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CENTRO UNIVERSITÁRIO JORGE AMADO CURSO DE FONOAUDIOLOGIA

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

EFEITOS DA TERAPIA FONOAUDIOLÓGICA EM PACIENTE COM ENCEFALOPATIA CRÔNICA NÃO PROGRESSIVA INFANTIL Relato de caso

Discente: Eloah Silva de Oliveira Orientadora: Juliana Rocha

INTRODUÇÃO
-Encefalopatia Crônica Não Progressiva Infantil (ECNPI): utilizado por Trosseau. Foi descrita durante o século XIX, após uma sequência de estudos realizados Little, Freud e Phelps, com objetivos distintos1,7.

-Só foi conceituada como ECNPI durante o Simpósio de Oxford, na qual sua definição se baseou em um distúrbio decorrente de lesão no cérebro ainda em desenvolvimento e se caracteriza por déficit postural, de tônus e na execução de

movimentos, com caráter permanente ainda que mutável3,7.

- Uma convergência no que diz respeito ao sintoma motor 4.

por fatores metabólicos. por lesões vasculares. parto instrumental ou demorado1. Acidentes Vasculares Cerebrais ou meningoencefalite 3. Fatores pós natais: anóxias.19. prematuridade.3. Fatores perinatais: caracterizado primordialmente por anóxia.INTRODUÇÃO Fatores pré natais: causa genética e/ou hereditária. por intoxicações. malformações cerebrais. traumatismo3. lesões que penetrem a caixa craniana. por infecções congênitas. hemorragia. gemelaridade e.19.7. por exposição à radiação.19. .

em que o acesso à linguagem expressiva e/ou compreensiva estão acometidos 14 e. Afasia. Disartria. Apraxia de fala.19. na qual a sequencialização e execução dos movimentos necessários à fala estão desorganizadas19. .INTRODUÇÃO Alterações de comunicação associadas aos transtornos de base do indivíduo que são de ordem motora6.19. que tem grande relação com casos de ECNPI por seu característico comprometimento motor 6.

“ Distúrbio de deglutição. dificuldade para deglutir. tosse. mecânico ou psicogênico. que se caracteriza por alterações em qualquer etapa e/ou entre as etapas da dinâmica da deglutição. regurgitação. refluxo gastroesofágico e microaspiração 9.15. podendo ser congênita ou adquirida após comprometimento neurológico. prazer alimentar e social do indivíduo” 13 . mobilidade reduzida de língua e alterações nos reflexos orais e de sensibilidade11. com sinais e sintomas específicos. no estado pulmonar.INTRODUÇÃO Desordens alimentares relacionadas ao controle alimentar ineficiente por vedamento labial insuficiente. Consequências: escape extraoral. podendo trazer prejuízo aos aspectos nutricional de hidratação.

S.B.APRESENTAÇÃO DO CASO CLINICO Paciente: A. Idade: 6 anos Sexo: masculino .

levando a parto pré-termo.ANAMNESE Queixa: “meu filho baba muito” (sic-mãe) Antecedentes pré-natais Deslocamento de placenta na 36° semana de gestação. com anóxia perinatal devido ao canal vaginal materno ter dilatação reduzida. . O menino necessitou permanecer três dias no halo para oxigenação e foi introduzida sonda orogástrica até o 4° dia após nascimento (sic-mãe). respectivamente. Informações peri e pós-natais Parto normal. Foi realizado PEATE aos três e seis meses.

• Linguagem: desenvolvimento descrito com alterações.AVALIAÇÃO Dados referentes a 2008 • Inabilidade da criança em coordenar sucção-deglutição-respiração durante amamentação. copo com bico. mastigar alimentos sólidos e deglutir. • Há presença de engasgos com pedaços maiores de alimentos secos. dificuldade para vedar lábios. de modo que o menino realizou vocalizações com aproximadamente dezoito meses. • Há intenção comunicativa e compreensão de ordens simples. . mamadeira.

Na reavaliação foi encontrado déficits a respeito da linguagem oral e escrita. . de comunicação e motricidade orofacial através de estratégias lúdicas e conversa semi-dirigida. sua pragmática e funções cognitivas se encontram relativamente preservadas. Durante reavaliação da Motricidade Orofacial foram observados aspectos corporais e musculoesqueléticos relacionados às estruturas e funções estomatognáticas. No entanto. de forma que o paciente perdeu sua oralidade.AVALIAÇÃO Em agosto de 2011 o paciente foi convocado pela nova terapeuta para retomada de atendimento. Foram observados aspectos cognitivos.

a mobilidade e a força encontram-se alteradas. . Os músculos bucinadores e masseteres se encontram hipotônicos.AVALIAÇÃO Lábios: separados por encurtamento e hipertonia do lábio superior e eversão com hipotonia do lábio inferior. mobilidade alterada com incoordenação de movimentos. as comissuras acumulam saliva até o seu derramamento. Língua: postura assistemática. tônus e força rebaixados. hipersensibilidade ao toque.

tempo de trânsito oral aumentado.AVALIAÇÃO • Sólido: captação ineficiente. • Líquido: inabilidade. Deglutição composta por elevação laríngea reduzida. presença de escape extraoral. vedamento labial insuficiente. • Pastoso: dificuldade de captação. protrusão exagerada de língua e engasgos assistemáticos. incoordenação de língua. sucção débil. mastigação por amassamento. . vedamento labial ineficiente. tempo de trânsito oral aumentado. presença de resíduo significativo após deglutição. movimentos mandibulares verticais.

AVALIAÇÃO HDE: Encefalopatia Crônica Não Progressiva Infantil HDM: Sensibilidade de estruturas orofaciais Hipotonia de masseteres Hipotonia de bucinadores Incoordenação de língua Escape extraoral Mastigação ineficiente Vedamento labial ineficiente .

AVALIAÇÃO HDM: Hipotonia de orbicular dos lábios – inferior Hipertonia de orbicular dos lábios – superior Alteração dos níveis linguísticos Incoordenação pneumofonoarticulatória durante a vocalização HDF: Anartria Distúrbio de linguagem Disfagia orofaríngea Distúrbio oromiofuncional .

OBJETIVOS O principal objetivo terapêutico foi adequar às estruturas oromiofuncionais. sendo que a estimulação a comunicação e ao nível semântico também fizeram parte da terapia. a fim de uma alimentação mais segura e efetiva em relação ao prazer e estado nutricional do paciente. .

OBJETIVOS ESPECÍFICOS Estimular a linguagem Promover lateralização de língua Adequar sensibilidade orofacial Treinar movimentos mastigatórios Adequar tônus de bucinador e orbicular dos Adequar vedamento labial lábios . • Estimular a comunicação e o nível semântico.OBJETIVOS GERAIS • Adequar estruturas oromiofuncionais. a fim de uma consequente função mais segura e efetiva em relação ao prazer alimentar e estado nutricional.

Treinar deglutição segura.Planejamento terapêutico Trabalhar a hipersensibilidade das estruturas orofaciais. Promover mobilidade de língua. Atenuar hipotonia do músculo orbicular do lábio – inferior. Atenuar hipertonia do músculo orbicular do lábio – superior. Treinar movimentos mandibulares. Aumentar o nível semântico e consequente entendimento dos diversos contextos inseridos. Adequadar tônus do mecanismo bucinador. .

.DISCUSSÃO • O posicionamento inadequado durante a oferta de alimento é um grande fator predisponente a reflexos motores patológicos e consequente disfunção alimentar16. obteve ganhos ao ser promovida melhor movimentação das estruturas do complexo crânio-orocervical.B. já que o mesmo possuía protrusão de língua e reflexos corporais exacerbados durante a ingesta de alimentos. Assim.S. • Sendo o controle motor global importante na modificação de padrões patológicos18. o caso de A. influenciam na mobilidade e estabilidade da cavidade oral15.

comum dificuldades ligadas à sua emissão. em seu aspecto motor. a implantação da comunicação alternativa tem se mostrado eficiente ao passo que estimula o desenvolvimento da linguagem e funções cognitivas12. é trazida pela literatura de forma intrínseca à mecânica da fala. 20. Dessa forma. sendo em portadores de ECNPI. . principalmente do tipo tetraparético espástico.DISCUSSÃO • A linguagem.

• A hipotonia dos músculo orbicular dos lábio acarreta dificuldades alimentares como preensão do bolo ineficiente. com prevalência entre 12% e 58%9. como o ocorrido com A. que passou a ter vedamento mais eficiente e redução significativa de escape.B. com um tônus mais adequado17. ausência de vedamento labial e escape extraoral.S. • O uso do tapping na região hipotônica do lábio tende a trazer ganhos.DISCUSSÃO • Escape extraoral como inabilidade diante da falta de controle motor e não decorrente do excesso de produção.18. .

. é bastante trazida por estudiosos. seja pela dificuldade na mobilidade do bolo e sua consequente ejeção. bem como pela dificuldade em manter o alimento entre os molares.DISCUSSÃO • A dificuldade na ação motora voluntária da fase oral ligada à dinâmica orofaríngea. 17. respectivamente5. de modo que a incoordenação de língua e a hipotonia do mecanismo bucinador trazem prejuízos para o processo alimentar.

B. como potencializador do aumento do tônus18.DISCUSSÃO • As características trazidas acordam com o descritos sobre A. . o que através da contração do músculo genioglosso promoveu sua lateralização. A hipotonia dos bucinadores foi trabalhada através de tapping.S. de forma que a incoordenação de língua foi atenuada através de leves pressões ao longo da sua borda.

DISCUSSÃO • O treino a mastigação realizado através de contenção mandibular traz uma postura mais adequada às estruturas orofaciais18. • Ganhos relacionados a mastigação foram alcançados e trazidos pela cuidadora. de modo que durante oferta da consistência sólida o paciente já inicializa movimentos mastigatórios. .

. • De acordo com estudo10 com portadores de ECNPI do tipo espástico. maior o tempo de trânsito oral.DISCUSSÃO • Quanto maior a dificuldade motora oral. • O caso relatado traz tempo de trânsito oral aumentado com as consistências sólido e líquido. sendo até 14.2 vezes maior que o tempo gasto por indivíduos de grupo controle. o grupo tetraparético foi o que apresentou função motora oral mais inadequada. maior o tempo gasto para a alimentação de pacientes com ECNPI10. ou seja.

o uso de literatura específica acompanhado de uma avaliação fonoaudiológica completa trouxe subsídios para a execução de uma terapia consistente e eficiente ao caso. bem como a participação ativa de familiares e comunidade a qual o paciente está inserido. • Com relação às contribuições fonoaudiológicas. pois cada paciente possui capacidades e limitações individuais.CONCLUSÃO • Intervenção precoce em pacientes neurológicos é de suma importância. pois o conhecimento das limitações reais e suas possibilidades acompanhadas do estímulo constante irão proporcionar maior entendimento do meio e uma vivência de forma mais plena. . Se mostrou relevante a necessidade de um trabalho específico.

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