Reproduzindo a Nobreza Social na Educação

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O documento discute como a instituição escolar reproduz a distribuição do capital cultural e perpetua a estrutura social, destacando a relação entre estratégias familiares e a lógica escolar. A análise sugere que a educação, em vez de promover a meritocracia, tende a criar uma nobreza de Estado, onde o sucesso social está ligado a credenciais escolares que refletem capital cultural herdado. O texto também critica a visão determinista da ação social, propondo que os agentes sociais agem com um senso prático influenciado por suas condições sociais.

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ordem social.

As leis de aço, eu disse antes, não são leis eternas da


natureza senão leis históricas, cuja eficácia pode ser suspensa ou
minimizada por uma ação tendente a modificar as condições históricas de
sua eficácia. Aqueles que clamam contra o determinismo deveriam lembrar que
tem sido necessário apoiar-se no conhecimento da lei da gravidade para
construir máquinas voladoras que permitem desafiar eficazmente essa lei.

7.O NOVO CAPITAL, INTRODUÇÃO A UMA


LEITURA JAPONESA DA NOBREZA DO ESTADO20

Eu gostaria hoje de evocar os mecanismos extremamente complexos através de


os quais a instituição escolar contribui (insisto nesta palavra) para reproduzir
a distribuição do capital cultural, e com isso, a reprodução da estrutura
do espaço social.

As duas dimensões fundamentais deste espaço, do qual falei ontem,


correspondem a dois conjuntos de mecanismos de reprodução diferentes. A
a combinação de ambos os mecanismos define o modo de reprodução e faz
que o capital vá para o capital e que a estrutura social tenda a perpetuar-se (não
sin sufrir deformações mais ou menos importantes). A reprodução da
a estrutura da distribuição do capital cultural opera na relação entre as
estratégias das famílias e a lógica específica da instituição escolar. Esta
tende a proporcionar o capital escolar, que concede sob a forma de títulos
(credenciais), ao capital cultural detido pela família e transmitido por uma
educação difusa ou explícita no curso da primeira educação.

As famílias são corpos articulados animados por uma espécie de conatus, em


o sentido de Spinoza. Ou seja, por uma tendência a perpetuar seu ser social
com todos os seus poderes e seus privilégios. Essa tendência está no princípio de
las estrategias de reproducción, estrategias matrimoniales, estrategias de
sucessão, estratégias econômicas e, enfim e acima de tudo, estratégias educacionais.

As famílias investem na educação escolar (em tempo de transmissão, em


ajuda de todo tipo e, em certos casos, em dinheiro, como hoje no Japão com o
juku e os yobi-ko), tanto mais quanto seu capital cultural é mais importante
e quanto pesa o seu capital cultural em relação ao seu capital
econômico é maior —e também, na medida em que as outras
estratégias de reprodução (em especial estratégias de sucessão à vista da
transmissão direta do capital econômico) são menos eficazes ou menos
rentáveis relativamente (como é o caso hoje no Japão a partir da última
guerra mundial e, em menor grau, na França).

Este modelo, que pode parecer muito abstrato, permite compreender o interesse
crescendo que têm na educação as famílias, e acima de tudo as famílias
privilegiadas e, entre elas, as famílias de intelectuais, de educadores ou de
miembros de profesiones liberales, en todos los países avanzados, y sin duda

20
Conferencia pronunciada en la Universidad de Todai, Japón, el 5 de octubre de 1989.
no Japão mais do que em outros lugares; permite compreender também que as mais
altas instituciones escolares, aquellas que conducen a las más altas posiciones
sociais, estão cada vez mais completamente monopolizadas pelos filhos de
categorias privilegiadas, e isso tanto no Japão quanto nos Estados Unidos como em
França. Mas ainda, este modelo constitui assim um dos instrumentos mais
poderosos para entender não apenas como as sociedades avançadas se
perpetuam, mas também como mudam sob o efeito das contradições
específicas do modo de reprodução escolar.

Para dar uma visão global do funcionamento do mecanismo de reprodução


escolar pode, num primeiro momento, lembrar da imagem que o físico usou
Maxwell para fazer compreender como poderia ser suspensa a eficácia da
segunda ley de la termodinámica: Maxwell imagina undemonque entre las
partículas em movimento mais ou menos quentes, ou seja, mais ou menos
rápidas, que chegam até ele, faz uma seleção, enviando as mais rápidas para um
recipiente em que a temperatura se eleva, e as mais lentas a outro recipiente,
en el que la temperatura baja. Haciendo esto, él mantiene la diferencia, el
ordem que, de outro modo, tenderia a se destruir.

O sistema escolar atua da maneira do demônio de Maxwell: ao preço do


gasto de energia que é necessário para realizar a operação de seleção
mantém a ordem preexistente, ou seja, a separação entre os alunos
dotados de quantidades desiguais —ou de tipos diferentes— de capital cultural.
Mas precisamente, mediante toda uma série de operações de seleção,
separa os detentores de capital cultural herdado daqueles que estão
desprovidos dele. Como as diferenças de aptidão são inseparáveis das
diferenças sociais segundo o capital herdado, o sistema escolar tende a
manter as diferenças sociais preexistentes.

Mas, além disso, o sistema escolar produz dois efeitos dos quais não se pode
dar conta mais do que abandonando a linguagem (perigosa) do mecanismo. Ao
instaurar uma cisura entre os alunos das grandes escolas e os alunos
das facultades, a instituição escolar institui fronteiras sociais análogas a
aqueles que separaram a grande nobreza da pequena nobreza, e esta de
os simples plebeus.

Esta separação é marcada, primeiro nas próprias condições de vida, com a


oposição entre o internato e a vida livre do estudante; depois no
conteúdo e acima de tudo na organização do trabalho de preparação para os
concursos (de admissão) com, de um lado, um enquadramento muito estrito e
formas de aprendizado muito escolares, e acima de tudo uma atmosfera de urgência
e de competência que inspira a docilidade e que apresenta uma analogia evidente
com o mundo dos negócios, e, do outro, a "vida de estudante" que, muito perto
da tradição da vida boêmia, implica muito menos disciplina e restrição
ciones, mesmo no tempo dedicado ao trabalho.

Mas isso não é tudo. A separação que a instituição escolar efetua, tanto por
a prova que constitui a preparação do concurso e o concurso em si mesmo,
como por a cisão ritual, verdadeira fronteira mágica, que institui o concurso,
separando o último recebido do primeiro suspenso por uma diferença de
natureza, marcada pelo direito de levar um nome, um título, é uma
verdadeira operação mágica, na qual o paradigma é a separação entre o
sagrado e o profano, assim como analisa Durkheim. O ato de classificação
escolar é sempre, mas particularmente neste caso, um ato de desordenação
no duplo sentido que esta palavra implica em francês. Este ato institui uma
diferencia social de rango, de clasificación, una relación de orden definitiva: los
elegidos são marcados, para a vida toda, por sua pertença (ex-aluno de...);
eles são membros de uma ordem, no sentido medieval do termo. E de uma
ordem nobiliária, conjunto claramente delimitado (em que se está ou não se
está) de pessoas que estão separadas do comum dos mortais por uma
diferença de essência e estão legitimadas, por este fato, para dominar. É
nisto em que a separação operada pela escola é também uma
ordenado no sentido de consagração, de entronização em uma categoria
sagrada, uma nobreza.

A familiaridade nos impede de ver o que os atos aparentemente escondem


puramente técnicos que leva a cabo a instituição escolar. Por isso, a análise
weberiano do diploma como Bildungspatenty do exame como processo de
seleção racional, sem ser falsa, imparcial; sua análise deixa de fato escapar
o aspecto mágico das operações escolares que também cumprem as
funções de nacionalização, mas em um sentido totalmente diferente, mais
próximo de Freud ou de Marx; os exames ou os concursos justificam em razão
de divisões que não têm necessariamente a razão por princípio, e os títulos
com os quais se sanciona o resultado é apresentado como garantia da
competência técnica dos certificados de competência social, dos títulos de
nobleza. En todas las sociedades avanzadas, en Francia, en Estados Unidos
ou no Japão, o sucesso social depende muito estreitamente de um ato de
nominación inicial (a imposição de um nome, geralmente o de uma
instituição educacional, Universidade de Todai ou de Harvard, Escola Politécnica
que consagra escolarmente uma diferença social preexistente. A entrega de
diplomas, que dá lugar a cerimônias solenes, é efetivamente comparável
ao ato de armar cavaleiro alguém. A função técnica evidente, demais
evidente, de formação, de transmissão de uma competência técnica e de
a seleção dos mais competentes tecnicamente disfarça uma função
social, a saber, a consagração dos detentores estatuários do
competência social, do direito de dirigir, os nisei (segunda geração)
como se diz aqui; temos então, no Japão como na França, uma nobreza
escolar hereditária de dirigentes da indústria, de grandes médicos, de altos
funcionários, e assim, de dirigentes políticos. E esta nobreza de escola
compreende uma parte importante dos herdeiros da antiga nobreza de sangue
que reconverteram seus títulos nobiliários em títulos escolares.

Por isso, a instituição da qual uma vez pensamos que poderia introduzir uma
forma de meritocracia privilegiando as aptidões individuais em relação a
os privilégios hereditários tendem a instaurar, através da ligação encoberta
entre a aptidão escolar e a herança cultural, uma verdadeira nobreza de Estado.
Nobreza na qual a autoridade e a legitimidade estão garantidas pelo título
escolar.
Basta voltar um pouco na história para ver que o reino dessa nobreza
especifica, que se ha iniciado ligada ao Estado, é o resultado de um longo
processo: a nobreza de Estado na França e, sem dúvida, no Japão, é um corpo
que foi criado ao criar o Estado; que o Estado deveria ter criado para
criar-se como detentor do monopólio legítimo do poder do Estado. A
nobreza de Estado é a herdeira disso que na França se chama a nobreza de
toga, que se distingue da nobreza de espada, à qual está unida cada vez
mais frequentemente por casamentos à medida que avançamos no tempo,
em que deve seu status ao capital cultural, de tipo jurídico essencialmente.

Não posso trazer aqui o conjunto da análise histórica que esbocei no último
capitulo de mí libro, apoyándome en los trabajos de historiadores de la
educação, historiadores do Estado e historiadores das ideias. Esta análise
poderia servir de base para uma comparação metódica com o processo, certa-
mente similar, segundo creio, apesar das diferenças aparentes, que levou
ao corpo dos samurais, do qual uma fração já havia sido transformada em
burocracia letrada no curso do século XVII, a promover na segunda metade
del siglo XIX un Estado moderno fundado en un cuerpo de burócratas que
associa uma origem nobre e uma forte cultura escolar com a preocupação de
afirmar sua independência no e pelo culto do Estado nacional muito
diretamente enraizado no aristocratismo e em um forte sentimento de
superioridade em relação aos industriais e comerciantes, para não falar dos
políticos.

Assim, voltando ao caso da França, observamos que a invenção do Estado e,


em particular, as ideias de “público”, de “bem comum” e de “serviço público”
que están en su centro, son inseparables de la invención de las instituciones
que fundam o poder da nobreza de Estado e sua reprodução: assim, por exemplo-
plo, as fases de desenvolvimento da instituição escolar e em particular o surgimento
no século XVIII de instituições de um novo tipo, os colégios, que misturam
certas frações da aristocracia e da burguesia de toga nos internatos
que anuncian el sistema actual de las grandes escuelas, coinciden con las
fases de desenvolvimento da burocracia do Estado (e secundariamente, pelo menos
no século XVI, da Igreja). A autonomização do campo burocrático e a
multiplicação das posições independentes dos poderes temporais e
espirituais estabelecidos, são acompanhados pelo desenvolvimento de uma burguesia e de
uma nobreza de toga cujos interesses, em matéria de reprodução
especialmente, estão ligados de uma maneira estreita à escola. Tanto em
seu modo de vida, que dá um grande lugar às práticas culturais, como em seu
sistema de valores, esta sorte de Bildungsburgertum, como dizem os
alemães, se define por oposição, de uma parte, ao clero e, de outra, à
nobreza de espada, da qual critica sua ideologia do nascimento, em nome do
mérito y de lo que se llamará más tarde la competencia. En fin, es en la toga
onde se inventa, coletivamente —embora a história das ideias isole os
nombres próprios—, a ideologia moderna do serviço público, do bem comum e
da coisa pública, em síntese, o que se chamou "o humanismo cívico de"
os funcionários" que, através especialmente dos advogados girondinos,
inspirará a Revolução Francesa. Assim vemos como a nova classe, cujo poder
e autoridade repousa sobre o novo capital, o capital cultural, deve, para
impor-se nas lutas que a opõem a outras frações dominantes, nobres
de espada e também burgueses da indústria e dos negócios, levar seus
interesses particulares a um grau de universalização superior, e inventar uma
versão que podemos chamar progresista (respecto das variantes
aristocráticas que inventarão um pouco mais tarde os funcionários alemães e
os funcionários japoneses) da ideologia do serviço público e de
meritocracia. Ao pretender o poder em nome do universal, nobres e
burgueses de toga fazem avançar a objetivação e, com isso, a eficiência
histórica do universal e não podem servir-se do Estado que eles pretendem
servir sem servir, nem que seja um pouco, os valores universais com os quais o
identifican.

Eu poderia parar aqui meu objetivo, mas quero voltar rapidamente à imagem do
demônio de Maxwell que usei por necessidades de comunicação mas
que, como todas as metáforas tiradas da física e, mais especificamente, de
a termodinâmica está grávida de uma filosofia da ação certamente falsa e
de uma visão conservadora do mundo social (como mostra o uso consciente
o inconsciente que fazem todos os que, como Heidegger por exemplo,
denunciam a "nivelamento" e a anulação progressiva das diferenças
"autênticas" na banalidade plana e grosseira dos valores "médios"). De
feito, os agentes sociais, alunos que escolhem uma vocação ou uma
disciplina, famílias que escolhem um estabelecimento para seus filhos, etc., não são
partículas subjugadas a forças mecânicas que agem sob a pressão de caucas;
não são também, sujeitos conscientes e conhecedores agindo com pleno
conhecimento de causa, como acreditam os defensores da teoria da ação
racional (Teoría de la Acción Racional) (podería mostrar, Si tuviera tiempo, que estas
filosofias, à primeira vista totalmente opostas, se confundem de fato, já que se
o conhecimento dos pormenores, das causas dos fins é perfeito e se
a escolha é completamente lógica, não vemos em que ela difere da
submissão pura e simples às forças do mundo, e por que, em consequência, se
assuma como uma escolha). De fato, os agentes são agentes conscientes
dotados de um senso prático (daqui o título que dei à obra em que
desenvolvimento dessas análises), sistema adquirido a partir de preferências, de
principios de visión y de división (lo que llamamos de ordinario un gusto); y
também sistemas de estruturas cognitivas duradouras (que são em o
essencial o produto da incorporação de estruturas objetivas e de
esquemas de ação que orientam a perceber a situação e a resposta
adequada. O habitus é essa espécie de “intenção em ação”, como diz John
Searle, um filósofo norte-americano contemporâneo, com um senso prático de
o que há para fazer em uma situação dada —o que se chama, no esporte, o
sentido da jogada, ou seja, essa arte de antecipar o futuro do jogo, de
adivinhar o que está inscrito em linhas pontilhadas no estado presente do
juego.

Se tomarmos um exemplo no domínio da educação, o sentido do jogo se


torna-se cada vez mais necessário à medida que, como é o caso da França, e
também do Japão, os fios se diversificam e se misturam como escolher entre
um estabelecimento de renome que declina e uma escola refúgio em ascensão.
Os movimentos da bolsa de valores escolares são difíceis de antecipar e
aqueles que podem se beneficiar, através de sua família, pais, irmãos ou
hermanas, etc., o de sus relaciones, de una información sobre los circuitos de
a formação e seu desempenho diferencial, atual e potencial, podem posicionar melhor
seus investimentos escolares e alcançar o melhor benefício de seu capital cultural. É
esta é uma das mediações através das quais o sucesso escolar —e social—
se enlaza de novo ao origem social.

Dito de outra forma, as "partículas" que avançam em direção ao demônio levam em


elas mesmas, ou seja, em seu habitus, a lei de sua direção e de seu movimento,
e o princípio da "vocação" que os orienta para tal escola, para tal
faculdade ou tal disciplina. Já analisei amplamente como o peso relativo em
o capital dos adolescentes (ou de suas famílias) do capital econômico e do
capital cultural (que eu chamo de estrutura do capital) está retraduzido
en un sistema de preferencias que los lleva a privilegiar ya sea ci arte en
detrimento do dinheiro, sejam as coisas da cultura em detrimento dos assuntos
de poder, etc., ou o inverso; como esta estrutura de capital, através do
sistema de preferências que produz, os estimula a se orientarem em suas
eleições escolares, e portanto sociais, para um ou outro polo do campo
do poder, o polo intelectual ou o polo de negócios, e a adotar as práticas
e as opiniões correspondentes (assim se compreende o que não se produz senão
porque está habituado a isso, a saber, que os alunos da Escola
Normal, futuros professores ou intelectuais, são principalmente ditos da esquerda,
leen revistas intelectuales, frecuentan mucho el teatro y el cine, practican poco
o esporte, etc., enquanto os alunos de Altos Estudos Comerciais se
dicen sobre todo de derecha, se inclinan mucho a los deportes, etcétera).

E da mesma forma, em vez do demônio, há, entre outras coisas, milhares de


profesores que aplican a sus alumnos categorías de percepción y de
apreciação estruturada de acordo com os mesmos princípios (não posso aqui
desenvolver a análise que fiz das categorias do entendimento
profesoral, y las parejas de adjetivos tales como brillante/apagado que los
mestres aplicam, para julgá-los, aos trabalhos de seus alunos e a todos os seus
maneras de ser e de fazer). Dito de outra forma, a ação do sistema escolar
é a resultante das ações mais ou menos grosseiramente orquestradas de
millares de pequeños demonios de Maxwell, quienes, por sus elecciones
ordenadas de acordo com a ordem objetivo (as estruturas estruturantes são, como
decía antes, estruturas estruturadas), tendem a reproduzir esta ordem sem
saber isso nem querer.

Mas a metáfora do demônio é perigosa também porque favorece o fantasma


del complot, que impregna frecuentemente el pensamiento critico, la idea de
uma vontade malévola que seria responsável por tudo o que acontece, para o bem e
sobretudo para mal, no mundo social. Se isso que se está no direito de
descrever como um mecanismo para as necessidades da comunicação, é
vivido, às vezes, como uma espécie de máquina infernal (fala-se muito do
"inferno do sucesso"), como uma engrenagem trágica, exterior e superior aos
agentes, é porque cada um dos agentes está de certo modo constrangido a
participar, para existir, em um jogo que impõe enormes esforços e
imensos sacrifícios. E eu penso que, de fato, a ordem social que garante
el modo de reproducción en la componente escolar hace sufrir hoy día, incluso
aqueles que são os mais beneficiados, um grau de tensão certamente com-
parábola ao qual a sociedade cortês, conforme a descrevem Elias, impõe
também àqueles que têm o extraordinário privilégio de fazer parte dela:
Em última instância, não há dúvida de que este dever lutar por
continuamente ameaçadas oportunidades de poder, status e prestígio era o
fator dominante em virtude do qual, nesta estrutura de poder dividida
Hierarquicamente, todos os participantes se condenavam reciprocamente ao exercício-
cício de um ceremonial que havia se tornado uma carga. Nenhuma das
as pessoas que constituíam a configuração tinham a possibilidade de colocar em
uma reforma da tradição. Todo intento de reforma, mesmo o mais
pequeno, de uma mudança do precário sistema de tensões trazia consigo
ineludivelmente uma sacudida e uma diminuição ou mesmo uma derrogação de
certos privilégios e prerrogativas de pessoas e famílias concretas. Tocar tais
oportunidades de poder, mas ainda derrubá-las, era uma espécie de tabu para a
capa dominante desta sociedade. A tentativa teria tido em contra amplas
capas de los privilegiados que, quizás no sin razón, temían que todo el sistema
de poder que lhes outorgava privilégios se visse ameaçado ou que se desmoronasse
se tocava ao mais mínimo detalhe da ordem tradicional. E assim tudo continuou
como antes21.

No Japão, assim como na França, os pais sobrecarregados, os jovens entediados e os


empregadores desapontados com os produtos de um ensino que
encontram inadequadas são as vítimas impotentes de um mecanismo que não
es otra cosa que el efecto acumulado de sus estrategias acarreadas por la
lógica da competição ou da luta de todos contra todos.

Para terminar também com a apresentação mutilada e caricatural que certos


analistas mal inspirados ou mal intencionados têm dado de meus trabalhos, seria
é necessário ter tempo para mostrar aqui como a lógica do modo de
reproducción de la componente escolar —y especialmente su carácter
estadístico— e as contradições que o caracterizam estão na origem de
numerosas mudanças nas sociedades avançadas. Essas contradições
constituem sem dúvida a origem oculta de certos conflitos políticos
característicos del periodo reciente, como el movimiento de mayo del 68 que,
ao produzir as mesmas causas, semelhantes efeitos, tem abalado mais ou menos
simultaneamente, e sem que se possa de forma alguma supor influências diretas,
à universidade francesa e à universidade japonesa. Eu analisei
largamente, em outra de minhas obras, que intitulei, um pouco paralelamente, Homo
acadêmico, os fatores que determinaram a crise do mundo escolar do
que o movimento de maio foi a expressão visível: superprodução de
diplomados e depreciação de diplomas (dois fenômenos que, se eu acreditar no que eu
lido, afetam também o Japão), e devaluação das posições
universitárias, subalternas sobretudo, que se multiplicaram sem que se abram
as corridas em igual proporção, por causa da estrutura, certamente arcaica
da hierarquia universitária (nisto eu gostaria de fazer uma pesquisa
comparativa sobre el funcionamiento delkozay sobre la forma que tenían, en
o caso do Japão, as relações de tempo e de poder universitário tal como as
analisei na França). Acho que é nas mudanças no campo escolar e
sobre tudo nas relações entre o campo escolar e o campo econômico, e
na transformação da correspondência entre os títulos escolares e os
21
Norbert Elias, A sociedade de corte, Paris, Flammarion, 1985. 330 pp. [trad. esp., A sociedade cortesã, FCE,
México, 1982, p. 118, trad. Guiilermo Hirata.
postos de trabalho, onde se encontrará a verdadeira origem dos novos
movimentos sociais que surgiram na França, como uma prolongação de 68,
e outros, ainda mais recentes, como o fenômeno muito novo de
"coordenações" que, se posso acreditar nos autores que leio, começa a
manifestar-se também na Alemanha e no Japão, entre os jovens trabalhadores
notavelmente, menos apegaram-se que seus maiores à ética tradicional do
trabalho. (Assim como as mudanças políticas na URSS, que já são anunciadas em
A China não está desvinculada do crescimento considerável da fração de
a população desses países que passou pelo ensino superior nem das
contradições que daí se derivam, e, em primeiro lugar, no seio do
campo de poder.

Pero seria necesario también examinar el lazo entre la nueva delincuencia


escolar, mais desenvolvida no Japão do que na França, e a lógica da
competencia frenética que domina la institución escolar, y sobre todo el efecto
de veredicto, ou de destino, que o sistema escolar exerce sobre os
adolescentes: com uma brutalidade psicológica sem atenuantes, a instituição
escolar impõe seus julgamentos totais e suas decisões sem nome, que classificam a
todos os alunos em uma hierarquia única das formas de excelência —
dominadas hoje em dia por uma disciplina, as matemáticas, e por uma instituição, a
Escola Nacional de Administração ou a Escola Politécnica. Os excluídos se
encontram condenados em nome de um critério reconhecido coletivamente e
aprovado, por conseguinte, psicologicamente indiscutível e indiscutido, o de
inteligência: de tal modo que não têm outro recurso para restaurar sua identidade
ameaçadas que rupturas brutais com a ordem escolar e a ordem social (tem ocorrido
observado que, na França, é nas revoltas contra a escola onde se
formam e se consolidam numerosas bandas de criminosos) ou, também, o
caso de crises psíquicas, seja como doenças mentais ou mesmo o
suicidio.

E seria necessário, enfim, analisar todos os disfuncionamentos técnicos que,


do ponto de vista do sistema, ou seja, do ponto de vista do
estrito desempenho técnico (na instituição escolar ou fora dela) resultam de
a primazia conferida às estratégias de reprodução social: citarei como
exemplo, o estatuto inferior que as famílias concedem, objetivamente, à
ensino técnico e o privilégio que dão ao ensino geral. É provável
que no Japão como na França, os grandes líderes, provenientes eles
mesmas das grandes universidades públicas no Japão ou das grandes
escolas na França pregam a revalorização de um ensino técnico
reduzida ao estado de refúgio ou de aterro (vítima, sobretudo no Japão, de
a competição do ensino de empresa), considerariam como uma
catástrofe a relegação de seus filhos a um ensino técnico. E a mesma
a contradição se encontra na ambivalência dos próprios líderes
a respeito de um sistema de ensino ao qual eles devem, se não a sua posição, ao
menos la autoridad y la legitimidad con la que la ocupan: como si quisieran
ter os benefícios técnicos da ação escolar sem assumir os custos sociais
—tais como as exigências associadas à posse de títulos que pudéssemos
chamar universais, em oposição àqueles títulos de “maison” concedidos por
as empresas - elas favorecem o ensino privado e sustentam ou promovem
todas as iniciativas políticas tendentes a reduzir a autonomia da instituição
escolar e a liberdade do corpo docente; manifestam a maior
ambiguidade no debate sobre a especialização do ensino, como se
gostariam de ter os benefícios de todas as eleições, os limites e as garantias
associadas a um ensino altamente especializado e a abertura e dispo-
nibilidade, favorecidas por uma ensinamento de cultura geral, apropriadas para
desenvolver as capacidades de adaptação adequadas para empregados móveis e
"flexíveis", ou ainda mais, as garantias e as seguranças que procuram os
senhoritos formados da ENA22o de Todai23gestores equilibrados de las
situações de equilíbrio, e os audazes “filhotes de lobo” fora de alcance, que
se supõem melhor adaptados em tempos de crise.

Mas, se você permitir, por uma vez, que um sociólogo faça previsões, é sem
dúvida na relação cada vez mais tensa entre a grande e a pequena nobreza
de estado, onde reside o princípio dos grandes conflitos do futuro: tudo
permite de fato supor que, diante dos egressos das grandes escolas
da França, das grandes universidades públicas do Japão, que tendem a cada
vez mais a monopolizar fortemente todas as grandes posições de poder, em
a banca, na indústria, na política, os detentores de títulos escolares de
segundo orden, pequenos samurais da cultura, estarão obrigados, sem dúvida, a
invocar, em suas lutas pela ampliação do grupo de poder, novas
justificações universalistas, como fizeram no século XVI na França, e
até o início da Revolução Francesa, os pequenos nobres
provincianos, ou no século XIX os pequenos samurais excluídos que lideraram a
revuelta, em nome da “liberdade e dos direitos civis”, contra a reforma
Meiji.

8. PREFÁCIO À REEDIÇÃO DA REPRODUÇÃO24

A posição de representante emblemático de um novo paradigma teórico que


los críticos, y en particular los más críticos y los más simplistas entre ellos25,
han atribuído à reprodução, deixando-se guiar pelo efeito de rótulo ou
a etiqueta exercida por ele título, teve como contrapartida uma extraordinária
simplificação das análises que lá se encontram expostas —em um
linguagem que, é preciso reconhecer, às vezes atinge graus supremos de
complexidade e dificuldade. A análise dos mecanismos extremamente
complexos através dos quais a instituição escolar contribui para reproduzir a
distribuição do capital cultural e, com isso, a estrutura do espaço social, tem sido
encontrado reduzido à tese simples segundo a qual o sistema escolar
reproduziria a estrutura social sem deformação nem transformação. Depois de
haverle feito sofrer uma tal mutilação, pode-se reprochar à teoria o que
seja incapaz de dar conta das mudanças ou de ignorar as resistências do
dominados...

22
Escola Nacional de Administração, uma das mais prestigiadas entre as grandes escolas da França.
23
Todai, uma das grandes universidades públicas do Japão.
24
Texto preparado para a última reedição desta obra, 1989.
25
Penso, por exemplo, na obra de Stanley Aronowitz e Henry A. Giroux, Educação sob cerco.
debate conservador, liberal e radical sobre a educação, Londres, Routledge e Kegan Paul, 1985 (o subtítulo
é em si mesmo, um pedido de princípio metodológico: anula de uma vez a pretensão dos trabalhos científicos
à taxonomia puramente política, e além disso, puramente anglo-saxônica...)

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