A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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Mercedes. Não conheci Ignacio Rangel. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. 3 PESSOA. e quem sabe. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. incompletos dez anos tinha. fornecer indicativos para elas. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. o que dele sei me vem.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. Maureli Costa e Pedro Braga. Fernando (Alberto Caeiro). como o poeta há muito afirmou. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. Quando partiu deste mundo. retomamos após dezessete anos esse projeto.. Raimundo Palhano. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. tão presente.. com Ignacio Rangel. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. publicada na forma de livro. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. Se eu morrer de novo. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. como é característico do mister do ladrilhador da História. eles não o poderiam ser. que mesmo não podendo voltar até lá. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. É certo. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. 7 . que em sendo seus versos belos. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. Tem que ser assim por força. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. responder a essas perguntas ou pelo menos. Portanto. Volver A Los 17. 2 SOSA. Nada o pode impedir”3.

Os artigos identificados foram: 1. isto é. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. Maranhão: antigo e novo. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. sustentável. Ao analisar a história das guerras em “Fogo. construí-las no agora e por diante. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. Fogo. pensando GRANDE. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. Tecnologia e Custo de Produção. operação que deve ser planificada. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. o desenvolvimento endógeno. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. devemos é buscá-las no presente. ao civismo. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. Por último. eco de sua formação cepalina. não se manteve. blindagem e conjuntura e 3. todos de 1989. 2. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. Profeticamente disse “ora somente. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. 8 . quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje.

Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. Ignacio.1 (Coleção Ignacio Rangel. amigos. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. Me refiro a RANGEL. Na franja tênue entre a razão e a emoção. Entrevistado por Rossini Corrêa. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. v. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. SANTOS. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. Milton. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. setembro 2005: 9093. a poesia e a prosa. mas para nós não. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. A volta por cima de Ignacio Rangel. e 3. 5 BRESSER-PEREIRA. São Luís: SIOGE. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. familiares. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. outros quatro sobre ele são postos. Maureli Costa. 1).Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. publicados na revista FIPES. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. al. admiradores. Os do primeiro foram: 1. 4 9 . Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. O Pensamento de Ignacio Rangel. et. 2. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. dando conta das várias dimensões. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. o intelectual. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. o decifrador e o ídolo. Luiz Carlos. 1991. para alguns inconciliáveis. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. Primeira Leitura nº 43. ou melhor.

Ignacio Rangel. Ele não diz isso como que para se auto-promover. tantas coisas. São Paulo: Editora 34. Num homem só. mas por que “o trabalho era tremendo. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. não por cangas ideológicas. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. na presença dos interessados que acontecia. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. enfim. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros. Acredito no futuro. Ele será. no país. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. 2001. na sociedade exprimindo em palavras. às vezes. heterodoxo e extraordinário. com valor e atrevimento. Prefácio. conheci Ignacio Rangel. Hoje. de. podemos dizer que foram milhões. 10 . serem centenas. com Rossini Corrêa. Luiz Carlos. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. nitidamente autodidata. sem ufanismos ou covardia. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. melhor do que o passado”. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. alguém que podemos dizer que pensou antes. na verdade. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. um homem de ação. O Pensamento de Ignacio Rangel. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. participando da resolução dos mais diferentes problemas. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. o Brasil e em especial o Maranhão. Fernando Cardoso. com marchas e contramarchas. entre muitas dessas tardes que viraram noite. melhor do que está hoje. preocupado com a distribuição de renda. sua busca por caminhos e sua realização prática. se ressentem disso. 1998. segundo ele. capaz de pensar por conta própria. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. com pensamento e ação. PEDRÃO. mas um criador que se arriscava.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). BRESSER-PEREIRA. tanto vulto. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa.

advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual. dinamizando as economias locais. não basta apenas pensar antes de agir. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. mas agir depois de pensar. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. Outro eixo é o do desenvolvimento. Para tanto. isto é. É preciso inovar e inovar é preciso. que agreguem valor às matérias-primas. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. adequada às especificidades do local. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. sem perder de vista o global. Um terceiro eixo é a tecnologia. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. mas de dentro para fora. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. assim sendo. Agora a mera existência deles per si. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. Como quarto eixo – a infra-estrutura. não ocorre de fora para dentro. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. mas pavimenta 11 . significado singular do planejamento.

no dizer rangeliano. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. São Luís. Objetivamente se constituirá. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. a partir dessa Cátedra. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. Sem dúvida. ao mesmo tempo. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. atentos à realidade maranhense. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. avançamos e avançamos. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. à luz da contemporaneidade. avançamos.

65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ....................... 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL .............................................................................................................................. 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ............. BLINDAGEM E CONJUNTURA .................................................................................................. 95 13 .................. 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ................. 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL.................................................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ............................................. 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO..................................

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

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com o apoio do BNDES. Carlos Gaspar. com menos de trinta anos. Hiroshi Matsumoto. Neste lugar em que nos encontramos agora. da Academia Maranhense de Letras. Flávia Mochel. Joaquim Itapary. Sebastião Moreira Duarte. primorosamente editados pela Contraponto. Raimundo Arruda. em alentados dois volumes. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. Maureli Costa. presidido por Dilma Pinheiro. editadas e organizadas por César Benjamin. Haymir Hossoé. que nos honra com sua presença. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. com mãos delicadas de artista. Pedro Braga dos Santos Filho. nos propomos. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Luis Augusto Mochel. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. Benedito Buzar. * Economista. poderiam estar Rossini Corrêa. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. privilégio imerecido. João Evangelista da Costa Filho. e outros estudiosos coetâneos. de suas “Obras Reunidas”. durante seis anos. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. filha e herdeira do legado rangeliano. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. hoje relançado por seus idealizadores. entre nós. os conterrâneos de Rangel. sob o reitorado de Fernando Ramos. e que. Benjamin Mesquita. os fios de ouro que criaram a obra-prima. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. ajudou a tecer. inspirados pelo brilho da lua. 6 17 . no dia 22 de junho de 2005. neste lugar privilegiado. Roberto Gurgel Rocha. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. a realçar o significado e a importância do lançamento. Cursino Moreira. a partir de inícios dos anos 1980. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. Emanoel Gomes de Moura. Jomar Moraes.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Nesta noite. Niomar Viegas. jovens intelectuais como nós que. em evento do Conselho Regional de Economia. sob a presidência de Carlos Lessa. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. como Tetsuo Tsuji. Alberto Arcangeli. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. embora conhecedores das nossas limitações.

economista do BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. de modo primoroso e didático. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. historiador e. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. De forma autodidata estudou. o que já o fizemos. para ele uma verdadeira apostasia. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. aos 16 anos. A partir dos anos 50 esteve presente. publicado pela Revista FIPES. como economista. que inventaria e analisa. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. Derrotado em 1935. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. e São Luís. Foi um homem sólido de caráter. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. mas na ação prática cotidiana. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. com rigor. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. Não apenas no discurso bem construído. em Mirador. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. Instituto 18 . por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. posteriormente. no Rio de Janeiro. como jurista. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. Atuou inicialmente como jornalista. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. onde permaneceu até o final de sua vida. principalmente. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. combatendo a política econômica do governo Collor. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. nesta oportunidade. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. ideário. história e economia. Ademais. lúcida e ativamente. modestamente. edição de jul/dez de 1989. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. hoje BNDES.

Não fez carreira acadêmica nem como docente. em favor de uma nova humanidade. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. Respeitava as questões que a academia pautava. Plano de Metas de Juscelino. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. como a Revista de Economia Política. sendo um dos seus patronos. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. Um criativo produtor de idéias. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. profundos. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. 19 . Gilberto Freyre e Celso Furtado. sempre fiel aos seus princípios e valores.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. e dos maiores jornais do país. de onde era originário. um clássico do pensamento econômico. Sociologia e PolíticaIBESP. em especial a Folha de São Paulo. sociais e políticos. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. sobretudo os econômicos. Clube dos Economistas. Seu livro “A Inflação Brasileira”. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. Assessorias de Vargas e Goulart. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. como pelos ideólogos da esquerda nacional. Sérgio Buarque de Holanda. nem como pesquisador. conferências e ministrou cursos.. Instituto Brasileiro de Economia.

o grande jurista brasileiro. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. Engels. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. Juglar. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. Hilferding. Robinson. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. além de outros notáveis. com quem aprendeu latim. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. Fábio Comparato.é a sabedoria de tomar decisões”. Kitchin. presente na Teoria da Dualidade Básica. . Na economia. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. como tem sido a lamentável tendência da atualidade. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. Kalecki. Muito antes de Comparato. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. o fio de Ariadne de sua obra. como costumava dizer. como Smith. Keynes. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. José Lucas Mourão Rangel. Luxemburg. a começar pelo próprio pai. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. portanto. somada à coragem política. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. com quem aprendeu direito. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira.. Irmãos & Cia. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. ou com as matemáticas ou com a econometria. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional.. Arimatéia Cisne. Kondratieff. “A economia. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. Schumpeter. dificultaram a difusão de sua obra. Marx. Harrod.. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata.

sem nenhum exagero. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. quando vem a falecer. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. a seu juízo. a inflação brasileira. a questão agrária e o papel do Estado. o princípio organizador de suas idéias. Para decifrar o país. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. Segundo Rangel. As teses em voga. seus problemas e crises. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. sejam econômicos. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. livros e monografias. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. 21 . sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. um modo de produção sofisticado e complexo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. a dinâmica capitalista. sociais e políticos. consideradas. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. tanto da direita como da esquerda. Os processos internos da formação brasileira. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. precisavam ser revistas criticamente.

Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. sociologia. Nós. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. à convicção de que o mundo tinha saída. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. na ética e na justiça social. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. um decifrador de enigmas. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. em expedições fantásticas. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. baseado na geração de empregos. mas para poucos”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. ser rompido. precisa. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. 22 . geografia e história deste país. É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. justamente os últimos de sua vida magistral. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. mais do que nunca. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. sem o menor sucesso. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. ao contrário. Era. um anunciador corajoso. E aí ele nos levava. Sobretudo pelos seus estudantes. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. em especial à sua ciência econômica. política. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. que teve o Brasil como maior desafio. um pregoeiro destemido e sério.

Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. José Lucas e Alberto. o Velho. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. de beijos e abraços com Aliete. um relógio e uma reguinha de calcular.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. como as de Ludmila e Ana Rangel. Será. Paulo de Jesus. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. como presentes por esta festa. Evandro Lucas. Celso Augusto. Não será surpresa para nós. um compasso. nestes tempos de canalhice organizada”. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. como diria Rossini Corrêa. 23 . observados por Solon Sylvio. uma bússola. sem nenhuma dúvida. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. se. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. ao chegarmos em nossos lares.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 26 .

a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. * Economista do IPES. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). por outro lado. Procura. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. realmente relevante e inovadora. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. 1988. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência)./dez. 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. Há. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. pois. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. 7 27 . como nacionalismo e desenvolvimentismo. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. v. É um desafio muito árduo para nós.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. Convém deixar claro. elaborado em período específico da nossa história. no entanto. n. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. Com efeito. jul. São Luís.3. involuntariamente. contrapondo-se às formulações do ISEB. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. É preciso reverter esse processo. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto.2. fato que põem por terra tais tendências.

no entanto são mais recuadas. sem declinar o nível das importações. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. sobretudo. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. foi extinto em 1964. como é retratado do título. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. por ato de Ranieri Mazzili. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. Sociologia e Política (IBESP). apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. diante dessa problemática que 28 . como se sabe. nascido do antigo grupo Itatiaia. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. necessários à expansão industrial. São provas dessas modificações estruturais. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. pretensão de grandiloqüência. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. Com efeito. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. Suas origens. Não há assim. tarefa esta. e a singularidade de Ignacio Rangel. É. pela própria natureza do sistema econômico mundial. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. O que foi possível. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. Criado em 1955. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. enfim. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. atribuída exclusivamente ao setor industrial. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. por Café Filho. até então centralizada na agricultura. por aqueles diagnósticos. em obras como “A Inflação Brasileira”. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. considerada. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país.

baseava-se no pós-keynesianismo. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. vamos encontrar no seu interior. como BNDE. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. inaugurado nos anos 40. ampliado e fortalecido. seguramente a mais significativa. sejam aqueles da área privada. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. aliados à ausência de planejamento. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. e Glycon de Paiva. Do mesmo modo. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). Uma dessas correntes. divergem do seu enfoque nacionalista. (envolvendo nomes como Celso Furtado. predominantes ao longo de seu período de existência. associado ao capital nacional. Para os seus adeptos. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. e o capital estrangeiro. Assessoria econômica de Vargas. Lucas Lopes. “fonte complementar de poupança”. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. envolvendo nacionalistas e liberais. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. etc. CEPAL. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. já um pouco sintetizadas acima. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. envolvendo personagens como Roberto Campos. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. sejam da área estatal. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. com participação moderada do planejamento estatal. Ewaldo Lima. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. Tinham uma 29 . caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. Américo de Oliveira. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. em Prebish. como o CNI e a FIESP. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. contando com a participação de empreendimentos estatais. Como é sabido. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). Com efeito. Em outro pólo de interpretação. Rômulo de Almeida. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. etc.

Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. o arcaico. como o industrial. o subdesenvolvimento. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. a qual se perpetuava por erros de política econômica. enfim. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. e. Admitiam. o moderno e o urbano. Na verdade. A. Esta era a corrente socialista. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). momentos de unidade e de identificação. É. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. dentre outras coisas. não viam com simpatia o intervencionismo. para a economia de mercado. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. A despeito da polimorfia. fazendo emergir. tanto uma quanto outra não eram 30 . como Nelson Werneck Sodré. produtivos e improdutivos. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. Passos Guimarães e Aristóteles Moura. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. portanto.. que além do ISEB. aberta. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. por razão desta dicotomia. ainda que nos anos 50. a existência de setores dinâmicos e estáticos. Pois o antinacional simboliza o atraso. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. Caio Prado Jr. Ou. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. contava adeptos como o PCB. um pouco em cima das teses leninianas. assim. ou a indústria versus a agricultura. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. Ao lado de uma reforma agrária geral.

Jaguaribe. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. de cuja ação todos seriam beneficiados. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. de evidentemente. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. Além. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. a CEPAL.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. atitude semelhante atinge também o ISEB. Keynes. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. todos eles. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. Eis porque. 31 . como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). este último de enorme influência. através de figuras como Kalecki. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. aquele que defendia o não-intervencionismo. Raul Prebish. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. de outras influências mais próximas. De certa maneira. por exemplo. a rigor. Surgida em fins dos anos 40. discípulos de outras influências como Sraffa. J. assentado em bases nacionais. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. Schumpeter e Myrdal. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. em termos de filiação teórica. Robinson e Chamberlim.

atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. como especialização e processo técnico. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. 32 . ao imperialismo comercial e financeiro. com incrementos constantes de renda e consumo. a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. fortemente inspirado nas teses de Nukse. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. de maneira eficiente. quando necessário. proceder o planejamento das mudanças de rumo. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. que se nutria do modelo agroexportador). cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. não dera os resultados esperados. também. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). ao imperialismo (a rigor. dentre outros. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). contrária. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. o comércio internacional. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. baseado no comércio cambial. promover a reforma agrária. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. Longe de propiciar vantagens bilaterais. Myrdall.

como Furtado. Rangel destaca-se.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. mas não supera os marcos da economia convencional”. Igualando-se a Furtado. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). Rangel detém-se. já transparentes em outras obras iniciais. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. Desses cruzamentos. é possível encontrar. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. 4 E RANGEL. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. segundo alguns analistas. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. aqui e ali. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. É como diz Octávio Rodriguez. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. “A Inflação Brasileira”. Defende. que era. Gudin. que ele vai desenvolver essas idéias. em suas formulações. para os anos 40 e 50. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. principalmente. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. publicada primeiramente em 1963. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . simultaneamente. gestado monopolista e oligopolista. À primeira vista. “o pensamento da CEPAL altera. Contudo. Mas tal não é novidade. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. como veremos no tópico seguinte. pelas singularidades de suas análises e concepções. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. davam àquela instituição uma feição progressista. cepalino e isebiano. complexos e globais. essencialmente. não se pode negar que. respectivamente. é de se supor. Como Furtado. como bom isebiano. É justamente em sua obra mais completa e representativa. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. em relação às demais. etc. 1958). como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. que está quase sempre presente em todas suas exposições. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”.

à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). por exemplo. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. E mais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. Assim. uma vez que a massa salarial tendia para baixo. principalmente pelas massas de salários). gerava a maiores graus de capacidade ociosa. a curtos e médios prazos. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. Furtado). segundo sua análise. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. e de outro. logicamente. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). implicando em preços elevados e. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. Isto porque. Por seu turno. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. tinham. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. 34 . em uma situação como esta. o que implicaria. forma-se um grande exército industrial de reserva. Com efeito. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. assim. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. implicando em taxas incrementais de exploração. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. Os estruturalistas (dentre eles. por outro lado. 1962). elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. em função de integração entre os setores primários e secundários. o que implicava na diminuição da demanda. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. em detrimento do consumo de industrializados. A rigor. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. até nutrir aspiral inflacionária. Com isso. Assim. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário.

caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. contudo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. por força de seu próprio atraso. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. mais renda e. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. Ou seja. terrenos. onde as taxas de juros eram baixas. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. Como dissemos no começo. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. pelo rumo. Rangel reafirmava. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. Rangel. bens duráveis. chegando a dizer que. como estamos vendo. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). discordava desse ponto de vista. Trabalhando com as teses estruturalistas. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. mais consumo/demanda. etc. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. a antevisão de sua análise. nessa direção. confirma. a qual poderia até se agravar. o que. podendo gerar mais emprego.). Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. outra vez. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. um pouco ao estilo cepalino. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. logicamente.

que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil.10). ou as de Caio Prado Jr. É. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. ora pode ser. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. Segundo seu ponto de vista. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. da sua relação com a sociedade e. Logo no início de ROEN. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. por encerrar especificidades. para um “mundo só”. evidentemente.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. do desenvolvimento capitalista. Homem de sua época. sobretudo. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. trata-se. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. nesta segunda metade do século XX. publicado em 1960. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. Contudo há uma 36 . na verdade. no essencial o desenvolvimento rangeliano. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. na sua maneira de dizer. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. obviamente. 4. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. suas causas e fatores impeditivos. principalmente em “A Inflação Brasileira”. a seguir. além. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. isebiano quando desenvolvemos. obviamente. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. Eis porque. e de Werneck Sodré. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. e mais ainda. sem ser.. um caso específico de desenvolvimento . É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. pelo ISEB.o Brasileiro.

entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. retomando questão anterior. por exemplo). decorrência direta do progresso tecnológico. à internacionalização dos fatores produtivos. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. para viabilizar o desenvolvimento. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. Sedimenta essas suas observações. Mais adiante. asseverava o nosso autor. como em outros 37 . Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. Em ROEN. Começa por afirmar. que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. Sob o império dessas determinações. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. através da qual se daria a superação do atraso existente. mirando-se no próprio exemplo mundial. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. Rangel. gás xisto ou eletro-siderurgia. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. todavia. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. afirmava ele. Conclui afirmando que nesse caso. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. tem suas raízes em concepções smithianas. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. sintonizado com seu método da análise. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. comprováveis ao longo do texto. fatalmente. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso.

chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”..14). no principal fator de unidade e de soberania. Segundo ele.17). de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. as disparidades inter-regionais. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional.. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento. e simultaneamente. não é tecnocrática. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. Assim para o pensamento rangeliano. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. Sua visão do planejamento.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. Entendo-o. Isto posto. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho. Prosseguindo suas análises. criticando a posição das correntes cosmopolitas. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. no pensamento de Rangel. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. em vez de eliminar. mas para 38 . porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. Ouçamo-lo: “. capaz de reverter àquela perspectiva. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. Ou seja. porque não era para centralizar. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. portanto. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira.

Não poupa os empresários. Assim. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. ou mesmo. Feitas essas considerações. os seus conceitos para cada uma delas). soberania e planejamento (conforme. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. tem havido sempre mais fusão de classe. na história do Brasil. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. em função de importação efetivada anteriormente. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. Estas colocações não significam. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. segundo a análise rangeliana.21). e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. ao invés de eliminar. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. sobretudo. nos momentos de contração às importações. evidentemente. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . Para destacar a relevância de suas formulações. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. pois. Segundo ele. Conclui dizendo que. do que contradição. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. Com efeito. alianças de classes. as barreiras nacionais. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. mas. Chegavam mesmo a afirmar que. mas consolidação das soberanias nacionais. contudo. Este seria um procedimento inteiramente condenável. E isto ocorreria. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. além de agravar os problemas de ociosidade. que ela deveria existir. provocados por eventuais crises de pagamentos.

”) (p. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. o volume de seus investimentos. para vencer esse dilema. mais adiante. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. assim. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. assim. Apontava. Não negará. Sobre os investimentos.38). que tanto poderia obter bens de produção. Nesse sentido. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. isto é. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. Para ele.. ou a compressão do consumo.. 40 . o que. cuja utilização. do desenvolvimento” (p. sem que ocorresse a compressão do consumo. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. pelo emprego de indústria de bens de consumo. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria.” (p. do capital estrangeiro. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. em grande parte. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. dos quais depende. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. a ulterior expansão do produto nacional. ou na renúncia ao desenvolvimento. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. aumentar o que é mais importante ainda. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. prescindindo-se.38). No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção. pois. segundo ele. além de melhorar seus padrões de consumo. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. A proposta de Rangel. a seu ver. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. 41). aliás.43).

de uma hora para outra. que em ROEN. não contemplam a matéria econômica de per si. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. os segundos são ufanísticos e em geral. começo dos anos 60. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. Sem contar os riscos do paroxismo. curiosamente) tenha que passar por ali. como o da ociosidade. tratam a produção isebiana sem a menor competência. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno.Isto é uma coisa. racionais e equilibrados. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. 41 . não se sustentam integralmente. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. que. enfim. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. Embora não fale claramente. A rigor. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. guiada pela luz do planejamento. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. ideológicos. Assim. pois. liderado pela industrialização. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. de um lado. a nosso ver. invariavelmente. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. Os primeiros são mais rigorosos. de outro. representam os pontos de estrangulamentos básicos. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. por estarem legitimadas em fontes eruditas). É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. se. simplifica o problema. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. por exemplo. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. lacunar. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente.

por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. Eram também. Não queremos. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. analistas do ISEB. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. no que escamotiava a luta de classes.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. Segundo Lamounier. consciência das desigualdades. como muitos estudos parecem indicar. Não é nenhuma heresia admitir-se. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. O debate travado em fins da década de 70. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. para os anos 50. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. fazia mistificação ideológica. Não são simples mistificações da realidade. por exemplo. acima de tudo. que as suas propostas e análises da realidade nacional. é ilustrativo a esse respeito. além dessas preocupações. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. são mais progressistas do que muitos pensam. por exemplo. Acredita que. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. enquanto órgão produtor de cultura especializada. da matéria econômica. entre Lamounier e seus colegas paulistas. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. continentais e mundiais. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. Não devemos esquecer que. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. evidentemente. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). Afinal. Era por isso mesmo. seria crítica da ideologia. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. mas também a alguns outros da escola paulista.

Octávio. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. LAMOUNIER. Marilena. Industrialização e economia natural. Rio de Janeiro: ISEB. Recursos ociosos na economia nacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra. A economia política brasileira. Caio Navarro de. Bolívar. 1960. 1979. São Paulo: Discurso n. Hélio. FRANCO. 1984. CHAUÍ. TOLEDO. 1978. comme proposition pour le développment brésilien . CHAUÍ. Seminários. 1978. 1982. Marilena. 1984. 9 (Ciências Humanas). Rio de Janeiro: Poli/Vozes. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. ISEB: fábrica de ideologias. 28). A Questão Nordeste.14). 1981. Rio de Janeiro: ISEB. v. A inflação brasileira. São Paulo: Brasiliense. Celso. Gilberto. PAIM. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. São Paulo: Ática. 1958. (Textos Brasileiros de Economia. JAGUARIBE. ________. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. Rio de Janeiro: Forense. O ISEB: notas à margem de um debate. Rio de Janeiro: ISEB. v. Rio de Janeiro: ISEB. (Ensaios.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. (Estudos Brasileiros. MANTEGA. Ideologia e mobilização popular. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. FURTADO.1) RANGEL. Miriam Limoeiro. 1960. Guido. Maria Sylvia de Carvalho. O nacionalismo na atualidade brasileira. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . São Paulo: Brasiliense. RODRIGUEZ. 43 . 1957. Ignacio. 1984.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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n. de “Literatura Econômica”. de São Paulo. em homenagem a Ignacio Rangel. de 1954. este é um texto sucinto que se propõe. através de levantamentos em outras fontes. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. no Rio. no Brasil.2. elaborada em 1953. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. Na verdade. sobretudo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. n. jul. ampliada e atualizada pelo autor deste texto.6. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. de 1957. Isto porque. conferências pronunciadas em 1955.2. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. v. 1989. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. se conseguir. tanto em extensão quanto em conteúdo. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. O título deste texto é pretensioso. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. pelo ISEB.ENE. 47 . monografia de conclusão de curso na CEPAL. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”. cuja primeira edição é de 1959. correspondente ao período 1955-1985./v. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. São Luís.4. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. no IBESP. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. tendo merecido edição recente da Editora Bienal./dez. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. [5] “Elementos de Economia do projetamento”.

publicado pela Editora Bienal. de R. no campo da Economia e das Ciências Sociais. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. de 1982. Recife-PE. publicação pela Civilização. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. está arrolada. de 1961. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. Boyer. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora. Rio de Janeiro-RJ. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. São Paulo. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. de 1987. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. no ISEB. Estudos CEBRAP. Inglaterra. Revista Agrária. publicada pela HUCITEC. Revista da Civilização Brasileira. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. tais como Digesto Econômico. 48 . editado pelo Tempo Brasileiro. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. publicado pelo CONDEPE. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. em 1960. [12] “Ciclo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”.C. de Paris. [7] trabalhos de fôlego.J. Cadernos do Nosso Tempo. Desenvolvimento e Conjuntura. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. Tecnologia e Crescimento”. originalmente de 1963. período de 1983 a 1987. em cuja tese de doutorado. a UFMG. reeditado posteriormente pela Zahar. abordando a economia brasileira durante o regime militar. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. Brasiliense e Bienal. reunião de artigos. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. reunindo textos selecionados. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. [10] “A Inflação Brasileira”. defendida na Universidade de Leicester. no Rio de Janeiro-RJ. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. publicada no Rio pelo BNDE. Revista do BNDE. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. de 1959. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. de 1985. atualmente na 3ª edição. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. Rio (RJ). na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. estando próximo da 10ª edição.

Quando redigiu. 1989 (39 artigos). estudos e projetos. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. ensaios. Rangel publicou 247 artigos. 1987 (32 artigos). e em termos gerais. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. a obra de Ignacio Rangel. a jornais e revistas especializadas em economia. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. ainda não foi inteiramente trabalhada. São pareceres. de Keynes. relatórios técnicos. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. em seu trabalho citado. Em 1957. a saber: 1983 (25 artigos). Inscreve-se como uma resposta 49 . 1990 (23 artigos). com alguns retoques. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. palestras e depoimentos. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. onde tem veiculado sua produção. entre 1983 e 1990. Isto posto. Não menos volumosa é sua contribuição. só na Folha. A despeito de suas proporções consideráveis. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. em sua extensividade e profundidade. O que constitui sem dúvida. que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. originalmente. 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. podemos dizer. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. nos últimos 10 anos. 1986 (26 artigos). perfazendo. em 1953. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). 1988 (15 artigos). 1985 (83 artigos). e até de universidades estrangeiras. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. 1984 (24 artigos). entrevistas. interessadas em ouvir suas conferências. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. foi publicada pela primeira vez. Segundo nossos dados.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. de Smith. Isto longe de desmerecer. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. São artigos.

Para efeitos analíticos. com o qual se definia o 50 . o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. que articula as teorias dos ciclos. [4] Tese da Questão Agrária. contida em seu famoso livro do mesmo nome. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. no Brasil. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. Em 1981.. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. o qual. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). [2] Tese da Dinâmica Capitalista. Mantega. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. social. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. out. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. como Monteiro de Castro et Belshowsky. com extraordinária clareza. político. Rangel. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. ainda hoje. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. inquestionavelmente. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. Tolmasquim. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. transformada. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. no sentido da superação do capitalismo. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. pela sua densidade analítica. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. [3] Tese da Inflação Brasileira. desenvolve. é o maior dos pioneiros. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. o da “dialética da ociosidade”. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. apoiados em Kondratieff. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. Davidoff Cruz./dez.

bem poucos. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. com rigor. um ano após seu ingresso no BNDE. historiador e.. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. do qual foi presidente no início dos anos 80. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. textualmente: . ao longo dos últimos 30 anos. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. que o motivo 51 . no Rio de Janeiro e Agronomia. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. na capital do Maranhão. Chile. Seu lado mais conhecido. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Dono de uma obra monumental.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. De forma autodidata. Castro et Bielchowsky afirmam. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. pelo Instituto Brasileiro de Economia. principalmente. cit. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. Pela envergadura do seu poder criador. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. participa em Santiago. em Mirador (MA). convictamente. posteriormente como jurista. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”.. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. “Ignacio Rangel se tornou. Tolmasquim (op. original e inovadora. atuando. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. História e Economia. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. Em 1954. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. estuda. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. onde ocupou a função de membro consultivo. como economista.) afirma. Gudim ou Conceição Tavares.

atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. O pioneiro. ricas metáforas. que. no clube dos economistas e em centros universitários. onde chefiou o Departamento de Economia. como o militante político. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. Há o Rangel militante. mas. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. a teoria da inflação. mas pouco destacada. além do assessoramento a Presidência da República. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. Fora do setor público. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. as propostas pioneiras à época. 8 anos de “domicílio coacto”. Que. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. de domicilio forçado em São Luís. fina ironia. Como conseqüência do levante de 1935. dono de um estilo invejável. sua militância foi também relevante no ISEB. Em meados daquela década integrou a ANL. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. Suas análises. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. igualmente. as análises sobre reserva de mercado. do movimento de 8 de outubro de 1930. Com apenas 16 anos. um escritor refinado. pegou dois anos de prisão e. quase sempre. vêm recheadas de erudição histórica. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. como o de tornar público o seu pensamento. de repente. a vários ministérios e governos estaduais. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. em seguida. Sua face reconhecida. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. autêntico e destemido. na introdução de seu livro “Economia: 52 . participou. Aqui também sua biografia é expressiva. em São Luís. O criador original. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. Há o Rangel pensador. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965.

vem. a SUMOC. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. quebrando esse adágio. Neste particular. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. preferindo semear na planície. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. envolvendo UFMA. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. do IPES. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. de vida. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. Há ainda um Rangel muito especial. aos poucos. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. hoje Banco Central.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. Instado pelo então presidente Goulart. voz que muitos escutam ou querem ouvir. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. no dia em que completava seus 50 anos. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . desde o início dos anos 80. O Rangel profeta. O Rangel funcionário público. Já de algum tempo. vinculados ao IPES. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. Com efeito. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). Em 1989. Rangel. honrado e agradecido. Além disso. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. O Rangel conselheiro. como ele mesmo confessaria. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. Há ainda o Rangel missionário. aliás. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. Rangel em relação ao Maranhão. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. recusou o convite. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. quando foi preciso. quando era para dizer e disse não. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. O cidadão que soube dizer sim. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público.

porque Rangel é um otimista. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1.. Feliz. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. como bálsamo e esteio.411. minha voz faz eco”! Faz. a produção e a obra do economista maranhense. ouvi-lo dizer satisfeito.1951. Oportuna. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth. Ao seu lado.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. 54 . Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”. entre modesto e orgulhoso. enfim. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. Aplausos companheiros. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. verdadeiramente. magistralmente. sim. o Dr. Finalmente o dia de hoje. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão.. cujo sentido é o de difundir. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. através da Secretaria de Cultura. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. Aplausos que eles. Crê no país e em seu povo. fez e continuará fazendo. de 13. falando a um grupo de admiradores. os merecem! Sumary In this article. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. Sua marca é o nascimento e o humanismo. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. Em sua última visita a São Luís.08. modernização e democracia. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. desenvolvimento econômico e justiça social. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. “Parece que. através de livros. sim.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO Ignacio de Mourão Rangel 55 .

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Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. Economista. 1989. v. O navio a vapor viria romper esse isolamento. Por outras palavras. 1. Quase isolado do resto do Brasil. um modo mais avançado de produção. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. como era natural que o fizessem. começo dos anos 60. isto é. estes usaram sua liberdade. Com efeito. O Maranhão foi como é sabido. mas um passo atrás. já o vizinho Ceará havia. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. e a Amazônia. Um dos fundadores do BNDES. São Luís. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. que era terra de ninguém. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. uma das províncias mais ricas do Império. libertados os cativos. ao comunismo primitivo. Não por acaso. de fato. não se havia cumprido no Maranhão. mas o retrocesso à tarde e à cubata. inclusive. do que do Rio de Janeiro. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. ou melhor. 4. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. era a Atenas Brasileira. desde os tempos do império. Autor do clássico A Inflação Brasileira. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. contrabandeados para o Sul e. Mas restava outro fato. O Maranhão. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. os quais eram. Não a passagem ao feudalismo. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. um modo superior de produção. jan. Mas significava que a economia cearense. * 9 57 . Assim. para o Maranhão. Quando chegou a 13 de maio. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. não raro./jun. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. n. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris.

nessa ordem tinham 15. Somente por meados dos anos 60. entrou a caminhar. para a préhistória. suponho Engenho Central. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. Especialmente a Guiana Maranhense. no Maranhão). inclusive. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. da Bahia e de São Paulo que. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. voltaria a começar a crescer. quebrando nosso isolamento dourado. Queimada a mata uma vez. segundo o Prof. a passos largos. meias e cânhamo. Além das fábricas de fiação e tecelagem. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. É certo que. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. 14. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. Era outro processo que se abria. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. Turiaçu e. aí por 1895. Entrementes.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. como Alcântara. entraram em decadência. na composição da mão-de-obra escrava. somente. 12 e 10 fábricas. isto é. O migrante do 58 . Seguindo-se a Minas Gerais. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. A epopéia rodoviária. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. no corpo do Brasil. Mas o surto agrícola. Assim. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história. especialmente em São Luís. Com efeito. A seca de 1958. demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. compensou com sobras essa perda. Burgos ricos. a área ocidental do Estado. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. pela ferrovia São Luís-Teresina.. inclusive de lã. Assim. além de flagelados nordestinos. somente em 1960. deu um golpe fatal nesse parque industrial. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. no Nordeste. Demograficamente. etc. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. raros no Brasil de então. com a indústria do Nordeste oriental. nas cinzas da velha mata.a Abolição representava um formidável passo à frente.

sociologicamente. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. que estava desocupado. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. ao que ouvi. em minha recente passagem por São Luís. em nossos dias. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. Jânio Quadros. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. não deve ser estranho a esse processo. porque ao contrário do cerrado. Essa utopia. O surgimento do Estado do Tocantins. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. penetrara no Maranhão. Mas. este último expelido pelo boi. sendo Presidente da República. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. Aí por princípios dos anos 60. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. muito mais gregário. o que implicava numa colossal economia de material. a caatinga não está. Na seqüência natural deste. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. toda a área por uma única cerca. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. que é a penetração do capitalismo no campo. Vi roçados nordestinos. não raro emitia outro parecer. isto é. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. não estava fora de cogitações. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. sob. Lembro-me de que. são as áreas problemas do país. que eu o saiba não teve seguimento e. mas protegida. envolvendo todo o município. para encerrar essas notas. Um pouco mais demoradamente. O Porto do Itaqui. conversando sobre esse processo – na primeira fase. na direção geral 59 . atendendo a uma ordem do chefe do governo. depois. Os vastos campos da Baixada Maranhense. que começava na Paraíba e. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. havendo cruzado o Piauí. Uma cerca única. Bacabal é hoje um município pecuarista. eu. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. que havia em seu Estado. fileiras de mamona. com água dos rios que formam o Golfão.

Sabemos. que Carajás. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. Ora. hoje. esteja preferindo. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. Ora. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. e em Vladivostok. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. Hoje. na direção geral de Callao. respectivamente. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. 60 . as ferrovias canadense e transiberiana. nada menos. a Floresta Amazônica. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. apenas começando. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. isto é. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. Como meio de transporte – excluído o duto. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. tanto mais quanto. (A menos que. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. somente pensando GRANDE. Com uma peculiaridade: que. do Rio Fresco. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás.maio/89 . Por outro lado. em vez de indústria leve. a saber. com antracite. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. é indústria pesada o que teremos. Minha recente viagem ao Maranhão . a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. Há muito que sabemos que.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. Embora geograficamente situado no Pará. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. que não impediram o lançamento da BAMUR. para Açailândia. combinadas. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. poderá confluir o gás natural amazônico).persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres.

61 . em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. depuis lês temps de l´empire. Os quais nos apontam uma posição de elite. herdados do antigo latifúndio feudal. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. O Brasil unifica-se. e imperativos geo-econômicos. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. cada vez mais energicamente e. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .

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ante o poder de fogo da infantaria. pela imposição da guerra de movimento.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. com a propriedade de poder mover-se. de caso pensado. de Epaminondas. porque. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. contra Dario III. Era uma verdadeira fortaleza. Ainda na antiguidade. a tecnologia. Os esquadrões de cavalaria. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. Paulo Emilio./dez. 4. portanto. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. contra multidões asiáticas incontáveis.). como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES.) ganha por Alexandre. Esse dispositivo buscava. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. 2. entre uma guerra e outra. da Pérsia. jul. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. em campo. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. v. Em Arbelas. não para o sitiado. Em nossos tempos. ao longo da história. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves. Alexandre colocou a falange macedônica. travou-se. Refiro-me a Canas. Ao contrário de grandes exércitos. contra fogo. 6. ganha por Aníbal. escalonados em profundidade. BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes./1989. culminação da arte militar helênica. prenunciando guerra de movimento. n. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. responsáveis pelo choque e. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. e. como vem acontecendo.c.c. dotando a infantaria de armamento leve. e Canas (216 a. 65 . o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. n. Economista. deixar-se cercar pelo inimigo. revelaram-se inanes. 2/ v. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. na guerra como na economia . São Luís. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. provavelmente aprendida por Felipe. contra o cônsul romano Paulo Emilio.

Assim. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. não se perdia. porque Aníbal. saiu mal aos romanos. por ter feito. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. Como em Canas. inspirado. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. nos versos do nosso grande Bilac. Não há como não pensar nessa possibilidade. nem pedra de fundo. no exemplo de Alexandre. Ora. formando um saco. isto é. o expediente por muito brilhante que parecesse. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. Com efeito. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. sob a forma de “blitzkrieg”. como os nazistas depois de Stalingrado. sendo mister resistir a este com artilharia leve. por interpostas pessoas. exposta ao fogo aéreo . sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. já com as tropas romanas em movimento. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. naturalmente. certeza arrecadou. com os Estados Unidos à frente. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. ordenou a inversão do próprio dispositivo. o quadro da tecnologia inverteu-se. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. plausivelmente em nossos dias. do tipo Arbelas. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. o qual teve que bater-se em retirada. em última instância. o imperialismo. nem flexa. nas alas. em Arbelas. Em Arbelas. nem. “by proxy”. em campo aberto . levaram a resultados diametralmente opostos. O tanque. convertido em saco. Já não era mais assim no final do conflito. que as alas de elite cartaginesas fecharam. de pouca confiança. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. lança. Assim.

entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. nas condições presentes. no campo de batalha. O que nos levaria. Ora. como Alexandre em Arbelas. dizíamos. no caso da indústria bélica. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. que justifiquem a produção em série. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. a buscar Arbelas e não Canas. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. porém. em vez de. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. O meio século que está por concluir-se. Em conseqüência. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. não obstante o terrível preço pago na tentativa. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. seguiu-se uma guerra de movimento. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. Ora. depois de Stalingrado. isto é. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. até Berlim. não fez senão estruturarse. como seria de esperar-se.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. Ora. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. O exército soviético suspendera sua ofensiva. O cerco. Para isso. nas batalhas passadas. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. como vimos essas batalhas. Em Kursk a maior batalha da história. pelos russos. não se consumaram. Com efeito. com os russos metidos num saco. na espécie. . 67 . da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. ou ao contrário. mas no fundo. com defesas escalonadas em profundidade. Sabemos. e consolidada em Stalingrado e Kursk. que os nazistas não lograram romper. Paradoxalmente. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. ao qual faltava apenas amarrar a boca. é a mesma coisa – esse meio século. de então para cá. as batalhas típicas do último conflito mundial. uma “blitz”. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. no futuro. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. a história não parou aí. mesmo depois de Kursk. agora. que os nazistas não haviam aprendido a lição. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir.

inclusive a presente “Guerra do Golfo”. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. mas ao contrário do Pentágono. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. no mínimo. a fortiori. mas o modesto MIG-15. que não tiveram tempo. para variar. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . mas. barato (porque produzido em série).A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. por exemplo. nesse Estado Maior. nem as batalhas econômicas nem. apesar dos gorbatchovos. por equipamentos inovadores. escondê-lo consigo. isto é. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. foram eles os perdedores. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. o Estado-Maior Soviético. consequentemente. todos os dias. como o noticiário nos está mostrando. não basta para alterar o quadro histórico básico. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. Na Guerra da Coréia. os soviéticos deram aos coreanos. Por isso as batalhas da história são ganhas. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. Assim. os vencidos. porque “resolvem” problemas pretéritos. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. Quando não uma tolice. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. é como se já tivesse acontecido. por isso. são simples e toscos. geralmente. tampouco. inclusive em nossos dias. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. não problemas vindouros ou. Ninguém. ou num simples buraco. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. do ponto de vista da arte da guerra. o Estado-Maior Soviético. mas. O Pentágono e. sequer correntes. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. não bombardeiros ainda modernos. uma temeridade. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. novíssimos. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. na batalha de Canas. que talvez não aconteça nunca. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. de fato. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. um pequeno avião. ainda para refinar-se e. mas que. Nem se ganham. como todos devem estar lembrados. Os norteamericanos. ao que parece. ao que se sabe. numa trincheira. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. como aquela que. porque tudo se faz em sua intenção. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. árcadios. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. Na Coréia.

surgido no estágio final da segunda grande guerra. havia ou quase. uma versão tosca de armamento anti-tanque. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. A Segunda Grande Guerra. como disse o nosso Brigadeiro Piva. isto é. serviços públicos e monumentos. Como foi na Coréia. para as posições de partida. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. evidentemente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. Ao que noticiou a imprensa. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. Mas é apanhado de surpresa. Como. em “blitz” ao Rio Yalú. eventualmente. pouco antes da Guerra da Coréia. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. para ganhar guerras. tiveram que bater em retirada. no anterior conflito mundial. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. por causa do seu refinamento de fabricação. estava cumprida quando. no paralelo 38. nem a bomba de hidrogênio. já provado antes. assim. no passado século-e-meio. Uma sucata “moderna”. depois de chegarem. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. quando se trata de partir para a terceira.. Ora. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. no Camboja. acontecido com as armas químicas e biológicas. surgiram as armas nucleares soviéticas. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. para matar gente. como um gigantesco produtor de sucata. tratava-se de um foguete. de onde não mais se moveram. Não para aniquilar exércitos. E. no Vietnã. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. não tanques “ainda mais modernos”. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. na fronteira com a Sibéria. que não podem. seria mister ocupar o Iraque e. “refinada”. proteger-se por detrás do escudo 69 . Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. Para vencê-la. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. a missão estratégica desse aparelho. “reluzente”. no Afeganistão.. isso não seria fácil. nem mesmo na minúscula Nicarágua. pois já invadira três vezes. ainda nem a bomba atômica. é que este está excelentemente preparado para ganhar. mas sucata em todo caso. o MIG-15. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. como às vezes é mister.

de quebra. muito mais. na Alemanha nazista. pelo menos ao primeiro exame. isto é. Com efeito.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. simultaneamente. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. ainda mais. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. o caso do Iraque. portanto. ou ciclo longo: o 4º. o mago das finanças de Hitler. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. no decênio final da dita fase recessiva. ou quase. Ou a recíproca é que foi verdadeira. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. a humanidade ingressou. porque atravessam. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. Os homens e mulheres que. e o Plano Quadrienal. no Brasil. não apenas no campo econômico. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). que estão beirando os oitenta. nos Estados Unidos. para o Mercado Comum Europeu. O armamentismo e a própria guerra. como 100. são jovens e. Com a paz tivemos. tivemos a emergência do fascismo. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. estão vivendo a sua segunda fase “b”. carregado de significado. para o Japão. como está sendo. do Dr. que América Latina (inclusive Brasil) e. para a América Latina. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. com essa depressão. atualmente. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. Em 1973. 550. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade.6% ao ano. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. Ora. Ou na medida em que não possam. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. para comparação com os dados supra. falam em nome da ciência econômica. nos cinco lustros da fase “a”. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. ou 4. abriu-se. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). em 1973.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. porque às vezes o podem. ou 7. num esforço ligado ao nome de Keynes. a taxa média de 70 . Von Schacth. O índice para a América do Norte passou a 305. os economistas. 449. aparentemente. é tempo de que nós. ou próspera do 3º Kondratiev. na presente guerra. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. nos concílios do estado. Os homens de minha geração.6% ao ano. ou 6.0% ao ano.6 % ao ano para a União Soviética. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. Nos primeiros anos do decênio de 20.2% ao ano.

antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. o da União Soviética. caiu a 4. os valores caíram a níveis negativos. Para começar.2 %. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. e um renascimento do fascismo. a saber: uma crise econômica profunda. promovida pelo Eixo Alemanha. Apenas. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século.5% ao ano. o do Japão. de fato.6% ao ano. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. E Jorge Dimitrov. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. o crescimento industrial da América do Norte. quando vemos essa coalizão de 28 países. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. Há meio século. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. Ora. ou melhor. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. uma guerra mundial aparentemente em marcha. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. segundo o qual a história dificilmente se repete. Em média. não há como pensar nisso. naturalmente. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. deram-nos um modelo de 71 . incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. foi tragédia. passou de 2. e. Mas também. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. a 3. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. a 3.3%. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista. o Iraque. do ponto de vista econômico. isto é. disse ele aproximadamente. da primeira vez. e Japão de nossa época é flagrante. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese.1% ao ano. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. esses temores foram esquecidos. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. está em gestação”. O Mercado Comum Europeu. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. “Uma nova vaga fascista. Afinal. Itália. o do Brasil. a 1. Passando o conflito. do antigo mundo socialista. isto é.4% do ano. Estamos. porque no lustro intermédio.

Somente mais tarde. supostamente invencível. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. de Mussolini. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. o general Giap. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. Ora. comandante do exército vietnamita que. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. Com a mesma diferença. do “Golfo”. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. O Brasil. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. Isto é. está fazendo eco ao surto fascista mundial. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. num enquadramento francamente corporativo. para o dito desfecho. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. 72 . porém. Em suma. nossa experiência “collorida” de fascismo. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. ao subir ao poder. Só para exemplificar. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. nem. promovendo um direito trabalhista que. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. Soares Pereira. Naquele tempo. como naquele tempo. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. mais que. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. isto é. e calcado nas instituições medievais. – Do que jamais me arrependi. vale dizer. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. nós. como na França de 1789. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. agora nos chegam. por exemplo. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. não tem nenhuma grandeza. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. os homens de esquerda. Muito mais tarde. difícil de explicar. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. não há como pensar nisso. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. corporativas. respondeu que aquele fora um fato complexo. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. a construção do capitalismo industrial aqui –.

que aí temos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. Conto estas coisas. Para meu conhecimento. batendo todos os recordes. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. 6. e como o epi-fenômeno que é. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. que temos o dever de preservar. fizme conspirador e soldado voluntário. – Getúlio. Quando da Revolução de 30. francamente parecera temerária. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. cresceu 26. da recessão e do desemprego. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. consequentemente. havia sido meu comandante. partindo das condições de uma economia mundial deprimida.9 vezes. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. o Brasil e a União Soviética. Com efeito. prócer aliancista maranhense. somente dois países. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars. On the contrary of big armys. o mais próspero dos países capitalistas.9 vezes. procurando corroborar a ação de meu pai. ao primeiro exame. a do Japão. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. a do mundo capitalista. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. 73 . 13. que estivemos construindo. dei razão. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. como chefe da revolução. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. eu fora getulista por um breve momento. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. no mesmo período 23. fazendo jus a toda minha lealdade. com escassos 16 anos.8 vezes. isto é.5 vezes. É esta formidável potência.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

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sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos./v. secretário geral da CEPAL. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. fiz-me um economista fora de série. para ficar./dez. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. e o segundo. 77 . naquele tempo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. da firma Martins e Cia. n. sobre meu desempenho. que aprendesse mais depressa do que tu –. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. Quando me despedi de Mrs. na firma Martins. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. diretor-presidente e chefe do escritório. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. Outros mestres assim. nada sabiam de Direito e. no curso de inglês. Minha experiência.4. n2. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. radicada em São Luís. latim. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. no período.2. como em muitos outros países. 1989 Economista. a começar por Rui Costa Fernandes. Irmãos e Cia. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu. Talvez por estas e outras. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. Mas nunca encontrei ninguém.. v. mas viúva de um comerciante português. sobretudo. Imagine-se que. Silveira – aí por 1940. ao lado de João Vasconcelos Martins. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. jul. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. Mas não fizemos isso.6. preparou-me para entender o que. haveríamos deixado que. a depressão criasse raízes. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. São Luís. em São Luís – dela ouvi este julgamento.

Sem isso. Não foi por acaso que. nos três decênios 1956-86. por essa via. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. o que constituiria um absurdo. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. sendo elas próprias parte do Estado. visto como. não houvéssemos criado condições de investimento. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. na velha escola da Rua do Sol. no período. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. isso me pareceu impraticável. Isso significava que. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. Araújo Costa. possibilitariam coisas ainda impensáveis. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. diretamente.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. esquina com a travessa do teatro. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. nos quadros da reserva de mercado. como a União Soviética. eu já sabia. na época. que não teriam acontecido se. a receita pública com a qual o 78 . Com efeito. até por que eu próprio lhe havia explicado. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. opus-me ao esquema da Eletrobrás. a implantação de um Departamento moderno. a eletrificação – e. pelo menos durante algum tempo. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. dentro e fora do país. isto é. como sei ser o seu caso. não preciso de aduladores. A equipe conhecia esse mecanismo. de um modo geral. mais do que o dobro da média mundial. Ora. Rangel.5 vezes. nossa produção de eletricidade cresceu 12. Entretanto. mas de homens que. Ao primeiro exame. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. a renda gerada pelos investimentos privados. sem outra garantia senão o aval do tesouro. uma receita estatal que. então. Noutros termos. com uma receita pública cuja origem era afinal. a exemplo de Tucuruí. – Como assim. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos.

79 . esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. Entretanto. atravessamos uma crise. Ora. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. estaria surgindo ex nihilo. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. do nada. Noutros termos. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. sob certo ponto de vista. hoje. mas teria sido pura ilusão esperar que. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. Naquele tempo. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. para isso. isto é. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. isto é. o custo de produção. a mesma. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. dos países mais avançados do mundo. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. Naquele tempo. como abri-las. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. Como venho insistindo. no Brasil. com o resto da economia mundial. nas condições do emprego desse fator congênere. a renda nacional poderá crescer. as reservas retardatárias. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. não obstante o atraso tecnológico. contrabalanceado por outro. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. mesmo que. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. Hoje. Com efeito. no fundamental. Parece predominar. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. a saber: hoje.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. para a empresa. as condições persistem. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. como então. se um fator de produção está desempregado.

it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology. 80 . while.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

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* Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. disputando com o ponteiro dos segundos: água. aliás. Voltei para atendê-lo.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. Acordar acordei.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. varava as persianas do pequeno apartamento. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. o jornal político. escova. não sou amigo do Rei. Mal toquei o aparelho.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. a completar seis anos do dia em que foi. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir. mais do que ver. cueca. como vais? Quem está falando é Rangel. pão bolorento. um morto querido – meu tio. Estava de saída. carregando comigo. Quase pronto e pensando no trânsito. sabendo novamente ser a República. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. tragicamente. rítmico. creme. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. prossegui. calça. Membro da Academia Brasiliense de Letras. não recordo se na Globo ou na Manchete. 12 83 . dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. sabonete. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. por dentro. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos.. barba. Mais depressa. Tanto quanto possível. como me pus de pé. a chave girando na porta.. lâmina. bela viola. dentes. com a sua linguagem trêfega. trazendo o seu cortejo de surpresas.. disparou: – “Alô. toalha.. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. pois. A móvel manhã quente e derretida. camisa. coisa. mesmo estando em Pasárgada. Não só acordei. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. Rossini. quando escutei o alarido do telefone. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . por fora. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. Eu estou aqui em Brasília. desimportante. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. aquela voz inconfundível. dias 13 de junho de 1988.

A bem da verdade. Volto hoje mesmo. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso.” 84 . Tenho trabalhado muito.” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. Muitos foram meus estagiários.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou . é uma espécie de banco legal. tudo bem.. – Sei. e hoje há gente ocupando altos postos. Vi este pessoal todo entrar no Banco.E tive que parar um pouco e ficar.. mas não estou largado. o encontra”... que está comigo. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil. e ela. que eu ajudei a formar. junto com Aliette. eu deixo o Hotel. no BNDES. – “. Vai-se levando.. saber que eu estou velho. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. no mais. aqui no Hotel” – . É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra. às 15h. dando assistência para a minha filha Liudmila. Perdi o meu genro domingo.. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. algumas tristes.Então. de tarde.. – “É isto mesmo. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas. quando vence a diária... prontamente. Professor! – “Porém. É uma grande alegria para mim.. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia.. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades..No Hotel Nacional? Não. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. ainda não tenho. cargos de direção etc.” – Que bom..” – Que pena.. – Perdeu? Que pena. nosso ponto de encontro de sempre.

Ela. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. Tanto quanto.” – Até mais. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa.Almoçar juntos? – “Sim. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício.. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. De qualquer maneira. no Hotel Nacional. eu vou ao seu encontro no. pois eu pensei que nós pudéssemos. eu vou para o serviço agora. – “Vai trabalhar. Rossini. na chamada Intentona Comunista. nos encontrar e . de qualquer jeito. passei pela Secretaria Geral do MinC. Em seguida.” – Sem dúvida. Eu gostava muito dele.. – “. que lamentável.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro.. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. rapidamente. No aeroporto? Bem. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. então. e almoçamos juntos.” – Vou.. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. Flávia Galiza. a terceira convidada solicitou 85 . Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. ou até mais do que eu. Professor. – “Até mais. Até mais. Ele realmente merece uma pesquisa. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. Flávia Galiza e eu.” – . boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa.. Um abraço para ti. pois ele tem de ser é anticomunista. telefonei para uma convidada minha... ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. Olhe. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro.. conversei com Flávia Gomes de Galiza.. Decidida a documentar o encontro. quem sabe. preso em novembro de 1935. ao qual não basta desgostar do comunismo. ficou vibrando. – “Ah.. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. Um grande abraço para o senhor. compreendeu. neta de Jesus Norberto Gomes. contudo. gentil. que era um burguês diferente do burguês brasileiro.

foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. que integrou o primeiro Ministério da República. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. Necessitado de um paradigma. Aplaquei-lhe os justos reclames. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. Passando recibo ao meu desafio. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. editada por Jorge Zahar. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. Vi olhos marejados. em contrapartida. discorreu a respeito de projetos de livros. A marcha batida deste. No horário combinado para a saída. a economia. em animada conversa. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. com vivaz prosápia. e de outros afazeres literários. e confessou. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . em substituição à afoiteza que lhe é característica. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. em companhia de Dona Aliette. o livro Economia Brasileira Contemporânea. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres. Aceito o convite. o evento foi encerrado. reunindo textos esparsos e inéditos. no mínimo. com a alegria de haver recebido. Sem demora. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. reagindo bem. a pequena comitiva partiu. a política e a história do Brasil. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. neto de Demétrio Ribeiro... Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. tornada um clássico das ciências humanas no país. autografado. como o de perder avião. sobre a sua produtiva atitude intelectual. Celso Furtado. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. Eu o provoquei. No intervalo. Chegamos. de onde marchamos para a beira da piscina.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. À beira da piscina. Fui buscá-lo à entrada do auditório. premido pelo horário. Ignacio Rangel sugeriu. que fôssemos almoçar no aeroporto. o aguardamos. no auditório do Hotel Nacional. a propósito da necessidade da reedição da obra. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. também dos quadros superiores do MinC. onde evitaria contratempos. no caminho. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. Chamei-a. E o velho Rangel. logo tomamos a direção desejada. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. Realizava-se ainda o colóquio. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e.

O testamento vai ficando para depois. A facúndia do visitante. Ao chegarmos no amplo ambiente. com a ajuda material de Jesus Gomes. Chegada a sobremesa. ainda. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935.” – A redação de sua autobiografia.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. Sentamos. à frente de Flávia Galiza. com uma introdução atualizadora. Rossini. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. Tempo houve. agora. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. Mas o senhor pode reeditá-lo. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. em uma autobiografia. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. intitulado Dr. as quais. mergulhou em um mundo de lembranças. desaguando na divulgação do seu opúsculo. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente .saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. Ignacio Rangel. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. Conseguido um lugar no estacionamento. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez.” Chegamos. voltando-se para mim.” – Entendo. Afinal. com Isabel e Epitácio Cafeteira. o que é uma necessidade. enfim. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. o propalado ateísmo. que não é habitual. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. seriam depoentes abalizados a seu respeito. Trocamos apenas olhares. deparamos. declinou nomes. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços.. o viajante. – “Esta é uma boa idéia. a prisão política em 1935. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. tanto quanto ele. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. referente à crise nacional. ao centro. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. o Juiz e Professor Mourão Rangel. a sua ligação com os comunistas.. 87 . sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. E confirmou. Mourão Rangel.

E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. A despeito da nova e moderna construção. pois não passava bem. Tornam os pobres à estrada. estendendo-se a texto poético. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. Mas saltam dois cães de gado. concluída a sua palavra. que nela. funcionou uma escola particular. de acordo com ensinamento de véspera. Tomado por violenta emoção. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. que todo o dia Tinha levado a anadar. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. com a metralhadora da memória ligada. de plano reconstruído e de declamado. Diz o filho: "Oh minha mãe. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. feito por sua mãe. logo acusando a lembrança em seu discurso. fundada por Mourão Rangel. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. Como um sopro. A. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. 88 . de O. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. verso por verso. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. Neste. o velho. em época pretérita. Como se não bastasse. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. no Dia da Pátria. no longínquo 7 de setembro de 1922. em companhia de sua esposa. educava os seus e os filhos de terceiros. é lusófilo. Aos oito anos. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. Chegando ao Rio de Janeiro. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. o velho Rangel. Ignacio Rangel identificou a localidade. episódio de há muito esmaecido.

” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .. ..Boas noites.. caçador! . Até um dia.Se os cães deixarem."Quem vem lá?.. caçador!” 89 .. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" .. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . A triste n'um riso amargo). lavadeira! .Que importa. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira.. Que ainda é perda maior.Boas tardes. (diz ella. Vendo a sua esperança vã.Talvez que fosse melhor.. lavadeira! . Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!.. Perdereis a caçadeira. dessa maneira.... Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? .Olhai que. Com effeito a sentinela: .Boas tardes. É escusado.Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira.. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho....Boas noites. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira. senhor! . senhor.

por suposto. declamou verso a verso a extensa peça literária. os quais.. deixando em todos. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. de onde viajaria com destino a Brasília. Almoçamos sem que Roberto Viana. beijos e despedidas. pois este só despontaria em meados da tarde. 90 . a caminho. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. a cidade. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. foram passos rápidos. porém. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. Conseguimos ainda. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. cobrando detalhes do texto do poema. Inteligente. fugaz. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. Secretário de Governo. partimos em direção ao setor de embarque. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. com a sua passagem. entre outros. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. Divididas democraticamente as despesas. retidos em Itamaracá. abraços. aparecesse.. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. o doce vestígio de uma presença. tardaram. Que tive mãe e.. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. para sempre. o Recife. e 1991. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. entretanto. de João de Deus. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. não se fazendo de rogado. em seguida. repleta de inefável encantamento. Andei sempre assim perdida. II O mês era o de junho ou de julho. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. Depois. o ano. mas suspendera. Foi possível. parar. Ele.. mas chegaram. como se tivesse acabado de lê-la.

chegou a pensar em remetê-lo por via postal. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. de sua admiração. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. de imediato. e o painelista maranhense. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. levando Formiga telefone e endereços anotados. Motivei Viana sutilmente. em contrapartida. à sua maneira. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. de forma irremediável e comprometedora. em 8 e 9 de agosto. em processo de organização pelos dois. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. era. É o lançamento do seu nome no Brasil. de que a velhice o alcançara. de texto concluído. em cujo domicílio ficaria no Recife. e esse. você não pode deixar de participar. podendo. valiosa. Roberto Viana foi explícito.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. as infundadas notícias. o telefone do seu sobrinho. por seu relevo pessoal.. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. quase que à antevéspera do simpósio. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . com Sales. e antecipando. Comuniquei-me. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. Rebatendo-as. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. feito de pura louvação de Celso Furtado”. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. ressalvadas a fonte. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. em Brasília. Assim foi feito. ao regressar de João 91 . considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. em João Pessoa. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. com Formiga. e a demanda foi resolvida. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não.CNPq. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. ao ser comunicada. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . demonstrei serem malévolas.

por intermédio da zelosa fonte que. às 8h da manhã. cadenciado e de pasta executiva à mão. às 7h30min. elegante. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. entre outros. próximo à sua esposa. Paulo Bonavides e Armando Mendes. Virando-se levemente. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. quanto ao cumprimento do cronograma. desde o Maranhão. perguntou: – “Pedrão onde você está?”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. O também paraibano Paulo Bonavides. Antecipando-se ao horário combinado. Sales. sorrindo. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. Clóvis Cavalcanti. Pedrão e Santos. cujos setent’anos recebiam tardia.. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. Ao chegarmos em Tambaú. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. começaria a solenidade oficial. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. retraído: 92 . o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. a solução foi dormirmos. Mal terminamos o abraço. À luz do dia. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. parabéns!” A resposta foi glacial. avisaram que. partimos em vagaroso e confortável ônibus. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. bêbados de cansaço. mas bela homenagem de sua terra natal. sem mínimo retardo possível. E Pedrão. à procura de Aspásia Camargo. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. para o Tambaú Tropical Hotel. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. o paraibano Celso Furtado. Luciano Coutinho. contatou painelistas. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. Ao desembarcar. que chegaria em vôo matinal. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. da portaria. apareceu no corredor Ignacio Rangel. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. Rosa Freire D’Aguiar. Hélio Jaguaribe. em uníssono. garantira a sua presença ali. no Espaço Cultural José Lins do Rego.. homenageado e convidados. Sales e Formiga. pedindo a todos brevidade no café. Armando Souto Maior.buscando confraternizar: – “Celso. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães.

com uma sobrinha de José 93 . galhofeiro.. que não os cardíacos.. para esconder.. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. a Bahia. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. aliás. Desembarcamos. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho. Guedelhas.. Milton Santos. este. que estava repleto. Explicou-me ainda que. a tristeza. retórica baiana e dialética de Hegel. Mourões e Rangéis da Paraíba. Santos sentenciou: E Pedrão. – “Bom”. entramos no ônibus e partimos.. figura sempre simpática. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. A solenidade começou pontualmente. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. decerto. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. evitando viajar só. conterrâneo. combinando capoeira. como ficaríamos. como coordenador do Mestrado em Economia”. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. casado. A caminho do teatro do seminário. Quase metediço.” Gargalhamos. o velho Rangel foi conversando. Sentado em poltrona contígua à minha.?” – “Um dia melhora. por causa dos problemas de saúde. todo o seminário. Avisou–me que tivera problema de saúde. Pedrão juntou-se a nós e. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. sua esposa.

Surgiu a idéia da criação. eu estou preocupado. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. Admitida a aceitação. vivido em estilo elogiável. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. emocionado. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. a dicção ignaciana. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. com o pensamento de Celso Furtado. abraçando-o: – “Salve. o Governador Cunha Lima chegaria. Tomado por um constante espírito crítico. intelectuais. a quem auxiliei a levantar-se. sexta-feira. ponderando: – “Rossini. o faria no encerramento do colóquio antológico. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. Rossini. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. à maneira isebiana. Contudo. Arraes dirigiu-se a Rangel. – “Afinal. Quinta-feira. cumprimentando-me da passagem. assim como Sales Gaudêncio. Marcos Formiga discursou na abertura. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. grande Mestre!” 94 . 8. problemas e dificuldades. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. inquietações.” A participação de Ignacio Rangel. entre sorrisos. sem nenhuma intenção de trocadilho. sentando-se de novo junto a mim. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. quem é que é. retiraram-se. pelo notável economista paraibano. professores. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. E foi. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. sem ser suntuoso.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. e o festejou. foi constituída por um confronto do seu. elevada e corajosa. na década de 50. segundo convite do Governador Cunha Lima. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. o sábio maranhense deixou escapar a frase. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. Estudantes. para a solenidade de encerramento do seminário. Lamentando a frustração do seu propósito. a qualquer instante. Formiga explicou ao velho populista que.

Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. apareceu em companhia da esposa e amigas. mais à frente. Tratou-se de uma viagem maravilhosa.” Fiquei. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. matar a sede e tomar café. com o estilo inteligente e cortante de sempre. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. de minha parte. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. pois as mulheres falaram a contentos. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. atencioso. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. O motorista. E. ditado pelas musas da juventude. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. houve a ruidosa entrega de certificados. em busca de um lugar para jantar. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. e descermos juntos para o Recife. o burgo de Goiana aos Rangéis. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. 95 . deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. No sábado pela manhã. entre léguas de cana de açúcar. Dona Aliette. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. parou. findo o café. A minha expectativa era.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. Apontei. como se fossem novidades. particularmente. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. Armando Souto Maior. comecei a providenciar o regresso. de sua lavra. em abono do testemunho salesiano. Fiquei plantado à beira da churrascaria. convite para jantar. quando. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. que fosse possível chegar ao Recife vindo. levando a que eu aguardasse em vão. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. Não obtendo sucesso. Ignacio. O pedido foi aceito. como sói acontecer. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. onde recusei. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. Falei-lhe.

e maranhas? É Ministro do império. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. E Letras. mas terminara a vida no Recife. declamou com voz de cristal resoluto. para não perder o fio da meada. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. novelista e jornalista Odylo Costa. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. e vós. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. e mísera cidade Sua justiça agora. e quem os reja. Que se tem feito em uma. filho. e o fiz sem reticências. A resposta foi objetiva. revelando a sua íntima conexão com a poesia. Como previsto em trampas. e outra idade Desde que há tribunais. mero. e tu”. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. e prende um Cristo”. Tão Pilatos no corpo. Ignacio Rangel. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. resgatou versos de Gregório de Mattos. e nas entranhas. e iniqüidade. Guerreiro Ramos. Perguntei a Dona Aliette. e eqüidade. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. vencendo o cansaço do tempo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. E logo em seguida. e vós. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. e misto. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. Que solta um Barrabás. com que a todos causam inveja.

nos jornais de Brasília. Daí a pouco. encontrando o romancista maranhense em uma festa. de fôlego e duradoura. ele poderia ter sido muita coisa neste país. garantiu-me que. disparou: – “Minha filha. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. de boa-fé. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. Chegamos ao Recife. Disse-lhe que não. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. Em seguida. afirmando que o estudara em Oxford. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Roberto Viana esteve presente. sob elogio dos seus mestres. ela. O velho Rangel.” Dona Aliette. no qual a sua filha. no ato. foi apresentada a Josué Montello. Ele prometeu publicar o documento. seu amigo. lançara um sapato no rosto de um estudante. segura de si. sem que recebesse resposta. fui buscá-los no Engenho do Meio. Tomando a palavra. o prato servido foi Celso Furtado.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. cauteloso. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. que dela ousara discordar. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. da competência e da probidade do seu marido. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. ninguém duvidava no Brasil. eu redefini o curso da conversa. Palavras ao vento. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. juntos. estivera ausente. para que. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. preferiu colocar à mesa episódio imediato. Sentenciou ainda que sua obra. para sobreviver. mas sincero. Sequer os adversários ideológicos. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. para a economia do seu quatriênio administrativo. que. sem rebuços. em Londres. finalmente. admitiu que muito do 97 . Por quê? Dona Aliette. em particular. que. a qual. onde o habilidoso matemático não ficou. que. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. À noite.

minha filha. que conversa como gente grande. sem necessidade. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. E mais: que Phaela a nada faltou. em Alternativas do Brasil. com os dois já no Maranhão. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. Antes de partirem com destino a São Luís. vovô Rangel. quase madrugada. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. fui deixá-los. muito prestigiado no ciclo cepalino. os Rangéis.. no qual lhes passei endereços e tudo mais. economista da Argentina. Parabéns! Fiquei prosa. editor da Bienal. desde ratinho até agora. lembrando da menina que. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida. tua filha. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. procede do pensamento de Raúl Prebisch.” Terminado o café com muita prosa. a referência original. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. aqui em São Luís. entretanto. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. Muito prosa.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. de toda maneira. resguardado.. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. Prosa e verso. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. muito que te quero 98 . não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. sonegando. ligaram para agradecer. movidos a cortesia. de José Márcio Rego. para a Dona Aliette. em termos de construção original. com menos de um ano e meio. vai ficar deste tamanhão. cantava toda a música “Carinhoso”. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. comunicada à Academia Maranhense de Letras.

com destaque para dois sobrinhos engenheiros. O velho Mestre dispensou o hotel. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. A conferência. não satisfeitos. vem. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. em matéria de bibliofilia. Percorrendo as livrarias. por exceção. E também Carlos Osório. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. enquanto Mestre 99 . convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. conferimos quem tinha o quê. Conversamos à vontade. publicado aqui no Recife. situada no Bairro do Recife. ficou hospedado comigo. realizada na sede da Secretaria de Planejamento. vem. trocamos idéias. onde estavam familiares. e. com o qual lhe presenteei. vem. vem. Mestre Rangel. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. inclusive o seu A Questão Agrária. respectivamente. o deixou viajar sozinho. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. onde adquirimos alguns volumes. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. e. seguindo recomendações de Dona Aliette.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. que. fomos à Livraria Brandão. foi um sucesso. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas.

Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. Retruquei-o. com a palidez da angústia. confessadas.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. Saber. facilitada pelo concurso de duplos microfones. chopes e uísques antecederam os pratos principais. similar ao do Governo Federal. só depois. com diversa óptica. aplaudida ao final.” E assim foi feito. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. não pôde conceder–lhe. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. prontamente sugeriu: 100 . e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. houve emocionada saudação de Carlos Osório. findo o Governo Juscelino Kubitschek. por minha causa. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. por minha posição. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. ficou com algumas reservas mentais. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. o grande economista estava lívido. não devendo ambos. em círculo restrito. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. e. como gostaria. muito embora eu o deixasse à vontade. Nada obstante. navegou em céu de brigadeiro. Rossini. Na tratoria. em seguida. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. indagando-lhe. sobretudo quando revelou que. todavia. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. da democracia e do progresso social. ele e eu. bastante cedo. A explanação da temática foi meridiana. defensor do recurso em si mesmo. Na saída. Mestre Rangel. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. mas temendo. de maneira generosa. Antecipando-a. comendo de tudo um pouco. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. Ele é o patrimônio da nossa família. na manhã seguinte. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza.

portanto. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. com o fio de espada da dialética. A chegada do 3 de outubro. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. Em viagem de navio para o Maranhão. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. ainda ali. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. porém. nascido em 14 de abril de 1928. do magistrado revolucionário em disponibilidade. infante ainda. desvãos e perspectivas. Foi uma manhã iluminada. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. com o pai e seu irmão caçula. retirando dele o peso do cadáver. naquele vendaval de estremecimentos. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. Fechada a porta da frente. desculpando o pai e sentindo-se. da estrutura à conjuntura. se em Paris. limites e possibilidades. Ignacio Rangel retornou a São Luís. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. e ele. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres.” 101 . carregando na alma o mortal sentimento de culpa. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. pois um morto. a aerofogia estava vencida. o pai e ele. Quando quase todos já tinham partido. segundo o seu filho. sua conterrânea. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. e. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. quase um vintém de prosa. recebeu proposta de uma rica senhora. esclareceu fundamentos e circunstâncias. significou a surpreendente colocação. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. já volátil. De tudo. ao encontro repentino do rio e da morte. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. o pensador maranhense. em 1º de janeiro de 1930. Ao término do café. Do quadro teórico à formação social. E ficaram ambos. O pai. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. Quando do retorno. a favor da Revolução de 30. a criança desventurada. em Londres ou em Nova York. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. dialogamos um pouco. nesta.

a datilografar fumando. em máquina de escrever. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. que é mais do que a sombra protetora. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. o Brasil. Dona Aliette Martins Rangel. escrita. primeiro. entre faltas e segundas chamadas. manejá-las. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. à força pessoal. porém. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. Não poderás negar. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. O interesse agronômico. Na antiga Capital Federal. o cigarro e a máquina de escrever. por reclamar. as sentenças do pai magistrado. que preparava o seu terremoto clandestino. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. Mourão Rangel. passara. Aceita a sedutora provocação. o jovem Rangel foi estudar Agronomia.para alegria de Dr. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. Por recomendação médica. o pensador 102 . como passariam. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel.concluída no Rio de Janeiro. em congresso de sua agremiação política. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. sob a determinação de sua esposa. tê-las e segundo. isolando-o de todos. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. com o seu saber velho e desatualizado. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. bem como de sua esposa Maria do Carmo .” Realizado o vaticínio paterno. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. não deixe este congresso sem conversar comigo. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. que aos quinze anos passava a limpo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. histórica e sociologicamente. só à mão. fruto de acidente de percurso. de resto. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. Nada obstante. começada no Maranhão .

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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Sociologia e Política-IBESP. 1954). em Mirador. no Clube dos Economistas.1957). no Plano de Metas de Juscelino. hoje BNDES. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. no Rio de Janeiro. dentre outros.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. estuda. no Rio de Janeiro e Agronomia. Participa em Santiago. no Instituto Brasileiro de Economia. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. 1957). Desenvolvimento e Projeto (BNDE. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. 107 . com rigor. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. 1957). concluído no Rio de Janeiro. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. nas Assessorias de Vargas e Goulart. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. História e Economia. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. na capital do Maranhão. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. Chile. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. De forma autodidata.

cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. 1961). 1961). 1960). Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. Cadernos do Nosso Tempo. 1982). Ciclo. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. 108 . Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. 1985). Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. 1963). Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. 1979). Revista da Civilização Brasileira. Revista Agrária. Revista do BNDE. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. a UFMG. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. Estudos CEBRAP. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. Tecnologia e Crescimento (Civilização. Desenvolvimento e Conjuntura. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. coligindo boa parte da sua produção intelectual. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). 1959). 1987).

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