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A CONTROVERTIDA SOCIOBIOLOGIA

(6)

~

J. Reis

A publicação, em 1975, do livro Sociobiology: a New Synthesis" pelo entomologista Edward O. Wilson provo- cou em todo o mundo verdadeira explosão crítica, quer de biólogos quer, especialmente, de sociólogos. O que o au- tor caracteriza como sociobiologia é "o estudo científico da base biológica de todas as formas de comportamento social de todos os tipos de organismos, inclusive o ho- mem". Para maior precisão poder-se-ia acrescentar que esse estudo se faz do ponto-de-vista da evolução neodar- winiana e de sua base genética. Para dar idéia de sua lin- guagem, basta dizer que o primeiro capítulo se intitula "A moral do gene". A repercussão dos conceitos de Wilson logo extrava- sou dos círculos acadêmicos para o grande público. Pen- sando neste e também nos estudantes, ele lançou em 1980 uma edição resumida do primeiro livro. Wilson estudou a fundo os insetos sociais e concluiu

pela possibilidade de explicar suas interações pelos me- canismos da seleção natural. Passou então a analisar a documentação existente sobre o comportamento de ou- tros grupos animais e chegou à sua provocativa "nova sín- tese". Representa esta o encontro de duas grandes ver-

tentes: o comportamento niana.

animal e a evolução neodarwi-

COMPORTAMENTO

Muito antigos são o hábito de observar o comporta- mento dos animais e do homem e as tentativas de explicá- 10.Relativamente novos, porém, são os estudos sistemáti- cos nesse campo, especialmente em relação ao homem, na interpretação de cujos atos campearam por longo tem- po meras especulações. Mesmo no século 20, os estudiosos do comporta- mento animal se têm deixado empolgar por teorias que apenas o descrevem, sem procurar suas causas prímei- raso Contentam-se com explicações imediatistas, sem buscar um paradigma aplicável a todos os casos, e têm feito apressadas generalizações. No começo do século, Jacques Loeb atraiu l')1uítosadeptos com a teoria dos tro- pismos, depois chamados taxias. Não menor foi o entu- siasmo provocado pela revelação, na mesma época, do arco reflexo, por Sherrington. E muito maior ainda foi o in- teresse desperta~o pelos experimentos em que Pavlov demonstrou os reflexos condicionados.

A partir da década de 30, os psicólogos prinCipiaram a desenvolver as teorias do comportamento baseadas no

aprendizado, merecendo especial destaque Skinner. Em sua teoria do reforço, o comportamento é influenciado por

suas conseqüências. Escola muito ativa, inspirou numero- sos experimentos, com aparelhagem muitas vezes refina- da, para manipular o comportamento. Embora explicando o comportamento atual, em termos do que o animal faz em resposta a determinados estímulos, a teoria do apren- dizado não raro se mostra inaplicável ao comportamento dos animais de vida livre. E se pode descrever e até pre- ver o que o animal faz ou fará em determinadas circuns- tâncias experimentais, não chega ao porquê dessas rea- ções. Para os sociobiologistas essa deficiência poderia em geral ser contornada por uma perspectiva evolucioná- ria, como veremos mais adiante. A mesma restrição às teorias do aprendizado é apli- cada por alguns sociobiologistas à etologia, campo espe- cialmente definido pelos trabalhos de K. von Frish, N. Tin- bergen e K. Lorenz, que mereceram o prêmio Nobel. Eto- logia é o estudo biológico do comportamento animal. Ba- seia-se na meticulosa observação dos animais em vida li- vre, mediante abordagem principalmente histórica, que tenta identificar homologias e filogenias a partir do pressu- posto de que o comportamento se desenvolveu como uma estrutura. Não repele a experimentação, geralmente feita em condições de vida livr.e. Nem deixa de ter preocu- pação evolucionária, no sentido neodarwiniano, mas o que domina em muitos dos estudos etológicos é o esfor- ço de reduzir o comportamento global a uma série de atos elementares, cada um dos quais deflagra o seguinte. Ao contrário do que possa parecer em vista de certos es- critos sociobiológicos, a etologia também se preocupa com os comportamentos sociais; basta lembrar que um dos livros de Tinbergen se denomina "Social Behaviour in Animais" . A etologia, especialmente quando divulgada por Lo- renz em sua obra sobre agressão, provocou repercussão semelhante à da sociobiologia. Hoje há uma espécie de ri- validade entre sociobiologistas e etologistas. Assim, Wil- son afirma que a etologia será "canibalizada" pela socio- biologia, enquanto Thorpe, etologista, critica a separação dos comportamentos social e não social das espécies e fala, no primeiro caso, de "etologia das espécies sociais". Ainda segundo Thorpe, o etologista pergunta como pode o animal fazer isto ou aquilo, quais as pressões que tornam necessários esses comportamentos e os mantêm, depois de estabelecidos, e por que os animais relativa- mente simples, como a estrela do mar, e outros, relativa- mente complexos como o polvo, se mantiveram com êxi- to em ambíentes semelhantes, com apenas pequenas va- riações ao longo de vastos períodos de tempo geológico.

EVOLUÇÃO

Até entre pessoas dotadasde algumainformação

biológica é comum a incompreensãodo processo evolu- cionário, seja nos termos em que inicialmenteo apresen-

tou Darwin, seja nos atualmenteaceitos sob o nome de

neodarwinismo.

Nem tudo o que escreveu o genial naturalistaé hoje aceito como parte da teoria da evolução. Mas os fatos e as idéias básicas por ele proclamados perduraram e nas décadas de 30 a 50 foram reorganizadasnum todo coe- rente, que incorporou ao pensamento darwinista original as contribuiçõesda genética mendeliana, da paleontolo- gia, da teoria da formação das espécies e outras áreas. É o neodarwinismo.

Darwin não descobriu a evolução, pois é antiga a idéia de que todos os seres vivos evolveram a partir de uma origem comum, mas propôs o mecanismo pelo qual ela se desenrola, baseando-seem formidável arsenal de observaçõescolhidas na natureza.A essência do darwi- nismo consiste na ação da seleção natural como força evolutiva.Decorretal seleção, por sua vez, da maior capa- cidade que certos indivíduostêm de reproduzir-see tornar- se adultos em face das condições ambientais. Nisso resi- de a chamada competição, que assegura a "sobrevivên-

cia dos mais aptos", expressãogeralmentemal interpreta- da como luta de vida ou morte entre os indivíduos.A sele-

ção naturalé, no fundo, a reprodução diferencialdos indi- víduos de uma espécie, de uma a outra geração. Explica- se a ação dessa seleçãona gênesede novas espéciespe- lo aparecimento.de alterações que passam de um indiví- duo a sua descendência.O mecanismodessasalterações só ficou claro quando à idéia darwinianase superpuseram os conhecimentosda genéticamendeliana,desconhecida de Darwin. Mínimas alterações nos genes (mutações) acarretamalteraçõesem determinadascaracterístícas.Se favoráveis em face do meio, essas alterações tendem a predominarnas populações, porque aumentam a aptidão do indivíduoe sua capacidade de reproduzir-se. A aptidãomede a qualidadeseletivados genesou dos genótipos(isto é, a composição genética dos indivíduos), seu sucesso reprodutivo. Os caracteres que os tornam mais capazesde sobrevivere reproduzir-seassim agem e tornam-semais bem representadosnas gerações seguin- tes. Dizem-seadaptativostodos os caracteres,resultantes da evolução de um organismo, que aumentam sua apti- dão. Adaptação nada mais é do que esse processo. O neodarwinismonão apenas robusteceua idéia da seleção natural,que Darwin adquiriu pela observação di- reta da natureza,com os dados experimentaisda genéti- ca, mas também a enriqueceu com abundantes provas paleontológicase com os dados colhidos na teoria mate- mática da genética das populações. Alguns pormenores do neodarwinismo sofreram depois pequenos reparos. Nos últimos anos alguns de seus princípios,como o gra-

dualismo na

evolução das espécies,têm sido desafiados,

porém dessesaspectosnão trataremosaqui, mesmo por- que a sociobiologiase apega ao neodarwinismoclássico.

EVOLUÇÃO E COMPORTAMENTO

A sacio biologia procura, como dissemos, explicar em termos neodarwinianos a evolução dos comportamen- tos ou interações sociais dos animais, sem exclusão do homem. Ela pretende haver dado, dessa maneira, inter- pretação científica a muitos fenômenos que antes se des- creviam sem Ihes investigar o porquê, a causa primeira, assim como outras circunstâncias que intrigavam os que procuravam explicar o comportamento pelo simples aprendizado. Para mostrar sua maneira de raciocinar, apresentare- mos três exemplos:

1. O cão e o esquilo das árvores comportam-se dife- rentemente num experimento em que o animal tem de afastar-se da meta para atingi-Ia, dando volta a um empe- cilho (Fig. 1). O cão, vendo a comida, repuxa a corda corre para a direita e a esquerda, ladrando, ganindo e olhando para o dono como a pedir auxílio, até que, por acaso contornando o empecilho, descobre o caminho pa-

e

ra o alimento. O esquilo observa primeiro a situação e lo- go contorna o obstáculo.

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Fig. 1 - Em cima, um cão tenta puxar a corda em todas as direções, procurando atingir a comida. Embaixo, o es- quilo, sem fazer esse tipo de tentativa, imediatamente con-

torna o obstáculo e se dirige à comida (segundo Barash).

Como explicar essa diferença de procedimento, especialmente sabendo que o cão é mais inteligente que o esquilo? Difícil fazê-Io pelas teorias do aprendizado. Fácil, pelo raciocinio sociobiológico. Em seu mundo tridimensional, explica Barash, o esquilo que dese- ja passar de uma árvore a outra se defronta com duas al- ternativas: descer de sua árvore e subir pelo tronco da ou- tra, expondo-se aos predadores existentes no solo, ou ob- servar as copas, descobrir um ponto em que elas se to- quem e por aí passar. Isso quer dizer que os antepassa- dos do esquilo eram hábeis na solução de problemas de contorno e essa aptidão foi naturalmente selecionada;

2. Ao ouvir o zumbido da mosca dos estábulos, que pica, a vaca enruga a pele e abana a cauda, mas reage violentamente, saltando e escoiceando, à aproximação de uma mosca que não pica mas transporta as larvas da mosca do berne que deposita sobre a pele do animal. Du- rante a história evolucionária, as vacas que reagiam positi- vamente à aproximação da 11\10scaportadora do berne ti- veram menor probabilidade de serem parasitadas e maior sucesso reprodutivo, em conseqüência disso;

3. Colocado pela primeira vez num labirinto, o rato explora-o meticulosamente, mesmo que não haja alimento à saída. Mais tarde, quando se introduz O mesrno rato em labirinto com alimento, ele prontamente chega à comida. Como explicar isso, se o rato, da primeira vez, não tinha o reforço do alimento? Apelou-se para a idéia de um apren- dizado latente, a cujo respeito muito se discute. Outro é o raciocinio evolucionário: os ratos de vida livre ocupam sis- temas de buracos e corredores a, para eles, é útil a explo- ração do ambiente e sua familiarização com ele, para rápi-

da evasão. A seleção teria favorecido a cap?cidade de

aprender

estruturas

labirínticas.

Seria impossível abranger em artigo não especializa- do todas as espécies de comportamento social e os me- canismos propostos pela sociobiologia para explicá-Ios, como tamanho dos grupos e reprodução, comunicação (sua natureza, suas origens e sua evolução), agressão, distribuição dos animais no espaço e delimitação de terri- tórios, sistemas de dominação, significação das castas, função social do sexo, cuidados dos pais e mães. A mas- sa desses comportamentos até hoje estudados e para os quais existe explicação sociobiológica é muito grande.

Por isso restringimos nossa exposição a três tipos de

mecanismos comportamentais: o altruísta, o egoísta e o agressivo ou malevolente. E o faremos visando, em parti- cular, animais ligados entre si por parentesco, dentro de

uma população, porém

lembrando que esses tipos de

comportamento também se manifestam fora daquelas re- lações.

Há uns 20 anos, Wyne-Edwards, baseado em suas observações, proclamou que os animais geralmente ten- dem a evitar o excesso de exploração de seu habitat, es- pecialmente quanto ao suprimento alimentar. Para conse- gui-Io restringem sua própria reprodução. Vários compor- tamentos que envolvem exibição (como quando o animal realiza certos rituais, geralmente para fins sexuais ou me- dição de forças para afirmação da dominância) ou agrega- ção dos indivíduos no inverno, ou vocalização em grupo (de fundo sexual ou para advertir quanto à proximidade de inimigos) nunca encontraram explicação unificadora; a so- ciobiologia procura dá-Ia em termos de seleção natural de comportamentos que se revelam capazes de tornar máxi- ma a aptidão dos indivíduos em face do meio.

Quando um indivíduo aumenta a aptidão de outro às expensas da sua própria, diz-se que seu comportamento é altruísta. É o que ocorre por exemplo, no auto-sacrifício em benefício da prole, porque na realidade a aptidão indi- vidual se mede pelo número dos descendentes.

O comportamento

egoísta é facilmente compreensí-

vel em termos de sobrevivência, embora moralmente pos- sa ser reprovável pelos observadores, como diz Wilson;

nesse comportamento

o indivíduo aumenta sua aptidão

em detrimento de outros.

Finalmente, quando o indivíduo nada ganha, ou reduz sua própria aptidão para diminuir a de outro, praticaum ato de agressão ou malevolência.

Wilson esquematiza esses três comportamentos e suas conseqüências mediante uma relação que consiste apenas em dois irmãos. O indivíduo altruísta fará algum sacrifício em benefício do irmão (dando-Ihe alimento, abri- go, retardando a escolha de sua própria companheira ou ainda se colocando entre o irmão e o perigo), porque este tem metade de seus genes e o sucesso reprodutivo do ir- mão vai aumentar a quantidade de genes do altruísta na população. E isso é muito importante quando o altruísta vê minguar sua aptidão genética (tempo de vida, diminuição de sua prole), o que conduz à menor presença de seus ge- nes, na geração seguinte. Supondo-se, no caso extremo de o altruísta não de,ixar prole, que seu ato altruísta mais do que duplique a representação pessoal do irmão na ge- ração seguinte, o altruísta também aumentará sua repre- sentação nessa geração. Muitos dos genes partilhados pelo irmão levarão o caráter altruísta e, assim, a aptidão fi- nal, determinada nesse caso só pelos genes do irmão, se- rá suficiente para causar o espalhamento dos genes al- truístas na população e garantir a evolução do comporta- mento altruísta. Este é, aliás, muito espalhado na natureza. Pode-se estender esse modelo a outros tipos de parentes- co (pais e filhos, primos, etc.), levando-se em conta a pro- porção relativa dos genes.

Wilson resume numa figura que reproduzimos, o que acabamos de dizer sobre altruísmo, egoísmo e agressão.

o

altruísmo dos indivíduos, como outros comporta-

mentos, seria reflexo do "egoísmo" de seus genes. Estes é que teriam "interesse" em predominar nas gerações se-

guintes, pouco Ihes "importando"

o indivíduo como um to-

do ou seu destino. Uma velha frase atribuída a Samuel Bu-

tler exprime esse fato: a galinha é apenas um meio que o ovo inventou para fazer outro ovo.

Do ponto-de-vista evolucionário, para o sociobiolo- gista, não é, pois, o patrimônio genético total do indivíduo que se deve mostrar mais apto na luta pela sobrevivência, mas o gene individualmente. A luta pela vida não passaria de uma competição individual entre genes. Nesse ponto,

os sociobiologistas

coso

divergem

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dos neodarwinistas clássi-

Ato

ALTRUíSMO

EGoíSMO

AGRESSÃO

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Fig. 2 - Esquema de Wilson para mostrar as condições básicas para evolução do altruismo, egoismo e malevo-

lência ou agressão, por meio da seleção por parentesco. A família foi reduzida a um individuo e seu irmão, sendo a

fração de genes do irmão que é partilhada pela descen- dência comum, indica da pela parte preta do corpo. Um vaso indica algum requisito do ambiente (alimento, abrigo, acesso ao par, etc.), ao passo que um machado represen- ta comportamento nocivo em relação a outrem. O altruista diminui sua própria aptidão genética, mas aumenta a do ir- mão na medida em que os genes partilhados de fato au- mentam na geração seguinte. O egoísta reduz a aptidão do irmão, porém aumenta a sua, em medida mais do que compensadora. O agressivo baixa a aptidão de um com- petidor que não tem relação com ele (figura toda branca), ao mesmo tempo que reduz a sua própria, ou pelo menos não a aumenta, porém o ato aumenta a aptidão do irmão a um grau mais do que compensador.

o HOMEM

Os sociobiologistas acham que, em geral, suas expli- cações evolucionárias podem estender-se ao homem. O último capitulo do livro de Wilson intitula-se "Homem: da sociobiologia à sociologia". Nele o autor tenta observar o comportamento humano com o espírito de um naturalista desprovido de preconceitos - por exemplo, um zoólogo chegado de outro planeta - e explicar aquele comporta- mento nos mesmos termos sugeridos pela observação dos animais. Enfoca dessa maneira a organização social,

o altruísmo, a negociação e reciprocidade, as relações so-

ciais e a divisão do trabalho, a linguagem, os

ritos, a reli-

gião, a territorialidade e o tribalismo, a estética, a evolução social primitiva. A própria ética deveria ser tirada das

mãos dos filósofos e "biologizada".

r-

Para exemplificar o raciocínio sociobiológico

aplica-

do ao homem a partir da observação do comportamento

animal, podemos considerar a infidelidade conjugal.

Barash estudou o comportamento, a esse respeito, de certa ave alpina que vive em casais estáveis (monóga- mos). Quando, na época da procriação, o macho encon- tra, junto do ninho onde está a fêmea, um macho empa- Ihado ali posto pelo observador, ataca violentamente o su- posto rival, mas deixa de atacá-Io fora da época de repro- dução, depois que os ovos já foram postos. Na época da procriação, o rival poderia ser concorrente do macho pela implantação de seus genes nos óvulos da fêmea, o que di- minuiria a probabilidade de permanência dos genes do primeiro na geração seguinte. Esse risco acabaria com o passar da época da procriação. Após o vigoroso ataque infligido ao falso macho, a fêmea fugiu, mas foi logo subs- tituída por outra, mediante a qual o macho pôde conservar os seus genes na geração seguinte. Segundo os sociobio- logistas esse comportamento do macho no passado terá provavelmente produzido maior descendência do que ou- tras maneiras de agir. A seleção teria, então, fixado tal comportamento na espécie.

Nada se sabe sobre a reação da fêmea ao adultério do macho, porém Barash presume que deve ser menos intensa, porque ela tem, sobre o macho, a vantagem da certeza de que partilha necessariamente 50 por cento de seus genes com a prole, certeza que o macho não pode ter de maneira absoluta. Por isso, o "marido" infiel não re- presentaria grande mal, do ponto de vista da fêmea, des- de que cumprisse suas obrigações de sustento da família.

Transferindo o raciocínio para a espécie humana, pre- vê a sociobiologia que os maridos sejam mais intolerantes que as mulheres nas sociedades humanas machistas. De fato, o adultério feminino é severamente punido e até justi- fica violência contra a adúltera, sendo mais permissiva a sociedade para com os adúlteros. Mas em sociedades co- mo a dos esquimós, que vivem em ambiente hostil, a coo- peração é mais valiosa que o antagonismo e por isso se tolera a partilha da mesma mulher por vários homens, mesmo não aparentados.

É de imaginar o acalorado debate que provocou essa tentativa de "biologizar" a sociologia. Ele reflete em gran- de parte a antiga luta sobre a influência relativa do genóti- po e do meio na modelagem do fenótipo - os caracteres físicos do organismo, sejam eles anatômicos, fisiológicos ou de comportamento. Não há dúvida de que o fenótipo resulta da interação dos dois fatores. Barash, sociobiolo- gista, apresenta num gráfico (Fig. 3) a porcentagem dos dois fatores nos vários grupos animais e no homem.

Num livro de critica da aplicação da sociobiologia ao homem, Ashley Montagu reuniu a colaboração de vários especialistas, como sociólogos, biologistas, antropólogos, etólogos, neurobiologistas. A conclusão desses especia- listas é que as alegações de Wilson a favor de sua socio- biologia em geral não encontram prova, não sendo válidas as conclusões que ele apresenta como certas e decisivas.

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Escreve Montagu:"Não pode haver a mínimadúvida I

quanto à existência de uma base genética em boa parte

do comportamento

humano, mas isto é muito diferente de

afirmar que esse comportamento

é geneticamente deter-

minado". Continua ele: "O que os sociobiologistas não I compreendem plenamente é que, como conseqüência da história toda particular da evolução humana, a humanida- de passou para uma zona completamente nova da adap- tação, a cultura". Para ele, "é pela parte aprendida a partir do meio que os seres humanos reagem aos desafios de

seus ambientes,e não pela ação determinativa ou decisi-

va de seus genes".

 

Contribuição do genótipo

 

para o comportamento

 
 

Contrib'

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Espécie

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Mamlferos não humanos

Fig. 3 - Contribuição relativa dos fatores genéticos e am- bientais para o comportamento de diferentes animais. Pa- ra qualquer espécie (X) a soma dos componentes genéti- cos e ambientais é 100% (segundo Barash).

Nem todos os sociobiologistas são tão extremados e dogmáticos como Wilson. Barash escreve: "A esta altura, ninguém sabe se a perspectiva da biologia evolucionária esclarecerá nosso comportamento social, mas parece que vale a pena tentar". Essa discussão não cessará tão cedo, especialmente porque os sociobiologistas procuram explicar a seu modo

a evolução cultural, pilar da argumentação de Montagu e outros adversários.

Nossa opinião pessoal é que à explicação sociobioló-

gica ainda falta muita comprovação. E a labareda que ela acendeu, mais cedo ou mais tarde diminuirá. Não deixará,

entretanto, apenas cinzas, porque terá legado um mundo de observações e tentativas de explicação que encerram idéias novas e em grande parte inspiradoras.