A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. Fernando (Alberto Caeiro). Tem que ser assim por força. responder a essas perguntas ou pelo menos. o que dele sei me vem. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. que mesmo não podendo voltar até lá.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. Portanto. É certo. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. com Ignacio Rangel.. e quem sabe. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. que em sendo seus versos belos. Não conheci Ignacio Rangel. eles não o poderiam ser. 7 . 2 SOSA. retomamos após dezessete anos esse projeto. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. Nada o pode impedir”3. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. 3 PESSOA. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. Quando partiu deste mundo. Se eu morrer de novo. Mercedes. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas.. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. como é característico do mister do ladrilhador da História. incompletos dez anos tinha. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. como o poeta há muito afirmou. publicada na forma de livro. Raimundo Palhano. tão presente. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. Maureli Costa e Pedro Braga. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. Volver A Los 17. fornecer indicativos para elas.

blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. construí-las no agora e por diante. 8 . Ao analisar a história das guerras em “Fogo. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. não se manteve. 2. operação que deve ser planificada. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. Maranhão: antigo e novo. isto é. devemos é buscá-las no presente. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. eco de sua formação cepalina. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. pensando GRANDE. sustentável. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. Tecnologia e Custo de Produção. Por último. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. Os artigos identificados foram: 1. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. blindagem e conjuntura e 3. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. ao civismo. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. Profeticamente disse “ora somente. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. Fogo. o desenvolvimento endógeno. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. todos de 1989.

Primeira Leitura nº 43. admiradores.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. a poesia e a prosa. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. o intelectual. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. amigos. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. Me refiro a RANGEL. Ignacio. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. 4 9 . et. Na franja tênue entre a razão e a emoção. v. para alguns inconciliáveis. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil.1 (Coleção Ignacio Rangel. outros quatro sobre ele são postos. familiares. Luiz Carlos. dando conta das várias dimensões. 1). o decifrador e o ídolo. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. São Luís: SIOGE. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. mas para nós não. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. setembro 2005: 9093. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. A volta por cima de Ignacio Rangel. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. 5 BRESSER-PEREIRA. publicados na revista FIPES. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. SANTOS. e 3. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. ou melhor. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. al. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. O Pensamento de Ignacio Rangel. Os do primeiro foram: 1. 1991. Entrevistado por Rossini Corrêa. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. Milton. 2. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. Maureli Costa. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos.

BRESSER-PEREIRA. podemos dizer que foram milhões. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. heterodoxo e extraordinário. sem ufanismos ou covardia. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. de. alguém que podemos dizer que pensou antes. participando da resolução dos mais diferentes problemas. tanto vulto. Ele não diz isso como que para se auto-promover. Prefácio. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. tantas coisas. Hoje. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. 1998. melhor do que está hoje. com marchas e contramarchas. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. serem centenas. mas um criador que se arriscava. O Pensamento de Ignacio Rangel. não por cangas ideológicas. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. na sociedade exprimindo em palavras. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. sua busca por caminhos e sua realização prática. PEDRÃO. Acredito no futuro. entre muitas dessas tardes que viraram noite. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. 10 . com Rossini Corrêa. Luiz Carlos. na verdade. mas por que “o trabalho era tremendo. com valor e atrevimento. com pensamento e ação. preocupado com a distribuição de renda. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. Fernando Cardoso. na presença dos interessados que acontecia. Ele será. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. se ressentem disso. Ignacio Rangel. melhor do que o passado”. um homem de ação. o Brasil e em especial o Maranhão. Num homem só.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. 2001. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). enfim. capaz de pensar por conta própria. conheci Ignacio Rangel. às vezes. nitidamente autodidata. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. segundo ele. São Paulo: Editora 34. no país. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim.

temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. Para tanto. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. mas de dentro para fora. não basta apenas pensar antes de agir. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. que agreguem valor às matérias-primas. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. Um terceiro eixo é a tecnologia. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. mas agir depois de pensar. assim sendo. Outro eixo é o do desenvolvimento. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. isto é. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. não ocorre de fora para dentro. significado singular do planejamento. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. adequada às especificidades do local. dinamizando as economias locais. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. Como quarto eixo – a infra-estrutura. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. sem perder de vista o global. Agora a mera existência deles per si. mas pavimenta 11 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. É preciso inovar e inovar é preciso.

Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. Objetivamente se constituirá. a partir dessa Cátedra. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. São Luís. Sem dúvida. no dizer rangeliano. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. ao mesmo tempo. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. avançamos e avançamos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. avançamos. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. atentos à realidade maranhense. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . à luz da contemporaneidade.

............................................................... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ................................................. 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ................ 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO .................................. 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL .......... BLINDAGEM E CONJUNTURA ....................................................................................................... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ............................................. 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO .............................................. 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO............................................. 95 13 ...............Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL..

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

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a partir de inícios dos anos 1980. a realçar o significado e a importância do lançamento. entre nós. João Evangelista da Costa Filho. durante seis anos. poderiam estar Rossini Corrêa. editadas e organizadas por César Benjamin. filha e herdeira do legado rangeliano. 6 17 . Nesta noite. * Economista. os fios de ouro que criaram a obra-prima. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. como Tetsuo Tsuji. Flávia Mochel. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. Benedito Buzar. Pedro Braga dos Santos Filho. Emanoel Gomes de Moura. ajudou a tecer. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. privilégio imerecido. Jomar Moraes. Joaquim Itapary. primorosamente editados pela Contraponto. Luis Augusto Mochel. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Cursino Moreira. Roberto Gurgel Rocha. no dia 22 de junho de 2005. em alentados dois volumes. hoje relançado por seus idealizadores. com o apoio do BNDES. em evento do Conselho Regional de Economia. sob a presidência de Carlos Lessa. presidido por Dilma Pinheiro. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. Sebastião Moreira Duarte. de suas “Obras Reunidas”. da Academia Maranhense de Letras. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. Benjamin Mesquita. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. Carlos Gaspar. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. sob o reitorado de Fernando Ramos. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. que nos honra com sua presença. Haymir Hossoé. com mãos delicadas de artista.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. jovens intelectuais como nós que. Hiroshi Matsumoto. Maureli Costa. embora conhecedores das nossas limitações. Alberto Arcangeli. e outros estudiosos coetâneos. Neste lugar em que nos encontramos agora. inspirados pelo brilho da lua. e que. os conterrâneos de Rangel. Niomar Viegas. com menos de trinta anos. neste lugar privilegiado. nos propomos. Raimundo Arruda. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC.

Não apenas no discurso bem construído. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. historiador e. de modo primoroso e didático. em Mirador. publicado pela Revista FIPES. hoje BNDES. com rigor. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. economista do BNDES. no Rio de Janeiro. Derrotado em 1935. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. aos 16 anos. história e economia. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. Foi um homem sólido de caráter. De forma autodidata estudou. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. o que já o fizemos. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. lúcida e ativamente. para ele uma verdadeira apostasia. Ademais. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. modestamente. edição de jul/dez de 1989. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. onde permaneceu até o final de sua vida. ideário. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. nesta oportunidade. principalmente. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. mas na ação prática cotidiana. A partir dos anos 50 esteve presente. Atuou inicialmente como jornalista. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. e São Luís. Instituto 18 . como jurista. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. que inventaria e analisa. posteriormente. combatendo a política econômica do governo Collor. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. como economista.

Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. profundos. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. sempre fiel aos seus princípios e valores. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. conferências e ministrou cursos. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. um clássico do pensamento econômico. como pelos ideólogos da esquerda nacional. Plano de Metas de Juscelino. sendo um dos seus patronos. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. Respeitava as questões que a academia pautava. em favor de uma nova humanidade. Sérgio Buarque de Holanda. Não fez carreira acadêmica nem como docente. como a Revista de Economia Política. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. em especial a Folha de São Paulo. e dos maiores jornais do país.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Gilberto Freyre e Celso Furtado. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. Clube dos Economistas. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. Um criativo produtor de idéias. nem como pesquisador. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. Sociologia e PolíticaIBESP. Seu livro “A Inflação Brasileira”. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. sobretudo os econômicos.. de onde era originário. sociais e políticos. Assessorias de Vargas e Goulart. 19 . Instituto Brasileiro de Economia.

a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. com quem aprendeu direito. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. Muito antes de Comparato. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. Kalecki. Fábio Comparato. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia.. como Smith. portanto. Na economia. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. com quem aprendeu latim. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. Luxemburg. o grande jurista brasileiro. Robinson. além de outros notáveis.. Hilferding. Harrod. ou com as matemáticas ou com a econometria.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. Arimatéia Cisne. Schumpeter. Juglar. dificultaram a difusão de sua obra. Engels. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . Irmãos & Cia. José Lucas Mourão Rangel.. a começar pelo próprio pai. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. somada à coragem política. “A economia. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. Keynes. presente na Teoria da Dualidade Básica. Kitchin. como costumava dizer. Marx. . o fio de Ariadne de sua obra. como tem sido a lamentável tendência da atualidade.é a sabedoria de tomar decisões”. Kondratieff. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas.

a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. a inflação brasileira. precisavam ser revistas criticamente. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. um modo de produção sofisticado e complexo. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. sem nenhum exagero. Para decifrar o país. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. As teses em voga. a dinâmica capitalista. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. Segundo Rangel. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. livros e monografias. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. 21 . a seu juízo. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. sejam econômicos. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. consideradas. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. seus problemas e crises. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. o princípio organizador de suas idéias. sociais e políticos. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. quando vem a falecer. tanto da direita como da esquerda. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. a questão agrária e o papel do Estado. Os processos internos da formação brasileira.

Nós. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. Sobretudo pelos seus estudantes. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. baseado na geração de empregos. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. na ética e na justiça social. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. 22 . mais do que nunca. um anunciador corajoso. um decifrador de enigmas. à convicção de que o mundo tinha saída. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. geografia e história deste país. justamente os últimos de sua vida magistral. E aí ele nos levava. ser rompido. um pregoeiro destemido e sério. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. em especial à sua ciência econômica. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. que teve o Brasil como maior desafio. política. Era. precisa. sociologia. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. em expedições fantásticas. mas para poucos”. sem o menor sucesso. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. ao contrário. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”.

como diria Rossini Corrêa. José Lucas e Alberto. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. de beijos e abraços com Aliete.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. o Velho. um relógio e uma reguinha de calcular. Não será surpresa para nós. 23 . sem nenhuma dúvida. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. uma bússola. como as de Ludmila e Ana Rangel. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. ao chegarmos em nossos lares. se. Será. observados por Solon Sylvio. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. Paulo de Jesus. nestes tempos de canalhice organizada”. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. Evandro Lucas. Celso Augusto. como presentes por esta festa. um compasso.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 26 .

pois. 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB.2. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. Procura. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. 1988. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. É um desafio muito árduo para nós.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor./dez. Há. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. * Economista do IPES. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. realmente relevante e inovadora. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. jul. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. elaborado em período específico da nossa história. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). 7 27 . por outro lado. n. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). involuntariamente. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. v.3. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. São Luís. É preciso reverter esse processo. Convém deixar claro. Com efeito. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. no entanto. fato que põem por terra tais tendências. contrapondo-se às formulações do ISEB. como nacionalismo e desenvolvimentismo. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel.

Criado em 1955. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. sobretudo. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. enfim. no entanto são mais recuadas. como se sabe. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. O que foi possível. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. e a singularidade de Ignacio Rangel. Suas origens. em obras como “A Inflação Brasileira”. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. atribuída exclusivamente ao setor industrial. pretensão de grandiloqüência. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. sem declinar o nível das importações. Com efeito. pela própria natureza do sistema econômico mundial. como é retratado do título. nascido do antigo grupo Itatiaia. São provas dessas modificações estruturais. por Café Filho. até então centralizada na agricultura. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. diante dessa problemática que 28 . apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. foi extinto em 1964. por ato de Ranieri Mazzili. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. considerada. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. necessários à expansão industrial. Não há assim. por aqueles diagnósticos. É. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. Sociologia e Política (IBESP). Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. tarefa esta.

fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. divergem do seu enfoque nacionalista. e Glycon de Paiva. contando com a participação de empreendimentos estatais. Como é sabido. envolvendo personagens como Roberto Campos. Tinham uma 29 . Em outro pólo de interpretação. como o CNI e a FIESP. vamos encontrar no seu interior. baseava-se no pós-keynesianismo. Com efeito. e o capital estrangeiro. “fonte complementar de poupança”. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Rômulo de Almeida. CEPAL. Uma dessas correntes. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. Do mesmo modo. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. já um pouco sintetizadas acima. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. ampliado e fortalecido. com participação moderada do planejamento estatal. Lucas Lopes. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. seguramente a mais significativa. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. Para os seus adeptos. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. sejam aqueles da área privada. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). sejam da área estatal. Assessoria econômica de Vargas. etc. (envolvendo nomes como Celso Furtado. Ewaldo Lima. predominantes ao longo de seu período de existência. Américo de Oliveira. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. etc. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. em Prebish. associado ao capital nacional.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. aliados à ausência de planejamento. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. envolvendo nacionalistas e liberais. inaugurado nos anos 40. como BNDE.

Admitiam. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. Na verdade. ainda que nos anos 50. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. assim. contava adeptos como o PCB. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. momentos de unidade e de identificação. o subdesenvolvimento. um pouco em cima das teses leninianas. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). enfim. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. aberta. a qual se perpetuava por erros de política econômica. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais.. como Nelson Werneck Sodré. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. tanto uma quanto outra não eram 30 . pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. A. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. por razão desta dicotomia. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). ou a indústria versus a agricultura. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. É. Ou. Ao lado de uma reforma agrária geral. o arcaico. dentre outras coisas. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. a existência de setores dinâmicos e estáticos. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. não viam com simpatia o intervencionismo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. como o industrial. para a economia de mercado. portanto. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. Passos Guimarães e Aristóteles Moura. A despeito da polimorfia. Caio Prado Jr. fazendo emergir. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. Pois o antinacional simboliza o atraso. produtivos e improdutivos. o moderno e o urbano. e. Esta era a corrente socialista. que além do ISEB. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil.

o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. Surgida em fins dos anos 40. de outras influências mais próximas. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. discípulos de outras influências como Sraffa. a rigor.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. Eis porque. Robinson e Chamberlim. De certa maneira. este último de enorme influência. Jaguaribe. Schumpeter e Myrdal. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. assentado em bases nacionais. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). J. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. atitude semelhante atinge também o ISEB. de evidentemente. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. por exemplo. através de figuras como Kalecki. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. aquele que defendia o não-intervencionismo. de cuja ação todos seriam beneficiados. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. Keynes. Além. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). Raul Prebish. 31 . a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. a CEPAL. em termos de filiação teórica. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. todos eles. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico.

baseado no comércio cambial. proceder o planejamento das mudanças de rumo. promover a reforma agrária. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. Myrdall. que se nutria do modelo agroexportador). O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. com incrementos constantes de renda e consumo. a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. ao imperialismo comercial e financeiro. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. o comércio internacional. quando necessário. Longe de propiciar vantagens bilaterais. fortemente inspirado nas teses de Nukse. 32 . uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. também. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. contrária. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). de maneira eficiente. ao imperialismo (a rigor. não dera os resultados esperados. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. dentre outros. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. como especialização e processo técnico. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”.

A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. Igualando-se a Furtado. complexos e globais. Desses cruzamentos. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. principalmente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. cepalino e isebiano. 4 E RANGEL. Rangel destaca-se. como veremos no tópico seguinte. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . Mas tal não é novidade. respectivamente. não se pode negar que. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. etc. Gudin. Defende. que ele vai desenvolver essas idéias. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. que era. já transparentes em outras obras iniciais. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. pelas singularidades de suas análises e concepções. que está quase sempre presente em todas suas exposições. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. segundo alguns analistas. é de se supor. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. aqui e ali. Rangel detém-se. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. é possível encontrar. 1958). para os anos 40 e 50. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). como Furtado. como bom isebiano. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. É como diz Octávio Rodriguez. À primeira vista. Contudo. em relação às demais. simultaneamente. É justamente em sua obra mais completa e representativa. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. davam àquela instituição uma feição progressista. “o pensamento da CEPAL altera. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. em suas formulações. “A Inflação Brasileira”. essencialmente. Como Furtado. publicada primeiramente em 1963. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. mas não supera os marcos da economia convencional”. gestado monopolista e oligopolista.

a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). Assim. Os estruturalistas (dentre eles. forma-se um grande exército industrial de reserva. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. o que implicaria. o que implicava na diminuição da demanda.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. E mais. segundo sua análise. por outro lado. a curtos e médios prazos. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). assim. até nutrir aspiral inflacionária. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. em detrimento do consumo de industrializados. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. em função de integração entre os setores primários e secundários. Isto porque. A rigor. Com efeito. implicando em preços elevados e. e de outro. tinham. 1962). o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. uma vez que a massa salarial tendia para baixo. Com isso. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. principalmente pelas massas de salários). 34 . o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. logicamente. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). Assim. Por seu turno. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. por exemplo. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. em uma situação como esta. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. Furtado). implicando em taxas incrementais de exploração. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas.

pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. contudo. Rangel reafirmava. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. a antevisão de sua análise. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. por força de seu próprio atraso. mais renda e. Como dissemos no começo. nessa direção. Rangel. onde as taxas de juros eram baixas. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. discordava desse ponto de vista. outra vez. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. terrenos. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. Ou seja. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. confirma. a qual poderia até se agravar. chegando a dizer que. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). logicamente. podendo gerar mais emprego. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. mais consumo/demanda. o que. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. bens duráveis. como estamos vendo.). pelo rumo. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. um pouco ao estilo cepalino. Trabalhando com as teses estruturalistas. etc. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . que tomará a economia brasileira anos mais adiante.

um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. do desenvolvimento capitalista. pelo ISEB. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. ora pode ser. por encerrar especificidades. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. sem ser. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista. 4. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. no essencial o desenvolvimento rangeliano. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. para um “mundo só”.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito.10). se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária.. trata-se. É. publicado em 1960. um caso específico de desenvolvimento . na verdade. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. isebiano quando desenvolvemos. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. da sua relação com a sociedade e. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. suas causas e fatores impeditivos. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. principalmente em “A Inflação Brasileira”. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. a seguir. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. Segundo seu ponto de vista. além. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo.o Brasileiro. ou as de Caio Prado Jr. obviamente. e de Werneck Sodré. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. evidentemente. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. na sua maneira de dizer. Logo no início de ROEN. Homem de sua época. nesta segunda metade do século XX. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. obviamente. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. Contudo há uma 36 . Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. e mais ainda. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. Eis porque. sobretudo.

Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. por exemplo). comprováveis ao longo do texto. gás xisto ou eletro-siderurgia. asseverava o nosso autor. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. para viabilizar o desenvolvimento. Sedimenta essas suas observações. que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. como em outros 37 . Começa por afirmar. sintonizado com seu método da análise. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. tem suas raízes em concepções smithianas. fatalmente. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. mirando-se no próprio exemplo mundial. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. Mais adiante. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Sob o império dessas determinações.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. todavia. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. retomando questão anterior. Rangel. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). através da qual se daria a superação do atraso existente. afirmava ele. à internacionalização dos fatores produtivos. Em ROEN. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. Conclui afirmando que nesse caso. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. decorrência direta do progresso tecnológico. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada.

no pensamento de Rangel. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. Isto posto. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado.14). Segundo ele. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. no principal fator de unidade e de soberania. Assim para o pensamento rangeliano. e simultaneamente. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. Sua visão do planejamento. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. capaz de reverter àquela perspectiva. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. Ou seja. porque não era para centralizar. as disparidades inter-regionais. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas.. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. portanto. não é tecnocrática. Ouçamo-lo: “. mas para 38 ..17).A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. Prosseguindo suas análises. criticando a posição das correntes cosmopolitas. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. Entendo-o. em vez de eliminar. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias.

e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. ou mesmo. Conclui dizendo que. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. Com efeito. mas consolidação das soberanias nacionais. nos momentos de contração às importações. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. contudo. que ela deveria existir. soberania e planejamento (conforme. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. pois. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. os seus conceitos para cada uma delas). é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. Estas colocações não significam.21). mas. tem havido sempre mais fusão de classe. alianças de classes. Este seria um procedimento inteiramente condenável. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. segundo a análise rangeliana. Segundo ele. E isto ocorreria. Chegavam mesmo a afirmar que. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. evidentemente. além de agravar os problemas de ociosidade. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. provocados por eventuais crises de pagamentos. sobretudo. Feitas essas considerações. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. Não poupa os empresários. na história do Brasil. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . em função de importação efetivada anteriormente. Assim. do que contradição.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. as barreiras nacionais. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. ao invés de eliminar. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. Para destacar a relevância de suas formulações.

do desenvolvimento” (p. Sobre os investimentos. em grande parte. aliás. Não negará. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. além de melhorar seus padrões de consumo.” (p.43). pelo emprego de indústria de bens de consumo. prescindindo-se. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. ou na renúncia ao desenvolvimento. A proposta de Rangel. Nesse sentido. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção. Para ele.. dos quais depende. o que. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. a seu ver. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. mais adiante. segundo ele. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. que tanto poderia obter bens de produção. 40 . assim.”) (p. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. assim. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. aumentar o que é mais importante ainda. 41). pois. o volume de seus investimentos. Apontava. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. ou a compressão do consumo. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. sem que ocorresse a compressão do consumo. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis.38). “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. cuja utilização. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento..38). No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. do capital estrangeiro. para vencer esse dilema. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. a ulterior expansão do produto nacional. isto é.

Sem contar os riscos do paroxismo. como o da ociosidade. que. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. Assim. Os primeiros são mais rigorosos. curiosamente) tenha que passar por ali. tratam a produção isebiana sem a menor competência. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. por exemplo. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. a nosso ver. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. simplifica o problema. pois. não contemplam a matéria econômica de per si. invariavelmente. A rigor. lacunar. começo dos anos 60. 41 . de um lado.Isto é uma coisa. não se sustentam integralmente. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. de uma hora para outra. se. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. que em ROEN. de outro. por estarem legitimadas em fontes eruditas). racionais e equilibrados. ideológicos. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. liderado pela industrialização. Embora não fale claramente. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. representam os pontos de estrangulamentos básicos. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. enfim. guiada pela luz do planejamento. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. os segundos são ufanísticos e em geral.

por exemplo. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. Eram também. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. evidentemente. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . que afetava o Brasil e a América Latina em geral. mas também a alguns outros da escola paulista. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. é ilustrativo a esse respeito. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. analistas do ISEB. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. são mais progressistas do que muitos pensam. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. entre Lamounier e seus colegas paulistas. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. como muitos estudos parecem indicar. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. consciência das desigualdades. enquanto órgão produtor de cultura especializada. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). para os anos 50. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. Acredita que. Afinal. Segundo Lamounier. fazia mistificação ideológica. Não é nenhuma heresia admitir-se. acima de tudo. seria crítica da ideologia. além dessas preocupações. Não devemos esquecer que. da matéria econômica. O debate travado em fins da década de 70. Era por isso mesmo. que as suas propostas e análises da realidade nacional. no que escamotiava a luta de classes. por exemplo. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. Não queremos. Não são simples mistificações da realidade. continentais e mundiais.

MANTEGA. 1978. 1984. O nacionalismo na atualidade brasileira. 1984. 1982. ________. (Textos Brasileiros de Economia. Rio de Janeiro: ISEB. Gilberto. Industrialização e economia natural. v. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo: Ática. O ISEB: notas à margem de um debate. Hélio. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. FRANCO. 1984. Ideologia e mobilização popular. 9 (Ciências Humanas). JAGUARIBE. 28). CHAUÍ. 1979. A inflação brasileira. A Questão Nordeste. Rio de Janeiro: Poli/Vozes. LAMOUNIER. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Forense. 43 . São Paulo: Brasiliense. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. 1957. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . Maria Sylvia de Carvalho. (Estudos Brasileiros. FURTADO. 1978. PAIM. Rio de Janeiro: ISEB.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. CHAUÍ. A economia política brasileira. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. Caio Navarro de. 1958. São Paulo: Discurso n. TOLEDO. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions.1) RANGEL. Guido. RODRIGUEZ. comme proposition pour le développment brésilien . Octávio. Celso. v.14). (Ensaios. 1960. Seminários. Recursos ociosos na economia nacional. São Paulo: Brasiliense. 1981. Miriam Limoeiro. Rio de Janeiro: ISEB. Marilena. Rio de Janeiro: ISEB. Bolívar. 1960. Marilena. Ignacio.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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no IBESP. n. no Rio.6. 1989. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. sobretudo. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. através de levantamentos em outras fontes. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”. Na verdade.2. n. v. em homenagem a Ignacio Rangel. cuja primeira edição é de 1959.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. [4] “Desenvolvimento e Projeto”./dez. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. elaborada em 1953. O título deste texto é pretensioso. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. de 1954. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”.4. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre.ENE. no Brasil. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. tanto em extensão quanto em conteúdo. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. conferências pronunciadas em 1955. de “Literatura Econômica”. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. monografia de conclusão de curso na CEPAL. se conseguir. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. São Luís. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. jul. pelo ISEB.2. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. de São Paulo. 47 . este é um texto sucinto que se propõe./v. de 1957. correspondente ao período 1955-1985. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. Isto porque.

[12] “Ciclo. publicado pelo CONDEPE. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. Estudos CEBRAP. de Paris. a UFMG. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. Rio (RJ). integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. Cadernos do Nosso Tempo. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. Recife-PE. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. está arrolada. em cuja tese de doutorado. [10] “A Inflação Brasileira”. Inglaterra. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. de 1959.C. Rio de Janeiro-RJ. de 1985.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. Revista da Civilização Brasileira. de R. defendida na Universidade de Leicester. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. tais como Digesto Econômico. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. em 1960. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. atualmente na 3ª edição. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). reunindo textos selecionados. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Boyer. reunião de artigos. publicação pela Civilização. editado pelo Tempo Brasileiro. Tecnologia e Crescimento”. abordando a economia brasileira durante o regime militar. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. de 1982. [7] trabalhos de fôlego. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. 48 . publicado pela Editora Bienal. estando próximo da 10ª edição. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. Revista Agrária. no ISEB. Desenvolvimento e Conjuntura. reeditado posteriormente pela Zahar. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. publicada pela HUCITEC. Revista do BNDE. de 1961. São Paulo. Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. Brasiliense e Bienal. no Rio de Janeiro-RJ. de 1987. no campo da Economia e das Ciências Sociais. originalmente de 1963. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. período de 1983 a 1987. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961.J. publicada no Rio pelo BNDE. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises.

1990 (23 artigos). provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. Segundo nossos dados. ensaios. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. 1987 (32 artigos). só na Folha. 1984 (24 artigos). interessadas em ouvir suas conferências. e em termos gerais. 1985 (83 artigos). Inscreve-se como uma resposta 49 . A despeito de suas proporções consideráveis. O que constitui sem dúvida. foi publicada pela primeira vez. Em 1957. 1988 (15 artigos).Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. em sua extensividade e profundidade. Não menos volumosa é sua contribuição. entrevistas. a obra de Ignacio Rangel. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. onde tem veiculado sua produção. entre 1983 e 1990. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. originalmente. nos últimos 10 anos. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. podemos dizer. relatórios técnicos. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. a jornais e revistas especializadas em economia. de Smith. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. a saber: 1983 (25 artigos). 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. em 1953. perfazendo. palestras e depoimentos. São pareceres. São artigos. em seu trabalho citado. Quando redigiu. de Keynes. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. Isto longe de desmerecer. ainda não foi inteiramente trabalhada. e até de universidades estrangeiras. 1989 (39 artigos). Rangel publicou 247 artigos. que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. com alguns retoques. 1986 (26 artigos). Isto posto. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. estudos e projetos. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas.

Para efeitos analíticos. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. Mantega. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. contida em seu famoso livro do mesmo nome. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. com o qual se definia o 50 . Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. ainda hoje. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. o qual. [3] Tese da Inflação Brasileira. no Brasil./dez. Em 1981. é o maior dos pioneiros. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Tolmasquim. [4] Tese da Questão Agrária. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. político. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. Rangel. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. com extraordinária clareza. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. Davidoff Cruz. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. o da “dialética da ociosidade”. inquestionavelmente. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura..A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. desenvolve. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. no sentido da superação do capitalismo. que articula as teorias dos ciclos. como Monteiro de Castro et Belshowsky. social. nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. out. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. pela sua densidade analítica. apoiados em Kondratieff. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. transformada. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”.

Cursou Direito na Faculdade de São Luís.) afirma. atuando. Tolmasquim (op. no Rio de Janeiro e Agronomia. Em 1954. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. Gudim ou Conceição Tavares. textualmente: .. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. que o motivo 51 . É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. convictamente. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. principalmente. com rigor. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. original e inovadora. Castro et Bielchowsky afirmam. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. em Mirador (MA). No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. pelo Instituto Brasileiro de Economia. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. Chile. Pela envergadura do seu poder criador. Seu lado mais conhecido. na capital do Maranhão. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. estuda. posteriormente como jurista. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. “Ignacio Rangel se tornou. como economista.. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. Dono de uma obra monumental. historiador e. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. do qual foi presidente no início dos anos 80. cit. bem poucos. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. participa em Santiago. onde ocupou a função de membro consultivo. De forma autodidata. ao longo dos últimos 30 anos. um ano após seu ingresso no BNDE. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. História e Economia. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ.

Aqui também sua biografia é expressiva. Suas análises. Sua face reconhecida. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. O pioneiro. como o de tornar público o seu pensamento. as análises sobre reserva de mercado. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. que. Que. como o militante político. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. quase sempre. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. participou. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. fina ironia. além do assessoramento a Presidência da República. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. onde chefiou o Departamento de Economia. vêm recheadas de erudição histórica. de domicilio forçado em São Luís. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. a teoria da inflação. 8 anos de “domicílio coacto”. autêntico e destemido. as propostas pioneiras à época. pegou dois anos de prisão e. mas. Há o Rangel pensador. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Como conseqüência do levante de 1935. no clube dos economistas e em centros universitários. Fora do setor público. mas pouco destacada. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. Em meados daquela década integrou a ANL. um escritor refinado. do movimento de 8 de outubro de 1930. Há o Rangel militante.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. O criador original. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. de repente. a vários ministérios e governos estaduais. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. igualmente. dono de um estilo invejável. em São Luís. ricas metáforas. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. sua militância foi também relevante no ISEB. na introdução de seu livro “Economia: 52 . a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. em seguida. Com apenas 16 anos. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil.

Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. Há ainda um Rangel muito especial. Com efeito. Rangel em relação ao Maranhão. aliás. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. O cidadão que soube dizer sim. recusou o convite. Já de algum tempo. envolvendo UFMA. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . vinculados ao IPES. Há ainda o Rangel missionário.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. voz que muitos escutam ou querem ouvir. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. Rangel. do IPES. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. como ele mesmo confessaria. de vida. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). Neste particular. desde o início dos anos 80. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. Em 1989. quando foi preciso. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. O Rangel conselheiro. O Rangel funcionário público. O Rangel profeta. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. a SUMOC. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. aos poucos. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. quebrando esse adágio. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. Instado pelo então presidente Goulart. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. hoje Banco Central. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. vem. no dia em que completava seus 50 anos. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. honrado e agradecido. preferindo semear na planície. Além disso. quando era para dizer e disse não.

“Parece que. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth. 54 . que regulamentou a profissão do economista no Brasil. falando a um grupo de admiradores. modernização e democracia. Aplausos que eles.1951. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. Aplausos companheiros. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. Finalmente o dia de hoje. Crê no país e em seu povo.. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. sim. os merecem! Sumary In this article. através da Secretaria de Cultura. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. verdadeiramente.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. entre modesto e orgulhoso. a produção e a obra do economista maranhense. Ao seu lado. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. Sua marca é o nascimento e o humanismo.411. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”. minha voz faz eco”! Faz. magistralmente. cujo sentido é o de difundir. enfim. fez e continuará fazendo. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. Feliz.08. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. através de livros. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. Oportuna. o Dr. ouvi-lo dizer satisfeito. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. de 13. sim. como bálsamo e esteio.. porque Rangel é um otimista. Em sua última visita a São Luís. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. desenvolvimento econômico e justiça social. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1.

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São Luís. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. era a Atenas Brasileira. uma das províncias mais ricas do Império. Mas significava que a economia cearense. inclusive. Por outras palavras. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. estes usaram sua liberdade. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. 1989. * 9 57 . o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. mas o retrocesso à tarde e à cubata. libertados os cativos. O Maranhão. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. 4. isto é. jan. ao comunismo primitivo. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. os quais eram. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. ou melhor. de fato. Não a passagem ao feudalismo. 1. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. Autor do clássico A Inflação Brasileira. desde os tempos do império. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. não se havia cumprido no Maranhão. O Maranhão foi como é sabido. e a Amazônia./jun.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. mas um passo atrás. Assim. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. para o Maranhão. Com efeito. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. que era terra de ninguém. v. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. n. não raro. contrabandeados para o Sul e. Quase isolado do resto do Brasil. Economista. Não por acaso. como era natural que o fizessem. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. começo dos anos 60. O navio a vapor viria romper esse isolamento. do que do Rio de Janeiro. Um dos fundadores do BNDES. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. um modo superior de produção. um modo mais avançado de produção. Mas restava outro fato. já o vizinho Ceará havia. Quando chegou a 13 de maio.

aí por 1895. Mas o surto agrícola. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . isto é. da Bahia e de São Paulo que. inclusive. 12 e 10 fábricas. meias e cânhamo. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. somente em 1960. pela ferrovia São Luís-Teresina. Seguindo-se a Minas Gerais.a Abolição representava um formidável passo à frente. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. Assim. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. somente. na composição da mão-de-obra escrava. Burgos ricos. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. etc. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . para a préhistória. voltaria a começar a crescer. segundo o Prof. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. Turiaçu e. no Nordeste. Somente por meados dos anos 60. Era outro processo que se abria. A epopéia rodoviária. a área ocidental do Estado. Entrementes. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. Queimada a mata uma vez. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. A seca de 1958. Demograficamente. entrou a caminhar. no Maranhão). inclusive de lã. Com efeito. como Alcântara. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. raros no Brasil de então. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro. nas cinzas da velha mata. Além das fábricas de fiação e tecelagem. entraram em decadência. quebrando nosso isolamento dourado. especialmente em São Luís. compensou com sobras essa perda. suponho Engenho Central. Assim. nessa ordem tinham 15. além de flagelados nordestinos. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. É certo que. 14. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. com a indústria do Nordeste oriental. no corpo do Brasil. Especialmente a Guiana Maranhense. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. a passos largos. deu um golpe fatal nesse parque industrial..A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. O migrante do 58 . demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação.

que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. para encerrar essas notas. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental. Na seqüência natural deste. que começava na Paraíba e. sob. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. Os vastos campos da Baixada Maranhense. atendendo a uma ordem do chefe do governo. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. Aí por princípios dos anos 60. que havia em seu Estado. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. Jânio Quadros. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. Mas. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. O Porto do Itaqui. envolvendo todo o município. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. que estava desocupado. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. mas protegida. eu. não raro emitia outro parecer. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. O surgimento do Estado do Tocantins. em nossos dias. não estava fora de cogitações. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. Vi roçados nordestinos. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. Uma cerca única. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. que eu o saiba não teve seguimento e. havendo cruzado o Piauí. com água dos rios que formam o Golfão. Essa utopia. porque ao contrário do cerrado. conversando sobre esse processo – na primeira fase. depois. muito mais gregário. sociologicamente. em minha recente passagem por São Luís. penetrara no Maranhão. ao que ouvi. não deve ser estranho a esse processo. fileiras de mamona. toda a área por uma única cerca. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. são as áreas problemas do país. Bacabal é hoje um município pecuarista. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. que é a penetração do capitalismo no campo. sendo Presidente da República. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. Lembro-me de que.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. o que implicava numa colossal economia de material. este último expelido pelo boi. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. isto é. na direção geral 59 . Um pouco mais demoradamente. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. a caatinga não está.

no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. poderá confluir o gás natural amazônico). é indústria pesada o que teremos. com antracite. Como meio de transporte – excluído o duto. (A menos que. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Com uma peculiaridade: que. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. do Rio Fresco. tanto mais quanto. respectivamente. para Açailândia. Hoje. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. isto é. Há muito que sabemos que. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. em vez de indústria leve. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. na direção geral de Callao. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. Por outro lado. Embora geograficamente situado no Pará. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. a Floresta Amazônica. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. Ora. nada menos. Minha recente viagem ao Maranhão . somente pensando GRANDE. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. hoje. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. a saber. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas.maio/89 . até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. apenas começando. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. Ora. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. as ferrovias canadense e transiberiana. combinadas. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. e em Vladivostok. esteja preferindo. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. que Carajás. que não impediram o lançamento da BAMUR. 60 . As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. Sabemos.

Os quais nos apontam uma posição de elite. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. depuis lês temps de l´empire. e imperativos geo-econômicos. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. 61 . herdados do antigo latifúndio feudal. cada vez mais energicamente e.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. O Brasil unifica-se. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 62 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

Em Arbelas. ante o poder de fogo da infantaria. Alexandre colocou a falange macedônica. São Luís. culminação da arte militar helênica.) ganha por Alexandre. a tecnologia. travou-se. pela imposição da guerra de movimento. 2. 2/ v.)./dez. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. 4. com a propriedade de poder mover-se. v. prenunciando guerra de movimento. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. Era uma verdadeira fortaleza. Em nossos tempos. revelaram-se inanes. entre uma guerra e outra. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. provavelmente aprendida por Felipe. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão./1989. Ainda na antiguidade. ao longo da história.c. 65 . mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. contra fogo. não para o sitiado. Esse dispositivo buscava. ganha por Aníbal.c. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. de Epaminondas. contra multidões asiáticas incontáveis. n. 6. de caso pensado. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. responsáveis pelo choque e. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. porque. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. escalonados em profundidade. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. na guerra como na economia . franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. deixar-se cercar pelo inimigo. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. da Pérsia. como vem acontecendo. contra Dario III. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. Refiro-me a Canas. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. Os esquadrões de cavalaria. dotando a infantaria de armamento leve. n. e. jul. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. Economista. e Canas (216 a. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. Ao contrário de grandes exércitos. contra o cônsul romano Paulo Emilio. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. em campo. Paulo Emilio. portanto. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a.

nem flexa. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. nem pedra de fundo. por interpostas pessoas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. plausivelmente em nossos dias. em Arbelas. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. por ter feito. Com efeito. O tanque. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. que as alas de elite cartaginesas fecharam. isto é. Em Arbelas. de pouca confiança. nas alas. Assim. certeza arrecadou. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. sendo mister resistir a este com artilharia leve. lança. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. não se perdia. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. o imperialismo. naturalmente. convertido em saco. formando um saco. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . já com as tropas romanas em movimento. saiu mal aos romanos. Ora. levaram a resultados diametralmente opostos. sob a forma de “blitzkrieg”. o expediente por muito brilhante que parecesse. como os nazistas depois de Stalingrado. inspirado. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. exposta ao fogo aéreo . nos versos do nosso grande Bilac. porque Aníbal. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. Assim. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. “by proxy”. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. Não há como não pensar nessa possibilidade. no exemplo de Alexandre. com os Estados Unidos à frente. do tipo Arbelas. Já não era mais assim no final do conflito. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. em última instância. em campo aberto . Como em Canas. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. ordenou a inversão do próprio dispositivo. o quadro da tecnologia inverteu-se. nem. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. o qual teve que bater-se em retirada. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes.

O exército soviético suspendera sua ofensiva. Com efeito. Sabemos. como seria de esperar-se. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. Para isso. de então para cá. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. Ora. nas condições presentes. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. Ora. Ora. com os russos metidos num saco. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. a buscar Arbelas e não Canas. mas no fundo.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. a história não parou aí. Em Kursk a maior batalha da história. não obstante o terrível preço pago na tentativa. 67 . nas batalhas passadas. agora. com defesas escalonadas em profundidade. ou ao contrário. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. e consolidada em Stalingrado e Kursk. não se consumaram. . uma “blitz”. pelos russos. não fez senão estruturarse. até Berlim. O cerco. seguiu-se uma guerra de movimento. Paradoxalmente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. que os nazistas não haviam aprendido a lição. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. é a mesma coisa – esse meio século. ao qual faltava apenas amarrar a boca. no futuro. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. mesmo depois de Kursk. que justifiquem a produção em série. no caso da indústria bélica. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. como vimos essas batalhas. depois de Stalingrado. isto é. no campo de batalha. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. O que nos levaria. porém. em vez de. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. as batalhas típicas do último conflito mundial. na espécie. como Alexandre em Arbelas. Em conseqüência. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. que os nazistas não lograram romper. O meio século que está por concluir-se. dizíamos.

porque tudo se faz em sua intenção. Por isso as batalhas da história são ganhas. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. mas. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. a fortiori. ainda para refinar-se e. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. novíssimos. do ponto de vista da arte da guerra. isto é. Na Coréia. foram eles os perdedores. consequentemente. Quando não uma tolice. como aquela que. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. nesse Estado Maior. Assim. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. mas. para variar. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. é como se já tivesse acontecido. Na Guerra da Coréia. que não tiveram tempo. Ninguém. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. o Estado-Maior Soviético. no mínimo. por exemplo. por isso. sequer correntes. como o noticiário nos está mostrando. que talvez não aconteça nunca. na batalha de Canas. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. o Estado-Maior Soviético. O Pentágono e. não bombardeiros ainda modernos. inclusive em nossos dias. árcadios. mas que. apesar dos gorbatchovos. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. mas o modesto MIG-15. são simples e toscos. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. não problemas vindouros ou. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. de fato. ou num simples buraco. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. geralmente. ao que se sabe. não basta para alterar o quadro histórico básico. Nem se ganham. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. todos os dias. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. nem as batalhas econômicas nem. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. barato (porque produzido em série). uma temeridade. ao que parece. por equipamentos inovadores.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. como todos devem estar lembrados. um pequeno avião. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . os vencidos. Os norteamericanos. numa trincheira. os soviéticos deram aos coreanos. mas ao contrário do Pentágono. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. escondê-lo consigo. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. porque “resolvem” problemas pretéritos. tampouco.

a missão estratégica desse aparelho. assim. evidentemente. nem mesmo na minúscula Nicarágua. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. ainda nem a bomba atômica. Ora. é que este está excelentemente preparado para ganhar. pois já invadira três vezes. que não podem. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. havia ou quase. estava cumprida quando. E. Mas é apanhado de surpresa. já provado antes. quando se trata de partir para a terceira. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. acontecido com as armas químicas e biológicas. no Afeganistão. o MIG-15. uma versão tosca de armamento anti-tanque. seria mister ocupar o Iraque e. “refinada”. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. eventualmente. pouco antes da Guerra da Coréia. isso não seria fácil. para as posições de partida. Como. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. no Camboja.. Ao que noticiou a imprensa. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. tiveram que bater em retirada. para matar gente. surgiram as armas nucleares soviéticas. “reluzente”. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. proteger-se por detrás do escudo 69 . A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. não tanques “ainda mais modernos”. tratava-se de um foguete. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. depois de chegarem. como disse o nosso Brigadeiro Piva. no anterior conflito mundial. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. mas sucata em todo caso. Para vencê-la. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética.. Como foi na Coréia. no paralelo 38. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. para ganhar guerras. no Vietnã.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. no passado século-e-meio. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. A Segunda Grande Guerra. surgido no estágio final da segunda grande guerra. serviços públicos e monumentos. como um gigantesco produtor de sucata. nem a bomba de hidrogênio. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. por causa do seu refinamento de fabricação. como às vezes é mister. Não para aniquilar exércitos. em “blitz” ao Rio Yalú. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. isto é. na fronteira com a Sibéria. de onde não mais se moveram. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. Uma sucata “moderna”.

que estão beirando os oitenta. para o Mercado Comum Europeu. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. O índice para a América do Norte passou a 305. do Dr. porque atravessam. 550. O armamentismo e a própria guerra. 449. ou quase. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. portanto. na presente guerra. para o Japão. como 100. isto é. muito mais. falam em nome da ciência econômica. para a América Latina. Os homens e mulheres que. a humanidade ingressou. Com efeito. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. Ora. ou 6. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). ou 4. estão vivendo a sua segunda fase “b”. Nos primeiros anos do decênio de 20. Em 1973. pelo menos ao primeiro exame. simultaneamente. como está sendo. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. e o Plano Quadrienal. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. atualmente. Ou na medida em que não possam.6% ao ano. ou ciclo longo: o 4º. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. em 1973.2% ao ano. a taxa média de 70 . num esforço ligado ao nome de Keynes. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. Os homens de minha geração. os economistas. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. nos Estados Unidos.6 % ao ano para a União Soviética. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. ainda mais. nos concílios do estado. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. com essa depressão. são jovens e.0% ao ano. no decênio final da dita fase recessiva. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. porque às vezes o podem. que América Latina (inclusive Brasil) e. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. no Brasil. tivemos a emergência do fascismo. carregado de significado. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). já em idade de razão a do 3º Kondratiev. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. Com a paz tivemos. de quebra. nos cinco lustros da fase “a”. Von Schacth. aparentemente.6% ao ano. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. para comparação com os dados supra. ou próspera do 3º Kondratiev. na Alemanha nazista. Ou a recíproca é que foi verdadeira.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. é tempo de que nós. ou 7. o caso do Iraque. abriu-se. o mago das finanças de Hitler. não apenas no campo econômico.

mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. o crescimento industrial da América do Norte. Há meio século. e. os valores caíram a níveis negativos. E Jorge Dimitrov. passou de 2.6% ao ano. O Mercado Comum Europeu. quando vemos essa coalizão de 28 países. o do Japão. Passando o conflito. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. da primeira vez. do antigo mundo socialista. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. caiu a 4. “Uma nova vaga fascista.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. segundo o qual a história dificilmente se repete. porque no lustro intermédio. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo.1% ao ano. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. e um renascimento do fascismo. e Japão de nossa época é flagrante. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial.5% ao ano. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. Mas também. uma guerra mundial aparentemente em marcha. Estamos. a 1. o do Brasil.3%. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk.4% do ano. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. Ora. isto é. Afinal. o Iraque. a 3. promovida pelo Eixo Alemanha. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. ou melhor. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. Em média. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. deram-nos um modelo de 71 . Itália. está em gestação”. Apenas. a saber: uma crise econômica profunda. disse ele aproximadamente. naturalmente. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. a 3. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. isto é. Para começar. do ponto de vista econômico. de fato. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. foi tragédia. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. esses temores foram esquecidos. o da União Soviética. não há como pensar nisso. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico.2 %.

não tem nenhuma grandeza. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. vale dizer. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. 72 . alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. porém. respondeu que aquele fora um fato complexo. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. Soares Pereira. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. por exemplo. num enquadramento francamente corporativo. supostamente invencível. Naquele tempo. como naquele tempo. agora nos chegam. e calcado nas instituições medievais. O Brasil. como na França de 1789. nós. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. Em suma. de Mussolini. não há como pensar nisso. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. Muito mais tarde. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. do “Golfo”. a construção do capitalismo industrial aqui –. Ora. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. ao subir ao poder. Isto é. para o dito desfecho. comandante do exército vietnamita que. Só para exemplificar. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. nossa experiência “collorida” de fascismo. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. – Do que jamais me arrependi. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. está fazendo eco ao surto fascista mundial. os homens de esquerda. mais que. isto é. difícil de explicar. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. Com a mesma diferença. promovendo um direito trabalhista que. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. o general Giap. corporativas. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. nem. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. Somente mais tarde. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa.

batendo todos os recordes. o mais próspero dos países capitalistas. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. consequentemente. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. que estivemos construindo. fizme conspirador e soldado voluntário. a do mundo capitalista. cresceu 26.5 vezes. Com efeito. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. ao primeiro exame. o Brasil e a União Soviética. 13. francamente parecera temerária. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. somente dois países. eu fora getulista por um breve momento.8 vezes.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. como chefe da revolução. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. prócer aliancista maranhense. É esta formidável potência. – Getúlio. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. a do Japão. Para meu conhecimento. havia sido meu comandante. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. dei razão. que aí temos. 73 . Conto estas coisas. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars.9 vezes.9 vezes. da recessão e do desemprego. que temos o dever de preservar. procurando corroborar a ação de meu pai. com escassos 16 anos. e como o epi-fenômeno que é. no mesmo período 23. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. On the contrary of big armys. 6. fazendo jus a toda minha lealdade. isto é. Quando da Revolução de 30.

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nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. haveríamos deixado que. 77 . despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. Irmãos e Cia. Mas não fizemos isso. sobre meu desempenho. a começar por Rui Costa Fernandes. ao lado de João Vasconcelos Martins. naquele tempo. diretor-presidente e chefe do escritório. 1989 Economista./dez. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. nada sabiam de Direito e.4. no curso de inglês. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. São Luís. e o segundo. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. como em muitos outros países. Outros mestres assim. no período. Minha experiência. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava. Imagine-se que. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. sobretudo./v. que aprendesse mais depressa do que tu –. radicada em São Luís. mas viúva de um comerciante português. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. Talvez por estas e outras. n. preparou-me para entender o que. da firma Martins e Cia. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. Mas nunca encontrei ninguém. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. para ficar. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”.2. na firma Martins. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. a depressão criasse raízes. n2.. Silveira – aí por 1940.6.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. secretário geral da CEPAL. em São Luís – dela ouvi este julgamento. Quando me despedi de Mrs. fiz-me um economista fora de série. latim. v. jul. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa.

a receita pública com a qual o 78 . eu já sabia. isso me pareceu impraticável.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. na época. com uma receita pública cuja origem era afinal. mas de homens que. no período. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. Ora. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. o que constituiria um absurdo. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil.5 vezes. não houvéssemos criado condições de investimento. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. A equipe conhecia esse mecanismo. Sem isso. por essa via. esquina com a travessa do teatro. Noutros termos. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. Rangel. Araújo Costa. então. pelo menos durante algum tempo. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. – Como assim. uma receita estatal que. Entretanto. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. na velha escola da Rua do Sol. Não foi por acaso que. a eletrificação – e. até por que eu próprio lhe havia explicado. a exemplo de Tucuruí. Isso significava que. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. de um modo geral. possibilitariam coisas ainda impensáveis. isto é. Com efeito. nos três decênios 1956-86. nos quadros da reserva de mercado. que não teriam acontecido se. dentro e fora do país. sem outra garantia senão o aval do tesouro. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. não preciso de aduladores. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. como a União Soviética. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. opus-me ao esquema da Eletrobrás. sendo elas próprias parte do Estado. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. visto como. como sei ser o seu caso. Ao primeiro exame. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. a implantação de um Departamento moderno. mais do que o dobro da média mundial. diretamente. nossa produção de eletricidade cresceu 12. a renda gerada pelos investimentos privados. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. Como venho insistindo. atravessamos uma crise. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. sob certo ponto de vista. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. para a empresa. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. contrabalanceado por outro. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. mas teria sido pura ilusão esperar que. no Brasil. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. isto é. dos países mais avançados do mundo. Entretanto. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. Hoje. Parece predominar. Com efeito. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. do nada. Naquele tempo. as condições persistem. a mesma. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. Naquele tempo. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. a saber: hoje. as reservas retardatárias. Ora. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. o custo de produção. 79 . não obstante o atraso tecnológico. para isso. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. nas condições do emprego desse fator congênere. estaria surgindo ex nihilo. mesmo que. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. isto é. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. no fundamental. hoje. se um fator de produção está desempregado. como abri-las. Noutros termos. como então. a renda nacional poderá crescer. com o resto da economia mundial.

80 . while. it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

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com a sua linguagem trêfega. Voltei para atendê-lo. trazendo o seu cortejo de surpresas. lâmina. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. Tanto quanto possível. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. não sou amigo do Rei.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. sabonete. aliás. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. não recordo se na Globo ou na Manchete. prossegui. disparou: – “Alô. Não só acordei. disputando com o ponteiro dos segundos: água. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. a chave girando na porta.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. rítmico.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. como vais? Quem está falando é Rangel.. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. por fora. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . o jornal político. Eu estou aqui em Brasília. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. pão bolorento. A móvel manhã quente e derretida. um morto querido – meu tio. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir.. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. aquela voz inconfundível. desimportante. bela viola. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. coisa.. mesmo estando em Pasárgada. quando escutei o alarido do telefone. como me pus de pé. por dentro.. carregando comigo. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. escova. camisa. sabendo novamente ser a República. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. mais do que ver. toalha. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. creme. Acordar acordei. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. Membro da Academia Brasiliense de Letras. cueca. dias 13 de junho de 1988. calça. dentes. pois. tragicamente. 12 83 . Quase pronto e pensando no trânsito. Rossini. Mais depressa. varava as persianas do pequeno apartamento. Estava de saída. a completar seis anos do dia em que foi. barba. Mal toquei o aparelho.

. aqui no Hotel” – . dando assistência para a minha filha Liudmila. eu deixo o Hotel. no BNDES. às 15h.. algumas tristes. tudo bem.” – Que bom. A bem da verdade..” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso.Então. no mais. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades.. prontamente. Vi este pessoal todo entrar no Banco.. e ela. Muitos foram meus estagiários. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra. Perdi o meu genro domingo.. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti... Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. junto com Aliette. quando vence a diária. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. É uma grande alegria para mim. mas não estou largado. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia. – “.E tive que parar um pouco e ficar. – Sei. Professor! – “Porém.. e hoje há gente ocupando altos postos. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. que eu ajudei a formar. saber que eu estou velho.” – Que pena.No Hotel Nacional? Não. ainda não tenho. Vai-se levando. é uma espécie de banco legal. nosso ponto de encontro de sempre. Tenho trabalhado muito. cargos de direção etc... – Perdeu? Que pena. o encontra”. – “É isto mesmo. Volto hoje mesmo..“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou .. de tarde..” 84 . que está comigo. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil.

ou até mais do que eu.. conversei com Flávia Gomes de Galiza. pois eu pensei que nós pudéssemos.. – “Vai trabalhar.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro.” – Até mais. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público.. – “Ah. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. Até mais. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. a terceira convidada solicitou 85 . Professor. Olhe. eu vou ao seu encontro no. preso em novembro de 1935. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. Tanto quanto. Ela.” – Sem dúvida. eu vou para o serviço agora.. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. compreendeu. de qualquer jeito. nos encontrar e . No aeroporto? Bem.. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui.. ficou vibrando.” – . telefonei para uma convidada minha. – “. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. Ele realmente merece uma pesquisa. – “Até mais.” – Vou. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício.. quem sabe. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa.. ao qual não basta desgostar do comunismo. Decidida a documentar o encontro. Flávia Galiza e eu. que lamentável. Um abraço para ti. que era um burguês diferente do burguês brasileiro.. Eu gostava muito dele. Flávia Galiza.Almoçar juntos? – “Sim. pois ele tem de ser é anticomunista. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. na chamada Intentona Comunista. passei pela Secretaria Geral do MinC. Rossini. Um grande abraço para o senhor. neta de Jesus Norberto Gomes. e almoçamos juntos. rapidamente. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa.. gentil. contudo. Em seguida. De qualquer maneira. no Hotel Nacional. então. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô.

como o de perder avião. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. e confessou. também dos quadros superiores do MinC. No intervalo. e de outros afazeres literários. Ignacio Rangel sugeriu. no caminho. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. que fôssemos almoçar no aeroporto. neto de Demétrio Ribeiro. em substituição à afoiteza que lhe é característica. com vivaz prosápia. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. Celso Furtado. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. A marcha batida deste. editada por Jorge Zahar. o aguardamos. Fui buscá-lo à entrada do auditório. E o velho Rangel. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. No horário combinado para a saída.. que integrou o primeiro Ministério da República. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. no auditório do Hotel Nacional. Realizava-se ainda o colóquio. onde evitaria contratempos. Eu o provoquei. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. o evento foi encerrado. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. a propósito da necessidade da reedição da obra. sobre a sua produtiva atitude intelectual. em companhia de Dona Aliette. Vi olhos marejados. no mínimo. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . a economia. premido pelo horário. em contrapartida. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. com a alegria de haver recebido. À beira da piscina. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. a pequena comitiva partiu. em animada conversa. Chegamos.. tornada um clássico das ciências humanas no país. discorreu a respeito de projetos de livros.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. reagindo bem. Chamei-a. Aplaquei-lhe os justos reclames. logo tomamos a direção desejada. Aceito o convite. autografado. a política e a história do Brasil. Sem demora. Necessitado de um paradigma. o livro Economia Brasileira Contemporânea. de onde marchamos para a beira da piscina. reunindo textos esparsos e inéditos. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. Passando recibo ao meu desafio. da mesma dimensão do Ministro da Cultura.

sem o esquecimento do Rio de Janeiro. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . a prisão política em 1935. Rossini. voltando-se para mim. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. – “Esta é uma boa idéia. Tempo houve.” – Entendo. Mas o senhor pode reeditá-lo. Sentamos. declinou nomes. em uma autobiografia. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro.. E confirmou.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. seriam depoentes abalizados a seu respeito. o Juiz e Professor Mourão Rangel. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio. à frente de Flávia Galiza. Chegada a sobremesa. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. intitulado Dr. deparamos. enfim. Trocamos apenas olhares. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços.” – A redação de sua autobiografia. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. Afinal. mergulhou em um mundo de lembranças. O testamento vai ficando para depois. 87 . endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. com uma introdução atualizadora. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. o propalado ateísmo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro.” Chegamos. ao centro. as quais. o que é uma necessidade. Ao chegarmos no amplo ambiente. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. o viajante. Conseguido um lugar no estacionamento. com Isabel e Epitácio Cafeteira. ainda. que não é habitual. Ignacio Rangel. a sua ligação com os comunistas. referente à crise nacional. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. agora. tanto quanto ele. A facúndia do visitante. com a ajuda material de Jesus Gomes. desaguando na divulgação do seu opúsculo.. Mourão Rangel. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil.

o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. de O. o velho Rangel. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. verso por verso. logo acusando a lembrança em seu discurso. que nela. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. A despeito da nova e moderna construção. Tornam os pobres à estrada. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. pois não passava bem. que todo o dia Tinha levado a anadar. concluída a sua palavra. Chegando ao Rio de Janeiro. Diz o filho: "Oh minha mãe. em companhia de sua esposa. episódio de há muito esmaecido. funcionou uma escola particular. com a metralhadora da memória ligada. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. Ignacio Rangel identificou a localidade. de acordo com ensinamento de véspera. A. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. Como um sopro. fundada por Mourão Rangel. feito por sua mãe. Como se não bastasse. em época pretérita.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. 88 . Neste. Mas saltam dois cães de gado. educava os seus e os filhos de terceiros. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. Tomado por violenta emoção. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. é lusófilo. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. no Dia da Pátria. o velho. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. Aos oito anos. estendendo-se a texto poético. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. no longínquo 7 de setembro de 1922. de plano reconstruído e de declamado. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira.

.Boas tardes. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . Que ainda é perda maior.. dessa maneira. caçador! . Até um dia..Olhai que. É escusado.Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. Com effeito a sentinela: ..Boas noites.. caçador!” 89 ..Talvez que fosse melhor.Boas noites. Perdereis a caçadeira.... Vendo a sua esperança vã... E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira.Que importa.” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: . lavadeira! .. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? . . A triste n'um riso amargo)... Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!. (diz ella. lavadeira! .. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira. senhor! . senhor. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor.. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! ."Quem vem lá?.Se os cães deixarem.Boas tardes.

Foi possível. a caminho. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. porém. o Recife. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. Depois. parar. entretanto.. por suposto. de onde viajaria com destino a Brasília. entre outros. partimos em direção ao setor de embarque. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. deixando em todos. Inteligente. declamou verso a verso a extensa peça literária. retidos em Itamaracá. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. Andei sempre assim perdida. mas suspendera. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. não se fazendo de rogado. como se tivesse acabado de lê-la. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. mas chegaram. Ele. cobrando detalhes do texto do poema.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. Secretário de Governo.. de João de Deus. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. com a sua passagem. tardaram. Que tive mãe e. pois este só despontaria em meados da tarde. II O mês era o de junho ou de julho... Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. Divididas democraticamente as despesas. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. abraços. e 1991. 90 . beijos e despedidas. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. Conseguimos ainda. Almoçamos sem que Roberto Viana. para sempre. os quais. o ano. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. a cidade. foram passos rápidos. o doce vestígio de uma presença. em seguida. repleta de inefável encantamento. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. aparecesse. fugaz.

. em contrapartida. você não pode deixar de participar. e a demanda foi resolvida. com Formiga. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. demonstrei serem malévolas. É o lançamento do seu nome no Brasil. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. Roberto Viana foi explícito. as infundadas notícias. de imediato. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. de que a velhice o alcançara. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. valiosa. Comuniquei-me. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . Motivei Viana sutilmente. à sua maneira. o telefone do seu sobrinho. ao regressar de João 91 . e o painelista maranhense. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. por seu relevo pessoal. de sua admiração. em Brasília. feito de pura louvação de Celso Furtado”. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. levando Formiga telefone e endereços anotados.CNPq. em processo de organização pelos dois. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. em 8 e 9 de agosto.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. de texto concluído. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. Assim foi feito. em cujo domicílio ficaria no Recife. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. Rebatendo-as. de forma irremediável e comprometedora. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. com Sales. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. quase que à antevéspera do simpósio. era. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . ao ser comunicada. e esse. e antecipando. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. podendo. ressalvadas a fonte. em João Pessoa. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico.

às 8h da manhã. Antecipando-se ao horário combinado. O também paraibano Paulo Bonavides. que chegaria em vôo matinal.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. no Espaço Cultural José Lins do Rego. começaria a solenidade oficial. cujos setent’anos recebiam tardia. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. Clóvis Cavalcanti. Hélio Jaguaribe. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. garantira a sua presença ali. próximo à sua esposa. mas bela homenagem de sua terra natal. Rosa Freire D’Aguiar. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. desde o Maranhão. sem mínimo retardo possível. Pedrão e Santos. Sales. partimos em vagaroso e confortável ônibus. homenageado e convidados. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. às 7h30min. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. pedindo a todos brevidade no café. avisaram que. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. E Pedrão. Paulo Bonavides e Armando Mendes. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. À luz do dia. Virando-se levemente. da portaria.. por intermédio da zelosa fonte que. Mal terminamos o abraço. retraído: 92 . entre outros. cadenciado e de pasta executiva à mão. sorrindo. Armando Souto Maior. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. bêbados de cansaço. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. em uníssono. Luciano Coutinho.. o paraibano Celso Furtado. parabéns!” A resposta foi glacial. apareceu no corredor Ignacio Rangel. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos.buscando confraternizar: – “Celso. quanto ao cumprimento do cronograma. para o Tambaú Tropical Hotel. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. elegante. Ao desembarcar. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . a solução foi dormirmos. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. Sales e Formiga. contatou painelistas. Ao chegarmos em Tambaú. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. à procura de Aspásia Camargo.

convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. Santos sentenciou: E Pedrão.. conterrâneo. Mourões e Rangéis da Paraíba. Desembarcamos. A solenidade começou pontualmente. galhofeiro. todo o seminário. aliás. entramos no ônibus e partimos. decerto. evitando viajar só. sua esposa.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. Quase metediço.. este. figura sempre simpática. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. Guedelhas. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada. Avisou–me que tivera problema de saúde. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. Sentado em poltrona contígua à minha. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. como ficaríamos. com uma sobrinha de José 93 .. Explicou-me ainda que. que estava repleto. como coordenador do Mestrado em Economia”. para esconder. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa. retórica baiana e dialética de Hegel. por causa dos problemas de saúde. o velho Rangel foi conversando.” Gargalhamos. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. combinando capoeira. a tristeza. casado. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. a Bahia. A caminho do teatro do seminário. Milton Santos.. que não os cardíacos. Pedrão juntou-se a nós e.. – “Bom”.?” – “Um dia melhora. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho..

cumprimentando-me da passagem. a qualquer instante. Arraes dirigiu-se a Rangel. Marcos Formiga discursou na abertura. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. vivido em estilo elogiável. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. o sábio maranhense deixou escapar a frase. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. Quinta-feira. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. segundo convite do Governador Cunha Lima. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. problemas e dificuldades. E foi. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. o Governador Cunha Lima chegaria. 8. e o festejou. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. pelo notável economista paraibano. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. a dicção ignaciana. sem ser suntuoso. sem nenhuma intenção de trocadilho. com o pensamento de Celso Furtado. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. Surgiu a idéia da criação. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. Contudo. emocionado. Lamentando a frustração do seu propósito. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. ponderando: – “Rossini. eu estou preocupado. o faria no encerramento do colóquio antológico. para a solenidade de encerramento do seminário. intelectuais. à maneira isebiana. quem é que é. Rossini. entre sorrisos. Tomado por um constante espírito crítico. inquietações. foi constituída por um confronto do seu. professores.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. grande Mestre!” 94 . assim como Sales Gaudêncio. elevada e corajosa. Estudantes.” A participação de Ignacio Rangel. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. a quem auxiliei a levantar-se. na década de 50. – “Afinal. Admitida a aceitação. sexta-feira. abraçando-o: – “Salve. Formiga explicou ao velho populista que. sentando-se de novo junto a mim. retiraram-se.

onde recusei. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. Falei-lhe. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. houve a ruidosa entrega de certificados. ditado pelas musas da juventude. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. particularmente. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. de sua lavra. que fosse possível chegar ao Recife vindo. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera.” Fiquei. parou. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. em busca de um lugar para jantar. levando a que eu aguardasse em vão. Não obtendo sucesso. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. matar a sede e tomar café. O pedido foi aceito. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. e descermos juntos para o Recife. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. No sábado pela manhã. 95 . cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. Ignacio. de minha parte. entre léguas de cana de açúcar. convite para jantar. em abono do testemunho salesiano. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. Dona Aliette. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. como sói acontecer. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. pois as mulheres falaram a contentos. comecei a providenciar o regresso. com o estilo inteligente e cortante de sempre. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. Apontei. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. O motorista. como se fossem novidades. o burgo de Goiana aos Rangéis. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. Armando Souto Maior. Fiquei plantado à beira da churrascaria. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. findo o café. A minha expectativa era. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. E. apareceu em companhia da esposa e amigas. quando. atencioso. mais à frente. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro.

resgatou versos de Gregório de Mattos. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. filho. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. mas terminara a vida no Recife. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. revelando a sua íntima conexão com a poesia. e o fiz sem reticências. e prende um Cristo”. mero. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. e maranhas? É Ministro do império. Guerreiro Ramos. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. e iniqüidade. e outra idade Desde que há tribunais. Tão Pilatos no corpo. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . e vós. Como previsto em trampas. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. vencendo o cansaço do tempo. e tu”. novelista e jornalista Odylo Costa. para não perder o fio da meada. Que se tem feito em uma. Perguntei a Dona Aliette. e misto. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. Ignacio Rangel. declamou com voz de cristal resoluto.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. e quem os reja. e vós. com que a todos causam inveja. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. E logo em seguida. e mísera cidade Sua justiça agora. E Letras. e nas entranhas. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. Que solta um Barrabás. A resposta foi objetiva. e eqüidade.

que. foi apresentada a Josué Montello. Em seguida. sem rebuços. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. onde o habilidoso matemático não ficou. Disse-lhe que não. que. em particular. disparou: – “Minha filha. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. estivera ausente. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas.” Dona Aliette.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. afirmando que o estudara em Oxford. no qual a sua filha. preferiu colocar à mesa episódio imediato. Sentenciou ainda que sua obra. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. a qual. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. eu redefini o curso da conversa. no ato. ela. mas sincero. fui buscá-los no Engenho do Meio. admitiu que muito do 97 . garantiu-me que. lançara um sapato no rosto de um estudante. nos jornais de Brasília. ninguém duvidava no Brasil. sem que recebesse resposta. da competência e da probidade do seu marido. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. para a economia do seu quatriênio administrativo. Sequer os adversários ideológicos. finalmente. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. encontrando o romancista maranhense em uma festa. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. cauteloso. que. para sobreviver. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. Daí a pouco. Palavras ao vento. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. em Londres. de boa-fé. Tomando a palavra. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. sob elogio dos seus mestres. À noite. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. Ele prometeu publicar o documento. ele poderia ter sido muita coisa neste país. de fôlego e duradoura. o prato servido foi Celso Furtado. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. seu amigo. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Por quê? Dona Aliette. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. segura de si. para que. O velho Rangel. Chegamos ao Recife. juntos. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. Roberto Viana esteve presente. que dela ousara discordar.

ligaram para agradecer. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. que conversa como gente grande. movidos a cortesia. Parabéns! Fiquei prosa. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. com os dois já no Maranhão. os Rangéis. editor da Bienal. tua filha. entretanto. muito prestigiado no ciclo cepalino. quase madrugada.. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. sem necessidade. Muito prosa. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. desde ratinho até agora. muito que te quero 98 . vai ficar deste tamanhão. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. no qual lhes passei endereços e tudo mais. em Alternativas do Brasil. aqui em São Luís. para a Dona Aliette. resguardado. sonegando. cantava toda a música “Carinhoso”. economista da Argentina. comunicada à Academia Maranhense de Letras. procede do pensamento de Raúl Prebisch. de toda maneira. Prosa e verso. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. lembrando da menina que. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela.” Terminado o café com muita prosa. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. minha filha. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. de José Márcio Rego. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. E mais: que Phaela a nada faltou. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. Antes de partirem com destino a São Luís. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais.. fui deixá-los. em termos de construção original. vovô Rangel. com menos de um ano e meio. a referência original.

vem. e. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. e. enquanto Mestre 99 . filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. vem.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. em matéria de bibliofilia. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. Conversamos à vontade. onde estavam familiares. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. inclusive o seu A Questão Agrária. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. vem. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. ficou hospedado comigo. E também Carlos Osório. fomos à Livraria Brandão. publicado aqui no Recife. respectivamente. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. O velho Mestre dispensou o hotel. não satisfeitos. trocamos idéias. foi um sucesso. A conferência. o deixou viajar sozinho. que. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. conferimos quem tinha o quê. vem. situada no Bairro do Recife. seguindo recomendações de Dona Aliette. Percorrendo as livrarias. realizada na sede da Secretaria de Planejamento.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. onde adquirimos alguns volumes. por exceção. com o qual lhe presenteei. Mestre Rangel.

só depois. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. com diversa óptica. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. ficou com algumas reservas mentais. defensor do recurso em si mesmo. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. Nada obstante. por minha posição. indagando-lhe. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. muito embora eu o deixasse à vontade. Rossini. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. o grande economista estava lívido. similar ao do Governo Federal. de maneira generosa. sobretudo quando revelou que.” E assim foi feito. em círculo restrito. comendo de tudo um pouco. e. da democracia e do progresso social. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. findo o Governo Juscelino Kubitschek. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. Na tratoria. prontamente sugeriu: 100 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. Retruquei-o. não pôde conceder–lhe. facilitada pelo concurso de duplos microfones. em seguida. como gostaria. Saber. com a palidez da angústia. na manhã seguinte. Antecipando-a. chopes e uísques antecederam os pratos principais. todavia. A explanação da temática foi meridiana. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. confessadas. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. navegou em céu de brigadeiro. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. Na saída. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. aplaudida ao final. Mestre Rangel. bastante cedo. mas temendo. houve emocionada saudação de Carlos Osório. não devendo ambos. Ele é o patrimônio da nossa família. ele e eu. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. por minha causa.

” 101 . pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. Ignacio Rangel retornou a São Luís. a criança desventurada. com o fio de espada da dialética. em 1º de janeiro de 1930. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. Do quadro teórico à formação social. e. Foi uma manhã iluminada.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. retirando dele o peso do cadáver. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. pois um morto. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. ao encontro repentino do rio e da morte. o pensador maranhense. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. sua conterrânea. Quando quase todos já tinham partido. com o pai e seu irmão caçula. desculpando o pai e sentindo-se. limites e possibilidades. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. portanto. carregando na alma o mortal sentimento de culpa. se em Paris. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. A chegada do 3 de outubro. nascido em 14 de abril de 1928. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. E ficaram ambos. infante ainda. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. em Londres ou em Nova York. Fechada a porta da frente. segundo o seu filho. nesta. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. ainda ali. a aerofogia estava vencida. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. De tudo. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. significou a surpreendente colocação. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. Em viagem de navio para o Maranhão. do magistrado revolucionário em disponibilidade. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. Quando do retorno. O pai. esclareceu fundamentos e circunstâncias. dialogamos um pouco. já volátil. o pai e ele. e ele. a favor da Revolução de 30. da estrutura à conjuntura. porém. naquele vendaval de estremecimentos. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. Ao término do café. recebeu proposta de uma rica senhora. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. desvãos e perspectivas. quase um vintém de prosa. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo.

as sentenças do pai magistrado. bem como de sua esposa Maria do Carmo . de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. entre faltas e segundas chamadas. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel. em congresso de sua agremiação política. escrita.concluída no Rio de Janeiro. sob a determinação de sua esposa. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. tê-las e segundo. à força pessoal. a datilografar fumando. porém. Dona Aliette Martins Rangel. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária.” Realizado o vaticínio paterno. não deixe este congresso sem conversar comigo. o pensador 102 . que é mais do que a sombra protetora. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. Não poderás negar. por reclamar. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. que preparava o seu terremoto clandestino. começada no Maranhão . logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. só à mão. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. primeiro. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. manejá-las. Aceita a sedutora provocação. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. Por recomendação médica. em máquina de escrever. fruto de acidente de percurso. histórica e sociologicamente. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes.para alegria de Dr. passara. O interesse agronômico. Nada obstante. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. com o seu saber velho e desatualizado. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. Mourão Rangel. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. o cigarro e a máquina de escrever. Na antiga Capital Federal. que aos quinze anos passava a limpo. isolando-o de todos. de resto. o Brasil. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. como passariam.

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. estuda. no Instituto Brasileiro de Economia. De forma autodidata. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. Chile. na capital do Maranhão. Elementos de Economia do projetamento (UFBA.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. no Rio de Janeiro. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. concluído no Rio de Janeiro. Desenvolvimento e Projeto (BNDE.1957). 1957). organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. dentre outros. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. História e Economia. 107 . 1954). Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. Sociologia e Política-IBESP. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. 1957). no Clube dos Economistas. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. no Rio de Janeiro e Agronomia. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. no Plano de Metas de Juscelino. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. hoje BNDES. com rigor. em Mirador. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. nas Assessorias de Vargas e Goulart. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. Participa em Santiago.

1959). Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). Revista Agrária. 1982). 1985). a UFMG. Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. 1960). 1979). Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. Revista do BNDE. a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. 108 . Cadernos do Nosso Tempo. 1961). Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Estudos CEBRAP. Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. Desenvolvimento e Conjuntura. e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. coligindo boa parte da sua produção intelectual. cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. 1961). 1963). Ciclo. 1987). Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. Revista da Civilização Brasileira. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. Tecnologia e Crescimento (Civilização.

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