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MARILUCE PAES DE SOUZA THEOPHILO ALVES DE SOUZA FILHO CARLOS ANDRÉ DA SILVA MÜLLER NARA ELIANA MILLER SERRA LILIAN KÉCIA RABELO CAMPELO EUCLIDES RICARDO FERREIRA FRANCINETE AVELAR JORGE PAULO BRAGA RAIMUNDO JUNIL

FRANCINETE AVELAR JORGE PAULO BRAGA RAIMUNDO JUNIL © dos Autores 1ª edição 2008 – Volume 1

© dos Autores 1ª edição 2008 – Volume 1 – TERRITÓRIO MADEIRA MAMORÉ.

Direitos Autorais Reservados ao Instituto de Estudos e Pesquisas do Agronegócio Rondoniense – IEPAGRO. Rua Ajuricaba, 260 – Vila Tupi – CEP 78.900-000. Porto Velho, Rondônia. iepagro@iepagro.com.br

Equipe de Apoio do IEPAGRO Alzinete Siqueira de Lima Lucimar Brasil Paes Dércio Bernardes Déric Rodrigo Fabiana Rodrigues Riva Caroline Brasil Rosana Souza

Agricultura Familiar: Assessoria Técnica, Social e Ambiental nos Assentamentos em Rondônia / Mariluce Paes de Souza et al. - - Porto Velho: IEPAGRO, 2008. 150 p. : il. color. ; 14 x 22 cm

ISBN 978-85-61320-00-3

1. Agricultura familiar. 4. Rondônia. I. Souza, Mariluce Paes de. II. Souza Filho, Theophilo Alves de. III. Serra, Nara Eliana Miller. IV. Campelo, Lilian Kécia Rabelo. V. Ferreira, Euclides Ricardo. VI. Avelar, Francinete. VII. Braga, Jorge Paulo. VIII. Junil, Raimundo. IX.Título.

CDD (21.ed.) 338.109811

   

SUMÁRIO

 
 

PREFÁCIO

5

 

APRESENTAÇÃO

9

1.

INTRODUÇÃO

10

1.1

Mudanças na produção agrícola

13

1.2

O

processo de ocupação de Rondônia

16

1.2.1

Marcos no processo de ocupação

16

1.3

Experiências para uma agricultura viável

24

1.4

A

dependência econômica da agropecuária

27

2.

AGRICULTURA FAMILIAR

33

2.1

Extensão Rural

36

3

PROGRAMA DE ATES

37

3.1

Municípios e Operadora no Território Madeira

41

Mamoré

3.2

Assessoria Técnica

42

3.3

Aspectos Metodológicos

44

4

Assentamentos em Rondônia Histórico e Origem dos Assentados Assentamentos no Território Madeira-Mamoré Características da Ocupação dos Assentamentos Educação nos Assentamentos Produção e Comercialização dos Assentamentos Sistemas de Produção Destino da produção

50

4.1

50

4.2

54

4.3

58

4.4

63

4.5

67

4.5.1

67

4.5.2

69

5

Caracterização dos Projetos de Assentamentos Município de Candeias do Jamari População por faixa etária Infra-estrutura dos assentamentos Sistemas de produção e cultivo Sistema de Criação Sistema Extrativista Destino da produção

71

5.1

71

5.1.1

71

5.1.2

74

5.1.3

77

5.1.4

81

5.1.5

84

5.1.6

86

5.2

Município de Porto Velho População por faixa etária Infra-estrutura dos assentamentos Sistemas de produção e cultivo Sistema de Criação Sistema Extrativista Destino da produção

88

5.2.1

88

5.2.2

91

5.2.3

97

5.2.4

102

5.2.5

103

5.2.6

106

5.3

Município de Guajará-Mirim População por faixa etária Infra-estrutura dos assentamentos Sistemas de produção e cultivo Sistema de Criação Sistema Extrativista Destino da produção

108

5.3.1

108

5.3.2

110

5.3.3

114

5.3.4

116

5.3.5

117

5.3.6

119

5.4

Município de Nova Mamoré População por faixa etária Infra-estrutura dos assentamentos Sistemas de produção e cultivo Sistema de Criação Sistema Extrativista

121

5.4.1

121

5.4.2

124

5.4.3

130

5.4.4

133

5.4.5

134

5.5

Aspectos Sociais dos Assentamentos

135

6

CONSIDERAÇÕES

142

7

BIBLIOGRAFIA

144

VERSO DA ÚLTIMA CAPA Sinopse

O livro aborda sobre o Programa de Assessoria

técnica social e ambiental a Reforma Agrária - ATES, tendo como foco neste primeiro volume, o Território Madeira Mamoré, incluindo uma contextualização sobre a ocupação do estado de Rondônia e o desenvolvimento econômico a partir da década de 70. O livro está composto em cinco capítulos que tratam sobre: 1) Mudanças na produção agrícola; O processo

de ocupação de Rondônia; Marcos no processo de

ocupação; Experiências para uma agricultura viável; A dependência econômica da agropecuária. 2) Agricultura Familiar. 3) Programa de ATES. 4) Assentamentos em Rondônia. 5) Caracterização dos

Projetos de Assentamentos.

Análise Ambiental articulador do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

FRANCINETE FÁTIMA ALVES AVELA, Graduada em Ciências Sociais, pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, articuladora do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

JORGE PAULO DE FREITAS BRAGA, Graduado em Engenharia Agronômica, articulador do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

RAIMUNDO JUNIL MARQUES RIBEIRO, Graduado em agronomia, articuladora do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

PREFÁCIO

Este primeiro volume deste ensaio denominado:

AGRICULTURA FAMILIAR. ASSESSORIA TÉCNICA, SOCIAL E AMBIENTAL NOS ASSENTAMENTOS EM RONDÔNIA, traz a ousadia de oferecer uma sistematização sobre um determinado segmento da agricultura familiar.

O programa de Assessoria Técnica, Social e Ambiental

nos Assentamentos de Reforma Agrária (ATES) foi implantado em 2004 com a finalidade de oferecer um serviço de apoio às famílias assentadas nos projetos de assentamentos com foco no planejamento participativo e de um processo de desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável busca a conjugação equilibrada dos aspectos ambientais (ecologicamente correto) sociais (socialmente justo) econômico (economicamente viável). Não é um planejamento fácil e mais difícil ainda é reunir todas as condições para a implementação plenamente adequada.

Mas o desenvolvimento sustentável só se faz com planejamento e o planejamento de desenvolvimento sustentável só se faz com definição de um espaço geográfico sobre o qual se planejará as ações sociais.

O recorte de rural que os autores definiram para focar a

análise e reflexão é o enfoque territorial rural onde a abordagem é feita sobre um espaço de ruralidade em construção, onde o rural não se opõe ao urbano como é tratado o rural no paradigma tradicional.

Esta nova abordagem de planejamento da ruralidade, com ênfase na perspectiva do desenvolvimento sustentável, vem sendo trabalhado intensivamente pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Os técnicos que atuam no ATES são

orientados para trabalhar e fazer a abordagem dentro destas perspectivas.

Em 2003 o Governo Federal através da Secretária de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SDT/MDA) deu início a um Programa de homologação de Territórios Rurais, incentivando, portanto, que em cada Estado fossem definidos territórios rurais. Para surpresa do próprio MDA no final do ano de 2007 já estavam homologados 160 territórios rurais no país afora.

Atualmente, milhões de pessoas do meio rural brasileiro estão envolvidas nos debates e na implementação de Planos Territoriais de Desenvolvimento Rural Sustentável.

Devido o sucesso desta nova abordagem do desenvolvimento rural o Presidente da República, determinou que fossem, com critérios técnicos, selecionados 60 Territórios e sobre eles criou um Programa chamado “Territórios da Cidadania”. O Governo Federal, por meio deste programa visa integrar ações de políticas públicas e aplicação do orçamento com base no planejamento com a participação da sociedade civil

e gestores públicos por meio de um Colegiado que deverá, com critérios coerentes, priorizar e acompanhar a aplicação de recursos. É um programa ainda mais inovador.

Em Rondônia, em 2003, o CONSELHO ESTADUAL DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL discutiu e acatou as orientações políticas sugeridas pelo MDA. Criou uma Câmara Técnica para aplicar os critérios técnicos propostos e para sugerir pré-territórios. Na ocasião foram definidos 7 pré-territórios rurais, envolvendo os 52 municípios. No mesmo ano de 2003 o Conselho Estadual estabeleceu um critério de priorização e solicitou ao MDA a homologação de 3 (três) deles.

O MDA acatou a proposta e homologou os três. Sendo eles: O Território Central de Rondônia, o Território Vale do Jamari

e o Território Madeira-Mamoré. Em 2007 foi homologado mais um: Território Rio Machado.

SOBRE OS AUTORES

MARILUCE PAES DE SOUZA, Graduada em Administração, mestre em Engenharia da Produção e Doutora em Ciências Socioambiental, professora Universitária e pesquisadora da UNIR, Diretora Presidente do IEPAGRO.

THEOPHILO ALVES DE SOUZA FILHO, Graduado em Administração, Mestre em Administração e Doutor em Desenvolvimento Socioambiental, professor universitário e pesquisador da UNIR, Diretor Técnico do IEPAGRO.

CARLOS ANDRÉ DA SILVA MULLER, graduado em Administração mestre e doutor em Economia Aplicada, professor universitário e pesquisador da UNIR, Diretor de Articulação da Gestão do IEPAGRO.

NARA ELIANA MILLER SERRA, Licenciada em matemática, pós- graduada em Metodologia do Ensino Superior, mestre em desenvolvimento regional e meio ambiente, pesquisadora do Centro de Pesquisa CEDSA/UNIR, articuladora do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

LILIAN KÉCIA SALDANHA RABELO CAMPELO, Graduada em Ciências Econômicas, pós-graduada em Administração Pública, pesquisadora do Centro de Pesquisa CEDSA/UNIR mestranda em Administração, articuladora do Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental ATES/IEPAGRO/INCRA.

EUCLIDES RICARDO LINHARES FERREIRA, Graduado em Administração, pós-graduado em Ecologia, Gestão Ambiental e

SILVA, A.A.D. Concepções de processo educativo no âmbito da extensão rural e suas repercussões na prática dos extensionistas: um estudo através da EMATER-RS. Santa Maria/RS, UFSM, 1992;

SIMÕES, Aquiles (org.). Coleta Amazônica. Iniciativas em pesquisa, formação e apoio ao desenvolvimento rural sustentável na Amazônia. Belém: Alves Ed., 2003. 326p.

PINTO, Rita Mendonça Soares. Tendências atuais no campo institucional da ATER: situação na região de Marabá. Seminário Interestadual de Assistência Técnica e Extensão Rural para agricultura familiar na região amazônica, Belém, 05 a 08 de dezembro de 2000. p. 2.

PELOSO, Ranulfo. Aprendendo e ensinando uma nova lição:Educação popular e Metodologia Popular- pesquisa internet – Adital, notícias da América latina, em 22/02/2008.

O Território Rural Madeira-Mamoré integra os municípios

de Guajará-Mirim, Nova Mamoré, Porto Velho, Candeias do Jamari e Itapuã do D’Oeste.

E é sobre atividades de planejamento e de execução de

políticas públicas no âmbito deste Território que este primeiro

volume vai concentrar seu foco. Mas, evidentemente que os autores não poderiam tratar do desenvolvimento sustentável de um Território Rural sem antes contextualizar a ocupação de Rondônia. Por isso uma longa introdução tratando deste tema.

Este primeiro volume se apresenta como uma obra em construção e busca a sistematização de indicadores que até então se encontravam dispersos e desconhecidos pela maioria da população e menosprezados nos meios acadêmicos de Rondônia.

Agricultura Familiar. Assessoria Técnica, Social e Ambiental nos Assentamentos em Rondônia traz consigo um aspecto de ousadia que consiste no fato de reunir informações sobre a realidade social do meio rural de Rondônia e sobre ela iniciar um debate acadêmico, visando subsidiar atividades de planejamento no meio rural e subsidiar estudos envolvendo esta temática.

Deve-se registrar que até hoje muito pouco foi feito em termos de pesquisa acadêmica no meio rural de Rondônia. Os dados sistematizados e informações importantes que hoje se tem, principalmente as relacionadas com produtividade e diversidade de produção são oriundos de órgãos de assistência técnica, do IBGE e órgãos de pesquisa agropecuária. A academia muito pouco tem produzido sobre a ruralidade de Rondônia. A Universidade Federal de Rondônia nasceu e cresceu com a atenção voltada para o urbano e tem, portanto, uma “dívida” histórica neste aspecto de produzir reflexões do desenvolvimento social rural e do avanço produtivo neste setor.

Quem passou pela academia sabe da importância que as pesquisas representam. Quando não se dispõe de informações e análises de dados sistematizados não há como planejar de forma consistente um processo de desenvolvimento. Muito menos um

planejamento ancorado nos princípios da sustentabilidade. E sem planejamento consistente e participativo, segmentos sociais ficam a deriva de suas próprias intenções e heranças culturais.

Desejo aos autores e colaboradores muito sucesso nesta relevante iniciativa de contribuir de forma organizada na discussão do desenvolvimento rural sustentável de Rondônia e aos leitores quero, alem de desejar boa leitura, solicitar que participem deste processo de construção de um novo conhecimento sobre o Rural de Rondônia com contribuições para enriquecer o planejamento de desenvolvimento sustentável de Rondônia a partir do Rural.

Olavo Nienow Delegado Federal do Desenvolvimento Agrário em Rondônia

Plano de Desenvolvimento do Assentamento da Resex Barreiro das Antas. Guajará-Mirim, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento do Marechal Rondon. Nova Mamoré, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento do Igarapé Azul. Nova Mamoré, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de Rosana Lecy. Nova Mamoré, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de Pau Brasil. Nova Mamoré, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de Ribeirão. Nova Mamoré, 2006.

FAO/INCRA Diretrizes de Política Agrária e Desenvolvimento Sustentável. Brasília, Versão resumida do Relatório Final do Projeto UTF/BRA/036, março, 1994.

FERREIRA, O. C.: Análise Exergética de Sistemas de Produção Agrícola, FAPEMIG - Economia & Energia, Ano III – Nº. 12 Janeiro/Fevereiro 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 25ª edição, 1970

INCRA. Manual operacional da Assessoria Técnica, Social e Ambiental (ATES). Ministério do Desenvolvimento Agrário. Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária. Brasília - DF: agosto, 2007.

SCHMITZ, Heribert. Educação ou aconselhamento: questão- chave da assistência técnica para a agricultura familiar.

Congreso Latinoamericano de Sociología Rural, 6, Porto Alegre, Associación Latinoamericana de Sociología Rural (ALASRU),

2002.

7. REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY, R. “Agricultura, Diferenciação Social e Desempenho Econômico”. Projeto IPEA-NEAD/MDA – Banco Mundial, São Paulo, FEA-USP, 2000.

ESCLARIN, Antonio Pérez. A Educação Popular e sua

Pedagogia

São Paulo, Edições Loyola, 2005

EMATER. Plano de Desenvolvimento do Assentamento Cachoeira de Samuel. Candeias do Jamari, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de Paraíso das Acácias. Candeias do Jamari, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de PCA Comunidade Alternativa. Candeias do Jamari, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento do Rio Preto do Candeias. Candeias do Jamari, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento da Resex Lago do Cuniã. Porto Velho, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento do PDS Nazaré/Boa Vitória. Porto Velho, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento do Rio Madeira. Porto Velho, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de PDS Porto Seguro. Jaci-Paraná, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento de Joana D’Arc. Porto Velho, 2006.

Plano de Desenvolvimento do Assentamento da Resex Rio Ouro Preto. Guajará-Mirim, 2006.

APRESENTAÇÃO

A partir da segunda metade dos anos 1990, o Governo

Federal começou a se preocupar com a necessidade da existência de uma política agrícola específica para os agricultores familiares e em especial para os assentados da Reforma Agrária, na tentativa de corrigir as distorções da estrutura fundiária

brasileira, caracterizada pela concentração de terra e de renda.

Embora o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, tenha como meta final a Reforma Agrária, a sua preocupação com a qualidade de vida das famílias nos assentamentos fez com que, de forma pioneira, o Programa de Assessoria Técnica Social e Ambiental – ATES, com novos métodos e ensinamentos, fosse implantado na perspectiva de viabilizar uma nova matriz tecnológica voltada para o desenvolvimento sustentável.

Conseqüentemente surgiram mais créditos para os agricultores, os quais vêm sendo trabalhados na dinâmica dessa assessoria técnica, social e ambiental, objetivando torná-los unidades produtivas estruturadas, inseridas de forma competitiva no mercado e integradas na lógica do desenvolvimento territorial.

Os serviços de ATES são o resultado de um conjunto de técnicas e métodos, construídos em um processo educativo, renovador de natureza solidária, voltado à construção do conhecimento e das ações direcionadas a melhoria da qualidade de vida das famílias.

É um processo novo que está deflagrado e que vivencia-

se dificuldades, pois é a construção do novo, no meio do velho e

ultrapassado com seus vícios arraigados. Vive-se hoje uma transição do sistema convencional desenvolvimentista com base na moto-mecanização-quimificação, insumo-produto, para

modelos alternativos desejados pelas comunidades com base na estrutura-conduta-desempenho e no saber local.

Manoel Messias

1. INTRODUÇÃO

A agricultura praticada na região das vias de penetração à Amazônia brasileira por mais de um século, no período que compreende de 1854 a 1975, era dependente de um sistema econômico, modelo denominado de extrativista. Esse sistema extrativista tinha como produto uma matéria-prima principal e uma dezena de outras acessórias. Quando a matéria-prima principal perdia valor de troca as demais não eram suficientes para remunerar o capital empregado para extraí-la. Essas matérias-primas tanto a principal como as secundárias tinham o mercado externo o seu principal destino.

A "Economia da Borracha" como foi denominado por Bárbara Weinstein (1993) tinha no látex extraído da hevea brasiliensis o seu carro chefe que viabilizava a extração dos demais produtos, entre eles, os principais: a balata, o caucho, a castanha-do-brasil, ou do pará como é conhecida no País; a ipecacuanha, o pau rosa; o óleo da copaíba e da andiroba; as peles de animais como as do queixada, do jacaré, do peixe boi, do veado, da onça pintada e da vermelha, entre outras de menor importância.

Toda a população da Região Amazônica dependia da produção dessas matérias-primas de uma maneira ou de outra e do fluxo financeiros que irrigava toda economia da região. Havia uma longa cadeia de suprimento composta pela indústria nascente dos pneumáticos e artefatos de borracha e os grandes conglomerados financeiros de Liverpool, na Inglaterra e Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, as companhias de navegação que transportavam os produtos, as casas aviadoras instaladas em Belém e Manaus, os regatões e os donos dos barracões que ocupavam a posição estratégica do último elo da cadeia onde se situavam os seringais nativos. Como Carl Marx dizia em “O Capital”, havia uma estrutura composta pelos exploradores e pelos explorados.

das equipes técnicas em cumprimento às metas, normas e metodologias.

Resultado do acompanhamento da equipe de articulação junto aos Núcleos Operacionais, esse documento exprime as atividades de orientação, contribuição e sugestão para melhorias para os trabalhos das equipes técnicas, bem como busca compreender e estimulá-las ao bom desempenho de acordo com as premissas do Programa ATES, tendo como finalidade a melhoria da qualidade de vida das famílias beneficiárias da Reforma Agrária no estado de Rondônia.

No livro estão contidas informações sobre os projetos de assentamentos resultados de levantamentos ocorridos nos encontros com as equipes técnicas, análise dos relatórios mensais dos PA’s conveniados com a operadora EMATER, a análise dos Planos de Desenvolvimento dos Assentamentos do Território, bem como o acompanhamento realizado pela equipe de articulação às atividades desenvolvidas pelos assessores técnicos nos Núcleos Operacionais do Território Madeira- Mamoré.

Ao longo da vigência dos Convênios, ações relevantes foram realizadas dentro da concepção do modelo de assessoria técnica, ambiental, social e cultural (ATES). Em contrapartida, é recorrente a dificuldade de os técnicos adequarem-se à nova metodologia, o que é natural, uma vez que muitos deles foram remanejados do programa ATER, voltado exclusivamente para atendimento à produtividade rural.

Esse foi, desde o início, um dos principais entraves encontrados pelos articuladores, muito embora nas visitas aos Núcleos Operacionais tenha sido abordado e repassado ao corpo técnico a filosofia do Programa ATES o qual tem como princípio a natureza multidisciplinar e multidimensional em termos técnico- ambientais, econômicos, culturais e sociais, atendendo as famílias assentadas de forma coletiva, atuando a partir de metodologias participativas baseado nos princípios da agricultura familiar, valorizando os costumes e tradições das famílias assentadas.

6. Considerações Finais

O primeiro Convênio de ATES (dezembro de 2004 a março de 2007) em Rondônia, contou com um sistema de acompanhamento e controle através de relatórios mensais encaminhado por todas as equipes técnicas e um relatório trimestral por Operadora, objetivando a comprovação e legalidade das atividades, bem como o cumprimento das metas propostas.

Entretanto, no decorrer da execução das ações de assessoria técnica, ocorreram alguns problemas de ordem estrutural e técnica/operacional, em função da dimensão de ATES, considerando o espaço territorial e o número de famílias, para planejamento e execução das ações que contemplassem as dimensões ambiental, econômica, social e cultural, principalmente por se tratar de um novo olhar sobre a extensão rural. Dentre eles, destacam-se: atraso na liberação de recursos financeiros, compreensão do Programa, infra-estrutura nos núcleos Operacionais, técnicos com pouca experiência, falta de conhecimento em metodologias participativas, carência na Gestão por parte das operadoras, transporte para o acompanhamento das atividades e ausência do acompanhamento efetivo.

O Convênio firmado em julho de 2007, contou inicialmente com um grande desafio, já que apresentara um Plano de Trabalho arrojado em função do período de execução restrito há apenas cinco meses, contemplando no Território Madeira Mamoré, 14 assentamentos. Contudo, os instrumentos utilizados através do planejamento e ferramentas de acompanhamento, formulados pela equipe de articulação, contribuíram significativamente para o monitoramento das ações executadas pelas equipes técnicas.

Considerando os aspectos já apresentados, o presente texto tem como propósito contribuir para a divulgação do Programa ATES em Rondônia, de forma a demonstrar o desenvolvimento e as peculiaridades do Território Madeira- Mamoré, ressaltando a importância das equipes de Articulação e

Os trabalhadores da indústria extrativista tinham uma questão, um trade-off a resolver: extrair o látex das árvores na selva ou produzir alimentos. Na época da extração do ouro na grande jazida de Serra Pelada, no Pará, os garimpeiros e residentes próximos à mina se dedicavam a extração do ouro ou a produção de alimentos? O mesmo fenômeno que acontecia com os extratores do látex.

Em 1912, nas barrancas do Rio Acre, no local onde hoje está situada Rio Branco, a capital do estado do Acre, segundo ainda Weinstein (1993) comprava-se 16 garrafas de um bom vinho francês com um quilograma de látex. Como a borracha tinha um elevado valor de troca e havia deficiência de mão-de- obra experiente para enfrentar os perigos da floresta e da malária, os "caboclos brabos" que trabalhavam nos seringais dedicavam toda sua energia na maximização dos benefícios oferecidos pelo valor de sua produção no final do fábrico 1 .

Com o produto obtido pela extração do "ouro branco" comprava-se de tudo. Tudo o que necessitava ou não. Desde o terno de Casimira Inglesa ao champanhe. Do amor por uma noite de belas mulheres limpas e perfumadas aos remédios, armas e munições, ferramentas, além de alimentos e condimentos como o sal, açúcar, a banha de porco e o jabá necessários a sobrevivência e manutenção sua e da família no trabalho duro e solitário no meio das onças e animais peçonhentos. No período de apuração do resultado de tanto esforço e sonhos, os trabalhadores vinham para a "rua" receber o saldo e comprar o que precisavam para atravessar mais um período de trabalho nos seringais, no “Inferno Verde” como descreve Alberto Rangel.

Mesmo após o término do período áureo dos ciclos da Economia da Borracha a produção agrícola na região não se desenvolveu. Como todos os víveres e utensílios eram financiados pelo dinheiro ganho com a venda da borracha, o que ainda se produzia para alimentação se restringia a pequenos roçados de mandioca para o fabrico da farinha d'água.

1 Fábrico. Período de aproximadamente 8 meses compreendidos entre o final e início das chuvas na região Amazônica. Não se consegue extrair o látex durante o período chuvoso. A água da chuva inunda a "tigela" (vaso) expulsando o látex que é mais leve que a água para fora do recipiente.

Cada trabalhador dos seringais carregava nos seus pertences, na lida diária, uma arma para se proteger dos animais existentes nas picadas dos seringais. Como havia muitos animais

na floresta, normalmente, após a sangria das árvores de látex, na madrugada, no retorno á casa, abatiam animais "uma caça" que acondicionavam no remaxim, uma espécie de mochila construída de cipó trançado, que carregavam amarrados às costas. Quando

o seringal situava-se perto de um rio, o peixe também fazia parte da dieta dos trabalhadores da indústria da borracha.

Essa cultura de obtenção de alimentos, a partir da disponibilidade abundante de proteína animais silvestres, complementada pela farinha da mandioca, perdura até os dias atuais nas populações tradicionais que habitam as margens dos rios e áreas interioranas na Amazônia Brasileira. Praticam até hoje uma agricultura de subsistência e se comunicam com o mercado somente quando necessitam adquirir algum bem, ou fazer um tratamento. Para isso, oferecem produtos de valor de troca, como a farinha de mandioca excedente, pranchas de madeira serrada na moto serra, o óleo de copaíba, castanha-do- pará, mel de abelhas silvestres e pequenas quantidades de frutos silvestres como o tucumã, uxi, piquiá, bacuri e atualmente o açaí.

Os habitantes das margens dos rios com várzeas como é

o caso do Solimões, Guaporé, Madeira, Juruá e Purus produzem

até hoje alguns excedentes que direcionam para os mercados regionais produtos como o feijão de corda "caupi" e a melancia, além de raízes de macaxeira e frutos do cupuaçu e pupunha.

Entretanto, no início da metade do século XX, quatro grandes projetos estruturantes, implementados no Brasil mudaram completamente a forma de ocupação e produção da Amazônia Brasileira. Um curto espaço de 10 anos (1960-1970) foi determinante para modificar radicalmente a forma de ocupação da terra e a forma secular de exploração agrícola.

O primeiro foi a abertura das Rodovias Federais ligando Belém a Brasília, que faz a ligação do eixo Norte-Sul. O segundo foi a construção da BR – 29, hoje 364. Rodovia essa que corta o País de Leste a Oeste, ligando Campo Grande no Estado do Mato Grosso do Sul a Rio Branco capital do Estado do Acre, passando por Cuiabá e Porto Velho e indo até Cruzeiro do Sul na fronteira com o Peru.

Quanto ao aspecto cultural, destacam-se atividades realizadas nas escolas com as crianças abordando temas voltados à realidade local. Dentre as ações culturais mais expressivas, ressalta-se o grupo de crianças e jovens do PDS Nazaré/Boa Vitória que receberam todo o apoio da equipe técnica para divulgação de seu trabalho. Trata-se de um grupo de canto regionais com a sonoridade obtida por instrumentos construídos por eles mesmos; esse grupo é atualmente conhecido como “minhas raízes” e têm realizado diversas apresentações na capital rondoniense.

realizado diversas apresentações na capital rondoniense. Figura 63 - Grupo Musical “Minhas Raízes” Fonte:

Figura 63 - Grupo Musical “Minhas Raízes” Fonte: EMATER, 2006

Figura 61 – Curso de Artesanato/Biojóias Fonte EMATER, 2006 Com relação ao Lazer, uma das

Figura 61 – Curso de Artesanato/Biojóias Fonte EMATER, 2006

Com relação ao Lazer, uma das práticas em todos os assentamentos é a realização de jogos de futebol, muitas vezes incluindo até time de mulheres em disputa.

muitas vezes incluindo até time de mulheres em disputa. Figura 62 - Jogo de Futebol PA

Figura 62 - Jogo de Futebol PA Nilson Campos Fonte EMATER, 2006

O terceiro e o quarto projetos estruturantes foram a criação da Superintendência da Zona Franca de Manaus e a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM, constante no II Plano Nacional de Desenvolvimento – PND, idealizado pelo governo de Juscelino Kubitschek.

Esses quatros empreendimentos modificaram a forma de domínio da propriedade da terra e o pensamento econômico vigente na região. As áreas dos grandes seringais e castanhais foram desapropriadas e divididas em lotes de 50 a 100 hectares onde pessoas das mais variadas etnias foram se apropriando com ou sem o consentimento dos habitantes residentes e assentadas com ou sem a interveniência do INCRA, principalmente no sul do Pará e em Rondônia.

Segundo o Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (2002, p. 40), o Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, por força do Decreto Nº 72.106 de 18 de abril de 1973, que regulamentou a Lei Nº 5.868 de 12 de setembro de 1972, adquiriu, entre outras, a responsabilidade de:

"fazer o levantamento sistemático dos arrendatários e parceiros rurais para conhecimento das reais condições de uso temporário da terra, vigentes nas várias regiões do país." E "Fazer o levantamento sistemático das terras públicas federais, estaduais e municipais, visando o conhecimento das disponibilidades de áreas apropriadas aos programas de Reforma Agrária e Colonização, e, da situação dos posseiros e ocupantes em terras públicas."

1.1. Mudanças na produção agrícola

Rondônia se caracteriza hoje como um Estado eminentemente agropecuário. Essa transformação teve início a partir de meados da década de 1970. Desde então, a agricultura e a pecuária começam a se desenvolver e a se integrar ao sistema produtivo brasileiro, adquirindo feições de racionalidade capitalista de produção e inserção no mercado. Essa participação inicia-se com a introdução de três produtos na região; sendo dois deles (commodities) originários da agricultura tradicional brasileira (café e cacau) e o terceiro originário da pecuária. Este último está dividido em dois segmentos: (1) produtos derivados

da pecuária de corte (carne vermelha, couro, etc.) e (2) produtos derivados da pecuária leiteira (leite in natura, leite longa vida, queijos, bebidas lácteas, manteiga, etc.). Todos os três ramos destinam-se a atender a dois mercados: o local com demanda incipiente e, sobretudo, ao mercado nacional e internacional.

O segmento da pecuária se consolida e se expande ancorado por um mercado fortemente demandador. Entretanto, a partir da década de 1980, pressionados por movimentos de preservação ambiental e mundial, inicia-se uma tentativa para encontrar alternativas ao processo de desmatamento proporcionado pela expansão da pecuária na região. A colonização, iniciada uma década mais cedo, havia se beneficiado de seis componentes principais: (1) os projetos de colonização do INCRA e de (2) regularização à iniciativa privada de grandes áreas de terra que (3) atraiu investidores interessados na expansão da pecuária já limitada nas regiões leste e sul do país, pela (4) disponibilidade de terras virgens e baratas e pela (5) disponibilidade de mão-de-obra de baixo custo na formação das fazendas e, além disso, a (6) mão-de-obra, essa vinda do Centro-Sul do país, formada por levas e levas de migrantes em busca de terras férteis e de fácil aquisição, sonhos que na sua maioria não se realizaram.

Para contrapor a esse processo de exploração via desmatamento e pecuarização, tiveram início políticas públicas dos governos federal e estadual visando a fixação da mão-de- obra migrante no campo. Para isso, foram instituídos pólos de produção de várias culturas como cacau, café, seringa, guaraná, urucum, algodão, dendê, hortaliças e de frutas, com destaque para a produção de cacau e de café em várias regiões do Estado de Rondônia.

Os projetos que tiveram apoio de órgãos institucionais públicos, a maioria foi abandonado como o PROBOR o Projeto Sidinei Girão no hoje município de Nova Mamoré que incentivou o plantio de dendê e outros como os direcionados as lavouras de café e o projeto Burareiro especializado em cacau. Após um período de abandono, esses dois últimos passaram a receber incentivos novamente, a partir de 2000. Entre essas e outras tentativas de criação de pólos de produção alternativos para conter a pecuarização e o desmatamento, a fruticultura constituiu- se num grande esforço, contando com iniciativas tanto do

se num grande esforço, contando com iniciativas tanto do Figura 60 - Reunião de produtores Fonte:

Figura 60 - Reunião de produtores Fonte: EMATER, 2006

No sentido da inclusão das mulheres e jovens no setor produtivo com aproveitamento dos recursos naturais, foram capacitados grupos em artesanatos visando contribuir com a renda familiar, mesmo com produção em pequena quantidade, propicia o desenvolvimento da criatividade e a busca por alternativas vindas do próprio local.

Figura 59 – Curso de Apicultura Fonte: EMATER, 2006. O fortalecimento das organizações sejam elas

Figura 59 – Curso de Apicultura Fonte: EMATER, 2006.

O fortalecimento das organizações sejam elas formais ou não, também esteve presente no trabalho de assessoria técnica junto aos assentados. Esta atividade se caracteriza como uma das mais importantes, pois consolida os objetivos da comunidade em busca da melhoria da qualidade de vida, da produção, do trabalho e do companheirismo. Nesse sentido, reuniões, encontros e palestras foram promovidas visando a inclusão das famílias em grupos cooperativos de trabalho, em comissões para discutirem os problemas do assentamento e também as formas de lazer das famílias.

Governo do Estado como dos governos dos municípios, além da SUDAM, SUFRAMA e do BASA.

Entre os pólos de fruticultura instituídos no Estado, destacam-se o de cupuaçu e coco-da-baía, na região de Porto Velho; acerola, maracujá, mamão entre outras frutas na região de Ji-Paraná, região central do Estado; caju, manga, abacate, goiaba, uva entre outras frutas na região de Vilhena, na região sul do Estado; e, abacaxi, melancia, laranja, na região de Ariquemes. Entre as espécies de frutas exploradas em Rondônia, merecem destaque: o cupuaçu, a acerola, o abacaxi, o maracujá, a manga, o mamão, a laranja, o limão, o açaí, a banana, o coco-da-baía, a melancia, o araçá-boi, o caju, o maná, a graviola, e a uva, entre outras frutas.

Os pólos de produção agrícola foram introduzidos ainda no início da década de 1990. Ao final deste período, o Estado inicia estudos para identificar as causas dos insucessos verificados nas iniciativas. Pólos que contaram inclusive com aporte significativo de recursos da SUDAM e da SUFRAMA para financiamento de estruturas modernas de processamento e congelamento como os de Ji-Paraná e o de Vilhena, que, no entanto, não tiveram êxito. Encontram-se atualmente fechados, seus produtores endividados e suas propriedades, várias delas, hipotecadas junto às instituições financiadoras.

Por outro lado, concomitante aos projetos instituídos com apoio oficial, iniciativas individuais foram implementadas em Porto Velho, Guajará-Mirim, Cacoal, Vilhena e Ouro Preto, entre outros municípios, aproveitando a sinergia gerada, tanto na formação de projetos isolados como na formação de arranjos verticalizados, contando, inclusive, no caso da fruticultura, com unidades de produção de mudas, plantio, manejo do pomar, transporte, beneficiamento, congelamento e comercialização de frutas para mesa e de polpas congeladas.

Em 2000, o Governo Estadual, após constatar o fracasso dos projetos nos pólos de produção agrícola, começa a desenvolver um estudo denominado de “Plataforma de Produção de Café, da Bacia Leiteira, de Piscicultura, de Produção Madeira- Moveleira, da fruticultura em Rondônia com o objetivo de identificar: (1) os principais atores envolvidos nas diversas cadeias produtivas, (2) os processos envolvidos, e (3) os

gargalos que impediram e continuam impedindo o desenvolvimento dessas atividades em Rondônia.

Para a realização do estudo, o Governo Estadual contou com a colaboração dos governos municipais, de pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia, de instituições locais de ensino superior, SEBRAE, EMBRAPA, CEPLAC, EMATER, FIERO, Secretaria Estadual de Agricultura e de instituições de fomento regionais como o BASA e o Banco do Brasil. Para isso, foi celebrada uma parceria com o Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial (Pensa), ligado à FEA/USP. Pesquisa essa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com a contrapartida do Governo Estadual e das instituições parceiras locais.

Estas questões locais relacionadas à produção agrícola em Rondônia, que não foram estudadas no trabalho citado, motivaram a elaboração deste livro sobre a trabalho para identificar outras variáveis que estão contribuindo para o insucesso das iniciativas de produção de frutas da região, apesar do apoio institucional do Estado.

Neste ponto, inicia-se uma revisão das condições que proporcionaram o aparecimento de iniciativas que estão se contrapondo ao processo de pecuarização e as iniciativas institucionais e particulares para o desenvolvimento de alternativas ao desenvolvimento da região como o agronegócio da fruticultura, utilizando para isso os marcos teóricos dos custos de transação e dos arranjos produtivos locais apoiando-se nas estruturas de produção, mercado, governança, apoio institucional, organizacional, ambiental e social dos arranjos locais.

1.2. O processo de ocupação de Rondônia

1.2.1. Marcos no processo de ocupação

Rondônia passou a ser conhecida no cenário nacional e mundial somente nas três últimas décadas do século XX, por causa do seu processo de ocupação e exploração. Antes Rondônia não passava de um simples território federal que

Rondônia não passava de um simples território federal que Figura 58 - Curso derivados do leite

Figura 58 - Curso derivados do leite Fonte: EMATER, 2006

O incentivo a busca de alternativas conduziu os produtores a desenvolverem atividades de apicultura, sendo capacitados produtores para desenvolver essa atividade.

famílias, principalmente daquelas situadas às margens de rios e igarapés que desconheciam as conseqüências do não tratamento da água. Por se tratar de comunidades por vezes isoladas, a questão alimentar, baseada apenas no peixe com farinha, mereceram das equipes orientações sobre a possibilidade do enriquecimento da alimentação através da ingestão de outros alimentos encontrados na própria comunidade ou o aproveitamento destes, como o caso das frutas de época como o cupuaçu, acerola, açaí, graviola, maracujá, caju, melancia , manga e outras mais, na confecção de doces, sucos e compotas.

e outras mais, na confecção de doces, sucos e compotas. Figura 57 - Curso Embutidos e

Figura 57 - Curso Embutidos e defumados Fonte EMATER, 2006

Para incentivar as famílias ás práticas da boa alimentação e até obterem renda através da venda dos produtos por elas fabricados, foram realizadas capacitações com grupo de mulheres, onde além do aprendizado técnicos se caracterizaram como momentos de descontração, união, lazer e formação de pequenos grupos produtivos.

dependia em tudo do Governo Federal. O Estado fora formado por terras desmembradas do estado do Mato Grosso (88%) e do Estado do Amazonas (12%). Esta transformação inicia com a vinda de milhares de famílias de agricultores para a região entre as décadas de 1970 e 1990, onde a população de pouco mais de 100 mil habitantes, passa para mais de 1,1 milhões em apenas 20 anos. Na Tabela 1 é apresentada a evolução do incremento populacional em Rondônia de 1950 a 2000, com destaque para o período em questão.

Até os anos de 1960 a população e as atividades

agrícolas de Rondônia estavam circunscritas às margens dos rios navegáveis e da lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré

. Ambas as áreas, de colonização contemporânea ao

ciclo da borracha, estão situadas ao norte do Estado. Nestas paragens existia uma agricultura de subsistência e a criação de pequenos animais que geravam, algum excedente consumido pelos dois únicos núcleos urbanos existentes: a capital do território - Porto Velho - e Guajará-Mirim – a sede do segundo município - ambas situadas nos pontos extremos da via férrea. Esta última, na fronteira com a Bolívia, de onde provinha o suprimento de proteína animal à população da capital, através da EFMM.

(EFMM)

2

A atividade econômica mais significativa era o extrativismo da borracha e da castanha-do-pará, como regra as principais atividades econômicas com valor de exportação para toda Região Amazônica. Estes dois produtos, complementados secundariamente pelo comércio de peles de animais silvestres, concentravam as trocas comerciais compreendidas entre a região do Alto Madeira/Mamoré/Guaporé e rio Abunã e as praças de Manaus e Belém.

Porém, na década de 1960, com a descoberta de minério de estanho, e na seguinte com descoberta de ouro no leito do rio Madeira, ocorre um grande fluxo migratório para a região facilitada pela abertura da BR-364, elevando a demanda por alimentos de primeira necessidade. As atividades mineradoras foram responsáveis pelas primeiras levas significativas de emigrantes, após um período de estagnação de mais de 50 anos

2 A EFMM foi inaugurada em 1912 e extinta em 1970 e em seu lugar foi construída uma rodovia.

transcorridos desde a construção da ferrovia em 1912, ao final do período áureo da extração da borracha nativa 3 .

Tabela 1 – Evolução das populações urbanas e rurais de Rondônia – 1950/2000.

Anos

Área urbana

Área rural

Total

Pop. (Mil)

%

Pop (Mil)

%

Pop (Mil)

1950

13,81

37,41

23,12

62,59

36,93

1960

30,84

43,57

39,95

56,43

70,78

1970

59,61

53,67

51,46

46,33

111,06

1980

228,17

46,47

262,86

53,53

491,03

1991

659,33

58,21

473,36

41,79

1.132,69

1996

762,76

62,05

466,55

37,95

1.229,31

2000

884,52

64,11

495,26

35,89

1.379,79

Fonte: Composição dos autores a partir de IBGE, 2004.

Entretanto, devido às características da atividade garimpeira, da mesma forma que chegaram, os migrantes partiram. Já os imigrantes das décadas de 1970-80 se comportaram de forma diferente. Vieram para o novo lar, para se fixar e cultivar a terra, atendendo ao chamamento do Governo do Estado e de Brasília com o irresistível apelo de que “o novo eldorado” estava à sua espera. Sobre estes imigrantes incide todo o peso que a grande transformação 4 rural está provocando em Rondônia.

Assim, os agricultores e suas famílias vieram para Rondônia e com incentivo e apoio governamental instalaram-se nos lotes demarcados pelo INCRA. Já no primeiro ano retiram a cobertura florestal de uma fração do terreno para o plantio de arroz, feijão e milho para suprir as necessidades de alimentação da família e geração de algum excedente. Antes, porém, vendem

3 Houve, no entanto, um outro fluxo migratório, durante a Segunda Guerra Mundial, representado pelos “soldados da borracha” que correspondeu a uma parte da participação do Brasil no esforço de guerra no período de 1940-1945 de suprir os aliados com matérias-

primas estratégicas, no caso a borracha dos seringais da Amazônia.

4 Karl Polanyi em “A grande transformação” (Rio de Janeiro: Campus, 1980) fala da grande mudança que passa a civilização ocidental de uma racionalidade capitalista limitada, circunscrita ao mundo mercantilista, para todas as atividades humanas. O mercado é quem determina o que é bom e o que não é. O que tem valor e o que não tem. São valores medidos pelo capital financeiro.

Caça

20

0

-

Pouco destruído

Total

-

-

-

-

Fonte: PDA PA Pau Brasil – EMATER, 2006.

5.5 Aspectos Sociais dos Assentamentos

O atendimento aos serviços essenciais e básicos às populações residentes em assentamentos da Reforma Agrária, por se tratar de política pública não difere dos atendimentos prestados a outras comunidades, principalmente nos aspectos educação e saúde. A precariedade e o número reduzido de Postos de Saúde, em relação à população carente, tem sido alvo de constantes reclamações das pessoas que dependem desses serviços. Para as comunidades ribeirinhas esse atendimento é mais precário ainda visto que, em sua maioria o meio de transporte é fluvial, levando muito tempo para se chegar a um local que ofereça recurso médico. Essas comunidades costumam utilizar o conhecimento e a cultura de seus ancestrais para a cura de suas doenças ou de seus ferimentos. Através da utilização de chás caseiros e da utilização de ervas encontradas na floresta, as comunidades mais isoladas como as das Reservas extrativistas ou das margens dos rios, se apropriaram desse conhecimento para atender os casos de doenças já conhecidas. Somente quando as alternativas “caseiras” não dão resultados, é que as pessoas se deslocam em busca de atendimento médico nas vilas ou cidades. Os trabalhos desenvolvidos pelas equipes técnicas têm sido através de informações sobre tratamentos preventivos, orientações às famílias a respeito das necessidades do organismo humano de vitaminas, proteínas e sais minerais que são provenientes de uma alimentação saudável. Para tanto, foi incentivada a construção de pequenas hortas caseiras, recomendação da utilização de defensivos orgânicos, evitando o uso de agrotóxicos. Dentro da prevenção, uma das preocupações se refere ao uso da água, onde foram feitas recomendações de utilização de métodos como a fervura, a filtragem ou a aplicação de hipoclorito na água a ser consumida visando à saúde das

A criação de aves se dá de forma rudimentar, porém em

proporção até considerada: galinhas, porcos, patos, perus e galinhas d’angola. Os animais são criados soltos e sua alimentação é complementada com farelo de milho e arroz. A criação de suínos não conta com técnicas de manejo, contudo a criação dos animais é feita em sistema de confinamento. Estes recebem restos de alimentos, frutas e folhas de mandioca.

Os animais não têm linhagem específica, têm baixa produtividade e não é adotada nenhuma prática de manejo. As medidas que deveriam ser profiláticas, são curativas, na maioria das vezes de forma rústica, aproveitando os saberes tradicionais.

5.4.5 Sistema Extrativista

Não é praticado nos assentamentos Igarapé Azul e Marechal Rondon, pela ausência de plano de manejo devido a falta de demarcação, e pela própria característica dos produtores que tendem à prática da pecuária.

O extrativismo no Projeto de Assentamento Rosana Lecy

é praticado em escala mínima. O principal produto extraído da floresta e o cipó titica, de forma racional não causando impacto

ambiental relevante. Este material coletado é a matéria prima para confecção de vassouras que são comercializadas no mercado local de Nova Mamoré e Guajará-Mirim. O produto beneficiado tem um padrão de homogeneidade e qualidade.

No assentamento Pau Brasil a prática extrativista quase não existe, poucos agricultores exploram os produtos da floresta como mostra a tabela abaixo. Os produtores coletam açaí e castanha-do-brasil, além da pesca, caça e corte de lenha que são utilizados para o próprio consumo.

Tabela 27 - Principais atividades extrativistas realizadas no P.A Pau Brasil

 

% das

% sobre a renda total (média)

Recursos

Classificação

por tipo

famílias que

pratica

específicos

explorados

Grau de

destruição (*)

Corte de lenha Madeireira

30

0

-

Pouco destruído

35

40

-

Parcialmente

 

destruído

Pesca

15

0

-

Pouco destruído

para as serrarias a madeira de valor comercial existente nos lotes.

É importante ressaltar que uma das pré-condições para ter a propriedade da terra (formal/legal), em Rondônia era a obrigatoriedade de desmatar 50% da área pretendida. Quer a pretensão fosse em assentamentos oficiais do INCRA quer tenha sido em áreas de posse. Nesse processo foram assentados ou se fixaram por conta própria aproximadamente 100 mil famílias, em Rondônia até os anos de 1990 (FIERO, 1977).

Normalmente a primeira produção, depois do corte e da

queima da floresta, é muito boa, em virtude da fertilidade natural do solo e dos fertilizantes depositados pelas cinzas. Segundo a

de

solos aptos para lavoura, sendo que destes, 1.968km 2 são constituídos pelas denominadas “terras roxas estruturadas”. Porém, quando da primeira colheita começam a aparecer os primeiros problemas com a desarticulação entre as unidades de produção agrícola e as de processamento, armazenagem e comercialização. Outros problemas surgem, como por exemplo, necessidade de mão-de-obra extra na época da colheita, secagem dos grãos, transporte dos produtos, entre outros. A desarticulação entre a época de plantio e a liberação do crédito agrícola, além da pesquisa e extensão, são outros óbices.

Estradas e armazéns não são suficientes tanto em quantidade como em qualidade. As estradas não são pavimentadas e nem recebem quase nenhum tratamento em suas bases, tornando-se intransitáveis na época das águas. As pontes de madeira são levadas pela enxurrada no período chuvoso amazônico que coincide com a época da coleta dos produtos agrícolas. Por outro lado, quando chega o período seco, o leito das estradas, além de esburacados, fica coberto por uma camada de pó que dificulta a visibilidade, chegando a contaminar as fontes d’água e os alimentos cultivados próximos às margens das vias, e tornando o trânsito lento e perigoso.

Desse modo, no ano seguinte, o agricultor já mais experiente com o ambiente amazônico e com as potencialidades da nova terra, faz novamente o plantio, porém introduz outras variedades de cultura, algumas frutíferas e inclusive gramíneas. Normalmente escolhe uma variedade de cultura conforme sua

Embrapa (FIERO, 1977), Rondônia tem cerca de 186.442km

2

tradição de origem, o café, se do Centro-Sul e cacau se da Bahia, por exemplo.

Inicia, assim, o processo de adaptação da propriedade em relação ao ambiente amazônico e principalmente às forças econômicas de mercado, com a diversificação de culturas e a introdução de pequenos animais para consumo doméstico e de outros animais para fornecimento de leite, carne e transporte de carga. Nos anos seguintes, com os excedentes da atividade da terra, o agricultor passa a investir mais na criação de animais, principalmente em bovinos que tem a função de uma poupança com liquidez imediata.

Grosso modo este é o fenômeno que vem ocorrendo com a agricultura em Rondônia. Isto está acontecendo porque para transportar a produção agrícola, a longas distâncias, necessita-se de unidades transportadoras, que normalmente são inviáveis economicamente, e ainda por encontrar dificuldades para atingir as propriedades dos produtores, onde o frete é bem mais elevado corroendo ainda mais as mínimas margens do lucro de um ano de trabalho familiar. Já em relação à criação de animais a situação é diferente, como são auto-transportáveis deslocam-se facilmente até um ponto de melhor acesso para o embarque em veículos especializados que normalmente operam na estação seca. Até a época da comercialização, o produto que funciona como moeda forte é estocado em nível de pasto na propriedade, enquanto isso adquire mais peso e valor, ao passo que os alimentos se deterioram, são consumidos por roedores e pragas dos grãos e os produtores, para não perder tudo, comercializam os produtos por qualquer preço. Já os animais além de serem auto-transportáveis e auto-embarcáveis são também desembarcáveis.

Além do mais, o manejo dos animais na propriedade é realizado pela mão-de-obra familiar. Para tocar um empreendimento pecuário maior, os custos com mão-de-obra são bem inferiores aos praticados com a agricultura. Além de ser menos penosa que a agricultura, a pecuária tem a vantagem da liquidez que os produtos agrícolas não têm.

Por outro lado, como a atividade laboral na agricultura brasileira passa a exigir cada vez mais o registro do trabalhador rural no Ministério do Trabalho e, por conseguinte, o pagamento

5.4.4 Sistema de Criação

Os assentamentos são caracterizados por uma visão de produção pecuária extensiva. A bovinocultura se destaca de maneira significativa em relação às outras atividades agrícolas no assentamento, tanto para produção de leite como para venda de bezerros, porém não executam nenhum manejo e tão pouco os animais recebem algum tipo de suplementação alimentar. O único tratamento praticado pelos produtores é vacinação do rebanho contra a brucelose e a febre aftosa. Devido a dificuldade de acesso ao crédito (financiamentos) fica impossível para o produtor investir em infra-estrutura e melhoria no rebanho.

Figura 56 – Produção de Leite Fonte: EMATER, 2006.

Há também a criação de pequenos animais havendo um predomínio na avicultura, galinha caipira e suinocultura tanto para consumo como para comércio.

A tecnologia de manejo é bem rudimentar, sem a utilização de incremento tecnificado, onde a principal ferramenta é o homem fornecendo o trabalho braçal. Os animais são criados em regime extensivo, em pastejo contínuo a semi-contínuo e sua alimentação é geralmente brachiarão e mombaça, com suplemento a base de sal mineral. Em relação à sanidade do rebanho os produtores seguem o calendário orientado pela IDARON.

Plantio de feijão em meio à cultura de banana e restos de troncos da derrubada

meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação
meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação
meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação
meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação
meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação
meio à cultura de banana e restos de tr oncos da derrubada Figura 54 – Plantação

Figura 54 – Plantação de Feijão e Banana Fonte: EMATER/Nova Mamoré, 2007.

de Feijão e Banana Fonte: EMATER/Nova Mamoré, 2007. Figura 55 – Plantio de Milho Fonte: EMATER/Nova

Figura 55 – Plantio de Milho Fonte: EMATER/Nova Mamoré, 2007.

Mas, visto que têm potencial e área agricultável sem uso, à medida que estes possam ter condições e estrutura necessária para aumento da produção agrícola deve ser trabalhada a conscientização para diversificação produtiva como um sistema agrosilvopastoril.

de todos os benefícios concedidos aos trabalhadores do setor urbano (caso contrário se caracteriza como trabalho escravo), a pequena propriedade evita a contratação de mão-de-obra de terceiros, por não poder remunerá-la conforme determina a lei. Ao passo que, utilizando a mão-de-obra familiar, esses custos são reduzidos praticamente à hora da comercialização, com o transporte.

O relatório geral do diagnóstico sócio-econômico- ecológico do Estado de Rondônia e assistência técnica para formulação da segunda aproximação do zoneamento sócio- econômico-ecológico, para o programa Polonoroeste, elaborado pela Tecnosolo (1998, p. 98), observa em relação ao avanço da pecuária que as diferentes modalidades de projetos de assentamentos de famílias implementadas pelo INCRA em Rondônia, como os Projetos Integrados de Colonização (PIC) e os Projetos de Assentamentos Dirigidos (PDA) privilegiaram a produção agrícola com base em pequenos e médios lotes de terra. A análise dos dados do Censo Agrário de 1980 evidencia essa orientação oficial ao informar que 95,6% dos estabelecimentos rurais de Rondônia tinham menos de 500 hectares e que 29,8% dos estabelecimentos desenvolviam a pecuária como atividade principal e, destes (os que se dedicam a pecuária), 85% tinham menos de 500 hectares e 96% possuíam menos de 200 bovinos.

Tabela 2 – Evolução do rebanho bovino em Rondônia (em milhões de cabeças) e das proporções entre Rondônia, Brasil e Região Norte.

Ano

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

Brasil

155

158

161

158

161

163

164

170

176

185

Norte

17

18

19

18

19

21

22

25

27

30

Rondônia

3,28

3,46

3,92

3,93

4,33

5,10

5,44

5,66

6,60

8,04

 

Percentuais

 

RO / BR % RO / RN %

2,12

1,19

2,44

2,49

2,68

3,13

3,31

3,33

3,74

4,34

19,2

19,3

20,5

21,9

22,4

24,0

24,3

23,1

24,2

26,4

Fonte: Souza Filho, a partir de (IBGE, 2004)

Cinco anos depois, este quadro já revelava alguma mudança no sentido da pecuarização do Estado como se pode inferir dos dados do Censo Agropecuário de 1985. Neste ano, muito embora cerca de 25% dos 24.822 informantes declarassem ter na pecuária bovina a sua principal atividade econômica, a

média era de 68,47 cabeças por informante, significando um aumento de 12,45% em relação à de 1980. Do restante, 15.944 informaram dedicar-se à produção vegetal como atividade principal, criando subsidiariamente 246.519 animais (média de 15,46 cabeças/informante) e 1.484 informantes declararam ser agropecuaristas, dispondo de 51.405 animais nos seus estabelecimentos (média de 34,64 cabeças/informante, mais de 31,56% do que em 1980). No Censo Agropecuário de 1995/96 os informantes totalizaram 54.770 e a relação era de 71,89 cabeças por informante, embora 24.623 informantes fossem predominantemente previstas, isto é, número inferior ao do censo de 1985. A média era de 121,14 cabeças por informante, aumentando, assim a concentração de efetivo e ampliando para 76,92% a relação sobre o censo de 1985. Em função do tamanho médio do lote (100ha) e da origem das famílias assentadas, a exploração de gado leiteiro na região tornou-se natural para os PIC. Atualmente, já se nota certa tendência de remembramento dos lotes, sobretudo ao longo das estradas pavimentadas, ficando os lotes originais subsistentes localizados em faixas mais distantes.

Muito embora a ênfase das autoridades governamentais nos programas e projetos específicos de colonização para o Estado de Rondônia, como por exemplo, o POLONOROESTE, fosse centrada na produção agrícola de colonização, a expansão da pecuária bovina tem sido vertiginosa, desde 1970. Essa expansão manteve-se elevada na década de 1980, mesmo quando houve um arrefecimento nas taxas de crescimento da pecuária das regiões Norte e Centro-Oeste. Em conseqüência, a participação de Rondônia aumentou significativamente no efetivo bovino da Região Norte, saltando de 10,54% (1983) para 19,26% (1993) e brasileiro, passando de 0,46% (1983) para 2,12%

(1993).”

Então, conforme observado nos dados do POLONOROESTE, os agricultores de Rondônia que migraram da cultura de subsistência anual para a monocultura do café ou cacau passaram, a partir das décadas de 1980/90, a abandonar a agricultura e a se dedicar à pecuária ou vender suas propriedades para grandes pecuaristas. Isto porque, com a baixa generalizada das commodities (borracha, café e cacau) no mercado internacional, naquele período, grande parte das áreas

como: aplicação de calcário, adubos químicos e orgânicos, tratos culturais adequados, aplicação de defensivos agrícolas racionalmente, controle biológico e mecanização agrícola, assim como a adoção de práticas conservacionistas. Estes procedimentos os agricultores não praticam devido a fatores econômicos e infra-estrutura básica, o que resulta em produção aviltada e baixa qualidade dos produtos. Porém, alguns produtores já começam a incorporar novas tecnologias em seus processos produtivos como correção do solo e irrigação por aspersão.

No assentamento Rosana Lecy há ainda práticas das culturas do café, feijão e o arroz. Estes dados confirmam que o assentamento está em processo de desenvolvimento e por sua infra-estrutura ser precária torna a produção direcionada para consumo próprio.

Principais culturas

Principais culturas A rroz Mandioca Outras culturas Milho Café (1 ano) Area à ser cultivada

Arroz rroz

MandiocaA rroz Outras culturas Milho Café (1 ano) Area à ser cultivada

Outras culturasA rroz Mandioca Milho Café (1 ano) Area à ser cultivada

MilhoA rroz Mandioca Outras culturas Café (1 ano) Area à ser cultivada

Café (1 ano)A rroz Mandioca Outras culturas Milho Area à ser cultivada

Area à ser cultivadaA rroz Mandioca Outras culturas Milho Café (1 ano)

Figura 53 - Principais Culturas do Assentamento Fonte: PDA PA Igarapé Azul, Marechal Rondon e Rosana Lecy.

Figura 52 – Acesso – 3ª Linha do Ribeirão no PA Rosana Lecy. Fonte: EMATER/Nova

Figura 52 – Acesso – 3ª Linha do Ribeirão no PA Rosana Lecy. Fonte: EMATER/Nova Mamoré, 2006.

5.4.3 Sistemas de produção e cultivo

A produção das culturas trabalhadas como mandioca, milho e arroz, não contribuem em grande percentual como produção efetiva nos assentamentos, pois são cultivadas basicamente para consumo da família, mas indiretamente contribui para redução dos custos do orçamento familiar.

O principal sistema de produção que predomina no assentamento Marechal Rondon é a pecuária extensiva, atividade principal responsável pela geração da renda familiar.

As principais culturas trabalhadas em pequena escala nos projetos de assentamentos são a mandioca e o milho geralmente utilizados para consumo básico e trato dos pequenos animais, arroz, banana, abacaxi, e outras frutíferas típicas da região, mas utilizado para consumo. Os plantios das culturas de modo geral são feitos manualmente. Não conta com o uso de tração animal ou patrulha mecanizada.

A produtividade agrícola é baixa, o que comprova a mão- de-obra desqualificada para um manejo adequado e planejado da lavoura, e através do uso eficiente dos recursos disponíveis

com culturas de seringa, cacau, café, guaraná e urucum, que foram financiadas a juros subsidiados, foram abandonadas ou substituídas por gramíneas. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO), o preço médio da tonelada de amêndoas secas de cacau baixou de 2.500 dólares, em 1986, para 800 dólares, em 1998 (FIERO, 1999).

Quanto aos produtos agrícolas, atualmente, os principais produtos de Rondônia, como o café e o cacau, são exportados em grãos para outros mercados. Não existem iniciativas empresariais para beneficiamento e exportação com valor agregado maior. Apesar da expressiva produção de matérias- primas, o montante da produção de apenas três produtos agrícolas de Rondônia, em 2000, foi respectivamente: café, 213 mil toneladas; milho, 209 mil toneladas e cacau, 17 mil toneladas (IBGE, 2001).

O mesmo fenômeno que afeta as unidades produtoras de

grãos (venda de propriedades ou a substituição por pastagens) está acontecendo com as atividades agrícolas que se dedicam ao

cultivo de frutas em Rondônia assim como nas comunidades caboclas que se dedicam ao extrativismo de frutos como o açaí, castanha-do-pará e piquiá, além de outros produtos como seringa, copaíba, breu, andiroba, mutamba, sorva, caucho e balata. No município de Porto Velho, denominado “pólo” do cupuaçu, o mesmo fenômeno está acontecendo. Estão sendo erradicados plantios da fruta para introduzir capim.

A lógica que está por trás do comportamento do agricultor

imigrante, este novo elemento na Amazônia Rondoniana, que já veio com outra racionalidade de regiões mais antigas de colonização do Brasil, parece ser a seguinte: se a agricultura tradicional não dá resultado, a alternativa é investir no que dá retorno financeiro, ou seja, a pecuária. Se houvesse resistência à pecuária, isto é, se a agricultura desse lucro para o pequeno agricultor, ele não colocaria pasto e nem venderia sua propriedade.

Em função destes problemas, o fenômeno migratório está ocorrendo novamente do campo para as cidades. É bom observar que agora a direção do fluxo é do campo para as próprias cidades de Rondônia. Uma repetição do que lhes

acontecera, anteriormente, e que os motivou a virem para a fronteira que se abria: “o eldorado” de Rondônia.

Essas famílias que trabalhavam no campo, outrora “convidadas” a virem do Centro-Sul para Rondônia, agora são novamente “expulsas” 5 , chegando aos centros urbanos, ocupando zonas periféricas das cidades, gerando favelas e poluição ambiental. Como há poucas indústrias ou estas são incipientes, os governos locais e o regional não arrecadam o suficiente para investimentos em infra-estruturas produtivas e nem em serviços públicos de saneamento, habitação, saúde e educação.

Houve também a tentativa de desenvolvimento de pólos de fruticultura, pelo reconhecimento desse tipo de atividade agrícola em Rondônia. Todavia, os principais pólos de fruticultura implantados no entorno de cidades como Porto Velho, Ji-Paraná e Vilhena não funcionaram. A conseqüência desse fato foi a transformação dessas terras em pastagem. Em decorrência, as lavouras foram abandonadas ou transformadas em pastagens, quando não vendidas e incorporadas a outros ativos.

Pequenas unidades de beneficiamento (indústrias) autônomas que surgiram, aproveitando a sinergia gerada pelos projetos financiados com recursos do governo, ainda sobrevivem operando com reduzida capacidade. Para isso tiveram que verticalizar, adquirindo terras e financiamentos para implantar pomares próprios com o objetivo de suprir suas necessidades diárias de algumas frutas, complementando com aquisições no mercado ou ainda construindo parcerias com produtores e associações que permanecem com a atividade. Entretanto as transações são constituídas de pequenas quantidades, não padronizadas e de elevado valor por unidade transacionada.

1.3. Experiências para uma agricultura viável

5 O processo de “expulsão” ocorre pelas dificuldades encontradas pelos agricultores para exploração dos lotes (capacitação, tecnologia, mercado, financiamento, assistência técnica, infra-estrutura etc.). São deixados à própria sorte e direcionados pela “mão invisível” da economia de mercado.

O meio de transporte das famílias assentadas funciona de forma deficitária, não existindo nenhuma linha regular de ônibus. Existem apenas transportes particulares, como veículos de pequeno porte, motos e bicicletas para o deslocamento interno. As estradas estão em péssimo estado de conservação, inclusive com formação de inúmeros atoleiros no período chuvoso.

As estradas que passam internamente nos limites do assentamento não são trafegáveis durante todo ano, seu período mais critico é durante a época das águas, que vai de dezembro a abril.

durante a época das águas, que vai de dezembro a abril. Figura 51 - Linha 25
durante a época das águas, que vai de dezembro a abril. Figura 51 - Linha 25

Figura 51 - Linha 25 B, via interna do Projeto de Assentamento Igarapé Azul. Fonte: Monalissa Dias, Nova Mamoré

c) PA Rosana Lecy

Apenas 15 km de estradas foram construídos pelos assentados e madeireiros e estão em péssimas condições de utilização. Não há empresa de transportes, escolas, nem postos de saúde, enfim não há infra-estrutura . No período de alta incidência pluviométrica, de novembro a abril, o trânsito interno das famílias fica limitado, em razão do agravamento das condições das estradas. Está sem demarcação, o que impossibilita o acesso ao crédito, à energia, estradas, saneamento etc.

Figura 50 - Residência do Assentado. Fonte: EMATER, 2006 De acordo com a Norma de

Figura 50 - Residência do Assentado. Fonte: EMATER, 2006

De acordo com a Norma de execução de 30 de março de 2004, Nº 040, o Crédito Instalação, na modalidade aquisição de materiais de construção, destina-se à construção ou reforma de habitações rurais, incluindo-se o pagamento de mão-de-obra. Segundo levantamento do INCRA, nenhuma família foi contemplada, devido a não demarcação do Assentamento.

Quanto à comunicação, os assentados têm acesso às informações por rádio à pilha, geralmente escutam o noticiário da Rádio Educadora de Guajará-Mirim, “Guajará FM”, entre outras

O P.A. Igarapé Azul, ainda não possui eletrificação rural, mas há expectativas de ser contemplado a médio prazo, segundo informações fornecidas pela CERON - Centrais Elétricas de Rondônia, na primeira fase do programa do governo federal “LUZ PARA TODOS”, em que a CERON será responsável pela execução do projeto, que contribuirá para a inclusão social, melhoria na aplicação de novas técnicas de manejo e incremento da produção agropecuária, contribuindo para melhoria da qualidade do produto, geração de emprego e renda no setor produtivo, proporcionando conforto e bem- estar social às famílias.

Desde 1998, o Governo de Rondônia vem incentivando a recuperação dos pólos de produção de culturas como o cacau e o café no interior do Estado, financiando a instalação de algumas indústrias na região, tentando com estas medidas reverter o processo de pecuarização. Em nível federal, através da CEPLAC, está sendo implementado no Estado um programa de revigoramento das lavouras degradadas e a introdução de novas variedades da cacauicultura, em sistemas de agrofloresta, com período de abrangências de cinco anos (1999 a 2003), onde contempla: recuperação de 12.000ha de cacau com incidência de vassoura-de-bruxa, reintegrando dessa forma, ao processo produtivo muitos produtores que haviam abandonado suas lavouras e gerando empregos e fixando os produtores no campo (FIERO, 1999, p. 36).

Em relação ao café, o Governo Estadual vem

incentivando o plantio de novas variedades, recuperação de áreas, substituindo plantas de baixa produtividade e introduzindo

a irrigação. Iniciativas vindas diretamente dos produtores estão surgindo em várias partes do Estado.

Uma outra alternativa identificada e que já vem sendo implementada em alguns pontos do Estado é trabalhar com produtos originários da Floresta Amazônica e, ou com outros produtos a ela adaptados. Mais especificamente, com culturas permanentes em Sistemas de Agrofloresta (SAF).

Nos SAF de Rondônia já estão sendo produzidos algumas ervas medicinais, óleos naturais, óleos essenciais, frutas, corantes e outros produtos originários da floresta, porém em escala modesta para o potencial existente de matérias-primas

e de mercado. Como já observado, operam pequenas unidades

de beneficiamento de frutas, de sementes de cupuaçu para extração da manteiga, e de palmito de pupunha, açaí, babaçu e de tucumã.

Também há a produção de mel de abelhas, criação de animais peçonhentos (para obtenção de venenos) e silvestres (para carne e pele) e o manejo da floresta com a introdução de variedades comerciais nobres de madeira para a indústria moveleira em consórcios com frutíferas nativas para extração de polpas, óleos e corantes com várias aplicações na indústria alimentícia e cosmética.

Segundo Nascimento (1996) existe na literatura sobre frutas da Amazônia cerca de 815 espécies sendo porém encontradas apenas 88 variedades nas feiras livres de Manaus e destas apenas 37 têm algum registro de dados de composição química na literatura.

Iniciativas de grande importância estão sendo desenvolvidas nos municípios de Porto Velho e Ouro Preto do Oeste. No município de Porto Velho, na região denominada de Ponta do Abunã, estão algumas das experiências exitosas de maior expressão.

Uma associação de produtores maneja e explora cerca de 650ha de culturas perenes em SAF, contando para isso com o apoio financeiro de uma entidade religiosa holandesa. O sistema consorciado é formado por espécies florestais da região e por plantas frutíferas perenes que têm valor comercial, além, também, de auxiliar na alimentação da família. Entre as frutíferas utilizadas, estão espécies como pupunha, cupuaçu, coco-da-baía, açaí, manga, araçá-boi, camu-camu, carambola, graviola e rambotã. Entre as espécies florestais, utilizam variedades de valor comercial como: bandarra, samaúma, mogno, copaíba, ipê, guabiroba, virola, cedro, freijó e uma planta exógena, a teca. Com relação às frutíferas, normalmente utilizam uma combinação de duas a três espécies em cada consórcio/propriedade.

A forma de trabalhar dessa associação de produtores surgiu na região, em parte, como resultado do esgotamento do modelo de agricultura tradicional para os produtores, como também em função da atuação dos órgãos ambientais restringindo a derrubada de floresta, essencial para o sistema de produção que praticavam.

Apesar de estar funcionando há poucos anos, esta organização e o sistema adotado de exploração de suas propriedades vêm demonstrando bons resultados econômicos e a possibilidade de exploração de áreas florestais em bases sustentáveis.

Além desta experiência exitosa outra vem se destacando na mesma região da Ponta do Abunã. Trata-se de uma cooperativa que vem dirigindo suas atividades para o beneficiamento da castanha-do-brasil, e produção de óleos, doces e farinha de castanha. As amêndoas já são empacotadas

e farinha de castanha. As amêndoas já são empacotadas Figura 49 - Agricultor familiar: Joel Peres

Figura 49 - Agricultor familiar: Joel Peres e família. Fonte: Dias da Silva, Nova Mamoré.

Possuir habitação adequada é uma necessidade básica do ser humano, é uma condição indispensável para o bem estar de uma família. Morar em condições inadequadas implica não só a redução no desempenho do trabalhador, como também no aparecimento de problemas de cunho sócio-econômico, tal como o êxodo rural, aumento da violência nas áreas rurais. A qualidade de moradia no assentamento Igarapé Azul é considerada boa, em relação às condições mínimas de moradia, grande parte das famílias que reside nos lotes, está acomodada em casas feita de madeira, com espaço médio de 7 X 8m, cobertas com telhas de amianto, piso variando de terra compactada a assoalho de madeira.

O meio de transporte das famílias assentadas funciona de forma deficitária, não existindo nenhuma linha regular de ônibus. Existem apenas transportes particulares, como veículos de pequeno porte, motos e bicicletas para o deslocamento interno. Quanto ao acesso interno do assentamento, foram abertos, aproximadamente, 30 km de ramais em parceria entre comunidade e madeireiros que retiram madeira do assentamento, com absoluta conivência das famílias assentadas, segundo elas, por necessidades de acesso para o deslocamento de pessoas, escoamento do excedente da produção agropecuária, em razão de não terem sido contempladas com a infra-estrutura de responsabilidade do INCRA.

de

conservação, inclusive com formação de inúmeros atoleiros no

período chuvoso.

Não existem instalações, tais como: postos de saúde, sede social, escola rural ou prédios que possam ser usados como centros comunitários. E nem outros locais que possam ser utilizados para o armazenamento da produção agropecuária de uso comunitário.

Essas

estradas

estão

em

péssimo

estado

com tecnologia moderna de conservação de alimentos em embalagem a vácuo. Nessa região há uma grande concentração de castanheiras nativas e além disso, os produtores estão plantando mais em SAF utilizados em suas propriedades.

Uma outra associação, da mesma região, extrai o safrol a partir de plantios de pimenta longa, um arbusto encontrado em

áreas de capoeira da região. O safrol, segundo Enríquez (2001) tem aplicação na indústria cosmética como fixador de fragrâncias. Atua também como “agente sinergético junto ao piretrium, constituindo-se no único inseticida natural com ‘conotação verde’

e biodegradável autorizado na Europa, nos EUA, e no Japão para o controle de pragas no armazenamento, processamento de alimentos e no uso doméstico”.

Apesar destas iniciativas exitosas de aproveitamento da

biodiversidade, o apoio institucional local ainda não atua com a dedicação requerida. O Centro de Pesquisas Agroflorestais de Rondônia (CPAF), unidade local da Embrapa vem priorizando, estudando e aperfeiçoando outras cadeias produtivas, principalmente as da carne e do leite em Rondônia e mais recentemente a da soja. As duas primeiras, no momento, são os agronegócios mais organizados e de maior poder econômico e político no estado. Percebe-se neste caso um descompasso entre

b) PA Igarapé Azul

o

que se fala e o que se faz (prioridade) para o desenvolvimento

e

preservação da Amazônia rondoniana.

No Projeto de Assentamento Igarapé Azul, não existem instalações sociais, tais como: postos de saúde, sede social, escola rural ou prédios que possam ser utilizados como centros comunitários dentro do assentamento e nem locais que possam ser utilizados para o armazenamento da produção agropecuária, ou utilização comunitária, salvo uma igreja evangélica de madeira na linha 25 B, km 29.

1.4. A dependência econômica da agropecuária

As potencialidades econômicas de Rondônia sempre estiveram e continuarão ligadas ao meio rural. Neste aspecto, há de se considerar a geração de trabalho e renda que ainda estão dependentes dos negócios patrocinados por este setor. Potencializados, como exposto anteriormente, a partir do processo migratório ocorrido para o Estado, em busca do “eldorado”, nas décadas de 1970 e 80.

Desde então, vem-se tentando superar os principais problemas relacionados com a atividade agrícola tradicional, notadamente produtividade, qualidade e mercado para os produtos locais, os quais desde o princípio (exceto a primeira

colheita), apresentam indicadores com comportamento abaixo das médias nacionais, mercê da frágil utilização de processos tecnológicos adequados, tecnologias apropriadas ainda

indefinidas e principalmente mercado para os produtos in natura

na forma como são manipulados e ofertados.

O aproveitamento econômico e sustentável do potencial

de Rondônia é um desafio que exige a aglutinação de fatores para suplantar as dificuldades estruturais e conjunturais, inicialmente no local e posteriormente nos elos de interação com

o ambiente globalizado do agronegócio agropecuário. Em

Rondônia as terras ocupadas com os assentamentos rurais possuidoras de grandes extensões de terras agricultáveis, permitem a reacomodação de atividades produtivas (lavoura, frutas e animais), sejam elas cobertas de vegetação natural ou antropizadas.

O modelo agrícola predominante no Estado é

caracterizado pelo baixo nível tecnológico empregado por agricultores de baixa renda, onde 95% estão enquadrados na categoria de agricultura familiar. Os cultivos perenes quer sejam solteiros, consorciados ou em sistemas agroflorestais, vêm se mostrando insustentáveis ao longo do tempo, com produtividade quase sempre inalterada, para o nível tecnológico empregado; o cultivo de frutíferas, por exemplo, pode ser uma potencialidade materializada nas diversas lavouras existentes.

Por outro lado, a fragilidade dos elos que compõem o

sistema agroindustrial e alimentar dos assentamentos em Rondônia proporciona transações desiguais e de elevado custo antes, durante e após a concretização do ato de venda e compra em decorrência da fragilidade dos instrumentos colocados à disposição dos empreendedores locais e da pouca atenção despendida pelas instituições públicas de suporte às atividades econômicas do Estado.

Existem, portanto no ambiente produtivo, organizacional

e institucional, fatores que estão interferindo nos níveis de

desenvolvimento da produção agrícola nos assentamentos em Rondônia e por causa desses fatores a pecuária e a soja estão avançando na região contrapondo-se as iniciativas econômicas, sociais e ambientais alternativas implementadas pelo governo, associações de produtores e iniciativas individuais privadas no

No momento, os assentados estão reivindicando do INCRA, já que este é o órgão responsável pelos projetos de assentamento, a Norma de execução de 30 de março de 2004, Nº 040, que trata do Crédito Instalação, na modalidade aquisição de materiais de construção destinado à construção ou reforma de habitações rurais, incluindo-se o pagamento de mão-de-obra, que somente será liberado após o projeto de assentamento estar com as parcelas medidas e demarcadas.

O Projeto de Assentamento Marechal Rondon ainda não possui eletrificação rural, mas há expectativas de ser contemplado, em médio prazo, segundo informações fornecidas pela CERON -Centrais Elétricas de Rondônia, que as famílias estarão sendo beneficiadas com o programa do governo federal “LUZ PARA TODOS”, em que a CERON será a responsável pela execução do projeto, que segundo informa, irá contribuir para a inclusão social, melhoria na aplicação de novas técnicas de manejo e incremento da produção agropecuária, contribuindo para a melhoria do produto, geração de emprego e renda no setor produtivo, proporcionando conforto e bem-estar social das famílias. Salvo um pequeno trecho na linha 23/B do km 24 ao km 28,5, onde as famílias residentes já têm energia elétrica, dando acesso a outros tipos de comunicação, tais como a televisão permitindo aos mesmos uma maior quantidade de informações.

Quanto à comunicação, os assentados têm acesso às informações, via rádios a pilha, pelos quais escutam o noticiário da Rádio Educadora de Guajará-Mirim, “Guajará FM”, entre outras.

de Guajará-Mirim, “Guajará FM”, entre outras. Figura 48 - Via de acesso ao PA Marechal Rondon

Figura 48 - Via de acesso ao PA Marechal Rondon Linha 21B. Fonte: EMATER, 2006

5.4.2 Infra-estrutura dos assentamentos

a) PA Marechal Rondon

O principal fator limitante ao desenvolvimento do Projeto de Assentamento Marechal Rondon é a falta de infra-estrutura, principalmente em relação à precariedade das estradas internas e de acesso ao projeto de assentamento. A falta de demarcação da maioria dos P. A.s inviabiliza o acesso ao crédito e a infra- estrutura básica necessária à reforma agrária (estradas, energia elétrica, saúde e saneamento, educação, habitação). As estradas do assentamento estão em péssimas de utilização. O transporte no período da estiagem já é precário, nas chuvas torna-se impossível.

estiagem já é precário, nas chuvas torna-se impossível. Figura 47 - Casa de uma família do

Figura 47 - Casa de uma família do assentamento. Fonte: EMATER, 2006.

A qualidade de moradia no assentamento Marechal Rondon é ser considerada boa em relação às condições mínimas de moradia. Apenas 28 famílias residentes nos lotes estão acomodadas em casas feitas de madeira, cobertas de telhas de amianto, piso de cimento. O restante das famílias não reside no assentamento, devido às precárias condições de educação, saúde e infra-estrutura, falta de demarcação e também linhas de crédito que financie suas atividades agropecuárias.

sentido do desenvolvimento social, econômico e ambiental contrapondo-se ao combate ao desmatamento na região.

Apesar de existirem entraves de várias amplitudes (tecnológicos, econômicos e financeiros a montante e a jusante) o setor tem se mantido graças à atração que a propriedade da terra exerce sobre o produtor rural de Rondônia. Desse modo, teve início nos anos de 1990 uma produção agrícola, principalmente nas áreas do eixo da BR-364, onde se concentrara a maioria dos agricultores assentados. Nesse período, em algumas cidades do Estado, formaram-se redes ou arranjos nas quais pequenas unidades de beneficiamento e comercialização atuam como elos dinamizadores da atividade produtiva na região. Na seqüência, apresenta-se um esquema simplificado dos arranjos produtivos locais ou cadeias produtivas.

Produtores

Fornecedores

Agroindústrias
Agroindústrias
Consumidores
Consumidores

Figura 1 Esquema simplificado dos arranjos produtivos locais. Fonte: Souza Filho, 2004.

A incerteza que permeia os negócios, a baixa freqüência das transações envolvidas nos assentamentos identificados, baixa quantidade ofertada de produtos e qualidade, exigências sanitárias crescentes e a concorrência proporcionado pelos produtos de outros agricultores, todas essas dificuldades interferem nas estruturas de produção, mercado, governança, no apoio institucional e organizacional bem como nas estruturas de apoio ambiental e social dos assentamentos de Rondônia, elevando os custos de produção, sobretudo no segmento de beneficiamento.

A partir destas considerações formuladas, apresentam- se as questões que norteou esse estudo no sentido da busca de soluções para os problemas que dificultam e vêm debilitando as atividades ligadas à produção agrícola de Rondônia e mais especificamente os arranjos produtivos existentes nos

assentamentos estudados como os insumos, produção, industrialização, distribuição e consumo dos produtos agrícolas locais na região dos assentamentos.

Diante destas questões o pressuposto que norteia o trabalho de ATES é que a função das operações entre os diversos agentes dos arranjos locais nos assentamentos não favorecem o desenvolvimento da produção, o desenvolvimento social e ambiental e por causa disso os assentamentos não se desenvolvem e estão sendo descaracterizados e invadidos por outros agentes econômicos estranhos ao Programa de Reforma Agrária implementado pelo INCRA, e com isso o impacto ambiental nas áreas dos assentamentos estão aumentando.

Estes fatores ocorrem em função da incerteza que permeia as transações considerando a racionalidade e o oportunismo dos atores; à importância e à freqüência das transações envolvidas; à integração horizontal e vertical entre os atores do arranjo; à qualidade, quantidade, regularidade de oferta que são afetadas por fracas e deficientes estruturas de produção, de mercado, de governança; e às estruturas de apoio institucional, organizacional, social e ambiental dos arranjos produtivos locais. E isso permite o enfraquecimento dos assentamentos e a penetração de novos agentes nas áreas dos assentados, descaracterizando o Programa de Reforma Agrária proposto pelo INCRA e o avanço da pecuária nas propriedades que antes pertenciam os beneficiários do Programa.

A identificação dessas dificuldades nos arranjos produtivos dos assentamentos poderá servir de modelo, mostrar e fornecer elementos para que as pequenas propriedades dos assentados, individualmente ou em grupos, principalmente as associações de produtores locais, permitam minimizar as deficiências e construir arranjos mais produtivos nos assentamentos e que agreguem valor aos produtos, proporcionem renda atrativa que permita competir no mercado local, absorvendo e desenvolvendo novas tecnologias, transferindo divisas para a manutenção e a permanência dos empreendedores do assentamento no negócio, permitindo o aperfeiçoamento da governança local, do apoio organizacional, do apoio institucional local, respeitando e preservando o meio ambiente e os ecossistemas em seu entorno.

equilíbrio entre os sexos masculino e feminino. Quanto à mão de obra atual é relativamente jovem, no entanto predomina o sexo masculino nas faixas etárias de 21 - 60 anos. A população do assentamento caracterizado pelo sexo masculino é em número de 250 para 225 do sexo feminino.

80 60 40 20 0 0 – 5 6 – 10 11 – 20 21
80
60
40
20
0
0 – 5
6 – 10
11 – 20 21 – 30 31 – 40 41 – 50 51 – 60 61 – 70
> 71
Masculino
Feminino

Figura 45 –Faixa etária por gênero Fonte: PDA Pau Brasil, 2006

e) PA Ribeirão

As faixas etárias que compreendem de 0 – 20 anos está em equilíbrio com as faixas etárias de 21 – 60 que representa a mão de obra atual do assentamento. A população masculina é de 143 contra 117 pessoas do sexo feminino.

40 30 20 10 0 0 – 5 6 – 10 11 – 20 21
40
30
20
10
0
0 – 5
6 – 10
11 – 20 21 – 30 31 – 40 41 – 50 51 – 60 61 – 70
> 71
20 10 0 0 – 5 6 – 10 11 – 20 21 – 30 31

Masculino

Masculino Feminino

Feminino

20 10 0 0 – 5 6 – 10 11 – 20 21 – 30 31

Figura 46 –Faixa etária por gênero Fonte: PDA Ribeirão,, 2006

na

assentamento o que compromete o futuro da mão-de-obra do assentamento.

há pouca crianças no

faixa

etária

de

21

30

anos,

20 15 10 5 0 0 – 5 6 – 10 11 – 20 21
20
15
10
5
0
0 – 5
6 – 10
11 – 20 21 – 30
31 – 40 41 – 50 51 – 60 61 – 70
>71
Masculino
Feminino

Figura 43 –Faixa etária por gênero Fonte: PDA Igarapé Azul, 2006

c) PA Rosana Lecy

Predomina a população do sexo masculino, que totaliza 120 pessoas principalmente nas faixas etárias que vão de 21 a 50 anos, contra os 97 femininos distribuídos em todas as faixas etárias. A mão de obra futura do assentamento pode estar comprometida se considerar a faixa etária de 0 – 20 anos de ambos os sexos.

30 25 20 15 10 5 0 0 – 5 6 – 10 11 –
30
25
20
15
10
5
0
0 – 5
6 – 10
11 – 20
21 – 30
31 – 40
41 – 50
51 – 60
61 – 70
>71
Masculino
Feminino

Figura 44 –Faixa etária por gênero Fonte: PDA Rosana Lecy, 2006

d) PA Pau Brasil

O assentamento Pau Brasil apresenta um índice elevado de crianças, adolescentes e jovens, compreendidos nas faixas etárias entre 0 -20 anos, mantendo inclusive nessas faixas o

Desse modo, se um arranjo produtivo, num determinado assentamento estiver usando insumos químicos, com produção sistemática e pressionando os preços; um outro está depredando a natureza para poder dar conta do aspecto econômico; e se um outro estiver funcionando e operando com resultados econômicos positivos, com reduzida agressão à natureza, isto é, com menor propensão a desmatar que os demais e com um bom desenvolvimento social entre os componentes da cadeia, então este assentamentos seria mais eficaz servindo de modelo para os demais.

Os estudos sobre cadeias produtivas estão iniciando no Brasil. Na Amazônia e principalmente em Rondônia não se tem conhecimento sobre estudos mais aprofundados sobre sistemas produtivos, principalmente em assentamentos desenvolvidos pelo INCRA do Programa de Reforma Agrária em Rondônia. Por outro lado, há um grande interesse sobre o tema proposto, principalmente pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário do Governo Federal.

Ao identificar e quantificar as fragilidades da maior parte dos elos da cadeia produtiva de um arranjo, conforme observam Santana e Amin (2002) a metodologia incorpora ao trabalho um enfoque de competitividade sistêmica, uma vez que passa a considerar-se a maior parte das relações existentes entre os agentes e os setores. Caracteriza-se assim a necessidade e o grau de adequação das estratégias dos atores aos padrões de concorrência vigentes no mercado.

O estudo dos arranjos produtivos dos assentamentos do INCRA em Rondônia evoca, portanto, uma nova forma de análise, diferente do tradicional enfoque “insumo-produto” ao assumir-se, na análise da estrutura dos arranjos dos assentamentos, a existência de custos de transação que debilitam a sustentação competitiva das relações, conforme esquema apresentado a seguir:

Insumo Produção Industrialização Distribuição

Consumo

Figura 2 – Esquema de análise da estrutura da cadeia produtiva dos arranjos. Fonte: Souza Filho, 2004.

Isto é o que o diferencia este de outros estudos, pois considera os custos de transação envolvidos apenas nas relações de trocas (contratos, acordos, acertos) dos arranjos

produtivos que lidam com produtos agropecuários no Brasil. Nesse contexto, utilizou-se aqui, o que poderia ser chamado de “configuração dedutiva” da cadeia produtiva. Busca-

se a incorporação de uma ordem ou seqüência de análise mais

próxima da realidade existente ao longo das cadeias produtivas de cada arranjo, fugindo, assim, dos fatores limitantes do “pré- determinismo” teórico (SANTANA e AMIN, 2002). Este livro está estruturado em cinco capítulos, aos quais se segue uma breve conclusão. O primeiro capítulo estabelece uma base histórica recente do processo de colonização do Estado de Rondônia e as conseqüências dessa colonização para

o meio ambiente; as pressões de instituições internacionais

preservacionistas e as tentativas dos governos estadual e federal de introdução de formas alternativas para exploração que não a

pecuária; tentativas essas em grande parte fracassadas. O segundo oferece uma leitura sobre a Agricultura Familiar como surgiu e como se desenvolveu no Brasil e em Rondônia. O terceiro faz uma apresentação do Programa de ATES no Brasil e em Rondônia. O quarto capítulo apresenta uma análise do contexto dos assentamentos em Rondônia enfocando o histórico e origem dos assentamentos. No quinto e último capítulo, foram descritos os sistemas produtivos e de criação, infra-estrutura e comercialização dos assentamentos inseridos no Território Madeira Mamoré.

5.4 Nova Mamoré

5.4.1 População por faixa etária nos PA’s

Nos assentamentos de Nova Mamoré há predominância do sexo masculino, o índice de crianças e adolescentes nos assentamentos é considerável para garantir futuras mãos de obra produtiva para o PA. A concentração da população dos PA’s está na faixa-etária que vai de 21 – 50 anos o que mostra que há uma disponibilidade de força de trabalho produtiva nos PA’s de Nova Mamoré.

a) PA Marechal Rondon

No Marechal Rondon há 91 pessoas do sexo masculino e 78 do sexo feminino, a concentração da população esta na faixa etária de 21 – 30 anos, há um numero considerável de jovens e crianças no assentamento que pode vir a ser uma perspectiva de futura mão-de-obra para o PA.

 
   
      Masculino Feminino

Masculino

Masculino Feminino

Feminino

      Masculino Feminino

Figura 42 –Faixa etária por gênero Fonte: PDA Marechal Rondon, 2006

b) Igarapé Azul

No Igarapé Azul há uma predominância do sexo masculino totalizando 68 pessoas, contra 36 do sexo feminino que é apenas de 36 pessoas, a concentração da população está

dois destinos, a maior parte vai para a Bolívia, onde a castanha é beneficiada e exportada para Europa, uma pequena quantidade fica no mercado local de Guajará-Mirim para consumo In natura. Já a borracha é toda comercializada no estado do Acre onde existe usina de beneficiamento.

Além do extrativismo a cultura da mandioca desempenha um importante valor social e econômico devido suas características de exploração, permite um ótimo aproveitamento da mão-de-obra familiar praticada quase que o ano todo. Grande parte da farinha é consumida dentro da resex onde o produto constitui uma das principais fontes de calorias consumidas pelos extrativistas.

As famílias das Resex’s, além de utilizarem a mandioca na sua alimentação, nas mais diferentes formas de produto (farinha, goma, bolo etc) também está sendo utilizado na ração animal assim tendo total aproveitamento da planta.

Toda a farinha produzida dentro das Resex’s é vendida para o mercado local de Guajará-Mirim, tais como, feiras e mercados.

Dentro das Resex’s, além do extrativismo, não há uma outra atividade expressiva não-agrícola praticada. Salvo algumas famílias isoladas, que praticam o artesanato, tais como, produtos feitos de cipó, biojoias, aproveitamento de produtos reciclável como bolsas feitas de garrafas pet e enfeites com ouriço da castanha. Normalmente esses trabalhos são realizados por mulheres que complementam a renda familiar com a venda destes artesanatos no mercado local de Guajará-Mirim.

O quadro abaixo representa a produção e o seu destino, bem como os preços médios obtidos pelos produtos.

Tabela 26 – Destino da Produção

 

Auto

VENDAS (%)

 

Prod

Unid

Prod.

Total

Cons

(%)

Consum

idor

(%)

Agroind

(%)

Atravess

(%)

PM

Casta

Kg

26.96

5

0

0

95

1,1

nha

0

0

Borrac

Kg

1.000

0

0

0

100

1.6

ha

0

Farinh

Sc

3.334

10

0

0

90

50,

a

00

Fonte: PDA’s RESEX Barreiro das Antas e Rio Ouro Preto.

2. AGRICULTURA FAMILIAR

A luta pela posse e uso da terra é um dos fenômenos mais persistentes na história das sociedades humanas segundo Moura (2002, p.185). Na Grécia, 415-14 a.C., por exemplo, os ricos atenienses, como também os espartanos poderosos, aproveitavam-se dos mecanismos de herança que conduziam as famílias mais pobres para a perda e para a diminuição de seus lotes de terras. Com a morte do dono da terra, uma família nuclear com três filhos homens, por exemplo, deixaria sua pequena propriedade igualmente dividida para os três descendentes. Isso ia paulatinamente partindo as propriedades igualmente divididas para os três descendentes em pequenos lotes que, depois de algum tempo, por sua incapacidade em sustentar uma nova família, acabavam vendidas ou arrendadas aos mais ricos. Os ex-donos teriam que mudar de atividade, passando para o comércio, o artesanato ou mesmo, como ocorreu durante o século IV a.C., o mercenarismo. O problema da herança era uma das mais plausíveis explicações para o fato de muitos ricos terem suas terras espalhadas em diversas áreas, com a presença de diversos pequenos lotes.

Ao longo dos anos, a agricultura familiar tomou

proporções significativas, decorrente do processo de evolução de

políticas públicas até então destinadas às grandes propriedades rurais, à políticas voltadas para a produção familiar.

A agricultura brasileira tem sido subdividida

dicotomicamente de acordo com características sócio- econômicas e tecnológicas, caracterizadas em termos de agricultura familiar e patronal. Para Abramovay (2000), a agricultura familiar não emprega trabalhadores permanentes, podendo, porém, contar com até cinco empregados temporários.

Agricultura patronal pode contar com empregados permanentes e/ou temporários.

O modelo patronal está focado na especialização e

agricultura tradicional, com a utilização de trabalho assalariado, centrado em tecnologia. A agricultura familiar, procura associar

gestão e trabalho, de forma que o processo produtivo é conduzido pelos proprietários e seus familiares, onde primam pela diversificação da produção.

De acordo com FAO/INCRA (1994), a agricultura familiar apresenta características de preeminência da força do trabalho familiar, no qual os membros da família atuam como co- responsáveis na organização e funcionamento do conjunto do sistema família-unidade de produção, onde não há especialização e divisão clássica, formal e hierárquica do trabalho e entre atividade administrativa e executiva, pois as estratégias estão voltadas para a segurança alimentar, redução de riscos, aumento da renda total da família, proporcionando garantia de emprego da mão-de-obra familiar e ampliação das condições de trabalho e produção através da diversificação da produção e o uso de insumos internos, com a utilização de trabalho assalariado apenas complementar.

As ações de apoio ao desenvolvimento da agricultura familiar são decorrentes das discussões acerca da questão agrária retomada no momento de transformação do processo de industrialização em meados do século XX, associado a um momento posterior, traduzido na participação popular acabou favorecendo e contribuindo para a criação do Estatuto da Terra através da Lei nº. 4.504, de novembro de 1964 que tinha como objetivo promover a Reforma Agrária no Brasil.

Dessa forma, essas ações fomentaram os debates voltados para a prestação de assistência técnica na agricultura familiar. A discussão acerca do desenvolvimento de técnicas no meio rural surge pela necessidade de trabalhar e identificar as deficiências, em campo, na base, e com a participação e envolvimento dos agricultores e agricultoras.

Os Serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) surgiram na tentativa de contribuir para a promoção de melhores condições de vida aos trabalhadores rurais, e que na década de 70, passaram pelo processo de estatização, com a implantação do Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural (SIBRATER), coordenado em nível nacional pela EMBRATER (Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural) e executado pelas empresas estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER’s).

As diversas formas de extensão rural promovida e que foram pensadas e repensadas, contribuíram significativamente para a evolução histórica na prestação de serviços de assistência

Tabela 25 -Principais Atividades Extrativistas nas Reservas Extrativistas

 

% das

Atividade

famílias

% sobre a renda total

Matéria

Produto

Destino da

que

prima

Final

Produção

 

praticam

 

Mercado

Castanha

 

Amêndo

Amêndo

Local de

70 %

35 %

as

as

Guajará-Mirim

 

e Bolívia

 

Estado do

Seringa

35 %

10 %

Látex

Borracha

ACRE

Fonte: PDA RESEX Barreiro das Antas e Rio Ouro Preto EMATER/Guajará-Mirim,

2005-2006.

5.3.6 Destino da produção

As duas reservas extrativistas “Rio Ouro Preto” e “Barreiro das Antas“ respectivamente, como o próprio nome sugere, o extrativismo vegetal é a principal forma de produção e comercialização praticado nessas Resex, sendo os principais produtos coletados da floresta, a castanha e a borracha.

Segundo o Plano de Utilização das Resex’s, cada família pode praticar o extrativismo e as atividades agro-pastoris na própria colocação, respeitando os limites tradicionalmente reconhecidos pela comunidade. Alem disso, as seringueiras não podem ser derrubadas e devem-se evitar as derrubadas e queimadas em locais que ameacem sua sobrevivência.

Segundo o relato dos seringueiros, o extrativismo dentro das Resex’s vem sendo executado cada vez menos, principalmente a retirada do látex da seringa, esse entrave está ligado ao baixo preço da borracha e a falta de beneficiamento do produto e alternativas de comercialização da borracha.

Na Resex Rio Ouro Preto, 44% das famílias praticam o extrativismo da castanha e 35% o da seringa. Já na Resex Barreiro das Antas, 90% das famílias praticam o extrativismo da castanha e 35% o da seringueira O aumento da extração do látex, segundo relatos das famílias, ocorreu devido o incentivo de aberturas de estradas de seringa com o financiamento do PRONAF A. Toda a castanha coletada dentro das Resex’s tem

Figura 41 – Atividade de extração do Látex Fonte: EMATER/Guajará-Mirim Segundo o Plano de Utilização

Figura 41 – Atividade de extração do Látex Fonte: EMATER/Guajará-Mirim

Segundo o Plano de Utilização das RESEX’s (itens 6), cada seringueiro só poderá ter uma colocação e praticar o extrativismo e as atividades agropastoris na própria colocação, respeitando os limites tradicionalmente reconhecidos pela comunidade. Mas segundo relato dos seringueiros, o extrativismo dentro das RESEX’s vem sendo executado cada vez menos, principalmente a retirada do látex da seringueira. Esse entrave está ligado ao baixo preço da borracha, falta de beneficiamento do produto e alternativas de comercialização da borracha.

Os seringueiros vêm na floresta a sua morada, um ambiente rico, conhecido e acolhedor, objeto de seu saber e de suas crenças e fonte de sua subsistência. A forma de extrativismo praticado nas RESEX’s é o de pequena produção familiar e o comunitário dentro dos valores e crenças dos que habitam esse ecossistema.

técnica no Brasil. Esta afirmativa vale principalmente quando os modelos trabalhavam até então focado nas questões produtivas.

Algumas políticas públicas lançadas ainda na década de 1980, representadas através dos recursos do FNO e PROCERA, como forma de apoiar financeiramente as famílias produtoras, não surtiram o devido efeito, se for levado em consideração a pretensão de fortalecer as unidades familiares, já que, o recurso por si só, não poderia garantir o desenvolvimento das propriedades rurais. Os produtores demandam orientação e assessoria desde a etapa inicial na elaboração do projeto, para obtenção do recurso, até o recebimento das parcelas, para aplicar o recurso devidamente.

A implementação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) em 1994, foi criado para apoiar financeiramente as atividades agropecuárias e as atividades não agropecuárias exploradas na unidade familiar, trouxe a tona a maior percepção acerca da importância na destinação de recursos de credito agrícola pelo Governo Federal, de maneira a contribuir para o funcionamento dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural (CMDR’s), e ainda, na perspectiva de promover o crescimento e desenvolvimento sustentável dos agricultores familiares, desencadeando no aumento da capacidade produtiva, e conseqüentemente, fortalecendo as atividades rurais, implicando na geração de emprego e renda, favorecendo a permanência do agricultor no campo.

Esse momento marcado de reformulações de políticas destinadas à agricultura familiar no país, contribuiu para um conseqüente amadurecimento, e a percepção de que, a liberação de recursos em si, não é garantia de que está sendo promovido o desenvolvimento das unidades familiares.

Assim, um dos principais enfoques dados a esse “novo repensar” da extensão rural, está em trazer para o plano principal, associado à questão produtiva, os aspectos sociais, ambientais e culturais, entendendo que o processo de desenvolvimento rural, se dá, inclusive, com a transversalidade das ações dessas dimensões.

2.1. Extensão Rural

A prestação de serviços no meio rural no Brasil

apresenta, dentre seus objetivos, contribuir no processo de transformação das famílias produtoras rurais, através da promoção de modernização no meio rural.

O processo de evolução dos modelos de extensão rural

no Brasil ocorreu pelo menos, nos últimos 50 anos, desde a institucionalização, da assistência técnica e extensão rural (ATER).

De acordo com Silva (1992, apud SIMÕES, 2003 p. 63), a

extensão rural passou pelo menos, por seis etapas, que serão destacadas a seguir:

modelo clássico (1948-1956), que teve período curto de existência em função dos resultados insignificantes;

modelo difusionista-inovador (1956-1967), no qual foi pensado para pequenos e médios produtores, porém o processo de expropriação de terras, acabou invalidando

a sua proposta inicial, enviesando, portanto, para o processo de transferência de tecnologia;

modelo de transferência de tecnologia (1968-1978), focado no aumento da produção, e conseqüentemente no produtor que explora comercialmente sua propriedade

rural;

“repensar da extensão rural” (1979-1991), que nesse período retoma a preocupação e assim, toma como foco os pequenos e médios produtores, contemplando inclusive, os jovens produtores rurais, buscando a produção de alimentos básicos e em atividades que pudessem promover o fortalecimento das organizações sociais existentes, planejamento participativo;

desmantelamento do serviço (1991-1996), que surge com uma seqüência de acontecimentos, desde a extinção da EMBRATER, ao quase total desprestigio de políticas voltadas para o setor.

b) RESEX Barreiro das Antas

É um local caracterizado por habitantes cuja cultura visa

a produção de subsistência na qual a pesca e a caça se destacam. Há criação de pequenos animais havendo um predomínio na avicultura, só para o consumo.

As tecnologias de manejo utilizadas são bem rudimentares. Criados de maneira extensiva, os animais tem sua alimentação bem diversificadas e o cuidado é apenas com predadores da floresta. Com relação à sanidade, não há um índice significativo de injurias e doenças, as medidas que deveriam ser profiláticas, são curativas, feitas na maioria das vezes de maneira rústica, com tratos tradicionais que os mesmos adquirem com suas experiências.

Não há um padrão genético de qualidade no plantel nem mão-de-obra especializada e para tornar a criação economicamente viável, a assessoria técnica deve proporcionar capacitação aos produtores para implantação de novas tecnologias e manejo. Por se tratar de uma unidade de conservação não há animais criados para produção econômica.

5.3.5 Sistema Extrativista

O termo extrativismo é utilizado para designar atividade

de coleta de produtos naturais seja de origem mineral, animal, ou

vegetal (madeiras, folhas, frutos.) ou ainda podemos entender o extrativismo como a utilização sustentável proposta para as reservas, ou seja, como a coleta racional na biota, de recursos renováveis destinados ao mercado.

A vocação do ambiente das Reservas Extrativistas é para

o extrativismo vegetal. Assim, deve-se voltar para a manutenção do meio ambiente onde a produção extrativista vegetal está sob

as florestas e sob o controle de seu ecossistema.

dependerá de estudos prévios conforme definido pela legislação em vigor.

Por sua infra-estrutura escassa e dificuldade em escoar estes produtos, os alimentos que são cultivados são direcionados para a subsistência familiar e alimentação dos animais. As limitações para sistemas produtivos intensivos racionais com a utilização de novas tecnologias, visando à produtividade, em função da falta do Plano de Manejo de Uso Múltiplo pelos agroextrativistas são reduzidas à utilização de uma tecnologia rústica, onde a força de trabalho familiar é a principal ferramenta.

Visto que tem um potencial e áreas agricultáveis consideráveis a ser conquistadas, à medida que estes possam ter condições e estrutura necessária para o aumento da produção agrícola e conscientização por parte deles para diversificação produtiva, tal como sistema agroflorestal e exploração do turismo rural.

5.3.4 Sistema de Criação

a) Resex Rio Ouro Preto

Nessa Reserva há criação de pequenos animais havendo um predomínio na avicultura, galinha caipira, galinha d’ angola e patos, tanto para consumo das famílias como para eventuais vendas, contribuindo para um complemento da renda familiar, principalmente para as mulheres.

Estoques de Pequenos Animais na RESEX Rio Ouro Preto

Porcentagem

do Estoque de Pequenos Anim ais

5 %

15%
15%

80%

alinha C aipiraalinha d'A ngola ato G G P

alinha d'A ngolaalinha C aipira ato G G P

atoalinha C aipira alinha d'A ngola G G P

G

G

P

Figura 40 - Estoques de Pequenos Animais na RESEX Rio Ouro Preto Fonte: PDA da RESEX Rio Ouro Preto, EMATER/Guajará-Mirim, 2006.

Após esse período, ainda na década de 90, se inicia a fase de discussão em busca de novas possibilidades de extensão rural que pudessem ser aperfeiçoadas e ao mesmo tempo, complementar as deficiências até então detectadas nos modelos implementados, como forma de experimentação de novas alternativas na prestação de serviços de assistência técnica que extrapolassem a esfera produtiva, contemplando a partir de então, discussão e ações no âmbito social e ambiental.

As discussões sobre a eficiência da prestação de serviços de assistência técnica são constantes e contornam as possíveis falhas que envolvem os atores, e quais as soluções, como forma de melhor atender as famílias produtoras rurais, de maneira a contemplar seus objetivos.

Assim, em 1997, a criação do Projeto Lumiar, provoca à descentralização na prestação dos serviços as famílias assentadas, já que o INCRA não dispunha de condições técnicas e operacional para atender tamanha demanda.

O Projeto Lumiar marca, segundo Pinto (2000, p. 02), um momento fundamental no contexto de transformações que vem ocorrendo na ATER, “dando origem a uma recomposição do campo do desenvolvimento tradicional, com redistribuição dos papéis dos atores que aí agem e das relações que os ligam”.

A extinção do Projeto Lumiar em 2000, reforça a necessidade de se buscar alternativas para a extensão rural, mais concreta e de forma estruturada, que promovam de fato, alternativas para a melhoria de vida dos produtores rurais.

3. PROGRAMA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA, SOCIAL E AMBIENTAL À REFORMA AGRÁRIA - ATES

Diante desse cenário, em decorrência da ausência na prestação de serviços para as famílias assentadas e diante da Política Nacional de Reforma Agrária, inúmeras discussões ocorreram e já em 2003, surge uma nova proposta para a prestação de Serviços de Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária (ATES), e pelo que se entendeu naquele

momento, veio de maneira mais estruturada, e que extrapolava a ação de apenas assistir as propriedades rurais, por apresentar como diferencial a proposta de assessorar os empreendimentos familiares recém constituídos nos aspectos social, produtivo e ambiental, com a finalidade de promover o desenvolvimento das propriedades, afim de torná-los unidades produtivas, e assim, possibilitar uma melhor qualidade de vida dos assentados.

O ATES representa um novo paradigma, e apresenta como uma das premissas, aliar o saber tradicional dos assentados aos conhecimentos científicos dos técnicos. Nessa perspectiva, de acordo com o Manual Operacional de ATES (2007), espera-se que os assentamentos tornem-se unidades de produção estruturadas, competitivas e integradas à dinâmica do desenvolvimento municipal e regional, de forma socialmente justa e ambientalmente sustentável.

O Manual Operacional de ATES (2007), afirma que:

Os serviços de ATES são um conjunto de técnicas e métodos constitutivos de um processo educativo, de natureza solidária, permanente, pública e gratuita, com ênfase nos enfoques da agroecologia, cooperação e economia popular e solidária. Coordenados pelo Incra, têm como parceiros instituições públicas, privadas, entidades de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, bem como as organizações não-governamentais ligadas à reforma agrária.

As atividades propostas pelo Programa de ATES são desenvolvidas por equipes técnicas, que devem apresentar multidisciplinaridade para atuar nos Projetos de Assentamentos,

com formação das áreas de ciências agrárias, sociais, ambientais

e econômicas, com a finalidade de realizar capacitação

continuada com a utilização de metodologias participativas, com

o objetivo de promover discussões e conseqüentemente mudanças de atitudes dos atores envolvidos

Desse modo, essa forma de assessoria técnica pode ser considerada um diferencial, pois, busca contemplar a prestação

de serviços de maneira a atender não somente as questões

de serviços de maneira a atender não somente as questões Figura 39 – Cultura de Milho

Figura 39 – Cultura de Milho e Abobora Fonte: EMATER Guajará-Mirim/2005.

As atividades agrícolas na Resex Rio Ouro Preto a produção das culturas trabalhadas como milho arroz e café não contribuem em percentual significativo para renda familiar, pois estes são utilizados para auto-consumo, não acrescentando a renda familiar diretamente e sim, indiretamente contribuindo para a redução dos custos no orçamento familiar.

As principais culturas trabalhadas nas Reservas Extrativistas atendidas por este núcleo são a mandioca, para produção de farinha, o arroz, o milho e o café, gêneros alimentícios utilizados para a segurança alimentar. Há também cultivo de banana, abacaxi, açaí, laranja, araçá-boi, ingá, cupuaçu e outras frutíferas típicas da região, mas apenas para consumo local.

Estes dados confirmam a afirmação feita quanto ao manejo de produção por se tratar de uma área de Unidade de conservação, e segundo o Plano de Utilização das RESEX’s, (item 11) que diz: os moradores da RESEX poderão utilizar áreas de floresta para atividades agrícolas, agroflorestais e criação de animais, respeitando o limite máximo definido pela Lei Complementar 52/91 de 5 (cinco) hectares por unidade produtiva, não incluindo áreas de capoeiras, sendo que o excedente

   

Estado

de

Idade

Grau

De

Discriminação

Qte

Conserv

Anos

Utilização(*)

Armazém

01

Desgastado

10

Uso Excessivo

Sede

01

Desgastado

10

Uso Normal

Alojamento

01

Desgastado

10

Uso Excessivo

Figura 38 - Edificações Fonte: Entrevista Semi-Estruturada na Resex Barreiro das Antas/Guajará-Mirim,

2006.

5.3.3 Sistemas de produção e cultivo

a) Resex Barreiro das Antas e Resex Rio Ouro Preto

A produção do seringueiro apóia-se no trabalho familiar

ou comunitário, depende do uso imediato dos recursos, subordina-se aos ciclos naturais e tem como racionalidade não o lucro, mas a reprodução social e cultural. No sentido econômico, o extrativismo convencional utilizado pelos seringueiros é a combinação de atividades extrativas com técnicas de cultivo, criação e beneficiamento no ambiente dominado por essa cultura singular.

O sistema produtivo das Reservas Extrativistas não inclui

a pecuária nem a agricultura de grande escala. O extrativismo é uma atividade que deve basear-se na exploração de espécies animais e vegetais da floresta, incluir sistema de manejo apoiado em saberes, praticas e tradições do trabalhador extrativista.

produtivas, mas ainda, as dimensões social, ambiental e cultural dentro das especificidades da realidade rural em cada região.

Dentre as ações a serem desenvolvidas através do Programa ATES, através de palestras, excursões, dia especial, reuniões, as atividades estão voltadas para o processo de capacitação, organização rural, sistemas de produção, crédito rural, mercado e comercialização, meio ambiente, visando o desenvolvimento dos Projetos de Assentamento.

O Manual Operacional do Programa de ATES (2007, p. 5), estabelece dentre os objetivos específicos:

Contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável das áreas de assentamento, valendo-se de paradigmas baseados nos princípios da Agricultura Familiar, com foco na Agroecologia e na valorização das tradições, costumes e conhecimentos endógenos de que são dotadas as famílias beneficiárias da Reforma Agrária, mediante a adequação das atividades às especificidades de cada região e bioma; Promover a segurança alimentar e a viabilidade econômica, na perspectiva do desenvolvimento territorial integrado; Estabelecer mecanismos e modelos de gestão capazes de monitorar, avaliar e promover as devidas correções das ações no tempo real, mediante participação dos diferentes atores sociais; Desenvolver um Programa de Capacitação participativo, conciliando os saberes adquiridos na escola e os obtidos pelas comunidades assentadas; Apontar estratégias iniciais, garantidoras da soberania alimentar e nutricional aos assentados, mediante a formulação de Planos de Desenvolvimento dos Assentamentos (PDA).

O ATES possui uma coordenação a nível nacional, realizada pelo INCRA, que tem intermediação da Diretoria de Desenvolvimento de Projetos de Assentamento – DD/INCRA

Nacional (SD) e a nível estadual, por cada Superintendência Regional (SR).

A fim de viabilizar um canal institucionalizado de

comunicação, a norma de execução do ATES de 30 de Março de 2007, prevê a estruturação de Fóruns Nacional e Regionais do ATES que tem, entre outros, funções em caráter consultivo que atuam na gestão, com o objetivo de promover a participação e o debate entre as diversas instituições atuantes na instância de execução técnica, inseridos, no âmbito da Reforma Agrária, com vistas a conferir maior transparência ao processo de planejamento, implementação e avaliação das atividades de ATES (INCRA/MDA, 2007).

A Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SDT/MDA) estabeleceu, com a implementação do Programa ATES no Brasil, a configuração em Territórios e as Áreas Prioritárias no âmbito dos estados. Estas áreas devem ser definidas por cada Superintendência Regional (SR) do INCRA.

A implementação do Programa ATES em Rondônia,

ocorreu em 2004. O Estado foi dividido em Territórios, sendo

denominados Madeira-Mamoré, Vale do Jamari e Central. E ainda, definido pelo INCRA (SR-17) as Áreas Prioritárias, subdivididas em Zona da mata, Cone Sul e BR 429 conforme ilustra a Figura 3, sendo na oportunidade contemplados com o Programa 122 assentamentos, beneficiando 25.843 famílias.

Programa 122 assentamentos, beneficiando 25.843 famílias. Figura 3: Mapa temático dos Territórios e Áreas

Figura 3: Mapa temático dos Territórios e Áreas Prioritárias do Programa ATES em Rondônia. Fonte: IBGE, composição INCRA SR-17, 2007

b) Reserva Extrativista Barreiro das Antas

O acesso é realizado somente via fluvial. Os extrativistas possuem um patrimônio modesto, mas podemos verificar e constatar a diversidade de máquinas e implementos que utilizam para atender a demanda produtiva dos beneficiários da comunidade. Estão investindo na renovação e qualidade do seu patrimônio, adquirindo máquinas e equipamentos novos, através da linha de crédito PRONAF A. Alguns equipamentos, tais como, caititu, motores rabeta, roçadeira motorizada, forno, caixa de água e carrinho de mão são utilizados de forma individual, geralmente cada família possui esses equipamentos próprios. Grande parte dos equipamentos individuais é utilizada para qualificar a produção existente dentro da Resex.

Discriminação

Un

Qte.

Idade

Estado de

Grau de

Utilização (*)

Anos

Conservação

Condicionador de Ar

Und

01

05

Semi-Novo

Uso Normal

Computador

Und

01

01

Desgastado

Uso Normal

Bebedouro

Und

01

01

Novo

Uso Normal

Rádio Receptor

Und

01

08

Desgastado

Uso Normal

Motor de Polpa de 25 HP

Und

01

08

Desgastado

Uso Excessivo

Motor de Polpa de 40 HP

Und

01

05

Desgastado

Uso Normal

Motor de Polpa de 15 HP

Und

01

03

Semi-Novo

Uso Normal

Barcos de Alumínio

Und

03

03

Desgastado

Uso Normal

Figura 37 - Inventário de máquinas/implementos. Fonte: Entrevista Semi-Estruturada na Resex Barreiro das Antas/Guajará-Mirim,

2006.

As edificações da RESEX Barreiro das Antas são basicamente compostas de uma sede não própria da Associação, um armazém para estocar a produção excedente em período de curto prazo e um alojamento para abrigar os extrativistas no município de Guajará-Mirim.

diversas comunidades dentro da Resex, que serve para abrigar os extrativistas e visitantes que transitam naquela localidade, bem como, ponto de armazenamento do excedente da produção em período de curto prazo.

Possui ainda casas de farinha construída de madeira, com cobertura na sua maioria de palha, e piso de terra compactada. As escolas e os postos de saúde são construídos de madeira coberta com palha ou telha de amianto, geralmente suspensas (palafita) com assoalho de madeira. (Ver quadro 5 e foto 13).

Discriminação

Quant

Est.

IDADE

Grau de

Conservação.

Anos

utilização (*)

Casa

de

Apoio

01

Semi-Novo

08

Uso Excessivo

(Pompeu)

Casa de Farinha

130

Desgastados

05

Uso Normal

Escolas

09

Desgastadas

10

Uso Normal

Postos de Saúde

04

Inutilizado

10

Em desuso

Figura 35 - Edificações

Fonte: Entrevista Semi-Estruturada na Resex Rio Ouro Preto/Guajará-Mirim,

2006.

na Resex Rio Ouro Preto/Guajará-Mirim, 2006. Figura 36 - Casa de Apoio do Pompeu. Fonte: EMATER,

Figura 36 - Casa de Apoio do Pompeu.

Fonte: EMATER, 2007

Para o atendimento a esse número de famílias e obedecendo ao critério de territorialidade, a distribuição das famílias ficou assim distribuída: Territórios Madeira Mamoré – 27 PA’s com 4.552 famílias; Vale do Jamari – 44 PA’s e 12.835 famílias; Central com 20 PA’s e 3.689 famílias e as áreas prioritárias compreendendo o Cone Sul, Zona da Mata e a BR 429, com 31 PA’s e 4.767 famílias.

3.1 Município e Operadoras no Território Madeira Mamoré

Para o atendimento dessa demanda, foram contratadas operadoras que estabeleceram seus núcleos operacionais conforme quadro a seguir.

Quadro 1 - Distribuição de PA’s por operadora/nº. de famílias

     

Nº. de

Operadora

Município

Projetos de

assentamentos

Famílias

Atendidas

   

Joana D'arc I

312

Porto Velho

Joana D'arc II

221

Joana D'arc III

537

 

Esmosina Pinto

205

Cootraron

Floriano Magno

257

Nova Mamoré

Ivo Inácio

153

Francisco João

181

 

Pau Brasil

180

Ribeirão

190

   

Nazaré/Boa Vitória

95

Porto Velho

Rio Madeira

157

Resex Lago Cuniã

109

 

Cachoeira de Samuel

76

Candeias do

Rio Preto Candeias

290

Emater

Jamari

PCA Comunidade

85

Paraíso das Acácias

152

   

Resex Barreiro das Antas