Você está na página 1de 346
IV Simpósio de Restauração Ecológica Desafios Atuais e Futuros Coord. Luiz Mauro Barbosa CERAD –

IV Simpósio de Restauração Ecológica

Desafios Atuais e Futuros

Coord. Luiz Mauro Barbosa

CERAD – Instituto de Botânica de São Paulo

Ecológica Desafios Atuais e Futuros Coord. Luiz Mauro Barbosa CERAD – Instituto de Botânica de São
Ecológica Desafios Atuais e Futuros Coord. Luiz Mauro Barbosa CERAD – Instituto de Botânica de São
Secretaria de eStado do Meio aMbiente IV Simpósio de Restauração Ecológica Desafios Atuais e Futuros
Secretaria de eStado do Meio aMbiente IV Simpósio de Restauração Ecológica Desafios Atuais e Futuros

Secretaria de eStado do Meio aMbiente

IV Simpósio de Restauração Ecológica Desafios Atuais e Futuros

Coordenação Geral: Luiz Mauro Barbosa

São Paulo 16 a 18 de novembro de 2011

Geraldo Alckmim – Governador Secretaria de eStado do Meio aMbiente Bruno Covas – Secretário inStituto
Geraldo Alckmim – Governador Secretaria de eStado do Meio aMbiente Bruno Covas – Secretário inStituto

Geraldo Alckmim – Governador

Secretaria de eStado do Meio aMbiente Bruno Covas – Secretário

inStituto de botânica Vera Lúcia Ramos Bononi – Diretora Geral

centro de PeSQuiSa JardiM botânico e reSerVaS Luiz Mauro Barbosa – Diretor do Centro

FICHA TÉCNICA

COORDENAÇÃO GERAL: Luiz Mauro Barbosa PqC. IBt

REALIZAÇÃO: Instituto de Botânica de São Paulo – IBt Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SMA/SP Governo do Estado de São Paulo

EDITOR RESPONSÁVEL: Luiz Mauro Barbosa

EDITORES ASSISTENTES: Fulvio Cavalheri Parajara; Lilian Maria Asperti; Nelson Antonio Leite Maciel; Tiago Cavalheiro Barbosa.

EDITORES GRÁFICOS: Fulvio Cavalheri Parajara e Tiago Cavalheiro Barbosa. Fotos da Capa: Tiago Cavalheiro Barbosa. Fotos da Contracapa: Fulvio Cavalheri Parajara e Nilton Neves Júnior

COMISSÃO CIENTÍFICA: Luiz Mauro Barbosa (coordenador); Catarina Carvalho Nievola; Eduardo Luis Martins Catharino; Elenice Eliana Teixeira; Fulvio Cavalheri Parajara; José Marcos Barbosa; Karina Cavalheiro Barbosa; Lilian Maria Asperti; Maria de Fátima Scaf; Nelson Antonio Leite Maciel; Nelson Augusto Santos Junior; Regina Tomoko Shirasuna; Sérgio Romaniuc Neto; Tânia Maria Cerati; Tiago Cavalheiro Barbosa; Valéria Augusta Garcia.

COMISSÃO ORGANIZADORA: Luiz Mauro Barbosa (coordenador); Ada André Pinheiro; Adriana de Souza; Carlos Fernando Aguiar Meirelles; Carlos Yoshiyuki Agena; Catarina Carvalho Nievola; Célio Irineu Dal Seno; Cibele Boni de Toledo; Cilmara Augusto; Eduardo Luis Martins Catharino; Elenice Eliana Teixeira; Florisvalter de Souza Alves; Fulvio Cavalheri Parajara; Janaina P. Costa; José Marcos Barbosa; Julia Cassino Barbosa; Karina Cavalheiro Barbosa; Lilian Maria Asperti; Marco Antonio Machado; Maria de Fátima Scaf; Marília Vazquez Aun; Michel A. A. Colmanetti; Nelson Antonio Leite Maciel; Nelson Augusto dos Santos Junior; Nilton Neves Júnior; Osvaldo Avelino Figueiredo; Paulo Henrique Lodgero; Paulo Roberto Torres Ortiz; Regina Tomoko Shirasuna; Renata Evangelista de Oliveira; Renata Ruiz Silva; Ricardo Francisco Afonso; Ricardo Ribeiro Rodrigues; Sérgio Romaniuc Neto; Simone Sayuri Sumida; Tânia Maria Cerati; Tiago Cavalheiro Barbosa;Valéria Augusta Garcia; Waldyr Baptista.

EDITORAÇÃO, CTP, IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Ficha Catalográfica elaborada pela Seção de Biblioteca do Instituto de Botânica

Barbosa, Luiz Mauro, coord. Anais do VI Simpósio de Restauração Ecológica: Desafios Atuais e Futuros Luiz Mauro Barbosa – São Paulo, Instituto de Botânica - SMA, 2011. 344 p.

Bibliografia. ISBN: 978-85-7523-037-4 1. Áreas degradadas. 2. Recuperação. 3. Reflorestamento. I. Título

CDU

PREFÁCIO

Na história do Jardim Botânico de São Paulo, destaca-se a busca insistente para atender às estratégias mundiais dos jardins botânicos para a conservação, estrutura- das pelo professor Heywood, a pedido da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) e WWF (World Wide Fund for Nature). No final do século XIX, a região do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI) era de mata nativa, ocupada por sitiantes e chacareiros. Em 1893, o governo ini- ciou um processo de desapropriação dessa área, com o objetivo de preservação das flores-

tas, dos recursos hídricos e das históricas nascentes do Riacho do Ipiranga. Em 1917, toda área passou a ser propriedade do governo paulista e, em 1928, constituía-se no principal serviço de captação de água para o abastecimento do bairro do Ipiranga. Nesse mesmo ano (1928), o Dr. Fernando Costa, então à frente da Secretaria da Agricultura, convidou

o naturalista Frederico Carlos Hoehne para a implantação do Horto Botânico na região.

Em 1929, a implantação das estufas do Orquidário do Estado de São Paulo foi o primeiro passo para a criação do Jardim Botânico de São Paulo, o que foi oficializado, em 1938, com a criação do Departamento de Botânica do Estado que, em 1942, passou a chamar-se

Instituto de Botânica (IBt). No ano de 1969, o Parque do Estado também teve sua denomi- nação alterada para Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (PEFI), além de outras inter- venções. A partir de 1987, o Instituto de Botânica passou a desempenhar mais fortemente

a sua principal missão, dentro da Secretaria Estadual do Meio Ambiente - SMA, preservar

a biodiversidade paulista e brasileira, por meio da conservação. Em 1989, o Jardim Botâ-

nico de São Paulo realizou o I Simpósio sobre Restauração de Matas Ciliares; instituiu a

Coordenação de Restauração de Áreas Degradadas (CERAD); e a partir de 2001, propôs várias resoluções adotadas pela SMA, envolvendo restauração ecológica, incluindo a atu-

al SMA 08/2008. No ano de 2002, foi criado o curso de pós-graduação em Biodiversidade

Vegetal e Meio Ambiente. Em 2007, o Instituto de Botânica realizou estudos florísticos,

o resgate de plantas e a restauração ecológica nos reflorestamentos compensatórios exi-

gidos pelos estudos de impactos ambientais e licenciamento ambiental do Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas em São Paulo, estudos que passaram a ser as condicionantes ambientais para os demais trechos (Leste e Norte). Em 2011, o Instituto de Botânica, por meio do seu Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas, realizou, com apoio e incentivo da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, o “IV Simpósio Sobre Restauração Ecológica: desafios atuais e futuros”. Des- sa maneira, o Jardim Botânico de São Paulo, único do Brasil classificado em 2010 na categoria ‘A’ pelo IBAMA (RESOLUÇÃO CONAMA n° 339/03), fez por merecer essa classificação. Dentre os 16 itens considerados pela resolução, para enquadramento nessa categoria, destacam-se as pesquisas em conservação da biodiversidade, o Jardim Botâni- co como laboratório vivo para as investigações e manutenção de coleções vivas, a edu- cação ambiental, o ensino de pós-graduação e a realização de eventos para discussão de políticas públicas, visando à conservação e restauração de biodiversidade. Assim, o sim- pósio ofereceu subsídios para discussão, análise, execução de estudos, projetos e ações relacionados à restauração ecológica, fundamentados em conceitos desenvolvidos pela comunidade científica e em experiências práticas do setor privado, além da possibilidade de empresas e profissionais da área apresentarem seus produtos. Destaque especial foi dado às discussões envolvendo os desafios atuais, re- lacionados ao Código Florestal Brasileiro, à avaliação e monitoramento de áreas restau-

radas, às perspectivas de ecologia de paisagens na restauração ecológica, aos desafios de áreas mineradas, ao planejamento e políticas publicas, além dos desafios futuros da restauração ecológica, frente às mudanças climáticas globais. Entre os participantes encontraram-se pesquisadores, professores universi- tários, alunos de graduação e de pós-graduação dos cursos afins ao evento, empresas de consultoria ambiental; engenheiros, técnicos e demais profissionais especializados, empresas prestadoras de serviços sobre restauração ecológica e áreas degradadas, pro- dutores, empresários e agentes econômicos envolvidos na área, viveiristas de produção de espécies nativas florestais, empresas em processo de adequação ambiental e/ou de manutenção de processos de melhoria contínua e demais pessoas interessadas no tema.

Bruno Covas Secretário de Estado do Meio Ambiente

Vera Lúcia Ramos Bononi Diretora Geral do Instituto de Botânica

Luiz Mauro Barbosa Diretor do Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas Coordenador do IV Simpósio de Restauração Ecológica

APRESENTAÇÃO

O Jardim Botânico de São Paulo, fundado em 1928, é uma instituição dedicada à preservação da biodiversidade, tendo como missão a pesquisa científica, a educação ambiental

e o lazer. Diversos equipamentos, laboratórios e coleções científicas são utilizados para o cum-

primento de sua atividade principal: a conservação “in situ” e “ex situ” da biodiversidade. Tal procedimento, recomendado pelas estratégias mundiais para conservação, classificou o Jardim Botânico de São Paulo (IBt-SP) na categoria “A” do IBAMA, único no Brasil a atender aos 16 critérios da Resolução CONAMA, n° 339, de 25.09.2003, que dispõe sobre a criação, nor- matização e funcionamento dos jardins botânicos e dá providências. Nesse contexto, o Jardim Botânico de São Paulo é um importante centro, responsável pela promoção da restauração eco- lógica, com realização “in situ” da reabilitação de ecossistemas, possibilitando conhecimento sobre espécies nativas, capacitando pessoas e realizando importantes eventos científicos em São Paulo, há mais de 20 anos. Definir parâmetros e orientações técnico-científicas, visando à restauração ecológica e ao licenciamento ambiental, e apresentar soluções através de políticas baseadas em resultados de pesquisa são algumas das atividades que o Jardim Botânico de São Paulo e o Instituto de Botânica passaram a desenvolver com maior ênfase, junto à Secretaria do Meio Ambiente, estabelecida em 1986. Com a criação da Coordenação de Restauração de Áreas Degradadas (CERAD), em 2000, e os projetos de políticas públicas apoiados pela FAPESP, o IBt organizou e discutiu o tema com todos os segmentos envolvidos na restauração ecológica (universidades, institutos de pesquisa, órgãos licenciadores, fiscalizadores, de assistência téc- nica, ministério público e principalmente os agricultores e as partes mais interessadas). Com a realização de simpósios, workshops e congressos científicos, nos últimos anos, no IBt, a primei- ra resolução (SMA 21/2001) passou por revisões e aprimoramentos (SMA 47, em 2003, SMA 58, em 2006 e SMA 8, em 2007 e 2008), sempre considerando as revisões periódicas (a cada 2 anos) e o caráter participativo, envolvendo diversos atores e segmentos da sociedade. Nesta obra sobre o “IV Simpósio sobre Restauração de Áreas Degradadas: desafios atuais e futuros” são apresentadas as principais linha de pensamento, envolvendo pesquisas, aspectos econômi- cos e toda interdisciplinaridade exigida pela busca da sustentabilidade de ecossistemas naturais ou restaurados. Este livro aborda temas relacionados ao cenário atual das pesquisas científicas,

políticas públicas, legislação ambiental e evolução dos processos históricos e legais, envolvendo

a restauração, e os impactos das alterações do Código Florestal e das mudanças climáticas na

restauração ecológica. Discute a avaliação e monitoramento de áreas restauradas, perspectivas da ecologia da paisagem na restauração e, ainda, o diferencial exigido para a restauração de áreas mineradas. Os desafios são discutidos sob o ponto de vista do planejamento e das políticas públicas, apoiados na disponibilização de mecanismos e “ferramentas” facilitadoras da restau- ração ecológica. O livro também promove a divulgação de bases de dados e esclarece a função da Rede Brasileira de Restauração Ecológica – REBRE, além de registrar não apenas os artigos referentes às palestras e a opinião dos relatores sobre os diversos temas, mas também a opinião de diversos outros especialistas em restauração, por meio de artigos redigidos a convite da coor- denação do simpósio. Houve a apresentação de cerca de 200 resumos de trabalhos voluntários, que também foram expostos, na forma de painéis, no evento. Esta obra, portanto, registra e refle- te os principais aspectos relacionados à restauração ecológica e os seus desafios atuais e futuros.

Luiz Mauro Barbosa Diretor do Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas Coordenador do IV Simpósio de Restauração Ecológica

SUMÁRIO

Sistemas Silvopastoriles, Conectividad de Bosques y Pago por Servicios Ambienta- les Para la Rehabilitación de Tierras Ganaderas

11

Histórico da Restauração no Estado de São Paulo: Revisão das Bases Teóricas

13

Impactos das Alterações no Código Florestal

21

Código Florestal: Desdobramentos das Ações no Congresso Nacional

27

Indicadores de Avaliação e Monitoramento de Áreas em Processo de Restauração Florestal: O Exemplo do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica

31

Monitoramento Inicial de Três Plantios Compensatórios do Rodoanel Mário Covas – Trecho Sul

41

Experiências da Empresa Corpus Saneamento e Obras Ltda. na Implantação, Ava- liação e Monitoramento de Áreas em Processo de Restauração no Trecho Sul do Ro- doanel Mário Covas - SP

49

Experiências da Verdycon Conservação Ltda. na Execução de 338 Hectares de Plan- tios Compensatórios do Rodoanel Trecho Sul

57

Medição e Monitoramento da Biodiversidade em Áreas Restauradas com Espécies Arbóreas

67

Restauração Ecológica em Áreas Degradadas pela Mineração

79

A

Ecologia da Paisagem como uma das Ferramentas de Planejamento da Restauração

Ecológica

89

Riqueza Florística Aplicada à Recuperação Florestal

91

Experiência em Restauração Ecológica na Bacia do São Francisco

101

Ferramentas Disponíveis Visando à Restauração Ecológica de Áreas Degradadas:

Contribuição do Instituto de Botânica de São Paulo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente

111

A

Importância do Estabelecimento de Parâmetros de Avaliação de Qualidade em

Reflorestamentos Compensatórios

119

Reflexão Sobre a Restauração Ecológica no Brasil: a Atuação da Rede Brasileira de Restauração Ecológica (Rebre)

125

Interação Solo-Planta-Clima para a Restauração de Ecossistemas Naturais - “A Restinga

Nutrição Mineral de Espécies Nativas em Solos do Cerrado

147

Abordagem “Bef”: Um Novo Paradigma na Restauração de Ecossistemas?

155

Estudos Sobre Transposição do Banco de Sementes como Metodologia de Restaura- ção Ecológica de Áreas Degradadas

167

Resultados de Médio Prazo na Restauração de Restingas Degradadas e Desafios para o Futuro

175

Revendo Conceitos e Preconceitos: Sistemas Agroflorestais e Agroflorestas (Safs), Muito Além da Forma e da Função

183

Degradação Ambiental Urbana: Voçoroca do Conjunto Habitacional Taquaral Bosque, Campo Grande, Mato Grosso do Sul

191

Avanços e Próximos Desafios da Semeadura Direta para Restauração Ecológica

201

Seleção de Áreas para a Execução de Plantios Compensatórios: Um Desafio para o Cumprimento de uma Exigência Ambiental do Trecho Sul do Rodoanel

209

Consolidação das Propostas para Pesquisas Prioritárias Envolvendo a Restauração Ecológica, Apresentadas no Instituto de Botânica de São Paulo

215

O Geoprocessamento na Restauração Ecológica: Aplicações Atuais e Potencialidades Futuras

221

Somos Conservadores? Mudanças Já! A Sociedade, o Clima e o Código Florestal

229

TRABALHOS VOLUNTÁRIOS

245

Área 1 - Métodos e Técnicas Alternativas para a Restauração Ecológica

245

Área 2 - Avaliação e Monitoramento de Projetos de Restauração Ecológica

283

Área 3 - Estudos de Caso em Restauração Ecológica (Compensações e Passivos Ambientais)

308

Área 4 - Aspectos Sócio-Econômicos, Políticos, Legais, Culturais e Educacionais Vinculados à Restauração Ecológica

316

Área 5 - Restauração Ecológica da Paisagem em Ambientes Urbanos e Rurais

331

SISTEMAS SILVOPASTORILES, CONECTIVIDAD DE BOSQUES Y PAGO POR SERVICIOS AMBIENTALES PARA LA REHABILITACIÓN DE TIERRAS GANADERAS

Enrique Murgueitio Restrepo 1

ReSuMen

América Latina sufre una de las mayores tasas de pérdida de bosques a escala global siendo la expansión ganadera una de las principales causas. Desde hace más de una década expertos de todo el continente americano llegaron a la conclusión de que la reconver- sión ambiental de la ganadería era de la mayor urgencia y ahora las dramáticas expresiones del cambio climático como sequías, inundaciones, huracanes y heladas cada vez más violen- tas, obligan a plantear con más fuerza esta transformación de la producción ganadera hacia modelos amigables con la naturaleza y con mayores beneficios económicos y sociales. Tres instrumentos se combinan en la actualidad para cambiar radicalmente los paisajes ganade- ros en degradación: una combinación de sistemas silvopastoriles (agroforestería pecuaria), incremento de la conectividad de los bosques relictuales a través de corredores naturales de drenaje (ríos, microcuencas) e incentivos económicos dentro de los que se destaca el pago por servicios ambientales. La combinación de sistemas agroforestales pecuarios permite el incremento de la productividad de carne y leche, optimiza el uso de las tierras más agroecológicamente más aptas lo que facilita la liberación de áreas para la restauración ecológica de vegetación de bosques (nativos y mixtos) la cual se dirige a incrementar la conectividad en el paisaje domi- nado por pastos. El pago por servicios ambientales se focaliza hacia favorecer el cambio de uso de la tierra hacia bosques de conservación en tanto que otros instrumentos como crédito, asistencia técnica especializada en buenas prácticas ganaderas y/ o mercados especiales faci- litan la multiplicación de los sistemas silvopastoriles. Todos estos elementos se organizan en arreglos espaciales a la escala del predio ganadero y su entorno hasta escalar hacia paisajes con matrices densamente arborizadas. El resultado es una combinación innovadora que se ajusta a las condiciones re- gionales de la ganadería, que permiten maximizar la productividad primaria por unidad de superficie aprovechando la energía solar y transformándola en bienes de interés económico

y social. Este artículo presenta avances de investigación, innovación y adaptación al cambio

climático de la ganadería sostenible en varios países de América Latina donde se logra incre-

mentar la producción por unidad, se mejoran los parámetros de calidad de leche y carne sin

requerir fertilizantes de síntesis, y emplear cantidades menores de suplementos alimenticios

y

riego. El éxito depende esencialmente del cambio cultural de los productores, autoridades

y

técnicos.

HISTÓRICO DA RESTAURAÇÃO NO ESTADO DE SÃO PAULO: REVISÃO DAS BASES TEÓRICAS

Paulo Y. Kageyama 1 João D. Santos 2

IntRodução

Historiar o processo da restauração no estado de São Paulo não é uma tarefa fácil, pois já se vão mais de 20 anos que este movimento técnico-científico iniciou-se em nosso es- tado, quando pesquisadores que trabalhavam em vários temas associados às florestas nativas engajaram-se nessa tentativa de reconstruir um novo ecossistema nas áreas degradadas da mata Atlântica. Na situação deste bioma, o mais degradado de todos do Brasil, sem dúvida este movimento que se iniciou com um pequeno número de pesquisadores alcançou um pa- tamar que conhecemos hoje, tomando muita importância principalmente devido à criação de políticas públicas importantes, principalmente no nosso estado e que têm servido de referên- cia para a maioria do país. Assim, essa tecnologia desenvolvida parece-nos que se mostrou satisfatória para cumprir com seus objetivos de formar um novo ecossistema rico em espécies e recobrir o solo com uma floresta que nos parecia ser sustentável, porém, também apontou que o plantio de somente árvores nesse processo de restauração não nos parecia coerente e satisfatório para copiar uma floresta, onde lianas, epífitas, arbustivas e herbáceas, sendo a grande maioria, não estavam representadas nesses modelos de restauração. Foi natural, portanto, que na crítica a esses modelos de restauração criados nesses últimos 20 anos, o plantio de somente árvores, aguardando que as não árvores chegassem por dispersão natural passasse por uma revisão, que é o que estamos atualmente vivendo. Devemos salientar que nesse período desde meados dos anos 80, quando algumas dezenas de milhares de hectares foram implantadas com esses modelos baseados em diversidade de espécies de árvores, principalmente pelas empresas hidroelétricas, muita pesquisa básica e aplicada foi também desenvolvida no tema. Essas pesquisas forneceram a base para o aprimo- ramento desses plantios de restauração como, por exemplo, originando projetos de restauração visando a créditos de carbono via MDL/Protocolo de Kioto, assim como originando pesquisas fundamentando novas perspectivas de avaliação crítica dos processos de regeneração natural e fluxo gênico via pólen e sementes, visando à sustentabilidade desses plantios de restauração. Dessa forma, vale a pena rever esses trabalhos básicos que nos parecem relevantes para se avaliar esse período de plantios com diversidade de espécies de árvores na restau- ração, para que a crítica e a autocrítica sejam fundamentadas em princípios e informações científicas. Isso sem dúvida possibilitaria colaborar na evolução da ciência e da tecnologia no tema da restauração. Desta forma, irá se juntar uma série de pesquisas que foram realizadas também nesse período, tanto sobre a reprodução das espécies nativas, como o fluxo gênico via pólen e sementes, além da estrutura genética das populações dessas espécies, Isso não preten- de esgotar o assunto, porém pode ajudar na discussão nesse momento onde o tema procura novos modelos e direções para a restauração, não só no nosso estado como no Brasil.

1 Professor Titular. ESALQ.USP

2 Pesq Dr do NACE-PTECA/ESALQ-USP

13

AvALIAção dA ReStAuRAção CoM áRvoReS

Nesse período de mais de 20 anos, desde meados da década de 80, o tema restau- ração no estado de São Paulo teve um avanço significativo, tanto no desenvolvimento tecnoló- gico da restauração, como no avanço das pesquisas básicas (Kageyama et al., 2008). Pode-se atestar isso através de exemplos na restauração aplicada, como a existência de mais de uma dezena de viveiros de espécies nativas com mais de um milhão de mudas e acima de 80 es- pécies produzidas anualmente, assim como projetos de restauração de APPs para Créditos de Carbono via MDL/Protocolo de Kioto. Na área de pesquisa básica, inúmeras publicações, dissertações e teses avançaram nas questões básicas de avaliação da regeneração natural de organismos não árvores, estudos de fluxo gênico de espécies importantes, tamanho efetivo de populações visando à coleta de sementes, efeito de borda na qualidade genética das sementes, introdução de espécies arbustivas e de epífitas, somente citando temas desenvolvidos pelo LARGEA/ESALQ/USP. Assim, logo após os 17 anos de implantação dos primeiros plantios da CESP, com a orientação técnico-científica da ESALQ/USP, foi apresentada uma dissertação de mestrado onde, entre outros objetivos, avaliou-se a presença de lianas e epífitas nos talhões implantados pela CESP, no Pontal do Paranapanema (Damasceno, 2006). A autora fez essa avaliação em talhões com 6, 11 e 16 anos, avaliando-se em dois períodos, no inverno e no verão, sendo que as três áreas tinham o mesmo modelo sucessional, e com a diversidade média de 100 espécies arbóreas por hectare. Os resultados em relação à presença de lianas nas árvores foram consi- derados satisfatórios, sendo que, aos 16 anos do plantio, 64,9% das árvores portavam lianas em seus troncos e copas. As grandes decepção e desolação vieram com relação às epífitas, já que os resultados foram muito sofríveis para não dizer horríveis, pois somente encontraram-se 2 indivíduos aos 6 anos e 1 indivíduo aos 11 anos de uma bromélia do gênero Tillandsia; e somente um indivíduo de uma Pteridofita aos 16 anos! Deve-se destacar que esta área onde foram gerados esses resultados experimen- tais, o Pontal do Paranapanema, é a região do estado de São Paulo onde ainda se tem a maior frequência de fragmentos de tamanhos significativos, o que agrava ainda mais o problema de não ocorrência de espécies de epífitas em áreas restauradas até os 16 anos de implantação. A figura 01 demonstra a fragmentação florestal em que se encontra hoje a região em questão. Apesar disso, o território abriga o maior remanescente de Mata Atlântica Esta- cional Semidecidual do país (fisionomia florestal predominante na região), o Parque Estadual do Morro do Diabo (PEMD), com cerca de trinta e cinco mil hectares (35.000 ha) de florestas em diferentes estados de boa conservação e parte dos mais significativos fragmentos dessa fisionomia no Brasil. Certamente que esses resultados negativos, muito embora não tenham interrom- pido os plantios de restauração, a partir do modelo somente com árvores em escala comercial, principalmente pelas empresas hidroelétricas, que são as que mais vêm plantando florestas de restauração ao redor dos reservatórios, fez com que houvesse um alerta em busca de alternativas para o problema. As universidades, instituições de pesquisas, órgãos governamentais e organi- zações não governamentais vêm se movimentando, procurando aprofundar- se na discussão do tema, incluindo muitos projetos de pesquisas nesse campo. O LARGEA/ESALQ inclusive já tem resultados muito preliminares sobre a utilização de espécies arbustivas no modelo somente de árvores (Miranda, 2011- comunicação pessoal), o que seria uma medida importante, pois inclui mais um estrato na floresta implantada, sendo muito importante por não deixar uma cla- reira desnuda ao morrerem algumas árvores. Da mesma forma, a introdução de duas espécies de orquídeas (Laelia sp e Oncidium sp) em áreas restauradas com 6 anos já apresenta resultados preliminares favoráveis (Domene, 2011). Mas fica claro que essas são medidas paliativas, pois

Figura 01 - Cobertura florestal no Pontal do Paranapanema (Adaptado de Santos 2011). PRodução de

Figura 01 - Cobertura florestal no Pontal do Paranapanema (Adaptado de Santos 2011).

PRodução de SeMenteS PARA ReStAuRAção

Ao se avaliar alguns dos problemas atuais emergindo em nossas discussões sobre o tema produção de sementes de espécies nativas, verifica-se que essas questões envolvem conceitos básicos que devem ser destacados sobre a reprodução, fluxo gênico e diversidade genética das espécies, assim como na sucessão da comunidade de espécies da

floresta tropical. Por exemplo, ao se questionar o problema da qualidade genética e fisio- lógica das sementes que vêm sendo produzidas nesses viveiros, são os conceitos básicos da reprodução e do fluxo gênico das espécies nativas a serem resgatados. Ao se tentar coletar sementes representativas da floresta tropical original, esbarramos na coleta muito fácil de alguns grupos de espécies, porém muito difícil para outros, como irá se destacar,

e

que vem se agravando com a intensidade da fragmentação. Sabe-se que as espécies clímax são comuns nas florestas naturais primárias

e

têm sementes, no geral, grandes, as espécies secundárias por seu lado são raras nesses

ecossistemas naturais e têm sementes leves, assim como as espécies pioneiras são comuns somente nas clareiras grandes da mata ou em áreas secundárias e têm sementes pequenas (Budowski, 1966). Dessa forma, vêm se constatando que as sementes de espécies clímax são as que vêm sendo mais prejudicadas, dadas as dificuldades de se encontrar popula- ções íntegras dessas espécies, associado ao problema do grande tamanho das suas semen- tes, o que não dá vantagem nem ao coletor e nem ao viveirista na estimativa do custo, ao se calcular o número de sementes por kilo. Fica este grupo desbalanceado na restauração? Assim, na coleta de sementes, que é sem dúvida onde se tem graves problemas na restauração, já que a grande maioria dos coletores e viveiristas não leva em conta a qualidade genética das sementes, tem-se todos os problemas possíveis e sendo difíceis de se solucionar. A coleta em populações naturais primárias, as quais têm muita dificuldade de se encontrar, pode ponderar que estas sejam livres de endogamia e têm cruzamento ao

15

acaso, podendo-se considerar a coleta de no mínimo 12 árvores mães uma boa resolução

a ser tomada. A base teórica dessa metodologia fundamenta-se no conceito de Tamanho

Efetivo Genético (Ne) (Gandara, 2009), que coloca que nesse tipo ideal de população a coleta de um número razoável de sementes por árvore (acima de 50) essas sementes de uma árvore matriz valem um Ne igual a 4. Isso significa que esse número, multiplicado por 12, dá um Ne total aproximado de 50, que é o número mínimo de árvores exigido para representar uma população para uso em médio prazo, como no caso da restauração. Alguns poucos coletores e viveiristas têm usado este procedimento, quando podem, o que

é muito difícil de seguir. Para o caso de coleta de sementes em áreas de florestas secundárias, onde a sua estrutura e a composição das espécies já estão descaracterizadas e diferenciadas da floresta original, que é a grande maioria atualmente, deve-se ter algum referencial para o estabeleci- mento de algumas metodologias aplicadas. Como não é possível de forma prática conhecer- -se o grau de parentesco entre as árvores na mata, para se estabelecer de quais árvores fazer a coleta de sementes evitando-se árvores muito aparentadas, poderiam estabelecer-se algumas regras em função do grau de degradação do fragmento. Por outro lado, não se podem estabelecer distâncias entre árvores para se evitar árvores aparentadas, já que ao se ter espécies mais raras ou mais comuns na mata, a distância não pode ser parâmetro para a definição de proximidade genética entre árvores. Assim, ao se evitar árvores próximas pos- síveis aparentadas, deve-se estabelecer, por exemplo: se coleta de uma árvore e pula-se uma

(50%); ou se coleta de uma árvore e pulam-se duas sem coleta (33%), etc. O efeito de borda em fragmentos também manifesta-se nas características de qualidade genética das sementes a serem coletadas, já que a polinização mostra-se[ diferenciada na borda ou no interior do fragmento (Tarazi, 2009), se bem que este é um detalhe de caráter científico somente para ilustrar até onde vão os detalhes da reprodução das espécies. Da mesma forma, populações diferentes de uma mesma espécie apresentam muitas vezes coeficientes de endogamia diferenciados, e com isso definindo tamanhos efetivos não similares, em consequência números mínimos para coleta de sementes dife- rentes (Gandara, 2009). Ainda na coleta de sementes, a localização e escolha das populações e das árvores matrizes para coleta de sementes é sempre um problema para o coletor, fazendo com que ele quase sempre fuja às regras técnico-científicas. Assim, as espécies pionei- ras são as que têm menos problemas para se ter matrizes adequadas para produção de sementes, já que, por estas serem prolíficas, precoces na frutificação e terem populações adequadas em áreas de florestas secundárias, apresentam todas as condições de produção de sementes de boa qualidade genética em grande quantidade. No entanto, as espécies secundárias, por serem normalmente raras na floresta natural preservada, ou abaixo de uma árvore adulta por hectare, apontam muita dificuldade para se encontrar no mínimo 12 matrizes para a formação de um lote adequado de sementes. As espécies clímax, ou finais na sucessão, normalmente têm grande impacto com a intervenção na floresta, ou mesmo desaparecem em florestas secundárias, havendo dificuldades para se encontrar popula- ções de tamanho adequado para fornecimento de sementes geneticamente adequadas. Deve-se apontar uma falha em que normalmente se incorre, que é o do uso da seleção de matrizes para coleta de sementes de nativas para restauração. Como se consi- dera que se deseja uma representatividade das populações das espécies na restauração, a seleção não seria uma metodologia correta sob o ponto de vista considerado. Ademais, sabe-se que a seleção em condições de populações naturais não tem efeito na qualida- de das sementes colhidas, já que o fenótipo da matriz não condiz com a sua qualidade genética, mas sim às condições locais onde a mesma cresceu e se desenvolveu (grau de

Para finalizar, sem esgotar o tema, é importante salientar que os plantios de restauração podem vir a ser no futuro áreas de produção de sementes, se levarmos em conta a intensidade da degradação ambiental que vivenciamos hoje, e desde que tenham sido implantados com material representativo e de boa qualidade genética. Dessa forma, acredita-se que ações e políticas públicas efetivas devam ser implementadas no tema de produção e qualidade genética e fisiológica de sementes, para que de fato estejamos fa- zendo de algum modo a restauração sustentável de florestas.

FLuxo GênICo e PRoPoStAS de ReStAuRAção

Os fluxos gênicos via pólen e/ou sementes são de fato, tanto os nossos pro- blemas, como também as nossas soluções na área de restauração, se não vejamos: o fato de termos na Mata Atlântica ecossistemas degradados e uma fragmentação desenfreada de nossas florestas e populações de espécies, isso torna as pequenas áreas de florestas sem condições de conter populações mínimas viáveis de espécies, principalmente para aquelas consideradas raras. Assim, ficamos reféns da necessidade de corredores ecológi-

cos ou de fluxo gênico, para refazer as populações fragmentadas, para torná-las protago- nistas de novo nos ecossistemas da paisagem rural, ou no que se tem preconizado como agroecossistemas. Por outro lado, como temos espécies de distância de fluxo gênico, via pólen e sementes, tanto curta, como média e longa distâncias, vale a pena colocar-se as implicações dessas diferenças entre os grupos de espécies considerados, principalmente para enfrentar os problemas tanto de implementação de corredores ecológicos, como de adicionar novos organismos além das árvores na restauração. O problema que vem se apresentando é como se aproveitar das características das espécies, ou de grupos destas, para novas alternativas de sua utilização por regeneração natural, além dos plantios de restauração por mudas de árvores.

A evolução das tecnologias para mensuração da distância de fluxo gênico teve

grande avanço nessas últimas décadas, com as técnicas da genética molecular destacan- do-se significativamente. Espécies arbóreas secundárias raras apresentam no geral fluxo gênico via pólen a longas distâncias, enquanto espécies clímax comuns têm fluxo gênico

via pólen a curtas distâncias (ver Tabela 01). Para o fluxo gênico via sementes, da mesma forma há certa correspondência entre a distância na dispersão de sementes e a ocorrência natural na floresta natural. Assim, as espécies clímax comuns têm no geral fluxo gênico a curtas distâncias, enquanto as espécies secundárias raras têm fluxo gênico a longas distâncias (Tabela 02).

O grupo ecológico das espécies pioneiras é privilegiado quanto aos impactos

do desmatamento e da fragmentação das florestas naturais, pois, tendo diversidade gené- tica entre populações, no geral, maior do que dentro de populações, essa destruição dos habitats aumenta o tamanho das populações dessas espécies como também aumenta a di- versidade genética dentro dessas novas populações impactadas. Portanto é o único grupo de espécies que leva vantagem genética, em curto prazo, com a fragmentação das florestas naturais. O fluxo gênico via sementes em longas distâncias desse grupo de espécies, nor- malmente por vetores de vôo de grandes deslocamentos (pássaros e morcegos) especialis- tas de clareiras grandes, fazem com que não tenhamos problemas com esse grupo suces- sional quanto à qualidade genética das sementes. Isso facilita o trabalho de sua utilização tanto para plantio por mudas como por regeneração natural (Bianconi e Mikich, 2011).

Tabela 01. Fluxo Gênico Via Pólen em Espécies Arbóreas por Marcador Molecular.

Distância de Fluxo Gênico

Espécies Arbóreas

Tipo de Polinizador

Técnica Genética

54 M

Palmiteiro*

Abelha Pequena

Isoenzima

300 M

Freijó**

Mariposa

Isoenzima

1

000 M

Tauarí

** Abelha Grande

Isoenzima

7

123 M

Jatobá**

Morcego

Microsatélite

**Espécie Clímax Comum; *Espécie Secundária Rara

Tabela 02. Distância de dispersão de sementes de espécies arbóreas secundárias raras e clímax comum da Mata Atlântica (Estacional Semidecidual).

Espécie

Gr Ecológico

Tipo Dispersor

Dist Dispersão

Guarantã

Clímax Comum

Autocoria

5,2 M

Palmiteiro

Clímax Comum

Fauna

61,0 M

Paineira

Secund. Rara

Anemocoria

1 280 M

Fonte: LARGEA/ESALQ/USP

Já o grupo ecológico das espécies arbóreas secundárias, este tem a raridade dos indivíduos como sua característica principal, tendo portanto, o fluxo gênico via pólen e se- mentes em longas distâncias como marca das espécies do grupo. Dessa forma, sendo estas espécies raras, têm elas mais susceptibilidade à fragmentação, pois suas populações exigem maiores áreas para contê-las. Por outro lado, os corredores do tipo “stepping stone” são mais funcionais para esse grupo de espécies secundárias raras por seu fluxo gênico via pólen de longa distância (Santos, 2002). Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que essas espécies têm também, no geral, maior endogamia por autofecundação e menor diversidade genéti- ca dentro de suas populações, comparativamente às espécies clímax, o que traz problemas quanto aos cuidados, tanto quanto ao seu uso em plantações de mudas como em aplicação na regeneração natural. Por outro lado, as espécies arbóreas clímax, que são normalmente comuns nas flo- restas naturais primárias, têm normalmente fluxo gênico em curta distância, porém sendo com- patíveis com sua ocorrência em alta densidade de árvores por área. Dessa forma são menos susceptíveis à fragmentação das florestas, já que pequenos fragmentos são capazes de capturar uma população mínima viável desse grupo de espécies. Ademais, essas espécies clímax são as que vêm apresentando maior diversidade genética dentro de populações e menor diferenciação genética entre suas populações naturais. Corredores de fluxo gênico são pouco necessários para esse grupo de espécies, diferenciando-se sobremaneira do grupo das espécies secundárias. Visando à discussão sobre o denominado Método da Nucleação (Três e Reis, 2006), com predominância do uso da regeneração natural para a restauração de áreas degra- dadas, primeiramente deve-se salientar que, como já apontado, essa contribuição trouxe novo enriquecimento do debate sobre o tema da restauração, altamente salutar para a evolução da ciência e da tecnologia na área. Inicialmente destaquemos nesta metodologia os poleiros ar- tificiais, que têm a importante missão de atrair pássaros dispersores de sementes, que seriam responsáveis pela deposição de sementes e formação de populações de espécies vegetais. É importante apontar que os pássaros e os morcegos em áreas degradadas normalmente são cita- dos como dispersores de espécies principalmente pioneiras, tanto de árvores como de arbustos e ervas que habitam clareiras grandes na mata natural ou em áreas degradadas. Dessa forma,

Devemos destacar também na metodologia em questão o uso do banco de se-

mentes, trazidos de florestas próximas bem conservadas, para aplicação nas áreas degrada- das a restaurar. O mais importante a enfatizar da predominância nesse banco de sementes seria também principalmente de espécies pioneiras, o que prioriza também esse grupo de espécies como predominante nessa metodologia. Já no caso do uso da chuva de sementes, há também uma predominância de sementes de um grupo ecológico, o das secundárias de dispersão pelo vento, muito embora eventualmente outros grupos de espécies de sementes possam ser beneficiados. Portanto, o uso de chuva de sementes inclui um grupo importante que é o das secundárias.

O mais importante, sem dúvida, desta metodologia vem contribuir grandemente

para o avanço da discussão sobre novas ferramentas a serem utilizadas na restauração, somando-

-se aos trabalhos sendo conduzidos nesses últimos mais de 20 anos. Duas questões podem ser colocadas: i) a efetividade dessa metodologia está diretamente associada à maior ocorrência de fragmentos em bom estado de conservação, próximos às áreas a serem restauradas; e ii) associar ou somar essas novas tecnologias às de plantio de mudas ou sementes de espécies nativas com modelos sucessionais com alta diversidade de espécies arbóreas seria salutar e mereceria ser experimentado, o que por sinal já está se fazendo. Os resultados virão em seu prazo.

ConSIdeRAçõeS FInAIS

O rápido histórico da restauração no estado de São Paulo, incluindo uma avalia-

ção tanto dos avanços dos programas de plantios de proteção com espécies nativas em grande

escala, incluindo os voltados para créditos de carbono, assim como os avanços das propostas de metodologias de restauração enfocando ou priorizando a regeneração natural, aponta que estamos num momento importante de busca de um novo patamar na ciência e tecnologia da restauração no estado e, por que não, no país.

A discussão no Congresso Nacional, na Academia e na Sociedade sobre uma

possível mudança no Código Florestal aguça o problema, mostrando o quão importante são essas tecnologias que vêm sendo discutidas na restauração. Da mesma forma, aponta também para a necessidade sempre imprescindível da pesquisa básica sobre as questões e conceitos referentes à reprodução, fluxo gênico, diversidade genética e sucessão ecológica, que estão associados à geração e sustentabilidade da biodiversidade.

ReFeRênCIAS BIBLIoGRáFICAS

Bianconi, G.V. e Mikich, S.B. 2011. Restauradores da Floresta. Ciência Hoje. 285. Vol 48. p.

47-50.

Budowski, G. 1965. Distribution of tropical american rain forest species in the light of succes- sional processes. Turrialba, San José, v.I 5, p.40-42.

Damasceno, A.C.F. (2006). Macrofauna edáfica, regeneração natural de espécies arbóre- as, lianas e epífitas em florestas em processo de restauração com diferentes idades no Pontal do Paranapanema. Dissertação de Mestrado. ESALQ-USP. Piracicaba. SP. 107 p.

Domene, F., Gandara, F.B. e Kageyama, P.Y. 2011.Avaliação da introdução de duas espécies de orquídeas (Cattleya forbesii e Oncidium flexuosum) em áreas de restauração flores- tal em Anhembi-SP. Simpósio SIICUSP.

Gandara, F.B. (2009). Diversidade genética de populações de Cedrela fissilis (Meliaceae) no Centro-Sul do Brasil. Tese de Doutoramento. ESALQ - USP. 87 p.

19

e Oliveira, R.E. 2008. Biodiversidade e restauração da flo-

resta tropical. In: Restauração Ecológica de Ecossistemas Naturais. p. 28-48. FEPAF. Botucatu-SP.

Reis, A. e Tres, D.R. 2006 Nucleação: Integração das comunidades naturais com a paisagem. In: Manejo Ambiental e Restauração de Áreas Degradadas. Fund. Cargill. P. 29-55.

Santos, J.D. (2002). Estudos ecológicos e genéticos numa paisagem fragmentada visando sua conectividade no Pontal do Paranapanema. Dissertação de Mestrado. ESALQ-USP. 101 p.

Kageyama, P.Y., Gandara, F.B.

Tarazi, R. (2009). Diversidade genética, estrutura genética espacial, sistema de reprodução e fluxo gênico em uma população de Copaifera langsdorffii no cerrado. Tese de Doutora- mento. ESALQ-USP. 139 p.

IMPACTOS DAS ALTERAÇÕES NO CÓDIGO FLORESTAL

Sergius Gandolfi 1

O Código Florestal Brasileiro criado em 1965 introduziu avanços extraordinários na legislação então em vigor, pois ele articulou convenientemente usos rurais tradicionais, com a proteção de ecossistemas e o uso sustentável da biodiversidade. Essa concepção ino- vadora fundamentou-se em estabelecer três tipos de áreas, aquelas destinadas integralmente a proteção, as Áreas de Preservação Permanente (APP), aquelas com dupla função, de pre- sevar e permitir uso sustentável da biodiversidade nativa, as Reservas Legais (RL), e aquelas voltadas à agricultura, pecuária, à silvicultura, etc. Se os esforços governamentais tivessem desde da edição dessa lei sido feitos para que o seu contéudo fosse seguido, não haveria nos dias atuais o imenso estoque de terras abandonadas, ou degradadas e a dimensão dos danos ambientais no meio rural teriam seguramente outra escala. Infelizmente, não foi o que se fez. No entanto, a existência desse instrumento legal foi fundamental para que nos últimos trin- ta anos a sociedade pressionasse e obtivesse, dos governos, ações efetivas de cumprimento desses preceitos legais. Na esteira desse processo fundamental de controle e comando, que muitos irrefletidamente querem ver extintos, é que se tem conseguido reverter parcialmente o grave quadro de degradação hoje existente. Esse Código não apresenta hoje a mesma redação original, e nem poderia, pois assim como ao longo dos anos a crescente consciência ambiental da sociedade passou a exigir do cidadão urbano a coleta de esgoto e a separação doméstica do

lixo, das cidades, aterros sanitários e tratamento de esgotos, das indústrias, filtros e chaminés, tratamento de efluentes e deposição adequada de resíduos, também do meio rural passou-se a exigir ações que melhor reduzissem os danos ambientais produzidos pelas atividades agrossil- vopastoris, assim, ampliaram-se as faixas marginais de APPs, alteraram-se aspectos das RLs. Os comentários que se seguem foram redigidos quando ainda estão em curso alterações na proposta apresentada de criação de um novo Código Florestal. Já votado na Câmara de Deputados o Novo Código tem redação distinta da sua primeira proposição, e no Senado ele vem sofrendo diariamente alterações, oriundas de emendas que vão sendo apre- sentadas. Nesse contexto, não é possível fazer-se aqui uma análise item por item da versão definitiva dessa nova Lei que se quer aprovar, mas já é possível descrever o espírito perverso das alterações que estão sendo pretendidas. O intuito geral das propostas apresentadas pelos representantes do agronegócio e outros interessados tem até aqui sido de simplesmente eli- minar o passivo ambiental dos proprietários rurais, sem custos ou ônus de quaisquer espécies para esses, bastando para tanto:

• que seja aprovada uma anistia geral dos crimes ambientais já perpetrados,

• que sejam eliminados os conceitos legais que implicam na preservação de áreas (APP e RL),

• que seja elimidada a exigência de restauração de áreas protegidas que foram destruídas, ou foram, ou estão sendo hoje ilegalmente ocupadas,

• que seja convertida toda ocupação ilegal em direito adquirido,

• que o dano ambiental seja transformado em direto à degradação, que para não ser exercido, deva ser remunerado por um imposto disfarçado pelo nome pom- poso de Pagamento de Serviços Ambientais (PSA), • que a legislação passe a ser definida em nível estadual ou municipal, instâncias mais aptas a se curvarem ante à força do poder econômico e dos interesses po- líticos locais, etc. Os últimos meses têm ensinado que o esforço da sociedade pode sim deter as per- das que se quer impor à legislação, mas ao mesmo tempo inspiram dúvidas sobre se os órgãos legislativos atenderão as justas demandas da imensa maioria da sociedade que não concorda com essas alterações, ou se ele se curvará, como até aqui se curvou, à satisfação de interesses menores.

Frente à dimensão desse embate, algumas reflexões de mais longo prazo devem ser buscadas. As tentativa de destruição do Código Florestal em vigor vêm já de longa data

e se no passado seus proponentes foram derrotados, há que se observar que com mais frequ-

ência e mais desenvoltura eles têm mobilizado recursos a fim de alcançarem seus intentos. Isso nos alerta de que essa fase atual dos embates pode não ser a última e que se essas forças forem agora derrotadas, elas tenderão no futuro a voltar reunindas a outros interesses para novas investidas. O traço principal desses interesses é a negação de que a propriedade priva- da tenha função social e ou ambiental, mesmo que esses preceitos constem da constituição. Ao contrário, os adeptos dessa visão entendem que se funções sociais ou ambientais podem existir, ainda que em pequena monta, elas não seriam direitos da sociedade, mas ao contrário “serviços” que poderiam ou não ser prestados e que na eventual vontade ou obrigação de se ter de prestá-los, eles deveriam ser regiamente remunerados, como produtos que se pode, ou não querer vender, no balcão dos negócios. O risco desse discurso é o que já se observa no meio rural, onde muitos produtores desavisados começam agora a se sentir lesados por não estar sendo remunerados, enquanto outros defendem que não devem e nem precisam prestar serviço algum, pois a remuneração que obterão com outros usos lhes parece melhor e mais interessante. Há assim uma crise em gestação no meio rural e se faz urgente combater essa idéia perserva de “Pagamentos de Serviços Ambientais - PSA” que transforma dano ambien- tal em direito, torna a sociedade refém de interesses econômicos e poderá criar de forma legal a opção pela degradação, se a remuneração pretendida não atender aos interesses dos “prestadores de serviços”. Existem hoje no Brasil cerca de 330.000.000 hectares em cerca de 5.200.000 propriedades rurais, se 10% dessa área forem de APP de margem de rio, então seriam 33.000.000 hectares de APPs, e se cada hectare florestado tiver de receber anualmente R$ 100,00 pelo Pagamento de Serviços Ambientais, então seriam R$ 3 bilhões de reais anuais que deveriam ser pagos, algo impraticável. Mais ainda, seria esse um imposto social injusto que enriquecerá os ricos, pois apenas 10% dos proprietários rurais receberiam 77% desses R$3 bilhões de reais, uma vez que esses 10% de médios e grandes proprietários são quem detém hoje 77% das terras! Dadas essas considerações mais gerais é preciso pensar que a única preservação efetivamente hoje garantida, e com a qual se pode contar a longo prazo, é aquela existente nas unidades de conservação públicas que até aqui parecem ter mais chances de sobreviver que outras áreas protegidas. Tal constatação nos faz refletir se tais UCs estão mesmo cumprindo todo o papel de conservação da biodiversidade que deveriam. A resposta mais direta é não, pois muitas não têm recebido do poder público a proteção que lhes confere a lei, e muitas fo- ram criadas não pela excepcional condição de proteção que apresentavam, mas antes porque

foram áreas que o Estado herdou como pagamento de dívidas, etc. Urge, portanto, concentrar esforços na efetiva proteção e restauração dessas áreas, pois é nelas que, no limite, podem vir

a restar o que se pretende preservar. Governo, estados, municípios, ONGs, empresas privadas

22 que venham a investir recursos nessas UCs seguramente terão resultados mais rápidos e mais

efetivos na restauração de comunidades e ecossistemas, e na preservação da biodiversidade, do que com os recursos aplicados em outras áreas, pois nas UCs as fontes de propágulos, a fauna e as condições de restauração são, em geral, melhores do que aquelas existentes em muitas áreas privadas. Tal ênfase, não implica, de forma alguma, em se dizer que ações junto aos proprietários privados devam ser reduzidas ou abandonadas, mas ao contrário, que o que se tem abandonado até aqui é a restauação desses sítios privilegiados, os únicos que são efe- tivamente coletivos. Entre os muitos absurdos presentes na nova proposta de Código Florestal chama em especial a atenção a dramática falta de qualquer base científica que fundamente a crimi- nosa tentativa de se reduzirem as áreas de preservação permanentes ribeirinhas. Ao contrário, há vasta literatura que dá suporte à idéia de se preservar as zonas ripárias, várzeas e áreas úmidas marginais aos rios pelas suas importantíssimas funções ecológicas (p.ex., Lowrance et al.,1997; Rodrigues & Leitão Filho, 2001; Meyer et al., 2003; Sweeney et al., 2004; Zai- mes, et al., 2004; Tundisi & Tundisi, 2010). Essa redução das APPs presente na proposta de mudança do Código Florestal já aprovada na Câmara, está sendo feita através de várias medidas como a mudança no critério de mensuração dos rios, ou a redução das áreas de APP que devam ser restauradas no rios de menores dimensões (~90% do percursso da maioria dos rios) e se configuram num absurdo sem nenhuma justificativa cientificamente sustentável. No entanto, essas mudanças propostas levarão a graves conseqüências como, por exemplo, à degradação das margens dos cursos d’água e das áreas úmidas marginais, o que levará para dentro dos rios maiores quantidades de sedimentos, fertilizantes e agrotóxicos, que afetarão diretamente a qualidade da água para uso rural, urbano e industrial, aumentando os custos de tratamento de água em todo o país. Devido à menor retenção de água nessas áreas durante os períodos de chuvas, grandes volumes de água seguirão para dentro dos rios causando, inun- dações maiores e mais freqüentes em todo o país, e, portanto maiores danos materiais e perda de vidas. Como água preferencialmente fluirá à jusante e não ficará estocada nos solos e nos aqüíferos durante o período de chuvas, a vazão dos rios se reduzirá durante a seca, e conse- qüentemente a oferta de água para consumo rural, urbano e industrial. Grandes volumes de sedimentos que ficariam retidos nessas áreas serão agora transportados rio abaixo, assoreando rios, açudes e represas, reduzindo-se o tempo de vida e a capacidade de funcionamento dos

reservatórios de abastecimento público, e de geração de energia elétrica. Crises nos setores de abastecimento de água e energia serão, com o tempo, mais freqüentes levando a que esses re- servatórios percam sua viabilidade. Os portos fluviais e marinhos serão assoreados exigindo- -se dragagens extensas, permanentes e onerosas, afetando-se a navegação fluvial e marinha,

o que resultará em aumentos de custos para a exportação. Haverá ainda extensa degradação

dos habitats aquáticos, com destruição da fauna aquática e redução da pesca. Embora todas as regiões brasileiras venham a sofrer perdas com a extensa destruição de florestas (APPs e RLs)

resultantes das mudanças previstas, serão sobretudo as regiões de ocupação mais antiga, hoje

já muito degradadas, que mais sofrerão, pois nelas ocorrerão grandes perdas de fauna e flora,

justamente onde elas já são muito escassas. Farta liberação de carbono que hoje é retida nas áreas úmidas ribeirinhas e nas florestas ciliares, ocorrerá com o desmatamento generalizado que deve se seguir às mudanças propostas. Portanto, o panorama é muito grave. Outra discussão importante é a que diz respeito à existência e a manutenção das Reservas Legais. Infelizmente embora seja uma grande “oportunidade” de preservação aliada

à

lucro, à criação de novos empregos, no campo e na indústria, de criação de novos produtos

e

mercados, de amplas possibilidades de exportação, de distribuição difusa de renda e bem-

-estar, elas têm sido vistas até aqui apenas como um “problema”, menosprezadas pela incapa- cidade de muitos em reconhecer as vantagens que elas podem representar para o proprietário,

a sociedade e o país. Nesse momento da história mundial, que país, salvo o Brasil, detém um contingente tão grande de novas matérias primas denominadas biodiversidade e tem condi-

23

ções econômicas atuais de explorá-las? Um estoque de oportunidades de negócios, emprego

e renda que pode atingir direta ou indiretamente todas as camadas da sociedade brasileira, ao

mesmo tempo em que exerce uma função de conservação fundamental. As Reservas Legais são na realidade um instrumento inestimável e estratégico para o desenvolvimento econômico, social, científico e tecnológico brasileiro. Há, no entanto, urgente necessidade de se ampliar

estudos e projetos práticos para desencadear, por todo o Brasil, o aproveitamento florestal sus- tentável dessas RLs que devem ser, sim, restauradas. Tais áreas poderiam de forma racional

e sustentável permitir e estimular o uso da biodiversidade natural brasileira, sobretudo a flo-

restal, de forma difusa e privada, para atender uma demanda reprimida de produtos florestais que já existe, como se observa com a lenha e o carvão. Mas os produtos madeireiros seriam apenas “a ponta do iceberg”, pois dessas RLs se podem extrair frutíferas, corantes naturais, resinas, látex, fitoterápicos, mel, para abastecer o mercado interno, e inclusive o mercado externo com produtos únicos sobre os quais o Brasil poderia controlar os preços (p.ex.: açaí). Assim, em vez de eliminar as RLs, o Código Florestal, aliado às políticas públicas e privadas, deveria estimular isenções, créditos e a criação de cadeias de negócios para a produção, a co- mercialização e a industrialização de produtos nativos aí produzidos. Mas nada disso se fará sem pesquisa científica na restauração dessas RLs, e em estratégias de manejo sustentável dessas áreas, e no aproveitamento racional e sustentável dos produtos aí existentes. Portanto, necessita-se de uma política científica nacional e também,estadual para dar suporte às RLs. A discussão desse tema é vasta e complexa, aqui apenas foram arranhados alguns dos aspectos mais críticos, mas para os que desejem se aprofundar nessa questão e queiram

conhecer melhor a fundamentação científica que suporta a luta pela manutenção das conquis- tas existentes no Código Florestal em vigor, sugiro que consultem o documento produzido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e pela Academia Brasileira de Ciências para subsidiar a discussão (Silva et al., 2011) e também outros trabalhos que fornecem infor- mações importantes (p.ex., Metzger, 2010; Rodrigues et al., 2010; Calmon et al., 2011)

ReFeRênCIAS BIBLIoGRáFICAS

Calmon, M.; Brancalion, P.H.S.; Paese, A.; Aronson, J.; Castro, P.; Silva, S.C.; Rodrigues, R.R. 2011. Emerging threats and opportunities for large-scale ecological restoration in the Atlantic Forest of Brazil. Restoration Ecology 19: 154-158.

Lowrance, R.; Altier, L.S.; Newbold, J.D.; Schnabel, R.R.; Groffman, P.M.; Denver, J.M.; Cor- rel, D.L.; Gilliam, J.W.; Robinson, J.L. 1997. Water Quality Functions of Riparian Forest Buffers in Chesapeake Bay Watersheds. Environment Management 21 (5): 687-712.

Metzger, J.P. 2010. O Código Florestal tem base científica? Conservação e Natureza 8: 92-99.

Meyer, J.L.; Kaplan, L.A.; Newbold, D.; Strayer, D.L.; Woltemade, C.J.; Zedler, J.B. ; Beilfuss R.; Carpenter, Q.; Semlitsch, R.; Watzin, M.C.; Zedler, P.H. 2003. Where Rivers Born:

The Scientific Imperative for Defending Small Streams and Wetlands. Sierra Club Foun- dation, The Turner Foundation, American Rivers, USA, 23 p.

Rodrigues, R.R.; Gandolfi, S.; Nave, A.G.; Aronson, J.; Barreto, T.E.; Vidal, C.Y. e Brancalion, P.H.S. 2010. Large-scale ecological restoration of high-diversity tropical forests in SE Brazil. Forest Ecology and Management 26: 1605-1613.

Rodrigues, R.R. e Leitão Filho, H.F (eds). 2001. Matas Ciliares: Conservação e Recuperação. 2ª ed. EDUSP; FAPESP, São Paulo, 320 p.

Silva J.A.A., Nobre A.D., Manzatto C.V. et al. 2011. O código florestal e a ciência: contribui- ções para o diálogo. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): Academia

24 Brasileira de Ciências (ABC), São Paulo. 122 p.

Sweeney, B.W.; Bott, T.L.; Jackson, J.K.; Kaplan, L.A.; Newbold , J.D., Standley, L.J.; Hession, W.C.; Horwitz , R.J. 2004. Riparian deforestation, stream narrowing, and loss of stream ecosystem services. Proceedings of the National Academy of Sciences 101(39):14132–

14137.

Tundisi, J.G. e Tundisi, T.M. 2010. Impactos potenciais das alterações do Código Florestal nos recursos hídricos. Biota Neotropica 10 (4): 67-78.

Zaimes, G.N.; Schultz, R.C.; Isenhart, T.M. 2004. Stream bank erosion adjacent to riparian forest buffers, row-crop fields, and continuously-grazed pastures along Bear Creek in central Iowa. Journal of Soil and Water Conservation 59 (1): 19-27.

CÓDIGO FLORESTAL: DESDOBRAMENTOS DAS AÇÕES NO CONGRESSO NACIONAL

Ricardo Tripoli 1

1. IntRodução

Preocupar-se com a qualidade de vida da todos os brasileiros é, sem dúvida, uma das principais funções dos parlamentares. Entender os pressupostos do Código Florestal, desde 1965 quando foi criado, certamente fortalece a atuação que devemos ter, no sentido de que a conservação das florestas e de outros ecossistemas naturais interessa a toda a sociedade. Assim entendemos que ao conservar as florestas garantimos, para todos nós, serviços ambientais bási- cos como a produção de água, a regulação do ciclo das chuvas e dos recursos hídricos, a prote- ção da biodiversidade, a polinização, o controle de pragas e doenças, o controle de assoreamento de rios e o equilíbrio do clima, que de alguma forma sustentam a vida e a economia de todo o país. Por outro lado, o “código florestal” é a única lei nacional que veta a ocupação urbana de- sordenada, agrícola de áreas de risco sujeitas, por exemplo, a inundações ou deslizamentos, e de áreas de mananciais, capazes de comprometer a qualidade das águas de abastecimento. O Código Florestal tem como característica fundamental a determinação das obri- gações de se preservar áreas sensíveis e de se manter uma parcela de vegetação nativa no in- terior de propriedades rurais, respectivamente denominadas área de preservação permanente (APP) e reserva legal (RL). Com base nestes pressupostos, por diversas vezes pronunciei-me na Tribuna da Câmara de Deputados Federais para abordar o Projeto de lei 1876/1999, que modifica o Có- digo Florestal Brasileiro (CFB). Como membro da Comissão Especial que debateu o assunto no Congresso Nacional, participei ativamente da discussão da proposta. No entanto, desde o início, a discussão deu-se de forma irresponsável e desigual. Não houve paridade. A Comissão Especial era composta por maioria ruralista (treze parla- mentares) e minoria ambientalista (somente cinco). Penso que o relatório aprovado pelo Plenário da Câmara causa arrepio na comu- nidade científica. Avalio que a reformulação do Projeto de Lei 1876/99 foi feita sem base científica. A maioria da comunidade científica não foi consultada e a reformulação foi pautada em interesses unilaterais de determinados setores econômicos.

2. MudAnçAS do CódIGo FLoReStAL que PodeM SeR CAtAStRóFICAS

PARA A ConSeRvAção do MeIo AMBIente

Quando este artigo estava sendo redigido, as grandes polêmicas recaiam sobre os seguintes pontos:

a) Anistia sobre desmatamentos ilegais ocorridos até julho de 2008(art. 3º III) b) Permite que a autorização de desmatamento seja outorgada por órgãos muni- cipais (art. 27), a quase totalidade dos quais não possui condição e estrutura para tanto

c)

Cria manejo “agrossilvopastoril” de RL, um conceito pelo qual haveria manejo pecuário dentro da RL (par. 1º do art. 18)

d) Reduz RL em todo o país e de todos os tamanhos, retirando 4 módulos fiscais da base de cálculo da mesma (até 400 hectares)

e) Permite pecuária extensiva em topos de morros, montanhas, encostas, etc. (art. 10)

f) Permite desmatamento total de todas as APPs do país, ao definir de interesse social qualquer produção de alimentos, que permite derrubar APP (art. 3, IV g.)

g) Anistia de multa por desmatamento ilegal por prazo indefinido, até que o poder

público implante Plano de Recuperação Ambiental (art. 30). Em que pesem os argumentos e análise dos pontos centrais do Código Florestal aprovado pela Câmara de Deputados, os ruralistas entendem que, para os agricultores, é fun- damental que a regularização ambiental seja cumprida e para isto precisa ser flexibilizada, propiciando assim um aumento de produtividade. Ressalto o documento elaborado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em ação conjunta, as en- tidades enviaram ofício ao então relator da matéria, deputado Aldo Rebello (PC-doB-SP), ponderando que o aumento da produtividade não significa a expansão das fronteiras agrícolas. No documento, ambas as instituições ressaltam que é possível ganhar produti- vidade sem precisar incorporar novas terras. Segundo o deputado, o que o país precisa é de políticas de ordenamento do território que indiquem quais são as áreas a serem ocupadas para a produção agropecuária futura.

3. entendIMento e BASe dAS InteRvençõeS nA CoMISSão eSPeCIAL dA CAMâRA doS dePutAdoS

Ao tentar minimizar os problemas do agronegócio, a proposta põe em risco a biodiversidade e os serviços ambientais prestados pela floresta. A anistia concedida a quem desmatou até julho de 2008 é um absurdo. O código já tinha sido modificado em 1989, quando se usou o avanço do conhecimento científico para aprimorar a versão original. Não há por que agora dizer que quem devastou está perdoado. A restauração das terras tem de ser exigida. Se isso não acontecer, vão ocorrer novos desmatamentos. A malfadada modificação do Código Florestal pode levar a um aumento de emis- sões de gás carbônico e à extinção de pelo menos 100 mil espécies. O número citado conside- ra uma eventual perda de 70 milhões de hectares na Amazônia, em decorrência da diminuição da Reserva Legal. Vamos perder biodiversidade e nossas florestas não vão funcionar como deve- riam. Haverá empobrecimento do solo, erosões, assoreamento de rios e danos irreparáveis em serviços ambientais dos quais a própria agricultura depende. Tais prejuízos poderão contribuir para aumentar desastres naturais ligados a des- lizamentos em encostas, inundações e enchentes nas cidades e áreas rurais, como ocorrido recentemente na região sudeste. Qualquer aperfeiçoamento ao Código Florestal que o Congresso Nacional promo- va deve ser conduzido à luz da ciência e com a definição de parâmetros que conservem um modelo econômico que priorize, sempre, a sustentabilidade. Agora, cabe ao Senado Federal ter maturidade e contornar as lacunas deixadas pela Câmara.

4.

PontoS MAIS CRítICoS SoBRe AS PRInCIPAIS MudAnçAS nA PRoPoStA que

ReFoRMuLA o CódIGo FLoReStAL BRASILeIRo (PRojeto de LeI nº 1876/1999)

A seguir são apresentados os 13 pontos que entendemos como os mais críticos e polêmicos da proposta de reformulação do Código Florestal:

I.

Considerar como consolidados desmatamentos ilegais ocorridos até ju- lho de 2008 (Art. 3o III). Entre junho de 96 a julho de 2006 foram mais de 35 milhões de hectares desmatados ilegalmente no Cerrado e na Amazônia;

II.

Permite consolidação de uso em APPs de rios de até 10 m de largura (+ de 50% da rede de drenagem, segundo SBPC), reduzindo APP de 30 para 15m irrestritamente (art. 36), para pequenas, médias e grandes propriedades.

III.

Permite autorização de desmatamento dada por órgãos municipais (art. 27). Mais de 5,5mil municípios autorizando desmatamentos!

IV.

Permite exploração de espécie florestal em extinção, por exemplo a araucária, hoje vetada pela Lei da Mata Atlântica (art. 22).

V.

Dispensa averbação da Reserva Legal no cartório de imóveis mediante Rural “Municipal” com apenas “1” coordenada geográfica (art. 19).

VI.

Cria a figura do manejo “agrossilvopastoril” de Reserva Legal. Agora manejo de boi será permitido em Reserva Legal (par. 1° do art. 18)

VII.

Ignora a absoluta diferença entre agricultor familiar e pequeno pro- prietário, estendendo a este, flexibilidades no máximo cabíveis àquele.

VIII.

Retira 4 Módulos Fiscais da base de cálculo de todas as propriedades (in- clusive médias e grandes) para definição do percentual de RL. Isso signi- fica milhões de hectares que deixam de ser Reserva Legal.

IX.

Permite pecuária extensiva em topos de morros, montanhas, serras, bordas de tabuleiros, chapadas e acima de1800m (art. 10).

X.

Ao retirar do CONAMA poder de regulamentar APPs, retirou proteção direta aos nossos manguezais. Casos de utilidade pública e interesse social deixam de ser debatidos com a sociedade no CONAMA.

XI.

Abre para decreto (sem debate) definir rol de atividades “de baixo im- pacto” para permitir ocupação em APP (art. 3°, XVII, h), portanto sem discussão aberta e transparente com a sociedade.

XII.

Define de interesse social qualquer produção de alimentos (ex. monocul- tura extensiva) para desmatamento em APP (art. 3°, IV, g). Isso permite desmatamento em qualquer tipo de APP em todo País.

XIII.

Prazo indefinido para a suspensão de aplicação de multa e outras san- ções por desmatamento ilegal até que poder público implante Plano de Recuperação Ambiental (PRA), cujo prazo deixou de ser exigido nes- sa versão do PL (Art. 30).

5. ConSIdeRAçõeS FInAIS

As considerações aqui apresentadas foram redigidas quando ainda estavam em andamento as discussões e alterações sendo inseridas para o Novo Código Florestal, pelo Se- nado Federal. Desta forma, não é possível mencionar todos os desdobramentos da lei e como eles devem interferir nos processos de restauração ecológica, inseridos em políticas públicas. Desta forma, quero destacar aqui ser de vital importância a união da sociedade e seus representantes, os esclarecimentos técnico-científicos sobre a temática e a conscienti- zação, principalmente de ruralistas, sobre o fato de que os maiores ganhadores com as ações de conservação de florestas naturais ou restauradas são eles próprios, pois além de ganharem

29

em produtividade, terão todo o suporte da estabilidade ambiental promovida pelo recursos naturais preservados. Finalmente é preciso lembrar aqui que, seja qual for o desfecho dado ao Código

Florestal, as ações desenvolvidas pelo Instituto de Botânica, que mais uma vez organiza este importante fórum de discussão - o IV Simpósio sobre Restauração Ecológica: desafios atuais

e futuros, já produziram importantes políticas publicas para o setor. Foi do IBt que recebi,

quando estão Secretário de Estado do Meio Ambiente, a primeira proposta de resolução que orientava os reflorestamentos heterogêneos com espécies nativas (coincidentemente pelo Dr. Luiz Mauro Barbosa que também coordenou este evento), a Resolução SMA 21/2001, hoje atualizada para a Resolução SMA 08/08. Parabenizo a todos os participantes e desejo que novos avanços no conhecimento

e tratamento destas questões ocorram neste evento. Código Florestal, chave da sustentabilidade, por Ricardo Tripoli

28 abril, 2011 Fechar os olhos para a elegância institucional, os benefícios e o modelo empresa- rial da economia verde é excluir a seriedade dos processos que nos levarão à plena sustenta-

bilidade. O Código Florestal Brasileiro é uma garantia de proteção à biodiversidade do país. Modificá-lo é danificar as virtudes de uma plataforma defensiva dos biomas nacionais. Sem ele, o caos. Com ele alterado, engolir-se-á o retrocesso. Ninguém pode atribuir ao Código Florestal a responsabilidade de impedir o cres- cimento na produção de alimentos. Quem afirmar isso não conhece as pesquisas das uni- versidades e os números que a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) proclama. O Código Florestal não trava o desenvolvimento.

É necessário olhar as áreas brasileiras de agricultura e pecuária para se compreen-

der a importância da preservação. O agricultor tem crédito agrícola restrito. Faltam assistência técnica, investimentos em tecnologia e estratégias de colheita para que a safra escoe.

O Código Florestal veio proibir o desmatamento nas propriedades rurais privadas

de áreas de preservação permanente e nas reservas legais. Nossa produção de arroz e feijão caiu, mas a produção de soja explodiu: somos o maior produtor do mundo. A área para a pas- tagem também cresceu, chegando a mais de 200 milhões de hectares. Nosso rebanho bovino, um dos maiores do planeta, é de mais de 200 milhões de cabeças.

Não faltam terras. Sobram pastos e devastação. Diminui a cobrança dos passivos ambientais.O Código Florestal é um avanço, não deve ser alterado, não pode se prestar a aco- modação de interesses.

A área ocupada pela pecuária tem índice de aproveitamento baixo. Apenas uma

cabeça de boi por hectare. Nos Estados Unidos, a permanência por hectare chega a três ani- mais. Portanto, o prejuízo está na ausência de planejamento de utilização das pastagens. Nosso Código é contrário à utilização das beiradas dos rios e córregos e exige a preservação das matas ciliares. Ações como o Desmatamento Zero não interferem no cres- cimento brasileiro. Antes, ajudam-nos em soluções que sejam compatíveis com o progresso. Dos nossos 850 milhões de hectares, 367 milhões são áreas privadas e outras sem nenhuma titulação. Por isso, o Código é fundamental, como mecanismo garantindo a integri- dade dessas terras. Mudá-lo é diminuir o Brasil. Todas as nações clamam por leis ambientais. Não podemos apequenar o Código

Florestal. Isso determinaria a falência do bom senso. A morte de seres humanos em catástro- fes nas cidades, os desastres ecológicos e o avanço de moradias em áreas condenadas exigem

o Código Florestal como está escrito. (*) Deputado federal pelo PSDB-SP, Ricardo Tripoli é advogado e ambientalista.

pelo PSDB-SP, Ricardo Tripoli é advogado e ambientalista. 30 Artigo publicado na “Folha de S. Paulo”

INDICADORES DE AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO DE ÁREAS EM PROCESSO DE RESTAURAÇÃO FLORESTAL: O EXEMPLO DO PACTO PELA RESTAURAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA

Pedro H. S. Brancalion 1 Aurélio Padovezi 2 Fabiano Turini Farah 3 Ricardo A. G. Viani 2 Tiago E. Barreto 3,4 Ricardo Ribeiro Rodrigues 3

Serão apresentados conceitos básicos e aplicados sobre a escolha e uso de indica- dores para a avaliação e monitoramento de áreas em processo de restauração florestal, de for- ma a orientar a elaboração de um programa de monitoramento para projetos de restauração. Como exemplo dessa abordagem, será apresentado o protocolo de monitoramento de projetos de restauração florestal desenvolvido de forma construtiva e participativa por membros do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. Esse protocolo, que teve uma versão prévia desen- volvida por um grupo técnico do Pacto, foi amplamente discutido, ampliado e aperfeiçoado por mais de 70 pessoas em um evento de três dias dedicados a esse objetivo, envolvendo pes- quisadores, técnicos e membros do governo. Esse protocolo é dividido nos princípios (regras fundamentais) Ecológico, Gestão, Econômico e Social, os quais são subdivididos em Crité- rios (um item de avaliação ou meio de julgar um princípio), Indicadores (qualquer variável do projeto de restauração ecológica usada para inferir a condição de um determinado critério) e Verificadores (formas de verificar, mensurar ou avaliar um indicador). Na palestra, serão apre- sentados os diferentes critérios, indicadores e verificadores de cada princípio, apresentando aos participantes do evento uma ferramenta concreta para o monitoramento de projetos de restauração florestal.

IntRodução

A restauração ecológica é o processo de auxiliar a recuperação de um ecossistema que foi degradado, danificado ou destruído (SER 2004). Numa visão mais abrangente e atual, a restauração ecológica considera não só aspectos ecológicos, que tratam do restabelecimento da biodiversidade e dos processos ecológicos nos ecossistemas, mas também aspectos econô- micos e sociais relacionados à restauração (Nair e Rutt 2009, Calmon et al. 2011). Além dis- so, diante da importância do gerenciamento adequado das etapas da restauração para garantir seu sucesso e da necessidade de replicação de experiências bem sucedidas, é fundamental que programas de restauração utilizem, no planejamento e na condução das atividades de restau- ração, as múltiplas ferramentas existentes de gestão de projetos.

1 Laboratório de Silvicultura Tropical, Departamento de Ciências Florestais, USP/Esalq (pedrob@usp.br)

2 The Nature Conservancy, Atlantic Forest and Central Savannas Program

3 Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal, Departamento de Ciências Biológicas, USP/Esalq (www.lerf. esalq.usp.br)

4 Programa de Pós Graduação em Biologia Vegetal, Universidade Estadual de Campinas

31

No entanto, a maioria das iniciativas de avaliação e monitoramento até então ado- tadas em projetos de restauração ecológica no Brasil, e também no mundo (Ruiz-Jaen e Aide 2005), tem focado apenas nos aspectos ecológicos, ao passo que inúmeros outros fatores de- finidores do sucesso das ações de restauração são negligenciados, tal como aspectos sociais, econômicos e de gestão. Concientes dessa limitação, e da importância de uma visão multi- e transdisciplinar na abordagem da restauração ecológica, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica estabeleceu a meta de desenvolver um protocolo de monitoramento holístico e in- tegrado, que abordasse os principais fatores envolvidos no sucesso da restauração florestal e contribuísse com o avanço dos projetos na medida em que os resultados do monitoramento sejam processados e divulgados. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, criado em 2006, constitui um dos mais importantes e ambiciosos programas de restauração de florestas tropicais no mundo (ver detalhes em http://www.pactomataatlantica.org.br). Trata-se de um movimento que visa a integrar esforços no sentido de ampliar a escala e efetividade das ações de restauração na Mata Atlântica, com foco não apenas no restabelecimento da vegetação nativa em áreas degradadas do bioma, mas também na geração de trabalho e renda, bem-estar humano e múltiplos produtos e serviços ecossistêmicos. Esse movimento conta hoje com quase 200 membros divididos entre organizações não governa- mentais, empresas públicas e privadas, órgãos de pesquisa e governos, sob a coordenação de uma secretaria executiva e de um conselho de coordenação. Cabe ressaltar que o Pacto não é uma ONG e não financia ou executa projetos de restauração, mas atua na catalisação de es- forços para que seus membros avancem na restauração do bioma. A meta do Pacto é restaurar 15 milhões de ha até 2050, e já existem no momento mais de 40 mil ha cadastrados. Nesse contexto, de um programa de larga escala e de longo prazo, é fundamental que as iniciativas de restauração sejam monitoradas desde o início, e que os métodos e estratégias melhores sucedidas sejam conhecidos e disseminados, para que todos os membros do movimento bene- ficiem-se dos conhecimentos gerados a partir da avaliação contínua dos projetos e programas

de restauração.

Esse protocolo, que teve uma versão prévia desenvolvida por um grupo técnico do Pacto, cujos membros são autores desse capítulo, foi discutido, aperfeiçoado e aprovado em plenária da “Oficina de Monitoramento do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica”,

realizada em Campinas, em março de 2011, e que contou com a participação de mais de 70 representantes de instituições de vários estados do Brasil, entre governos, empresas, universi- dades e ONGs, todos signatárias do Pacto e que trabalham pela restauração da Mata Atlântica.

A versão integral desse protocolo pode ser obtida em http://www.pactomataatlantica.org.br/

protocolo-projetos-restauracao.aspx?lang=pt-br. Justamente por se tratar de um documento produzido coletivamente, o conteúdo desse capítulo não deve ser citado como de autoria dos autores do capítulo, mas sim como autoria do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, citando o documento original pre- sente no link acima. Este protocolo deverá ser testado e aprimorado ao longo dos próximos anos, com sua utilização rotineira e com contribuições por parte dos diversos membros do Pacto que adotarão esse protocolo. Diante disso, os preceitos e as indicações propostas pelo documento devem ser considerados ainda preliminares, uma vez que poderão ser modificados na medida em que se acumula conhecimento e experiência com a aplicação do mesmo em campo. Adi- cionalmente, não foram ainda definidas as metas para cada um dos indicadores propostos, pois isso depende ainda da aplicação massiva do protocolo em diferentes projetos e progra- mas, para que em pouco tempo se tenha um banco de dados robusto para a definição de metas específicas para os diferentes ecossistemas e regiões do bioma. Esse será o tema de um próxi-

Na construção desse protocolo, uma das principais idéais norteadoras foi a de que o protocolo deveria ser abrangente o suficiente para ser aplicado na escala do bioma, e robusto o bastante para gerar informações relevantes para o sucesso da restauração de forma prática e objetiva, evitando a coleta de dados pouco influenciáveis ou de informações redun- dantes. Essa preocupação se sustenta na premissa de que o protocolo deverá ser aplicado por todas as instituições envolvidas no movimento, e não apenas por órgãos de pesquisa. Assim, espera-se que o protocolo seja aplicado no dia a dia dos projetos, e para isso, é pre- ciso haver coerência no nível de detalhamento considerado. Outra preocupação norteadora foi a de que o protocolo não deveria ser específico para cada método de restauração ecoló- gica. Embora essa informação seja coletada na aplicação do protocolo, o monitoramento tem foco no produto da ação de restauração, ou seja, da aplicação do método, que expressa como a área em processo de restauração encontra- se no momento da avaliação. Assim, o protocolo não traz indicadores específicos para alguns métodos, mas se baseia no uso de indicadores generalistas, focados na descrição da composição, estrutura e funcionamento do ecossistema em processo de restauração. A abordagem conceitual adotada pelo Pacto está detalhada em Rodrigues et al. (2009).

2. eStRutuRA do PRotoCoLo

Este documento apresenta os princípios, critérios, indicadores que devem ser utilizados como guia para o monitoramento dos projetos de restauração ecológica cadastrados no Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e descreve como estes aspectos devem ser veri- ficados, mensurados e/ou avaliados ao longo do tempo de desenvolvimento desses projetos. O sistema de avaliação da presente proposta está estruturado nos níveis hierár- quicos de princípio, critério, indicador e verificador descritos abaixo e foram adaptados de protocolos já existentes de certificação ambiental. Esse esquema fornece uma estrutura coerente e consistente para alcançar, a cada nível, os valores almejados pela restauração eco- lógica da Mata Atlântica.

Princípio (P): Uma regra fundamental. No contexto de restauração ecológica, os princípios fornecem a estrutura primária para a avaliação de um projeto. Critério (C): Um item de avaliação ou meio de julgar um princípio. Um critério pode ser entendido como um princípio de “segunda ordem” que acrescenta significa- do e operacionalidade a um princípio, sem que, por si próprio, constitua uma medida direta de desempenho. Indicador (I): Indicador é qualquer variável do projeto de restauração ecológica usada para inferir a condição de um determinado critério. Os indicadores devem trans- mitir uma informação e não devem ser confundidos como condições para satisfazer os critérios. Verificador (V): Formas de verificar, mensurar ou avaliar um indicador.

Estes quatro princípios da restauração: ecológico, econômico, social e de ges- tão de projetos relacionam-se entre si, formando uma pirâmide, na qual o princípio eco- lógico encontra-se no topo. Nesse sentido, ações e práticas em um determinado princípio têm reflexo direto ou indireto nos demais e, consequentemente, no processo de restauração ecológica (DellaSala et al. 2003). Dessa forma, entende-se que, embora o objetivo primário da restauração seja ecológico, o mesmo não se sustenta na prática, sem uma abordagem conjunta dos aspectos sociais, econômicos e de gestão, que possibilitam transformar mé- todos e conceitos de ecologia de restauração em projetos de restauração ecológicos bem sucedidos no campo.

33

3. PRInCíPIoS, CRItéRIoS, IndICAdoReS e veRIFICAdoReS PARA o MonItoRAMento doS PRojetoS de ReStAuRAção eCoLóGICA

A seguir são apresentados os quatro princípios para o monitoramento da restaura- ção ecológica e seus respectivos critérios, indicadores e verificadores (tabelas 1-4). É impor- tante ressaltar que alguns indicadores são verificados em programas de restauração, enquanto outros, como a maior parte dos indicadores do princípio ecológico, são avaliados em projetos de restauração. Conceitualmente, os programas de restauração são definidos, para o propósito deste protocolo, como “o conjunto de projetos de restauração, com o mesmo objetivo, de uma instituição ou de um conjunto de instituições parceiras numa determinada região”. Já os projetos de restauração equivalem a “unidades espaciais em processo de restauração ecoló- gica, com características homogêneas em relação ao método de restauração adotado, data de implantação, ao tipo de solo e vegetação, ao histórico da área e à instituição executora”.

3.1. PRInCIPIo eCoLóGICo dA ReStAuRAção FLoReStAL (P1)

As atividades de restauração florestal devem restabelecer a diversidade regional de espécies nativas e os processos ecológicos envolvidos com a sustentabilidade dos ecossis- temas naturais e restaurados.

Tabela 1. Critérios, indicadores e verificadores do Princípio Ecológico da Restauração Florestal.

 

Item

C.1.1. Estrutura

I.1.1.1. Densidade de indivíduos de menor porte

V.1.1.1.1. Número de indivíduos de espécies não invasoras por área

I.1.1.2. Densidade de indivíduo de maior porte

V.1.1.2.1. Número de indivíduos de espécies não invasoras por área

I.1.1.3. Altura da vegetação

V.1.1.3.1. Altura média do estrato mais alto da vegetação, excluindo indivíduos emergentes

I.1.1.4. Estratificação

V.1.1.4.1. Número de estratos

I.1.1.5. Cobertura de copas

V.1.1.5.1. Soma das medidas de copa projetadas no terreno, com base nos comprimentos não cobertos por copa.

I.1.1.6. Área basal

V.1.1.6.1. Soma das medidas das áreas basais de indivíduos de espécies não invasoras

I.1.1.7. Herbáceas invasoras e superdominantes

V.1.1.7.1. Percentual de cobertura do solo por herbáceas invasoras e superdominantes

C.1.2. Composição de espécies arbustivas e arbóreas

I.1.2.1. Nº de espécies por projeto de restauração

V.1.2.1.1. Número total de espécies e morfoespécies regionais

V.1.2.1.2. Número total de espécies e morfoespécies não regionais

I.1.2.2. Equidade de espécies regionais

V.1.2.2.1. Valor de equidade

I.1.2.3. Espécies arbóreas invasoras

34

V.1.2.3.1. Composição e densidade de espécies arbóreas invasoras

3.2. PRInCíPIo eConôMICo dA ReStAuRAção FLoReStAL (P2)

O pagamento por serviços ambientais, produtos florestais madeireiros e não ma- deireiros, a geração de trabalho e renda e a obtenção de vantagens competitivas pela certifi- cação ambiental são favoráveis para a consolidação e o sucesso das iniciativas de restauração ecológica.

Tabela 2. Critérios, indicadores e verificadores do Princípio Econômico da Restauração Florestal.

Item

C.2.1. O projeto gera trabalho e/ou renda com a implantação/manutenção da área em processo de restauração

I.2.1.1. Geração de postos de trabalho

V.2.1.1.1. Número de postos de trabalho direto

I.2.1.2. Valor de investimento do programa/projeto

V.2.1.2.1. Valor de investimento do programa em serviços

V.2.1.2.2. Valor de investimento do programa em insumos

V.2.1.2.3. Valor de investimento do programa/projeto em mão de obra (contrato direto)

V.2.1.2.4. Valor de investimento do programa/projeto em depreciação de máquinas /equipamentos

V.2.1.2.5. Valor de investimento do programa/projeto em impostos

V.2.1.2.6 . Valor de investimento do programa/projeto em gestão

C.2.2. Geração de bens e serviços com a área em processo de restauração.

I.2.2.1. Pagamento por serviços ambientais

V.2.2.1.1. Número de contratos de pagamento por serviços ambientais

V.2.2.1.2. Montante de recursos recebidos pelo PSA

V.2.2.1.3. Incentivo tributário relacionado à área em restauração ecológica

I.2.2.2. Pagamento por carbono

V.2.2.2.1. Projeto técnico circunstanciado visando carbono

V.2.2.2.2. Programa de restauração certificado por entidade independente do mercado de carbono

V.2.2.2.3. Créditos de carbono gerados

V.2.2.2.4. Montante de recursos recebidos pela venda de carbono

I.2.2.3. Servidão florestal

V.2.2.2.3.1. Renda obtida na negociação de áreas em restauração, para compensação de Reserva Legal em regime de servidão florestal

I.2.2.4. Comercialização de produtos florestais madeireiros

V.2.2.4.1. Projeto de floresta produtiva existente e, quando necessário, aprovado pelo órgão ambiental

V. 2.2.4.2. Montante gerado pela comercialização de produtos madeireiros

I.2.2.5. Comercialização de produtos florestais não madeireiros

V.2.2.5.1. Atividade de exploração de produtos florestais não madeireiros na área em processo de restauração

V.2.2.5.2. Projeto de exploração de produtos florestais não madeireiros na área em processo de restauração

V.2.2.5.3. Montante gerado pela comercialização de produtos não madeireiros

C.2.3. Fonte de recursos para a restauração

I.2.3.1 . Origem do montante de recursos investido no projeto de restauração

V.2.3.1.1. Origem dos recursos investidos

3.3. PRInCíPIo SoCIAL dA ReStAuRAção FLoReStAL (P3)

As atividades de restauração florestal devem manter ou ampliar o bem estar so- cioeconômico das partes interessadas no projeto. Entende-se como partes interessadas no projeto, todos os colaboradores diretos e indiretos, confrontantes, comunidades envolvidas/ interessadas no projeto.

Tabela 3. Critérios, indicadores e verificadores do Princípio Social da Restauração Florestal.

36

Item

C.3.1. Oportunidades de trabalho, treinamento e outros serviços para as comunidades locais

I.3.1.1. Contratação de mão de obra

V.3.1.1.1. Porcentagem de mão de obra local contratada

V.3.1.1.2. Proporção de gêneros entre os trabalhadores contratados

I.3.1.2. Responsabilidade socioambiental dos envolvidos com as atividades de restauração florestal

V.3.1.2.1. Evidência de iniciativas que promovam acesso à melhoria educacional e profissional aos envolvi- dos com as atividades de restauração florestal

C.3.2. Saúde ocupacional dos trabalhadores de restauração florestal

I.3.2.1. Assegurar os benefícios à saúde do trabalhador

V.3.2.1.1. Comprovação de exames médicos admissionais, regulares e demissionais pertinentes a cada atividade

V.3.2.1.2. Colaboração na divulgação de campanhas de saúde pública por parte do responsável pelas ativi- dades de restauração florestal

V.3.2.1.3. Existência de equipamentos de primeiros socorros no local de trabalho

I.3.2.2. Responsabilidade no cumprimento da legislação que assegure condições sanitárias e ambientais

apropriadas

V.3.2.2.1. Qualidade e quantidade de alimentação e água no campo para o exercício das atividades de restauração

V.3.2.2.2. Qualidade das condições ambientais e sanitárias do trabalho de campo

C.3.3. Deve haver condições seguras de trabalho

I.3.3.1. Garantir condições de segurança de trabalho apropriadas

V.3.3.1.1. Existência de máquinas, ferramentas e equipamentos em condições de uso, com apropriada pro- teção para o trabalhador

V.3.3.1.2. Existência de equipamento de proteção individual (EPI) cedidos aos trabalhadores sem ônus,

quando a atividade assim o exigir

V.3.3.1.3. O uso de EPI é garantido, obrigatório e monitorado

V.3.3.1.4. Existência de equipamentos de comunicação no local de trabalho

V.3.3.1.5. Existência de treinamento regular de primeiros socorros para todos os empregados supervisores.

V.3.3.1.6. Existência de responsável por segurança do trabalho na área de restauração florestal, quando

exigido por Lei

V.3.3.1.7. O transporte dos trabalhadores deve ser realizado em veículos apropriados e em condições adequadas, que garantam sua qualidade e a segurança, de acordo com a legislação vigente ou acordos específicos entre as partes

C.3.4. Remuneração dos trabalhadores

I.3.4.1. Remuneração compatível com a atividade produtiva realizada na região

V.3.4.1.1. Porcentagem em relação à média regional

C.3.5. Uso de mão de obra infantil e de jovens aprendizes

I.3.5.1. Responsabilidade no cumprimento da legislação que assegure condições a contratação de jovens aprendizes

V.3.5.1.1. Existência de lista de trabalhadores na faixa etária de aprendizes incluindo descrição de ativida- des e comprovantes de freqüência escolar

C.3.6. Relação do projeto com a comunidade de entorno

I.3.6.1. Impactos sociais do projeto nas comunidades de entorno

V.3.6.1.1. Existência do diagnóstico da comunidade do estorno

I.3.6.2. Participação de comunidades e atores locais no planejamento do projeto

V.3.6.2.1. Reuniões com a comunidade e atores locais

I.3.6.3. Ações compensatórias dos impactos sociais provenientes das atividades de restauração florestal

V.3.6.3.1. Proposição de ações compensatórias

V.3.6.3.1. Implantação de ações compensatórias

I.3.6.4. O projeto possui ações de educação ambiental

V.3.6.4.1. Proposta de ações de educação ambiental

V.3.6.4.1. Implantação das ações de educação ambiental

I.3.6.5. Benefícios indiretos relacionados às atividades de restauração florestal

V.3.6.5.1. Proposta de ações complementares à restauração

V.3.6.5.2. Implantação de ações complementares à restauração

3.4. PRInCíPIoS dA GeStão do PRoGRAMA de ReStAuRAção FLoReStAL (P4)

A gestão do programa de restauração florestal visa a garantir planejamento, ava- liação, controle e documentação adequados, de forma a se preservar a memória do respectivo projeto de restauração ecológica. Incluem-se nessa memória, informações sobre uso histórico da área e metodologia de restauração utilizada, fotografias, custos, etc., que permitam resgatar as possíveis causas de sucesso ou insucesso da iniciativa.

Tabela 4. Critérios, indicadores e verificadores do Princípio de Gestão da Restauração Florestal.

Item

C.4.1. Planejamento e documentação do processo

I.4.1.2. Existe um Projeto de Restauração

V.4.1.2.1. Existência de diagnóstico socioambiental da área a ser restaurada

V.4.1.2.2. Delimitação das áreas em restauração bem como sua caracterização ambiental

V.4.1.2.3. Lista de espécies indicadas

V.4.1.2.4. Protocolo metodológico para tomada de decisão da técnica de restauração apropriada

V.4.1.2.5. Orçamento do projeto

V.4.1.2.6. Cronograma de execução física

I.4.1.3. Existem registros de execução

V.4.1.3.1. Registro de acompanhamento do projeto

V.4.1.3.2. Lista de espécies utilizadas

V.4.1.1.3. Origem do propágulo para retauração mudas/ sementes/ topsoil/galharia/

V.4.1.3.4. Registro audiovisual

V.4.1.3.5. Registro de despesas

V.4.1.3.6. Controle de produtividade

C.4.2. A parceria com o proprietário do imóvel rural está formalizada para executar as atividades de restauração florestal

I.4.2.1. Existe acordo de parceria com o proprietário

V.4.2.1.1. Termo de compromisso para o desenvolvimento do projeto entre o proprietário e o executor do projeto

V.4.2.1.2. Documento de comprovação de vínculo do imóvel rural com o proprietário referido no termo de compromisso

C.4.3. A equipe executora está habilitada e capacitada para executar as atividades planejadas

I.4.3.1. Responsável técnico está habilitado

V.4.3.1.1. Comprovação da habilitação profissional do responsável técnico para a execução da atividade

I.4.3.2. Equipe técnica está capacitada

V.4.3.2.1. Experiência profissional da equipe para a execução da atividade

C.4.4. Existe sistema de monitoramento

I.4.4.1. Plano de acompanhamento próprio.

V.4.4.1.1. Existência de Plano de Acompanhamento e Avaliação

V.4.4.1.2. Aplicação Plano de Acompanhamento e Avaliação

C.4.5. Existe comunicação fluida no projeto com os atores envolvidos

I.4.5.1. O fluxo de informação entre a equipe gestora e executora é claro e funcional

V.4.5.1.1. Existência de recomendações dos gestores aos executores do projeto

V.4.5.1.2. Existência de comunicação das dificuldades encontradas pelos executores aos gestores

I.4.5.2. Existe um bom fluxo de informação externo

V.4.5.2.1. Existência de registro de comunicação com a comunidade do entorno

V.4.5.2.2. Existência de registro de comunicação científica

V.4.5.2.3. Existência de registro de comunicação com a mídia

V.4.5.2.4. Existência de registro de comunicação com o Pacto MA

C.4.6. O projeto promove inovação metodológica em restauração

I.4.6.1. Inovação metodológica

V.4.6.1.1. Existência de Descrição metodológica da inovação e experimentação em campo

C.4.7. Existe análise de viabilidade econômica de projeto com caráter de aproveitamento econômico

I.4.7.1. Existe análise de viabilidade econômica do projeto

V.4.7.1.1. Existência do estudo de viabilidade econômica do projeto

4. ConCLuSão

O protocolo de monitoramento de projetos de restauração florestal do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica traz uma contribuição importante e inovadora para a ciência e prática da restauração ecológica, articulando dentre centenas de atores da restauração o es- forço coletivo de monitorar a restauração na escala de bioma, gerando informações valiosas para subsidiar o aperfeiçoamento dos métodos de restauração, o manejo adaptativo de áreas já implantadas e o redirecionamento de estratégias de restauração entre esses atores. Esse protocolo também é útil para a formulação de políticas públicas, pois auxiliará futuramente na definição de níveis satisfatórios de qualidade nas ações de restauração, servindo de suporte para o julgamento da aplicação de recursos públicos nessa atividade e do uso da restauração

diversas. Não obstante, deve-se ressaltar a visão inovadora e transformadora da restauração promovida pelo Pacto, que teve a audácia de articular a elaboração e consolidação de um protocolo de monitoramento entre mais de 70 instituições, o que evidencia o poder agregador do movimento.

5. ReFeRênCIAS

Calmon, M., Brancalion, P.H.S., Paese, A., Aronson, J., Castro, P., Silva, S.C., Rodrigues, R.R. 2011. Emerging threats and opportunities for large-scale ecological restoration in the Atlantic Forest of Brazil. Restoration Ecology 19: 154-158.

Dellasala, D.A., Martin, A., Spivak, R., Schulke, T., Bird, B., Criley, M., Daalen, C., Kreilick, J., Brown, R., Aplet, G. 2003. A Citizen’s Call for Ecological Forest Restoration: Forest Restoration Principles and Criteria. Ecological Restoration 21:14-23.

Nair, C.T.S., Rutt, R. 2009. Creating forestry jobs to boost the economy and build a green future. Unasylva 60: 3-10.

Rodrigues, R.R., Brancalion, P.H.S., Isernhagen, I. (Orgs.). 2009. Pacto para a restauração eco- lógica da Mata Atlântica: referencial dos conceitos e ações de restauração florestal. São Paulo: Instituto BioAtlântica.

Ruiz-Jaen, M.C., AIDE, T.M. 2005. Restoration success: How is it been measured? Restoration Ecology 13: 569-577.

SER (Society for Ecological Restoration International Science & Policy Working Group. 2004. The SER International Primer on Ecological Restoration. www.ser.org & Tucson: Socie- ty for Ecological Restoration International.

MONITORAMENTO INICIAL DE TRÊS PLANTIOS COMPENSATÓRIOS DO RODOANEL MÁRIO COVAS – TRECHO SUL

Paulo José Alves de Santana 1 Marco André de Carvalho Assan 2 Altamiro Lobo Guimarães 2

IntRodução

Os danos causados pelo homem aos ecossistemas sempre foram motivos de pre- ocupação e, desde o século XIX, o plantio de florestas tem sido um dos mecanismos miti-

gatórios a estes danos, mesmo que realizando apenas a simples cobertura vegetal do solo ou ainda para a obtenção de madeira. Na década de 1980, o termo restauração ecológica passou

a ser mais claramente definido juntamente com o desenvolvimento da ecologia da restauração

como ciência (ENGEL & PARROTA, 2003), que visa a iniciar ou acelerar a recuperação de um ecossistema no que diz respeito a sua saúde, integridade e sustentabilidade, formando um ambiente semelhante ao que anteriormente predominava (SER 2004). Atualmente diversas técnicas são aplicadas para promoção da restauração ecoló- gica em áreas degradadas, podendo citar a “condução da regeneração natural”, que se dá por meio da condução dos processos da sucessão secundária; o método de “semeadura direta” que aumenta a quantidade de propágulos na área a ser restaurada, sendo uma técnica barata, reco- mendada para áreas onde o plantio é dificultado; o “plantio de mudas” que é uma das formas mais utilizadas nos processos de restauração ecológica e, dependendo do caso, a que mais

garante o sucesso e estabelecimento da restauração; e as “ilhas de diversidade” que facilitam

a regeneração natural pelo plantio de pequenos núcleos de plantas de distintas formas de vida para atrair a fauna, potencializar a dispersão e promover a conectividade entre os pequenos fragmentos.

Dentre os fatores de degradação de ambientes, encontram-se novas e grandes obras que se tornam de suma importância para a funcionalidade e dinâmica das cidades. Estas obras, porém, trazem consigo grandes empreendimentos e compromissos socioambientais como a restauração de áreas degradadas por elas e a restauração de outras áreas para compen- sação ao dano ambiental. Para a compensação ambiental do Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas foram plantados mais de 1000 hectares (ha) em áreas degradadas, ao longo do traçado do próprio Rodoanel e em outras áreas cedidas por outros órgãos (DAEE, SABESP, EMAE, etc.), tam- bém degradadas, que necessitavam de recuperação e recomposição vegetal. O consórcio das empresas Jardiplan Urbanização e Paisagismo e Biotech Ambiental participou da implantação dessa compensação com o plantio de aproximadamente 340 ha, distribuídos nos municípios de Cotia, Embu das Artes, Itapecerica da Serra, Biritiba Mirim, Mairiporã, Nazaré Paulista e Piracaia.

Este artigo abordará algumas avaliações do primeiro trabalho de monitoramento de qualidade dos plantios compensatórios realizados pelas empresas citadas.

1 Jardiplan Urbanização e Paisagismo Ltda. e-mail: paulosantana@jardiplan.com.br

2 Consórcio Jardiplan-Biotech.

41

AvALIAção, MonItoRAMento e CoRReção de PRojetoS de ReStAuRAção eCoLóGICA

Um dos grandes desafios da restauração em ecossistemas tropicais é a complexa interação entre os organismos, sendo de grande importância avaliações e monitoramentos temporais para o melhoramento das técnicas implantadas na restauração (SOUZA & BATIS- TA, 2004).

Segundo Gandolfi (2006), monitoramento é o acompanhamento temporal dos pa- râmetros estabelecidos, para posterior avaliação do projeto, isto é, verificar se a área restaura- da atingiu o estado pré-definido. Ainda existe muita divergência quanto a parâmetros seguros que possam ser utili- zados nas diferentes realidades encontradas nos biomas brasileiros, para o monitoramento de plantios. Rodrigues & Gandolfi (2001) também indicam como pouco provável o estabeleci- mento de critérios de uso universal para se avaliar o monitoramento. Siqueira & Mesquita 2007 indicam, como uma das grandes dificuldades da prá- tica de monitoramento, a falta de consenso na literatura científica em relação aos indicado- res mais adequados para a avaliação do sucesso da restauração florestal e, consequentemen- te, dos ganhos ambientais. Barbosa (2000) destaca a importância de identificar indicadores que possibilitem avaliar e monitorar as metodologias utilizadas em plantios, bem como avaliar se os objetivos da restauração foram alcançados e se a dinâmica florestal está sendo estabelecida. Os indicadores de restauração precisam avaliar não só a recuperação visual da paisagem, mas também a reconstrução dos processos ecológicos que mantêm a dinâmica da vegetação, garantindo eficiência ecológica e sustentabilidade (RODRIGUES & GAN- DOLFI, 2004). Um bom indicador ecológico, além da facilidade de medição, clareza e modifica- ção possível ao longo do processo, deve: ser sensível a fatores que modificam o ecossistema; responder aos fatores que atuam sobre o ecossistema de forma previsível; possibilitar predi- ções sobre os efeitos dos agentes de degradação ou sobre os efeitos benéficos de práticas de manejo que venham a ser aplicadas; ser interativo e ter baixa variabilidade nas respostas aos fatores que representa (DURIGAN 2010). Segundo Belloto et al. (2009), a confirmação do estabelecimento dos processos ecológicos em áreas restauradas só é obtida após a avaliação e monitoramento das áreas em diferentes períodos, recomendando a instalação de parcelas permanentes para a avaliação temporal da evolução dos processos ecológicos, o que possibilita a comparação dos resulta- dos com futuros monitoramentos. Os indicadores de avaliação e monitoramento de processos de restauração podem subdividir-se em: avaliação da fase de implantação; avaliação de pós- -implantação e avaliação da fase de vegetação restaurada. Genericamente, as formas mais utilizadas para a avaliação e monitoramento em áreas em restauração são divididas em três categorias: diversidade, estrutura da vegetação e processos ecológicos (RUIZ &AIDE, 2005). Cada uma destas categorias é realizada em tempos diferentes, de acordo com o desenvolvimento do plantio e sua estabilidade no local. Barbosa et. al (2009) propuseram uma metodologia baseada na instalação de par- celas permanentes para o monitoramento e avaliação de áreas restauradas, ao buscar embasa- mento estatístico, trazendo dados mais conclusivos para a metodologia de monitoramento de áreas restauradas. Por estes motivos, as atividades de avaliação e monitoramento tornam-se de ex- trema importância, pois fornecem indicadores do estabelecimento do plantio, apontando os problemas ocorridos e servindo como ferramenta de intervenção, para que o executor corrija suas ações no decorrer das operações de manutenção obrigatórias pelo mesmo.

MetodoLoGIA

No presente trabalho, foram analisadas duas áreas de plantio no município de Piracaia-SP, denominadas BRC1 e BRC3, e um grupo de pequenas áreas no município de Embu das Artes-SP, denominadas Parque Embu 2.

CARACteRIzAção dAS áReAS

A área BRC1 possui 31,71 ha de área plantada, sendo originalmente composta por

floresta caracterizada como Floresta Estacional Semidecidual com manchas de cerrado, com an- tigo histórico de supressão da vegetação para a implantação de pastagens de pequenos rebanhos e

cultura cafeeira. O plantio foi iniciado em agosto de 2009 e concluído em setembro do mesmo ano.

A área BRC3 possui 59,86 ha de área plantada, com vegetação semelhante a da

área BRC1, pouca vegetação secundária e histórico de atividades agrárias. O plantio foi ini- ciado em setembro de 2009 e finalizado em novembro do mesmo ano. Considerando que as áreas do município Embu das Artes estão inseridas dentro do Parque Municipal de Embu, neste trabalho será apresentada a avaliação do grupo formado por pequenas áreas denominadas no projeto como: Parque Embu 02, Parque Embu 04, Parque Embu 05, Parque Embu 06 e Parque Embu 07, que totalizam 4,74 ha. Estas áreas estão inse- ridas, conforme o mapa do IBGE (IBGE, 2004), como região de Floresta Ombrófila Densa e sua antropização ocorreu por diversas interferências do desenvolvimento urbano e industrial, além de uso das áreas para pequenas pastagens. Nestas áreas o plantio teve início em abril de 2009 e término em agosto de 2009.

AMoStRAGeM

A amostragem foi baseada na metodologia proposta por Barbosa et al. (2009), na

qual as áreas foram divididas em blocos de igual tamanho, instaladas parcelas amostrais em cada bloco para avaliação de quantidade de plantas vivas e posterior análise para verificação de suficiência amostral da área. Cada parcela constou de 04 (quatro) linhas de plantio contendo 10 (dez) covas em cada linha, independentemente se continham plantas vivas ou mortas, totalizando 2 linhas de espécies pioneiras e duas linhas de espécies não pioneiras. As parcelas foram marcadas com estacas nas extremidades. No projeto de implantação, o espaçamento do plantio foi: entre linhas de 3,0 me- tros e entre covas de 1,5 metros. Foram contadas nas parcelas as plantas vivas e mortas e, por fim, calculado o número de plantas vivas por ha. O cálculo de significância para a amostragem foi baseado na

fórmula constante em Barbosa et. al (2009). Após a obtenção da significância, as plantas foram identificadas taxonomicamen- te, baseando-se nas características morfológicas apresentadas. Para facilitar as identificações em campo, foi realizada visita técnica ao viveiro forne-

cedor das mudas do plantio e feito o registro fotográfico da todas as espécies utilizadas no plantio. As plantas cuja identificação não foi possível ser realizada em campo foram clas- sificadas como ni (não identificadas), porque na maioria das vezes não apresentavam caracte- rísticas morfológicas suficientes.

A instalação e avaliação das parcelas foram realizadas nos meses compreendidos

entre junho e setembro de 2010; ao considerar 9 meses, 8 meses e 14 meses após o término do plantio das áreas. Foram avaliados ainda os fatores de altura média das plantas, mortalidade, riqueza, quantidade de indivíduos por espécie e tamanho médio por espécie. Os dados foram submetidos à análise conforme a metodologia já mencionada.

43

ReSuLtAdoS

A Tabela 01 apresenta os resultados obtidos quanto à altura média das plantas dos projetos analisados. Não houve significância amostral para as áreas BRC1 e Parque Embú 2, demonstrando que o número de parcelas instaladas não foi suficiente para demonstrar a rea- lidade total das áreas. Houve significância amostral somente para a área do Projeto Piracaia BRC3, onde o n* (esforço amostral / número de parcelas suficientes para amostrar o total da área), foi inferior ao número de parcelas instaladas, confirmando isso.

Tabela 01: Resultados quanto à altura média de plantas, em função das parcelas amostradas e esforço amostral necessário, para as áreas dos projetos Piracaia: BRC1 e BRC3 e Embu das Artes Parque Embu 2.

Área

Altura Média (cm)

Parcelas amostradas

Esforço Amostral (n*)

BRC1

50,49

8

25

BRC3

38,98

30

13*

Parque Embú 2

83,94

11

25

(n*) Significativo com erro máximo de 10% da média e esforço amostral de 90% de probabilidade.

Devido à mortalidade encontrada, não foi possível obter significância amostral

para as áreas analisadas, o que indicou que o número de parcelas instaladas não foi suficiente para demonstrar a realidade das áreas, no momento da avaliação. Nos momentos de avaliação, foram observados alguns fatores que contribuíram para este resultado, principalmente a exposição das áreas ao uso de pastagem para pequenos rebanhos, mesmo com a fiscalização de funcionários da empresa. Há que se considerar ainda

o caso das áreas do Parque Embu, onde alguns plantios foram afetados por incêndio, aumen- tando drasticamente a taxa de mortalidade.

Tabela 02: Mortalidade de plantas em função das parcelas amostradas nas áreas dos projetos Piracaia: BRC1 e BRC3 e Embu das Artes Parque Embu 2.

Área

Mortalidade (%)

Parcelas amostradas

Esforço Amostral (n*)

BRC1

21,25

8

76

BRC3

30,92

30

49

Parque Embu 2

19,55

11

72

(n*) Significativo com erro máximo de 10% da média e esforço amostral de 90% de probabilidade.

Outros aspectos também devem ser levados em consideração quanto a esta avalia-

ção, que foi a primeira após a implantação do plantio, ou seja, o primeiro diagnóstico do seu estado de desenvolvimento. Segundo Belloto et. al (2009), os indicadores de avaliação e moni- toramento do processo de restauração podem ser divididos em fase de implantação (1-12 meses pós plantio); fase pós-implantação (1-3 anos) e fase de vegetação restaurada (após 4 anos). Esta avaliação é de extrema importância por se tratar de um período crucial ao pe- gamento do plantio, no qual as plantas estão no estágio inicial do desenvolvimento em campo

e um período em que muitas ações corretivas de manutenção e replantio podem ser tomadas,

para um melhor estabelecimento da área. Para o fator riqueza, constataram-se 47 espécies na área BRC1, excluídos 31 indi- víduos que não apresentavam características suficientes para serem identificados e não foram mencionados nesta avaliação; já na área BRC3, foram 88 espécies identificadas e excluídos

167 indivíduos também não identificados, assim como ocorreu na BRC1; na área Parque

Embu 2, foram identificadas 67 espécies nas áreas e excluídos 15 indivíduos, também não identificados.

O fato de alguns indivíduos não possuírem características morfológicas para a

identificação pode ser explicado pelo período do ano em que o levantamento foi realizado, tratando-se do período em que a maioria das espécies caducifólias perdem as folhas como Ceiba speciosa (A. St-Hill) Havenna, Cedrela odorata L., Cedrela fissilis L. e outras.

A Tabela 03 apresenta a lista de espécies mais frequentes e menos frequentes nas

parcelas. Analisando os dados das mudas mais frequentes, não foi verificada diferença na quantidade de espécies entre os grupos de pioneiras (P) e não pioneiras (NP) nas áreas, além de demonstrar que a quantidade total de indivíduos das espécies é equivalente. Quando observamos os dados das espécies menos frequentes, verificamos que o número de espécies P com poucos indivíduos é menor que o de NP, nas três áreas. Isto sugere que, não obrigatoriamente, está ocorrendo uma perda de diversidade de espécies NP, mas sim que pode estar ocorrendo uma perda de quantidade de indivíduos das espécies NP, no decorrer do estabelecimento do plantio. Na avaliação das espécies que mais se desenvolveram em altura, como já era esperado, os resultados foram mais expressivos para as espécies P. Na área BRC1, a espécie com maior altura média foi Croton urucurana Baill. com 106,00 cm; para a área BRC3 foi Mimosa bimucronata (DC.) Kuntze, com 94 cm, e para a área Parque Embu 2 foi Solanum granuloso-leprosum Dunal, com 260 cm.

ConSIdeRAçõeS FInAIS

Esta primeira amostragem apresentou resultados e observações consistentes, para

os plantios realizados pelo consórcio Jardiplan /Biotech, e cumpriu com o objetivo orientativo para as tomadas de decisão do período inicial. A metodologia mostrou-se eficaz, trazendo os resultados para uma realidade mais científica. Com base nos resultados apresentados, notou-se que os plantios necessitavam de ações corretivas como replantio, efetivas atividades de manutenção, adubação, controle de fatores degradadores, entre outros, que direta ou indiretamente afetavam a sustentabilidade dos mesmos. Atualmente, após um replantio direcionado, evitando espécies mais frequentes e valorizando espécies menos frequentes, ou mesmo novas espécies, e com um controle mais sistematizado das manutenções de roçada, aceiro, coroamento, adubação, controle de formi- gas e outros fatores, nota-se uma significativa melhora no plantio (fotos anexas).

A atividade de monitoramento para grandes plantios de restauração ecológica não

é uma tarefa simples, seja pela proporção que as áreas apresentam, gerando diferentes realida- des dentro de um mesmo plantio, o que dificulta uma padronização nas ações corretivas; seja pelos fatores não controláveis, como invasão da área por gado, geadas e incêndios, somado à falta de consenso científico para uma avaliação mais precisa desses fatores. Para o monitoramento desses grandes plantios, as observações de campo e as análises dos resultados de desenvolvimento devem ser muito dinâmicas, uma vez que a pro- babilidade de perda é sempre muito grande e em um período muito curto de tempo. Seguem fotos de diferentes estágios do plantio, início e fase atual (Anexo).

ReFeRênCIAS BIBLIoGRáFICAS

Barbosa, L.M

2000. Manual sobre princípios da recuperação vegetal de áreas degradadas, São

Paulo. SMA/CEAM/CIMP, 76 p.

2009. Proposta para

realização de amostragens e inventário de qualidade em reflorestamentos compensatórios do Rodoanel Trecho Sul. In: Anais do III Simpósio sobre recuperação de áreas degrada- das. (Barbosa, L.M.). Instituto de Botânica de São Paulo, São Paulo, 290p.

2009. Monitoramento em

áreas restauradas como ferramenta para avaliação de efetividade das ações de restauração e para redefinição metodológica. In: Rodrigues, R. R., Brancalion P.H.S., Isernhagen, I. (orgs.) Pacto pela restauração da mata atlântica: referencial dos conceitos e ações de res- tauração florestal. São Paulo, LERF/ESALQ, Instituto BioAtlântica, 260 p.

Durigan, G., Engel, V.L., Torezan, J.M., Melo, A.C.G., Marques, M.C.M., Martins, S.V., Reis,

Bellotto, A., Viani, R.A.G., Nave, A.G., Gandolfi, S., Rodrigues, R.R

Barbosa, T.C., Couto, H.T.Z., Barbosa, L.M., Parajara, F.C., Barbosa, K.C

A., Scarano, F.R

mais a dificultar o êxito das iniciativas?. Revista Árvore 34 – 3: 471-485.

2003. Definindo a restauração ecológica: tendências e perspectivas

mundiais. In Gandara, F.G. et.al. (eds), Restauração ecológica de ecossistemas naturais. FEPAF, Botucatu, 1: 3-26.

2006. Indicadores de avaliação e monitoramento de áreas em recuperação. In:

Workshop de Recuperação de Áreas Degradadas em Matas Ciliares: modelos alternati- vos para recuperação de áreas degradadas em matas ciliares no estado de São Paulo. São Paulo, 44-52.

2010. Normas jurídicas para a restauração ecológica: uma barreira a

Engel, V.L. & Parrotta, J.A

Gandolfi, S

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2004. Mapa de vegetação do Brasil. Bra- sília, IBGE.

2004. Conceitos, tendências e ações para a recuperação de

Rodrigues, R.R & Gandolfi, S

florestas ciliares. In: Rodrigues R. R. & Leitão Filho H. de F. (eds) Matas ciliares: con-

servação e recuperação. São Paulo: EDUSP, 15 – 1: 235-247.

Ruiz-Jaén, M.C., Aide, T.M. (2005). Restoration success: How is it being measured? Restora- tion Ecology, 13 – 3: 569-577.

SER (Society for Ecological Restoration International Science & Policy Working Group, 2004) The SER International Primer on Ecological Restoration. Acesso em :<<http//www.ser. org>> , em: 1 set. 2011. Society for Ecological Restoration International, Tucson, Ari- zona.

2007. Meu pé de Mata Atlântica: experiências de re-

Siqueira, L.P. de, Mesquita, C.A.B

composição florestal em propriedades particulares no Corredor Central. Rio de Janeiro,

Instituto BioAtlântica. 1: 188.

2004. Restoration of seasonal semideciduous forests in Brazil: in-

fluence of age and restoration design on forest structure. Forest Ecology and Manage- ment. 191:185-200.

Souza, F.M., Batista, J.L.F

(*) Inserem-se outras espécies com a mesma quantidade de indivíduos

Tabela 03: Análise de espécies mais e menos frequentes das áreas dos projetos Piracaia: BRC1 e BRC3 e Embu das Artes Parque Embu2.

   

Quant.

44

42

40

25

23

13

9

8

8

7

 

1

1

1

1

1

1

1

1

1

 

DISP.

ANE

ZOO

AUT

ZOO

AUT

AUT

ANE

ZOO

ZOO

ZOO

AUT

ZOO

ZOO

ANE

ZOO

AUT

AUT

ANE

ZOO

ZOO

GE

NP

P

NP

NP

P

P

NP

P

NP

NP

P

NP

NP

NP

P

NP

P

NP

P

NP

Parque Embú2

Nome popular

açoita-cavalo

ingá-quatro-

quinas

dedaleiro

pitanga

algodoeiro

eritrina

paineira

embaúba

goiaba

ingá-feijão

monjoleiro

araticum

sete-capotes

cedro-do-brejo

arco-de-peneira

corticeira-da-

serra

canudo-de-pito

embiruçú-da-

mata

aroeira

1jeri

vá

Nome científico

Mart.

Luehea divaricata

& Zucc.

Inga vera Willd.

pacari A.St.-

Lafoensia Hil.

Eugenia uniflora L.

densiflora

Bastardiopsis

Hassl.

(Hook. & Arn.)

speciosa

Erythrina

Andrews

speciosa (A.St.-

Ceiba Hil.)Havenna

Cecropia hololeuca Miq.

Psidium guajava L.

Inga marginata Willd.

Senegalia polyphylla (DC.) Britton & Rose=Acacia polyphylla

Annona cacans Warm.

guazumifolia (Cambess.)

Campomanesia

O.Berg

Cedrela odorata L.

vernalis

Cupanea

Cambess.

Erytrina falcata Benth.

Mabea fistulifera Mart.

A.Robyns (Cav.)

Pseudobombax

grandiflorum

Schinus terebinthifolius

Raddi

romanzoffiana

Glassman

(Cham.)

Syagrus

     

Quant.

38

36

28

24

24

24

23

22

22

20

1

1

1

1

1

1

1

1

1

1

DISP.

ANE

ZOO

AUT

ZOO

AUT

ZOO

AUT

AUT

ZOO

ZOO

ZOO

ZOO

ANE

ZOO

AUT

AUT

ANE

ZOO

ZOO

ZOO

GE

NP

NP

P

NP

P

P

P

P

NP

P

NP

NP

NP

NP

NP

P

NP

P

P

NP

BRC3

Mais frequentes

Nome popular

paineira

araçá-rosa

sangra-d´agua

pitanga

maricá

aroeira

aromita

eritrina

goiaba

pau-viola

Menos frequentes *

jatobá

ingá-mirim

jacarandá-

paulista

canela-louro

angico-da-mata

pau-jacaré

jacarandá-do-

campo

gravitinga

fruta-de-lobo

uvaia

 

(A.St.-Hil.)

Ceiba speciosa

 

Psidium cattleyanum Sabine

Croton urucurana Baill.

 

(DC.)

Schinus terebinthifolius Raddi

(L.)

Arn.=Acacia

(L.) Willd.

& farnesiana

farnesiana

Vachellia

Wight

Erythrina speciosa Andrews

 

myrianthum

Citharexylum

 

Hymenaea courbaril L.

Inga laurina (Sw.)Willd.

Machaerium villosum Vogel

 

megapotamica

Nectandra

 

rígida (Benth.)

Paraptadenia

 

gonoacantha

Piptadenia

 

Platipodium elegans Vogel

Solanum granuloso-leprosum

Solanumlycocarpum

Eugenia pyriformis Cambess.

 

Nome científico

Havenna

Eugenia uniflora L.

Mimosa bimucromata

Kuntze

Psidium guajava L.

Cham.

 

(Spreng.)Mez

Brenan

(Mart.) J.F.Mcbr.

 

Quant.

23

17

15

15

12

11

10

7

6

6

1

1

1

1

1

1

1

1

1

1

DISP.

ANE

ZOO

ZOO

AUT

AUT

ANE

ZOO

AUT

ZOO

ZOO

AUT

ZOO

ZOO

ZOO

ANE

ZOO

ZOO

AUT

ZOO

ZOO

GE

NP

NP

P

P

P

NP

NP

P

NP

P

NP

P

NP

NP

NP

NP

NP

NP

P

P

BRC1

Nome popular

açoita-cavalo

mamica-

fedorenta

pau-viola

maricá

algodoeiro

paineira

goiaba

sangra-d´agua

ingá-feijão

ingá-quatro-

quinas

cássia-fistula

babosa-branca

grumixama

inga-mirim

carobinha

lauracea

mirtacea

angico-da-mata

carobão

pau-cigarra

Nome científico

divaricata

Luehea

Mart.&Zucc.

caribaeum

Zathoxylum

Lam.

myrianthum

Citharexylum

Cham.

(DC.) bimucromata

Kuntze

Mimosa

densiflora

Bastardiopsis

Hassl.

(Hook. & Arn.)

(A.St.-Hil.)

Ceiba speciosa

Havenna

Psidium guajava L.

Croton urucurana Baill.

Inga marginata Willd.

Inga vera Willd.

(Schrad.)

ex DC.

ferruginea

Cassia Schrad.

Cordia superba Cham.

Eugenia brasiliensis Lam.

Inga laurina (Sw.)Willd.

Jacaranda puberula Cham.

Lauraceae sp.

Myrtaceae sp.

rigida

(Benth.) Brenan

Paraptadenia

Griseb. excelsum

Sciadodendron

(Rich.)

& Barneby

multijuga

H.S.Irwing

Senna

47

Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e
Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e

Piracaia BRC1 antes e depois

Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e depois
Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e depois

Piracaia BRC3 antes e depois

Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e depois
Piracaia BRC1 antes e depois Piracaia BRC3 antes e depois Parque Embú 2 antes e depois

Parque Embú 2 antes e depois

EXPERIÊNCIAS DA EMPRESA CORPUS SANEAMENTO E OBRAS LTDA. NA IMPLANTAÇÃO, AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO DE ÁREAS EM PROCESSO DE RESTAURAÇÃO NO TRECHO SUL DO RODOANEL MÁRIO COVAS - SP

Fulvio Cavalheri Parajara 1 Tiago Cavalheiro Barbosa 1

IntRodução

Um dos maiores empreendimentos realizados nos últimos anos no estado de São Paulo, o Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas, interligou as principais rodovias que chegam do interior do estado de São Paulo à capital, com as rodovias que partem do município de São

Paulo para o litoral do estado, especialmente à baixada santista. Esta rodovia serviu para aliviar

o fluxo de veículos, principalmente os de grande porte, que eram obrigados a passar pelas vias

da cidade de São Paulo, e desta forma, contribuiu para a melhoria do trânsito, principalmente

na Marginal Pinheiros e Avenida dos Bandeirantes, promovendo também significativa melhora da qualidade do ar na região metropolitana da capital. Como parte da compensação ambiental às obras da rodovia, os órgãos ambientais federais e estaduais determinaram que a DERSA - Desenvolvimento Rodoviário S.A., responsável pelo empreendimento, realizasse o plantio de 1.016 hectares para promover a restauração ecológica de áreas degradadas na região metropo- litana de São Paulo (RMSP), além de diversas outras medidas mitigatórias e compensatórias à supressão vegetal dos 212 hectares, necessários para a implantação da rodovia. Para esta restauração, o Instituto de Botânica de São Paulo (IBt), órgão vinculado

à Secretaria de Estado do Meio Ambiente, tido como referência nos estudos florísticos e que

envolvam a temática da restauração ecológica, foi contratado pela DERSA para, dentre outras atividades, atuar na orientação dos plantios compensatórios das empresas contratadas para a realização desta atividade. Para atender a exigência de se realizarem as ações de plantio com qualidade, principalmente envolvendo a diversidade regional de espécies plantadas, a Corpus seguiu as orientações fornecidas pelo IBt, desde a definição dos projetos, correções necessárias me-

diante monitoramentos expeditos que foram realizados e na aplicação de uma metodologia de amostragem criteriosa dos plantios, levando em consideração a suficiência amostral e garan- tindo, desta forma, a confiabilidade dos dados obtidos. Por meio dessas orientações e outras ferramentas disponibilizadas pelo IBt, o consórcio pôde obter importantes resultados no monitoramento dos plantios, ainda em an- damento (fase de manutenção), sendo possível a detecção e correção de problemas ocorridos durante a fase inicial dos mesmos, visando a obter qualidade e diversidade desejadas. Serão destacados neste trabalho as principais dificuldades e soluções encontradas durante o período de prestação de serviços à DERSA, deixando registrado um importante material para futuras ações de compensação ambiental que contemplem a restauração de áreas degradadas não só no estado de São Paulo, mas por todo o Brasil.

oBjetIvoS

O objetivo deste trabalho foi demonstrar algumas das experiências obtidas pelo

consórcio CORPUS/ MOTASA, através da execução de plantios compensatórios, que tiveram como orientação além do termo de referência da DERSA, a Resolução SMA 08 de 2008, que fixa orientações para o reflorestamento heterogêneo de áreas degradadas no estado de São Paulo. Além disso, aspectos quanto a avaliação e monitoramento de áreas em processo de restauração, também foram objetos de discussão.

CARACteRIzAção dAS áReAS de PLAntIo AnALISAdAS

As áreas reflorestadas e que têm sua avaliação e monitoramento apresentados neste artigo, contemplam Áreas de Preservação Permanente (APPs) do Reservatório do Rio Cachoeira, sob administração da SABESP, localizado no município de Piracaia, e áreas per- tencentes ao DAEE, no distrito de Taiaçupeba (Mogi das Cruzes), no entorno de um reservató-

rio de abastecimento. Apesar das áreas reflorestadas não se situarem em um local diretamente afetado pelo trecho sul do Rodoanel, são de grande importância para a população devido à localização em dois dos mais importantes sistemas de abastecimento de água da RMPS, o Cantareira e o Alto Tietê, respectivamente.

A área denominada de Taiaçupeba.02, analisada neste artigo, possui aproximada-

mente 4 hectares, compondo com outras três áreas um total aproximado de 22 hectares, tendo o reflorestamento sido implantado em outubro de 2009. A região está inserida no Bioma Mata Atlântica, sob área de domínio da Floresta Ombrófila Densa (FOD). Em todo o entorno da re- presa, existem pequenos fragmentos de floresta com os estratos arbóreo, arbustivo e herbáceo, em região de várzea, bem como pequenos fragmentos de vegetação secundária de Floresta Ombrófila Densa Montana, entretanto, a presença de vegetação na área da represa é composta principalmente por espécies gramíneas e arbóreas exóticas, como é o caso da Urochloa sp. P. Beauv., Pinus sp. e Eucalyptus sp. A principal causa de degradação ambiental do local está relacionada, principalmente, à construção da barragem e ao uso das espécies exóticas na “recuperação” das APPs. Cabe ressaltar que a maior área indicada na represa (código 09.11. L0.Taiaçupeba.03), com 13,74 hectares, foi utilizada como área de empréstimo de material para a construção da barragem existente neste reservatório. Quanto às áreas avaliadas na APP do Reservatório do Rio Cachoeira, é importan- te destacar que, devido ao tamanho, aproximadamente 240 hectares divididos em 4 áreas de reflorestamento, o processo de avaliação e monitoramente foi subdivido em áreas menores, objetivando uma avaliação das áreas mais representativas, em relação à totalidade, e auxilian- do na tomada de decisão quanto aos eventuais procedimentos de correção necessários, para atingir a qualidade esperada nas restaurações daquele local.

Outra consideração a respeito do local é que o município de Piracaia possui regi- ões fitoecológicas correspondendo a uma faixa de transição, com tipos de vegetação predomi- nantemente de Floresta Estacional Semidecidual (FES), mas também apresentam pequenos fragmentos de Floresta Ombrófila Densa (FOD) e até mesmo algumas manchas de cerrado, estabelecendo, na região, um mosaico de fitofisionomias (Kronka et al., 2005).

MetodoLoGIA de AvALIAção

O sistema de amostragem adotado foi o proposto por Barbosa et al. (2009), que

utiliza a instalação de parcelas amostrais contendo quatro linhas, com dez plantas por linha, onde o número de plantas vivas, de parcelas amostradas e características das mudas como altura e diversidade, permitem a obtenção de um conjunto de dados quali-quantitativos, que devem respeitar um esforço mínimo de modo a garantir a suficiência amostral necessária para

ReSuLtAdoS e dISCuSSõeS

Diversas áreas foram amostradas para o efeito de monitoramento quali-quantitati- vo dos reflorestamentos compensatórios, contudo, os resultados aqui apresentados foram ba- seados apenas em algumas áreas, onde as parcelas avaliadas apresentaram suficiência amos- tral quanto aos dados coletados.

áReA tAIAçuPeBA.02

A amostragem da área foi realizada no mês de maio de 2011, portanto após 19

meses do plantio. Entretanto, há que se considerar a realização de replantios 2 meses antes da

amostragem ser realizada, em virtude de alta mortalidade ocorrida. Assim, as parcelas amos- tradas apresentaram mudas que possuíam, em média, altura de 40,13 cm e taxa de mortalidade de 1,25%. As informações sobre a riqueza florística, encontrada nas 2 parcelas no momento da avaliação, estão apresentadas na figura 1.

Melia azedarach Handroanthus heptaphyllus Syagrus romanzoffiana Schinus terebinthifolius Psidium cattleyanum Mimosa scabrella Jacaranda puberula Hymenaea courbaril Cedrela odorata Cedrela fissilis Cariniana estrellensis Calophyllum brasiliense Phytolacca dioica Myrcia tomentosa Inga marginata Eugenia uniflora Eugenia pyriformis Esenbeckia febrifuga Croton floribundus Chorisia speciosa Astronium graveolens Parapiptadenia rigida Mimosa bimucronata Lafoensia pacari Croton urucurana Aspidosperma polyneuron Psidium guineense Inga vera Citharexylum myrianthum Peltophorum dubium Alchornea glandulosa Senegalia polyphylla

09.11.L0.Taiaçupeba.02

glandulosa Senegalia polyphylla 09.11.L0.Taiaçupeba.02 0246 Número de indivíduos 8 Figura 1 – Riqueza

0246

Número de indivíduos

8

Figura 1 – Riqueza florística encontrada nas 2 parcelas amostrais avaliadas

A área avaliada apresentou riqueza florística de 33 espécies nas duas parcelas

analisadas, sendo que apenas 1 (uma) não pode ser identificada. Um índivíduo exótico (Melia azedarach L.), também estava presente nesta amostragem, por falha ocorrida na expedição das mudas, contudo o indivíduo foi removido e substituído por uma nativa, logo após sua detecção no monitoramento. Como as amostragens apresentaram suficiência amostral para os dados analisados, é possível extrapolar que para a área total de plantio, a diversidade ne- cessária estará sendo atendida, uma vez que apenas 80 indivíduos fizeram parte do universo amostral desta pequena área. Devido ao desenvolvimento das mudas ainda incipiente, con- forme apontado pelo monitoramento, o período de manutenção desta área será ampliado por no mínimo 06 meses, para garantir o pleno desenvolvimento destas mudas, estando ainda previsto uma nova avaliação do local, para verificação da situação após este período.

51

áReA RePReSA_RIo_CAChoeIRA1

A amostragem da área foi realizada no mês de fevereiro de 2011, após 15 meses

do plantio, sendo observada uma altura média de 21,4 cm e taxa de mortalidade média de 10,36%, nas 7 parcelas amostrais avaliadas na área. As informações sobre a riqueza florística, encontrada nas parcelas no momento da avaliação, estão apresentadas na figura 2.

Pseudobombax grandiflorum Holocalyx balansae Eugenia pyriformis Erythrina speciosa Cordia trichotoma Cordia superba Copaifera langsdorffii Cecropia hololeuca Cassia leptophylla Cassia grandis Cariniana legalis Bastardiopsis densiflora Aegiphila integrifolia Zanthoxyllum hyemale Tabernaemontana hystrix Senna obitusifolia Senna macranthera Rhamnidium elaeocarpum Nectandra megapotamica Handroanthus ochraceus Ficus sp. Ficus insipida Eugenia involucrata Esenbeckia febrifuga Annona crassiflora Alchornea glandulosa Plinia trunciflora Magnolia ovata Maclura tinctoria Gochnatia polymorpha Ficus guaranitica Cedrela fissilis Senna multijuga Mimosa bimucronata Jacaranda puberula Gallesia integrifolia Araucaria angustifolia Guazuma ulmifolia Genipa americana Eugenia uniflora Albizia niopoides Triplaris brasiliana Myrcia tomentosa Lafoensia pacari Inga laurina Croton floribundus Cabralea canjerana Myrsine umbellata Hymenaea courbaril Syagrus romanzoffiana Sparattosperma leucanthum Inga vera Chorisia speciosa Calophyllum brasiliensis Aspidosperma polyneuron Colubrina glandulosa Casearia sylvestris Handroanthus heptaphyllus Schinus terebinthifolius Phytolacca dioica Peltophorum dubium Croton urucurana Citharexylum myrianthum Enterolobium contortisiliquum Senegalia polyphylla Esenbeckia leiocarpa Psidium cattleyanum

Represa Rio Cachoeira 1

0 10 20 30
0
10
20
30

Número de indivíduos

Figura 2 - Riqueza florística encontrada nas 7 parcelas amostrais avaliadas

A área avaliada apresentou um riqueza florística de 67 espécies nas análises reali-

zadas, sendo que outros 16 indivíduos não puderam ser identificados. Não foram encontrados indivíduos exóticos nas parcelas amostradas, atribuindo-se a este fato a troca do fornecedor de mudas, visto problemas enfrentados em outras áreas, como comentado para a área Taia- çupeba.02. A média encontrada para o fator altura das mudas, foi inferior a esperada para um reflorestamento com 15 meses. Contudo, um incêndio ocorrido 10 meses após o plantio, portanto 5 meses antes da avaliação, provocou perdas de aproximadamente 70% das mudas na

nas mudas sobreviventes, acarretou em uma diminuição da média obtida, bem como na difi- culdade da identificação de algumas espécies. Para esta área, em virtude dos fatos ocorridos,

o tempo de manutenção também foi ampliado.

áReA RePReSA_RIo_CAChoeIRA4

A amostragem da área foi realizada no mês de fevereiro de 2011, decorridos 8

meses do plantio. Os valores registrados para a altura média das mudas foi de 18,70 cm e taxa

de mortalidade média de 10,63%, considerando as 8 parcelas amostrais. As informações sobre

a riqueza florística, encontrada nas parcelas, estão apresentadas na figura 3.

Zanthoxylum ridelianum Tibouchina granulosa Tabernaemontana hystrix Schinus terebinthifolius Rhamnidium elaeocarpum Prunus myrtifolia Pithecellobium incuriale Miconia brunnea Luehea divaricata Handroanthus ochraceus Handroanthus chrysotrichus Ficus guaranitica Esenbeckia febrifuga Casearia sylvestris Aspidosperma polyneuron Aspidosperma parviflorum Tapirira guianensis Syagrus romanzoffiana Pterogini nitens Handroanthus vellosoi Guarea guidonia Eugenia uniflora Erythrina speciosa Cordia superba Campomanesia pubescens Cabralea canjerana Astronium graveolens Aspidosperma cylindrocarpon Solanum granulosoleprosum Phytolacca dioica Maclura tinctoria Inga marginata Croton floribundus Citharexylum myrianthum Chorisia speciosa Anadenanthera colubrina Triplaris brasiliana Mimosa bimucronata Hymenaea courbaril Genipa americana Calophyllum brasiliense Alchornea glandulosa Myrsine coriaceae Lafoensia pacari Gochnatia polymorpha Cariniana estrellensis Bastardiopsis densiflora Inga laurina Enterolobium contortisiliquum Croton urucurana Senegalia polyphylla Colubrina glandulosa Psidium cattleyanum Myrcia tomentosa Peltophorum dubium Esenbeckia leiocarpa Inga vera

Represa Rio Cachoeira 4

02468 10 12 14 16
02468
10
12
14
16

Número de indivíduos

Figura 3 - Riqueza florística encontrada nas 8 parcelas amostrais avaliadas

A área avaliada apresentou um riqueza florística de 57 espécies para as parcelas

analisadas, contudo foi verificado um alto número de indivíduos que não puderam ser identi- ficados, principalmente por conta das características morfológicas que possuíam no momento

da avaliação, somando-se um total de 48 indivíduos. Após dois meses da avaliação, foi re- alizado um replantio de mudas, nos locais onde houve falhas no pegamento, que ocorreram devido a um somatório de fatores (época de seca, mortalidade natural, ataque por formigas

53

cortadeiras e incêndio parcial). Uma nova avaliação da área está prevista para o final do pró- ximo período chuvoso (março/2012), entretanto os dados obtidos nesta primeira avaliação, já forneceram importantes informações que subsidiaram as decisões quanto a uma série de procedimentos que foram necessários para a área Represa_Rio_Cachoeira4. Devido a mortalidade inicial observada e principalmente à altura média constata- da para as mudas, uma importante decisão que abrangeu todas as áreas reflorestadas pela Cor- pus foi tomada, tratou-se da substituição do recipiente que vinha sendo utilizado, de 56 cm³, por recipientes de 290 cm 3 . Esta decisão foi embasada em dados obtidos em experimentação científica (Barbosa, 2011), que mostraram o melhor desenvolvimento e resistência a estresses pós plantio para algumas espécies produzidas nestes recipientes de maior volume.

ConCLuSõeS

Apesar do planejamento criterioso durante a elaboração de projeto técnico, prin- cipalmente quanto à seleção de mudas e diversidade utilizada para cada local, informações obtidas nas amostragens realizadas apontaram a saída de espécies não pioneiras do sistema, ou seja, a mortalidade por provável falta de condições ambientais propícias ao desenvolvi- mento inicial de algumas espécies desta categoria sucessional, o que acarretou, de modo ge- ral, na diminuição da diversidade encontrada nas áreas reflorestadas. Com isso, sugere-se que haja uma revisão quanto ao momento mais adequado de inserção de espécies ocorrentes em estágios mais finais da sucessão, considerando-se as diferentes situações de áreas degradadas. Dentre outras dificuldades encontradas nos reflorestamentos realizados, pode-se destacar a constante interferência causada pela ocupação humana próxima às áreas de plantio, em especial nas áreas do município de Piracaia – SP, ocorrida pela soltura de animais nas áreas de plantio, mesmo com a implantação de barreiras (cercas) no entorno destas. As equipes de campo, por vezes puderam observar alguns moradores da região aproveitando-se de uma situa- ção criada com o intuito de preservar os plantios, utilizando-se dos cercamentos para facilitar o trato com os animais, soltando-os à noite, nas áreas, e recolhendo-os ao amanhecer. A presença constante destes animais provocou danos imensuráveis às mudas plantadas, pois ora os animais alimentavam-se, ora provocavam danos por pisoteio ou ao deitar sobre as mudas. Sempre que constatada a presença dos animais nas áreas, a equipe técnica comunicava à DERSA e à Polícia Militar Ambiental sobre o ocorrido, e quando possível “tocava” os animais da área. Outro fator que causou interferência no reflorestamento foi a presença de espécies exóticas, encontradas nas áreas de plantio, como por exemplo o Tecoma stans (L.) Juss. ex Kunth, ou espécies plantadas que tiveram origem em falha durante a expedição de mudas, no viveiro que inicialmente fornecia as mudas. Com a constatação destes problemas durante a realização da amostragem, foi possível orientar as equipes de campo para que removessem estas espécies problema, substituindo as mudas plantadas por espécies nativas regionais, du- rante os procedimentos normais de manutenção nas áreas, e como já mencionado, substituir o fornecedor de mudas por um viveirista idôneo. Apesar destes aspectos, a maior causa de prejuízo aos reflorestamentos rea- lizados pela Corpus foram os incêndios, ocorridos durante os períodos de estiagem, que afetaram aproximadamente 130 hectares nas diversas áreas reflorestadas no ano de 2010 e aproximadamente 50 hectares em 2011. Somente no município de Piracaia, incêndios atin- giram mais de 100 hectares em 2010, mesmo com a adoção de medidas preventivas como a manutenção de aceiros e a instalação de placas, sinalizando a restauração das APPs da represa. Em 2011, com o objetivo de se minimizar as perdas por incêndios, as equipes de campo passaram por treinamentos de combate a incêndios florestais, realizado em parceria estabelecida pela DERSA e empresas reflorestadoras, com o Corpo de Bombeiros da Polí-

Cabe ainda ressaltar que a maior parte dos plantios realizados ao longo da faixa de domínio do rodoanel, abrangendo os municípios de São Bernardo do Campo, Santo André e Mauá, possuíam um solo totalmente desestruturado fisicamente, por terem, dentre outras razões, sido utilizados para o depósito de material inerte excedente da obra, onde as análises efetuadas demonstraram tratar-se de solos extremamente pobres quanto a sua fertilidade. Uma das ações realizadas, para promover a melhoria da condição do sítio de estabelecimento das mudas que seriam nestas áreas plantadas, foi a aplicação de corretivos de solo associados ao acréscimo de matéria orgânica proveniente de substrato já exaurido na produção de cogume- los, contudo ainda com muitos nutrientes lábeis. Como conclusão geral, pode-se afirmar que as amostragens realizadas serviram para subsidiar diversas das ações corretivas, adotadas nos plantios estudados, e que as visto- rias técnicas, realizadas em conjunto com técnicos da DERSA e do Instituto de Botânica de São Paulo, têm proporcionado excelentes trocas de experiências, refletindo em um expressivo ganho para o programa de reflorestamento da DERSA.

ReFeRênCIAS BIBLIoGRáFICAS

Barbosa, T.C. Tamanhos de recipientes e o uso de hidrogel no estabelecimento de mudas de espécies florestais nativas. Dissertação (Mestrado) Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Piracicaba, 2011, 110p.

Barbosa, T.C.; Couto, H.T.Z.; Barbosa, L.M.; Parajara, F.C., Barbosa, K.C. Proposta para rea- lização de amostragens e inventário de qualidade em reflorestamentos compensatórios do Rodoanel trecho sul. In: Barbosa, L.M. (coord.). III Simpósio sobre Recuperação de Áreas Degradadas. São Paulo: Instituto de Botânica de São Paulo - SMA, p. 45-49, 2009.

Kronka, F.J.N.; Matsucuma, C.K.; Nalon, M.A.; Cali, I.H.D.; Rossi, M.; Mattos, I.F.A.; Shinike, M.S.; Pontinhas, A.A.S. Inventário Florestal do Estado de São Paulo. Instituto Florestal, SP, 2005.

ReGIStRoS FotoGRáFICoS

A
A
B
B
C
C
d
d
e
e
F
F

55

G
G
h
h
j
j
K
K
L
L
M
M
n
n
o
o
P
P
q
q
R
R
S
S
t
t

(A) Instalação de parcela amostral; (B) e (C) Identificação das mudas; (D) e (E) Incêndio na área represa_rio_Cachoeira1 em setembro de 2010; (F) Situação da área represa_rio_Ca- choeira1 em maio de 2011; (G) e (H) Incêndios nas áreas represa_rio_Cachoeira3 e 4 em setembro de 2010; (I) Atuação da equipe na área após ocorrência de incêndio; (J) Replantio das áreas afetadas pelos incêndios; (L) Ataque intenso de formigas cortadeiras; (M) Presença constante de animais nas áreas de plantio; (N), (O), (P) e (Q) Área de plantio na represa de Taiaçupeba em outubro de 2009, janeiro de 2010, setembro de 2010 e maio de 2011, respecti- vamente; (R) Área no município de Mauá, incendiada em agosto de 2010; e (S) e (T) Situação

EXPERIÊNCIAS DA VERDYCON CONSERVAÇÃO LTDA. NA EXECUÇÃO DE 338 HECTARES DE PLANTIOS COMPENSATÓRIOS DO RODOANEL TRECHO SUL

Luís Vicente Brandolise Bufo 1 Carlos Henrique Álvares Affonso 2 Maycon de Oliveira 3

1. IntRodução

A construção do Trecho Sul do Rodoanel Mário Covas, inaugurado em abril de

2011, promoveu a supressão de 212 ha de vegetação de Floresta Ombrófila Densa (FOD) em

estágios médio e avançado de regeneração. Em contrapartida, foi estabelecido o compromisso de reposição florestal em 1016 ha, devendo parte do plantio ser obrigatoriamente efetuado dentro da faixa de domínio do empreendimento. As definições básicas das ações de restauração previstas para a execução do plan- tio compensatório foram estabelecidas no Termo de Referência (TR) do processo licitatório N° 015/2008, além das recomendações da resolução SMA 08/08 e da chave para tomada de decisão para recuperação de áreas degradadas (Barbosa e Barbosa, 2007). Estas duas últimas ferramentas foram concebidas com base no aprendizado adquirido ao longo dos anos, por meio da observação e da experimentação prática de teorias criadas no campo da restauração.

A empresa Verdycon Conservação Ltda., por meio de seu corpo técnico, colocou

em prática estes conhecimentos, técnicas e modelos atualmente consagrados, atuando desde a

concepção dos projetos até a implantação e manutenção de aproximados 338 ha que lhe foram indicados, para a restauração através de contrato licitatório.

2. oBjetIvo

O presente artigo tem como objetivo descrever os principais fatores determinantes

dos casos de sucesso e insucesso, dificuldades e soluções encontradas nos plantios realizados pela Verdycon Conservação Ltda, na execução dos plantios compensatórios do Rodoanel Tre- cho Sul, e assim contribuir através da experiência prática e da visão crítica, com o acúmulo de conhecimento no campo da restauração.

3. CARACteRIzAção GeRAL dAS áReAS deStInAdAS à ReStAuRAção

As áreas objeto de restauração pela empresa Verdycon abrangem 337,75 ha, dis- tribuídos nos municípios paulistas de Cotia, São Paulo, Piracaia e Salesópolis, todos no Bio- ma Mata Atlântica. No município de Cotia somam 109,5 ha, localizados dentro da Reserva Florestal do Morro Grande (RFMG). Em São Paulo, os plantios ocorrem nas proximidades do Rodoanel, em 59 áreas distintas, distribuídas em quatro unidades de conservação (recém criadas como medida mitigatória dos impactos da obra do Rodoanel Sul), abrangendo um

1 Engenheiro Florestal, Mestre, lvbbufo@yahoo.com.br

2 Engenheiro Agrônomo, ch@verdyol.com.br

3 Engenheiro Agrônomo, maycon@verdyol.com.br

57

total de 117,7 ha na região sul do município. A área de Piracaia abrange 77,1 ha, localizados às margens da Represa do Rio Cachoeira, numa área pertencente à SABESP e em Salesópo- lis somam 34,6 ha, às margens do Rio Paraitinga, numa área administrada pelo DAEE. As áreas de Cotia e São Paulo sobrepõem-se sobre a região de domínio da FOD, enquanto as de Piracaia e Salesópolis ocorrem sobre uma faixa transitória desta formação para a Floresta Estacional Semidecídua (FES) (Kronka et al., 2005).

4. dIFICuLdAdeS e SoLuçõeS enContRAdAS PeLA eMPReSA

4.1. LIMItAçõeS FíSICo-quíMICAS doS SoLoS dA ReGIão

As regiões de domínio da FOD, de maneira geral, são caracterizadas pela ocor-

rência de solos de elevada acidez e baixa fertilidade. As análises de solo, realizadas para as áreas de plantio localizadas na região sul do município de São Paulo, apresentaram pH sem- pre inferiores a 5, mesmo para aquelas utilizadas anteriormente em culturas exigentes, como

a produção de hortaliças. Elevados teores de silte e argila são características predominantes destes solos, o que, neste caso, confere-lhes deficiência de aeração e drenagem, condição

bastante prejudicial ao desenvolvimento das mudas. Em várias áreas de plantio localizadas no município de São Paulo, principalmente naquelas utilizadas anteriormente para agricultura,

é comum a ocorrência de uma camada de compactação subsuperficial do solo, que varia em

geral de 10 a 30 cm de profundidade, podendo aflorar em locais onde o solo foi arrastado pela erosão. Esta compactação subsuperficial dificulta a infiltração da água e favorece a erosão das camadas superficiais.

4.1.1. áReAS de CoRte de SoLo, eMPRéStIMo e dePóSIto de MAteRIAL exCedente (dMe)

As áreas destinadas à restauração, resultantes do corte de terreno para empréstimo de solo ou para readequação do relevo, em atendimento às demandas da obra da rodovia apre- sentaram em geral elevada mortalidade de mudas. Isto ocorre porque, na maioria das vezes,

o mesmo modelo de implantação utilizado nas áreas de relevo natural é repetido para estas

situações, onde os horizontes profundos de solo foram expostos após a remoção das camadas superficiais. Na região sul do município de São Paulo, os solos resultantes desta remoção caracterizam-se por serem extremamente argilosos ou siltosos, pobres em matéria orgânica e nutrientes, ácidos e deficientes em aeração e drenagem. Contribui para o agravamento desta situação a conformação plana do terreno destinado ao plantio, que dificulta o escoamento superficial. É comum, nestas áreas, mesmo após vários dias da ocorrência de uma chuva, a

formação de poças d’água sobre as coroas das mudas. Para a maioria das espécies, esta situa- ção desfavorece a sobrevivência das mudas ou o desenvolvimento satisfatório, inviabilizando

o fechamento de copas. Após várias experiências mal sucedidas de estabelecer plantios com

alta diversidade nestas situações, a equipe técnica da empresa realizou um levantamento das espécies mais resistentes nestas condições, chegando a uma lista composta por 42 espécies. Nos replantios e plantios recentes sobre este tipo de área, onde esta lista restrita de espécies foi adotada, observou-se uma redução significativa nas taxas de mortalidade. Somente após o estabelecimento destas espécies serão realizados plantios de enriquecimento na área. Já nos DMEs, ao invés do empréstimo há a deposição de solo, entulho e rocha que são compactados para estabilização das camadas. Após a deposição, uma camada superficial de solo é adicionada para possibilitar o desenvolvimento de cobertura vegetal. As condições do solo para o plantio nas DMEs são semelhantes às áreas de empréstimo. Contudo, depen- dendo do tipo do material e do grau de compactação da área, pode haver locais de maior e

ções, no campo, nem sempre é simples e um mesmo DME pode ter manchas de plantio com diferentes resultados. Nos DMEs localizados no município de São Paulo, as áreas críticas ao desenvolvimento das mudas foram descartadas do plantio e nas áreas restantes foi adotado o plantio com o grupo restrito de 42 espécies, sendo os resultados de sobrevivência e desenvol- vimento das mudas, até o momento, satisfatórios.

4.2. áReAS SujeItAS à GeAdAS

Os plantios da zona sul do município de São Paulo e na RFMG em Cotia (SP) sofreram eventos de geada. Na primeira área, a única consequência foi a queima parcial das folhas de algumas plantas, não sendo constatados danos reais ao plantio. Já nos plantios da RFMG, as geadas foram mais frequentes e intensas. Desde o início do plantio na reserva, em março de 2009, foram observadas na área sete geadas, sendo três delas no inverno de 2009, duas em 2010 e duas em 2011. As geadas de 2009, além de severas, ocorreram num período inicial de desenvol- vimento das mudas, acarretando, neste primeiro ciclo, mortalidade e atrasos significativos ao desenvolvimento do plantio. No verão seguinte, com o aumento das chuvas e o uso in- tenso das estradas de terra que acessam a área de plantio, por veículos pesados das equipes de manutenção da estrada de ferro que corta a reserva, as estradas ficaram intrasitáveis e as manutenções destes plantios ficaram atrasadas. Com este atraso, a samambaia-do-campo (Pteridium arachnoideum (Kaulf.) Maxon), espécie competidora dominante no local, teve um grande crescimento, chegando a cobrir as mudas implantadas. No início do inverno de 2010, as estradas foram reformadas, mas numa reunião entre as equipes técnicas da Verdycon, DERSA e SABESP (responsável pela RFMG), concluiu-se que a cobertura promovida pela samambaia-do-campo poderia minimizar os efeitos da geada sobre as mudas. Sem compro- metimento com o rigor científico, em uma pequena área foi realizado o controle das samam- baias, como testemunha dessa experiência. No decorrer daquele inverno ocorreram duas gea- das e aparentemente, nestes dois eventos, a queima das mudas foi bem menos pronunciada nas áreas em que a samambaia foi mantida. Em setembro de 2010, as atividades de manutenção da área com o coroamento e a roçada seletiva das samambaias foram retomadas. As mudas plantadas obtiveram um bom desenvolvimento nesse período. No início do inverno de 2011, toda a área de plantio da RFMG estava devidamente manejada, com as mudas coroadas, adu- badas e com a samambaia controlada com roçada de forma seletiva, em toda sua extensão. Em 16 de junho de 2011 ocorreu uma forte geada, que promoveu a desseca de muitas mudas, principalmente daquelas localizadas nas partes mais baixas do terreno. Esta geada, extrema- mente severa, provocou a morte, a perda das folhas ou a queima das partes aéreas mesmo das arvoretas já formadas. Quando as mudas sobreviventes começaram a rebrotar (muitas delas a partir da altura do colo da planta), uma nova geada acometeu o plantio, no dia 30 de julho de 2011, ocasionando mais atrasos em seu desenvolvimento. As perdas de mudas ocorridas até o momento em função das geadas ainda não foram computadas, mas estima-se que seja da ordem de 40 %. É importante ressaltar que no plantio destas áreas foram utilizadas 135 espécies de ocorrência natural da FOD, formação original da reserva (Catarino et al., 2004; Kronka et al., 2005). Contudo, na seleção das espécies para o plantio não foi considerada a possibilidade de geada nessas áreas. Em regiões de clima frio, muitas das espécies que sobrevivem no inte- rior dos remanescentes florestais dificilmente sobreviveriam, ou passariam isentas dos efeitos das geadas quando plantadas em áreas abertas. No interior das áreas florestadas, a variação térmica é muito menor, não havendo ocorrência de geadas, explicando assim a não aptidão de muitas destas espécies quando expostas a este evento climático. Além disso, em regiões de clima frio, existem variedades selecionadas naturalmente ao longo do tempo, para resistirem nesse ambiente. Diante destas constatações e observações, conclui-se que para plantios em

59

áreas sujeitas a geadas, devem ser usadas espécies regionais que sejam comprovadamente resistentes a esses eventos, mesmo que isso represente uma menor diversidade específica, medida que já está sendo considerada pela empresa, no replantio das falhas. A alta diversidade será adquirida gradualmente pelo aporte de sementes do entorno, à medida que a fisionomia florestal comece a prevalecer na área. Apesar do equivocado uso de elevada diversidade de espécies no plantio das áreas da RFMG, um resultado que merece ser destacado é o aporte de indivíduos da regeneração natural na área, preservados pelo método seletivo de controle de competidores. Em avaliação fi- tossociológica da regeneração natural, após as atividades de roçada seletiva (Bufo, et al., 2009), verificou-se que o número de indivíduos arbustivos arbóreos preservados superou em muito qualquer densidade de plantio usualmente adotada em projetos de restauração no Brasil. Nes- sa avaliação, considerando apenas os indivíduos arbustivos arbóreos regenerantes com altura igual ou superior a 50 cm, foi constatada uma densidade de 6.866 indiv.ha -1 , de 32 espécies, 29 gêneros e 13 famílias botânicas. Destes, 57,28% são de espécies arbóreas, 35,68% de espécies arbustivas, e apenas 7,04% de espécies herbáceas. Não foi incluída nessa análise a samambaia- -do-campo. Esta foi analisada separadamente, conferindo uma densidade de 5.855 indiv.ha -1 . Outro indício de sucesso das intervenções no sítio de plantio, até o momento, foi

o rompimento de um ciclo, geralmente bianual, da ocorrência de incêndios que acometiam a área há mais de duas décadas, retornando a vegetação local sempre a um estágio pioneiro ou inicial. Com o aumento da densidade de indivíduos e redução da cobertura pela samambaia, diminuindo a massa vegetal seca durante o inverno, pretende-se romper definitivamente este ciclo de queimadas, dando condições à evolução do estágio sucessional da vegetação.

4.3. InteRFeRênCIAS AntRóPICAS

Além das diferentes variáveis ambientais naturais que influenciam a sobrevivência e o desenvolvimento dos plantios, existem ainda as interferências antrópicas, em geral tanto mais fre-

quentes quanto mais próximos a regiões de ocupação humana. Nos plantios da Verdycon, a soltura de animais (gado e cavalo) para pastoreio em seu interior é a interferência mais frequente. Além de se alimentarem das mudas, os animais também promovem seu pisoteio e podem levar os plantios

a elevadas taxas de mortalidade. Como medida preventiva, as áreas consideradas potencialmente

sujeitas à invasão pelos animais foram inteiramente cercadas. Contudo, nem sempre as cercas instaladas têm sido respeitadas, havendo casos em que as mesmas foram cortadas e até mesmo roubadas. Esforços conjuntos entre equipes de campo da empresa, o DERSA e órgãos responsá- veis pelas unidades têm sido feitos, no sentido de se vistoriar frequentemente os plantios, a fim de identificar e solucionar estes problemas logo no início, evitando que os danos sejam maiores. Nos períodos de estiagem prolongada, o fogo passa a ser o foco das atenções destas equipes de monitoramento e, até o momento, poucas e pequenas áreas de plantio da

Verdycon foram queimadas. Como medidas preventivas, a empresa tem adotado o uso de aceiros e a instalação de placas indicativas de áreas em restauração. Contudo, a medida que parece surtir melhor resultado no controle dos incêndios é a manutenção em dia das áreas, com coroas amplas e a roçada baixa dos capins em área total, reduzindo assim o acúmulo de matéria seca sobre o solo.

60

4.4. eSPéCIeS InvASoRAS

Em algumas das áreas de plantio localizadas no município de São Paulo, um problema recente e que vem se acentuando é a predação de mudas pela lebre-européia (Lepus europaeus). Trata-se de uma espécie exótica originária da Europa e de parte da Ásia, que apresenta notável capacidade de adaptação, ocupando tanto florestas quanto áreas abertas, fato que a conduziu ao sucesso no Brasil (Peracchi et al., 2002), sendo atualmente encontrada em todos os estados do sul

e sudeste (Rei et al., 2006). A lebre alimenta-se da parte aérea de plantas jovens, incluindo folhas e

caule, quando o diâmetro de colo das mudas ainda é pequeno. As observações de campo apontam que as plantas predadas possuíam, em geral, diâmetro de colo inferior a 0,7 cm. As áreas mais afetadas por este problema estão localizadas na região dos Parques Bororé e Varginha, sul do município de São Paulo, principalmente nos plantios e replantios mais recentes, realizados a partir de outubro de 2010. O aumento dos prejuízos do plantio na região pode estar associado à remoção dos cães domésticos, principal predador da lebre- -européia, que ocorreu juntamente com a desapropriação das terras ao longo do traçado do Rodoanel e das unidades de conservação criadas. Uma alternativa para contornar este problema seria a implementação de cercados individuais, compostos de telas plásticas ou lonas, esticadas por quatro pequenas estacas de madeira, no entorno da muda. Contudo, trata-se de uma medida de elevado custo e não pre- vista no orçamento dos plantios. Uma alternativa a essa medida seria promover o controle da lebre-européia, seguindo parâmetros legais.

5. AvALIAçõeS dAS áReAS de PLAntIo

Com o objetivo de avaliar se os parâmetros de diversidade, estabelecidos na Re- solução SMA 08/08, foram atendidos nos plantios e quantificar a mortalidade ocorrida em cada área implantada, para cálculo da necessidade de replantio, foram adotados dois métodos amostrais, aqui denominados método LMQ (Barbosa, 2009) e método IBSP.

5.1. Método LMq

Desenvolvido pelo Laboratório de Métodos Quantitativos (LMQ) da ESALQ/ USP e pesquisadores do Instituto de Botânica do Estado de São Paulo (IBSP), trata-se de um método de amostragem no qual são instaladas parcelas no campo, compostas de quatro linhas

de plantio com 10 plantas ou falhas cada. Para cada indivíduo da parcela são anotados altura

e espécie, ou “falha”, quando isto ocorrer. O método é aplicado com a finalidade de estimar

a riqueza de espécies, altura do plantio e a taxa de mortalidade com erro amostral determi-

nado, e foi utilizado em áreas de plantio da zona sul do município de São Paulo, onde foram instaladas 38 parcelas em quatro áreas de plantio próximas entre si. As análises foram feitas individualmente para cada área e agrupadas, para representar o todo.

5.2 ReSuLtAdoS do Método LMq

Os resultados da amostragem são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Resumo dos resultados obtidos da amostragem de campo feita de acordo com mé- todo LMQ, em plantios com espaçamento 2x2 m, na Zona Sul do município de São Paulo, SP.

LOCAL:

Idade

PA

Altura (H)

 

Falhas (F)

 

D. Abs. (Ind.ha -1 )

R

(meses)

Hmed(cm)

E (%)

EN

F (%)

E (%)

EN

PQ. JACEGUAVA.01

5

10

62,13

6,41

4

29,9

26,56

71

1753

64,0

PQ. JACEGUAVA.11

1

8

35,87

7,22

4

5

56,4

251

2375

71,0

PQ. LINEARII.04

4

10

37,1

8,36

7

13,25

29,6

88

2169

73,0

PQ. VARGINHA.04

5

10

37,31

8,55

7

15,5

23,22

54

2113

69,0

Análise conjunta

1-5

38

43,48

7,85

23

16,48

20,92

166

2188

116

Onde:

PA –número de parcelas avaliadas; Hméd – altura média das mudas em cm.; E (%) – erro amostral obtido para o parâmetro avaliado; EN – esforço amostral necessário para erro amos- tral de 10% (em nº de parcelas); F (%) – porcentagem de falhas; D. Abs. (Ind.ha -1 ) – Densida- de absoluta em n° de indivíduos vivos em cada hectare; R – Riqueza de espécies.

61

Foram amostrados 1520 indivíduos ou falhas, para as quais foram identificadas 116 espécies. Os resultados das análises mostraram que a altura média dos indivíduos variou entre as áreas de 35,87 a 62,13 cm. Na análise conjunta das áreas, a altura média foi de 43,48 cm. A estimativa da porcentagem de falhas variou de 5 a 29,9% e, na análise conjunta, esta porcentagem foi de 16,48 %. Para os dados de porcentagem de falhas, tanto individualmente como na análise conjunta das áreas, o erro amostral foi sempre superior ao desejado de 10 %, havendo a necessi- dade da instalação e avaliação de um maior número de parcelas. Por fim, pode-se concluir que dos 1520 indivíduos amostrados (equivalente ao espaçamento de 2x2 m a 0,6 ha), a ocorrência de 116 espécies indica o atendimento pleno da exigência de 80 espécies da Resolução SMA 08/08.

5.3. Método IBot

O segundo método, desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Botânica de São

Paulo (IBOT), tem como objetivo prático fornecer uma estimativa de mortalidade através de le- vantamentos expeditos simples, sem a necessidade de instalação de parcelas. O método consiste na seleção ao acaso de duas linhas paralelas de plantio. Em cada linha, são tomadas 50 plantas e anotado o número de plantas vivas e mortas. A soma das duas linhas totaliza 100 plantas e o número de plantas mortas é convertido diretamente em porcentagem de mortalidade. Quando as áreas apresentam mosaicos de maior ou menor taxa de sobrevivência, as amostragens e as análises são estratificadas, de modo a se ter resultados mais representativos para cada situação. Em áreas homogêneas de grandes dimensões devem ser feitas várias amostras e calculada a média das porcentagens de mortalidade. Este método tem como principal vantagem a possibilidade de se fazer amostras de muitas áreas, com pequeno esforço amostral. Entre as des- vantagens estão o resultado pouco preciso, o erro amostral não controlado e a ausência de informa- ções sobre riqueza de espécies e sobre a altura média do plantio. Entretanto, o método atende bem às necessidades da empresa para estimar as falhas e calcular o total de mudas a serem replantadas, podendo ser aplicado a um grande número de áreas, num curto espaço de tempo.

5.4. ReSuLtAdoS do Método IBot

O método IBOT foi aplicado em todas as 52 áreas de plantio localizadas na zona

sul do município de São Paulo. Os resultados obtidos foram organizados em classes de mor- talidade. A Figura 1A apresenta o gráfico da distribuição das classes de mortalidade, pelo número de áreas. A Figura 1B apresenta o gráfico de distribuição das classes de mortalidade, pela porcentagem das áreas de plantio.

de mortalidade, pela porcentagem das áreas de plantio. Figura 1. Distribuição das classes de mortalidade pela
de mortalidade, pela porcentagem das áreas de plantio. Figura 1. Distribuição das classes de mortalidade pela

Figura 1. Distribuição das classes de mortalidade pela porcentagem do número de áreas (A) e

Os resultados mostraram que das 52 áreas avaliadas, as classes de mortalidade mais frequentes foram 20 a 30%, ocorrendo em 42,4% das áreas, e 10 a 20%, ocorrendo em 40,7% das áreas. Juntas, estas duas classes representam mais de 80% do total do número de áreas avaliadas. Considerando o total de hectares implantados no município de São Paulo, 43,7% deles apresentaram mortalidade entre 10 a 20%, e 42,9% apresentaram mortalidade de 20 a 30%. Estas duas classes de mortalidade ocorreram em mais de 86% da área total implantada. Com estes dados, a estimativa de replantio de mudas para as áreas da Verdycon, no município de São Paulo, é de 58.274 mudas (num total de 294.029).

6. APoIo à PeSquISA CIentíFICA

Com o intuito de colaborar com a pesquisa científica, a empresa Verdycon cedeu área, mão de obra, mudas e insumos para a realização de um experimento de mestrado, cujos objetivos foram avaliar as taxas de sobrevivência de plantios realizados com mudas produzi-

das em três volumes de recipientes, e com a aplicação ou não de hidrogel. Os recipientes testa- dos foram a bandeja com células, que possuíam um volume de 9 cm³, o tubetinho com 56 cm³

e o tubetão com 290 cm³. Os resultados mostraram que houve diferença significativa na taxa

de sobrevivência entre os diferentes recipientes testados, correspondendo a 14% de mortalida- de para o tubetão, 43,9% para o tubetinho e de 81,7% para as mudas provenientes da bandeja. Os testes com o uso ou não do hidrogel não diferiram estatisticamente. Este trabalho pode ser consultado na íntegra em www.teses.usp.br, com o título “Tamanhos de recipientes e o uso de hidrogel no estabelecimento de mudas de espécies florestais nativas” (Barbosa, 2011).

7. ConSIdeRAçõeS FInAIS

As experiências dos plantios compensatórios do Rodoanel Trecho Sul têm mos- trado que os resultados finais são dependentes do ambiente que se propõe a restaurar. Os métodos de restauração, os objetivos e o tempo de manejo propostos devem ser compatíveis com os recursos e limitações que o ambiente disponibiliza ao desenvolvimento das plantas. Utilizar um único modelo de restauração para uma variada gama de situações ambientais pode representar um maior gasto de recursos, sem que haja garantias de que o objetivo da restauração será atingido. Em áreas sujeitas à geadas, o uso de uma elevada diversidade de espécies, no pri- meiro momento da restauração, pode inviabilizar o fechamento de copas e retardar a formação de uma fisionomia florestal, necessária para o estabelecimento das espécies intolerantes a este evento climático. Em regiões de solos predominantemente argilosos, o uso de mudas produzidas em recipientes maiores permite maior sobrevivência de mudas do que aquelas produzidas em tubetinhos de 56 cm³, sendo esta vantagem mais acentuada para as espécies finais da sucessão. Estas direcionam suas energias e reservas para a produção de tecidos nobres, em detrimento à produção rápida de raízes e parte aéreas, necessárias para a sobrevivência em ambientes mais seletivos.