A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel, v.2

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

GOVERNADOR DO ESTADO DO MARANHÃO Jackson Lago SECRETÁRIO DE ESTADO DO PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO Abdelaziz Aboud Santos INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS PRESIDENTE Raimundo Nonato Palhano Silva DIRETOR DE ESTUDOS E PESQUISAS Hiroshi Matsumoto DIRETOR DE ESTUDOS AMBIENTAIS E GEOPROCESSAMENTO José Raimundo Silva SUPERVISOR ADMINISTRATIVO-FINANCEIRO Tetsuo Tsuji CHEFE DA ASSESSORIA JURÍDICA João Batista Ericeira CHEFE DE GABINETE Jhonatan U. P. Sousa ORGANIZAÇÃO DA COLEÇÃO IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva Jhonatan U. P. Sousa DIGITAÇÃO Arisson Ribeiro de Macedo Mayra Diuene Oliveira Soares REVISÃO Josélia Morais de Sousa NORMALIZAÇÃO Virginia Bittencourt Tavares Conceição Neves

A Singularidade do Pensamento de Ignacio Rangel/ Raimundo Nonato Palhano Silva (org.), Jhonatan Uelson Pereira Sousa (org.). – São Luís: IMESC, 2008. 110 p. : il. (Coleção Ignacio Rangel, v.2) ISBN 978-85-61929-01-5 1. Ciências Sociais – Coleção. I. Silva, Raimundo Nonato Palhano, org. II. Sousa, Jhonatan U. P., org. III. Título. IV. Série. CDU 3 (08).

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Coleção Ignacio Rangel

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

RAIMUNDO PALHANO JHONATAN U. P. SOUSA (Organizadores)

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL
Coleção Ignacio Rangel, v.2

São Luís IMESC 2008

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

Coleção Ignacio Rangel

INSTITUTO MARANHENSE DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS E CARTOGRÁFICOS CONSELHO EDITORIAL Raimundo Nonato Palhano Silva Presidente Francisca Zubicueta Hiroshi Matsumoto Jane Karina Silva Mendonça Jhonatan U. P. Sousa João Batista Ericeira José Ribamar Trovão José Rossini Campos do Couto Corrêa Josiel Ribeiro Ferreira Madian de Jesus Frazão Pereira Rosemary Paiva Marques Teixeira Tetsuo Tsuji

Presidência do IMESC Av. Jerônimo de Albuquerque, S/N – Edifício Clodomir Milet – 6º andar - CALHAU São Luís-MA | CEP 65074-220 (98) 3218 2176 (98) 3218 2394 (Fax) Diretorias de Pesquisa/Coordenadoria de Informação e Documentação Av. Senador Vitorino Freire, S/N – Edifício Jonas Soares – 4º andar – AREINHA São Luís-MA | CEP 65030-015 (98) 3221-2353 (98) 3221-2504 www.imesc.ma.gov.br www.seplan.ma.gov.br www.ma.gov.br

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A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL

APRESENTAÇÃO

A Coleção Ignacio Rangel, ora retomada pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC, inscreve-se como mais uma contribuição voltada para a ampliação dos conhecimentos sobre a realidade maranhense na perspectiva do revigoramento do planejamento do desenvolvimento sustentável do Estado. Ao reeditar obras de autores contemporâneos cujo pensamento ainda não se esvaiu e a atualidade se faz pungente, sob a luz das questões do tempo presente, o IMESC contribui significativamente para se repensar e reinventar o Maranhão, sob outras bases, mais democráticas e inclusivas. Analisando o Maranhão entre o antigo e o novo, Ignacio Rangel, põe um desafio que, pelo resgate de seu pensamento singular, se tornou algo presente – “pensar grande”. Isto pode ser compreendido pela utilização dos instrumentais de planejamento para uma atuação no médio e longo prazo, superando os imediatismos e as descontinuidades, características históricas da administração pública maranhense. Este volume da Coleção Ignacio Rangel ao associar os trabalhos de Raimundo Palhano, Ignacio de Mourão Rangel e Rossini Corrêa trazem à tona outros olhares sobre a realidade maranhense, distantes das explicações consagradas e em busca da construção de leituras alternativas e originais. No atual planejamento público o conhecimento é tido como valor estratégico, elemento vital para sua consecução e fiador da sua sustentabilidade futura, imperativo categórico de um Maranhão mais Democrático e Solidário para todos os maranhenses.

Abdelaziz Aboud Santos Secretário de Estado do Planejamento e Orçamento

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PREFÁCIO O RETORNO DE IGNACIO RANGEL Ladrilhador da História Ao organizarmos este segundo volume da Coleção Ignacio Rangel. o que dele sei me vem. O que representa para o Maranhão a inspiração de um pensamento como o rangeliano? Quais os impactos de sua publicação numa conjuntura de mudança tão importante para o futuro do Maranhão? A leitura compassada dos trabalhos aqui arrolados poderá revelar a força infinita e fecunda das idéias rangelianas. mas as flores florescem ao ar livre e à vista. 2 SOSA. Buscamos construir essa competência para prestar a homenagem e a consideração devidas a este retorno de Ignacio Rangel.. Se eu morrer de novo. com Ignacio Rangel. e ficar por imprimir “por que as raízes podem estar debaixo da terra. Raimundo Palhano. como o poeta há muito afirmou. Mercedes. como volume um da Coleção Ignacio Rangel. que mesmo não podendo voltar até lá. Portanto. retomamos após dezessete anos esse projeto. pelos olhares e dizeres dos contemporâneos seus.. Cada texto compilado nesta retomada nos despertou aquele sentimento que só a música pôde expressar com cristalina transparência – “voltar os dezessete anos depois de viver um século é como decifrar signos sem se saber competente. admiradores e introdutores de sua obra no Maranhão. que em sendo seus versos belos. publicada na forma de livro. eles não o poderiam ser. me propiciaram aqui reiniciar o já começado. É certo. integrantes do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES. 7 . fornecer indicativos para elas. e justamente pelas mãos dos idealizadores daquele projeto. Nada o pode impedir”3. isso é o que eu sinto neste instante fértil”2. responder a essas perguntas ou pelo menos. 3 PESSOA. e quem sabe. iniciada por “Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel”1. cultura da descontinuidade e da efemeridade das iniciativas. 1 Entrevista organizada por Rossini Correa. Quando partiu deste mundo. Maureli Costa e Pedro Braga. A riqueza desse momento está em justamente rompermos com a nossa. como é característico do mister do ladrilhador da História. Tem que ser assim por força. incompletos dez anos tinha. Fernando (Alberto Caeiro). Volver A Los 17. Não conheci Ignacio Rangel. e do muito que escreveu e escreveram sobre ele e sua obra. tão presente.

8 . blindagem e conjuntura e 3. Fogo. isto é. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão”. ao civismo. o autor nos relembra em “Tecnologia e Custo da Produção” a importância do crescimiento hacia adentro. não se manteve. Rangel faz uma análise histórica do papel desempenhado pelo Maranhão no passado e as expectativas no futuro. Assim a idéia que floresceu nesta retomada foi publicar os artigos de Rangel veiculados na revista FIPES. mas nunca baseada no “desmantelamento dos instrumentos fundamentais do planejamento”. enfatiza a importância de atentarmos para a grandeza do Brasil e buscarmos patrioticamente preservá-la e ampliá-la. todos de 1989. quando de suas frutíferas passagens pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais-IPES no Maranhão. sem o qual não é possível nos integrarmos ao mundo global ou sequer competir nos setores que formos melhores. construí-las no agora e por diante. operação que deve ser planificada. ensinando que mais do que cantar glórias passadas. A força de suas próprias idéias tem como lugar de excelência o espaço e o debate públicos. sustentável. eco de sua formação cepalina. Maranhão: antigo e novo. Profeticamente disse “ora somente. o desenvolvimento endógeno. blindagem e conjuntura” aponta que nem sempre as melhores estratégias podem ser repetidas quando os tempos outros são e a tecnologia avança. destacando os fatores de localização e a importância fundamental dos meios de transporte no aproveitamento destes. vistos como mal-arranjados simulacros de falsa consciência dos militares de 1964 pelos “esclarecidos” de hoje. O planejamento é redescoberto com acuidade como valimento para nossa inserção internacional soberana no concerto das nações. Sonhava com uma ligação ferroviária unindo Carajás-Itaqui a Callao no Peru e a conclusão da ferrovia Norte-Sul. Tecnologia e Custo de Produção. Ao analisar a história das guerras em “Fogo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mesmo os anos de indiferença a este pensador-ação. do qual o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos-IMESC é herdeiro espiritual. pensando GRANDE. que via ligadas umbilicalmente às ferrovias e ao Porto do Itaqui. a “conspiração do silêncio” como ele denominava. algo desafiador num período tão crítico ao nacionalismo. No trabalho “Maranhão: antigo e novo”. 2. Os artigos identificados foram: 1. devemos é buscá-las no presente. Por último. paradoxalmente efusivos com o verde-amarelo da bandeira brasileira nos campos de futebol.

num esforço conjunto de devotamento e permanente rememoração. Realismo e esperança Ao ler a entrevista que Rangel concedeu4. Luiz Carlos. três de autoria do economista Raimundo Palhano e um do sociólogo Rossini Corrêa. v. 1991. Ignacio Rangel: um decifrador do Brasil. 5 BRESSER-PEREIRA. e 3. SANTOS. mas para nós não. 4 9 . Ficará patente ao leitor que este livro é muito mais “sobre” do que “de” Ignacio Rangel. Ignacio. palestra proferida por ocasião do lançamento das Obras Reunidas de Ignacio Rangel no Maranhão. situamos a produção de Raimundo Palhano sobre o pensamento rangeliano. ele apresenta um pensador original e humano cuja obra não foi esquecida por seus discípulos. Milton. et. o decifrador e o ídolo. Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a singularidade de Ignacio Rangel. como as invejas veladas e os elogios rasgados ao “Mestre dos Mestres”. Conferência apresentada no Seminário Ignacio Rangel e a Conjuntura Econômica no dia 10 de novembro de 1997 no anfiteatro de Geografia da Universidade de São Paulo. Primeira Leitura nº 43. o intelectual. Nos textos tal como o próprio Raimundo Palhano afirmou. pois nos escritos e na vida profissional dos seus admiradores existe muito mais “de”. dando conta das várias dimensões. se cartesianamente dividirmos o que ele escreveu do que dele escreveram. A volta por cima de Ignacio Rangel. al. Um fio de prosa autobiográfica com Ignacio Rangel. O Pensamento de Ignacio Rangel. outros quatro sobre ele são postos. O do segundo é intitulado “Eu e Ele: minhas memórias de Ignacio Rangel”. Maureli Costa. Notas sobre a bibliografia intelectual de Ignacio Rangel. Entrevistado por Rossini Corrêa. O mais interessante desse texto é o desvelar de uma faceta poética em Ignacio Rangel. para alguns inconciliáveis.1 (Coleção Ignacio Rangel. O texto de Rossini Corrêa expressa através da rememoração a figura humana de Ignacio Rangel na convivência pessoal e profissional. chamou-me atenção duas passagens que coloco ao lado de síntese de esparsos textos que encontrei5. Os do primeiro foram: 1. admiradores. Ele nos revela inconfidências dos momentos de trabalho e descontração. que recita de memória poemas inteiros de João de Deus e Gregório de Mattos. ou melhor. São Luís: SIOGE. Na franja tênue entre a razão e a emoção. dos vários Rangéis que habitam Ignacio: o personagem. familiares. 2. a poesia e a prosa. amigos. verdadeiro “transbordamento” se avoluma e inunda o leitor. 1). publicados na revista FIPES. setembro 2005: 9093. Me refiro a RANGEL.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Razão e emoção Ladeando os trabalhos do mestre Rangel.

Ignacio Rangel. um homem de ação. Ele não diz isso como que para se auto-promover. Num homem só. alguém que podemos dizer que pensou antes. podemos dizer que foram milhões. 1998. na presença dos interessados que acontecia. Fernando Cardoso. Prefácio. com uma inteligência penetrante e uma poderosa imaginação. 2001. entre muitas dessas tardes que viraram noite. percebi que ao conviver com Raimundo Palhano e mais recentemente. melhor do que está hoje. na sociedade exprimindo em palavras. com valor e atrevimento. conheci Ignacio Rangel. e ainda é capaz de dizer “vejo o mundo como o Brasil. tantas coisas. não foi um desses muitos epígonos que repetem um mestre qualquer. enfim. Na segunda passagem da referida entrevista ele se auto-definiu como um trabalhador. Luiz Carlos. no país. Ele afirma que constituíam equipe com absoluta confiança entre si. na verdade. Deixo testemunho pessoal que após concluir esse volume e olhando em retrospecto. ESTUDOS AVANÇADOS 15 (41). Da síntese aferimos que Rangel foi um dos mais notáveis economistas brasileiros.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na primeira ele afirma que muitas vezes trabalhou até virar a noite. BRESSER-PEREIRA. com Rossini Corrêa. São Paulo: Editora 34. se sair de casa pela manhã da segunda-feira e voltar no final do sábado”. mas um criador que se arriscava. capaz de pensar por conta própria. de. mas por que “o trabalho era tremendo. Acredito no futuro. preocupado com a distribuição de renda. Ele será. se ressentem disso. às vezes. o Brasil e em especial o Maranhão. melhor do que o passado”. PEDRÃO. Sua percepção do novo e o sentimento de reconhecer o que está brotando no mundo. quando um saía o outro continuava o trabalho que este havia deixado sobre a mesa. segundo ele. Hoje. Desse realismo é que precisamos para construir outro Maranhão. 10 . com marchas e contramarchas. nitidamente autodidata. O Pensamento de Ignacio Rangel. com o realismo e a esperança dos meus ideais de juventude. sua busca por caminhos e sua realização prática. sem ufanismos ou covardia. demonstram seu apego ao trabalho intelectual. mas por sua convicção patriótica de serviço público e do relevo e projeção que seu trabalho possuía. com pensamento e ação. participando da resolução dos mais diferentes problemas. tanto vulto. heterodoxo e extraordinário. não por cangas ideológicas. serem centenas. O serviço público carece muito de um espírito de trabalho e dedicação assim.

mas de dentro para fora. somente com a elevação de nossas próprias condições e capacidades é que poderemos nos direcionar rumo à superação do subdesenvolvimento. De início a importância do planejamento no encaminhamento de soluções e no enfrentamento dos desafios recorrentes da realidade histórica. sem perder de vista o global. dinamizando as economias locais. Um terceiro eixo é a tecnologia. ou percebendo linhas indiciárias do pensamento rangeliano. O planejamento para Rangel está vinculado inseparavelmente à identificação dos problemas ao lado da proposição de respostas aos mesmos. temos que realizar um trabalho de inclusão digital e pari passu desenvolvermos nossa própria tecnologia. Agora a mera existência deles per si. No pensamento rangeliano ele está como algo intrínseco. significado singular do planejamento. não basta apenas pensar antes de agir. dispostas e traçadas nos textos aqui coligidos. sem investimentos permanentes em modernização e ampliação. assim sendo. que os grandes empreendimentos não resolverão todas as necessidades de empregabilidade e prosperidade do Maranhão. que agreguem valor às matérias-primas. Para tanto. mas pavimenta 11 . Como quarto eixo – a infra-estrutura. Não faz sentido ter tecnologia de ponta se ela não está articulada a estratégia global de desenvolvimento. adequada às especificidades do local. mas agir depois de pensar. não ocorre de fora para dentro. isto é. Outro eixo é o do desenvolvimento. Vale ressaltar ainda num quinto eixo. o que implica no conhecimento aprofundado de nossas necessidades e do que desejamos ser. caso não venham acompanhados da dinamização dos pequenos e médios empreendimentos. Construindo a permanência O IMESC ao retomar essa coletânea não pretende apenas lançar mais um livro no mundo editorial ou fazer louvações póstumas a figura eminente de Ignacio Rangel. É preciso inovar e inovar é preciso. os tornarão eternas potencialidades sem concretude para o Estado. Fica patente que os fatores de localização privilegiados do Maranhão. observamos eixos relevantes para atual conjuntura maranhense.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Pensamento rangeliano Pondo marcas no caminho. advindos do Porto do Itaqui e maximizados com a integração produtiva que será propiciada pela conclusão da Ferrovia Norte-Sul são imprescindíveis em qualquer planejamento do desenvolvimento estadual.

avançamos. Assessor do IMESC/SEPLAN 12 . Objetivamente se constituirá. São Luís. amplo programa de estudos e pesquisas materializado no resgate. cuja aula inaugural está nas páginas deste livro. Sem dúvida. à luz da contemporaneidade. dos trabalhos produzidos pela profícua mão rangeliana. Ao assentar as bases da permanência e da institucionalização da pesquisa aplicada ao desenvolvimento por meio da criação dessa Cátedra. semeamos a edificação de conhecimentos inovadores e úteis ao planejamento público maranhense. atentos à realidade maranhense. Para essa empreitada o IMESC convidou o pesquisador José Rossini Campos do Couto Corrêa para coordenar a Cátedra Ignacio Rangel. com vistas à construção da permanência e ao florescimento de novas idéias sobre o planejamento e o desenvolvimento. a partir dessa Cátedra.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel o caminho para o mais ousado – a criação da Cátedra Ignacio Rangel. expandindo os horizontes de pesquisa e formando novos pesquisadores. ao mesmo tempo. com vistas à articulação de equipes de estudo e pesquisa e a obtenção de financiamentos para os projetos. no dizer rangeliano. avançamos e avançamos. incentivará o produzir do pensamento inovador e criativo. 20 de agosto de 2008 Jhonatan Uelson Pereira Sousa Historiador.

...................................................................... 95 13 .......................... 38 Raimundo Nonato Palhano Silva MARANHÃO: ANTIGO E NOVO ............................... BLINDAGEM E CONJUNTURA .......................... 65 Ignacio de Mourão Rangel EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL .....................................................................Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SUMÁRIO IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL.......... 48 Ignacio de Mourão Rangel FOGO................................. 10 Raimundo Nonato Palhano Silva SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL ....................................................................................................................... 54 Ignacio de Mourão Rangel TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO ............. 70 José Rossini Campos do Couto Corrêa PERFIL DE IGNACIO RANGEL .............. 18 Raimundo Nonato Palhano Silva NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL .................

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL Raimundo Nonato Palhano Silva 15 .

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* Economista. jovens intelectuais como nós que. Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Obras Reunidas” de Ignacio Rangel no Maranhão. a realçar o significado e a importância do lançamento. da Academia Maranhense de Letras. Benjamin Mesquita. que nos honra com sua presença. ou integrantes do antigo Grupo de Reflexão Ignacio Rangel sobre o Desenvolvimento. Jomar Moraes. “Obras Reunidas” estas que muito devem também ao trabalho silencioso e esmerado de Ludmila Rangel Ribeiro. Luis Augusto Mochel. Emanoel Gomes de Moura. em alentados dois volumes. de suas “Obras Reunidas”. e outros estudiosos coetâneos. 6 17 . os conterrâneos de Rangel. entre tantos outros rangelianos que formavam o NIRDEC. Haymir Hossoé. Joaquim Itapary. a partir de inícios dos anos 1980. Poderiam estar aqui também José Augusto dos Reis. editadas e organizadas por César Benjamin. Carlos Gaspar. a difundir a obra rangeliana e torná-la conhecida na terra natal do seu autor. no dia 22 de junho de 2005. filha e herdeira do legado rangeliano. Sebastião Moreira Duarte. durante seis anos. presidido por Dilma Pinheiro. para atender ao honroso convite de amigos generosos do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Flávia Mochel. Roberto Gurgel Rocha. e que. Niomar Viegas. João Evangelista da Costa Filho. os fios de ouro que criaram a obra-prima. Raimundo Arruda. em evento do Conselho Regional de Economia. com menos de trinta anos. no contexto de uma coleção voltada ao resgate da memória do ciclo desenvolvimentista no Brasil. ajudou a tecer. liderada por Jomar Moraes e da Universidade Federal do Maranhão. Hiroshi Matsumoto. sob a presidência de Carlos Lessa. Pedro Braga dos Santos Filho. hoje relançado por seus idealizadores. primorosamente editados pela Contraponto. Cursino Moreira. com mãos delicadas de artista. exemplo de editora comprometida com o desenvolvimento e com a cultura brasileira. embora conhecedores das nossas limitações. com o apoio do BNDES. como Tetsuo Tsuji. neste lugar privilegiado. Neste lugar em que nos encontramos agora. nos propomos. Nesta noite. Ex-presidente do Conselho Regional de Economia. privilégio imerecido. se apaixonaram por Rangel e se propuseram. Alberto Arcangeli. sob o reitorado de Fernando Ramos. entre nós. poderiam estar Rossini Corrêa. mobilizando recursos tangíveis e intangíveis.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL IGNACIO RANGEL: UM DECIFRADOR DO BRASIL6 Raimundo Nonato Palhano Silva* 1 INTRODUÇÃO Aqui nos encontramos. Maureli Costa. inspirados pelo brilho da lua. Benedito Buzar.

2 O PERSONAGEM Iniciando o exercício a que nos propusemos convém recordar a figura preciosa de Ignacio Rangel. e São Luís. para ele uma verdadeira apostasia. De forma autodidata estudou. modestamente. história e economia. os leitores encontrarão o ensaio de Márcio Henrique Monteiro de Castro. o mais criativo e ousado dos gigantes que edificaram os alicerces das ciências econômicas em nosso país. como jurista. participasse da “Revolução de 30” e aos 21 da tentativa de tomada do poder pela Aliança Nacional Libertadora-ANL. com rigor. a missão quase impossível de examinar a contribuição de Ignacio Rangel ao pensamento econômico brasileiro. fato que nos exime de novamente incorrer no desatino de tentar fazer o impossível. aos 16 anos. denominado “Nosso Mestre Ignacio Rangel”. onde permaneceu até o final de sua vida. Foi um dos organizadores da luta dos trabalhadores rurais espoliados do Alto Sertão maranhense e piauiense contra o poder do latifúndio. ideário. Instituto 18 . Derrotado em 1935. de modo primoroso e didático. Atuou inicialmente como jornalista. principalmente. tendo sido secretário da United Press e como tradutor e. posteriormente. nesta oportunidade. o conjunto da obra rangeliana e sua contribuição ao pensamento econômico brasileiro. Não apenas no discurso bem construído. por força das evidências lacunares e incompletudes temáticas. no Rio de Janeiro. No imediato pós-guerra radicou-se no Rio de Janeiro. como economista.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Não nos cabe. nas instituições e nas trincheiras de luta pelo desenvolvimento nacional. onde foi “reitor” de uma universidade popular formada por presidiários. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. passou os dez anos seguintes entre presídios no Rio de Janeiro. em Mirador. mas na ação prática cotidiana. hoje BNDES. economista do BNDES. onde viveu sob intensa vigilância e com direitos de ir e vir cerceados. edição de jul/dez de 1989. Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. A partir dos anos 50 esteve presente. lúcida e ativamente. no trabalho intitulado “Notas sobre a Biografia Intelectual de Ignacio Rangel”. Foi um homem sólido de caráter. Ademais. O espírito de luta que herdou dos familiares fez com que. combatendo a política econômica do governo Collor. Cursou direito na antiga Faculdade de São Luís. publicado pela Revista FIPES. historiador e. que inventaria e analisa. idoneidade e convicções políticas e filosóficas. na Introdução do Volume 1 das “Obras Reunidas”. o que já o fizemos.

o que lhe rendeu domicílios coactos e sofridos isolamentos nos círculos intelectuais tradicionais. instituições estas onde atuou e realizou inúmeros trabalhos. em especial a Folha de São Paulo. Assessorias de Vargas e Goulart. está cotado pela CBL como um dos 50 livros brasileiros do século XX. no que teve de contrariar verdades professadas tanto pelo pensamento de direita. nos problemas do desenvolvimento brasileiro. Seu livro “A Inflação Brasileira”. 19 . tendo sido ainda colaborador permanente das principais revistas e publicações especializadas em economia. não cedendo aos fascínios do poder e muito menos às conveniências oportunistas.. Todas as suas questões teóricas foram condicionadas pela busca de soluções aos problemas que afligiam o país. e dos maiores jornais do país. Foi o maior dos economistas sendo formado em direito e um dos maiores intérpretes do Brasil sem ter atuado no meio universitário. No texto introdutório de Márcio de Castro é enfatizado algo que singulariza a produção intelectual de Ignacio Rangel: foi um exemplo raro de teórico não-acadêmico. como a Revista de Economia Política. para que se desenvolvesse pelo bem do seu povo e para isso trabalhou e lutou tenazmente. muito embora preferisse dar seus próprios mergulhos. Um criativo produtor de idéias. Respeitava as questões que a academia pautava. um clássico do pensamento econômico. sobretudo os econômicos. Clube dos Economistas. sempre fiel aos seus princípios e valores.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Superior de Estudos Brasileiros-ISEB. nem como pesquisador. Sérgio Buarque de Holanda. Não fez carreira acadêmica nem como docente. Plano de Metas de Juscelino. nascidas da combinação do prático com a busca de soluções adequadas às necessidades nacionais. Um verdadeiro doador de sangue e alma pela causa de uma pátria chamada Brasil. em favor de uma nova humanidade. sendo um dos seus patronos. Instituto Brasileiro de Economia. como pelos ideólogos da esquerda nacional. conferências e ministrou cursos. Instituto de Economistas do Rio de JaneiroIERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. profundos. Sociologia e PolíticaIBESP. Um seleto grupo do qual participam intelectuais como Caio Prado Jr. de onde era originário. além das várias exposições que fez a convite de universidades e instituições educacionais do país. 3 O INTELECTUAL Rangel tem lugar garantido no pantheon onde figuram os grandes pensadores da formação social brasileira. Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. sociais e políticos. Gilberto Freyre e Celso Furtado.

somada à coragem política. a começar pelo próprio pai. seguindo-se Antonio Lopes da Cunha.. comum na intelectualidade dos anos 50 e 60 e até mesmo ainda 20 . José Lucas Mourão Rangel. afirmou recentemente que a economia não pode ser vista como uma ciência exata. bem como o fato de não ter sido um acadêmico profissional. incapazes de darem conta da resolução dos problemas desafiadores e recorrentes. além de outros notáveis. Robinson. Engels. Embora tenha estudado com rigor as teorias de autores clássicos da literatura econômica.. Passou a vida inteira procurando traduzir as especificidades da formação social brasileira e do seu desenvolvimento. com quem aprendeu latim. o que acabou impondo-lhe uma angustiante solidão intelectual. Luxemburg. Kalecki. como tem sido a lamentável tendência da atualidade. Hilferding. Keynes. Muito antes de Comparato. Recusou de imediato a condição de transformar-se em mais um adaptador de teorias importadas. Juglar. como costumava dizer.. refletido na decadência de suas escolas e faculdades de economia. sobretudo por não ter tido a convivência permanente de alunos e seguidores que se encarregassem de difundi-la sistematicamente. quando falava sobre as grandes influências intelectuais de sua vida.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel A independência intelectual. que o próprio Rangel denominava de “conspiração do silêncio”. Harrod. . Irmãos & Cia. tendo inclusive se valido de muitos deles na estruturação de suas teses sobre a Dualidade. portanto. ou com as matemáticas ou com a econometria. Marx. Na economia. materialismo dialético e filosofia e a quem chamava respeitosamente de mestre. diretor-presidente e chefe do escritório da firma Martins. “A economia. Rangel já havia chegado a essa constatação ao preferir ir fundo na resolução dos enigmas da formação social brasileira e não se contentar em apenas formular explicações meramente acadêmicas. a causa maior do empobrecimento do pensamento econômico brasileiro. o essencial é saber quais devem ser os objetivos das decisões tomadas. como Smith. como a política e o direito é uma sabedoria de decisões. para ele sua primeira e grande escola de aprendizagem da ciência econômica. via de regra referia-se aos mestres do seu tempo de Maranhão.é a sabedoria de tomar decisões”. o fio de Ariadne de sua obra. Rangel jamais confundiu a ciência econômica com os fundamentos do equilíbrio neoclássico. Arimatéia Cisne. presente na Teoria da Dualidade Básica. dificultaram a difusão de sua obra. 4 O DECIFRADOR Apesar de ter construído um dos mais complexos e sofisticados sistemas explicativos do desenvolvimento da formação social brasileira. Schumpeter. Kitchin. Kondratieff. como João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. o grande jurista brasileiro. com quem aprendeu direito. Fábio Comparato.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL hoje. a ponto de sua contribuição representar um novo olhar e uma nova interpretação sobre o Brasil e sua história. sejam econômicos. Para decifrar o país. a questão agrária e o papel do Estado. sintetizadas em cinco grandes temáticas: a dualidade básica. Apesar do hercúleo esforço de César Benjamin. sociais e políticos. dependem das relações que se estabelecem com os centros dinâmicos da economia internacional. Leis e princípios estes que tinham na Tese da Dualidade o ponto de referência central. Do início dos anos 50 até meados dos anos 90 do século anterior. O desenvolvimento capitalista criou uma enorme periferia onde o Brasil se encontra ainda. portanto até os dois anos que antecederam a sua morte. a seu juízo. Ignacio Rangel foi quem melhor explicou os fundamentos da formação social e do desenvolvimento econômico do Brasil. É fundamental antes de tudo que se decifre a dinâmica e as especificidades da periferia e de suas relações com os países centrais do capitalismo. sem nenhum exagero. um modo de produção sofisticado e complexo. Foi a partir dessas constatações que criou leis sociológicas e econômicas para a interpretação do Brasil. As teses em voga. tanto da direita como da esquerda. consideradas. seus problemas e crises. suas teorias continuam plenamente válidas e assim permanecerão por muito tempo. precisavam ser revistas criticamente. com certeza uma nova garimpagem ainda encontrará textos e contribuições do autor espalhadas por esse imenso país sob guarda de seus amigos e admiradores. a dinâmica histórica brasileira não será compreendida se for pensada como os casos clássicos da história econômica dos países desenvolvidos. não basta examinar o desenvolvimento econômico como se observa o comportamento dos modos de produção clássicos. além de artigos avulsos que vão de 1962 a 1992. 5 O SENTIDO DAS OBRAS REUNIDAS As “Obras Reunidas” estão divididas em dois volumes. o princípio organizador de suas idéias. A despeito da conspiração do silêncio e dos impactos produzidos pelo processo de globalização econômica e financeira. 21 . Segundo Rangel. pois não se trata de uma contribuição datada e localizada e sim de uma obra que agrega valores imensuráveis ao pensamento humano. O Volume 1 reúne a tese que o autor defendeu na CEPAL. ao todo oito títulos essenciais de sua produção intelectual. O Volume 2 compreende coletâneas de artigos elaborados entre 1955 e 1987. a dinâmica capitalista. a inflação brasileira. Márcio de Castro e Ludmila em reunir a obra completa de Rangel. quando vem a falecer. livros e monografias. Por isso teve que assumir posições fortes no debate intelectual e político da época. Os processos internos da formação brasileira.

É como se fosse uma declaração de amor: do filho que se orgulha do pai que lhe enche os olhos. Convivemos próximos a Rangel por pouco mais de dez anos. pois acreditava que seriam eles os fecundadores das sementes de um novo Brasil. 22 . um pregoeiro destemido e sério. sonhamos e lutamos muito pela reunião e publicação do legado intelectual de Ignacio Rangel. mais do que nunca. justamente os últimos de sua vida magistral. geografia e história deste país.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Na verdade. Temos plena convicção de que as “Obras Reunidas” de Rangel iluminarão o enfrentamento desses problemas e contribuirão para a eleição de novas políticas econômicas que promovam o desenvolvimento nacional sustentável. do discípulo que se entrega de corpo e alma ao deleite dos ensinamentos do mestre. um decifrador de enigmas. política. Trata-se de um tesouro que precisa ser descoberto pelas escolas de economia. A maior de todas as suas utopias: a certeza de que todos os povos da Terra caminhariam para uma comunidade única – para “Um Mundo Só”. Era. precisa. ser rompido. baseado na geração de empregos. ao contrário. O ciclo eterno da concentração de riquezas e produção de desigualdades. que escreveu que “nesta terra em se plantando tudo dá e se esqueceu de dizer que dá tudo. a pátria tinha futuro promissor e que a humanidade viria a ser plenamente evoluída e feliz. Tentávamos de todos os modos que ele nos aceitasse como tais. em especial à sua ciência econômica. sem o que continuaremos adiando a solução definitiva das crises econômicas e políticas. à convicção de que o mundo tinha saída. E aí ele nos levava. destacado por Cristovam Buarque a partir da carta de Caminha. na ética e na justiça social. Partia sempre da idéia de que os seus interlocutores podiam acompanhar o seu raciocínio e suas explicações a respeito de como superar os problemas do país. Nunca sentimos nele a menor pretensão de ter discípulos. um anunciador corajoso. sem o menor sucesso. os pioneiros dos anos 80 no Maranhão. que teve o Brasil como maior desafio. mas para poucos”. Nós. 6 O ÍDOLO Falar sobre Ignacio Rangel para nós é um transbordamento. o mérito maior dos organizadores destas obras reside no fato de terem recolhido e juntado tesouros que se encontravam dispersos e que faziam uma falta enorme ao patrimônio cultural da nação. Sobretudo pelos seus estudantes. sociologia. para quem Rangel tinha uma verdadeira predileção. É impossível traduzir a alegria que sentimos ao ver esse objetivo alcançado agora. em expedições fantásticas.

sem nenhuma dúvida. um compasso. nestes tempos de canalhice organizada”. ao chegarmos em nossos lares. o Velho.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Rangel não morreu. para não desistirmos de decifrar e reinventar o Brasil. como presentes por esta festa. uma bússola. como as de Ludmila e Ana Rangel. José Aldo e Dirceu Carmelo nos mandar. Evandro Lucas. Está vivo e pulsa nas páginas destas “Obras” que lançamos hoje. Celso Augusto. Será. se. um relógio e uma reguinha de calcular. Paulo de Jesus. as de Dilma e de muitas outras que aqui se encontram. de beijos e abraços com Aliete. Não será surpresa para nós. José Lucas e Alberto. os mesmos que dera de presente para os filhos José Lucas e Ludmila quando fazia o curso da CEPAL no Chile. mais um convite desse bravo “sobrevivente da dignidade. 23 . como diria Rossini Corrêa. observados por Solon Sylvio. Está mais belo do que nunca porque está entre nós por mãos femininas.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 25 .

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jul. principalmente quando o identificam como mera ideologia (no sentido de falsa consciência). porque se mostra didático como a prova de que as atuais tendências reducionistas não são inteiramente verossímeis. Somos daqueles que acham necessário ampliar o campo epistemológico a respeito de sua contribuição histórica. Com efeito.3. 1988. intelectual e do seu papel como centro de irradiação cultural. Convém deixar claro. É um desafio muito árduo para nós. contrapondo-se às formulações do ISEB. São Luís.2./dez.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL SOBRE O PENSAMENTO ECONÔMICO DO ISEB E A SINGULARIDADE DE IGNACIO RANGEL7 Raimundo Nonato Palhano Silva* Resumo Segundo o autor. É no interior dessa problemática que procuramos o diálogo com o pensamento de Ignacio Rangel. a contribuição do pensamento Isebiano não foi ainda devidamente avaliada como proposta para o desenvolvimento brasileiro. Para nós não é fundamental a questão de ser ou não isebiano. no entanto. É preciso reverter esse processo. ressaltar a contribuição teórica de Ignacio Rangel. v. em fatores de inibição à emergência de novas vertentes de análise. * Economista do IPES. apontando para outros campos epistemológicos e assim minimizar a influência das explicações consagradas. a produção rangeliana é de um ineditismo marcante (em função do contexto histórico de onde emergiu). uma espécie de compulsão no sentido de diminuir no sentido as bases do pensamento isebiano. elaborado em período específico da nossa história. Acreditamos mesmo que o seu peso é tão grande e marcante o talento de seus elaboradores que chegaram a se transformar. Aqui é possível Publicado originalmente com o título “Sobre o Pensamento Econômico do ISEB e a Simplicidade de Ignacio Rangel” na Revista FIPES. Não possuímos uma contraproposta para ampliar o campo epistemológico sobre o ISEB e os isebianos históricos. dificultando a compreensão de muitas de suas categorias básicas. que não é com a pretensão de dar conta dessas questões que elaboramos este texto. uma espécie de identificação apriorística presente em várias análises sobre aquele Instituto. fato que põem por terra tais tendências. muitas vezes esquematizações grosseiras de concepções analíticas erigidas originalmente com toda propriedade possível. n. 1 PRELIMINARES Este trabalho procura ser o menos preconceituoso possível em relação ao ISEB. Procura. Não estamos subestimando a produção acadêmica sobre o ISEB. realmente relevante e inovadora. por outro lado. 7 27 . Há. pois. involuntariamente. como nacionalismo e desenvolvimentismo.

É. pois procedem do Instituto Brasileiro de Economia. São provas dessas modificações estruturais. Decorrente dessa situação observa-se aumentos significativos nas rendas geradas internamente e da produção para o mercado interno. sobretudo. um conjunto de reflexões sobre o pensamento econômico do ISEB. Sua função básica seria a de funcionar como intérprete e condutor das transformações que estavam ocorrendo no país. quando se inicia a reversão de um quadro que tinha nas atividades primárias a principal fonte de renda nacional. tarefa esta. os anos 50 foram palcos de um conjunto de modificações na economia brasileira ao ponto de caracterizarem uma nova forma de acumulação capitalista. como se sabe. e a singularidade de Ignacio Rangel. em obras como “A Inflação Brasileira”.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel encontrar antes de tudo. a elevação da participação no setor industrial e a conseqüente queda da elevação no setor agrícola no PIB. apontado nos diagnósticos da Comissão Mista Brasil-EUA e Grupo Misto BNDE-CEPAL. Suas origens. que era a vulnerabilidade da economia nacional às flutuações e determinações do comércio externo. o que provocava a crescente degradação dos seus termos de intercâmbio. enfim. por ato de Ranieri Mazzili. no entanto são mais recuadas. como é retratado do título. por Café Filho. sem declinar o nível das importações. Isto era atribuído à própria estrutura produtiva nacional. Vincula-se a um período bem característico da evolução recente da sociedade brasileira: a fase desenvolvimentista. Há apenas uma espécie de desconfiança em relação a certas verdades sobre o isebianismo e o desenvolvimentismo. e de trabalhos como “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. O que foi possível. pelo estimulante diálogo com o pensamento de Rangel. Sociologia e Política (IBESP). por aqueles diagnósticos. Esse novo reordenamento econômico baseado na industrialização procurava resolver aquilo que era considerado o obstáculo principal. pela própria natureza do sistema econômico mundial. nascido do antigo grupo Itatiaia. Não há assim. 2 A ECONOMIA POLÍTICA DO ISEB O Instituto Superior de Estudos Brasileiros não completou dez anos de vida. incapaz de realizar o surto modernizador-desenvolvimentista. ligada a uma crença quase febril na modernização e na redenção do país pela via industrial. pretensão de grandiloqüência. até então centralizada na agricultura. que se reuniu a partir de 1953 para assessorar o Estado Brasileiro sobre o desafio de um moderno Estado Capitalista. Nota-se o paulatino aumento da produção agrícola voltada ao exterior. considerada. este último recebendo aqui tratamento interpretativo especial. Criado em 1955. levando-nos a adotar algumas posturas críticas em relação às mesmas. diante dessa problemática que 28 . Com efeito. principalmente de matérias-primas e equipamentos básicos. atribuída exclusivamente ao setor industrial. foi extinto em 1964. necessários à expansão industrial.

Rômulo de Almeida. baseava-se no pós-keynesianismo. como o CNI e a FIESP. Seus diagnósticos da realidade eram fortemente influenciados pelas teses cepalinas. era a chamada desenvolvimentista nacionalista. Uma dessas correntes. envolvendo personagens como Roberto Campos. Em outro pólo de interpretação.) o desenvolvimento ocorreria com a industrialização e a planificação. e Glycon de Paiva. “fonte complementar de poupança”. CEPAL.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL se inicia a implantação de um novo modelo de acumulação. em Prebish. Filiavam-se a uma certa orientação teórica. fatores estes a serem corrigidos a longo prazo. o ISEB não possuía uma única postura metodológica sobre a condição do desenvolvimento brasileiro frente às condições materiais e situacionais da época. Com efeito. etc. predominantes ao longo de seu período de existência. etc. divergem do seu enfoque nacionalista. posturas identificadas com praticamente todas as grandes correntes de pensamento econômico brasileiro. vamos encontrar a corrente desenvolvimentista nãonacionalista. contando com a participação de empreendimentos estatais. onde o principal objetivo era integrar a economia para fortalecer o mercado interno. seguramente a mais significativa. sejam aqueles da área privada. Interpretavam a evolução econômica com base no processo de substituição de importações e responsabilizavam os desequilíbrios estruturais como causadores dos problemas econômicos recorrentes. e lá tomando assento também algumas expressões do pensamento isebiano. Como é sabido. associado ao capital nacional. envolvendo a preferência pelo desenvolvimento “para dentro”. Tinham uma 29 . e o capital estrangeiro. Do mesmo modo. Américo de Oliveira. estabelecendo-se os mecanismos de uma nova divisão internacional do trabalho. Acolhia entre os seus membros simpatizantes das duas posições já tradicionais no debate econômico da época. Assessoria econômica de Vargas. Defendiam a participação intensiva do capital estrangeiro. que teve no ISEB um dos seus sustentáculos principais. a partir de uma visão estruturalista dos problemas. vamos encontrar no seu interior. (envolvendo nomes como Celso Furtado. Embora adotando a mesma orientação teórica da corrente anterior (pós-keynesianismo e ecletismo). Suas interpretações da realidade eram baseadas principalmente no diagnóstico da Comissão Mista BrasilEUA e BNDE. aliados à ausência de planejamento. com participação moderada do planejamento estatal. duas outras instâncias terão a participação decisiva na efetivação do modelo: o Estado nacional. sejam da área estatal. já um pouco sintetizadas acima. ampliado e fortalecido. como BNDE. Ewaldo Lima. inaugurado nos anos 40. Para os seus adeptos. caracterizado pelo forte tom eclético de suas análises. através das célebres polêmicas entre Roberto Simonsen (nacionalista) e Eugênio Gudin (liberal). envolvendo nacionalistas e liberais. considerados por muitos como indispensáveis para viabilizar o desenvolvimento capitalista do Brasil. Lucas Lopes.

portanto. momentos de unidade e de identificação. É o nacionaldesenvolvimento versus o antinacional-subdesenvolvimento. Um dos exemplos disso está na questão central de suas análises. ou a indústria versus a agricultura. e o nacional confunde-se com o avanço das forças capitalistas e suas conseqüências. Todas essas formulações são unânimes em admitir que o desenvolvimento capitalista representa o meio de superação daquela contradição básica. o subdesenvolvimento. aquelas que defendiam “a vocação agrária” do Brasil. esse traço dual que informa o nacional-desenvolvimentismo isebiano e que perpassa o discurso da quase totalidade de seus membros (muito embora cada qual dê a ele tratamento eventualmente diferenciado). esse momento de convergência ocorre quando aquelas duas categorias estão presentes nas distintas formulações/conceituações isebianas. o moderno e o urbano. o arcaico. Também na terceira grande corrente de pensamento vamos encontrar ilustres isebianos. A. por força da orientação teórica que adotava concentrada no materialismo histórico. a qual se perpetuava por erros de política econômica. o desenvolvimentismo (entendido como intervenção do Estado para viabilizar industrialização) recebesse críticas das correntes liberais. ainda que nos anos 50. que além do ISEB. Seu projeto econômico fundamental era garantir a viabilização do desenvolvimento capitalista como meio de passagem ao socialismo. por razão desta dicotomia. Caio Prado Jr. Eis porque a categoria fundamental é a nação que deve enfrentar e vencer a antinação. Ou. Acreditavam numa certa tendência ao desequilíbrio. como o industrial. como dizia Paim: a passagem da economia natural fechada. dentre outras coisas. como Nelson Werneck Sodré. aquela que contrapõe as categorias Nação e Antinação. contava adeptos como o PCB. Ao lado de uma reforma agrária geral. aberta. Na verdade. Eis porque o Nacionalismo e o Desenvolvimentismo isebiano guardam íntima relação com o estabelecimento de um sistema capitalista mais avançado no Brasil. É. Defendiam a planificação da industrialização em bases estritamente nacionais. a visão bipolarizada da sociedade brasileira. pois trabalhavam com a tese do anti-feudalismo ou anti-imperialismo. que o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil era obstaculizado pelo monopólio da terra (latifundiarismo) e pelo imperialismo. onde existiriam setores problemáticos (pontos de estrangulamento) e setores favoráveis (pontos de crescimento). Passos Guimarães e Aristóteles Moura. fazendo emergir. Independentemente das eventuais vinculações teóricas e doutrinárias dos seus membros. Esta era a corrente socialista. Admitiam. enfim. um pouco em cima das teses leninianas. e. assim.. para a economia de mercado. a existência de setores dinâmicos e estáticos. produtivos e improdutivos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel compreensão dicotômica da realidade. não viam com simpatia o intervencionismo. Pois o antinacional simboliza o atraso. o pensamento isebiano consegue guardar em alguns pontos-chaves de sua construção. A despeito da polimorfia. tanto uma quanto outra não eram 30 .

De certa maneira. através de figuras como Kalecki. 3 A CEPAL COMO INSPIRAÇÃO Não é novidade para ninguém a importância da CEPAL como uma das matrizes fundamentais do pensamento brasileiro. de cuja ação todos seriam beneficiados. a despeito da larga penetração de uma e de outra instituição no pensamento social nacional. afirmava que no máximo haveria luta no interior de cada classe. atitude semelhante atinge também o ISEB. Keynes. o que consideramos muito difícil poderíamos dizer que suas formulações de política econômica e de análise da realidade brasileira. em termos de filiação teórica. Jaguaribe. ligadas às novas teorias do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico. conduzem à adoção de uma espécie de capitalismo social democrata. muito embora o nacional-desenvolvimentismo estivesse filiado ao keynesianismo e. 31 . discípulos de outras influências como Sraffa. envolvendo os segmentos estáticos versus os dinâmicos. o pensamento isebiano tem muito a ver com os economistas da escola da concorrência imperfeita. podendo se manifestar apenas quando o país atingisse um estágio mais desenvolvido de suas forças produtivas. de evidentemente. Baran e Magdoff) e Raul Prebish.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL anticapitalistas. o qual deveria funcionar como ordenador de toda atividade econômica. portanto fosse contrário ao liberalismo neoclássico. por exemplo. Até mesmo os “radicais” (como Werneck e Rangel) sustentavam que a contradição entre capital e trabalho no Brasil era secundária. Raul Prebish. Surgida em fins dos anos 40. assentado em bases nacionais. este último de enorme influência. Além. A entidade demiúrgica criada por estas formulações era o Estado Nacional (conforme a influência Keynesiana do “Estado Providência”). a CEPAL. Eis porque. de outras influências mais próximas. Schumpeter e Myrdal. onde o desenvolvimento se faria “para dentro”(conforme a tese cepalina). aquele que defendia o não-intervencionismo. com o que tornavam secundária a luta de classes (que se daria apenas nos estágios mais avançados do desenvolvimento). a rigor. Se fosse possível sintetizar a economia política do ISEB. espelhada nos esboços de seu principal idealizador. como André Gunder Franker (que introduziu no Brasil o pensamento de Sweezy. pelo seu papel relevante na estruturação da CEPAL. todos eles. aquela que afetou os alicerces da abordagem do equilíbrio neoclássico. por acreditar que o funcionamento normal da economia capitalista dava-se no nível de grande emprego. Robinson e Chamberlim. como forma de luta contra os segmentos ligados ao setor primário exportador (associados ao “imperialismo comercial”) que no Brasil eram identificados com os setores arcaicos da classe dominante. emerge como instância questionadora do processo de expansão capitalista da América do Sul. J. muito embora ainda persistam nas análises vigentes uma certa subestimação dessa influência.

a evasão de produtividade (por força da eliminação dos mecanismos deteriorativos dos termos de intercâmbio). O setor onde estas características estavam mais presentes era o primário. Síntese do diagnóstico cepalino: subdesenvolvimento gera subdesenvolvimento. melhorar a alocação interna de recursos produtivos e impedir. ao imperialismo comercial e financeiro. apontado unanimemente como a causa interna principal do subdesenvolvimento. com incrementos constantes de renda e consumo. dentre outros. E a causa principal seria a própria estrutura interna desses países. A prova mais contundente da justeza do diagnóstico cepalino era a situação em que continuavam se mantendo os países do continente: permaneciam meros exportadores de produtos primários e matérias-primas. que se nutria do modelo agroexportador). Myrdall. Daí a conclusão nada animadora da CEPAL. promover a reforma agrária. quando necessário. Era o inverso que estava acontecendo: os mecanismos desse comércio estavam cada vez mais deteriorando os termos de intercâmbio do comércio latinoamericano. o comércio internacional. cuja dinâmica estaria reservando um destino inexoravelmente subdesenvolvido para os países daquele continente. O sonho cepalino era a efetivação de economias latinoameriacanas autônomas e sólidas. 32 . também. proceder o planejamento das mudanças de rumo. Longe de propiciar vantagens bilaterais. de maneira eficiente. contrária. sem obterem do centro do sistema capitalista as tão esperadas transferências da produtividade (presentes nas formulações clássicas e mesmo o oposto do que se dava: o centro é que capturava os ganhos de produtividade da periferia). ao imperialismo (a rigor. É uma proposta nacionalista (porque visa o desenvolvimento do mercado interno) e de certo modo. O outro lado do diagnóstico cepalino como se sabe vai atribuir o subdesenvolvimento de seus países membros a causas totalmente endógenas. uma vez que o modelo tradicional “voltado para fora”. os países latino-americanos não passavam de simples marionetes dos mercados consumidores do núcleo capitalista. A síntese desse projeto é adoção de um modelo de desenvolvimento capitalista voltado “para dentro”. A proposta da CEPAL para romper com este círculo vicioso também é de todo muito conhecida: incrementar o desenvolvimento industrial. fortemente inspirado nas teses de Nukse. baseado no comércio cambial. não estariam possibilitando os frutos tão cobiçados da lei das vantagens comparativas. como especialização e processo técnico.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel centrando suas baterias críticas contra a divisão internacional do trabalho então vigente (que se apoiava em certas premissas da teoria clássica e neoclássica do comércio exterior). caracterizados pela existência de setores atrasados e anacrônicos que impediam o desenvolvimento equilibrado de suas economias. atingindo a uma posição realmente importantíssima: promover o desenvolvimento e. não dera os resultados esperados.

mas não supera os marcos da economia convencional”. complexos e globais. é possível encontrar. É justamente em sua obra mais completa e representativa. em suas formulações. Mas não é nossa intenção neste tópico discutir seus acertos e desacertos. davam àquela instituição uma feição progressista. Defende. 1958). que era. gestado monopolista e oligopolista. É como diz Octávio Rodriguez. respectivamente. segundo alguns analistas. uma espécie de convivência pacífica entre concepções da economia política burguesa e importações do materialismo histórico.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Não resta dúvida que este é um pensamento reformista e de que as suas propostas não visam revolucionar as estruturas do pensamento econômico. como um dos pioneiros na elaboração de sistemas conceituais abrangentes. Ombreado aos mais representativos do pensamento econômico brasileiro. Ele sem medo de errar é o menos típico dentre todos os formuladores do pensamento econômico isebiano. pelas singularidades de suas análises e concepções. Mas tal não é novidade. 4 E RANGEL. teorizando a respeito de um sistema capitalista especial (o brasileiro). essencialmente. como veremos no tópico seguinte. não se pode negar que. Contudo. em relação às demais. na interpretação das relações entre agricultura e indústria. Reúne um fascínio enorme pelo planejamento econômico. Igualando-se a Furtado. Gudin. é de se supor. para os anos 40 e 50. como Furtado. simultaneamente. “A Inflação Brasileira”. Quisemos apenas lembrar alguns pontos de identificação entre as formulações do pensamento econômico isebiano e da CEPAL. já transparentes em outras obras iniciais. À primeira vista. como a “A Dualidade Básica da Economia Brasileira” (ISEB. envolvendo Smith e uma curiosa fusão de Keynes e Marx. a industrialização planificada e decididamente apoiada pelas ações estatais. interpreta o processo de crescimento da economia brasileira com base nas formulações do modelo de substituição de importações. Desses cruzamentos. A vinculação teórica de Rangel expressa certo hibridismo. aqui e ali. Como Furtado. publicada primeiramente em 1963. Rangel detém-se. “Introdução ao Estudo do Desenvolvimento Econômico 33 . Sua tese central para explicar o subdesenvolvimento é da “Dualidade Básica”. deveria ter um pensamento o mais próximo possível das teses centrais do desenvolvimento. podendo francamente constituir-se em uma corrente independente. principalmente. “o pensamento da CEPAL altera. que está quase sempre presente em todas suas exposições. Rangel destaca-se. para não dizer que chegara mesmo a esboçar um novo campo epistemológico para a interpretação da economia e da realidade nacionais. que ele vai desenvolver essas idéias. capazes de expressar a evolução e realidade da economia brasileira. ONDE FICA? Ignacio de Mourão Rangel foi. etc. cepalino e isebiano. como bom isebiano.

que o “latifúndio feudal” incrementa o exército industrial de reserva (igualmente a modernização agrícola). à redução do consumo dos assalariados e o custo elevado de matérias-primas oriundas do setor agrícola). os baixos preços pagos aos produtores agrícolas pelos intermediários que controlavam o capital comercial. na existência de capacidade ociosa do setor industrial (devido. Furtado). Analisando a configuração do capitalismo brasileiro da época. Rangel aponta como um dos seus problemas básicos a existência de um processo de industrialização (moderno). por exemplo. a tendência de capitalização (modernização) da agricultura liberaria mais mão-de-obra para os centros urbanos industrializados. tinham.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Brasileiro” (ISEB. 1962). implicando em preços elevados e. segundo sua análise. o que asseguraria maiores taxas de lucros) e a conseqüente insuficiência de demanda da população. assim. Com efeito. implicando em taxas incrementais de exploração. sem que tenham modificados as estruturas tradicionais do setor agropecuário. em uma situação como esta. 1960) e “Questão Agrária Brasileira” (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. Por seu turno. seria esse o processo detonador da inflação brasileira: a elevação do nível de preços decorreria fundamentalmente da necessidade de cobrir custos fixos elevados. por outro lado. o centro das contradições estava no sistema de comercialização de produtos agrícolas. Assim. Essa insuficiência (“crônica”) de demanda. estimulavam a queda na produção do setor primário e a conseqüente diminuição na oferta de alimentos e matérias-primas. comprometendo maiores faixas da renda com alimentação. Os estruturalistas (dentre eles. 34 . até nutrir aspiral inflacionária. a contradição fundamental do capitalismo brasileiro residia entre as enormes possibilidades de incremento dos investimentos (em função das vantagens decorrentes da exploração da força de trabalho. o que implicava na diminuição da demanda. o capital comercial adquiria a produção agrícola a preços aviltantes e repassava a preços escorchantes. e de outro. em função das taxas de exploração elevadas (para ele o “fundo social de consumo” era constituído. A rigor. o que estimula altas taxas de exploração da força de trabalho no processo de acumulação capitalista. justamente por ser o segmento controlado por monopsônios e oligopsônios. O seu método explicativo partia do pressuposto de que a intermediação elevava os preços agrícolas. gerava a maiores graus de capacidade ociosa. E mais. logicamente. elevavam-se os preços dos produtos agrícolas. em função de integração entre os setores primários e secundários. principalmente pelas massas de salários). Assim. uma vez que a massa salarial tendia para baixo. em detrimento do consumo de industrializados. a curtos e médios prazos. o que implicaria. Estas formulações sobre o capitalismo brasileiro eram inteiramente inéditas em relação às demais então existentes. forma-se um grande exército industrial de reserva. Com isso. Isto porque.

bens duráveis. Trabalhando com as teses estruturalistas. confirma. A sua proposta de reestruturação do sistema financeiro guardava íntima relação com as suas teses subconsumistas de explicação dos problemas econômicos nacionais (porquanto entendia que a crise capitalista brasileira era de realização). como estamos vendo. a qual poderia até se agravar. um pouco ao estilo cepalino. obrigava as classes mais abastadas a metamorfosearem o seu dinheiro em bens materiais. pois achavam que a agricultura tinha “deficiências estruturais” que inviabilizavam o atendimento das demandas globais do setor industrial. ainda que fosse diminuto o mercado consumidor. uma vez que o baixo nível da taxa de juros não atraía alguns investimentos de prazo fixo. além de incentivo a novos investimentos por força das elevadíssimas taxas de exploração. etc. Isto porque os efeitos corrosivos da inflação numa situação como a brasileira. nessa direção.). Em Rangel é natural que ambos estejam presentes. podendo gerar mais emprego. Outra singularidade do pensamento rangeliano pode ser encontrada nas suas formulações sobre a inflação brasileira. significava uma alternativa real ao desenvolvimento. Nessa ocasião chegou a propor a instituição de correção monetária (inexistente ainda) como forma de estímulo à ampliação daquele sistema financeiro. o que. na medida em que se constituía no principal estímulo às imobilizações de capital (aquisição de construções. Como dissemos no começo. na medida em que reconhecia no capital financeiro os próximos passos a serem dados pelo capitalismo nacional. face aos esperados incrementos na capacidade produtiva. a antevisão de sua análise. terrenos. achavam que a zona rural não teria condições intrínsecas de produzir alimentos e matérias-primas baratos. não mais haveriam problemas de inelasticidade de ofertas de produtos primários para o setor industrial do Brasil. diziam que a causa principal era a inelasticidade da oferta de produtos agrícolas. como fator de estímulo ao investimento total da poupança). O que nos move é a intenção de refletir sobre a 35 . por força de seu próprio atraso. É no interior dessa problemática que Rangel defendia para o Brasil a implantação de um mercado de capitais. não é nosso objetivo tratar de acertos e desacertos. Afirmava categoricamente que era justamente a inflação a grande mantenedora do ritmo das atividades industriais da época. onde as taxas de juros eram baixas. Rangel. mais renda e. pelo rumo. chegando a dizer que. caso fossem eliminadas as cadeias de intermediação. na medida em que funcionaria como instrumento de identificação de novas opções para as inversões produtivas. que tomará a economia brasileira anos mais adiante. Ou seja. contudo. A despeito dessa situação um tanto insólita (inflação elevada. logicamente. outra vez. pois achava que só um novo mercado de capitais disponíveis em função da ociosidade industrial.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL um outro padrão explicativo para o problema. que a sua existência não solucionava o problema crônico da deficiência de demanda. Rangel reafirmava. mais consumo/demanda. discordava desse ponto de vista.

o Brasileiro. Rangel deixa antever a sua vinculação metodológica aos princípios do materialismo histórico e a sua inclinação socialista ao admitir que a sociedade humana se dirige para uma comunidade única. que atribuía as condições econômicas do Brasil à sua situação semicolonial e à exploração do imperialismo.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel possibilidade de encontrar-se novos ângulos sobre o isebianismo. se resolvêssemos admitir que são plenamente satisfatórias as atuais análises que buscam sistematizar e estruturar o pensamento desenvolvimentista isebiano como sendo uma categoria unitária. por encerrar especificidades. sobretudo. o nascimento de uma nação é produto do avanço das forças produtivas e da técnica. 4. evidentemente. para um “mundo só”. pelo ISEB. Mas não é sobre essa questão que a obra se preocupa. e mais ainda. Logo no início de ROEN. que responsabilizavam a estrutura agrária semifeudal como impeditivo ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas no Brasil. isebiano quando desenvolvemos. suas causas e fatores impeditivos. teses estas que estão reunidas e aprofundadas em suas posteriores obras. no essencial o desenvolvimento rangeliano. do desenvolvimento capitalista. que não os já delimitados em concepções uniformizantes e simplificadoras. É por esta razão que os anos 50 apresentava-se-lhe como o momento em que o país perdia a sua condição de “nação criança” para transformar-se em nação. trata-se. e de Werneck Sodré.10). Segundo seu ponto de vista. um pequeno (embora proficiente) esboço acerca da realidade e perspectiva do capitalismo brasileiro. Homem de sua época. Seu núcleo temático é o desenvolvimento. obviamente. É uma obra em que transparece as concepções de Rangel sobre o desenvolvimento capitalista. É evidente que aqui ele não está falando em desenvolvimento em geral. da sua relação com a sociedade e. um caso específico de desenvolvimento . das eventuais dessemelhanças com outras correntes de relação às análises do PCB. fatalmente colide com muitas das explicações gerais sobre “o desenvolvimento do ISEB”. poderíamos dizer que o pensamento rangeliano. na verdade. ora pode ser. publicado em 1960. sem ser. não deixa a menor dúvida que o Brasil só se constituiria como nação soberana se permanecesse desenvolvido. é afirmação categórica da exigência do desenvolvimento” (p.1 Uma Análise Mais Pormenorizada: as formulações sobre ociosidade e economia Com efeito. nesta segunda metade do século XX. algumas considerações sobre seu trabalho “Recursos Ociosos na Economia Nacional-ROEN”. ou as de Caio Prado Jr. principalmente em “A Inflação Brasileira”. Eis porque. É. um enfoque sobre o papel do Estado Nacional como planejador do processo de transformação das estruturas econômicas e sociais. Contudo há uma 36 . obviamente. a seguir.. É ele quem diz: “o sinal mais importante do nascimento de uma nação. além. na sua maneira de dizer.

A efetivação dessa última tarefa dependia do desenvolvimento do mercado interno. quando se utiliza de categorias analíticas que demonstram igualmente a sua vinculação aos enfoques schumpeterianos e smithianos. que marca outra vez uma diferença em relação às formulações reducionistas sobre o desenvolvimento. todavia. como em outros 37 . que Rangel estivesse defendendo o livre jogo das forças de mercado. Mais adiante. o que ocorreria sempre que a soberania viesse a limitar a expansão do comércio externo isto não significava. Rangel. decorrência direta do progresso tecnológico. pela recorrência constante ao papel da técnica e do mercado. localizada em um país com enormes reservas de minério de ferro. afirmava ele. através da qual se daria a superação do atraso existente. quando extrai dessa realidade provas de que a técnica não só os havia unificado. à internacionalização dos fatores produtivos. Em ROEN. Para que se chegue ao futuro cidadão do universo. fatalmente. Sedimenta essas suas observações. asseverava o nosso autor. tratando do relacionamento entre soberania e unidade nacionais. para viabilizar o desenvolvimento. Na verdade a crença na unidade como integração do mercado nacional. mas grandemente necessitado de carvão mineral de boa qualidade.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL particularidade na sua formulação. Sob o império dessas determinações. comprováveis ao longo do texto. por exemplo). sintonizado com seu método da análise. mas que esse mesmo avanço levará à “comunidade única”. Seria justamente esta pressão externa que obrigaria o Brasil a se unir. Dá um exemplo ilustrativo a respeito dessa questão. mas achava que nem por isso esse desenvolvimento levasse. entende o desenvolvimento capitalista como transição e não como uma etapa final. Somente com o desenvolvimento tecnológico essa situação poderia ser contornada. sobre o avanço inexorável da tecnologia e da técnica e seu papel como fator de unificação dos mercados nacionais. Conclui afirmando que nesse caso. através do desenvolvimento de sucedâneos para o coque (como gases combustíveis. mirando-se no próprio exemplo mundial. gás xisto ou eletro-siderurgia. segundo as quais a unificação do espaço econômico alargaria os níveis da divisão social do trabalho. tem suas raízes em concepções smithianas. como já estava mesmo ultrapassando seus próprios limites. deixa claro que a primeira não pode constituir em frente a segunda. que duas eram as tarefas básicas impostas ao Brasil pela história: construir sua soberania (através do desenvolvimento econômico) e assegurar a sua unidade. a siderurgia brasileira estaria permanentemente vulnerável e sem possibilidades de expansão. destacando o caso da indústria siderúrgica nacional. a ser conseguido pelo avanço da técnica no país. Rangel não consegue disfarçar o seu ecletismo teórico-metodológico. No tópico sobre “A Nação e a Técnica” é possível obter comprovação disso. Começa por afirmar. Deixa bem claro que o progresso das forças produtivas gera a nação. há a passagem transitória para cidadão de uma pátria (leia-se nação). retomando questão anterior.

que seria o risco da integração do mercado nacional vir a reforçar. sem que o mercado nacional efetivamente já estivesse unificado. Assim para o pensamento rangeliano. capaz de reverter àquela perspectiva. não é tecnocrática. Ou seja. Seu receio era o de que o processo integrativo fizesse prevalecer apenas às forças centrífugas o que levaria os parques fabris e produtivos das várias regiões a se satelitizarem. chama a atenção para o que denomina “o moderno problema da unidade”. Rangel retoma a questão do planejamento e unidade.. criticando a posição das correntes cosmopolitas. quando diz que a brusca aproximação econômica poderia converter-se na “associação de panela de barro com a panela de ferro”. Sua visão do planejamento. via com muita apreensão a tendência à centralização que se prenunciava na economia brasileira. mas para 38 . Para ele apenas as nações bem constituídas planejam bem. Ouçamo-lo: “. Jocosamente faz menção à fábula de La Fontaine. pelo menos naquele estágio da economia brasileira. Isto posto. Pode-se dizer que até aqui não há muita novidade se considerarmos que essas questões já faziam parte das análises da época. portanto. o planejamento deveria atender ao interesse de todas as classes. Segundo ele. a verdadeira unidade não deveria eliminar as especificidades de todas as regiões integradas. A justificativa que encontra para esta postura é extraída da crença de que o planejamento só daria certo em nações solitárias.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel semelhantes. permitiria a criação de uma indústria à base de recursos naturais. Afirmava ele que “não há planejamento sem transferências não compensadas de renda” (p. Este diagnóstico da situação é que transforma o planejamento.14). no pensamento de Rangel. porque os seus membros não se colocam antagônicos entre si.17). o planejamento estatal não só bloquearia as forças centrífugas como deveria reverter a situação de atraso das áreas mais débeis do país. Na verdade o “moderno problema da unidade” está na crítica feita por Rangel ao prosseguimento do processo de industrialização no Sudeste através de indústrias de base. as disparidades inter-regionais. Prosseguindo suas análises.. em que não se realizem apenas interesses de uma classe ou de um setor econômico. e simultaneamente. que achavam inexorável a eliminação das barreiras regionais durante o processo de integração do mercado nacional. no principal fator de unidade e de soberania. A solução para esse problema é cristalina em Rangel: dotar o Estado de um planejamento eficiente e racional. de modo a possibilitar a coexistência das regiões marginalizadas com as vanguardas e também a gradual liquidação do atraso daqueles” (p. a própria técnica impediria a internacionalização de fatores. obviamente como fator de ordenamento do desenvolvimento. porque não era para centralizar. para torná-lo capaz de certos fluxos econômicos. em vez de eliminar. e a sua conseqüente integração ao mercado mundial. Entendo-o. Como para ele a atuação do Estado deveria ser impessoal e desinteressada.o preço da unidade é o fortalecimento do poder central. conforme aparecem em mais um tópico de seu trabalho.

Estas colocações não significam. pela adesão ou repúdio às idéias de unidade. sobretudo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL expandir e diversificar. provocados por eventuais crises de pagamentos. que Rangel defenda a “autarcização” das economias nacionais. Conclui dizendo que. Com efeito. Feitas essas considerações. na história do Brasil. nos momentos de contração às importações. que ela deveria existir. alianças de classes. só depois demonstrada a existência de mercado garantido. radicais retrógrados e conservadores progressistas ao ponto de indicar nesse fato um dos paradoxos da dualidade básica da economia brasileira. segundo a análise rangeliana. pois. Isto porque acreditava que só os Estados soberanos poderiam programar seu intercâmbio com o exterior. ao ponto de renunciar ao próprio 39 . taxando-os de preferirem as opções de menor esforço. Chegavam mesmo a afirmar que. É ele quem afirma: “devemos subordinar o intercâmbio com o exterior aos interesses necessariamente autarcizantes de sua construção interna” (p. É desse modo que entendia também a integração com outras economias: a verdadeira integração consolida. tem havido sempre mais fusão de classe. o empresariado não saberia encontrar novas alternativas de inversão. Por este motivo é que a importação apresentava-se como panacéia para tudo o que se mostrava escasso no Brasil. que se daria no momento da consolidação do comércio internacional. os seus conceitos para cada uma delas). Para destacar a relevância de suas formulações. ao invés de eliminar. e que está mais explicitada e aprofundada em “A Inflação Brasileira”. evidentemente. Segundo ele. que é o da interpretação da ociosidade na economia nacional. Rangel parte para os comentários sobre um dos itens básicos de seu trabalho. ligados ao “leilão de fatores” do comércio internacional e não a investigação abalizada da capacidade ociosa nacional. contudo. O exemplo que encontra para provar sua tese é aquele em que demonstra a possibilidade de existirem no Brasil.21). temática esta presente na totalidade de sua produção intelectual. além de agravar os problemas de ociosidade. justamente pelo fato do empresariado industrial ter uma economia voltada enormemente ao comércio externo. poderia contribuir para a tendência de incrementos maiores na pauta de importações. ou mesmo. Não poupa os empresários. mas. as barreiras nacionais. do que contradição. em função de importação efetivada anteriormente. Rangel chegava a afirmar que o verdadeiro progressismo no Brasil não se mede em termos de direita e esquerda. mas consolidação das soberanias nacionais. Este seria um procedimento inteiramente condenável. a consolidação das barreiras não significava “autarcização”. E isto ocorreria. soberania e planejamento (conforme. é que o empresário brasileiro se dispunha a examinar a possibilidade de produzir internamente. Admitia claramente no seu texto que as “autarcias econômicas” desaparecerão com a planificação do desenvolvimento e que estas são produto de uma fase em que impera a desordem econômica. seus argumentos iniciais são contra a falta de criatividade e de espírito empreendedor da indústria nacional. Assim.

não quer dizer que se limite a eles recusando-se a receber recursos que sejam oferecidos em condições razoáveis. pois. do capital estrangeiro. a seu ver. era a ênfase na utilização da capacidade ociosa da economia. aliás. Apontava.43). segundo ele. A proposta de Rangel. renuncia a um adicional de riqueza que poderia. Não negará. Aparece claro aqui a sua defesa de uma espécie de revolução tecnológica tupiniquim. para a possibilidade de mudança na estrutura de oferta da economia brasileira. ele chamava atenção para a necessidade de maiores inversões nos setores produtivos de bens de produção. do desenvolvimento” (p. ou na renúncia ao desenvolvimento. cuja utilização. a ulterior expansão do produto nacional.” (p. que era a adoção de um verdadeiro processo de conversão de certas atividades produtivas industriais em outras. aumentar o que é mais importante ainda. mais adiante. isto é. dos quais depende. Acreditava nesta possibilidade pelo próprio estágio das economias subdesenvolvidas. sem que ocorresse a compressão do consumo. se deixa no limbo da mera possibilidade um produto adicional. que o uso integral da capacidade produtiva existente seria também uma aspiração plena do pensamento nacionalista. pelo emprego de indústria de bens de consumo. considerados de maior poder germinativo e com maiores chances de integração intersetorial. “os trabalhadores desejam trabalhar e os homens de indústria desejam ver suas instalações plenamente utilizadas” (p. ou a compressão do consumo. Sobre os investimentos. como obter bens de consumo em indústrias de bens de produção. para o qual estão cumpridas as condições prévias materiais ou técnicas. No item reservado aos modos da utilização da capacidade ociosa. chegou a formular uma proposta um tanto incomum. porque só assim seria possível incrementar a disponibilidade total de bens e serviços. assim. Para ele. o volume de seus investimentos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel investimento. em grande parte. para vencer esse dilema. onde não seriam bem nítidas as fronteiras que separam as indústrias de bens de produção e as de bens de consumo (“ao menos esta característica do subdesenvolvimento pode ser posta a serviço do desenvolvimento. além de melhorar seus padrões de consumo. prescindindo-se. o que inibiria o desenvolvimento global da economia.38). era a via preferencial para unir a Sociedade e o Governo. que tanto poderia obter bens de produção.”) (p. 40 .. “porque a capacidade ociosa é nacional e seu uso habilitará o Brasil a desenvolver-se com os próprios meios. o que. 41). assim.38).. Rangel é taxativo: “Se uma economia não utiliza plenamente seus recursos produtivos. Assim é na unificação do mercado interno que encontrava a fórmula para a eliminação da capacidade ociosa da indústria. Nesse sentido. portanto aumentar o nível do investimento para assegurar a aceleração do desenvolvimento econômico. o empresário nacional enfrentava um grave desafio: teria que fazer uma escolha que não recaísse ou no capital estrangeiro.

Ignacio Rangel desenvolve o esboço de um modelo analítico capaz de explicar o desenvolvimento presente e futuro do capitalismo brasileiro. produzidas para dar conta de aspectos específicos da realidade social (como análises de discursos. por exemplo. de outro. se assim quisermos proceder para análise do texto de Rangel. representam os pontos de estrangulamentos básicos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Fica-nos evidente. É um projeto nacionalista e fortemente apoiado no planejamento estatal. pois. levaria o país a uma situação de desenvolvimento seguro e equilibrado. enfim. 41 . que. por estarem legitimadas em fontes eruditas). de uma hora para outra. reside numa espécie de transposição abusiva de certas análises sobre o ISEB (em geral análises relevantes. curiosamente) tenha que passar por ali. (o primário principalmente) e a ociosidade industrial. Sem contar os riscos do paroxismo. invariavelmente. quando fontes não legítimas recorrem àquelas sínteses e esboçam análises apressadas que. liderado pela industrialização. ideológicos.Isto é uma coisa. 5 À GUISA DE REFLEXÃO FINAL Ninguém duvida que o desenvolvimento é a mola mestre do pensamento isebiano. Os primeiros são mais rigorosos. começo dos anos 60. guiada pela luz do planejamento. lacunar. Mas aí estaríamos cometendo uma impropriedade: o seu trabalho foi elaborado com essa pretensão. se. Embora não fale claramente. desenvolve um diagnóstico segundo o qual os setores atrasados. Uma das provas para demonstrar sua fragilidade pode ser obtida pela comparação entre o desenvolvimentismo constante no discurso dos isebianos e dos planos governamentais de fins dos anos 50. não contemplam a matéria econômica de per si. sob perspectivas filosóficas e ideológicas) e que. racionais e equilibrados. que em ROEN. A rigor. os segundos são ufanísticos e em geral. está a omissão sobre a natureza de muitos dos problemas levantados. a nosso ver. ambos seriam afastados pela introdução da técnica. As análises eruditas de Caio Navarro de Toledo sobre a ideologia desenvolvimentista do ISEB. como o da ociosidade. tratam a produção isebiana sem a menor competência. são utilizadas para explicar outros aspectos dessa mesma realidade. simplifica o problema. as análises em voga que supõem já estar construída a unidade do pensamento desenvolvimentista. A nosso ver uma das causas desse tipo de situação. não se sustentam integralmente. Até mesmo no seio dessas análises é possível encontrar situações ambíguas. pode inibir o avanço do próprio campo epistemológico a seu respeito. A outra (geralmente esquecida) é que não existe no interior do ISEB apenas uma concepção de desenvolvimento que torna a tarefa de construir uma formulação unitária de desenvolvimento algo extremamente complexo. onde o fator dinâmico é o desenvolvimento do mercado interno. de um lado. muito embora qualquer discurso sobre o desenvolvimentismo ( inclusive o seu. Assim.

crítica esta que lança não só ao trabalho de Navarro. para os anos 50. nacionalismo e desenvolvimentismo não são meras categorias analíticas. Acredita que. que ocupava o núcleo do sistema analítico isebiano. O debate travado em fins da década de 70. evidentemente. por exemplo. Tomemos apenas as generalizações que não são capazes de precisar com exatidão o lugar de onde estão falando. aspirações nacionais produzidas pela ação de um momento histórico particular. acima de tudo. no que escamotiava a luta de classes. Eram também. É preciso olhar o isebianismo sem preconceito. fazia mistificação ideológica. Entre outras coisas ele discordava de algumas formulações contidas no livro de Navarro (“ISEB: Fábrica de Ideologias”). enquanto órgão produtor de cultura especializada. que as suas propostas e análises da realidade nacional. por exemplo. transformar o criticismo de seus analistas em apologia. Não queremos. devidamente reduzidas ao seu contexto histórico. Afinal. entre Lamounier e seus colegas paulistas. da matéria econômica. é na melhor das hipóteses um ato de injustiça para com o ISEB. Segundo Lamounier. Não devemos esquecer que. por exemplo por adotarem como questão básica a crítica de que o ISEB. consciência das desigualdades. a inexistência de certa “relação entre o texto e o contexto “. como muitos estudos parecem indicar. não sobrepondo-a à contradição nação-antinação. Não são simples mistificações da realidade. Não é nenhuma heresia admitir-se. pois achava que Navarro partia de um ponto de vista simplista: tudo que dissesse respeito às classes seria verdadeiro. analistas do ISEB. continentais e mundiais. que afetava o Brasil e a América Latina em geral. além dessas preocupações. mas também a alguns outros da escola paulista. o mais essencial seria aprender o significado e o alcance daquelas ambigüidades. seria crítica da ideologia. nem só de ilusão vivem os homens! 42 . são mais progressistas do que muitos pensam. Era por isso mesmo. Representava (o nacionalismo e o desenvolvimentismo) também – com o que concorda o próprio Lamounier consciência dos problemas nacionais. este também não seria o verdadeiro caminho para esclarecer a questão.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Admitir que o discurso desenvolvimentista dos planos governamentais é o mesmo que o dos isebianos que tratam. engendradas por “intelectuais a serviço da burguesia das classes dominantes”. é ilustrativo a esse respeito. O que sua crítica procura demonstrar é a inexistência de contextualização apropriada.

Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: ISEB. São Paulo: Ática. 1981. 1979. d’autre côte relever la contribuition théorique de Ignacio Rangel .1) RANGEL. 43 . LAMOUNIER. Marilena. 1957. v. Marilena. Celso. Teoria do desenvolvimento da CEPAL. 1978. 1958. O ISEB: notas à margem de um debate. (Textos Brasileiros de Economia. 1984. JAGUARIBE. Miriam Limoeiro. Rio de Janeiro: ISEB. ________. 1978. FRANCO. v. Gilberto. A Questão Nordeste. Rio de Janeiro: ISEB. FURTADO. MANTEGA. TOLEDO. CHAUÍ. O nacionalismo na atualidade brasileira. Caio Navarro de. Ideologia e mobilização popular. 1982. Rio de Janeiro: Forense. 1960. Industrialização e economia natural. Seminários.14). A inflação brasileira. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. Ideologia do Desenvolvimento do Brasil. Rio de Janeiro: ISEB. Maria Sylvia de Carvalho. Hélio. Resumé D’aprés l’auter contribuition de la pensée “isebiano” n’a pás ancore até bien apréciee.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL BIBLIOGRAFIA CONSULTADA CARDOSO. São Paulo: Brasiliense. Recursos ociosos na economia nacional. São Paulo: Discurso n. Rio de Janeiro: Poli/Vozes. 1960. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo: Brasiliense. RODRIGUEZ. 1984. Bolívar. 9 (Ciências Humanas). A economia política brasileira. en l’oppsamt aux formulations du ISEB et ses points de conexions aveccette institutions. Guido. Octávio. PAIM. (Estudos Brasileiros. comme proposition pour le développment brésilien . Ignacio. (Ensaios. 28). 1984. CHAUÍ.

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 44 .

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL Raimundo Nonato Palhano Silva 45 .

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focalizar um pouco da singularidade que cerca a vida desse maranhense tão ilustre.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL NOTAS SOBRE A BIBLIOGRAFIA INTELECTUAL DE IGNACIO RANGEL8 Raimundo Nonato Palhano Silva * Resumo Neste artigo o autor procura mostrar a versatilidade da personalidade de Ignacio Rangel. [2] “El Desarollo Economico en Brasil”.4. O título deste texto é pretensioso. ainda não dispomos de um dimensionamento completo da obra de Ignacio Rangel. pelo ISEB. Isto porque. de 1954. [5] “Elementos de Economia do projetamento”. obra pela qual Rangel reserva grande apreço. de 1957. sobretudo. n. correspondente ao período 1955-1985. em homenagem a Ignacio Rangel. e publicadas em 1957 pela Livraria Progresso de Salvador-BA. [4] “Desenvolvimento e Projeto”. O mais apropriado seria denominá-lo “notas incompletas”.2.2. conferências pronunciadas em 1955. * Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranhão-UFMA./v. este é um texto sucinto que se propõe. no IBESP./dez. v. se conseguir. 1989. São Luís. também ressaltando a contribuição por ele dada ao pensamento econômico brasileiro no decorrer do século XX. tanto em extensão quanto em conteúdo. de São Paulo. apresentada à Assessoria Econômica da Presidência da República e publicada em 1957. Trabalho apresentado no VIII Encontro de Entidades de Economistas do Nordeste. através de levantamentos em outras fontes. ampliada e atualizada pelo autor deste texto. [3] “Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro”. [6] “Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O 8 Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. n. jul.ENE. trabalho decorrente de sua passagem pelo Departamento Econômico do BNDE. no Brasil. tendo merecido edição recente da Editora Bienal. produto de curso ministrado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da Bahia. elaborada em 1953. de “Literatura Econômica”. Na verdade. são estes os livros e principais textos avulsos de Rangel: [1] “A Dualidade Básica da Economia Brasileira”. monografia de conclusão de curso na CEPAL. no sentido do resgate pleno do seu valor histórico para a cultura brasileira e para o pensamento econômico latino-americano. 47 . cuja primeira edição é de 1959. no Rio.6. como comemoração dos 40 anos de regulamentação da profissão de Economista. a tentar uma apresentação de sua bibliografia mais conhecida e. 1 A BIBLIOGRAFIA Tomando por base a bibliografia organizada por Gilberto de Carvalho e Fernando Pinto.

como contribuição intelectual de Rangel: [29] trabalhos publicados em periódicos de renome. no campo da Economia e das Ciências Sociais. Paulo Davidoff (UNICAMP) e Ricardo Bielchowsky.C. publicado pelo Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. de 1959. está arrolada. de 1987. reunião de artigos. em cuja tese de doutorado. Brasiliense e Bienal. São Paulo. período de 1983 a 1987. Recentemente tivemos conhecimento de mais dois trabalhos acadêmicos: a dissertação de F. Desenvolvimento e Conjuntura. integrante da coleção Os Anos de Autoritarismo? da Zahar Editora.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Programa de Metas Econômicas do Governo”. fruto das análises e reflexões desenvolvidas em grupo de trabalho pela Presidência da República. Estudos CEBRAP. [13] “Economia: Milagre e Anti-Milagre”. Tecnologia e Crescimento”. estando próximo da 10ª edição. conferências e textos produzidos entre 1969-1982. publicada no Rio pelo BNDE. Recife-PE. Ainda na bibliografia organizada pelos autores a que nos referimos anteriormente. [8] “Apontamento para o Segundo Plano de Metas”. de R. defendida na Universidade de Leicester. publicação pela Civilização. de Carvalho (IFCH/UNICAMP) e o texto de Mauricio Tiommo Tolmasquim. de 1961. no Rio de Janeiro-RJ. no ISEB. [7] trabalhos de fôlego. atualmente na 3ª edição. reunindo textos selecionados. editado pelo Tempo Brasileiro. e “Apontamentos para o Segundo Programas de Metas”. tais como Digesto Econômico. [9] “A Questão Agrária Brasileira” de 1961. Revista Agrária. visando apontar soluções ao problema agrário brasileiro. como contribuição em coletâneas organizadas por entidades culturais e científicas como o ISEB. Boyer. publicados em jornais e revistas de circulação nacional. compreendendo uma reedição revista dos trabalhos “Recursos Ociosos na Economia Nacional”. na École de Hautes Estudes et Histoire em Scienses Sociales. 48 . Revista do BNDE. [10] “A Inflação Brasileira”. de 1985. elaborado para o curso de Teoria e História das Crises. a UFMG. [14] “Economia Brasileira Contemporânea”. publicado pelo CONDEPE. elaboradas por Manoel Francisco Pereira (EASP/FGV/SP). de 1982. sendo o trabalho mais divulgado de Rangel e hoje um clássico do pensamento econômico brasileiro. [7] “Recursos Ociosos na Economia Nacional” decorrência de aula inaugural proferida. Revista da Civilização Brasileira. publicado pela Editora Bienal. Rio de Janeiro-RJ. estes sobre os ciclos na obra de Rangel. reeditado posteriormente pela Zahar. abordando a economia brasileira durante o regime militar. originalmente de 1963. a Editora dos Encontros com A Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.J. publicada pela HUCITEC. Inglaterra. em 1960. [12] “Ciclo. Cadernos do Nosso Tempo. [11] “Recursos Ociosos e Política Econômica” de 1979. Rio (RJ). figuram capítulos sobre a contribuição de Rangel. de Paris. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Além de [3] teses sobre o pensamento de Ignacio Rangel.

Isto longe de desmerecer. podemos dizer. Em 1957. da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Jaglar à formação econômica brasileira. referentes a questões econômicas dos anos 50 e 60. o autor da tese da dualidade tinha 39 anos. tanto de projeção nacional quanto regional e estadual. Rangel publicou 247 artigos. de Smith. um novo desafio à capacidade das novas gerações de economistas brasileiros. entrevistas. no período uma média de quase 3 artigos novos por mês. relatórios técnicos. com alguns retoques. palestras e depoimentos. a saber: 1983 (25 artigos). estudos e projetos. A despeito de suas proporções consideráveis. Não menos volumosa é sua contribuição. atribui às interpretações passadas e presentes um extraordinário mérito: justamente o de terem evidenciado a necessidade do preenchimento de várias lacunas. ensaios. 1988 (15 artigos). perfazendo. e até de universidades estrangeiras. em sua extensividade e profundidade. provenientes das mais variadas instituições sociais e culturais do país. e em termos gerais. a jornais e revistas especializadas em economia. no intuito de entender sua dinâmica e especificidades. 1985 (83 artigos). 1984 (24 artigos). São pareceres. de Keynes. interessadas em ouvir suas conferências. Inscreve-se como uma resposta 49 . O que constitui sem dúvida. em 1953. na formulação de idéias sobre o desenvolvimento do Brasil. São artigos. onde tem veiculado sua produção. Quando redigiu. 1986 (26 artigos). 2 O SENTIDO DA OBRA Na verdade. veiculados pela grande imprensa e periódicos dos grandes centros do sul e de outras regiões brasileiras. foi publicada pela primeira vez.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ultimamente tornou-se colaborador assíduo dos principais jornais brasileiros. entre os quais a Folha de São Paulo e o Jornal de Brasília. a obra de Ignacio Rangel. nos últimos 10 anos. ainda é vasta a bibliografia de Rangel que permanece inédita ou desconhecida. Adicionem-se a isto as crescentes solicitações a Rangel. a partir da conjugação de dois pólos definidores: um “interno” (atrasado) e outro “externo” (capitalista). período em que desempenhou funções decisivas na burocracia governamental e militou nas instituições estratégicas. 1987 (32 artigos). ainda não foi inteiramente trabalhada. só na Folha. Isto posto. entre 1983 e 1990. 1990 (23 artigos). 1989 (39 artigos). que o “princípio organizador” do pensamento de Rangel é a sua tese da dualidade. Trata-se de engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista. Segundo nossos dados. seguindo o ponto de vista de Bielchowsky. em seu trabalho citado. originalmente.

mais seguro da validade de suas premissas Rangel publica na REP 1 (4). o da “dialética da ociosidade”. [2] Tese da Dinâmica Capitalista. de onde extraí fundamentos metodológicos para suas teses sobre o Brasil. transformada. o desenvolvimento e o subdesenvolvimento econômico. social. no sentido da superação do capitalismo.. Rangel. Por anos a fio vem refletindo sobre o comportamento do Kondratieff nos vários países e suas articulações com os avanços tecnológicos. contida em seu famoso livro do mesmo nome. entre os principais: [1] Tese da Dualidade Básica. como Monteiro de Castro et Belshowsky. Foi desse esforço que resultou a construção de outro de seus marcos teóricos centrais. apoiados em Kondratieff. o qual. algo inédito no tempo em que foi esboçada e./dez. Em 1981. extremamente raro nos quadros da produção acadêmica sobre economia. com ênfase nos investimentos em serviços de utilidade pública e infra-estrutura. Para efeitos analíticos. o artigo “A História da Dualidade Brasileira”. Mecanismo este que fez de Rangel produtor de um conceito original de subdesenvolvimento. são classificados em cinco as grandes teses de Rangel. centrada no que denomina “exoneidade” do Kondratieff brasileiro. com o qual se definia o 50 . Davidoff Cruz. que analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia. inquestionavelmente. out. é o maior dos pioneiros. que articula as teorias dos ciclos. com extraordinária clareza. aproximadamente as articulações entre a dinâmica da dualidade e os princípios teóricos de Kondratieff. à estrutura e funcionamento da economia brasileira. mobilizador de recursos ociosos para os setores produtivos. O resultado último desse esforço intelectual foi a construção de uma verdadeira teoria do desenvolvimento brasileiro. [3] Tese da Inflação Brasileira.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel penetrante de Rangel ao tema focal colocado à sua geração: clarificar o significado da questão agrária para o desenvolvimento do país e a maneira em que se daria a revolução brasileira. [5] Tese sobre a Intervenção do Estado e Planejamento. desenvolve. nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da Inflação. dentre os que estudaram a economia brasileira a partir de seu relacionamento com a teoria dos ciclos. classificação esta construída por estudiosos atuais do seu pensamento. Tolmasquim. Mantega. das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial. pela sua densidade analítica. ainda hoje. a teoria econômica e o desenvolvimento econômico. feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro. no Brasil. que conjuga e sistematiza as leis gerais da formação histórica (em Marx). político. que interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. campo este o qual se vale para demonstrar o significado positivo de um vigoroso sistema financeiro. expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira. [4] Tese da Questão Agrária.

Um dos formuladores do modelo de substituição de importações na economia brasileira. principalmente. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. Pela envergadura do seu poder criador. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. Chile. de quilate semelhante ao de Celso Furtado. do qual foi presidente no início dos anos 80. convictamente. e no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ. no Rio de Janeiro e Agronomia. ao longo dos últimos 30 anos. Mantega identifica em sua obra um dos alicerces do pensamento econômico no Brasil. promovidos pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL desenvolvimento de um país relacionando-o a outro. um ano após seu ingresso no BNDE. na capital do Maranhão. Tolmasquim (op. estuda. Quem se aproxima de sua obra cedo começa a perceber que em Ignacio coabitam vários Rangéis. original e inovadora.. em Mirador (MA). 3 O AUTOR IGNACIO DE MOURÃO RANGEL nasceu a 20 de fevereiro de 1914. bem poucos. como economista. Mais recentemente vem militando no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. História e Economia. É de Rangel a tese de que o “atraso de um país é relativo a um estágio superior do seu próprio desenvolvimento”. Nessa época torna-se colaborador regular e conferencista em cursos e seminários sobre economia. participa em Santiago. De meados dos anos 60 ministra cursos em várias faculdades e Universidades do país. com rigor. Castro et Bielchowsky afirmam. Seu lado mais conhecido. Em 1954. textualmente: . dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. que o motivo 51 . pelo Instituto Brasileiro de Economia. atuando. economistas brasileiros que conseguiram produzir um sistema teórico e conceitual abrangente. organizado pela Comissão Econômica para a América LatinaCEPAL.) afirma. Gudim ou Conceição Tavares. No pós-guerra radica-se no Rio de Janeiro. cit. posteriormente como jurista. Sociologia e Política-IBESP e pelo Clube de Economistas. o mais original analista do desenvolvimento econômico brasileiro”. “Ignacio Rangel se tornou. onde ocupou a função de membro consultivo. Seus intérpretes não hesitam em afirmar que ele materializa um dos poucos. Dono de uma obra monumental. complexo e articulado sobre a evolução e a realidade da economia brasileira. Há o Rangel intérprete da economia brasileira. historiador e. De forma autodidata. inicialmente como jornalista (foi secretário da United Press) e tradutor e.. passou a ser reconhecido como uma das vertentes fundamentais na constituição de uma moderna economia política neste país.

onde chefiou o Departamento Econômico e participou da execução do plano de metas de Kubitschek. no clube dos economistas e em centros universitários. as propostas pioneiras à época. funcionando como assessor junto ao Ministério de Viação e Obras Públicas e ao Conselho de Desenvolvimento da Presidência. Em seus textos é fácil encontrar não só um analista profundo. Tanto aquele que optou pela militância intelectual como uma forma de atuação. mas pouco destacada. a Assessoria Econômica de Vargas e Kubitschek. onde chefiou o Departamento de Economia. que. Que. mas. Rangel ocupou posição privilegiada nos principais centros de decisão econômica do Brasil. pegou dois anos de prisão e. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Aqui também sua biografia é expressiva. autêntico e destemido. na introdução de seu livro “Economia: 52 . de domicilio forçado em São Luís. dono de um estilo invejável. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira. Não resta dúvida que do início dos anos 1950 a 1965. São evidências desta faceta: a tese da dualidade. atribui-lhe a classificação de “pensador independente”. ou as demonstrações acerca da importância estratégica do comércio exterior para a economia brasileira Há o Rangel erudito. ricas metáforas. Suas análises. Ele próprio escreveu deixando evidente sua peculiar modéstia. tendo participado das formulações de criação da ELETROBRÁS e PETROBRÁS. se dá conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. como o militante político. Sua face reconhecida. a vários ministérios e governos estaduais. vêm recheadas de erudição histórica. Igualmente notável sua militância na burocracia e planejamento governamentais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel pelo qual Rangel tem influenciado várias gerações de economistas se deve ao fato dele ter sabido analisar a realidade cotidiana da economia brasileira. a teoria da inflação. referentes à instituição de um sistema de correção monetária e de estruturação de um sistema financeiro e de um mercado de capitais para o desenvolvimento do Brasil. em São Luís. Em meados daquela década integrou a ANL. Fora do setor público. os princípios relacionados à política de privatização de serviços de utilidade pública. em conjunto imprimem a seu trabalho uma atraente e fecunda expressão literária. Há o Rangel pensador. as análises sobre reserva de mercado. além do assessoramento a Presidência da República. sua militância foi também relevante no ISEB. em seguida. Há o Rangel militante. participou. um escritor refinado. O criador original. fina ironia. Com apenas 16 anos. o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. como o de tornar público o seu pensamento. de repente. O pioneiro. Como conseqüência do levante de 1935. onde coordenou trabalhos e estudos sobre a economia nacional e chefiou a equipe técnica. Atuou e ajudou a construir instituições básicas ao desenvolvimento brasileiro do pós-Segunda Guerra entre elas. 8 anos de “domicílio coacto”. quase sempre. proibido portanto de atravessar os Mosquitos e de outros direitos fundamentais. igualmente. do movimento de 8 de outubro de 1930.

aos poucos. hoje Banco Central. Em 1989. O Rangel funcionário público. preferindo semear na planície. vem. no dia em que completava seus 50 anos. demonstrando ao Presidente que seria mais útil ao país continuando como servidor público. do IPES. Há ainda o Rangel missionário. O Rangel profeta. de vida. Aquele que tem a consciência e verdadeira noção do que significa ser um servidor público. quando era para dizer e disse não. quando foi preciso. O homem íntegro que não foi seduzido pelas alturas. e ao Departamento de Economia da UFMA (DECON). Rangel passou a ter seu nome em salas do IPES e DECON/UFMA. do qual Ignacio Rangel se orgulha muito. da crise que cercava o Governo Goulart naquele momento. houve um primeiro coroamento daquela iniciativa. a escolher entre os cargos de Ministro Extraordinário da Moeda e do Crédito. vinculados ao IPES. honrado e agradecido. envolvendo UFMA. IPES e SIOGE que se propõe a desenvolver uma linha 53 . a SUMOC. um grupo de economistas e de outras áreas das ciências sociais. desde o início dos anos 80.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Milagre e Anti-Milagre”: “Fui testemunha atenta de fatos importantes de nossa história por pura sorte minha”. Neste particular. Com efeito. Já de algum tempo. está em andamento a assinatura de um convênio tripartite. ele tem se caracterizado como um analista que houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos históricos da economia brasileira. centrado em suas fases sobre privatização de serviços públicos. A partir daí tornou-se colaborador regular da revista FIPES. recusou o convite. como ele mesmo confessaria. Há ainda um Rangel muito especial. vem se transformando em uma espécie de pregador solitário. tendo como um dos seus objetivos preservar a documentação e a memória intelectual do autor da “Inflação Brasileira”. na qualidade de detentor de uma proposta alternativa para enfrentar a crise e fazer crescer a economia. No DECON/UFMA existe um projeto visando a implantação de um grupo de estudos sobre desenvolvimento econômico que leva seu nome. mas que ainda não tiveram coragem ou não puderam assimilar. emprestando-o também aos concludentes do curso de Especialização em Economia do Setor Público. O cidadão que soube dizer sim. temeroso do poder imobilizador da lata burocracia e. Além disso. vêm divulgando a obra de Ignacio Rangel no Estado. Rangel. 4 NOTAS FINAIS Mesmo sendo verdade que ‘“santo de casa” não faz milagre. aliás. Rangel em relação ao Maranhão. Instado pelo então presidente Goulart. voz que muitos escutam ou querem ouvir. quebrando esse adágio. O Rangel conselheiro. Foi agraciado com o título de “Economista do Ano” pelo Conselho de Economia do Maranhão e houve uma grande cobertura dos “média” nessa sua passagem por São Luís.

que fez de sua obra orgulho e glória do pensamento econômico brasileiro. falando a um grupo de admiradores. a produção e a obra do economista maranhense. entre modesto e orgulhoso. no momento em que se comemoram os 40 anos da Lei 1. modernização e democracia. evidencia seu interesse em conceder-lhe uma comenda. porque Rangel é um otimista. que regulamentou a profissão do economista no Brasil. esteve Aliette Martins Rangel de quem obteve a paz e a inspiração. enfim. o Dr. Sua marca é o nascimento e o humanismo. the author tries to show the versatility of the personality of Ignacio Rangel. de 13.1951. através de livros.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel editorial. denominada “Coleção Ignacio Rangel”.411. “Parece que. como bálsamo e esteio. verdadeiramente. sim. Os frutos daquele trabalho de divulgação apareceram ainda mais nítidos em 1994: no início deste ano seu nome é lançado à uma vaga na Academia Maranhense de Letras. fez e continuará fazendo. Não enfrentou solitariamente as “voltas que o mundo dá”. porque Rangel simboliza o lado positivo da atuação dos economistas neste país. desenvolvimento econômico e justiça social. minha voz faz eco”! Faz. Impresso em seu caráter de homem probo e no seu papel de intelectual e militante. Feliz. Crê no país e em seu povo. sim. pelo valor de sua contribuição cultural ao Brasil e ao Maranhão. also giving evidence his contribution to the Brazilian economic thinring in the passing of century twentieth.. Aplausos que eles. Sua visão do desenvolvimento do Brasil combina. O homem sobre o qual balbuciamos essas palavras não construiu sua estrada sozinho. Ao seu lado. Ignacio de Mourão Rangel vem de ser um dos homenageados desta noite ao lado de outros ilustres Economistas Brasileiros. Oportuna. 54 . Por feliz e oportuna iniciativa do Conselho Federal de Economia. Aplausos companheiros. Finalmente o dia de hoje. cujo sentido é o de difundir. os merecem! Sumary In this article. magistralmente. através da Secretaria de Cultura. professor Ignacio de Mourão Rangel! Falta dizer algo antes de concluir.08. ouvi-lo dizer satisfeito. Em sua última visita a São Luís. por iniciativa de intelectuais e literatos da terra e o Governo do Maranhão..

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4. como Mato Grosso – estava na transição entre o Nordeste Oriental uma área de virtual monopólio da terra pela classe dos fazendeiros. uma das províncias mais ricas do Império. Autor do clássico A Inflação Brasileira. que era terra de ninguém. como também em Mato Grosso – a condição nulle terre sans seigneur. já que podia vencer a corrente oceânica e o vento. os quais eram. O Maranhão foi como é sabido. isto é. vivia também uma conjuntura econômico-social sui generis. como era natural que o fizessem. voltando à cubata – uma forma legalizada de quilombo. enquanto o principal meio de transporte foi o navio à vela. n. estes usaram sua liberdade. e a Amazônia. Quase isolado do resto do Brasil. Um dos formuladores do pensamento econômico brasileiro contemporâneo. Economista. 1. libertados os cativos. contrabandeados para o Sul e. para o Maranhão. Por outras palavras./jun. ou melhor. (Nossa Universidade está a dever-nos Artigo publicado originalmente na Revista FIPES. Mas restava outro fato. Assim. 1989. ao comunismo primitivo. Assessor dos governos Vargas e Kubitschek. Mas significava que a economia cearense. Um dos fundadores do BNDES. um modo mais avançado de produção.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL MARANHÃO: ANTIGO E NOVO9 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo Uma breve análise da trajetória histórica do Maranhão. * 9 57 . ambos correndo na direção geral Leste-Sudeste a Norte-Noroeste. era a Atenas Brasileira. Não por acaso. começo dos anos 60. O navio a vapor viria romper esse isolamento. Pensava mais com a cabeça de Coimbra e de Paris. não raro. mas um passo atrás. Não a passagem ao feudalismo. capaz de singularizar a conjuntura maranhense no contexto nacional. São Luís. Quando chegou a 13 de maio. Com efeito. como aglomerados que chegaram aos nossos dias – ou tornaram ao nomadismo copiado dos índios. já o vizinho Ceará havia. mas o retrocesso à tarde e à cubata. desde os tempos do império. dado que a conjugação da Corrente do Brasil com o alíseo fazia com que o caminho mais curto de São Luis a Fortaleza passasse pelo mar dos Sargaços e Lisboa. do que do Rio de Janeiro. o lado interno do pólo interno da dualidade havia passado ao feudalismo. abolido a escravidão por uma série de posturas municipais. Claro está que isso nem sempre significava a liberdade para os escravos. inclusive. não se havia cumprido no Maranhão. um modo superior de produção. persistia a possibilidade de que a abolição da escravidão representasse não um passo à frente. O Maranhão. Economista renomado do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB em fins dos anos 50. jan. passando por suas atividades de decadência/ prosperidade/decadência até as novas perspectivas de tornar-se um grande Parque Industrial concentrado na siderurgia e metalurgia em geral. quando se constituía numa das suas mais ricas províncias. v. de fato.

traziam os produtos industriais competitivos com os supridos por nossas fábricas sobreviventes. na composição da mão-de-obra escrava.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel um estudo da importância da mão-de-obra indígena. Somente por meados dos anos 60. a área ocidental do Estado. entraram em decadência. suponho Engenho Central. Com efeito. Burgos ricos. Jerônimo de Viveiros – meu ilustre mestre de história – com 16 fábricas.a Abolição representava um formidável passo à frente. o surto rodoviário viria subverter esse estado de coisas. Seguindo-se a Minas Gerais. o Maranhão era o segundo parque industrial brasileiro. para a préhistória. como Alcântara. além de flagelados nordestinos. Além das fábricas de fiação e tecelagem. a passos largos. compensou com sobras essa perda. quebrando nosso isolamento dourado. no Nordeste. Turiaçu e. Assim. Especialmente a Guiana Maranhense. É certo que. somente. Mas o surto agrícola. na esteira da Abolição assistíamos a um desenvolvimento singular da indústria da transformação. concomitantemente com o virtual colapso da Agricultura. 12 e 10 fábricas. meias e cânhamo. Era outro processo que se abria. que faria com que toda área servida pela rica rede potamográfica. Os caminhões que vinham buscar o arroz do Mearim. voltaríamos aos três por cento que tínhamos em 1890 – imediatamente após a Abolição. Era o apagar das luzes de um período brilhante de nossa história.. com 37 fábricas e acima da capital Federal e ao Estado do Rio de Janeiro. A seca de 1958. Entrementes. da Bahia e de São Paulo que. isto é. etc. deu um golpe fatal nesse parque industrial. não tendo mais de onde tirar madeira para a cerca e para queimar. 14. inclusive. raros no Brasil de então. o que restava do nosso orgulhoso parque industrial da passagem do século . com a indústria do Nordeste oriental. Assim. o Maranhão passou a ser a “Terra do já Teve”. voltaria a começar a crescer. pela importante frota de barcos à vela gravitasse em torno do empório da Praia Grande. somente em 1960. O migrante do 58 . segundo o Prof. nessa ordem tinham 15. inclusive de lã. o lavrador maranhense o declarava “terra cansada”. Queimada a mata uma vez. A epopéia rodoviária. aí por 1895. Demograficamente.que não se mordenizara – quebrou-se como a panela de barro em choque com a panela de ferro da fábula ao entrar em competição aberta com a nóvel indústria sulista e. no Maranhão). demográfica e economicamente o peso de nossa velha província. o Maranhão foi a “Terra do já Teve”. especialmente em São Luís. O taboado lançado sobre a ponte ferroviária entre Teresina e a velha Flores foi o golpe de graça. tínhamos tido até fábricas de fósforos e pregos. entrou a caminhar. no corpo do Brasil. nas cinzas da velha mata. pela ferrovia São Luís-Teresina. enquanto ao Sul-especialmente no Sudeste .

que estava desocupado. como área de eleição para o emergente capitalismo agrícola brasileiro. são as áreas problemas do país.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Nordeste oriental. mas protegida. Um pouco mais demoradamente. a caatinga não está. Mauro Borges dele ouvi o reverso da medalha. para encerrar essas notas. sociologicamente. muito mais gregário. Aí por princípios dos anos 60. depois. não estava fora de cogitações. Jânio Quadros. sendo Presidente da República. na direção geral 59 . não poderá deixar de contagiar-se à catinga nordestina. Mas o campo de batalha dessa nova investida bandeirante. que é a penetração do capitalismo no campo. o que implicava numa colossal economia de material. não deve ser estranho a esse processo. porque ao contrário do cerrado. fileiras de mamona. que começava na Paraíba e. este último expelido pelo boi. Na seqüência natural deste. não raro emitia outro parecer. nada menos que 53 prefeitos maranhenses. o comando do novo capitalismo agrícola brasileiro. que está tomando o lugar do velho latifúndio feudal. que havia em seu Estado. conversando sobre esse processo – na primeira fase. ao emergir como porta aberta para Europa e América do Norte. Bacabal é hoje um município pecuarista. eu. o que implicava na introdução de uma agricultura de novo tipo-tecnologicamente apoiada nas novéis indústrias mecânicas e químicas e na ciência agronômica e. com seus hoje notórios desastrados efeitos ecológicos. Uma cerca única. não poderíamos deixar de lado as perspectivas da nova indústria maranhense de transformação. tinha que ser o ponto de apoio para a alavancagem do processo todo. havendo cruzado o Piauí. encaminhei-lhe parecer onde sugeria a continuação da então BR24. em minha recente passagem por São Luís. em nossos dias. estavam implícitos dois movimentos de “fronteiras”: a) os investidos contra a mata amazônica. parece-me igualmente estar na ordem natural das coisas. Essa utopia. O Porto do Itaqui. penetrara no Maranhão. toda a área por uma única cerca. Fui encontrar em Bacabal nada menos que um projeto de declará-lo “município agrícola”. envolvendo todo o município. e protegendo suas lavouras contra os bois dos municípios pecuaristas vizinhos. isto é. quando entrava o nordestino e saía o maranhense – com o então Governador de Goiás. Primeiro o maranhense expelido pelo nordestino oriental. abrindo a porta a uma promissora agricultura irrigada. O surgimento do Estado do Tocantins. ao que ouvi. Lembro-me de que. Os vastos campos da Baixada Maranhense. Vi roçados nordestinos. Parece-me claro que a penetração do capitalismo no campo – efeito socioeconômico das escaladas dos cerrados e das chapadas. Mas. b) a escalada dos chapadões e dos cerrados. que eu o saiba não teve seguimento e. sob. com água dos rios que formam o Golfão. atendendo a uma ordem do chefe do governo.

respectivamente. a Floresta Amazônica. centrada na siderurgia e na metalurgia em geral. e em Vladivostok. para Açailândia. Como meio de transporte – excluído o duto. a localização lógica do grande projeto siderúrgico se desloque para o entroncamento ferroviário Norte-Sul com Carajás.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel da Amazônia. As conseqüências desse esboço ciclópico para o Maranhão – naturalmente complementado pela conclusão da ferrovia Norte-Sul (a Estrada Tocantina. hoje. combinadas. de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. nada menos. é o Porto de Itaqui que alavanca o projeto de Carajás. até por que não tardaremos a “redescobrir” o antracite do Xingu. atrevo-me a pensar numa ferrovia projetando a Carajás-Itaqui para o Oeste. apesar dos transbordos – em Vancouver e Terra Nova. onde couber – a ferrovia emergiu como o mais eficiente meio de transporte de cargas pesadas. neste primeiro trecho já lançado) não podem ser exageradas. Há muito que sabemos que. poderá confluir o gás natural amazônico). Hoje. que não impediram o lançamento da BAMUR. as ferrovias canadense e transiberiana. e recomendava que os engenheiros incumbidos da locação da estrada estivessem de olhos bem abertos no cruzamento do divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu. a saber. Mas São Luís será sempre a localização privilegiada para a indústria que converterá os lingotes de Açailândia em produtos finais. essas hulhas pobres forneceriam um coque perfeito. com seus grandes rios e os Andes – aqueles e estes perpendiculares ao sentido da marcha – mas não creio que esses obstáculos sejam maiores que o “permafrost” agravado pelos cimos da Sibéria oriental. tanto mais quanto. que Carajás. Embora geograficamente situado no Pará. Sabemos. Com uma peculiaridade: que. isto é.maio/89 . Ora. esteja preferindo. no divisor de águas entre o Tocantins e o Xingu está. o que faria de Itaqui a porta do Peru para Europa e América do Norte e de Callao nossa porta natural para o Pacífico. do Rio Fresco. É claro que teremos que vencer dois formidáveis obstáculos. Não é por acidente que o Japão no processo de transportar suas cargas para a Europa. somente pensando GRANDE. Minha recente viagem ao Maranhão . Lembro-me de que dizia aquela estrada somente devia parar – se parasse – na fronteira do Peru. com antracite. Ora. aos tradicionais caminhos marítimos por Boa Esperança e pelo canal de Panamá. que a estrada não parará na fronteira do Peru e que Callao é seu término natural. levado a termo o projeto ferroviário Norte-Sul. na direção geral de Callao. (A menos que.persuadiu-me de que a retomada pelo nosso Estado do seu antigo lugar de grande centro industrial já começou. podemos formar juízo sobre as perspectivas que estão abertas para o nosso Maranhão. apenas começando. em vez de indústria leve. Por outro lado. é indústria pesada o que teremos. por perto da Ponta da Madeira é que esse antracite se encontrará com nossas hulhas pobres. 60 .

nessas condições o que importa decisivamente são os fatores de localização. Résume Une bréve analyse de la trajetoire historique du Maranhão. O Brasil unifica-se. depuis lês temps de l´empire. quand celuí-ci se constituait une des ses plus riches provinces. cada vez mais energicamente e. Os quais nos apontam uma posição de elite. no vigoroso organismo em que se converteu o Brasil. e imperativos geo-econômicos. herdados do antigo latifúndio feudal. em passant par ses activites de decadence/prosperité /decadence jusqu ´aux nouvelles perspectives de devenir um grand parc industriel concentré em Sidérurgie et Metalllurgie général. Eles refletem imperativos geopolíticos exemplificados aqui com o casamento da corrente do Brasil com o alíseo. 61 .Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Os exclusivismos regionalistas brasileiros – inclusive os Paulistas e Nordestinos – estão morrendo.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. BLINDAGEM E CONJUNTURA Ignacio de Mourão Rangel 63 .

A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 64 .

Ainda na antiguidade. mas ao custo da imobilização dos exércitos convertendo a guerra de movimento em guerra de posição. com uma primeira fila protegida por grandes escudos e armada ofensivamente apenas com a espada. Era uma verdadeira fortaleza. contra multidões asiáticas incontáveis. n. revelaram-se inanes. como vem acontecendo. Alexandre colocou a falange macedônica. Refiro-me a Canas. em campo. com as tropas de elite púnicas ao centro e tropas mais leves.) ganha por Alexandre. escalonados em profundidade. não para o sitiado. Em Arbelas. 2/ v. pela imposição da guerra de movimento. dotando a infantaria de armamento leve. Os esquadrões de cavalaria. porque. contra Dario III. Ao contrário de grandes exércitos. a tecnologia./1989. A falange era constituída por um quadrilátero de combatentes. contra fogo. entre uma guerra e outra. ganha por Aníbal. de caso pensado. mas muito eficiente – como o fuzil de repetição e a metralhadora Maxim – mudou o caráter do conflito. e.c.c. de Epaminondas. mas de tal forma que esse cerco saia mal para o exército sitiante. provavelmente aprendida por Felipe. na Itália outra batalha que passou também à história como modelar. da Pérsia. São Luís. sempre que o escudo e a couraça se revelam ineficazes. jul. responsáveis pelo choque e. Economista.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL FOGO. ante o poder de fogo da infantaria. como os arqueiros 10 * Artigo originalmente publicado na Revista FIPES. o homem os substitui pela terra – a Mãe Terra – cavando um buraco restabelecendo o equilíbrio. as táticas inteligentes são as mais recomendáveis. na guerra como na economia . BLINDAGEM E CONJUNTURA10 Ignacio de Mourão Rangel* Resumo O economista tem muito o que aprender com a história das guerras. com a propriedade de poder mover-se. havendo observado que o exército deste havia tomado posição./dez. Esse dispositivo buscava. ao longo da história. 4. travou-se. n. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. 65 . portanto. 2. A história antiga registra duas batalhas que se tornaram antológicas: Arbelas (33 a. 6. Paulo Emilio. dispondo de um exército formalmente muito melhor e mais homogêneo que o de Aníbal. contra o cônsul romano Paulo Emilio. Na leitura das várias guerras da humanidade o economista pode extrair exemplos negativos: a percepção da situação econômica atual do Brasil permite esta reflexão. Essas ilusões não tardaram a dissipar-se. mas apoiada por outras filas de combatentes armados de lanças de diferentes comprimentos. deixar-se cercar pelo inimigo. franco-prussiana: clara perspectiva de predominância de blindagem. prenunciando guerra de movimento. a falange macedônica teve seu equivalente consumado nas “panzerdivisionen” nazistas.). e Canas (216 a. A Primeira Guerra Mundial teve início sob a inspiração de experiência da guerra de 1870. Em nossos tempos. v. culminação da arte militar helênica.

em Arbelas. não se perdia. observando as guerras experimentais movidas pelo imperialismo contra o socialismo. Assim. no qual o exército de Von Paulus teria a mesma sorte das legiões de Paulo Emilio. enquanto as tropas auxiliares de Aníbal iam postar-se ao centro leve. inspirado. formando um saco. isto é. em campo aberto . o quadro da tecnologia inverteu-se. por ter feito. Mais de setenta mil romanos trucidados pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros. ordenou a inversão do próprio dispositivo. Estavam criadas as premissas para que a guerra de posição se convertesse em guerra de movimento. “by proxy”. ao passo que em Canas – 115 anos – a tecnologia da guerra havia mudado. do tipo Arbelas. a mesma coisa que dera a Alexandre o merecido conceito de genialidade. que as alas de elite cartaginesas fecharam. duas batalhas travadas com a mesma inspiração. o expediente por muito brilhante que parecesse. saiu mal aos romanos. porque Aníbal. já com as tropas romanas em movimento. nos versos do nosso grande Bilac. A batalha de Stalingrado pôs em evidência a nova promessa de hegemonia do fogo sobre a blindagem. desenvolvido no estágio final da Primeira Guerra Mundial. sem o “escudo” tradicional da “Mãe Terra”. exposta ao fogo aéreo . com os Estados Unidos à frente. o exército defensor deixou que se praticasse em suas linhas um bolsão. no exemplo de Alexandre. sob a forma de “blitzkrieg”. persiste em mover guerra nos termos consagrados na fase de abertura do último 66 . Ora. o qual teve que bater-se em retirada. Já não era mais assim no final do conflito. de pouca confiança. decidiu jogar a sorte da batalha com um só golpe. nem pedra de fundo. como os nazistas depois de Stalingrado. nas alas. Como em Canas. Enquanto os romanos avançavam contra o centro cartaginês. seis alqueires de areia de mortos cavaleiros. axiada nas “panzerdivisionen” – que prometiam batalhas fulminantes. se bem que não de imediato: talvez na Terceira Guerra Mundial. o imperialismo. O resto se sabe: naquela multidão assim cercada. convertido em saco. naturalmente. sem que disso se apercebesse o general romano que passou à história como exemplo de imbecilidade. nem. Não há como não pensar nessa possibilidade. certeza arrecadou. sendo mister resistir a este com artilharia leve. o exército cercado aniquilou o exército sitiante. Em Arbelas. Assim. plausivelmente em nossos dias. levaram a resultados diametralmente opostos. reduziu drasticamente a eficácia das armas básicas responsáveis pelo “fogo”. por interpostas pessoas. O fuzil de repetição e a metralhadora nada podiam contra a blindagem do tanque. nem flexa.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel e fundibulários baleares. lança. O tanque. em última instância. O retorno à guerra de posição estava na ordem natural das coisas. também no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. as tropas púnicas de elite passaram a postar-se nas alas. Com efeito.

que os soviéticos a haviam aprendido muito bem. a história não parou aí. é a mesma coisa – esse meio século. no campo de batalha. uma “blitz”. muito contribuíram os interesses do “combinado industrial militar” expressão consagrada por Eisenhower especialmente nos Estados Unidos. O que nos levaria. como Alexandre em Arbelas. como a batalha que resultou na tomada da linha Marginot – que os pósteros estudarão como clássica ao lado de Arbelas e Canas – muito implausivelmente se poderá repetir. Com efeito. porém. as batalhas típicas do último conflito mundial. seguiu-se uma guerra de movimento. Ora. que os nazistas não lograram romper. que os nazistas não haviam aprendido a lição. até Berlim. pelos russos. Em conseqüência. Ora. do que pela persistência nazista em retomar a ofensiva. numa posição que tudo fazia interpretar como uma Stalingrado às avessas. Paradoxalmente. os nazistas persistiram em seu sonho de obter a decisão através de uma operação clássica de guerra de movimento. O cerco. nas condições presentes. pelo paradoxo que deu à contra-ofensiva soviética a aparência de uma “blitz” às avessas isto é simples aprendizagem. mesmo depois de Kursk. nas batalhas passadas. não obstante o terrível preço pago na tentativa. com os russos metidos num saco. quando tudo sugeria a passagem à guerra de posições. porque tais modelos acabados somente podem ser buscados.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL grande conflito. Para isso. no caso da indústria bélica. ao qual faltava apenas amarrar a boca. Em Kursk a maior batalha da história. depois de Stalingrado. Compreende-se que a indústria moderna esteja sempre a buscar modelos acabados. 67 . em vez de. Sabemos. e consolidada em Stalingrado e Kursk. entre o fim do terceiro e o fim do quarto Kondratievs – perdão. O restabelecimento da hegemonia do fogo sobre a blindagem. Ora. com defesas escalonadas em profundidade. eu estava falando entre a segunda e a terceira guerras mundiais. como seria de esperar-se. a buscar Arbelas e não Canas. no futuro. especialmente a partir das defesas de Leningrado e Moscou. isto é. dizíamos. O exército soviético suspendera sua ofensiva. não se consumaram. ou ao contrário. trouxe muito plausivelmente nova revolução na arte da guerra. jogar na hipótese da supremacia da blindagem sobre o figo. na espécie. de então para cá. mas no fundo. não fez senão estruturarse. da lição dos mestres prussianos – suscitou tendência a. explicável menos pelo poder da blindagem soviética. . agora. como vimos essas batalhas. O meio século que está por concluir-se. e o conseqüente aniquilamento do exército inimigo.como os nazistas em Stalingrado – confiarem a defesa das alas a tropas de segunda linha (italianas e romenas) os soviéticos entregaram-nas a suas tropas de elite. que justifiquem a produção em série. isso introduz no esquema uma perigosa tendência arcaizante.

Cabe-nos estudar os corolários econômicos desse fogo vital. O Pentágono e. Assim. nem as batalhas econômicas nem. pela quantidade e refinamento dos equipamentos. mas. inclusive a presente “Guerra do Golfo”. ao que se sabe. uma temeridade. as estratégias podem ser deixadas para a enésima hora. sequer correntes. como aquela que. que fora concebido ao tempo em que a URSS 68 . Ambos os contendores dispõem de recursos enormes. os soviéticos deram aos coreanos. isto é. Na Guerra da Coréia. por equipamentos inovadores. escondê-lo consigo. A apostasia de Gorbatchov e demais “perestróicos”. Nem se ganham. no Vietnã e outros lugares tem sido assim. Quando não uma tolice. os vencidos. por exemplo. Ninguém. Acontece que as guerras não se ganham pelas estatísticas de cadáveres. todos os dias. consequentemente. como todos devem estar lembrados. novíssimos. Por isso as batalhas da história são ganhas. ainda para refinar-se e. Esse refinamento somente pode vir com o tempo. não é tolhido por nenhum complexo industrial militar. tampouco. mataram quase cem camponeses vietnamitas para cada soldado que perderam. nessas escaramuças preparatórias de Terceira Guerra Mundial. não basta para alterar o quadro histórico básico. um pequeno avião. o Estado-Maior Soviético. Os norteamericanos. fazem as jogadas decisivas desse imenso tabuleiro de xadrez. jogar na hipótese de uma ‘blitz’ é. inclusive em nossos dias. a decisão do que produzir em série – sem o que não se ganha hoje. mas o modesto MIG-15. que talvez não aconteça nunca. de fato. foram eles os perdedores. a fortiori. embora na genialidade de Alexandre – não tem faltado citadores e êmulos. porque tudo se faz em sua intenção. apesar dos gorbatchovos. não bombardeiros ainda modernos. na batalha de Canas. nesse Estado Maior. no mínimo. são guerras entre o imperialismo e o socialismo. o Estado-Maior Soviético. numa trincheira. para fazer frente ao B-25 considerado imbatível. não problemas vindouros ou. geralmente. encontrado ao acaso – um armamento capaz de destruir o tanque mais possante. mas ao contrário do Pentágono. traz consigo a probabilidade de encarnar certa medida de arcaização. Como foi no processo da preparação soviética na última Grande Guerra. porque “resolvem” problemas pretéritos. do ponto de vista da arte da guerra. barato (porque produzido em série). é como se já tivesse acontecido. ou num simples buraco. por isso. que não tiveram tempo. Todas as guerras contemporâneas – subseqüentes à Segunda Grande Guerra – são preparativas da terceira. para variar. mas que. Mesmo quando travadas por interpostas pessoas. como o noticiário nos está mostrando. ao que parece. mas. o primeiro visivelmente empenhado no revivescimento do fascismo. Na Coréia. árcadios.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Numa época em que um simples soldado de infantaria pode levar em seu ombro – e. está interessado em produzir montanhas de armamento reluzentes. são simples e toscos. contra Aníbal deu ao cônsul Paulo Emilio inspirada.

Não para aniquilar exércitos. no Camboja. que o imperialismo norte-americano conhecia bem. Como. “refinada”. havia ou quase. uma versão tosca de armamento anti-tanque. para ganhar guerras.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL não tinha. sem necessidade do massacre de milhões de pobres populares terceiro-mundistas – ou talvez. seria mister ocupar o Iraque e. de onde não mais se moveram. pouco antes da Guerra da Coréia. como um gigantesco produtor de sucata. para a finalidade específica de interceptar os bombardeiros imperialistas capazes de levar bombas nucleares à retaguarda socialista profunda. no anterior conflito mundial. para matar gente. proteger-se por detrás do escudo 69 . questão dirimível por simples exercício de lógica dialética. eventualmente. A Segunda Grande Guerra. não tanques “ainda mais modernos”. no paralelo 38. Como foi na Coréia. “refinada” dos blindados alemães – os coreanos receberam. ainda nem a bomba atômica. isto é. A conclusão a tirar de todas as “guerras experimentais” promovidas pelo imperialismo. Para vencê-la. O complexo industrial-militar do imperialismo surge. depois de chegarem. “reluzente”. que não foram usadas precisamente porque os dois lados delas dispunham. Mas para assassinar populações civis e destruir instalações residenciais. Para fazer frente aos blindados norte-americanos – reedição “modernizada”. o MIG-15. para as posições de partida. Ora. como disse o nosso Brigadeiro Piva. que as mulheres camponesas podiam transportar em seus ombros. mas sucata em todo caso.. nem mesmo na minúscula Nicarágua. surgido no estágio final da segunda grande guerra. que não podem. no passado século-e-meio. Ao que noticiou a imprensa. assim. transferindo o confronto para o campo da “mútua dissuasão”. pois já invadira três vezes. É pouco provável que “A Guerra do Golfo” seja diferente. porque somente serviria para resolver problemas irremissivelmente peremptos. como às vezes é mister. tratava-se de um foguete. no Afeganistão. Mas é apanhado de surpresa. Exemplos assim podem ser citados para as outras “guerras preparatórias” do terceiro conflito macro-bélico. a missão estratégica desse aparelho. já provado antes. por causa do seu refinamento de fabricação. tiveram que bater em retirada. Uma sucata “moderna”. isso não seria fácil. estava cumprida quando.. que a Segunda Guerra Mundial não se pode repetir. serviços públicos e monumentos. para entregá-las às mulheres das aldeias próximas. acontecido com as armas químicas e biológicas. E. é que este está excelentemente preparado para ganhar. Essas guerras experimentais – destinadas a comprovar o óbvio. em “blitz” ao Rio Yalú. evidentemente. na fronteira com a Sibéria. nem a bomba de hidrogênio. quando se trata de partir para a terceira. surgiram as armas nucleares soviéticas. com peculiaridade de poder dividir-se em partes de algumas dezenas de quilos. o que conferia a esse equipamento uma tremenda mobilidade – Todos devem estar lembrados que as divisões de McArthur. no Vietnã.

Ou na medida em que não possam. como 100. o caso do Iraque. para o Mercado Comum Europeu. é tempo de que nós.6% ao ano. do Dr. muito mais. comecemos a tirar nossos próprios corolários dessa evolução da arte da guerra. Com a paz tivemos. abriu-se. como está sendo. 550. a taxa média de 70 . Com efeito. e o Plano Quadrienal. ou próspera do 3º Kondratiev. que estão beirando os oitenta. pontualmente a fase “b” do 4º Kondratiev. nos cinco lustros da fase “a”. 449. ou quase. 1244 (mais de doze vezes) ou 10. nos Estados Unidos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel tradicional da “Mãe Terra”. ou 6. que o resto da América Latina (exclusive o Brasil). isto é. aparentemente. simultaneamente. Os homens de minha geração. Os homens e mulheres que. num esforço ligado ao nome de Keynes. que América Latina (inclusive Brasil) e. falam em nome da ciência econômica. Von Schacth. ou 7. A Grande Depressão Mundial foi um incidente dessa fase recessiva e. Tomando por base a produção industrial do ano de 1948. muito tiveram que ver com a virada do Ciclo Longo – passagem da fase “b”do 3º à fase “a” do 4º.0% ao ano.6% ao ano. não apenas no campo econômico. na presente guerra. O índice para a América do Norte passou a 305. Foi nas condições da fase “b” do ciclo que a Ciência Econômica se viu reconstituída. tivemos a emergência do fascismo. 3074 (mais de trinta vezes) ou 14. Ora. estão vivendo a sua segunda fase “b”. Nos primeiros anos do decênio de 20. nos quinze anos subseqüentes (1973-88). porque atravessam. já em idade de razão a do 3º Kondratiev. com essa depressão. a virada do ciclo é que foi a causa eficiente do armamentismo e da guerra. portanto. ou 4. os economistas. o qual levou à Segunda Guerra Mundial. para o Japão. para a América Latina. na paz e na fase recessiva do Ciclo Longo. porque às vezes o podem. nos concílios do estado. Em 1973. atualmente. a mais explosiva fase de crescimento econômico de que há notícia. em 1973.8% ao ano – ao fim da fase “a” do 4º Kondratiev. na Alemanha nazista. de quebra. e nos primeiros planos capitalistas sérios: o New Deal. O armamentismo e a própria guerra. como no político e no estratégico A Primeira Guerra Mundial foi um incidente da fase “a”. carregado de significado.6 % ao ano para a União Soviética. a mesma para o mundo capitalista havia chegado a 410 – ou 5. ainda mais. entre contendores fora de qualquer proporcionalidade. a humanidade ingressou. são jovens e. pelo menos ao primeiro exame.2% ao ano. no Brasil. O Brasil teve um desempenho nada desprezível. por isso estão atravessando sua primeira fase “b”do ciclo de Kondratiev. o mago das finanças de Hitler. alcançando o índice de 872 (mais de oito vezes) ou cerca de 9% ao ano. no decênio final da dita fase recessiva. para comparação com os dados supra. quando se abriu a fase “b” do mesmo Ciclo Longo. ou ciclo longo: o 4º. Ou a recíproca é que foi verdadeira.

o do Brasil. os valores caíram a níveis negativos. a conjuntura de há meio século – por muito trágica que tenha sido – esteve carregada de grandezas. “Uma nova vaga fascista. isto é. oferecendo a este uma massa sem precedente de recursos econômicos e estratégicos. ou melhor. o do Japão. como não lembrar – relativizando os ditos prenúncios de Dimitrov – o pensamento de Marx. formar-se para o fim específico de aniquilar um pequeno país terceiro-mundista.5% ao ano. E Jorge Dimitrov. Mas também. antes de tropeçarem nos desastres de Stalingrado e Kursk. Itália.3%. o Iraque. Há meio século. O Mercado Comum Europeu.1% ao ano. a saber: uma crise econômica profunda. deram-nos um modelo de 71 .4% do ano. a Europa e a Ásia haviam sido convertidos em quintal do Eixo. o crescimento industrial da América do Norte. a similitude com a época em que a humanidade ingressou na Segunda Guerra Mundial. teve necessidade de toda sua eloqüência para contestar os que consideravam o fascismo como um capítulo encerrado da história. do antigo mundo socialista. porque no lustro intermédio. Somente a União Soviética parecia capaz de alguma resistência discretamente eficaz. e.2 %. na fase do Ciclo Longo simétrica com esta que estamos vivendo. não há como pensar nisso. o da União Soviética. Ora. Dar-se-á que os prenúncios de Dimitrov estejam em via de cumprir-se? Com efeito. disse ele aproximadamente. os generais nazistas deixaram-nos modelos antológicos de feitos estratégicos. e um renascimento do fascismo. tornado famoso por sua luta judiciário-política em torno do problema do incêndio do Reichstag. esses temores foram esquecidos.6% ao ano. e Japão de nossa época é flagrante. está em gestação”. segundo o qual a história dificilmente se repete. E acrescentava que essa nova onda chegará à Europa cruzando o Atlântico. quando vemos essa coalizão de 28 países. foi tragédia. aberta a fase próspera do novo ciclo longo. do ponto de vista econômico. a 3. uma guerra mundial aparentemente em marcha. a 1. Passando o conflito. promovida pelo Eixo Alemanha. Em média. de fato. por outro lado no que toca a nossa ciência econômica. mas não eram todos os que jogavam nessa hipótese. o fascismo havia completado sua evolução e parecia fadado ao domínio do planeta. Para começar. passou de 2. incluindo virtualmente todo o primeiro mundo – o centro dinâmico da economia capitalista mundial – e contando com o apoio de grande parte do segundo mundo. quando parece repetir-se é para apresentar-nos como farsa o que. comparada com a qual a que a humanidade acaba de viver não passará de um ensaio. a 3. isto é. da primeira vez. assistindo a uma aparente repetição da fase histórica de há meio século. Estamos. caiu a 4.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL crescimento do mundo capitalista passou a 2. Apenas. naturalmente. Afinal.

interpelado sobre as razões inesperadas da sua vitória. Soares Pereira. entre os quais devemos recordar outro Collor – Lindolfo – que inovou pesadamente em nossas instituições. muito havia contribuído a incompetência dos generais norte-americanos. chamado por Getúlio Vargas para trabalhar em sua assessoria econômica. Com a mesma diferença. estávamos convencidos de que isso seria uma radical reforma agrária. num gesto que me ficou como exemplo de sua grandeza. sob o comando imediato de Rômulo Almeida e J. – Do que jamais me arrependi. como naquele tempo. Ora. mais que. os homens de esquerda. não tem nenhuma grandeza. que queríamos a industrialização do Brasil – vale dizer. agora nos chegam.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel planejamento. porém. não há como pensar nisso. deu emprego a cerca de sete milhões de desempregados que Hitler encontrou na Alemanha. contra toda expectativa derrotou um exército norteamericano. a construção do capitalismo industrial aqui –. que havia estudado cuidadosamente o meu currículo e que estava disposto a correr o risco. para o dito desfecho. Somente mais tarde. notícias de que o exército iraquiano não foi batido e venceu as sublevações das minorias apoiados pelos Estados Unidos e aliados. está fazendo eco ao surto fascista mundial. o general Giap. segundo a qual o capitalismo industrial brasileiro podia e devia desenvolver-se em aliança e sob a hegemonia do latifúndio feudal. o que nos levaria à teoria da dualidade da economia brasileira. de Mussolini. Suas aventuras militares lembram muito mais Paulo Emilio do que Alexandre ou Aníbal. o que não se pode dizer do seu modelo de a meio século. que me sentisse em sua assessoria como se estivesse em minha própria casa. O Brasil. por exemplo. além dos oito anos de domicílio coacto em São Luís – não no Maranhão – o presidente disse. nos Estados Unidos do século passado e na União Soviética nossa contemporânea. Só para exemplificar. calcado num Keynesianismo “avant la lettre” que. respondendo a minha ponderação de que não me considerava getulista e que minha oposição a ele me havia rendido mais de dois anos de prisão. Isto é. num enquadramento francamente corporativo. Esta reedição do fascismo não tem dessas grandezas. como na França de 1789. embora formalmente inspirado na Carta Del Lavoro. comandante do exército vietnamita que. Muito mais tarde. nós. ao subir ao poder. deu um tremendo impulso ao processo de nossa industrialização. respondeu que aquele fora um fato complexo. sob o comando de Getúlio Vargas e uma plêiade de homens da melhor qualidade política. corporativas. alguns dentre nós aperceberíamos de que os caminhos da história são mais tortuosos do que parece à primeira vista. nem. Em suma. promovendo um direito trabalhista que. isto é. 72 . difícil de explicar. e calcado nas instituições medievais. nossa experiência “collorida” de fascismo. vale dizer. Naquele tempo. supostamente invencível. do “Golfo”.

no mesmo período 23. somente dois países. On the contrary of big armys. fizme conspirador e soldado voluntário. Quando da Revolução de 30. havia sido meu comandante. 73 . emergiram da fase recessiva do 3º Kondratiev.8 vezes. Entrementes a produção industrial brasileira cresceu. com escassos 16 anos. o mais próspero dos países capitalistas. – Getúlio. batendo todos os recordes. Conto estas coisas. da recessão e do desemprego. 13. partindo das condições de uma economia mundial deprimida. que aí temos.9 vezes. consequentemente. Coisa incompatível com um programa como o “collorido”. procurando corroborar a ação de meu pai. o Brasil e a União Soviética. ao primeiro exame. que arbitrariamente coloca a inflação no centro de toda a nossa problemática.5 vezes. dei razão. prócer aliancista maranhense. cresceu 26. a do mundo capitalista. que temos o dever de preservar. Para meu conhecimento. in war as in economy the intelligent can find (extract) negative examples. eu fora getulista por um breve momento. É esta formidável potência. Sumary The economist has a lot to learn with the history of wars. a do Japão. que estivemos construindo.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL estou certo. Com efeito entre 1938 e 1979 – pré-guerra imediato à abertura do nosso “decênio perdido” – a produção industrial soviética. ao chefe do Estado para arrepender-se de sua decisão que.9 vezes. como chefe da revolução. para marcar a diferença entre o nosso “fascismo” estado-novista e o atual. E que pretende combater esse epi-fenômeno pela via do agravamento de sua causação profunda. The perception of todays economic situation of Brazil consents this kind of reconsideration. isto é. e como o epi-fenômeno que é. Com efeito. 6. francamente parecera temerária. fazendo jus a toda minha lealdade.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO Ignacio de Moura Rangel 75 .

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sob a forma de industrialização substitutiva de importações. mas viúva de um comerciante português. sob sua batuta: – Vários dos meus ex-alunos. para ficar. 77 . Irmãos e Cia. Autor do clássico “A Inflação Brasileira”. Creio que a mais importante empresa maranhense da época –. ao lado de João Vasconcelos Martins. Outros mestres assim. despediram-se de mim sabendo inglês mais do que tu. Mas nunca encontrei ninguém. A exemplo do que faziam outros mestres maranhenses dos anos 30. 1989 Economista. n. 11 * Publicado originalmente na Revista FIPES. a iniciativa brasileira deve continuar a ser objeto de proteção oficial. batizaria como “crescimiento hacia adentro”. Devo acrescentar que a querida mestra – inglesa. sobre meu desempenho. no período. estávamos empreendendo o que depois Raul Prebisch. eu os tive – inclusive João Vasconcelos Martins e Caio Carvalho. Mas não fizemos isso. Talvez por estas e outras. n2. sobretudo. em São Luís – dela ouvi este julgamento. nunca haviam visto uma fábrica brasileira por dentro – coisa que João Martins e Caio Carvalho me facultaram ver. jul. como em muitos outros países.6.. e o segundo. jamais cobrou um níquel pelas aulas que me dava.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL TECNOLOGIA E CUSTO DE PRODUÇÃO11 Ignacio de Moura Rangel* Resumo Segundo o autor. Silveira – aí por 1940. preparou-me para entender o que. São Luís. fiz-me um economista fora de série. se estava fazendo em todo o país: ao instituirmos o que hoje malsinamos tanto como “reserva de mercado”./dez. secretário geral da CEPAL. enquanto não dispor de condições para enfrentar a concorrência de indústrias tecnologicamente mais avançadas. Quando me despedi de Mrs.2. naquele tempo. não me lembro em que condições embora cobrasse mensalidade dos meus irmãos. no curso de inglês. a depressão criasse raízes. houvéssemos tentado colocar a “modernidade” – como hoje dizemo-no centro de nossa problemática. haveríamos deixado que. Embora muitos dos meus colegas soubessem mais economia do que eu./v. que aprendesse mais depressa do que tu –. da firma Martins e Cia. Imagine-se que. na firma Martins. a começar por Rui Costa Fernandes. v. radicada em São Luís. nada sabiam de Direito e. Minha experiência.4. inclusive Antonio Lopes e Arimatéia Cisne: o primeiro ensinando-me filosofia. – Minha resposta é clara: em vez de convertermos o Brasil numa das economias mais prósperas do planeta. latim. diretor-presidente e chefe do escritório.

com recursos do tesouro ou levantados com o aval deste. pelo menos durante algum tempo. a renda gerada pelos investimentos privados. eu já sabia. Ora. muito mais que a dos Estados Unidos e dos próprios vanguardeiros do desenvolvimento. no período. companheiros? Vamos criar empresas públicas concessionárias de serviços públicos? Empresas assim somente podem oferecer a hipoteca dos seus bens ao próprio Estado. dentro e fora do país. Ao primeiro exame. uma receita estatal que. isto é. supridor de bens e serviços de produção que não interessavam ainda ao setor privado – podia fazer-se. nada disso teria sido possível se a receita fiscal não tivesse sido aumentada. sendo elas próprias parte do Estado. – Como assim. possibilitariam coisas ainda impensáveis. de um modo geral. Araújo Costa. Sem isso. nos três decênios 1956-86. a exemplo de Tucuruí. mais do que o dobro da média mundial. então. tenham a coragem de dizer-me que estou errado – usando dessa prerrogativa. Com efeito. como a União Soviética. visto como. por investimentos privados sem acesso à tecnologia de ponta. nos quadros da reserva de mercado. Rangel. e que esses investimentos – como depois aprendera Keynes – engendrariam uma renda nacional e. a implantação de um Departamento moderno. na época. sem que o parque industrial não estivesse sendo renovado – e até expandido. Não foi por acaso que. não preciso de aduladores. a receita pública com a qual o 78 . A equipe conhecia esse mecanismo. teríamos este oferecendo a hipoteca dos seus bens a si mesmo –. não houvéssemos criado condições de investimento. com o apoio das humildes oficinas de manutenção das velhas fábricas e usinas. Entretanto. que fez de mim o relator do sistema de leis ordenado em torno da futura Eletrobrás – outros ângulos da mesma problemática me seriam revelados. com essa receita pública financiamos os investimentos do setor público – inclusive captando recursos. por essa via. como sei ser o seu caso. e usando da prerrogativa que me havia sido dada pelo próprio Presidente da República – quando me disse: Dr. isso me pareceu impraticável.5 vezes. opus-me ao esquema da Eletrobrás. mas de homens que. também – coisa aprendida na velha fábrica do Largo do Santiago – que o setor privado podia ser induzido a investir. que não teriam acontecido se. nossa produção de eletricidade cresceu 12. ou pelo seu comprometimento com o aval do Tesouro. a eletrificação – e. com uma receita pública cuja origem era afinal. da Hidroelétrica do Vale do São Francisco e Itaipu. esquina com a travessa do teatro. sem outra garantia senão o aval do tesouro. mesmo sem acesso ao que hoje chamamos de tecnologia de ponta.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Mais tarde – sob o comando da Getúlio Vargas. na velha escola da Rua do Sol. até por que eu próprio lhe havia explicado. diretamente. Noutros termos. o que constituiria um absurdo. Isto conflitava com tudo o que me havia ensinado o meu mestre de direito civil. Isso significava que.

– Inclusive quando seja mister promover maior integração de nossa economia. a mesma. por certo as condições hoje vigentes não são mais as dos anos trinta e quarenta. Parece predominar. a criação de condições institucionais que preservem as novas empresas de uma competição ruinosa com as empresas de ponta dos países mais avançados. seja superior nas empresas de ponta dos países mais avançados. para isso. estaria surgindo ex nihilo. como abri-las. do nada. a tendência a exigir que nossas indústrias e serviços possam competir com as empresas mais avançadas dos países desenvolvidos. a renda nacional poderá crescer. Hoje. A reserva de mercado continua a ser o instituto fundamental para assegurar proteção contra uma competição ruinosa para nossas empresas. Entretanto. O instituto da reserva de mercado deu ao problema outra solução. se um fator de produção está desempregado. no fundamental. as reservas retardatárias.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Tesouro estava financiando a implantação do setor estatal da economia. mesmo que. atravessamos uma crise. isto é. Nunca do desmantelamento dos instrumentos fundamentais de planejamento. o custo de produção. 79 . O instituto da reserva de mercado foi a solução para o problema da promoção do crescimento do produto social. Com efeito. em cuja medula vamos encontrar um grupo de atividades dotadas de excesso de capacidade. com o resto da economia mundial. isto é. Noutros termos. no Brasil. a reserva de mercado – como uma chave – tanto pode fechar as portas. a crise foi superada pela criação de condições institucionais para a promoção de investimentos neste segundo grupo de atividades. esse grupo de empresas é constituído pelas supridoras dos grandes serviços de utilidade pública – Mas a solução do problema continua a ser. as condições persistem. Ora. eram as integrantes da chamada indústria leve – suprida de bens não duráveis de consumo. não obstante o atraso tecnológico. nas condições do emprego desse fator congênere. Naquele tempo. sob certo ponto de vista. como então. Naquele tempo. Como venho insistindo. a saber: hoje. dos países mais avançados do mundo. contrabalanceado por outro. a tecnologia ao alcance dessas atividades fosse para assegurar competitividade com as empresas congêneres de ponta. o custo social do seu emprego numa atividade nova será nulo. hoje. mas teria sido pura ilusão esperar que. sem capacidade produtiva à altura da demanda solvente do país. para a empresa. entre os quais vamos encontrar a reserva de mercado. Nossa reintegração na economia mundial deve resultar de uma operação planificada.

80 .A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Sumary Accordingto the author the Brazilian industry must continue to be an object of oficial protection. while. it does not diaposeat conditions to face the competition of the indsties more advanced in technology.

Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIASDE IGNACIO RANGEL José Rossini Campos do Couto Corrêa 81 .

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dentes. sabonete. Membro da Academia Brasiliense de Letras. cueca. dias 13 de junho de 1988. Texto inédito elaborado no trajeto Brasília-Recife. prossegui. e sentindo-o mais pesado neste dia 27 de janeiro de 1988. às fatais 7 horas e quarenta e cinco minutos. tragicamente. varava as persianas do pequeno apartamento. não sou amigo do Rei. aliás. Estava de saída. a completar seis anos do dia em que foi. bela viola. esmagado em desastre automobilístico – cujo nome aqui escrevo com saudade: Wilson do Couto Corrêa. falando sobre o permanente baile de máscaras nacional . Rossini. disparou: – “Alô. Vice-Presidente da Associação Brasileira de AdvogadosABA. carregando comigo. por fora. a chave girando na porta. pois. um morto querido – meu tio. o jornal político. aquela voz inconfundível. com a sua linguagem trêfega.” – Rangel!? Que surpresa agradável! – disse-lhe – esquecendo o habitual Professor. Uma pausa: liguei a televisão para ouvir.. mais do que ver. A móvel manhã quente e derretida. Mal toquei o aparelho. barba. creme. disputando com o ponteiro dos segundos: água. não recordo se na Globo ou na Manchete. Eu estou aqui em Brasília. camisa.e de máscaras feias – com uma desenvoltura de tríduo momesco.. Mais depressa. como vais? Quem está falando é Rangel. toalha.. da Academia Brasileira de Ciências Teológicas e do Instituto IberoAmericano de Direito Publico. coisa. por dentro. gentilmente cedido pelo autor para esse volume. como me pus de pé. comecei a marcha diária contra o relógio: pasta. avisando-me o horário dos inflexíveis compromissos burocráticos. 29 de outubro de 1991 e 25 de novembro de 1992. trazendo o seu cortejo de surpresas. desimportante. 12 83 . quando escutei o alarido do telefone.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL EU E ELE: MINHAS MEMÓRIAS DE IGNACIO RANGEL12 José Rossini Campos do Couto Corrêa* I Já havia começado a festa de cores e de luzes do alvorecer brasiliense. Quase pronto e pensando no trânsito. sabendo novamente ser a República. lâmina. dispensei a fatia de pão e esqueci o café quentinho. Voltei para atendê-lo. escova.. Não só acordei. rítmico. calça. * Vice-Reitor da American World University – AWU/USA. Tanto quanto possível. mesmo estando em Pasárgada. Acordar acordei. desde que os homens entrevistados nos dois canais são os mesmos. pão bolorento.

. – Sempre a trabalho – retruquei – invocando o nosso deus comum e perguntando pelas novidades. aqui no Hotel” – . Tenho trabalhado muito. Prestes a responder com eficácia de quando é e onde está a legislação de que o senhor necessita. tudo bem... ainda não tenho. eu deixo o Hotel. prontamente. Muito obrigado! Quais são as novas? – “As novidades são muitas. e hoje há gente ocupando altos postos.” – Que pena. É uma grande alegria para mim.. A bem da verdade. o encontra”. que está comigo. dando assistência para a minha filha Liudmila. Mal eu digo de que velho decreto eu preciso. é uma espécie de banco legal. Vai-se levando.. algumas tristes. e ela... de tarde. Perdi o meu genro domingo...E tive que parar um pouco e ficar. Professor! – “Porém.. às 15h. no BNDES. em companhia de uma moça formada em Direito e extraordinariamente dotada de competência. mas não estou largado. nosso ponto de encontro de sempre.” 84 .No Hotel Nacional? Não. saber que eu estou velho. que eu ajudei a formar.. aqui em Brasília? – “Creio que na metade do dia. – “É isto mesmo. junto com Aliette.“fazer uma conferência em um colóquio promovido pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. Muitos foram meus estagiários.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel – “Vim” – ele continuou . – Perdeu? Que pena.. Vi este pessoal todo entrar no Banco. É que eu vou viajar ás 15h e não tem sentido pagar outra. que projeto é este? – “É um trabalho de proposta de retificação do setor público no Brasil. – Sei..Então. – “. no mais. cargos de direção etc. quando vence a diária.” – O senhor está envolvido em algum projeto específico? Se está. – “Tu já tens o meu livro novo? Eu trouxe um para ti. Professor! É uma dimensão gratificante deste balanço de trajetória. Volto hoje mesmo..” – Que bom. Mas a que horas o senhor vai estar no Hotel Nacional.

Em seguida. – “Ah. pois ele tem de ser é anticomunista. que lamentável. eu vou para o serviço agora. Rossini. rapidamente. e almoçamos juntos. Olhe.” – . Flávia Galiza. quem sabe. boa amiga e parceira compenetrada de pesquisa. onde experimentei a ventura de dirigir uma excelente equipe de trabalho no setor público. em torno das idéias sociais e políticas do seu avô. tem uma coisa: conheci o Jesus Gomes. Tanto quanto.. Até mais. telefonei para uma convidada minha. ficou vibrando. não sei se vai ser possível a minha passagem no Hotel Nacional neste horário.. Um abraço para ti.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – Claro..” – Vou. eu vou ao seu encontro no. ela estava interessada em resgatar a figura do industrial maranhense. contudo.. pois eu pensei que nós pudéssemos. Fui trabalhar e cheguei ao Ministério da Cultura e comecei a desatar os nós do cotidiano. Ela. ou até mais do que eu.” – Sem dúvida. passei pela Secretaria Geral do MinC.Almoçar juntos? – “Sim. transferindo o nosso almoço para ensejo mais propício. comunicando-lhe o juízo do grande economista brasileiro sobre a nossa proposta de pesquisa. Ele realmente merece uma pesquisa. que era um burguês diferente do burguês brasileiro. no Hotel Nacional. de qualquer jeito. – “Vai trabalhar. E Jesus não era nenhuma coisa nem outra. De qualquer maneira. então. Decidida a documentar o encontro. Eu gostava muito dele. comandada pelo maranhense ilustre Joaquim Itapary e. – “Até mais. conversei com Flávia Gomes de Galiza. a terceira convidada solicitou 85 . gentil... É isto mesmo!” – Pois bem: eu vou a seu encontro. Como não suspeitava que o senhor fosse estar aqui. preso em novembro de 1935. ao qual não basta desgostar do comunismo.. Um grande abraço para o senhor. – “. Do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural. Flávia Galiza e eu. nos encontrar e .” – Até mais. No aeroporto? Bem.. Fascinada com o que Ignacio Rangel dissera a respeito de Jesus Gomes. neta de Jesus Norberto Gomes. na chamada Intentona Comunista.. Professor.. compreendeu. Daí que logo houve a concordância com a minha proposta de almoçarmos os três: Mestre Rangel.

No horário combinado para a saída. realizei uma dissertação sobre Ignacio Rangel. Aplaquei-lhe os justos reclames. onde evitaria contratempos. foi inevitável a conversa sobre o seu genro morto. discorreu a respeito de projetos de livros. no mínimo. Descida a sua pequena bagagem e fechada a conta no Hotel Nacional. Eu o provoquei. em substituição à afoiteza que lhe é característica. Necessitado de um paradigma. uma vez desafiado pelo trabalho criativo. e confessou.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel ao motorista da Secretaria Geral do MinC – e assim foi feito – que passasse em sua residência e trouxesse a providencial máquina fotográfica. fui objetivo: trata-se de um economista mais original e. Feitas as apresentações e mal chegando a se acomodar à mesa. que integrou o primeiro Ministério da República. com a gentil convocação de que almoçássemos juntos. tornada um clássico das ciências humanas no país. da mesma dimensão do Ministro da Cultura. Objeto de cirurgia cardíaca em São Paulo. Fora o primeiro a entregar os originais – reportava-se a seu livro Economia: Milagre e Anti-Milagre – para a coleção “Brasil: Os Anos do Autoritarismo”. no caminho. com a alegria de haver recebido. o médico recomendou ao economista maranhense prudência. sobre a sua produtiva atitude intelectual. e os cuidados dispensados à sua filha Liudmila e ao seu neto. Passando recibo ao meu desafio. como o de perder avião. Chamei-a. editada por Jorge Zahar. A marcha batida deste. Realizava-se ainda o colóquio. a pequena comitiva partiu. logo tomamos a direção desejada. em animada conversa. em contrapartida. No intervalo. de onde marchamos para a beira da piscina. explicando que a motivação do surpreendente almoço era Ignacio Rangel. neto de Demétrio Ribeiro. À beira da piscina. autografado. Chegamos. recebi saudável e repentino telefonema de minha prima Sônia Corrêa. com vivaz prosápia. também dos quadros superiores do MinC. no auditório do Hotel Nacional. Provoquei o autor de Dualidade Básica da Economia Brasileira. o pensador da formação econômica brasileira foi definitivo: 86 . Celso Furtado. Fui buscá-lo à entrada do auditório. reagindo bem. Sem demora. Ignacio Rangel sugeriu. que fôssemos almoçar no aeroporto. a necessidade de trabalhar em marcha mais vagarosa. Aceito o convite. o evento foi encerrado. o livro Economia Brasileira Contemporânea. premido pelo horário. No breve trajeto entre o Setor Bancário Norte e o Setor Hoteleiro Sul.. reunindo textos esparsos e inéditos. provocou grave crise cardíaca no Mestre dos Mestres.. o aguardamos. e de outros afazeres literários. em companhia de Dona Aliette. a propósito da necessidade da reedição da obra. Vi olhos marejados. a economia. E o velho Rangel. a política e a história do Brasil.

” – A redação de sua autobiografia. Ao chegarmos no amplo ambiente. Conseguido um lugar no estacionamento. o Juiz e Professor Mourão Rangel.” – Entendo. E confirmou. A começar pela fresca recordação das solenidades comemorativas do centenário de nascimento de seu pai. que constituiu uma memória de família das mais interessantes para a reconstituição histórica da vida social e das idéias jurídicas e políticas no Brasil. A facúndia do visitante. tanto quanto ele.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Não admito trocar uma vírgula daquele livro. à frente de Flávia Galiza. – “Esta é uma boa idéia. O testamento vai ficando para depois. endereços e telefones de pessoas presas com Jesus Gomes em 1935.saíram do Maranhão para a aventura do Brasil. as quais. agora. que muitos intelectuais de sua geração maranhense – Franklin de Oliveira à frente . Afinal. deparamos. ainda. mergulhou em um mundo de lembranças. 87 .” Chegamos. desaguando na divulgação do seu opúsculo. por exemplo? Quando o senhor vai abrir o seu baú de ossos? – “Talvez. a sua ligação com os comunistas. Chegada a sobremesa.. onde a possibilidade de argumentar não contasse com o tempo favorável. seriam depoentes abalizados a seu respeito. a Primeira Dama e o Governador do Estado do Maranhão. referente à crise nacional. Trocamos apenas olhares. começou a recordar passagens de Jesus Gomes. Os festejos transcorreram entre São Luís e Imperatriz. para o velho Rangel declarar que aquele almoço salvara a sua vinda a Brasília. caracteres da mentalidade empresarial e todo um mundo de coisas interessantes à história das idéias no Brasil. o propalado ateísmo. logo rumamos em direção ao restaurante do aeroporto. com Isabel e Epitácio Cafeteira. Mourão Rangel. voltando-se para mim. o que é uma necessidade. o diabo é que eu tenho projetos mais urgentes.. o viajante. em uma autobiografia. sobre a pouca discrição de áulicos e de ajudantes de ordens. a prisão política em 1935. Tenho dúvidas se se justifica a concentração de esforços. com a ajuda material de Jesus Gomes. ao centro. Tempo houve. Mas o senhor pode reeditá-lo. Ignacio Rangel. Rossini. sem o esquecimento do Rio de Janeiro. Sentamos. determinou a decida de um facho de luz sobre o nosso encontro. declinou nomes. enfim. somos maranhenses desobrigados da reverência e agradecidos pelo silêncio do transitório magistrado estadual. Depois de considerar que não participaria mais de simpósios. com uma introdução atualizadora. que não é habitual. intitulado Dr. em razão da brevidade com que cada expositor fora forçado a discorrer no colóquio.

Mas saltam dois cães de gado. fundada por Mourão Rangel. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. relatou os acontecimentos ao escritor Antônio de Oliveira. A rememória não ficou subordinada ao sucesso. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. de O. verso por verso. que nela. o velho Rangel. Neste. no Dia da Pátria. educava os seus e os filhos de terceiros. no longínquo 7 de setembro de 1922. funcionou uma escola particular. Diz o filho: "Oh minha mãe. o qual garantiu ser de autoria do poeta português João de Deus.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel O principal evento em Imperatriz. de acordo com ensinamento de véspera. logo acusando a lembrança em seu discurso. Chegando ao Rio de Janeiro. é lusófilo. regressou à memória ignaciana o dia 7 de setembro de 1922. A. Ignacio Rangel identificou a localidade. de plano reconstruído e de declamado. Como se não bastasse. o hino ao trabalho declamado pelo menino Rangel. pois não passava bem. Tornam os pobres à estrada. 88 . com a metralhadora da memória ligada. o menino declamou longo poema – um hino ao trabalho – na solenidade municipal. o velho. Aos oito anos. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. começou a declamar João de Deus: “MISÉRIA Era já noite cerrada. feito por sua mãe. em companhia de sua esposa. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. Como um sopro. em época pretérita. que todo o dia Tinha levado a anadar. foi a inauguração do retrato do Juiz e Professor no Grupo Escolar Mourão Rangel. em um serviço público para a vitória do direito à educação sobre os privilégios da barbárie. A despeito da nova e moderna construção. concluída a sua palavra. Tomado por violenta emoção. episódio de há muito esmaecido. estendendo-se a texto poético. o filho varão do homenageado foi conduzido às pressas para um hospital.

.. Perdereis a caçadeira.Boas tardes..Olhai que. senhor! . lavadeira! ...Boas tardes.. lavadeira! .Talvez que fosse melhor."Quem vem lá?. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira. caçador! . Até um dia..Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. (diz ella.. senhor.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . Vendo a sua esperança vã.. . É escusado... Com effeito a sentinela: . Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . caçador!” 89 .Se os cães deixarem. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor..” “BOAS NOITES Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .. Que ainda é perda maior. A triste n'um riso amargo). dessa maneira.Que importa. Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!.. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? .Boas noites..Boas noites. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira..

fugaz. morreu!” Provoquei Ignacio Rangel. repleta de inefável encantamento. os quais. como se tivesse acabado de lê-la. deixando em todos. o nosso encontro ficou prejudicado pela urgência de Marcos Formiga em chegar ao Aeroporto dos Guararapes. foram passos rápidos. por suposto. Conseguimos ainda. retidos em Itamaracá. A tua mãe já não vive? "Nunca a vi em minha vida. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. o Recife.. não se fazendo de rogado. entre outros. abraços. declamou verso a verso a extensa peça literária. Divididas democraticamente as despesas. Foi possível. Inteligente. a cidade. provando que a havia recomposto de um fôlego e fixado para sempre. com a sua passagem. Andei sempre assim perdida. mas suspendera. o doce vestígio de uma presença. beijos e despedidas. tardaram. porém. Ignacio Rangel desceu a rampa de embarque. antecedendo em poucos minutos o escritor e historiador Armando Souto Maior. pois este só despontaria em meados da tarde. e 1991. Secretário de Governo. mas chegaram. em virtude de pequenas refregas políticas municipais. que Brejo de Areia prometera a Armando Souto Maior. II O mês era o de junho ou de julho. Ele.. Depois. de João de Deus. partimos em direção ao setor de embarque. no intuito da feitura da reportagem fotográfica do nosso encontro. a passagem do fio de espada pelo lamento da frustração do título de cidadania. Estava vagando no ar a chamada para a ponte aérea Brasília-Rio de Janeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel “A ENJEITADINHA — De que choras tu. em seguida. Almoçamos sem que Roberto Viana. parar. a caminho. entretanto. Em um restaurante da Avenida Boa Viagem. aparecesse. eu aguardava Francisco Sales Gaudêncio e Manoel Marcos Maciel Formiga. Que tive mãe e.. 90 . anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!. para sempre. cobrando detalhes do texto do poema. por sobre jogos de espírito e reflexões substantivas. de onde viajaria com destino a Brasília. o ano..

você não pode deixar de participar. valiosa. em cujo domicílio ficaria no Recife. o telefone do seu sobrinho. sob a observação de que a desimportância por ele atribuída à economia de Celso Furtado. em 8 e 9 de agosto. Manifestava Rangel interesse em reencontrar-me. sua amiga e biógrafa no Maranhão e testemunha do seu relativo desapontamento flagrado em contacto telefônico. considerando a ausência da chegada da passagem aérea e da confirmação da reserva do hotel. ao regressar de João 91 . quase que à antevéspera do simpósio. Assim foi feito. com Sales. Sucede que o seminário ficou de ser realizado em João Pessoa. de sua admiração. Roberto Viana foi explícito. trazendo do Rio de Janeiro o meu endereço de residência e também o telefone do trabalho. em Brasília. – “Eu não escondo o temor” – argumentou o convidado – “de ser muito contundente. relacionamento com o homenageado e forte presença no contexto dos dois primeiros desempenhos de Celso Furtado: o da fantasia organizada e o da fantasia desfeita. em processo de organização pelos dois. Rebatendo-as. Responde-me Formiga de que não agendara o nome do economista maranhense. E acrescentaram: “Não queremos um seminário tedioso. em João Pessoa. e antecipando. É o lançamento do seu nome no Brasil.” Sales e Formiga foram afirmativos: “Com Miguel ou sem Miguel. podendo. ao recusar a oferta de Sales Gaudêncio e de Marcos Formiga. cobrando a feitura do convite a Ignacio Rangel. Comuniquei-me. motivado por informes advindos de Cristovam Buarque. Soube do imbróglio por meio da competente socióloga Maureli Costa. tonificar e entusiasmar os debates no colóquio.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Só? Não. com Formiga. as infundadas notícias. de imediato. em consórcio do Governo da Paraíba com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico .. Sobretudo com Arraes como coordenador do painel. e o painelista maranhense.” Eu já havia conversado com Marcos Formiga. em contrapartida. para que fosse painelista privilegiado no seminário “Teoria e Política no Pensamento de Celso Furtado”. Motivei Viana sutilmente. levando Formiga telefone e endereços anotados. chegou a pensar em remetê-lo por via postal. de texto concluído. ressalvadas a fonte. e a demanda foi resolvida.CNPq. ao ser comunicada. – “Desde que seja colocada de forma respeitosa” – ponderaram os dois paraibanos . e esse. de que a velhice o alcançara. por seu relevo pessoal. bem como o compromisso de convidar para o evento o lúcido e vigoroso Rangel. feito de pura louvação de Celso Furtado”. demonstrei serem malévolas. era. à sua maneira. de forma irremediável e comprometedora.

Ao desembarcar. parabéns!” A resposta foi glacial. da portaria. em uníssono. próximo à sua esposa. Pedrão e Santos. festejaram-no: – “Chegou o Mestre dos Mestres!” Fomos descendo a rampa do Tambaú Tropical Hotel em direção ao ônibus. desde o Maranhão. partimos em vagaroso e confortável ônibus. garantira a sua presença ali. Foi fraterno e afetuoso o nosso reencontro. onde uma agenda numerosa deveria ser satisfeita. E Pedrão. por intermédio da zelosa fonte que. homenageado e convidados. às 7h30min. Antecipando-se ao horário combinado. Armando Souto Maior. elegante. à procura de Aspásia Camargo. que chegaria em vôo matinal. em companhia de Armando Mendes e de Milton Santos.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Pessoa. À luz do dia. O também paraibano Paulo Bonavides. Como ninguém queria perder a abertura do seminário. Ficou combinado que a saída do ônibus seria. retraído: 92 . logo identifiquei no aeroporto Sales e Formiga. Mal terminamos o abraço. Ao conjunto viriam a juntar-se ainda. a quem o poeta Cunha Lima acompanharia a Campina Grande. perguntou: – “Pedrão onde você está?”. Hélio Jaguaribe. exultou com a chegada do homenageado – um lorde inglês vagando nos trópicos . cadenciado e de pasta executiva à mão. bêbados de cansaço. Aspásia Camargo e Maria da Conceição Tavares. avisaram que. mas bela homenagem de sua terra natal.. Constatada a ausência da entrevistadora de José Américo. Sales e Formiga. começaria a solenidade oficial. no Espaço Cultural José Lins do Rego. Luciano Coutinho. Sales. contatou painelistas.buscando confraternizar: – “Celso. pedindo a todos brevidade no café. Ao chegarmos em Tambaú. Clóvis Cavalcanti. Encontrei na portaria Sales Gaudêncio. Milton Santos e Fernando Cardoso Pedrão. quanto ao cumprimento do cronograma. para o Tambaú Tropical Hotel. sem mínimo retardo possível.. a solução foi dormirmos. Virando-se levemente. Paulo Bonavides e Armando Mendes. o grupo foi ganhando corpo: Celso Furtado. Estávamos nos primeiros momentos da conversa quando. Fiz-lhe chegar ao conhecimento que estaria na capital paraibana. entre outros. Rosa Freire D’Aguiar. pois o Governador Ronaldo da Cunha Lima seria de uma pontualidade britânica. o paraibano Celso Furtado. apareceu no corredor Ignacio Rangel. O motivo da rigidez era Ulysses Guimarães. cujos setent’anos recebiam tardia. sorrindo. Viajei na madrugada do dia 8 de agosto. às 8h da manhã.

Quase metediço. não deixar ninguém em pé: criticava todo mundo!” E o Mestre dos Mestres: – “E tu continuas o mesmo de sempre. substituindo-o nas visitas aos parentes Souzas. Mourões e Rangéis da Paraíba. decerto.. que não os cardíacos. Avisou–me que tivera problema de saúde. Santos sentenciou: E Pedrão. estando em processo de recuperação de um acidente cerebral sofrido em São Paulo. passou a mão sobre o ombro do pensador maranhense. trouxera consigo Dona Aliette Martins Rangel. O Governador Ronaldo Cunha Lima e o Secretário de Governo Gleryston Holanda de Lucena. por causa dos problemas de saúde. casado.. aliás. galhofeiro. A caminho do teatro do seminário. Sentado em poltrona contígua à minha.” Gargalhamos. como coordenador do Mestrado em Economia”.. a tristeza.?” – “Um dia melhora. a qual tinha todo um programa de família a cumprir. para esconder. sua esposa. com uma sobrinha de José 93 . A solenidade começou pontualmente. Pedrão juntou-se a nós e. entramos no ônibus e partimos.. O homenageado foi introduzido no recinto sob aplausos e a cerimônia transcorreu com grande relevo. Milton Santos. Explicou-me ainda que. conterrâneo. a Bahia. figura sempre simpática. que estava repleto. combinando capoeira.. o velho Rangel foi conversando. comentando para mim: – “Este homem é perigoso e engana a muita gente com essa voz mansa. convocou o economista baiano para uma resposta mais enfática: – “Diga assim. evitando viajar só. nada expansivo: – “E dá para ter orgulho. – “Bom”. retórica baiana e dialética de Hegel. como ficaríamos. Desembarcamos.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Eu estou na Universidade da minha terra. rapaz!” Sorrindo em face da tragédia. este. Guedelhas. com ar no peito e muito orgulho: eu estou na Universidade!”. todo o seminário.. Já agitou muito: como agitou! Quando passava na Bahia era para não deixar nada.

– “Afinal.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Américo de Almeida. trazendo consigo o Deputado Ulysses Guimarães. não chegando a ter a ressonância cavernosa da voz de Miguel Arraes. Admitida a aceitação. para desfazer estes equívocos e virar a mesa”. intelectuais. problemas e dificuldades. o sábio maranhense deixou escapar a frase. cumprimentando-me da passagem. O mito negou três vezes ao Mestre o tempo requisitado. Lamentando a frustração do seu propósito. Como as pessoas estão pensando mal o Brasil! E gente de responsabilidade! Vou solicitar quinze minutos a Arraes. Tomado por um constante espírito crítico. Contudo. sem nenhuma intenção de trocadilho. como sequer São Paulo realiza no momento de crise nacional. painelistas e homenageado desfilaram as suas dúvidas. assim como Sales Gaudêncio. sexta-feira. com o pensamento de Celso Furtado. sentando-se de novo junto a mim. Rossini. o faria no encerramento do colóquio antológico. foi constituída por um confronto do seu. 9: dois dias de um agosto inscrito em definitivo na cultura paraibana. coordenado mais por Formiga do que pelo mito. a dicção ignaciana. ponderando: – “Rossini. E foi. Quinta-feira. 8. e o festejou. determinando a recusa da concessão da palavra a Ignacio Rangel. Marcos Formiga discursou na abertura. Formiga explicou ao velho populista que. Surgiu a idéia da criação. emocionado. o Governador formulou qualquer coisa como: – “Eu era sabedor de que esta excelsa figura não se furtaria. o Governador Cunha Lima chegaria. pelo notável economista paraibano.” A participação de Ignacio Rangel. sem ser suntuoso. a qualquer instante. segundo convite do Governador Cunha Lima. na década de 50. elevada e corajosa. grande Mestre!” 94 . inquietações. entre sorrisos. professores. Estudantes. eu estou preocupado. Arraes dirigiu-se a Rangel. quem é que é. não foi elemento impeditivo dos aplausos que recebeu. valendo-se o evento da riqueza dos testemunhos de Celso Furtado. em razão do microfone utilizado para a leitura do texto ser de lapela. à maneira isebiana. para a solenidade de encerramento do seminário. vivido em estilo elogiável. A audição da platéia ficou um pouco prejudicada. a quem auxiliei a levantar-se. retiraram-se. do Instituto Superior de Estudos Paraibanos – ISEP – a ser dirigido. a postura do velho Rangel foi de insatisfação com a precária síntese conseguida. abraçando-o: – “Salve. este Ulysses Guimarães de quem eles tanto falam!?” Findo o painel.

Tratou-se de uma viagem maravilhosa. O excesso de demanda prejudicou a pretensão esboçada. E. A solução encontrada foi a de fretarmos um táxi. matar a sede e tomar café. recordando o sorriso de plena satisfação de Hélio Jaguaribe. apareceu em companhia da esposa e amigas. A minha expectativa era. de minha parte. quando. Rangel e eu fomos os mais silenciosos. que fosse possível chegar ao Recife vindo. Apontei. mais à frente. do seu conceito de colonial-fascismo e da utilização que dele fizera. degustando uma boa conversa com Manoel Marcos Maciel Formiga e com Guido Gaioso Castelo Branco. O pedido foi aceito. como sói acontecer. comecei a providenciar o regresso. O velho Jaguararibe confidenciou ao pequeno grupo que o cercava. atencioso. o burgo de Goiana aos Rangéis. onde recusei. com estudantes querendo que o economista maranhense autografasse os pequenos atestados de participação ali recebidos. Sales Gaudêncio mo apresentou como um seu constante leitor. deixou conosco uma pérola: – “Esta Maria da Conceição Tavares é doutora na arte de repetir as coisas mais batidas. e descermos juntos para o Recife. dizendolhes que era o berço da gente de Manuel Corrêa de Andrade. pois as mulheres falaram a contentos. parou. Fiquei plantado à beira da churrascaria. de sua lavra. no jantar palaciano oferecido pelo casal Cunha Lima. 95 . Dona Aliette. automóvel oficial pernambucano nunca chegado. houve a ruidosa entrega de certificados. com o estilo inteligente e cortante de sempre. a qual estava com o brilho da verve feliz e diligente. No sábado pela manhã. em abono do testemunho salesiano. em busca de um lugar para jantar. indiquei a entrada de Itamaracá e discorri sobre o significado de Igarassu. como se fossem novidades. ao longo da gesta da resistência democrática à ditadura militar. O motorista. ditado pelas musas da juventude. particularmente. Armando Souto Maior. entre léguas de cana de açúcar. ou com o carro da Casa Civil ou com o carro da Fundação Casa de José Américo. convite para jantar. que me declamara em João Pessoa vigoroso fragmento de um dos poemas de amor. permitindo ao interessante casal descansar um pouco. em demonstração perversa de que o seu conceito era uma realidade. sob a estudantil condição de que os requisitantes também assinassem o certificado do mestre brasileiro. cansado do seleto encontro no Palácio do Governo na noite passada. cuja tarefa consistia em transportar o velho Rangel e a sua esposa à cidade maurícia. que a sua morte civil chegou a ser decretada pelos coloniais-fascistas. Não obtendo sucesso. Ignacio. levando a que eu aguardasse em vão.” Fiquei. findo o café. Falei-lhe. Partimos para o Tambaú Tropical Hotel.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Concluído o simpósio.

de ácida critica aos poderes de uma certa Igaraçu: “Se trata a Deus por tu. e quem os reja. vencendo o cansaço do tempo. e maranhas? É Ministro do império. Nunca tiveram relacionamento com o poeta. e vós. e outra idade Desde que há tribunais. tinham afinidades eletivas profundas com o ensaísta Franklin de Oliveira. Desfilaram na conversa figuras como Domar Campos. Ewaldo Corrêa Lima e Jesus Soares Pereira. Que se tem feito em uma. e chamam a El-Rei por vós como chamaremos nós ao Juiz de Igaraçú? Tu. para não perder o fio da meada. Ignacio Rangel. e iniqüidade. consideravam-se amigos fraternos do ensaísta Antônio de Oliveira. apostavam na quente simpatia humana do poeta 96 . com que a todos causam inveja. e vós. e o fiz sem reticências. mas terminara a vida no Recife. Que solta um Barrabás. qual fora o relacionamento do casal com os maranhenses da década de 30. mantinham relacionamento cordial com o crítico Oswaldino Marques. ao resgatar o sentido crítico do canto contraposto à corrupção reinante no aparelho judicial do Estado: “Senhor Doutor: muito bem-vinda seja A essa mofina. Como previsto em trampas. A resposta foi objetiva. resgatou versos de Gregório de Mattos. e nas entranhas. e eqüidade. E logo em seguida. sem o esquecimento de Rômulo Almeida. filho. E Letras. e misto. e prende um Cristo”. prestigiando a lira gregoriana e recordando que o poeta nascera em Salvador. e mísera cidade Sua justiça agora. cujo cenário de carreira predileto foi o Rio de Janeiro.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel entusiasmando-se. mero. Tão Pilatos no corpo. e tu”. Guerreiro Ramos. declamou com voz de cristal resoluto. Que há de suceder nestas Montanhas Com um Ministro em Leis tão pouco visto. revelando a sua íntima conexão com a poesia. novelista e jornalista Odylo Costa. Seja muito bem-vindo: porque veja O maior desbarate. Perguntei a Dona Aliette.

seu amigo. Roberto Viana esteve presente. que dela ousara discordar. louvando-o pela densa originalidade do seu pensamento. sob elogio dos seus mestres. juntos. eu redefini o curso da conversa. para sobreviver. onde o habilidoso matemático não ficou. de fôlego e duradoura.” Confessou-me Dona Aliette: – “Não gostei. segura de si. À noite. fui buscá-los no Engenho do Meio. Sentenciou ainda que sua obra. o Secretário de Governo de Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti confessou. afirmando que o estudara em Oxford. no ato. Esse amigo fraterno felicitou Ignacio Rangel. da competência e da probidade do seu marido. sabendo-a filha de Ignacio Rangel. O velho Rangel. Em seguida. admitiu que muito do 97 . Por quê? Dona Aliette. cauteloso. foi apresentada a Josué Montello. que. que mencionou a recente polêmica travada entre Oswaldino Marques e Josué Montello. Perguntou –me se eu sabia a razão da tamanha desatenção. em particular. mas sincero. o prato servido foi Celso Furtado. preferiu colocar à mesa episódio imediato. a qual. que. a quem Roberto Viana considerou melhor escritor do que economista. Daí a pouco. ele poderia ter sido muita coisa neste país. para que. no qual a sua filha. Palavras ao vento. ela. garantiu-me que. lançara um sapato no rosto de um estudante. nunca gostara da figura do fecundo escritor Josué Montello. poupando o seminário de um possível espetáculo nada construtivo. Sequer os adversários ideológicos. de boa-fé. explicando umas coisas e sugerindo outras tantas. para a economia do seu quatriênio administrativo. sempre condenaram as mágicas estatísticas de Jessé Montello. em Londres. finalmente. Tomando a palavra. não precisa do amparo artificial e sempre transitório dos espaços de poder. Disse-lhe que não. nos jornais de Brasília.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Manoel Caetano Bandeira de Melo. Chegamos ao Recife. Ignacio Rangel relatou-me que remeteu carta ao Presidente José Sarney. Ele prometeu publicar o documento. disparou: – “Minha filha. que. se o seu Pai não tivesse se metido com esse negócio das esquerdas. tomássemos café em minha residência na Praia do Setúbal. sem que recebesse resposta. sem rebuços. com um confronto estéril com Maria da Conceição Tavares. Os Rangéis testemunharam a favor da boa figura humana existente na economista portuguesa. encontrando o romancista maranhense em uma festa. flagradas por Ignacio Rangel desde o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE.” Dona Aliette. onde o casal estava hospedado com um sobrinho. estivera ausente. ninguém duvidava no Brasil.

Soube que o casal ilustre esteve com Anna Raphaela. comunicada à Academia Maranhense de Letras. E um livrão grande assim ninguém vai ler”. de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e de João de Barro (Carlos Alberto Ferreira Braga): “Meu coração. conversando da Praia do Setúbal ao Engenho do Meio. não sei por que Bate feliz quando te vê E os meus olhos ficam sorrindo E pelas ruas vão te seguindo Mas mesmo assim Foges de mim Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. Disse-me Ignacio Rangel: estive com Anna Raphaela. O economista foi lacônico: – “Isto costuma acontecer. os Rangéis. que entregou rosas em nome do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais. sem necessidade. de toda maneira. Parabéns! Fiquei prosa. com os dois já no Maranhão. do programa lítero-recreativo cumprido pelo homenageado Ignacio Rangel. Antes de partirem com destino a São Luís. Comentei com o pensador maranhense que Hélio Jaguaribe. que conversa como gente grande.. de José Márcio Rego.. em Alternativas do Brasil. entretanto. O mérito cerebral do ensaísta paraibano foi. de escrever a sua autobiografia (o testamento pelo qual muito pelejei): – “Não é uma boa idéia. procede do pensamento de Raúl Prebisch. para a Dona Aliette. Aliette e eu ficamos impressionados com a extraordinária capacidade dela. desde ratinho até agora. resguardado. Se tu fores escrever um livro contando a tua vida. editor da Bienal. vovô Rangel. minha filha.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel atribuído por ele à rubrica celsiana. Ela está maravilhosa e é a inteligência em pessoa. quase madrugada. lembrando da menina que.” Terminado o café com muita prosa. fui deixá-los. E mais: que Phaela a nada faltou. Mantivemos posteriores contatos telefônicos. aqui em São Luís. De onde Anna Raphaela ter protestado contra a decisão do pensador maranhense. com menos de um ano e meio. cantava toda a música “Carinhoso”. tua filha. em termos de construção original. Prosa e verso. muito que te quero 98 . Muito prosa. a referência original. utilizou o seu esquema sobre as quatro dualidades. no qual lhes passei endereços e tudo mais. economista da Argentina. muito prestigiado no ciclo cepalino. ligaram para agradecer. sonegando. vai ficar deste tamanhão. movidos a cortesia.

com o qual lhe presenteei. O velho Mestre dispensou o hotel. situada no Bairro do Recife. nos antigos tempos do Instituto de Planejamento de Pernambuco-CONDEPE. Não podia ser mais complicado!” Fui buscá-lo no Aeroporto das Guararapes. observou-me: – “Arranjaste-me um tema difícil. publicado aqui no Recife. muito que te quero E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. foi um sucesso. inclusive o seu A Questão Agrária. vem.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL E como é sincero o meu amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem. não satisfeitos. Conversamos à vontade. filhos de Sólon Sylvio e de Evandro Lucas de Mourão Rangel. defensor de distinta privatização para a realidade brasileira. E também Carlos Osório. seguindo recomendações de Dona Aliette. ficou hospedado comigo. respectivamente. vem.” Consciente do conteúdo polêmico da onda liberal em ascensão no mundo. vem. vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz” Articulado com o economista e professor Carlos Osório. convidado pela Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco. trouxe Ignacio Rangel ao Recife. e. A conferência. Concorrido e qualificado público o aguardava no recinto. e. o deixou viajar sozinho. com destaque para dois sobrinhos engenheiros. onde adquirimos alguns volumes. onde estavam familiares. enquanto Mestre 99 . vem Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus Vem matar essa paixão que me devora o coração E só assim então serei feliz Bem feliz Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa E o muito. conferimos quem tinha o quê. conhecida como o sebo mais careiro do mundo. fomos à Livraria Brandão. que. por exceção. Percorrendo as livrarias. em matéria de bibliofilia. trocamos idéias. realizada na sede da Secretaria de Planejamento. para proferir a palestra “Privatização no Brasil: avaliação e perspectivas. Mestre Rangel. vem.

substitutiva da placa e do diploma que o atual Instituto de Planejamento de PernambucoCONDEPE. Saber. houve emocionada saudação de Carlos Osório. Rossini. como gostaria. aplaudida ao final. por minha causa. explicações menores ao entorno conservador do bloco de poder pernambucano. de maneira generosa. e. mas temendo. da democracia e do progresso social. onde foi que nós erramos? Diga –me!” E puseram-se os dois a discutir e rediscutir a economia brasileira. muito embora eu o deixasse à vontade. Nada obstante. A explanação da temática foi meridiana. findo o Governo Juscelino Kubitschek. livre da cuidadosa vigilância de Dona Aliette. os quais tornaram audível aquela voz desgastada pela vida irrequieta e pelos problemas de saúde dela decorrentes. confessadas. posando para fotógrafos dos jornais recifenses. À noite fomos em companhia de um grupo seleto para um restaurante de massas.” E assim foi feito. similar ao do Governo Federal. comendo de tudo um pouco. Ele é o patrimônio da nossa família. Na tratoria. Retruquei-o. e havendo tomado conhecimento de processo pernambucano de privatização. sobretudo quando revelou que. por não ser da tradição do organismo homenagem desta natureza. na manhã seguinte. com a palidez da angústia. todavia. prontamente sugeriu: 100 . não devendo ambos. frente à crise econômica enfrentada por Jânio Quadros: – “Doutor Ignacio Rangel. com diversa óptica. Mestre Rangel não aprofundou a sua discordância. indagando-lhe. o construtor de Brasília o convidou para um almoço reservado. defensor do recurso em si mesmo. Sabendo-me Assessor Especial do Governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcante. chopes e uísques antecederam os pratos principais. por minha posição. Mestre Rangel. em círculo restrito. ficou com algumas reservas mentais.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Rangel respondia a perguntas para programa de rádio e a entrevista para a televisão. bastante cedo. não pôde conceder–lhe. Crítico da privatização patrocinada pelo Governo Fernando Collor. os seus sobrinhos recomendaram-no a mim: – “Todo cuidado é pouco. navegou em céu de brigadeiro. ponderando ser do conhecimento do Senhor Governador a minha fidelidade às causas do humanismo. Antecipando-a. facilitada pelo concurso de duplos microfones. Na saída. só depois. em seguida. ele e eu. o grande economista estava lívido. lição de vida e humildade não faltaram à aula magna do conferencista.

limites e possibilidades. nascido em 14 de abril de 1928. carregando na alma o mortal sentimento de culpa. com o fio de espada da dialética. E ficaram ambos. A chegada do 3 de outubro. dialogamos um pouco. a revelar a conexão íntima do homem com o mistério. o pai e ele. e ele. Estava Ignacio Rangel em Barra do Corda. o pensador maranhense. a aerofogia estava vencida. nunca pára de pesar e constitui uma dor eterna. em 1º de janeiro de 1930. retirando dele o peso do cadáver. da estrutura à conjuntura. Vi-o lívido e compreendi o sentido trágico da vida. escutei-o mergulhado nas águas profundas do passado. pois o meu estado de saúde não me permitiu dormir e não me deixará trocar idéias”. Ignacio Rangel retornou a São Luís. De tudo. com o pai e seu irmão caçula. a criança desventurada. naquele vendaval de estremecimentos. como comandante de um destacamento cívico favorável à sua vigorosa sustentação. O retorno do restante da família foi para o sepultamento de Dirceu Carmelo. muito direta e objetiva: – “Case-se com a minha filha e diga-me onde quer concluir os estudos de Medicina. pois um morto. sua conterrânea. portanto. segundo o seu filho. Do quadro teórico à formação social. significou a surpreendente colocação. desvãos e perspectivas. não perceberam os dois que o menino escapuliu pela saída dos fundos. Ignacio Rangel revelou a razão por que ficou conhecido como o Mestre dos Mestres. havendo chegado a boa figura humana que é Carlos Osório. a favor da Revolução de 30. ao encontro repentino do rio e da morte.Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL – “Vamos telefonar para Carlos Osório. quase um vintém de prosa. Foi uma manhã iluminada. porém. desculpando o pai e sentindo-se. se em Paris. ficou a sensação de que ali houve uma festa do espírito. recebeu proposta de uma rica senhora. Era Dirceu Carmelo de Mourão Rangel. o responsável pela frustração de todo um projeto existencial. Convidei-o para uma caminhada quase à beira do mar de Nossa Senhora da Piedade. Ao término do café. e. e rumamos para o Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. chamando para si a responsabilidade pela tragédia. onde a elite do professorado aguardava o economista maranhense. E sustentou o debate: respondeu a inquéritos e alimentou polêmicas. voltando do banho de rio e chegando em casa para o descanso comum. em Londres ou em Nova York. Desde Barra do Corda que o Juiz de Direito Mourão Rangel lutara.” 101 . pregando-a em campanha jornalística e defendendo-a de armas em punho. Quando do retorno. nesta. do magistrado revolucionário em disponibilidade. Quando quase todos já tinham partido. Fechada a porta da frente. esclareceu fundamentos e circunstâncias. Estudante de Medicina no Rio de Janeiro. O pai. retirando da família o gravame de ter de sustentá-lo na antiga Capital Federal. Em viagem de navio para o Maranhão. já volátil. infante ainda. Considero melhor cancelar o compromisso de logo mais na Universidade Federal de Pernambuco-UFPE. ainda ali.

o cigarro e a máquina de escrever. o jovem Rangel foi para a Faculdade de Direito. pois tenho particular interesse em debater as idéias ora apresentadas”. despertando a atenção de Luiz Carlos Prestes. não experimentou nenhuma dedicação exclusiva às atividades jurídicas. em tentativa de curso improvisada no Maranhão. Não poderás negar. Aceita a sedutora provocação. escrita. passara. o Brasil. em máquina de escrever. por ser presença explícita em sua laboriosa vida de economista original.para alegria de Dr. fruto de acidente de percurso. que aos quinze anos passava a limpo. de que o velho Rangel tornar-se-ia ainda Cidadão Honorário – o bacharel noviço. o jovem Rangel foi estudar Agronomia. por reclamar. Ignacio Rangel apresentou tese sobre a questão agrária. aplicando-se em Economia e buscando conhecer. Mourão Rangel. isolando-o de todos. manejá-las. bem como de sua esposa Maria do Carmo . Quanto aos professores da Faculdade de Agronomia. que é mais do que a sombra protetora. à força pessoal. Por recomendação médica. que preparava o seu terremoto clandestino. Na antiga Capital Federal. primeiro. de resto. não deixe este congresso sem conversar comigo. sob a determinação de sua esposa. que estes mestres conhecem em profundidade a fundo a sua ciência. porém. entre faltas e segundas chamadas. com desenvolvidos senso de lógica jurídica e gosto pela Filosofia do Direito. Não se fizera o médico do seu desejo primeiro e não fora o engenheiro do sonho materno básico. com o seu saber velho e desatualizado. esbarrando no círculo de ferro de Diógenes de Arruda Câmara e sequazes. O interesse agronômico. Nada obstante. em congresso de sua agremiação política.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel Resistindo ao pai. os quais cercavam o Cavaleiro da Esperança. exigente e discrepante de pensar com as próprias idéias.concluída no Rio de Janeiro. começada no Maranhão . tê-las e segundo. que desejava vê-lo matriculado na Faculdade de Direito do Maranhão. só à mão. as sentenças do pai magistrado. logo vais descobrir que conheces mais Agronomia do que eles têm para te ensinar. histórica e sociologicamente. como passariam.” Realizado o vaticínio paterno. A tradução e a política estavam no caminho profissional do jovem Rangel. o jurista Mourão Rangel o admoestou: – “Tu criticas os professores da Faculdade de Direito. Dona Aliette Martins Rangel. que solicitou ao polêmico camarada: – “Professor Ignacio Rangel. o pensador 102 . a datilografar fumando. Militante do Partido Comunista do Brasil-PCB. aprendendo pavloveanamente a fumar datilografando.

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maranhense procurou seguidamente, sempre em vão, Luiz Carlos Prestes. Até que escutou a negativa raivosa e autoritária do pernambucano Arruda Câmara: – “Camarada Rangel, para as nossas necessidades teóricas, o Comandante Prestes nos basta!”

Ignacio Rangel, defendendo o direito de pensar, rompeu com o Partido Comunista do Brasil-PCB. E partiu, sem que tivesse acesso a Luiz Carlos Prestes, o qual tinha manifestado indisfarçável interesse em conhecer os fundamentos da tese crítica sobre a questão agrária brasileira, construída sob a perspectiva singular do jovem militante, que argüira os dois grandes equívocos de 1935. Eram: um, internacional, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, de que se estava em perante a crise geral do capitalismo, a qual o sepultaria, eterna e definitivamente, para a história; e o outro, nacional, de que o processo de industrialização brasileira só seria possível, se e somente, se aqui houvesse, como produto acabado, uma reforma agrária que o sustentasse. Na semana seguinte ao seu rompimento com o Partido Comunista do Brasil-PCB, em evidente sinal de que os seus caminhos políticos tinham vigilantes seguidores, recebeu Ignacio Rangel o convite para integrar a Assessoria Econômica do Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra. Convite feito, convite aceito? Não. Convite recusado. Defendendo-se pela razão e pelo equilíbrio, o economista em ascensão não foi presa fácil do chamamento técnico do bloco de poder estabelecido, que poderia querê-lo como troféu da Guerra Fria, já desembarcada no Brasil, e sequer permitiu que o segmento político que o abrigara pudesse tê-lo como um agente trêfego, mudando de visão de mundo a troco de tudo e a troco de nada. Depois de muita ponderação, a Assessoria Econômica do Presidente da República foi aceita, já vigente a segunda Era Vargas, distanciada das práticas policialescas do Estado Novo, reinantes desde 10 de novembro de 1937. Frente a frente, argumentou o Presidente Vargas: – “Dr. Rangel, eu conheço o seu curriculum. Eu preciso de homens que tenham coragem de dizer que eu estou errado”. Este universo, chamado Ignacio de Mourão Rangel, é o homem em estado de ebulição. Avançar, avançar e avançar são os seus três propósitos na vida. Esteve aqui ainda agorinha, folheando com prazer o seu texto da década de 50, para o encontro de Garanhuns, e plantando confidências no chão de nosso convívio: – “Quem, a meu ver, não avançou nada, foi Hélio Jaguaribe”.

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Estava aqui e viajou para São Luís do Maranhão, onde o aguardava a solenidade de posse na Academia Maranhense de Letras, em sucessão ao historiador teatral e defensor do patrimônio histórico e artístico brasileiro, José Jansen. Despachei o seguinte telegrama para o acadêmico Ignacio Rangel: – “Afazeres extraordinários relacionados viagem, Governador a Portugal, impedem-me comparecer grande festa inteligência maranhense. Em espírito, estou presente na sua posse Casa Antônio Lobo, justíssimo reconhecimento a quem projetou o Maranhão no Brasil. Seu de sempre, JOSÉ ROSSINI CAMPOS DO COUTO CORRÊA”.

Uma semana passada, estávamos juntos, Ignacio Rangel, Maureli Costa, Pedro Braga, Raimundo Palhano e eu, lançando no Maranhão, no auditório do Serviço da Imprensa e Obras Gráficas do Estado - SIOGE, o livro Um Fio de Prosa Autobiográfica com Ignacio Rangel, ensejo em que aquela pesquisadora e socióloga autografou a pioneira e premiada monografia, intitulada A Marcha dos Revoltosos (Passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão), bafejada pelas citações de Anita Leocádia Prestes, em ensaio também laureado, de revisão histórica do significado da Coluna Prestes para o Brasil. Despedimos-nos. Por ora são cartas, telefonemas, projetos e saudades de Ignacio Rangel, que será para sempre uma presença pulsante e ardente na lembrança dos que tiveram, como eu, o privilégio do seu confiante convívio, ora breve e fragmentariamente retratado, sob o clarão que irradia: relâmpago, vulcão, fogueira, aurora, luz do sol ao meio dia, ao som do mar e sob o céu profundo. Sempre fulgurante. Sempre esplendente. Ponto.

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Coleção Ignacio Rangel A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL PERFIL DE IGNACIO RANGEL Ignacio Rangel no Maranhão. El Desarollo Economico en Brasil (CEPAL. Entre suas principais publicações estão: A Dualidade Básica da Economia Brasileira (ISEB. De forma autodidata. com rigor. Atuou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-BNDE. no Instituto de Economistas do Rio de Janeiro-IERJ e por último na Academia Maranhense de Letras. Chile. dos primeiros cursos de formação de técnico em desenvolvimento econômico. no Instituto Superior de Estudos BrasileirosISEB. Foi colaborador regular do jornal Folha de São Paulo. Sociologia e Política-IBESP. dentre outros. Desenvolvimento e Projeto (BNDE. na capital do Maranhão. Elementos de Economia do projetamento (UFBA. 1954). no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. 107 . no Clube dos Economistas. Nos anos 30 faz breves incursões nas faculdades de Medicina. 1957). na Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. organizado pela Comissão Econômica para a América Latina-CEPAL. no Maranhão e faleceu em 04 de março de 1994. quando da entrevista para o volume 1 da coleção criada em sua homenagem Ignacio de Mourão Rangel nasceu a 20 de fevereiro de 1914. nas Assessorias de Vargas e Goulart. Desde meados dos anos 60 ministrou cursos em várias faculdades e Universidades do país. concluído no Rio de Janeiro. em Mirador. História e Economia. no Rio de Janeiro.1957). no Rio de Janeiro e Agronomia. Cursou Direito na Faculdade de São Luís. no Plano de Metas de Juscelino. 1957). hoje BNDES. Introdução ao Estudo de Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Livraria Progresso de Salvador-BA. Participa em Santiago. estuda. no Instituto Brasileiro de Economia.

1960). 1961). 1985). Visão do Desenvolvimento e da Economia Brasileira: Programa e Política – O Programa de Metas Econômicas do Governo (BNDE. a UFMG. 1979). Cadernos do Nosso Tempo. Economia: Milagre e Anti-Milagre (Zahar. Revista da Civilização Brasileira. A Questão Agrária Brasileira (Conselho de Desenvolvimento da Presidência da República. Ensaios FEE e Revista de Economia Política. Desenvolvimento e Conjuntura. 108 . Recentemente a Editora Contraponto publicou Obras Reunidas de Ignacio Rangel em dois volumes. a Editora dos Encontros com a Civilização Brasileira e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A Inflação Brasileira (Tempo Brasileiro. 1959). Economia Brasileira Contemporânea (Editora Bienal. Recursos Ociosos e Política Econômica (HICITEC. Ciclo. coligindo boa parte da sua produção intelectual. Apontamento para o Segundo Plano de Metas (CONDEPE. Possui trabalhos publicados em periódicos como Digesto Econômico. Revista do BNDE. Estudos CEBRAP. 1982). Tecnologia e Crescimento (Civilização. 1961). Revista Agrária. Recursos Ociosos na Economia Nacional (ISEB. cuja proficuidade de trabalhos esparsos e ainda inéditos já demanda um terceiro volume.A SINGULARIDADE DO PENSAMENTO DE IGNACIO RANGEL Coleção Ignacio Rangel 1959). 1987). e contribuição em coletâneas organizadas pelo ISEB. 1963).

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