. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. passara. Nada obstante. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. Aceita a sedutora provocação. Mourão Rangel. em congresso de sua agremiação política. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. isolando-o de todos. Por recomendação médica. não deixe este congresso sem conversar comigo. Não poderás negar. entre faltas e segundas chamadas. porém. só à mão. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. o pensador 102 . à força pessoal. tê-las e segundo. que preparava o seu terremoto clandestino. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. a datilografar fumando. Na antiga Capital Federal. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel. sob a determinação de sua esposa. O interesse agronômico. fruto de acidente de percurso.

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. em Mirador. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. no Rio de Janeiro. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. Chile. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL.1957). Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. 1957). Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. no Clube dos Economistas. Sociologia e Política-IBESP. no Plano de Metas de Juscelino. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. De forma autodidata. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. História e Economia. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. no Instituto Brasileiro de Economia. com rigor. 1957). na capital do Maranhão. Participa em Santiago. 1954). na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. 107 . estuda. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. dentre outros. Desenvolvimento e Projeto (BNDE. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. nas Assessorias de Vargas e Goulart. hoje BNDES. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. concluído no Rio de Janeiro. no Rio de Janeiro e Agronomia.

Cadernos do Nosso Tempo. Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. Revista da Civilização Brasileira. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. 1987). cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. 108 . Revista do BNDE. Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. 1982). a UFMG. 1979). 1961). Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. 1985).A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. 1963). Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. 1961). 1960). Estudos CEBRAP. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. Desenvolvimento e Conjuntura. Revista Agrária. coligindo boa parte da sua produção intelectual. Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. Tecnologia e Crescimento (Civilização. Ciclo. 1959).

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