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Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Departamento de História

Análise de fonte primária

São Paulo

2012

Análise de fonte primária

Aluna: Graziela Lojor de Araujo Nº USP: 8031034.

Análise de fonte primária para a disciplina História da América Colonial do curso de graduação em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Horácio Gutiérrez.

São Paulo

2012

1. Análise do documento

Documento 53. Acordo dos Prelados do III Concílio Provincial de Lima sobre a aprovação do catecismo anexado para todas as Dioceses Sufragâneas. Lima, 3.7.1583 1

Pela análise realizada, este documento (um acordo eclesiástico) indica ser uma tentativa de uniformidade da doutrina cristã ensinada para os indígenas pertencentes às dioceses de Lima. Por meio deste acordo, seria necessário ter uma coerência, na medida do possível, nos assuntos abordados para catequização dos índios nas paróquias. Ele foi assinado pelos participantes do III Concílio Provincial de Lima: “arcebispo Dom Toríbio Alfonso Mogrovejo, o bispo da Imperial do Chile Dom frei Antônio de San Miguel, o bispo de Cuzco Doutor Dom Sebastião de Lartaum, o bispo de Santiago do Chile Dom Frei Diego de Medellín, o bispo de Tucumán Dom frei Francisco de Vitória, o bispo dos Charcas Dom Alonso Granero de Avalos e o bispo do Rio da Prata Dom Frei Alonso Guerra” para posteriormente ser encaminhado aos sínodos provinciais – onde os párocos e outros padres em assembléia, seriam orientados sobre o catecismo aprovado para utilização no dia a dia da catequese indígena. Na parte referente ao catecismo mencionado aparecem tópicos relacionados ao conjunto de princípios que servem de base para a catequese cristã, como as preces, os mandamentos, os sacramentos, além de uma divisão entre um “catecismo breve para os rudes e ocupados” e um outro catecismo mais detalhado para “os que são capazes e para que os rapazes aprendam na escola”. O que evidência a possível existência de vários níveis de assimilação da doutrina cristã entre os indígenas em processo de catequização. Outra questão que vale a pena mencionar é a provável ocorrência de muitos problemas quanto à uniformidade dos preceitos da doutrina cristã praticada nos inúmeros pontos de catequização espalhados pelas províncias, pois este assunto ganhou importância (e até o acordo mencionado) no III Concílio provincial de 1583 em Lima que teve representantes de dioceses de várias províncias da América espanhola.

1 Suess, Paulo. A conquista espiritual da América espanhola: 200 documentos, século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992. (p.346-365)

2. Contextualização

“Os conquistadores pisaram num mundo desconhecido. A expansão territorial significou a descoberta de sociedades complexas, organizadas de acordo com sistemas totalmente estranhos aos da Europa. Além disso, suas estruturas religiosas estavam funcionalmente enraizadas na vida dessas sociedades. Somente depois que o horizonte geográfico e humano se descortinara de forma tão esmagadora é que a Igreja percebeu a dimensão da tarefa de evangelização que agora se exigia dela no Novo Mundo.” 2 Sobre a missão evangelizadora na América espanhola: “costuma-se afirmar que a

reforma tridentina não teve influência na América, porque a Igreja das Índias não participou das decisões. Trata-se de uma conclusão demasiado formalista. Recentemente, revelou-se possível apontar uma série de aspectos do catolicismo na América nos quais o Concílio de Trento desempenhou um papel que, direta ou indiretamente, viria a mostrar-se decisivo. Embora não se possa apontar nenhum cânon adotado no Concílio que tenha sido dirigido especificamente para as condições americanas, o espírito de Trento é observável em muitas

das formas assumidas pela Igreja que então se organizava na América espanhola.” 3 e “( Concílio de Trento deve receber o crédito de uma tradição conciliar e sinodal que se

desenvolveu na América. Onze concílios provinciais foram celebrados no continente entre

O número de sínodos diocesanos

) o

1551 e 1629, a maioria em Lima e Cidade do México. (

)

realizados foi até maior: há indicações de que apenas em 1555 e 1631, foram convocados mais de 25 deles. A importância dos sínodos é ao mesmo tempo maior e menor que a dos concílios. Menor porque geralmente se destinavam à aplicação da legislação decidida ao nível provincial correspondente. Maior porque tomaram decisões que se aplicavam a uma área específica, e porque deles participavam uma parcela expressiva do clero responsável pela implementação das decisões.” 4

2 Bethell, Leslie (org.). “A Igreja Católica na América espanhola colonial”. In: História da América Latina – v.1. São Paulo: Edusp, 1997.

(p.524)

3 idem (p.526)

4 idem (p.527)

A realização do III Concílio Provincial de Lima teve influência do Concílio de Trento (1545-1563) realizado na Europa, como exemplifica o documento analisado, abordando a questão doutrinária cristã. “Há muito os historiadores manifestam a tendência de atribuir mais importância à obra disciplinar do concílio (de Trento) do que à doutrinária. Talvez porque esta foi imediatamente e sem dificuldade admitida na Igreja católica, ao passo que a obra disciplinar levou mais de um século para ser traduzida em fatos. Essa posição, de qualquer forma, tem sido revista ultimamente, porque as evoluções observadas no catolicismo com e após o concílio Vaticano II (1869-1870), bem como a corrente ecumênica, fizeram aparecer com mais clareza o alcance e o caráter historicamente datado das opções dogmáticas feitas em Trento”. 5

5 Alberigo, Giuseppe (org.). “O Concílio Lateranense V e o Tridentino”. In: História dos concílios ecumênicos. São Paulo: Paulus,

1995.(p.340)

3. A quem se destina?

O documento aparenta ter dois “públicos” distintos: os eclesiásticos e os indígenas das dioceses da América espanhola, ou pelo menos das dioceses e províncias representadas no concílio no qual foi aprovado, conforme citado acima. A parte que cabe aos eclesiásticos seria a explicação do acordo e sua função, inclusive a parte referente ao decreto aprovado sobre o catecismo modelo. Para os indígenas fica a parte referente à doutrina cristã com as preces, mandamentos, entre outros preceitos a serem seguidos. São escritos, sobretudo em 1ª pessoal do singular e/ou do plural, como forma modelo para ser decorado, o que pode expressar o caráter impositivo da catequização indígena. Mas, além dessa questão de estruturação do texto, importante ressaltar que a própria necessidade de decretar-se um modelo do conteúdo da doutrina cristã (decreto do catecismo) pode significar uma tentativa de solucionar os problemas quanto à uniformidade dos preceitos da doutrina cristã praticada nos inúmeros pontos de catequização espalhados pelas províncias. Praticada, tanto pelos ensinamentos dos eclesiásticos transmitidos aos indígenas quanto aos próprios atos deles, que não estariam tão coerentes com a doutrina cristã, mais precisamente a católica. Esse controle pode ser justificado se lembrarmos do contexto da Inquisição e da Reforma protestante presentes no século XVI. 6

6 Marques, Leonardo Arantes. “Protestantismo”. In: História das Religiões e a dialética do Sagrado. São Paulo: Madras, 2005.

4. Debate

Como possível debate que se apresentou durante a pesquisa deste trabalho de análise de fonte primária, destaca-se o problema do estudo da religião/religiões, como é proposto por Marcello Massenzio no livro História das religiões na cultura moderna. O problema estaria em se aplicar um conceito de religião (fruto de um processo histórico) para compreender outras “religiões” com suas especificidades históricas, por conseqüência, diferentes do conceito de religião utilizado. Uma provável herança do caráter impositivo da ocidentalização das populações consideradas primitivas ao longo da história, como o exemplo da catequização realizada na América espanhola.

5. Referência bibliografia:

Alberigo, Giuseppe (org.). História dos concílios ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

Bethell, Leslie (org.). História da América Latina – v.1. São Paulo: Edusp, 1997. (p.524)

Cardoso, Ciro Flamarion S. e Vainfas, Ronaldo. Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

Marques, Leonardo Arantes. História das Religiões e a dialética do Sagrado. São Paulo:

Madras, 2005.

Massenzio, Marcello. A história das religiões na cultura moderna. São Paulo: Hedra, 2005.

Suess, Paulo. A conquista espiritual da América espanhola: 200 documentos, século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992. (p.346-365)