FRAGMENTOS DE TEMPO

A relação das obras de Gustave Le Gray, Gaetano Pesce, Robert Smithson, Claude Monet, René Clair e Mira Schendel com o tempo e os sentidos que eles lhe atribuem. Clarissa Luiza Justino de Lima Pós-graduanda em Artes Visuais- SENAC- MG O tempo é a alma da fotografia, e se relaciona com ela de várias maneiras. O tempo levado pelo fotógrafo para conceber sua obra, o tempo de exposição, a tentativa de capturar o tempo e eternizar um momento: todos esses fatores, juntos, determinam a essência de uma fotografia, e a sua combinação constitui uma obra única. A onda de Gustave Le Gray foi uma das primeiras fotografias a captar um instante de movimento. A relação mais marcante com o tempo é notada ainda no processo de criação: a evolução das técnicas fotográficas possibilitou uma redução no tempo de exposição. Foi justamente esse tempo de exposição reduzido que permitiu que a onda fosse registrada tão nitidamente mesmo em movimento, e tornou essa fotografia um marco. As poltronas de Gaetano Pesce, obra de 1969, são fiéis ao retratarem o frescor dos anos 60 e 70. A pop art traz o design arrojado e colorido, produzido com materiais pouco duradouros, que se opõem ao design clássico e atemporal das décadas anteriores. Essa quebra de padrões não acontecia somente no design. Eram anos de transformação: o homem chegava ao espaço, a música assistia à invasão britânica e o mundo se rendia aos encantos da minissaia. As poltronas não retratavam meros objetos de decoração, mas todo o ar de novidade de duas décadas que quebravam padrões. O “Píer em espiral” de Robert Smithson é uma land art, obra criada em interação com paisagens naturais, geralmente em espaços abertos e longe dos grandes museus e galerias. Nessa obra o espectador tem um papel fundamental, pois sua visão vai depender do ponto em que ele se encontra. Com o decorrer do tempo e a mudança espacial o observador pode passar a

notar pontos não observados anteriormente. Portanto, nesse caso, o tempo determina a relação obra x visão do espectador. “A estação de Saint-Lazare” de Monet, se constitui uma obra impressionista ao conseguir captar a sensação de uma pessoa que está na estação de trem presenciando chegadas e partidas. A relação com o tempo vai além dessa captação do movimento da estação e suas sensações: o retrato de uma cena cotidiana também vale como registro histórico dos hábitos de uma civilização. “Entr’acte” de René Clair é uma obra do dadaísmo, movimento que contestava valores tradicionais da arte de seu tempo. A relação com o tempo vai além do fato da obra pertencer à um movimento de vanguarda e alcança a mudança do olhar do espectador no decorrer do vídeo: Movimentos suaves e delicados criam a expectativa de que o rosto da bailarina seja condizente com seu corpo. Com o passar do tempo ele é revelado e o rosto barbado quebra a delicadeza pré-concebida na cabeça do espectador. O uso de materiais precários é comum nas obras de Mira Schendel. “Trenzinho” é uma dessas obras, onde as folhas de papel-arroz tem uma vida útil muito curta: duram apenas uma exposição e depois são descartadas. Essa arte, feita para o consumo imediato, mostra que o efêmero pode ser belo e vir recheado de significado, mesmo quando concebido pra durar por alguns instantes e desaparecer.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful