Você está na página 1de 13

Capítulo 9 – A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL DA CANA-DE-AÇUCAR

O combate aquecimento global entrou definitivamente na agenda de vários


governos nacionais e da comunidade internacional. Segundo a ONU, caso nada seja
feito, até 2030 as emissões de gases do efeito-estufa poderão ser 90% maiores que as
atuais; a concentração de carbono atmosférico, que hoje é de 379 ppm, pode atingir 710
ppm e a temperatura na Terra poderá aumentar 4ºC, causando impactos catastróficos
para a vida terrestre (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2007). A constatação de que o planeta
não está conseguindo pagar a conta da energia que faz o mundo girar deu início a uma
corrida pelo desenvolvimento de fontes energéticas renováveis e limpas. Sorte do Brasil,
que tem a cana-de-açúcar e seu etanol, e sorte do mundo, que o tem o Brasil e seu
etanol de cana-de-açúcar.
A última frase do parágrafo anterior pode fazer com que a saída para o imenso
problema que se configura pareça simples, mas não é. Os biocombustíveis não são a
solução para o problema do aquecimento global, mas com certeza são parte importante
dela. Para enxergar o potencial da contribuição do etanol brasileiro nesta luta, basta
analisar os efeitos de seus balanços, energético e de carbono, expostos neste capítulo,
nas emissões de gás carbônico da indústria, transportes e geração de energia. No
entanto, muitos se questionam se os modos com os quais os biocombustíveis são
produzidos realmente contribuem para o meio-ambiente, ou na verdade acabam
causando outros problemas.
Uma preocupação crescente na sociedade é aliar desenvolvimento econômico,
responsabilidade social e boas práticas ambientais. São essas as três dimensões que
formam o conceito de sustentabilidade, que cada vez mais molda o relacionamento
entre empresas, poder público, organizações não-governamentais e cidadãos.
Este capítulo tem como objetivo analisar de que forma a atividade canavieira
responde a essa pressão na dimensão ambiental. Para tanto, apresenta-se ao leitor
informações sobre as reais implicações da atividade no meio-ambiente e se procura
esclarecer como esta se encaixa nas premissas de sustentabilidade de um modelo
reconhecido por alguns dos principais foros internacionais de agronegócios, o PINS
(Projeto Integrado de Negócios Sustentáveis).
Além da análise das condições de sustentabilidade do PINS, foi essencial para a
formulação deste capítulo o estudo de obras de pesquisadores renomados como os
doutores Isaías Macedo, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Estratégico da
Unicamp; Laura Tetti, especialista da UNICA e Roberto Rodrigues, ex-ministro da
agricultura e atual presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp. Contribuiu
também a leitura de artigos de Suani Teixeira Coelho, secretária executiva da Cenbio;
Maria Aparecida Vicente Cano, do Jornal Cana; Aldo Roberto Ometto, João Alfredo de
C. Mangabeira e Marcos C. Hott, da Embrapa; e de Helena Ribeiro e João Vicente de
Assunção, da USP. Dados do Ministério do Meio-Ambiente e da UNICA também foram
utilizados.

1 – Cana-de-açúcar: uma cultura cada vez mais limpa

Atualmente, qualquer empresa que tenha uma visão de longo prazo e que
busque se tornar cada vez mais competitiva, não pode ignorar as premissas de
sustentabilidade. A vigília da sociedade pode ser expressa tanto nas escolhas do
consumidor (mecanismos de mercado) como em regulamentações promovidas pelas

 
instituições governamentais (legislação). Ademais, o que importa agora é não somente a
imagem do produto em si, mas sim se todos os processos dos sistemas de produção são
ambiental e socialmente corretos.
No caso das atividades agropecuárias, de modo geral, sua estreita relação com o
meio-ambiente faz com que as preocupações nesse âmbito tendam a se destacar,
resultando normalmente em arrocho da legislação ambiental e/ou de sua fiscalização. É
o que acontece com a cultura da cana-de-açúcar no Brasil. Soma-se a isso, a recente
perspectiva de expansão do mercado mundial de etanol, originada das metas de adição
à gasolina propostas por um número crescente de países.
Tal perspectiva tem sido acompanhada por preocupações compreensíveis, mas
também por algumas críticas incabíveis à produção de cana-de-açúcar do Brasil. De
qualquer forma, fica evidente a importância dos aspectos de sustentabilidade para o
desenvolvimento do mercado internacional de álcool combustível.
É isso que se tem no modelo PINS: uma visão sistêmica que engloba toda cadeia
agroindustrial (insumos, produção agrícola, industrialização e distribuição) em torno de
negócios sustentáveis. No escopo ambiental, as principais sugestões discutidas no modelo
são: (a) preocupação com preservação do meio-ambiente, (b) ecoeficiência através do
aproveitamento de subprodutos e (c) criação de certificações uniformes e amplamente
aceitas que garantam boas práticas ambientais. A partir de agora, pode-se notar como
tais considerações se encaixam na dinâmica atual da cadeia agroindustrial da cana-de-
açúcar.
Graças à atuação de diversas instituições de pesquisa, a cadeia agroindustrial da
cana-de-açúcar tem desenvolvido processos e tecnologias cada vez mais eficientes e
menos prejudiciais ao meio-ambiente, seja na frente agrícola ou na indústria. Algumas
dessas instituições são privadas, como o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), a Allelyx
e a Canavialis; enquanto outras são públicas, como IAC (Instituto Agronômico de
Campinas), a Embrapa, a USP (onde se localiza a ESALQ), a UNESP e diversos outros
Institutos e Universidades.
Como explica Macedo (2006), algumas dessas contribuições começaram ainda
no final do século XIX com a introdução de variedades de cana mais propícias às
condições naturais do Brasil, se estendendo, ao longo do tempo, com o desenvolvimento
de outras melhorias nas operações e no gerenciamento técnico tanto das lavouras
quanto das indústrias. Vale destacar a introdução de controles biológicos, a utilização de
subprodutos e resíduos e a mecanização da colheita. Em conjunto, tais inovações
resultam não somente no aumento da produtividade, mas também na redução
significativa na demanda por insumos e na conservação do solo, dentre outras melhorias.
Entre o início do Pró-Álcool, em 1975, e o ano de 2000, a produtividade dos
canaviais brasileiros aumentou 33% em média, a porcentagem de açúcar na cana
aumentou em 8%, a eficiência da conversão dos açúcares da cana em etanol subiu 14%
e a produtividade do processo de fermentação aumentou 130% (MACEDO, 2006). Tudo
isso implica em maior aproveitamento do solo e menor pressão ambiental.
Quanto ao uso da terra, Tetti (2007) nos lembra que a cultura da cana é uma das
atividades agrícolas que apresenta os menores índices de erosão de solo e de uso de
defensivos e insumos químicos do mundo. A seguir, o Gráfico 1 mostra a quantidade de
fertilizantes utilizada pelas principais culturas no Brasil.

 
3,0

2,5

2,0

1,5

1,0

0,5

0,0
Algodão
Fumo

Feijão
Batata

tomate

Café

Cana

Soja

Banana

Milho

Sorgo
Laranja

Arroz
Trigo
Gráfico 1 - Demanda* por fertilizantes pelas principais culturas (em tonelada de cana)
Fonte: Elaborado pela UNICA (2007) a partir do cálculo entre a estimativa de consumo de
fertilizantes dividida pela área plantada. Dados do Anuário Estatístico do Setor de Fertilizantes (2006)
e da Associação Nacional para Difusão de Adubos (2007).

Pode-se verificar que a cana-de-açúcar utiliza menos fertilizantes que culturas


tradicionais no Brasil como o café, a laranja e o algodão. Quando comparada com a
batata, um dos alimentos mais consumidos no mundo, a cana utiliza uma quantidade 6
vezes menor de fertilizantes por hectare. Uma das maiores contribuições para a baixa
demanda de fertilizantes na cultura da cana é a prática da fertirrigação com a vinhaça,
um efluente orgânico que até pouco tempo era descartado após o processamento da
cana nas usinas, gerando emissões de efluentes nos rios e lagos. Como lembra Susani
Teixeira Coelho, 2007), secretária executiva do Cenbio (Centro Nacional de Referência
em Biomassa), para que não haja danos a lençóis freáticos e cursos d’água, as
aplicações devem ser inferiores a 300m³/ha e respeitar os parâmetros técnicos
estabelecidos pela Cetesb.
Outro fator importante é a rotação de cultura, uma prática cada vez mais comum
entre os produtores. Ao fim de cada ciclo da cana (quando novas mudas devem ser
plantadas), plantam-se leguminosas que fixam nitrogênio no solo, substituindo parte da
adubação química. As culturas mais utilizadas para rotação são a soja, o amendoim e o
feijão, pois além de auxiliarem na nitrogenização do solo encontram grande demanda
por parte da indústria de alimentos. Portanto, a rotação não beneficia somente o
produtor. Estima-se que, com a rotação de cultura, entre 15 e 20% das terras utilizadas
para a produção de cana estejam, na verdade, produzindo alimentos. Considerando que
o avanço atual da cultura ocupa, majoritariamente, terras até então subutilizadas pela
pecuária extensiva, a expansão da cana apresenta, em muitos casos, o potencial para
ampliar a produção de alimentos.
A rotação é também um dos motivos pelos quais a cana se encontra dentre as
culturas que menos utilizam defensivos, pois reduz a infestação de ervas daninhas. O uso
de defensivos químicos é uma das maiores ameaças da atividade agrícola para a fauna,
flora e recursos hídricos. Embora utilize herbicidas, a cultura da cana se destaca pelo
eficiente controle biológico de suas principais pragas como a broca-da-cana e a
cigarrinha-da-raiz, reduzindo consideravelmente o uso de pesticidas e abolindo o uso de

 
fungicidas (CANO, 2005). O Gráfico 2 compara a utilização de defensivos pelas principais
culturas.

70
60
50
40
30
20
10
0
Uva
Algodão

Alho

Amendoim
Batata

Cebola

Banana

Soja

Café

Cana

Fumo
Milho
Tomate

Arroz
Maçã

Laranja

Trigo
Gráfico 2 - Demanda por defensivos pelas principais culturas (em Kg de ingrediente ativo por
hectare)
Fonte: Elaborado pela UNICA (2007) com base dados do Sindag (2007) e do IBGE (2007), dividindo o
consumo estimado de defensivos pela área plantada.

Uma das maiores críticas à cana-de-açúcar é quanto às queimadas que


antecedem o corte e visam facilitar o trabalho do cortador. Esta é uma prática real,
porém cada vez menos recorrente e que tende a se extinguir ainda em um futuro
próximo. Ademais, os reais efeitos da queimada no meio-ambiente e na saúde humana
são comumente exacerbados nas palavras de críticos extremistas que tentam transformar
hipóteses simplistas em realidade.
Primeiramente, muitos apontam que as queimadas contribuem para o
aquecimento global, mas se esquecem que todo o gás carbônico emitido, tanto na
queima quanto na combustão do álcool, é reabsorvido pela cana em crescimento,
reduzindo de forma significativa tal impacto (OMETTO, MANGABEIRA & HOTT, 2005).
Os impactos no solo também costumam ser destorcidos. Prova disso é a baixa
demanda por fertilizantes e a comprovação de que a cana, por ser uma cultura
semiperene, gera baixas perdas de solo. As perdas nas lavouras de cana representam
apenas 32% daquelas evidenciadas nas lavouras de feijão, 49% das de arroz e 62% das de
soja (DONZELLI, 2005).
Já os resultados dos poucos trabalhos que ligam a queimada da cana-de-açúcar
ao aumento de doenças respiratórias na população são inconclusivos. Ao se apoiarem
no aumento de visitas hospitalares por condições respiratórias nas regiões produtoras
durante os meses da queima da cana, falham em estabelecer nexo causal, já que a
colheita acontece durante os meses mais frios e secos (no inverno), quando todos estão
mais propensos a apresentar problemas respiratórios, seja em regiões produtoras de cana
ou não (RIBEIRO & ASSUNÇÃO, 2002). De qualquer forma, é fato que as queimadas das
lavouras de cana emitem gases tóxicos potencialmente nocivos à saúde humana e ao

 
meio-ambiente, e o combate à prática parte tanto de dentro do País quanto de fora
dele.
O Decreto Federal nº 2.661, de 8/7/98 estabelece a eliminação gradativa da
queimada da cana-de-açúcar no Brasil, mas existem também normas estaduais e
municipais. Os Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e São Paulo apresentam leis
que estipulam o fim gradual da prática, enquanto outros as permitem, porém de forma
controlada (MORAES, 2007).
Em São Paulo, Estado onde cerca 65% da cana brasileira é produzida, encontram-
se também as maiores restrições à queima. Desde setembro de 2002, a Lei Estadual nº
11.241 estabelece que a prática deve ser banida até 2021 em áreas consideradas
mecanizáveis (declividade abaixo de 12%) e até 2031 em áreas não-mecanizáveis.
Contudo, o fim das queimadas deve chegar ainda antes no Estado.
Em 2007, a UNICA e o governo estadual firmaram o Protocolo Agroambiental,
segundo o qual a indústria sucroalcooleira paulista se compromete em abolir totalmente
o uso do fogo nos canaviais até 2017. O Protocolo já foi aderido voluntariamente por 141
das 170 usinas de São Paulo e pelos 13 mil fornecedores independentes vinculados à
Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana). Segundo
o secretário do meio-ambiente do Estado de São Paulo, Franccisco Graziano Neto (2007),
até 2014, quando estarão proibidas as queimada em todas as áreas mecanizáveis, o
Estado terá 7 milhões de hectares plantados, dos quais apenas 440 mil deverão ser
colhidos manualmente.
Além de estipular redução no prazo para proibição da queima, o acordo entre
governo e produtores prevê a proteção das matas ciliares e recuperação daquelas ao
redor de nascentes; a formulação de planos técnicos de conservação do solo e dos
recursos hídricos; a aplicação de medidas de redução de emissões atmosféricas; e a não
utilização da queima nas novas áreas de expansão (JANK, 2008).
A colheita de cana crua, efetuada com o uso de colhedoras mecânicas, cresce
ano após ano no Brasil. Além de aplacar as emissões geradas pela queimada, o processo
de colheita mecanizada deixa para trás uma cobertura de folhas, o que contribui ainda
mais para as baixas perdas de solo e coíbe o crescimento de ervas daninhas, diminuindo
o uso de herbicidas. O Gráfico 3 mostra a evolução da mecanização da colheita no
Estado de São Paulo e na Região Centro-Sul.

 
45%
41,0%
40% São Paulo
Centro-Sul 33,5% 34,0%
35%

30% 27,5% 28,1% 27,2%


25,9%
25% 22,3% 22,6%
21,3%
20%

15%

10%

5%

0%

2003 2004 2005 2006 2007*


Gráfico 3 - Evolução da colheita de cana crua.
*Área colhida até o mês de setembro.
Fonte: Elaborado pela UNICA (2007) com dados do CTC

Uma das maiores, senão a maior preocupação atualmente é que os


biocombustíveis não contribuam para o avanço do desmatamento, principalmente de
florestas tropicais. O álcool brasileiro tem sofrido muitas críticas que o ligam ao
desmatamento da Amazônia. Trata-se de colocações infundadas, que ignoram
completamente a geografia brasileira. Pode-se ver na Figura 1 que as grandes regiões
produtoras do País se encontram de 2.000 a 2.500 km de distância da Amazônia, existindo
apenas algumas poucas manchas de plantações isoladas, na região central do Estado
do Mato Grosso, que se aproximam da floresta.

Figura 1 - Distribuição das plantações de cana no Brasil.


Fonte: Elaborado pela UNICA (2008) com base em NIPE-UNICAMP, IBGE e CTC

A cultura avança, sobretudo, em terras degradas de pastagem dos Estados de


São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás. Assim como aconteceu no período
do Pró-Álcool, a nova onda do álcool combustível pode ser sentida principalmente em
São Paulo. Segundo um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Economia

 
Agrícola (CAMARGO et al, 2008), entre 2001 e 2006 a área plantada com cana-de-
açúcar no Estado cresceu 37,43%. Tal avanço cobriu 67% dos 1,45 milhões de hectares
cedidos por outras atividades naquele período, pelos quais a pecuária responde por 75%.
Ou seja, enquanto a área de cana cresceu 965 mil hectares, as pastagens regrediram
mais de 1,07 milhões de hectares.
É importante lembrar que os avanços não se restringem à produção rural. A
indústria sucroalcooleira do Brasil é, na verdade, um modelo de sustentabilidade.
Primeiramente, toda unidade de fabricação de açúcar e álcool deve ter seu projeto
aprovado pela Secretaria Estadual do Meio-Ambiente e pelo Conselho Estadual do Meio-
Ambiente antes do início de sua construção. Uma vez em funcionamento, após a primeira
moagem, quando já possuem uma quantidade de bagaço suficiente para alimentar suas
caldeiras, as usinas brasileiras se tornam unidades industriais auto-suficientes em energia
elétrica. Com a constante evolução das caldeiras, o processo de geração de
eletricidade através da queima do bagaço, gera emissões menores de poluentes, em
comparação com substitutos próximos (gás natural, óleo combustível, carvão vegetal ou
lenha), lembrando sempre que boa parte destes poluentes é reabsorvida pelas lavouras
de cana em desenvolvimento.
Outra questão constantemente beneficiada pelo desenvolvimento tecnológico é
o uso dos recursos hídricos. Com alto nível de reuso da água, de 21m³/t de cana, a
eficiência de tratamento atingindo 98% e o desenvolvimento de processos de lavagem a
seco, a utilização média atual de 1,8 metro cúbico de água para lavar 1 tonelada de
cana representa uma grande redução frente aos mais de 5,6m³ por tonelada utilizados
pelas usinas há menos de uma década. Segundo André Elia Neto, especialista do CTC e
um dos responsáveis pelos dados anteriores, já há usinas que trabalham com menos de 1
metro cúbico por tonelada. O avanço da colheita mecânica contribui ainda mais para a
economia de água por facilitar a limpeza da cana. Ademais, a própria água usada nesse
processo é reutilizada na adubação das lavouras, juntamente com a vinhaça e a torta de
filtro. De qualquer forma, a água utilizada no processo industrial provém da própria cana
e fica retida em um ciclo fechado(COELHO, 2007; UNICA, 2008; VALOR, 05/06/2007).

2 – O balanço de emissões de GEE na cana-de-açúcar

De acordo com projeções feitas pelo WBCSD (2004), de 2002 a 2030, o setor de
transportes deve aumentar a sua participação na demanda de derivados de petróleo de
56% para 62%, em função do forte crescimento no consumo (60%, ou 2,1% ao ano). Logo,
a predominância do uso dos combustíveis fósseis como fonte de energia para setor de
transportes deve se manter, apesar da presença dos renováveis e dos menos intensivos
em carbono (LPG, Etanol, Biodiesel e Hidrogênio).
Na América do Norte, a gasolina representa mais de 50% da demanda total de
energia pelo setor de transportes, enquanto que o diesel representa um pouco mais de
20%. Na Europa Ocidental, a situação muda um pouco, onde tanto a gasolina quanto o
diesel representam cada um 37,5% da demanda energética dos transportes. Na Ásia, há
uma predominância do consumo de gasolina (45%). Portanto, os mercados americano e
asiático aparecem como os mais promissores para o etanol brasileiro (WBCSD, 2002).
Nesse contexto, os veículos leves e os caminhões representavam mais de 60% do
consumo de energia do setor de transportes em 2002. Somente os veículos leves
particulares representavam 50% (WBCSD, 2004). Melhorias na renda da população
geralmente geram aumento da frota de veículos.

 
Portanto, dentre as possibilidades tecnológicas de redução no consumo de
energia e, conseqüente, nas emissões de GEE (Gases do Efeito Estufa), pode-se citar a
redução do peso dos veículos (materiais mais leves, melhoria da aerodinâmica), melhoria
da eficiência dos motores (injeção direta, veículos híbridos) e maior uso de combustíveis
alternativos (biocombustíveis, gás natural, hidrogênio/ célula de combustível e baterias).
O biocombustível aparece como a melhor opção para que o setor de transportes dê a
sua contribuição para mitigação das emissões GEE.
Dado essa radiografia, é necessário ao setor automobilístico continuar investindo
em pesquisa e desenvolvimento e associar a imagem do veículo limpo como seguro e
como uma solução de baixo custo. Dois casos são exemplos do esforço na área: o carro
híbrido (um carro que combina um motor a gasolina com uma bateria elétrica) e o carro
bi-combustível ou flex-fuel (com um motor que pode ser abastecido com gasolina, etanol,
ou uma mistura de ambos). Nesse sentido, não há nenhuma forma de competição entre
as duas tecnológicas, devendo ser esforços complementares na busca da redução da
emissões de GEE.
O estudo da World Watch Institute (WWI, 2006) apresenta o balanço energético
(energia contida no combustível / energia fóssil utilizada para produzi-lo) positivo dos
biocombustíveis e as diferenças entre matérias primas para o etanol: milho (1,4), cana de
açúcar (8,3), Trigo e Beterraba (2). A mesma analise também é feita para biodiesel: óleo
de palma (9), sobras de óleos vegetais (5,5), Soja (3) e Colza (2,5). Roberto Rodrigues
ressalta que a indústria de cana não utiliza energia fóssil no processo de produção
industrial do etanol, apenas bagaço. Isso garante maior sustentabilidade no processo,
reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.
Um estudo do International Energy Agency (IEA, 2004a) sinaliza que o etanol de
cana brasileiro é bastante eficaz na mitigação de emissões de GEE. Em termos da
redução das emissões de CO2 por km rodado com álcool, em substituição à gasolina, o
etanol de cana (Brasil) contribui com 85%, enquanto o etanol de grãos (EUA e UE)
contribui com 30% e o etanol de beterraba (UE) 45%. O etanol celulósico contribui com
105%, o mais alto nível de redução das emissões de CO2. Por outro lado, em termos de
custo da redução de CO2 (US$/ton CO2), o etanol de cana (Brasil) é o mais barato
(menos de US$ 40) quando comparado ao etanol de milho (mais de US$ 450) e o etanol
de grãos (mais de US$ 600) e de beterraba (US$ 300) da UE.
Laura Tetti, especialista em sustentabilidade da UNICA, aponta que cada tonelada
de cana absorve 0,18 tonelada de CO2 (etapas agrícola e industrial). Se o Brasil produz
aproximadamente 20 bilhões de litros/ano (de etanol), então o consumo de etanol no
país mitiga mais de 40% do total das emissões provenientes do uso de combustíveis fósseis.
Segundo a terceira parte do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas) (apud O Estado de São Paulo, 2007), o setor de transportes é
responsável por 13,1% das emissões mundiais de dióxido de carbono equivalente, isto é, a
quanto corresponde a soma de todos os gases do efeito estufa em quantidade CO2.
Contudo, a fabricação de etanol de cana-de-açúcar, seja no Brasil ou em qualquer outro
país que o produz ou venha a produzi-lo, contribui para a redução das emissões também
em outros setores, como a indústria e a geração e energia.
As usinas de álcool são unidades industriais auto-suficientes em energia, pois
utilizam o bagaço para a geração de bioenergia1. Assim, elas deixam de consumir
energia de fontes não renováveis e todo CO2 emitido na queima do bagaço é
reabsorvido pela cana em crescimento. Ademais, a indústria sucroalcooleira produz
excedentes dessa bioenergia que podem ser comercializados nas redes elétricas. O

1
Ver capítulo sobre bioeletricidade.

 
Gráfico 4 mostra a contribuição de cada setor para as emissões de dióxido de carbono
equivalente.

14
G ig atoneladas  de  Dióxido de C arbono equivalente

12,2
12

10 9,5
8,5
25%
8
19% 6,6 6,4
6 17%
13% 13% 3,9
4

2 8% 1,3

3%
0
G eraç ão de Indús tria F lores tas S etor Trans ns portes C ons truç ão R ejeitos
E nergia A gropec uário s ólidos  e
L íquidos

Gráfico 4 - Emissões de dióxido de carbono equivalente por setor.


Fonte: O Estado de São Paulo (2007) com base no terceiro relatório do IPCC (Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas).

3 – Créditos de Carbono

Os créditos de carbono fazem parte do chamado Mecanismo de


Desenvolvimento Limpo (MDL), criado pelo artigo 12 do Protocolo de Quioto, o qual divide
os países signatários em dois grupos. O primeiro é formado por países desenvolvidos e
industrializados, listados no anexo I do Protocolo, que têm um passivo de emissões; o
segundo engloba as economias em desenvolvimento, como o Brasil, que têm um ativo.
Na prática, o MDL permite a transação do crédito contra o passivo.
Dessa forma, uma usina de açúcar e álcool que gera energia através do processo
de cogeração com bagaço de cana-de-açúcar, pode solicitar à conferência das partes
(órgão soberano dos Estados signatários) a emissão de uma RCE, ou Reduções
Certificadas de Emissão, que na mais é do que um título que expressa a quantidade de
dióxido de carbono que deixou de ser emitida por aquela atividade. A usina, então, pode
negociar sua RCE com um país daquele primeiro grupo, presente no anexo I, que deseja
creditar para si as reduções expressas no documento. Assim, a compra e venda de
créditos de carbono auxilia os países desenvolvidos a alcançar as metas de redução
acordadas no Protocolo ao passo que financiam atividades de projeto certificadas em
países que estão se desenvolvendo.
Segundo últimos dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil tem,
atualmente, 134 projetos, o que corresponde a 12% do total de projetos em atividade no
mundo. Já a Índia conta com 339 e a China, 214. De acordo com o BNDES, o Brasil tem

 
potencial para movimentar US$ 1,2 bilhão em créditos de carbono até 2012. Em 2006,
foram negociados no mundo US$ 5 bilhões neste tipo de transação.

4 – Tendências

Um dos maiores avanços em termos ambientais que se vislumbra para o setor


sucroalcooleiro, ao menos em curto prazo, é o fim das queimadas da cana. Além do fator
legal, o rápido desenvolvimento tecnológico das colhedoras e de variedades mais
adequadas à colheita mecânica torna a mecanização mais competitiva do que o corte
manual - de cana queimada. Alguns estudos mostram que a economia gira em torno de
30% (CAMARGO, 2007). Portanto, pode-se seguramente dizer que as queimadas de cana-
de-açúcar logo serão algo do passado.
A fiscalização das leis também tem implicado em um respeito crescente às
regulamentações sobre as chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs), como
nascentes e margens de cursos d’água e encostas de morros, e as Reservas Legais.
Contudo, não são somente as leis que têm impulsionado mudanças nas práticas
ambientais. A sustentabilidade ambiental da atividade sucroalcooleira tem sido cada vez
mais exigida pela sociedade civil. Tanto a mecanização da colheita quanto a aplicação
das leis ambientais resultam também da perspectiva do crescimento do mercado
internacional de etanol, assim como as possíveis restrições a este crescimento.
A opinião pública internacional tem se preocupado cada vez mais com os
potenciais impactos negativos da fabricação dos biocombustíveis e a produção
sustentável vem sendo cada vez mais considerada como um possível pré-requisito para o
acesso a mercados consumidores. Alguns governos nacionais, organizações
internacionais, ONGs e mesmo empresas do setor privado têm estudado processos de
certificação que utilizem critérios de sustentabilidade e indicadores que permitam avaliar
a aplicação desses critérios.
O processo de certificação passa pela definição de critérios de sustentabilidade
que atendam aos propósitos ambientais, sociais e econômicos; cria indicadores claros e
precisos que permitam quantificar os benefícios a serem alcançados; define uma
metodologia economicamente viável e organiza estruturas e processos para regular e
gerenciar a certificação internacional de biocombustíveis (Mattews, 2008).
Os principais critérios já desenvolvidos se referem ao balanço energético e de GEE,
à proteção da biodiversidade, à competição com a produção de alimentos, ao
leakage2, ao bem-estar econômico e às questões sociais e ambientais. Quanto à
estrutura operacional, a grande maioria dos processos opta por sistemas de rastreamento,
sendo que a principal diferença entre esses é notada nas ferramentas de verificação e na
relação com as políticas nacionais – enquanto alguns são, ou deverão ser,
regulamentados por lei, outros preferem a adoção voluntária (Van Dam et al., 2006).
A adoção de um sistema de certificação pode beneficiar todos os agentes
envolvidos na produção dos biocombustíveis. Para os trabalhadores rurais, a certificação
representa um apoio às boas condições de trabalho; para os produtores de matéria-
prima, uma ferramenta de diferenciação que garante vantagens no acesso a mercados
e provê informações para otimização do processo produtivo; para a indústria e o
comércio, uma garantia de controle da origem e da qualidade; para os consumidores, a
certeza de que o produto é fruto de boas práticas econômicas, sociais e ambientais; e,

2
O termo leakage (vazamento) se refere à variação líquida das emissões de GEE que ocorre fora dos limites dos
projetos (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2002).

 
para os governos nacionais, um instrumento de promoção de manejo e consumo que
levam ao desenvolvimento econômico sustentável.
Embora existam diferenças entre as diversas iniciativas, em linhas gerais a idéia é
que os países importadores venham a permitir a entrada somente de biocombustíveis que
comprovarem ser produto de boas práticas econômicas, sociais e ambientais. Os
discursos mais incisivos quanto à exigência de um certificado sócio-ambiental partem de
alguns dos mais fortes formadores de opinião no cenário internacional, como a União
Européia e ONU, e seu respaldo pode ser claramente evidenciado no planejamento
estratégico dos mais importantes grupos do setor, em especial os exportadores.
Para os produtores brasileiros, um sistema de certificação universal pode significar
vantagens ainda maiores frente à competição internacional, uma vez que o balanço das
emissões de gases do efeito estufa é um dos critérios mais apontados nos projetos
atualmente em andamento.
Portanto, no que se refere às possíveis regras acerca do uso da terra e do trabalho
rural, a adequação aos critérios de um processo de certificação pode ser uma chance
para que o etanol brasileiro afirme a imagem de sustentável frente àqueles que ainda o
têm como produto da exploração subumana dos cortadores e como causa do
desmatamento predatório – principalmente da floresta amazônica.

5 – Conclusões

É preciso que ações concretas contra o aquecimento global sejam tomadas com
urgência para que as gerações futuras possam desfrutar de uma boa qualidade de vida.
As emissões de GEE provenientes da utilização de combustíveis fósseis é,
comprovadamente, uma das frentes que devem ser atacadas. Os governos devem,
portanto, trabalhar para criar as condições favoráveis ao desenvolvimento e uso de
tecnologias alternativas aos combustíveis fósseis. Ao menos atualmente, a possibilidade
mais plausível de reduções significativas nas emissões é apresentada pelos
biocombustíveis. Não se pode deixar que os interesses financeiros de determinados
setores, ou que os objetivos políticos de um grupo de países, obstruam o caminho do
desenvolvimento sustentável, como argumenta Orgunlade Davidson, coordenador do
Grupo de Trabalho 3 do IPCC (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2007).
Uma coisa é certa: não será a escassez de recursos naturais que impedirá os
biocombustíveis brasileiros de suprir boa parte da demanda energética do planeta. Nosso
País disponibiliza das quantidades necessárias de luz solar, água e terras para se tornar a
“Arábia Saudita dos biocombustíveis” e, de forma sustentável, contribuir para um meio-
ambiente mais saudável para as gerações futuras.
Com uma área total de 850 milhões de hectares, o Brasil é o quinto maior país em
extensão territorial do globo, mas é a disponibilidade de terras aráveis que nos torna único
no mundo. Somos os únicos a possuir uma área tão extensa quanto os 340 milhões de
hectares aráveis que nos restam quando desconsideramos, dentre outras, as áreas
cobertas por cidades, estradas, rios, lagos, a Amazônia, o Pantanal entre outras áreas de
conservação, dos quais apenas 18,6% são utilizados na agricultura. A Tabela 1 sintetiza a
disponibilidade de terras no País.

 
Tabela 1 - Disponibilidade de terras agricultáveis no Brasil.
Milhões de % da área % da terra
hectares total agricultável
Brasil 850 100
Áreas inutilizáveis ou de preservação 510 60
Área agricultável total 340 40 100
Área cultivada 63,1 7,4 18,6
Soja 20,6 2,4 6,1
Milho 14 1,6 4,1
Cana-de-açúcar 7,8 0,9 2,3
Cana para álcool 3,4 0,4 1,0
Pastagens 200 23,5 58,8
Área disponível 77 9,1 22,6
Fonte: Elaborado pelo ICONE e UNICA com base em IBGE, Conab e UNICA.

Como pode-se notar, a fabricação de álcool ocupa apenas 1% de toda terra


arável no Brasil. Considerando a cana plantada para todas as finalidades, sua área é
quase 3 vezes menor que a área ocupada atualmente pela soja e a metade da terra
plantada com milho.
Segundo Caio Carvalho, diretor da Consultoria Canaplan, para que todos os
países, exceto os da OCDE, misturem 10% de álcool à sua gasolina, seriam necessários
32,7 bilhões de litros. Para que tal volume seja produzido, o Brasil necessitaria de uma área
de 5,6 milhões de hectares. Já para produzir os 84 bilhões de litros que a adição de 10% à
gasolina dos países da OCDE demandaria, seriam necessários 14,4 milhões de hectares.
No total, o Brasil precisaria, nas bases atuais, de uma área de cana-de-açúcar igual
àquela utilizada hoje pela soja, para poder suprir os carros à gasolina com uma mistura de
10% de álcool. Isso sem que haja nenhuma grande evolução tecnológica, como promete
o etanol de segunda geração, obtido da hidrólise da celulose.
O que cabe ao País é assegurar que o avanço da cultura se dê de forma
sustentável. Para tanto, devemos nos atentar aos mais de 200 milhões de hectares
destinados à pecuária extensiva. Na verdade, essa atividade, que hoje infelizmente se
encontra entre as mais degradantes, já é a que mais cede espaço para a cana. Para
que a produção de carne não seja comprometida, ou para que o gado não avance
sobre áreas de floresta como a Amazônia, é preciso que se invista mais em tecnologia e
em técnicas mais eficientes de manejo, como o confinamento e o semiconfinamento,
onde o próprio bagaço da cana pode servir na alimentação dos animais. Nastari (2008)
lembra que tal padrão já pode ser visto, em certo grau, no Estado de São Paulo, onde a
taxa de ocupação da pecuária é de 1,2 cabeça por hectare, ao passo que a média
nacional é de 0,8 cabeça/ha. Em termos mundiais, o cultivo de biomassa para
biocombustíveis ocupa apenas 0,025 bilhão dos 13,2 bilhões de hectares de terras, dos
quais ainda 1,5 bilhão são utilizados pela agricultura e 3,5 bilhões pela pecuária.
O grande desafio é utilizar a terra disponível de forma inteligente e sustentável.
Para agosto de 2008, é esperada a divulgação do zoneamento do território brasileiro
promovido pelo Ministério da Agricultura e pelo Ministério do Meio-Ambiente, que
apontará onde será permitido o plantio de cana-de-açúcar e àquelas onde a cultura
será proibida. O zoneamento deverá incentivar a manutenção do avanço sobre áreas
degradadas de pastagem onde seja possível a colheita mecanizada e evitar que o

 
desenvolvimento do setor ameace reservas indígenas, florestas tropicais, pantanais e
outras regiões de preservação do meio-ambiente.
Manter boas práticas ambientais nem sempre é barato e as exigências impostas
pela legislação e pelo mercado acabam, por vezes, excluindo aqueles produtores
menores, menos capitalizados. Nesse sentido, o PINS surge como uma grande
oportunidade para que a produção de cana-de-açúcar não se centralize nas mãos dos
grandes grupos do setor. Seu modelo de integração sustentável poderia viabilizar, por
exemplo, a introdução da colheita mecanizada ou a recuperação de matas ciliares em
propriedades que normalmente não poderiam arcar com os custos de tais práticas.