A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

2

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

3

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

4

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

5

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

6

iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente... como é característico do mister do ladrilhador da História. com Ignacio Rangel. e quem sabe. como o poeta há muito afirmou. Tem que ser assim por força. responder a essas perguntas ou pelo menos. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. Se eu morrer de novo. retomamos após dezessete anos esse projeto. o que dele sei me vem. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. que mesmo não podendo voltar até lá. Raimundo Palhano. Maureli Costa e Pedro Braga. eles não o poderiam ser. 2 SOSA. Fernando (Alberto Caeiro). Quando partiu deste mundo. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. 3 PESSOA. Nada o pode impedir”3. que em sendo seus versos belos. 7 . incompletos dez anos tinha. Mercedes. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. tão presente. como volume um da Coleção Ignacio Rangel.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. publicada na forma de livro. fornecer indicativos para elas. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. É certo. Volver A Los 17. Portanto. Não conheci Ignacio Rangel.

sustentável. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. Fogo. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. operação que deve ser planificada. Maranhão: antigo e novo. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. o desenvolvimento endógeno. não se manteve. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. isto é. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. blindagem e conjuntura e 3. ao civismo. devemos é buscá-las no presente. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. 8 . algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. Os artigos identificados foram: 1. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. Tecnologia e Custo de Produção. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. pensando GRANDE. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. Ao analisar a história das guerras em “Fogo. construí-las no agora e por diante. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. 2. eco de sua formação cepalina. Por último. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. Profeticamente disse “ora somente. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. todos de 1989. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES.

Milton. outros quatro sobre ele são postos. Ignacio. 1). num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. SANTOS. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. Maureli Costa. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. 4 9 . familiares. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. O Pensamento de Ignacio Rangel. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. e 3. Na franja tênue entre a razão e a emoção. 2. Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. v. Primeira Leitura nº 43. São Luís: SIOGE. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. dando conta das várias dimensões. publicados na revista FIPES. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. ou melhor. A volta por cima de Ignacio Rangel. Luiz Carlos. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. Os do primeiro foram: 1. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. o intelectual. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. 5 BRESSER-PEREIRA. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. mas para nós não. admiradores. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. setembro 2005: 9093. a poesia e a prosa. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. et. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. para alguns inconciliáveis. amigos. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. o decifrador e o ídolo. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4.1 (Coleção Ignacio Rangel.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel. 1991. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. Me refiro a RANGEL. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. Entrevistado por Rossini Corrêa. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. al.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. o Brasil e em especial o Maranhão. O Pensamento de Ignacio Rangel. sua busca por caminhos e sua realização prática. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. alguém que podemos dizer que pensou antes. 2001. melhor do que o passado”. conheci Ignacio Rangel. Num homem só. Luiz Carlos. 1998. serem centenas. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. mas um criador que se arriscava. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. Ignacio Rangel. BRESSER-PEREIRA. podemos dizer que foram milhões. Ele não diz isso como que para se auto-promover. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. Prefácio. Ele será. tantas coisas. participando da resolução dos mais diferentes problemas. melhor do que está hoje. com pensamento e ação. não por cangas ideológicas. com Rossini Corrêa. 10 . entre muitas dessas tardes que viraram noite. com valor e atrevimento. com marchas e contramarchas. PEDRÃO. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. na presença dos interessados que acontecia. preocupado com a distribuição de renda. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. sem ufanismos ou covardia. tanto vulto. na sociedade exprimindo em palavras. se ressentem disso. capaz de pensar por conta própria. às vezes. enfim. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. nitidamente autodidata. na verdade. mas por que “o trabalho era tremendo. heterodoxo e extraordinário. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. segundo ele. de. São Paulo: Editora 34. Hoje. no país. um homem de ação. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. Fernando Cardoso. Acredito no futuro. Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros.

adequada às especificidades do local. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. Outro eixo é o do desenvolvimento. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. mas de dentro para fora. É preciso inovar e inovar é preciso. Para tanto. Agora a mera existência deles per si. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. Um terceiro eixo é a tecnologia. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. dinamizando as economias locais. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. mas agir depois de pensar. não basta apenas pensar antes de agir.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. assim sendo. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. que agreguem valor às matérias-primas. Como quarto eixo – a infra-estrutura. sem perder de vista o global. não ocorre de fora para dentro. isto é. mas pavimenta 11 . Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual. significado singular do planejamento.

ao mesmo tempo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador. São Luís. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. avançamos. à luz da contemporaneidade. Objetivamente se constituirá. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. a partir dessa Cátedra. no dizer rangeliano. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. Sem dúvida. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. atentos à realidade maranhense. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. avançamos e avançamos. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense.

.................................................. BLINDAGEM E CONJUNTURA .................................................. 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL .......................................................................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ................................................................ 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL . 95 13 ............................... 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL ............. 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ........................ 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL ............Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL................................................. 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO............................................................

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 14 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 16 .

Maureli Costa. Raimundo Arruda. Benedito Buzar. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. embora conhecedores das nossas limitações. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. ajudou a tecer. Alberto Arcangeli. com o apoio do BNDES. primorosamente editados pela Contraponto. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis. Neste lugar em que nos encontramos agora. e outros estudiosos coetâneos. que nos honra com sua presença. inspirados pelo brilho da lua.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. * Economista. os fios de ouro que criaram a obra-prima. a realçar o significado e a importância do lançamento. Niomar Viegas. Joaquim Itapary. privilégio imerecido. em alentados dois volumes. Haymir Hossoé. como Tetsuo Tsuji. e que. Cursino Moreira. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. Flávia Mochel. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. Nesta noite. presidido por Dilma Pinheiro. da Academia Maranhense de Letras. Benjamin Mesquita. Pedro Braga dos Santos Filho. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. com menos de trinta anos. Carlos Gaspar. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. hoje relançado por seus idealizadores. os conterrâneos de Rangel. de suas “Obras Reunidas”. sob o reitorado de Fernando Ramos. entre nós. sob a presidência de Carlos Lessa. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. João Evangelista da Costa Filho. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. durante seis anos. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. com mãos delicadas de artista. Roberto Gurgel Rocha. Hiroshi Matsumoto. 6 17 . nos propomos. poderiam estar Rossini Corrêa. jovens intelectuais como nós que. Sebastião Moreira Duarte. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. a partir de inícios dos anos 1980. em evento do Conselho Regional de Economia. Luis Augusto Mochel. Emanoel Gomes de Moura. neste lugar privilegiado. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. editadas e organizadas por César Benjamin. filha e herdeira do legado rangeliano. no dia 22 de junho de 2005. Jomar Moraes.

como economista. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. nesta oportunidade. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. Atuou inicialmente como jornalista. posteriormente. economista do BNDES. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. no Rio de Janeiro. que inventaria e analisa. Não apenas no discurso bem construído. principalmente. para ele uma verdadeira apostasia. de modo primoroso e didático. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. combatendo a política econômica do governo Collor. Ademais. 2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. o que já o fizemos. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. edição de jul/dez de 1989. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. lúcida e ativamente. ideário. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. em Mirador. com rigor. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. onde permaneceu até o final de sua vida. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. aos 16 anos. hoje BNDES. publicado pela Revista FIPES. mas na ação prática cotidiana. historiador e. Derrotado em 1935. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. A partir dos anos 50 esteve presente. modestamente. Foi um homem sólido de caráter. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. como jurista. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. história e economia. Instituto 18 . e São Luís. De forma autodidata estudou. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio.

sempre fiel aos seus princípios e valores. Clube dos Economistas. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. sobretudo os econômicos. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. um clássico do pensamento econômico. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. em especial a Folha de São Paulo. tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia.. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. 19 . no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. profundos. como a Revista de Economia Política. sociais e políticos. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. de onde era originário. Plano de Metas de Juscelino. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. e dos maiores jornais do país. como pelos ideólogos da esquerda nacional. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Assessorias de Vargas e Goulart. Sociologia e PolíticaIBESP. Não fez carreira acadêmica nem como docente. Um criativo produtor de idéias. nem como pesquisador. Respeitava as questões que a academia pautava. em favor de uma nova humanidade. Sérgio Buarque de Holanda. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. sendo um dos seus patronos. Gilberto Freyre e Celso Furtado. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas. Instituto Brasileiro de Economia. conferências e ministrou cursos. Seu livro “A Inflação Brasileira”.

somada à coragem política. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. Juglar. como costumava dizer. Schumpeter. Fábio Comparato. “A economia. além de outros notáveis. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. Luxemburg. o fio de Ariadne de sua obra. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. Kondratieff. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. com quem aprendeu direito. Keynes... como tem sido a lamentável tendência da atualidade. com quem aprendeu latim. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas.. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. Hilferding. a começar pelo próprio pai. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. dificultaram a difusão de sua obra. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão. Na economia. Muito antes de Comparato. . que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. presente na Teoria da Dualidade Básica. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. Engels. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. Harrod. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. Arimatéia Cisne. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. como Smith. o grande jurista brasileiro. portanto. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. Robinson. Kitchin. ou com as matemáticas ou com a econometria. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. Marx. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre.é a sabedoria de tomar decisões”. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . Irmãos & Cia. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. Kalecki. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha. José Lucas Mourão Rangel.

não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. consideradas. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. sejam econômicos. Para decifrar o país. um modo de produção sofisticado e complexo. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. sociais e políticos. seus problemas e crises. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. o princípio organizador de suas idéias. a dinâmica capitalista. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. quando vem a falecer. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. a inflação brasileira. sem nenhum exagero. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. a questão agrária e o papel do Estado. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. precisavam ser revistas criticamente. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. livros e monografias.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. a seu juízo. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. tanto da direita como da esquerda. 21 . Os processos internos da formação brasileira. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. Segundo Rangel. As teses em voga.

Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. em especial à sua ciência econômica. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. sem o menor sucesso. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. E aí ele nos levava. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. Sobretudo pelos seus estudantes. política. 22 . É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. geografia e história deste país. ser rompido. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. que teve o Brasil como maior desafio. um anunciador corajoso. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. mas para poucos”. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. à convicção de que o mundo tinha saída. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. precisa. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. sociologia. ao contrário. justamente os últimos de sua vida magistral. um pregoeiro destemido e sério. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. em expedições fantásticas. na ética e na justiça social. mais do que nunca. baseado na geração de empregos. um decifrador de enigmas. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. Nós. Era.

os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. Evandro Lucas. observados por Solon Sylvio. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. como as de Ludmila e Ana Rangel. Celso Augusto. 23 . nestes tempos de canalhice organizada”. Não será surpresa para nós. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. o Velho. Será. como diria Rossini Corrêa. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. um compasso. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. como presentes por esta festa. sem nenhuma dúvida. José Lucas e Alberto. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas. Paulo de Jesus. um relógio e uma reguinha de calcular. ao chegarmos em nossos lares. se.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. uma bússola. de beijos e abraços com Aliete.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 24 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 26 .

elaborado em período específico da nossa história. pois. n. no entanto. por outro lado. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. involuntariamente./dez. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. v. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB.3. É preciso reverter esse processo. * Economista do IPES. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. Convém deixar claro. Com efeito. 1988. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. Procura. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível.2. 7 27 . porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. contrapondo-se às formulações do ISEB. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. realmente relevante e inovadora. Há. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. fato que põem por terra tais tendências. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. É um desafio muito árduo para nós. jul. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. São Luís.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. como nacionalismo e desenvolvimentismo. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto.

pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. É. no entanto são mais recuadas. como é retratado do título. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. pela própria natureza do sistema econômico mundial. São provas dessas modificações estruturais. Sociologia e Política (IBESP). este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. e a singularidade de Ignacio Rangel. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. como se sabe. por ato de Ranieri Mazzili. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. pretensão de grandiloqüência. considerada. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. tarefa esta. necessários à expansão industrial. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. até então centralizada na agricultura. por Café Filho. nascido do antigo grupo Itatiaia. enfim. Criado em 1955. atribuída exclusivamente ao setor industrial. sem declinar o nível das importações. Suas origens. por aqueles diagnósticos. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. foi extinto em 1964. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. O que foi possível. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. diante dessa problemática que 28 . quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. Com efeito. em obras como “A Inflação Brasileira”. sobretudo. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. Não há assim.

contando com a participação de empreendimentos estatais. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). e o capital estrangeiro. Do mesmo modo. divergem do seu enfoque nacionalista. seguramente a mais significativa. vamos encontrar no seu interior. Américo de Oliveira. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. associado ao capital nacional. envolvendo personagens como Roberto Campos. Lucas Lopes. baseava-se no pós-keynesianismo. etc. Ewaldo Lima. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. com participação moderada do planejamento estatal. Assessoria econômica de Vargas. Como é sabido. Com efeito. como BNDE. Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. envolvendo nacionalistas e liberais. em Prebish. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. Tinham uma 29 . Em outro pólo de interpretação. CEPAL. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. etc. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). ampliado e fortalecido. aliados à ausência de planejamento. e Glycon de Paiva. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. Para os seus adeptos. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. Rômulo de Almeida. sejam aqueles da área privada. Uma dessas correntes. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. sejam da área estatal. (envolvendo nomes como Celso Furtado. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. como o CNI e a FIESP. Filiavam-se a uma certa orientação teórica.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. já um pouco sintetizadas acima. inaugurado nos anos 40. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. “fonte complementar de poupança”.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. predominantes ao longo de seu período de existência. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. era a chamada desenvolvimentista nacionalista.

Passos Guimarães e Aristóteles Moura. assim. o subdesenvolvimento. contava adeptos como o PCB. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. a existência de setores dinâmicos e estáticos. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. o moderno e o urbano. para a economia de mercado. a qual se perpetuava por erros de política econômica. dentre outras coisas. ainda que nos anos 50. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. fazendo emergir. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. Ao lado de uma reforma agrária geral. Admitiam. Ou. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. por razão desta dicotomia. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. portanto. o arcaico. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. A despeito da polimorfia. A. um pouco em cima das teses leninianas. Na verdade. Esta era a corrente socialista. como o industrial. enfim. não viam com simpatia o intervencionismo. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). aberta. e. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. produtivos e improdutivos.. que além do ISEB. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. momentos de unidade e de identificação. Caio Prado Jr. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). É. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. como Nelson Werneck Sodré. ou a indústria versus a agricultura. tanto uma quanto outra não eram 30 . Pois o antinacional simboliza o atraso. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação.

muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. De certa maneira. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. aquele que defendia o não-intervencionismo. Eis porque.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. de outras influências mais próximas. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. através de figuras como Kalecki. Além. Jaguaribe. por exemplo. todos eles. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). a CEPAL. este último de enorme influência. discípulos de outras influências como Sraffa. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. de evidentemente. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. Surgida em fins dos anos 40. Robinson e Chamberlim. Keynes. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. de cuja ação todos seriam beneficiados. atitude semelhante atinge também o ISEB. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. Baran e Magdoff) e Raul Prebish. em termos de filiação teórica. assentado em bases nacionais. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. Schumpeter e Myrdal. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. Raul Prebish. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. J. a rigor. 31 .

O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. fortemente inspirado nas teses de Nukse. o comércio internacional. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. dentre outros. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. baseado no comércio cambial. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. também. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. ao imperialismo (a rigor. com incrementos constantes de renda e consumo. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. contrária. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). proceder o planejamento das mudanças de rumo. Longe de propiciar vantagens bilaterais. quando necessário. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. não dera os resultados esperados. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. ao imperialismo comercial e financeiro. Myrdall. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. promover a reforma agrária. como especialização e processo técnico. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). de maneira eficiente. que se nutria do modelo agroexportador). A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. 32 .

aqui e ali. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. É como diz Octávio Rodriguez. já transparentes em outras obras iniciais. pelas singularidades de suas análises e concepções. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. Desses cruzamentos. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). publicada primeiramente em 1963. principalmente. para os anos 40 e 50. gestado monopolista e oligopolista. 1958). Rangel detém-se. segundo alguns analistas. davam àquela instituição uma feição progressista. mas não supera os marcos da economia convencional”. como veremos no tópico seguinte. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. 4 E RANGEL. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. Defende. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. Gudin. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. “A Inflação Brasileira”. “o pensamento da CEPAL altera. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. complexos e globais. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. cepalino e isebiano.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. respectivamente. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. É justamente em sua obra mais completa e representativa. Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . em suas formulações. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. essencialmente. em relação às demais. que está quase sempre presente em todas suas exposições. como Furtado. etc. Rangel destaca-se. Igualando-se a Furtado. como bom isebiano. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. é possível encontrar. Contudo. À primeira vista. que era. não se pode negar que. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. é de se supor. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico. simultaneamente. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. Como Furtado. Mas tal não é novidade. que ele vai desenvolver essas idéias.

estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. Assim. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. Por seu turno. assim. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. Com efeito. 1962). implicando em taxas incrementais de exploração. Isto porque. implicando em preços elevados e. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. o que implicaria. tinham. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. Com isso.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. 34 . elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. Furtado). principalmente pelas massas de salários). comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. em detrimento do consumo de industrializados. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. Assim. até nutrir aspiral inflacionária. E mais. segundo sua análise. forma-se um grande exército industrial de reserva. em uma situação como esta. à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). e de outro. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. Os estruturalistas (dentre eles. os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. por exemplo. que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). uma vez que a massa salarial tendia para baixo. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. a curtos e médios prazos. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. por outro lado. o que implicava na diminuição da demanda. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. A rigor. em função de integração entre os setores primários e secundários. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. logicamente.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. como estamos vendo. Rangel. Ou seja. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. bens duráveis. mais consumo/demanda.). confirma. onde as taxas de juros eram baixas. a antevisão de sua análise. logicamente. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. a qual poderia até se agravar. pelo rumo. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. um pouco ao estilo cepalino. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial. Rangel reafirmava. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. outra vez. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . Como dissemos no começo. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. mais renda e. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. discordava desse ponto de vista. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. etc. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). podendo gerar mais emprego. Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. chegando a dizer que. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. por força de seu próprio atraso. nessa direção. contudo. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. o que. Trabalhando com as teses estruturalistas. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. terrenos. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos.

pelo ISEB. e de Werneck Sodré. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista. Segundo seu ponto de vista. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. 4. nesta segunda metade do século XX. por encerrar especificidades. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. do desenvolvimento capitalista. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p. evidentemente. É. suas causas e fatores impeditivos. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. no essencial o desenvolvimento rangeliano. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. principalmente em “A Inflação Brasileira”. da sua relação com a sociedade e. isebiano quando desenvolvemos. Eis porque. Logo no início de ROEN. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. sobretudo. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. um caso específico de desenvolvimento . o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. e mais ainda. na sua maneira de dizer. na verdade.10). Seu núcleo temático é o desenvolvimento. para um “mundo só”. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. ora pode ser. a seguir. das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. trata-se. Homem de sua época..o Brasileiro. ou as de Caio Prado Jr. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. obviamente. publicado em 1960. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. Contudo há uma 36 . além. obviamente. sem ser.

Sedimenta essas suas observações. sintonizado com seu método da análise. asseverava o nosso autor. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. mirando-se no próprio exemplo mundial. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. Sob o império dessas determinações. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. comprováveis ao longo do texto. Começa por afirmar. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. tem suas raízes em concepções smithianas. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. à internacionalização dos fatores produtivos. retomando questão anterior. Conclui afirmando que nesse caso. decorrência direta do progresso tecnológico. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. Rangel. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. por exemplo). através da qual se daria a superação do atraso existente. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. fatalmente. para viabilizar o desenvolvimento. gás xisto ou eletro-siderurgia. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. Mais adiante. como em outros 37 . a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. afirmava ele. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. todavia. Em ROEN.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. Entendo-o. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional.. Assim para o pensamento rangeliano. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. não é tecnocrática. Ou seja. porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. mas para 38 . Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. Prosseguindo suas análises. criticando a posição das correntes cosmopolitas. em vez de eliminar. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. Segundo ele. portanto.14). em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico.17). Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada. porque não era para centralizar. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. e simultaneamente. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade. Ouçamo-lo: “. Isto posto. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. Sua visão do planejamento.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. as disparidades inter-regionais. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. capaz de reverter àquela perspectiva. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento.. no pensamento de Rangel. no principal fator de unidade e de soberania. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho.

Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. contudo. E isto ocorreria. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. pois. os seus conceitos para cada uma delas). que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional.21). mas consolidação das soberanias nacionais. ou mesmo. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. além de agravar os problemas de ociosidade. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. em função de importação efetivada anteriormente. taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. sobretudo. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. na história do Brasil. nos momentos de contração às importações. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. Com efeito. Chegavam mesmo a afirmar que. as barreiras nacionais. Para destacar a relevância de suas formulações. evidentemente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. Feitas essas considerações. segundo a análise rangeliana. Estas colocações não significam. do que contradição. tem havido sempre mais fusão de classe. alianças de classes. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. soberania e planejamento (conforme. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. Segundo ele. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. ao invés de eliminar. mas. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . Este seria um procedimento inteiramente condenável. provocados por eventuais crises de pagamentos. Conclui dizendo que. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. que ela deveria existir. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. Assim. Não poupa os empresários. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais.

chegou a formular uma proposta um tanto incomum. além de melhorar seus padrões de consumo.. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. do capital estrangeiro. não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. a seu ver. para vencer esse dilema. assim. o que. Apontava.” (p. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional.. assim. isto é. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. ou na renúncia ao desenvolvimento. 40 . Nesse sentido. Não negará.”) (p. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. a ulterior expansão do produto nacional. mais adiante. o volume de seus investimentos. era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. aliás. pois. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro. o que inibiria o desenvolvimento global da economia. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção. dos quais depende. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. do desenvolvimento” (p.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. Para ele. cuja utilização. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. que tanto poderia obter bens de produção.38). porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. pelo emprego de indústria de bens de consumo. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. segundo ele. sem que ocorresse a compressão do consumo.38). A proposta de Rangel. aumentar o que é mais importante ainda. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico.43). em grande parte. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. 41). Sobre os investimentos. prescindindo-se. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. ou a compressão do consumo.

Assim. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. que. Sem contar os riscos do paroxismo. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. por exemplo. se. que em ROEN. simplifica o problema. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. os segundos são ufanísticos e em geral. lacunar. curiosamente) tenha que passar por ali. invariavelmente. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. tratam a produção isebiana sem a menor competência. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. começo dos anos 60. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. enfim. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. Os primeiros são mais rigorosos. por estarem legitimadas em fontes eruditas). reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. ideológicos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. A rigor. pois. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. não se sustentam integralmente. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. representam os pontos de estrangulamentos básicos. liderado pela industrialização. como o da ociosidade. guiada pela luz do planejamento. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados.Isto é uma coisa. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. de outro. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. Embora não fale claramente. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. não contemplam a matéria econômica de per si. a nosso ver. de um lado. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. 41 . A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. de uma hora para outra. racionais e equilibrados.

nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. além dessas preocupações. da matéria econômica. Não queremos. são mais progressistas do que muitos pensam. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. Era por isso mesmo. continentais e mundiais. consciência das desigualdades. por exemplo. Acredita que. entre Lamounier e seus colegas paulistas. seria crítica da ideologia. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. Eram também. que as suas propostas e análises da realidade nacional. Afinal. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). enquanto órgão produtor de cultura especializada. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. Não é nenhuma heresia admitir-se. O debate travado em fins da década de 70. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. Segundo Lamounier. no que escamotiava a luta de classes. por exemplo. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. mas também a alguns outros da escola paulista. como muitos estudos parecem indicar. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. Não devemos esquecer que. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . transformar o criticismo de seus analistas em apologia. Não são simples mistificações da realidade. é ilustrativo a esse respeito. analistas do ISEB. acima de tudo. crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. evidentemente. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. fazia mistificação ideológica. para os anos 50. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando.

ISEB: fábrica de ideologias. FURTADO. 28). comme proposition pour le développment brésilien . Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Maria Sylvia de Carvalho. Rio de Janeiro: Forense.1) RANGEL. Bolívar. (Textos Brasileiros de Economia. TOLEDO.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO.14). Guido. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Discurso n. JAGUARIBE. 1960. A inflação brasileira. Hélio. Rio de Janeiro: ISEB. Rio de Janeiro: ISEB. 43 . Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee. (Estudos Brasileiros. CHAUÍ. (Ensaios. v. A Questão Nordeste. Rio de Janeiro: ISEB. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel . v. Recursos ociosos na economia nacional. 9 (Ciências Humanas). São Paulo: Brasiliense. 1981. Ignacio. 1958. MANTEGA. São Paulo: Ática. Octávio. O ISEB: notas à margem de um debate. 1984. LAMOUNIER. Marilena. O nacionalismo na atualidade brasileira. RODRIGUEZ. PAIM. Rio de Janeiro: ISEB. FRANCO. ________. CHAUÍ. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. Rio de Janeiro: Poli/Vozes. 1960. Celso. 1982. 1979. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. 1984. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. 1978. 1957. 1984. Ideologia e mobilização popular. 1978. Caio Navarro de. Miriam Limoeiro. A economia política brasileira. Marilena. Seminários. Industrialização e economia natural. Gilberto.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 44 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 46 .

no IBESP. 47 ./dez. n. cuja primeira edição é de 1959. no Rio. n. Na verdade. v. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. 1989. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES.2. de 1954. de 1957. jul.4. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano.ENE. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA. de “Literatura Econômica”. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. monografia de conclusão de curso na CEPAL. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. no Brasil. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. conferências pronunciadas em 1955. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto. O título deste texto é pretensioso. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”.6. pelo ISEB. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. se conseguir.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. tanto em extensão quanto em conteúdo. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. sobretudo. de São Paulo. através de levantamentos em outras fontes. elaborada em 1953. São Luís.2. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. este é um texto sucinto que se propõe. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. correspondente ao período 1955-1985. focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre. em homenagem a Ignacio Rangel. Isto porque./v.

C. reunião de artigos. Tecnologia e Crescimento”. de Paris. Desenvolvimento e Conjuntura. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. São Paulo. em 1960. publicado pelo CONDEPE. [10] “A Inflação Brasileira”. a UFMG. estando próximo da 10ª edição. Inglaterra. [12] “Ciclo. Recife-PE. de 1959.J. no ISEB. período de 1983 a 1987. figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. Revista da Civilização Brasileira. no campo da Economia e das Ciências Sociais. tais como Digesto Econômico. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. em cuja tese de doutorado. 48 . editado pelo Tempo Brasileiro. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. de 1987. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. de 1985. defendida na Universidade de Leicester. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Revista do BNDE. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. Brasiliense e Bienal. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. no Rio de Janeiro-RJ. Rio de Janeiro-RJ. de R. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. reunindo textos selecionados. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. atualmente na 3ª edição. como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. de 1982. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. reeditado posteriormente pela Zahar. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. publicado pela Editora Bienal. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). publicada no Rio pelo BNDE. abordando a economia brasileira durante o regime militar. Cadernos do Nosso Tempo. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. de 1961. originalmente de 1963. Boyer. publicação pela Civilização. está arrolada. Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel. [7] trabalhos de fôlego. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. Revista Agrária. Estudos CEBRAP. publicada pela HUCITEC. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. Rio (RJ).

de Keynes. em sua extensividade e profundidade. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. estudos e projetos. período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. entrevistas. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. Não menos volumosa é sua contribuição. em 1953. podemos dizer. a jornais e revistas especializadas em economia. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. 1987 (32 artigos). originalmente. 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. 1985 (83 artigos). 1989 (39 artigos). que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. 1990 (23 artigos). São artigos. de Smith. Em 1957. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. ensaios. Rangel publicou 247 artigos. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. 1986 (26 artigos). relatórios técnicos. 1984 (24 artigos). onde tem veiculado sua produção. O que constitui sem dúvida. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. Quando redigiu. foi publicada pela primeira vez. palestras e depoimentos. Isto posto. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. São pareceres. Segundo nossos dados. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. a obra de Ignacio Rangel. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). interessadas em ouvir suas conferências. e até de universidades estrangeiras. Inscreve-se como uma resposta 49 . só na Folha. a saber: 1983 (25 artigos). ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. com alguns retoques. Isto longe de desmerecer. ainda não foi inteiramente trabalhada. perfazendo. nos últimos 10 anos. A despeito de suas proporções consideráveis. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. e em termos gerais. em seu trabalho citado. 1988 (15 artigos). entre 1983 e 1990.

[4] Tese da Questão Agrária. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. inquestionavelmente. o da “dialética da ociosidade”. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. é o maior dos pioneiros. Mantega. que articula as teorias dos ciclos. pela sua densidade analítica. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. o qual. mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4)./dez. transformada. [3] Tese da Inflação Brasileira. Em 1981. Davidoff Cruz. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. político. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. Tolmasquim. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. como Monteiro de Castro et Belshowsky. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. no Brasil. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura. social. Para efeitos analíticos. nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. com extraordinária clareza. apoiados em Kondratieff. desenvolve. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. contida em seu famoso livro do mesmo nome. Rangel. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. out.. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. no sentido da superação do capitalismo. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. algo inédito no tempo em que foi esboçada e. ainda hoje. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. com o qual se definia o 50 .

) afirma. principalmente. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. Seu lado mais conhecido. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. do qual foi presidente no início dos anos 80. História e Economia. em Mirador (MA). Tolmasquim (op. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. Em 1954. como economista. convictamente. original e inovadora. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. um ano após seu ingresso no BNDE. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. Dono de uma obra monumental. estuda. Castro et Bielchowsky afirmam. que o motivo 51 . Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. pelo Instituto Brasileiro de Economia. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e. Pela envergadura do seu poder criador. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. Chile. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. “Ignacio Rangel se tornou. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. ao longo dos últimos 30 anos. Gudim ou Conceição Tavares. De forma autodidata. historiador e. na capital do Maranhão. participa em Santiago. posteriormente como jurista. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira.. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. bem poucos. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira.. textualmente: . atuando. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. no Rio de Janeiro e Agronomia. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. onde ocupou a função de membro consultivo. com rigor. cit.

de repente. um escritor refinado. dono de um estilo invejável. fina ironia. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. quase sempre. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. Com apenas 16 anos. do movimento de 8 de outubro de 1930. ricas metáforas. Há o Rangel pensador. como o de tornar público o seu pensamento. as análises sobre reserva de mercado. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. além do assessoramento a Presidência da República. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais. Que. as propostas pioneiras à época. em São Luís. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. igualmente. Aqui também sua biografia é expressiva. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. mas. Sua face reconhecida. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. pegou dois anos de prisão e. como o militante político. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. que. O pioneiro. Suas análises. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. no clube dos economistas e em centros universitários. em seguida.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. a vários ministérios e governos estaduais. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. na introdução de seu livro “Economia: 52 . mas pouco destacada. sua militância foi também relevante no ISEB. O criador original. Em meados daquela década integrou a ANL. de domicilio forçado em São Luís. Fora do setor público. a teoria da inflação. vêm recheadas de erudição histórica. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. autêntico e destemido. 8 anos de “domicílio coacto”. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. participou. Como conseqüência do levante de 1935. Há o Rangel militante. onde chefiou o Departamento de Economia. onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação.

como ele mesmo confessaria. a SUMOC. voz que muitos escutam ou querem ouvir. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. O Rangel funcionário público. hoje Banco Central. do IPES. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. O Rangel profeta. Já de algum tempo. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. quando foi preciso. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). Há ainda um Rangel muito especial. honrado e agradecido. Com efeito.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. no dia em que completava seus 50 anos. O cidadão que soube dizer sim. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . O Rangel conselheiro. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. Instado pelo então presidente Goulart. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. quando era para dizer e disse não. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. quebrando esse adágio. recusou o convite. aliás. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. Em 1989. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. Rangel. envolvendo UFMA. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. vem. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. Neste particular. Além disso. vinculados ao IPES. Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. aos poucos. de vida. Rangel em relação ao Maranhão. preferindo semear na planície. Há ainda o Rangel missionário. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. desde o início dos anos 80.

Em sua última visita a São Luís. ouvi-lo dizer satisfeito. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. Finalmente o dia de hoje. como bálsamo e esteio. os merecem! Sumary In this article. através da Secretaria de Cultura. porque Rangel é um otimista. a produção e a obra do economista maranhense. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. 54 . Oportuna. que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro.411. enfim. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. sim. denominada “Coleção Ignacio Rangel”. Aplausos que eles. “Parece que.. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth. magistralmente. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. falando a um grupo de admiradores. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir. Aplausos companheiros.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina.08. entre modesto e orgulhoso. o Dr. Sua marca é o nascimento e o humanismo. desenvolvimento econômico e justiça social. fez e continuará fazendo. Crê no país e em seu povo. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão. Feliz. de 13. sim. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. verdadeiramente.. modernização e democracia. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. através de livros.1951. minha voz faz eco”! Faz. cujo sentido é o de difundir. Ao seu lado.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO Ignacio de Mourão Rangel 55 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 56 .

4. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. O Maranhão. Não por acaso. Quando chegou a 13 de maio. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. 1. os quais eram. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. Economista. era a Atenas Brasileira. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. Mas significava que a economia cearense. v./jun. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. mas um passo atrás. Assim. desde os tempos do império. Um dos fundadores do BNDES. do que do Rio de Janeiro. já o vizinho Ceará havia. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. Autor do clássico A Inflação Brasileira. para o Maranhão. ao comunismo primitivo. jan.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. que era terra de ninguém. Com efeito. começo dos anos 60. O navio a vapor viria romper esse isolamento. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. inclusive. um modo mais avançado de produção. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. contrabandeados para o Sul e. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. ou melhor. Mas restava outro fato. * 9 57 . o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. e a Amazônia. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. Não a passagem ao feudalismo. de fato. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. São Luís. como era natural que o fizessem. não raro. uma das províncias mais ricas do Império. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. libertados os cativos. mas o retrocesso à tarde e à cubata. Quase isolado do resto do Brasil. um modo superior de produção. n. Por outras palavras. 1989. estes usaram sua liberdade. isto é. O Maranhão foi como é sabido. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. não se havia cumprido no Maranhão. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente.

especialmente em São Luís. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. segundo o Prof. inclusive. a área ocidental do Estado. Entrementes. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. suponho Engenho Central. deu um golpe fatal nesse parque industrial. Somente por meados dos anos 60. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. É certo que. 14. Mas o surto agrícola. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. meias e cânhamo. como Alcântara. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. inclusive de lã. Além das fábricas de fiação e tecelagem. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro.. Era outro processo que se abria. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas. aí por 1895. com a indústria do Nordeste oriental. A seca de 1958. no corpo do Brasil. etc. demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. Especialmente a Guiana Maranhense. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. entrou a caminhar. nas cinzas da velha mata. nessa ordem tinham 15. Queimada a mata uma vez. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. Assim. a passos largos. A epopéia rodoviária. Com efeito. no Maranhão). 12 e 10 fábricas. somente em 1960. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. Seguindo-se a Minas Gerais. no Nordeste. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. pela ferrovia São Luís-Teresina. somente. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. entraram em decadência. para a préhistória. raros no Brasil de então. além de flagelados nordestinos. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste . na composição da mão-de-obra escrava.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. da Bahia e de São Paulo que. Burgos ricos. Turiaçu e. quebrando nosso isolamento dourado. voltaria a começar a crescer. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. Assim. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura.a Abolição representava um formidável passo à frente. O migrante do 58 . compensou com sobras essa perda. Demograficamente. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . isto é. traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes.

não raro emitia outro parecer. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. em nossos dias. sociologicamente. Aí por princípios dos anos 60. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. Essa utopia. conversando sobre esse processo – na primeira fase. Na seqüência natural deste. que havia em seu Estado. não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. Um pouco mais demoradamente. Uma cerca única. são as áreas problemas do país. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. sob. não estava fora de cogitações. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. toda a área por uma única cerca. que começava na Paraíba e. com água dos rios que formam o Golfão. na direção geral 59 . que é a penetração do capitalismo no campo. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. sendo Presidente da República. Vi roçados nordestinos. O surgimento do Estado do Tocantins. isto é. depois. o que implicava numa colossal economia de material. muito mais gregário. envolvendo todo o município. atendendo a uma ordem do chefe do governo. este último expelido pelo boi. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. mas protegida. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. Jânio Quadros. que estava desocupado. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. havendo cruzado o Piauí. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. porque ao contrário do cerrado. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. Mas. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. para encerrar essas notas. eu. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. Bacabal é hoje um município pecuarista. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. a caatinga não está. em minha recente passagem por São Luís. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. que eu o saiba não teve seguimento e. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. Os vastos campos da Baixada Maranhense. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. ao que ouvi. penetrara no Maranhão. não deve ser estranho a esse processo. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. fileiras de mamona. Lembro-me de que. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. O Porto do Itaqui. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas.

do Rio Fresco. Ora. somente pensando GRANDE. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. é indústria pesada o que teremos. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. a saber. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. Há muito que sabemos que. em vez de indústria leve. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. na direção geral de Callao.maio/89 . as ferrovias canadense e transiberiana. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. Como meio de transporte – excluído o duto. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. com antracite. Sabemos. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. Ora. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. Hoje. nada menos. Minha recente viagem ao Maranhão . centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. a Floresta Amazônica. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. esteja preferindo. respectivamente. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. e em Vladivostok. que não impediram o lançamento da BAMUR. combinadas. poderá confluir o gás natural amazônico). É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. 60 . e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. apenas começando. hoje. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. (A menos que. Por outro lado. Com uma peculiaridade: que. Embora geograficamente situado no Pará. que Carajás. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. isto é. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. tanto mais quanto. para Açailândia. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou.

61 . O Brasil unifica-se. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. Os quais nos apontam uma posição de elite. nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. herdados do antigo latifúndio feudal. depuis lês temps de l´empire. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo. cada vez mais energicamente e. e imperativos geo-econômicos. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 62 .

BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. Era uma verdadeira fortaleza. jul. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. Ao contrário de grandes exércitos. havendo observado que o exército deste havia tomado posição. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. pela imposição da guerra de movimento. não para o sitiado. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. 2/ v. travou-se. Ainda na antiguidade. n.c. provavelmente aprendida por Felipe. da Pérsia. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. 65 . contra o cônsul romano Paulo Emilio. de Epaminondas. Paulo Emilio. Refiro-me a Canas. de caso pensado. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. a tecnologia. ganha por Aníbal. e Canas (216 a. Em nossos tempos. 6. ao longo da história. Economista. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem./dez. Esse dispositivo buscava. culminação da arte militar helênica. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. entre uma guerra e outra. v. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. 4. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. ante o poder de fogo da infantaria. n. como vem acontecendo. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. Os esquadrões de cavalaria. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves.) ganha por Alexandre.c. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. 2.). dotando a infantaria de armamento leve. escalonados em profundidade. São Luís. na guerra como na economia . BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. com a propriedade de poder mover-se. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. e.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. deixar-se cercar pelo inimigo. contra multidões asiáticas incontáveis. contra fogo. responsáveis pelo choque e. contra Dario III. porque. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. Alexandre colocou a falange macedônica. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. em campo. portanto. revelaram-se inanes. Em Arbelas. prenunciando guerra de movimento. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis./1989.

de pouca confiança. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. nem. Com efeito. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. do tipo Arbelas. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. o expediente por muito brilhante que parecesse. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. o quadro da tecnologia inverteu-se. Como em Canas. Já não era mais assim no final do conflito. plausivelmente em nossos dias. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. Assim. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Em Arbelas. por interpostas pessoas. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. saiu mal aos romanos. lança. em última instância. sob a forma de “blitzkrieg”. inspirado. com os Estados Unidos à frente. exposta ao fogo aéreo . o qual teve que bater-se em retirada. formando um saco. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. porque Aníbal.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . convertido em saco. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. ordenou a inversão do próprio dispositivo. em Arbelas. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. sendo mister resistir a este com artilharia leve. “by proxy”. já com as tropas romanas em movimento. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. em campo aberto . naturalmente. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. isto é. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. O tanque. Assim. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. por ter feito. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. o imperialismo. nas alas. no exemplo de Alexandre. levaram a resultados diametralmente opostos. certeza arrecadou. nem flexa. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. que as alas de elite cartaginesas fecharam. nos versos do nosso grande Bilac. nem pedra de fundo. Ora. Não há como não pensar nessa possibilidade. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. não se perdia. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. como os nazistas depois de Stalingrado.

a buscar Arbelas e não Canas. como seria de esperar-se. com defesas escalonadas em profundidade. que justifiquem a produção em série. pelos russos. como Alexandre em Arbelas. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. 67 . O meio século que está por concluir-se.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. Paradoxalmente. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. nas condições presentes. que os nazistas não haviam aprendido a lição. . ou ao contrário. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. uma “blitz”. mas no fundo. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. ao qual faltava apenas amarrar a boca. Para isso. na espécie. no caso da indústria bélica. Em Kursk a maior batalha da história. que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. a história não parou aí. não obstante o terrível preço pago na tentativa. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante. como vimos essas batalhas. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. depois de Stalingrado. até Berlim. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. nas batalhas passadas. é a mesma coisa – esse meio século. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. O cerco. Com efeito. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo. O que nos levaria. em vez de. Ora. dizíamos. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados. de então para cá. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. não se consumaram. Em conseqüência. e consolidada em Stalingrado e Kursk. com os russos metidos num saco. seguiu-se uma guerra de movimento. Ora. não fez senão estruturarse. no futuro. no campo de batalha. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. porém. que os nazistas não lograram romper. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. isto é. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. mesmo depois de Kursk. as batalhas típicas do último conflito mundial. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. Sabemos. Ora.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. O exército soviético suspendera sua ofensiva. agora. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem.

está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. Os norteamericanos. que talvez não aconteça nunca. Por isso as batalhas da história são ganhas. o Estado-Maior Soviético. Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. porque tudo se faz em sua intenção. do ponto de vista da arte da guerra. Ninguém. escondê-lo consigo. Quando não uma tolice. o Estado-Maior Soviético. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. mas. na batalha de Canas. Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. como o noticiário nos está mostrando. mas. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. ao que se sabe. não basta para alterar o quadro histórico básico. um pequeno avião. uma temeridade. mas o modesto MIG-15. por isso. novíssimos. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. Assim. de fato. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. os vencidos. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. foram eles os perdedores. a fortiori. ou num simples buraco. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. no mínimo. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. os soviéticos deram aos coreanos. ao que parece. Nem se ganham. inclusive em nossos dias. todos os dias. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. mas que. no Vietnã e outros lugares tem sido assim.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. por exemplo. isto é. numa trincheira. nesse Estado Maior. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. não problemas vindouros ou. que não tiveram tempo. nem as batalhas econômicas nem. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. como aquela que. são simples e toscos. não bombardeiros ainda modernos. sequer correntes. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. Na Guerra da Coréia. geralmente. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. árcadios. apesar dos gorbatchovos. O Pentágono e. mas ao contrário do Pentágono. como todos devem estar lembrados. barato (porque produzido em série). ainda para refinar-se e. é como se já tivesse acontecido. tampouco. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. para variar. consequentemente. Na Coréia. porque “resolvem” problemas pretéritos. por equipamentos inovadores. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra.

Mas é apanhado de surpresa. assim. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. o MIG-15. no passado século-e-meio. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. na fronteira com a Sibéria. em “blitz” ao Rio Yalú. como disse o nosso Brigadeiro Piva. no Vietnã. de onde não mais se moveram. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. estava cumprida quando. por causa do seu refinamento de fabricação. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. nem mesmo na minúscula Nicarágua. como às vezes é mister. havia ou quase. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. tratava-se de um foguete. no Afeganistão. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. Uma sucata “moderna”. no anterior conflito mundial. isso não seria fácil. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. isto é. surgiram as armas nucleares soviéticas. Como. para ganhar guerras. não tanques “ainda mais modernos”. quando se trata de partir para a terceira. acontecido com as armas químicas e biológicas. no paralelo 38. questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. nem a bomba de hidrogênio. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. uma versão tosca de armamento anti-tanque.. para matar gente. mas sucata em todo caso. é que este está excelentemente preparado para ganhar. Não para aniquilar exércitos. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. eventualmente. seria mister ocupar o Iraque e. surgido no estágio final da segunda grande guerra. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. proteger-se por detrás do escudo 69 . “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. pois já invadira três vezes. já provado antes. tiveram que bater em retirada. Ora. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. evidentemente. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. serviços públicos e monumentos. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. A Segunda Grande Guerra. no Camboja. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. Ao que noticiou a imprensa. depois de chegarem. a missão estratégica desse aparelho. que não podem. Como foi na Coréia. “refinada”. ainda nem a bomba atômica. Para vencê-la. “reluzente”.. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. pouco antes da Guerra da Coréia. como um gigantesco produtor de sucata. E. para as posições de partida.

Nos primeiros anos do decênio de 20. muito mais. Von Schacth. falam em nome da ciência econômica. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. simultaneamente. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. na presente guerra. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. no decênio final da dita fase recessiva. como está sendo. carregado de significado. nos cinco lustros da fase “a”. de quebra. estão vivendo a sua segunda fase “b”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. pelo menos ao primeiro exame. a humanidade ingressou. não apenas no campo econômico. são jovens e. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. Com a paz tivemos. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. a taxa média de 70 . abriu-se. na Alemanha nazista. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”.2% ao ano. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. do Dr. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia.6% ao ano. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. 550. o caso do Iraque. O armamentismo e a própria guerra. com essa depressão.6% ao ano. os economistas. Ou a recíproca é que foi verdadeira. nos concílios do estado. já em idade de razão a do 3º Kondratiev.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. aparentemente. é tempo de que nós. Com efeito. para comparação com os dados supra. como 100. tivemos a emergência do fascismo. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. no Brasil. Os homens e mulheres que.6 % ao ano para a União Soviética. atualmente. para a América Latina.0% ao ano. ou próspera do 3º Kondratiev. nos Estados Unidos. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. porque às vezes o podem. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. e o Plano Quadrienal. ou quase. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. ou ciclo longo: o 4º. em 1973. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. O índice para a América do Norte passou a 305. que estão beirando os oitenta. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). o mago das finanças de Hitler. Os homens de minha geração. isto é. ou 4. Ou na medida em que não possam. num esforço ligado ao nome de Keynes. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. 449. para o Mercado Comum Europeu. ou 6. que América Latina (inclusive Brasil) e. ou 7. portanto. porque atravessam. Ora. para o Japão. ainda mais. Em 1973.

está em gestação”. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. Apenas. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. naturalmente. Para começar. do antigo mundo socialista. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. porque no lustro intermédio. “Uma nova vaga fascista. Ora. o da União Soviética. Há meio século. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk.1% ao ano. E Jorge Dimitrov. de fato. a saber: uma crise econômica profunda. quando vemos essa coalizão de 28 países. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. isto é. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. uma guerra mundial aparentemente em marcha. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio.4% do ano. os valores caíram a níveis negativos. ou melhor. Estamos. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. e. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista.2 %. o Iraque. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. caiu a 4. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. o do Brasil. a 3. Afinal.3%. e um renascimento do fascismo. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. promovida pelo Eixo Alemanha. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. o do Japão. Mas também. da primeira vez.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. disse ele aproximadamente.5% ao ano. Itália. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. e Japão de nossa época é flagrante. O Mercado Comum Europeu. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. segundo o qual a história dificilmente se repete. Em média. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. isto é. a 3. do ponto de vista econômico. Passando o conflito. o crescimento industrial da América do Norte. não há como pensar nisso.6% ao ano. foi tragédia. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. deram-nos um modelo de 71 . a 1. passou de 2. esses temores foram esquecidos.

Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. 72 . como na França de 1789. não tem nenhuma grandeza. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. para o dito desfecho. nós. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. e calcado nas instituições medievais. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. O Brasil. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. nem. – Do que jamais me arrependi. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. comandante do exército vietnamita que. difícil de explicar. promovendo um direito trabalhista que. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. Ora. como naquele tempo. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. por exemplo. o general Giap. respondeu que aquele fora um fato complexo. mais que. Isto é.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. Naquele tempo. Soares Pereira. nossa experiência “collorida” de fascismo. agora nos chegam. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. Muito mais tarde. está fazendo eco ao surto fascista mundial. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. supostamente invencível. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. corporativas. Em suma. porém. de Mussolini. os homens de esquerda. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. não há como pensar nisso. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. isto é. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. vale dizer. Com a mesma diferença. ao subir ao poder. Somente mais tarde. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. num enquadramento francamente corporativo. Só para exemplificar. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. a construção do capitalismo industrial aqui –. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. do “Golfo”. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal.

e como o epi-fenômeno que é.9 vezes.8 vezes. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars. isto é. com escassos 16 anos. eu fora getulista por um breve momento. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. 13. Para meu conhecimento. da recessão e do desemprego. Quando da Revolução de 30. Com efeito. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. fazendo jus a toda minha lealdade. On the contrary of big armys. consequentemente. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. no mesmo período 23. fizme conspirador e soldado voluntário. francamente parecera temerária. batendo todos os recordes. 73 . in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. procurando corroborar a ação de meu pai.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. 6. cresceu 26. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. a do Japão. que temos o dever de preservar. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática. como chefe da revolução. prócer aliancista maranhense. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. dei razão. a do mundo capitalista. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev. o mais próspero dos países capitalistas. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”.5 vezes. Conto estas coisas. – Getúlio. ao primeiro exame. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que. que estivemos construindo.9 vezes. É esta formidável potência. que aí temos. o Brasil e a União Soviética. havia sido meu comandante. somente dois países.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 74 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 76 .

Quando me despedi de Mrs. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. em São Luís – dela ouvi este julgamento. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. Silveira – aí por 1940. secretário geral da CEPAL.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. na firma Martins. naquele tempo. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. Irmãos e Cia. a começar por Rui Costa Fernandes. jul. Mas nunca encontrei ninguém. sob a forma de industrialização substitutiva de importações. 77 . sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. Outros mestres assim./dez. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. preparou-me para entender o que. que aprendesse mais depressa do que tu –. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa.2. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. mas viúva de um comerciante português. no período. v. São Luís. como em muitos outros países. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. Imagine-se que. sobretudo.6. e o segundo. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”.. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. ao lado de João Vasconcelos Martins. da firma Martins e Cia. a depressão criasse raízes. Mas não fizemos isso. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. para ficar. Minha experiência. 1989 Economista. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”. radicada em São Luís. haveríamos deixado que. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. sobre meu desempenho. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. n2. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava./v. fiz-me um economista fora de série. n. latim. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. no curso de inglês. Talvez por estas e outras. diretor-presidente e chefe do escritório. nada sabiam de Direito e.4. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta.

isso me pareceu impraticável. por essa via. com uma receita pública cuja origem era afinal. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. nos três decênios 1956-86. Araújo Costa. no período. a implantação de um Departamento moderno. Com efeito. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. então. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. Não foi por acaso que. esquina com a travessa do teatro.5 vezes. Rangel. A equipe conhecia esse mecanismo. que não teriam acontecido se. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. como a União Soviética. dentro e fora do país. opus-me ao esquema da Eletrobrás. como sei ser o seu caso. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. Sem isso. – Como assim. eu já sabia. a eletrificação – e. Entretanto. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. nos quadros da reserva de mercado. Ao primeiro exame. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta. diretamente. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. Ora. isto é. até por que eu próprio lhe havia explicado. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. Isso significava que. não houvéssemos criado condições de investimento. com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. sem outra garantia senão o aval do tesouro. uma receita estatal que. sendo elas próprias parte do Estado. de um modo geral. nossa produção de eletricidade cresceu 12. a exemplo de Tucuruí. na velha escola da Rua do Sol. mas de homens que. visto como. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. possibilitariam coisas ainda impensáveis. a renda gerada pelos investimentos privados. não preciso de aduladores. Noutros termos. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. mais do que o dobro da média mundial. pelo menos durante algum tempo. a receita pública com a qual o 78 . na época. o que constituiria um absurdo.

mesmo que. O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. Ora. a renda nacional poderá crescer. como então. contrabalanceado por outro. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. Com efeito. atravessamos uma crise. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. Entretanto. hoje. nas condições do emprego desse fator congênere. para isso. sob certo ponto de vista. do nada. Naquele tempo. 79 . com o resto da economia mundial. as condições persistem. se um fator de produção está desempregado. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. Naquele tempo. o custo de produção. dos países mais avançados do mundo. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. Hoje. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. não obstante o atraso tecnológico. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. Noutros termos. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. para a empresa. a saber: hoje. mas teria sido pura ilusão esperar que. no fundamental. Parece predominar. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. estaria surgindo ex nihilo. as reservas retardatárias. a mesma. – Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. no Brasil. como abri-las. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. Como venho insistindo. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada. isto é. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. isto é. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento.

while.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection. 80 . it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 82 .

não recordo se na Globo ou na Manchete. Acordar acordei. rítmico. Não só acordei. barba. por fora. Mais depressa.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. lâmina. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor... falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . Voltei para atendê-lo. disputando com o ponteiro dos segundos: água. 12 83 . carregando comigo. como me pus de pé. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir. cueca. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. pois. tragicamente. calça. bela viola. Tanto quanto possível. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. por dentro. a chave girando na porta. prossegui. aliás. toalha. Membro da Academia Brasiliense de Letras. escova. Estava de saída. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. desimportante. o jornal político. dentes. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA.. não sou amigo do Rei. aquela voz inconfundível. sabendo novamente ser a República. camisa. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. mais do que ver. Quase pronto e pensando no trânsito. com a sua linguagem trêfega. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. como vais? Quem está falando é Rangel. quando escutei o alarido do telefone. coisa. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. Rossini. creme. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. trazendo o seu cortejo de surpresas. dias 13 de junho de 1988. mesmo estando em Pasárgada. Eu estou aqui em Brasília. sabonete. varava as persianas do pequeno apartamento. disparou: – “Alô. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. Mal toquei o aparelho. gentilmente cedido pelo autor para esse volume..e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco. pão bolorento. A móvel manhã quente e derretida. a completar seis anos do dia em que foi. um morto querido – meu tio.

aqui no Hotel” – . Perdi o meu genro domingo.. no mais. – Sei. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil.. ainda não tenho..Então.. – “É isto mesmo.” 84 . aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia. algumas tristes. às 15h.. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso.. no BNDES. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra..E tive que parar um pouco e ficar. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas.. e hoje há gente ocupando altos postos. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti. Volto hoje mesmo... – “. dando assistência para a minha filha Liudmila.No Hotel Nacional? Não. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. junto com Aliette. Vai-se levando.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou . Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. é uma espécie de banco legal.. tudo bem.. Vi este pessoal todo entrar no Banco. e ela.” – Que pena. nosso ponto de encontro de sempre.” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. É uma grande alegria para mim.” – Que bom. eu deixo o Hotel. Muitos foram meus estagiários.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. mas não estou largado.. Tenho trabalhado muito. saber que eu estou velho. que está comigo. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional. que eu ajudei a formar. cargos de direção etc. o encontra”. quando vence a diária. Professor! – “Porém. A bem da verdade. – Perdeu? Que pena.. de tarde. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades. prontamente.

na chamada Intentona Comunista. Olhe. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes... e almoçamos juntos. De qualquer maneira. eu vou ao seu encontro no.. pois ele tem de ser é anticomunista. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício. ao qual não basta desgostar do comunismo. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. compreendeu.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel. contudo. Tanto quanto.. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário. telefonei para uma convidada minha.. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. eu vou para o serviço agora. Até mais. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e.” – Até mais.” – . Flávia Galiza. neta de Jesus Norberto Gomes. conversei com Flávia Gomes de Galiza. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. Ele realmente merece uma pesquisa.” – Vou. Rossini. a terceira convidada solicitou 85 . Em seguida. que lamentável. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. – “Até mais. No aeroporto? Bem. que era um burguês diferente do burguês brasileiro. Professor. rapidamente. no Hotel Nacional. – “. Flávia Galiza e eu.. Ela. preso em novembro de 1935. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. Um grande abraço para o senhor. Um abraço para ti. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa. pois eu pensei que nós pudéssemos. É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. gentil. – “Vai trabalhar. Eu gostava muito dele. quem sabe. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui.... Decidida a documentar o encontro. nos encontrar e .” – Sem dúvida. de qualquer jeito.. passei pela Secretaria Geral do MinC. – “Ah. ficou vibrando. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra.Almoçar juntos? – “Sim. ou até mais do que eu. então.

Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. Eu o provoquei. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. Passando recibo ao meu desafio. Fui buscá-lo à entrada do auditório. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. como o de perder avião. reunindo textos esparsos e inéditos. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. em animada conversa. em companhia de Dona Aliette. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. que integrou o primeiro Ministério da República. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres.. neto de Demétrio Ribeiro. logo tomamos a direção desejada. sobre a sua produtiva atitude intelectual. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. em contrapartida. No horário combinado para a saída. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. reagindo bem. o evento foi encerrado. Chegamos. e confessou. o livro Economia Brasileira Contemporânea. que fôssemos almoçar no aeroporto. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul. E o velho Rangel. Sem demora. também dos quadros superiores do MinC. Aplaquei-lhe os justos reclames. Chamei-a.. A marcha batida deste. e de outros afazeres literários. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. premido pelo horário. Celso Furtado. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. Vi olhos marejados. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. No intervalo. Necessitado de um paradigma. discorreu a respeito de projetos de livros. onde evitaria contratempos. a pequena comitiva partiu. autografado. Realizava-se ainda o colóquio.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. em substituição à afoiteza que lhe é característica. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . editada por Jorge Zahar. o aguardamos. a política e a história do Brasil. Ignacio Rangel sugeriu. de onde marchamos para a beira da piscina. no caminho. tornada um clássico das ciências humanas no país. Aceito o convite. a propósito da necessidade da reedição da obra. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. com a alegria de haver recebido. com vivaz prosápia. no auditório do Hotel Nacional. À beira da piscina. a economia. no mínimo.

a prisão política em 1935. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio. Mourão Rangel. Ignacio Rangel. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. Chegada a sobremesa. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. que não é habitual. voltando-se para mim. o viajante. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. deparamos. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez.. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. com Isabel e Epitácio Cafeteira. Sentamos. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. à frente de Flávia Galiza. tanto quanto ele. A facúndia do visitante. ao centro. agora. Trocamos apenas olhares. Rossini.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. Conseguido um lugar no estacionamento.. mergulhou em um mundo de lembranças. desaguando na divulgação do seu opúsculo. seriam depoentes abalizados a seu respeito. ainda. O testamento vai ficando para depois.” Chegamos. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil.” – A redação de sua autobiografia. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. E confirmou. com a ajuda material de Jesus Gomes. o propalado ateísmo. Mas o senhor pode reeditá-lo. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. Afinal. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. o Juiz e Professor Mourão Rangel. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil.” – Entendo. Tempo houve. declinou nomes. a sua ligação com os comunistas. 87 . o que é uma necessidade. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes. – “Esta é uma boa idéia. Ao chegarmos no amplo ambiente. intitulado Dr. enfim. em uma autobiografia. com uma introdução atualizadora. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935. referente à crise nacional. as quais. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios.

Como se não bastasse. Neste. logo acusando a lembrança em seu discurso. Ignacio Rangel identificou a localidade. educava os seus e os filhos de terceiros. com a metralhadora da memória ligada. no longínquo 7 de setembro de 1922. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus. Como um sopro. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. em época pretérita. Chegando ao Rio de Janeiro. Tomado por violenta emoção. concluída a sua palavra. de O. é lusófilo. fundada por Mourão Rangel. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. A despeito da nova e moderna construção. feito por sua mãe. de acordo com ensinamento de véspera. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital. estendendo-se a texto poético. Tornam os pobres à estrada. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. o velho Rangel. 88 . que todo o dia Tinha levado a anadar. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. de plano reconstruído e de declamado. que nela. verso por verso. Aos oito anos. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. em companhia de sua esposa. Mas saltam dois cães de gado. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. A. pois não passava bem. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. o velho. episódio de há muito esmaecido. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. funcionou uma escola particular. A rememória não ficou subordinada ao sucesso.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. Diz o filho: "Oh minha mãe. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. no Dia da Pátria.

Vendo a sua esperança vã..Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" .. Perdereis a caçadeira. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira. É escusado. Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!.Talvez que fosse melhor. dessa maneira. senhor. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho. A triste n'um riso amargo)..Boas noites. Com effeito a sentinela: ."Quem vem lá?.. Que ainda é perda maior..Olhai que. senhor! .Que importa. lavadeira! . (diz ella. caçador! . caçador!” 89 ...” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: ..Boas tardes...Boas tardes..... Até um dia.Se os cães deixarem. .Boas noites. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor.. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira.Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. lavadeira! . Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? ..

anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. Secretário de Governo. beijos e despedidas. entre outros. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque. tardaram.. a cidade. Andei sempre assim perdida. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. Ele. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. 90 . cobrando detalhes do texto do poema. Que tive mãe e. deixando em todos. o ano. II O mês era o de junho ou de julho.. mas suspendera. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. como se tivesse acabado de lê-la. Divididas democraticamente as despesas. aparecesse. com a sua passagem. abraços. em seguida. mas chegaram. para sempre. por suposto. o doce vestígio de uma presença. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro. o Recife.. e 1991. parar. Conseguimos ainda. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. foram passos rápidos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. fugaz. entretanto. porém. Almoçamos sem que Roberto Viana. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. de onde viajaria com destino a Brasília. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. partimos em direção ao setor de embarque. os quais. Inteligente. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. de João de Deus. retidos em Itamaracá.. declamou verso a verso a extensa peça literária. Foi possível. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. Depois. a caminho. não se fazendo de rogado. pois este só despontaria em meados da tarde. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. repleta de inefável encantamento.

Roberto Viana foi explícito. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. por seu relevo pessoal. ao regressar de João 91 . era. em João Pessoa. Comuniquei-me. de texto concluído. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. em cujo domicílio ficaria no Recife. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. Motivei Viana sutilmente. valiosa. em Brasília. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. levando Formiga telefone e endereços anotados. demonstrei serem malévolas. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me.. e esse. feito de pura louvação de Celso Furtado”. à sua maneira. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. É o lançamento do seu nome no Brasil. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos .CNPq. as infundadas notícias. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. com Formiga. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. e a demanda foi resolvida. de imediato. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. e antecipando. com Sales. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . em 8 e 9 de agosto. quase que à antevéspera do simpósio. podendo. o telefone do seu sobrinho. ao ser comunicada. você não pode deixar de participar. e o painelista maranhense. Rebatendo-as. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio. de sua admiração. ressalvadas a fonte. em processo de organização pelos dois. de forma irremediável e comprometedora. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. em contrapartida.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. Assim foi feito. de que a velhice o alcançara.

começaria a solenidade oficial. partimos em vagaroso e confortável ônibus. Ao chegarmos em Tambaú. o paraibano Celso Furtado. contatou painelistas. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. Antecipando-se ao horário combinado. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. às 7h30min. Sales e Formiga. sem mínimo retardo possível.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. por intermédio da zelosa fonte que. avisaram que. Paulo Bonavides e Armando Mendes. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. Luciano Coutinho. Armando Souto Maior. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos. E Pedrão. cujos setent’anos recebiam tardia. Hélio Jaguaribe. à procura de Aspásia Camargo. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. que chegaria em vôo matinal. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. Ao desembarcar. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. às 8h da manhã. quanto ao cumprimento do cronograma. retraído: 92 . em uníssono. bêbados de cansaço. mas bela homenagem de sua terra natal. Mal terminamos o abraço. desde o Maranhão. cadenciado e de pasta executiva à mão. para o Tambaú Tropical Hotel. Rosa Freire D’Aguiar. no Espaço Cultural José Lins do Rego. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. Sales. À luz do dia. O também paraibano Paulo Bonavides. parabéns!” A resposta foi glacial. da portaria. próximo à sua esposa. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão.buscando confraternizar: – “Celso. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. sorrindo. homenageado e convidados. pedindo a todos brevidade no café. entre outros. a solução foi dormirmos. Pedrão e Santos. elegante. garantira a sua presença ali. Clóvis Cavalcanti. Virando-se levemente. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. apareceu no corredor Ignacio Rangel.. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares..

. que não os cardíacos. como ficaríamos. A caminho do teatro do seminário.. o velho Rangel foi conversando. evitando viajar só. que estava repleto. casado. todo o seminário. para esconder.” Gargalhamos. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. Guedelhas. retórica baiana e dialética de Hegel. este. a Bahia. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. figura sempre simpática. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. Explicou-me ainda que. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho. com uma sobrinha de José 93 . a tristeza. aliás. A solenidade começou pontualmente. Mourões e Rangéis da Paraíba..?” – “Um dia melhora. – “Bom”. Sentado em poltrona contígua à minha.. entramos no ônibus e partimos. Milton Santos. sua esposa. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. decerto... com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. Avisou–me que tivera problema de saúde. galhofeiro. como coordenador do Mestrado em Economia”. Pedrão juntou-se a nós e. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. combinando capoeira. Santos sentenciou: E Pedrão. Quase metediço. por causa dos problemas de saúde. Desembarcamos. conterrâneo. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa.

A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. emocionado. com o pensamento de Celso Furtado. grande Mestre!” 94 . Formiga explicou ao velho populista que. sem nenhuma intenção de trocadilho. intelectuais. sexta-feira. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. Arraes dirigiu-se a Rangel. a dicção ignaciana. sentando-se de novo junto a mim. ponderando: – “Rossini. pelo notável economista paraibano. – “Afinal. Admitida a aceitação. o sábio maranhense deixou escapar a frase. entre sorrisos. Rossini. Marcos Formiga discursou na abertura. foi constituída por um confronto do seu. Surgiu a idéia da criação.” A participação de Ignacio Rangel. Quinta-feira. segundo convite do Governador Cunha Lima. Lamentando a frustração do seu propósito. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel. retiraram-se. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. 8. Contudo. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. elevada e corajosa. sem ser suntuoso. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. cumprimentando-me da passagem. assim como Sales Gaudêncio. à maneira isebiana. vivido em estilo elogiável. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. Estudantes. problemas e dificuldades. na década de 50. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. para a solenidade de encerramento do seminário. e o festejou. quem é que é. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. abraçando-o: – “Salve. a quem auxiliei a levantar-se. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. o Governador Cunha Lima chegaria. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. inquietações. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. Tomado por um constante espírito crítico. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. E foi. professores. eu estou preocupado. o faria no encerramento do colóquio antológico. a qualquer instante.

entre léguas de cana de açúcar. de sua lavra. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. Não obtendo sucesso. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. onde recusei. e descermos juntos para o Recife. matar a sede e tomar café. 95 . ditado pelas musas da juventude. como sói acontecer. findo o café. mais à frente. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. Dona Aliette. Apontei. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel. O motorista. A minha expectativa era. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas.” Fiquei. de minha parte. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. atencioso. levando a que eu aguardasse em vão. Ignacio. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio. Armando Souto Maior. apareceu em companhia da esposa e amigas. que fosse possível chegar ao Recife vindo. Falei-lhe. pois as mulheres falaram a contentos. convite para jantar. Fiquei plantado à beira da churrascaria. em abono do testemunho salesiano. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. Tratou-se de uma viagem maravilhosa. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. particularmente. E. O pedido foi aceito. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. houve a ruidosa entrega de certificados. parou. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. quando. em busca de um lugar para jantar. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. comecei a providenciar o regresso. No sábado pela manhã. com o estilo inteligente e cortante de sempre. o burgo de Goiana aos Rangéis. como se fossem novidades.

Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. e vós. resgatou versos de Gregório de Mattos. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. Que solta um Barrabás. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. e misto. e maranhas? É Ministro do império. Perguntei a Dona Aliette. e eqüidade. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. e outra idade Desde que há tribunais. Ignacio Rangel. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . Tão Pilatos no corpo. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. com que a todos causam inveja. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. e tu”. Que se tem feito em uma. Como previsto em trampas. declamou com voz de cristal resoluto. revelando a sua íntima conexão com a poesia. novelista e jornalista Odylo Costa. E logo em seguida. para não perder o fio da meada. Guerreiro Ramos. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. e prende um Cristo”. mero.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. A resposta foi objetiva. filho. mas terminara a vida no Recife. e quem os reja. vencendo o cansaço do tempo. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. e mísera cidade Sua justiça agora. e o fiz sem reticências. e iniqüidade. E Letras. e vós. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. e nas entranhas.

Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. ela. de fôlego e duradoura. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. disparou: – “Minha filha. Em seguida. Chegamos ao Recife. cauteloso. sob elogio dos seus mestres. mas sincero. preferiu colocar à mesa episódio imediato. no qual a sua filha. Palavras ao vento. no ato. o prato servido foi Celso Furtado. seu amigo. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. Sequer os adversários ideológicos. Sentenciou ainda que sua obra. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. que. a qual. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. encontrando o romancista maranhense em uma festa. finalmente. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. Ele prometeu publicar o documento. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. onde o habilidoso matemático não ficou. admitiu que muito do 97 . o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. sem que recebesse resposta. Tomando a palavra. que.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. nos jornais de Brasília. estivera ausente. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. para a economia do seu quatriênio administrativo. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. Disse-lhe que não. que dela ousara discordar. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. ele poderia ter sido muita coisa neste país. fui buscá-los no Engenho do Meio. de boa-fé.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. foi apresentada a Josué Montello. sem rebuços. para que. segura de si. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. em Londres. lançara um sapato no rosto de um estudante. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. Roberto Viana esteve presente. O velho Rangel.” Dona Aliette. em particular. Por quê? Dona Aliette. eu redefini o curso da conversa. garantiu-me que. para sobreviver. da competência e da probidade do seu marido. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. juntos. ninguém duvidava no Brasil. À noite. afirmando que o estudara em Oxford. que. Daí a pouco.

lembrando da menina que. quase madrugada.. editor da Bienal. sem necessidade. procede do pensamento de Raúl Prebisch. com os dois já no Maranhão. comunicada à Academia Maranhense de Letras. vai ficar deste tamanhão.” Terminado o café com muita prosa. tua filha. com menos de um ano e meio. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. a referência original. em termos de construção original. de toda maneira. entretanto. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. E mais: que Phaela a nada faltou. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. desde ratinho até agora. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. de José Márcio Rego. Parabéns! Fiquei prosa. resguardado. no qual lhes passei endereços e tudo mais. vovô Rangel. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. Prosa e verso. ligaram para agradecer. minha filha. muito prestigiado no ciclo cepalino. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. Antes de partirem com destino a São Luís. aqui em São Luís. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. sonegando. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. cantava toda a música “Carinhoso”. em Alternativas do Brasil. Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela.. movidos a cortesia. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. os Rangéis. fui deixá-los. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. muito que te quero 98 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. economista da Argentina. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. que conversa como gente grande. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. para a Dona Aliette. Muito prosa. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida.

não satisfeitos. o deixou viajar sozinho. vem. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. por exceção. fomos à Livraria Brandão. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. e. A conferência. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. em matéria de bibliofilia. respectivamente. inclusive o seu A Questão Agrária. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. onde estavam familiares. publicado aqui no Recife. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. que. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. conferimos quem tinha o quê. situada no Bairro do Recife. trocamos idéias. vem. foi um sucesso. e. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. vem. E também Carlos Osório. seguindo recomendações de Dona Aliette. com o qual lhe presenteei. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. Mestre Rangel. O velho Mestre dispensou o hotel. enquanto Mestre 99 . muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. Conversamos à vontade. ficou hospedado comigo. vem. onde adquirimos alguns volumes. Percorrendo as livrarias. realizada na sede da Secretaria de Planejamento.

Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano.” E assim foi feito. com diversa óptica. Antecipando-a. na manhã seguinte. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. só depois. com a palidez da angústia. não pôde conceder–lhe. em seguida. Saber. todavia. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. muito embora eu o deixasse à vontade. aplaudida ao final. e. findo o Governo Juscelino Kubitschek. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. houve emocionada saudação de Carlos Osório. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. o grande economista estava lívido. bastante cedo. de maneira generosa. defensor do recurso em si mesmo. sobretudo quando revelou que. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. da democracia e do progresso social. por minha causa. Ele é o patrimônio da nossa família. comendo de tudo um pouco. facilitada pelo concurso de duplos microfones. substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. não devendo ambos. Retruquei-o. em círculo restrito. mas temendo. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. prontamente sugeriu: 100 . livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. ficou com algumas reservas mentais. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. como gostaria. ele e eu.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. Nada obstante. Na saída. similar ao do Governo Federal. por minha posição. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. Mestre Rangel. chopes e uísques antecederam os pratos principais. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. navegou em céu de brigadeiro. indagando-lhe. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista. A explanação da temática foi meridiana. Rossini. Na tratoria. confessadas.

pois um morto. A chegada do 3 de outubro. recebeu proposta de uma rica senhora. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. do magistrado revolucionário em disponibilidade. quase um vintém de prosa. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. esclareceu fundamentos e circunstâncias.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. da estrutura à conjuntura. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. dialogamos um pouco. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. nesta.” 101 . Foi uma manhã iluminada. sua conterrânea. ainda ali. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. nascido em 14 de abril de 1928. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. a aerofogia estava vencida. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. a criança desventurada. O pai. a favor da Revolução de 30. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. Ao término do café. significou a surpreendente colocação. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. com o pai e seu irmão caçula. Quando do retorno. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara. limites e possibilidades. E ficaram ambos. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. segundo o seu filho. se em Paris. com o fio de espada da dialética. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. já volátil. e. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. De tudo. portanto. em 1º de janeiro de 1930. Do quadro teórico à formação social. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. desvãos e perspectivas. naquele vendaval de estremecimentos. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. o pensador maranhense. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. desculpando o pai e sentindo-se. Em viagem de navio para o Maranhão. ao encontro repentino do rio e da morte. porém. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. em Londres ou em Nova York. infante ainda. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. retirando dele o peso do cadáver. Quando quase todos já tinham partido. e ele. o pai e ele. Fechada a porta da frente. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. Ignacio Rangel retornou a São Luís. carregando na alma o mortal sentimento de culpa.

Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. porém. Na antiga Capital Federal. primeiro. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. histórica e sociologicamente. Dona Aliette Martins Rangel. fruto de acidente de percurso. o Brasil. tê-las e segundo. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. escrita. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. sob a determinação de sua esposa.para alegria de Dr. de resto. que aos quinze anos passava a limpo. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. começada no Maranhão . exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias. à força pessoal. Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel.concluída no Rio de Janeiro. entre faltas e segundas chamadas. que é mais do que a sombra protetora. Não poderás negar. em máquina de escrever. por reclamar. Aceita a sedutora provocação. o cigarro e a máquina de escrever. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. manejá-las. Mourão Rangel. o pensador 102 . passara. que preparava o seu terremoto clandestino. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. as sentenças do pai magistrado. bem como de sua esposa Maria do Carmo . com o seu saber velho e desatualizado. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original. a datilografar fumando.” Realizado o vaticínio paterno. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. como passariam. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. Por recomendação médica. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. em congresso de sua agremiação política. só à mão. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. O interesse agronômico. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. não deixe este congresso sem conversar comigo. isolando-o de todos. Nada obstante.

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

103

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

104

Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

PERFIL DE IGNACIO RANGEL

105

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 106 .

Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. concluído no Rio de Janeiro. com rigor. no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Desenvolvimento e Projeto (BNDE. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. na capital do Maranhão. Sociologia e Política-IBESP. no Plano de Metas de Juscelino. hoje BNDES. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. 1957). em Mirador. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. História e Economia. no Clube dos Economistas. dentre outros. Participa em Santiago. no Rio de Janeiro e Agronomia. Chile. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. 1957). 1954). nas Assessorias de Vargas e Goulart.1957). no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. no Instituto Brasileiro de Economia. estuda. na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. 107 . quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. De forma autodidata. no Rio de Janeiro.

Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. 1985). Desenvolvimento e Conjuntura. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. Revista da Civilização Brasileira. Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Revista do BNDE. coligindo boa parte da sua produção intelectual. cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume. 1959). Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Revista Agrária. 1982). Estudos CEBRAP. Cadernos do Nosso Tempo. 1963). a UFMG. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. Ciclo. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. 1987). 1961). a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. 108 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). 1960). Tecnologia e Crescimento (Civilização. 1979). 1961). Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL 109 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 110 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful