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A leitora Luciane Correia pergunta: “Como educar as crianças sem o uso da força e do

poder?”
por Eugenio Mussak

Imagine a seguinte cena, como se fosse um entram pelo novo espaço, com a naturalidade
filme que você está assistindo: “Há uma sala desconcertante das coisas óbvias”.
fechada, quase totalmente escura, na qual não
se podem identificar com clareza os móveis, Na metáfora acima há dois homens tentado
objetos e pessoas. Quem tenta caminhar bate resolver o problema da sala fechada. O
nas coisas e perde o equilíbrio. E o pior é que primeiro tenta fazer o ar entrar usando a força.
o ar é rarefeito, difícil de respirar, e há um O segundo apenas abre a janela, deixando o ar
cheiro de mofo irritando as narinas. Existe fluir, como é de sua natureza, e a luz ocupar o
apenas uma janela alta, mas está quase espaço. Qual dos dois poderia ser comparado a
totalmente fechada, deixando aparecer só uma um educador de verdade? O que força a
estreita fresta embaixo da cortina. Paira, na entrada ou o que abre a janela?
sala, intenso desejo de respirar com
intensidade e enxergar com clareza. Mas, Educar é deixar respirar
como?
Nas escolas e nos lares encontramos, em todo
Do lado de fora, uma pessoa resolve ajudar os o mundo, professores e pais que são
que estão na sala. Procura um fole, dotado de apertadores de foles e professores e pais que
uma mangueira fina o suficiente para passar são abridores de janelas. Apertar o fole
pela fresta da janela. Com esforço, introduz a significa tentar introduzir conceitos,
mangueira e começa a fazer um cansativo conhecimentos e comportamentos à força,
movimento de vaivém, na tentativa de arejar o considerando o aluno, ou o filho, um menor
recinto. Pelo esforço, apesar da boa intenção, incapaz de perceber, compreender e aprender.
cansa-se e irrita-se. Com o tempo, começa a Que precisa, por ser assim um inválido
esbravejar contra as pessoas da sala, culpando- intelectual, do esforço do outro, do adulto, do
as por estarem ali, o que as leva a respirar sábio, que é arrogante em sua superioridade do
ainda mais depressa, piorando a situação. saber. Abrir a janela significa confiar no
potencial do menino em aprender por seus
Tal acontecimento é observado por outro próprios meios, valendo-se de sua natureza
homem do lado de fora. Esse homem não humana. Significa não atrapalhar e, quando
participa, só observa, mas reflete sobre o que muito, facilitar. Pais e mestres são facilitadores
está acontecendo. Percebe o esforço do da aprendizagem, não inoculadores de idéias.
primeiro em mandar ar para a sala e o das Conhecimento não se transfere, constrói-se a
pessoas em respirar o ar pouco e viciado. Nota partir de estímulos, como a curiosidade, e de
que o desespero está tomando conta de todos e substratos intelectuais, como os livros.
que o desânimo está chegando. O homem do
fole não tem mais força nem paciência. As Eu não posso ler o livro para meu filho ou para
pessoas da sala estão começando a achar que é meu aluno. Nem posso obrigá-lo a ler, isso
melhor deixar como está, pois dá para seria uma violência. Mas posso aguçar sua
continuar vivendo desde que se respire curiosidade sobre o livro, de tal sorte que a
pequenininho. leitura seja a conseqüência natural, óbvia e
desejada. Mestres não entregam os livros,
O observador, então, levanta-se do banco em mostram onde eles estão. Não transferem
que se acomodara, dirige-se lentamente ao conhecimentos, oferecem significados. Não
centro da cena e, com um movimento dão conselhos, dão exemplos. Não funcionam
decidido, mas delicado, afasta as duas lâminas como os trilhos da estrada de ferro, que marca
da janela, faz correr as pesadas cortinas, e algo o caminho na planície, e sim como o farol que
parecido com milagre acontece: o ar a luz serve de referência na noite atlântica. Por tudo
isso, deduzimos o que representa a violência, E é exatamente nesse ponto que reside o
de qualquer espécie, no processo do argumento dos que usam da violência (de
aprendizado. Nada. Ou melhor, tudo. Tudo o qualquer tipo) para ensinar. Pois não seria a
que há de errado, antipedagógico, coação violenta uma maneira de acionar o
desconstrutor, desumano. emocional? Sim, claro, sem sombra de dúvida,
mas... Mas o processo funciona assim:
Quando o assunto é educação, nunca é demais aprendizado com amor gera conhecimento e
lembrar o que Sócrates disse há 25 séculos: afeto pelo saber. Aprendizado com violência
“Educar é ensinar a pensar”. O primeiro pode até desembocar no conhecimento, mas
grande educador que o mundo conheceu foi este será acompanhado do medo, da raiva e da
provavelmente o que mais bem definiu o ato aversão ao que ele representa. Fim do enigma.
de educar. E ele disse mais. Disse que aprender Estímulo à curiosidade
é uma condição humana natural, que
acontecerá independentemente do professor. Além da maiêutica, Sócrates lançava mão de
Crianças aprendem. Jovens aprendem. Adultos outra técnica peculiar: a ironia. Só que ironia,
aprendem. Seres humanos aprendem porque é no grego clássico, não era sinônimo de
de sua natureza. O que tentamos fazer, a partir sarcasmo. Significava, antes, algo como “a
da organização dos temas e das técnicas arte de perguntar”. Sócrates dificilmente
pedagógicas, é facilitar esse processo e respondia, ele perguntava, o que obrigava seus
conduzir o aprendizado para o fim desejado, discípulos a usar a cabeça de fato, refletir
que é o de integrar o aluno à sociedade em que sobre o assunto em questão, criar novas idéias,
ele está inserido e torná-lo capaz de colaborar propor novas visões. Pensar, enfim. Na
com a construção do todo desenvolvendo-lhe atualidade, coitados dos perguntadores, dos
competências. curiosos. Costumam ser classificados como
impertinentes, maleducados, desconfiados,
A mãe de Sócrates, Fenareta, era parteira. perturbadores. E, com freqüência, punidos
Observando o trabalho da mãe, o então menino com repreensões ou coisa pior.
disse-lhe certa vez: “Não é você quem faz o
parto. Este acontece naturalmente por ação dos A curiosidade é uma característica infantil que
organismos da mãe e do filho. Você apenas se perde pela inutilidade do uso. Quando gera
conduz o nascimento”. É possível que a mãe mais desconforto que glória, a curiosidade
tenha ficado magoada com o filho, pois nunca começa a ser questionada. Alunos curiosos,
antes alguém lhe havia questionado o poder de filhos curiosos, funcionários curiosos são
fazer o parto. Sócrates adorava observações pessoas que perturbam a ordem com suas
críticas, mas foi dessa observação impertinente perguntas, suas dúvidas, sua curiosidade,
que nasceu o método socrático de ensinar: a enfim. Como curiosidade pressupõe pergunta,
maiêutica, palavra que, em grego significa “a pergunta exige resposta e resposta precisa do
arte de dar à luz”. pensamento e do tempo de elaboração, haja
paciência! Sim, educar exige paciência. Ter
O método maiêutico pressupõe que a criança filhos exige paciência. E como ter paciência
(de qualquer idade) deve receber tudo o que em um mundo impaciente, veloz, digital,
facilite o aprendizado, assim este “nascerá” cibernético, inconstante e louco? Atualmente
por conta própria. E, nesse contexto, é sempre ela só existe em um lugar: na consciência do
bom lembrar que, se o aprendizado é um educador, seja ele professor, pai, chefe, guarda
fenômeno intelectual, a aprendizagem é um de trânsito, não importa. Ser educador é um
fenômeno emocional. Em outras palavras, nós estado de espírito. Há educadores que não são
nos intelectualizamos com auxílio das professores e professores que não são
emoções. A informação desprovida de sentido educadores.
e de sentimento não cala na alma, não gruda na
mente, não se acomoda na memória. Durante os anos conturbados da queda do czar
e ascensão do marxismo-leninismo – a
Revolução Russa –, viveu um psicólogo e “Precisamos de ambientes em que o
educador chamado Lev Vigotsky. Sua curta conhecimento já sistematizado não seja tratado
vida (morreu aos 37 anos, vítima da de forma dogmática e esvaziado de
tuberculose que o torturou desde os 19) foi significado. Precisamos de ambientes em que
dedicada a entender como as pessoas, em as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir,
especial as crianças, aprendem. Sua obra tem questionar e compartilhar saberes. Lugares em
um caráter de urgência, como se pressentisse que as pessoas tenham autonomia, possam
sua curta jornada, mas é reconhecida como pensar, refletir sobre seu próprio processo de
fundamental, sendo complementar aos construção de conhecimentos e ter acesso a
trabalhos de Jean Piaget, que, aliás, nasceu no novas informações. Onde haja espaço para as
mesmo ano de Vigotsky, mas que viveu até se diferenças, para as contradições, para o erro,
cansar de viver. É do jovem russo, personagem para a criatividade, para a colaboração e para
de uma sociedade imersa em profunda as transformações”.
transformação, a percepção do fundamental
papel do ambiente no desenvolvimento sócio- Quantos ambientes de aprendizagem, escolas
cultural-intelectual do ser humano. ou lares, são assim, em que habita o amor, a
paciência, a tolerância, o respeito? Quem Ama
Entre seus escritos encontramos um Educa, escreveu recentemente o psiquiatra
pensamento que resume a educação com a Içami Tiba, e foi lido por mais de 1 milhão de
mesma profundidade que a oração de São pessoas, lançando mais uma luz na sala escura.
Francisco explica o cristianismo ("Senhor, Não se pode forçar a janela, é preciso abri-la
fazei-me instrumento de vossa paz; onde com carinho e espantar os corvos da
houver ódio, que eu leve amor; onde houver desconfiança que porventura pairem em sua
ofensa, que eu leve perdão..."). Disse Vigotsky soleira. Estamos falando da mais humana das
a respeito dos ambientes, escolares, esperanças, a única que pode responder aos
domésticos ou públicos, que são capazes de anseios da construção, não apenas de uma
educar, desenvolver jovens, criar uma sociedade, mas de uma civilização. Parodiando
sociedade mais íntegra, justa, feliz: o escritor, quem educa ama.

Eugenio Mussak é educador e escritor. Neste espaço, faz reflexões a partir de inquietações
levantadas pelos leitores. Envie suas dúvidas para: pensandobem@abril.com.br