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"Relações de gênero e sexualidade:

contribuições sociológicas para uma perspectiva Queer”.

Felipe Padilha

Mestrando em Sociologia PPGS UFSCar Simpósio de História UNICEP "Relações de gênero e sexualidade: contribuições historiográficas,

sociológicas e filosóficas” São Carlos 28/05/2013

Não se nasce mulher, torna-se uma.

Simone de Beauvoir

LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume

LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e

gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume

Dumara, 2001.

“Inventando o sexo” mostra a instituição cultural da diferença entre os sexos analisando os discursos sobre o corpo, a fisiologia reprodutiva e as relações

entre os sexos. Ele demonstra como as diferentes formas de pensar as distinções sexuais só podem ser entendidas como produções discursivas explicáveis dentro de um contexto que envolve lutas e conflitos em que estão em jogo gênero e poder.

A construção das diferenças entre os sexos é apresentada por Laqueur através da mudança de um modelo de sexo-único presente antes do século XVIII no pensamento filosófico e médico da Europa para o modelo de dois-sexos que

começou a surgir durante o século XVIII com base na construção das diferenças.

Assim, no modelo de sexo único, homens e mulheres eram classificados segundo seu grau de perfeição metafísica, seu calor vital, que variava em uma escala de gradações cujo princípio organizador era masculino, implicando um corpo feminino

considerado como uma versão inferior do corpo masculino.

Essa visão pode ser ilustrada através do discurso médico da época. Desse ponto de vista, os órgãos reprodutores participavam de uma mesma natureza: os ovários eram testículos internos; a

vagina, um pênis invertido, inseridos em uma 'economia corporal

genérica de fluidos e órgãos' representativa da existência de um

único sexo, com dois gêneros assimétricos, porém não opostos, mas complementares.

Essa visão pode ser ilustrada através do discurso médico da época. Desse ponto de vista, os
Essa visão pode ser ilustrada através do discurso médico da época. Desse ponto de vista, os
Essa visão pode ser ilustrada através do discurso médico da época. Desse ponto de vista, os

O avanço da “metafísica materialista” implicará em transformações nas características físicas e no seu papel, ou seja, grosso modo, ela transforma sentido das características físicas, que de sinal ou marca da distinção masculino/feminino passaram a ser sua causa e aquilo que lhe dá origem. Desse modo, modificando radicalmente a interpretação dos corpos masculino e feminino, estes agora são posicionados a partir de uma diferenciação incomensurável. Ilustrando a 'invenção' de dois sexos distintos, o discurso médico expressa essa criação a partir da distinção na nomeação dos órgãos.

Um grupo humano precisa fazer mais do que simplesmente agir reordenando o mundo natural de maneira a vestir-se, comer e se aquecer. Chamamos geralmente de “economia” o sistema através do qual os elementos do mundo natural são transformados em objetos de consumo humano. Fome

é fome, mas o que se considera “comida” é cultural determinado e obtido culturalmente. Toda sociedade possui uma forma

econômica organizada. Sexo é sexo, mas o que se considera sexo é igualmente determinado e obtido culturalmente. Toda sociedade conta ainda com um “sistema/sexo gênero”: um conjunto de arranjos através dos quais a matéria-prima biológica do sexo e da

procriação humanas é moldada pela intervenção humana e social

satisfeita de forma convencional, pouco importando quão bizarras algumas dessas convenções possam parecer.

Rubin,

Gayle.

O

tráfico

de

mulheres:

notas

sobre

uma

economia política do sexo. SOS Corpo, Recife. 1993

No entanto, a ideia de que homens e mulheres são duas categorias mutuamente exclusivas deve advir de outra coisa que uma inexistente oposição “natural”. Longe de ser uma expressão de diferenças naturais, a identidade de gênero exclusiva é a supressão de similaridades naturais. Ela requer repressão: nos homens, da versão local das características “femininas”, quaisquer que sejam elas; nas mulheres, da definição local das características “masculinas”. A divisão dos sexos tem por efeito reprimir alguns dos traços de personalidade de virtualmente todo mundo, machos e

fêmeas tornando-os homens e mulheres. O mesmo sistema social que

oprime as mulheres nas suas relações de troca oprime todo mundo pela sua insistência numa divisão rígida da personalidade.

SISTEMA SEXO-GÊNERO:

Grade de Inteligibilidade

SEXO

GÊNERO -

MACHO

HOMEM

FEMÊA

MULHER

Natureza

Cultura

MASCULINO

FEMININO

“Os estudos queer atacam uma repronarratividade e uma reproideologia, bases de uma heteronormatividade homofóbica, ao naturalizar a associação entre heterossexualidade e reprodução

LOPES, Denílson. O homem que amava rapazes e outros ensaios.

“Os estudos queer atacam uma repronarratividade e uma reproideologia, bases de uma heteronormatividade homofóbica, ao naturalizar

Teoria Queer:

Eve Sedgwick Judith Butler

A epistemologia do armário

Problemas de Gênero / Desfazer o gênero

Guy Hocquenghem

El deseo homossexual

Emerge de um campo

de estudos diverso e variado

que está

dispersado por áreas como a Sociologia, os Estudos Culturais, os

Estudos sobre Sexualidade e Gênero, a Antropologia

Social,

a

Filosofia, a Educação e as Artes.

De modo geral, o movimento queer procura ir além do binarismo sexo/gênero dando atenção aos processos considerados desviantesdentro do marco da heterossexualidade compulsória.

Rejeita categorizações universalizantes forjadas nos marcos das teorizações tradicionais das Ciências Humanas, Biomédicas e da Filosofia

Teoria Queer

Gerado nos Estados Unidos em meados da década de 1980, em contextos de ativismo político, o Queer é também notavelmente influenciado pelos trabalhos de Michel Foucault.

Queer pode ser traduzido como “bizarro ou estranho, ridículo ou excêntrico”. O termo adquire todo o seu poder precisamente através da invocação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos. Por isso, a proposta é dar um novo significado ao termo,

passando a entender Queer como uma prática de vida que se coloca

contra as normas socialmente aceitas. Pode-se dizer que a ambição

mais

clara da

Teoria Queer é

perturbar as narrativas hegemônicas descritas na literatura científica.

• (1946-1988) França. Sua participação no maio de 1968 formou sua lealdade ao Partido Comunista, do

(1946-1988) França. Sua participação no maio de 1968 formou sua lealdade ao Partido Comunista,

do qual posteriormente foi expulso por causa de sua homossexualidade. Ensinou filosofia na Universidade de Vincennes-Saint Denis, Paris e

escreveu inúmeros romances e obras de teoria, entre elas “El Deseo homossexual”.

Guy Hocquenghem

El deseo homossexual

Nesse trabalho a característica polimórfica do desejo é

colocada no centro do debate pra observar a homossexualidade, tomada como história de um movimento, de uma ideia.

É um texto datado, pois marca o início do surgimento do

movimento estudantil francês. É nesse contexto que a

perspectiva de Guy é forjada.

 

Ao

mesmo

tempo

é

um

Clássico,

pois

apresenta um

passado sob a formulação de questões múltiplas e que nos solicitam até os dias de hoje, ainda que na atualidade a homossexualidade se apresente mais domesticada e ordenada com uma “boa aparência.

Essa última caracteristica leva a dedução de que o sexo e o desejo podem ser relegados a um segundo plano.

É um texto audacioso e mordaz que foi escrito por um

jovem

de

24

anos.

Nele

Guy

toma

a alteridade

constitutivada homossexualidade como arma:

“O QUE CAUSA O PROBLEMA NÃO É O DESEJO

HOMOSSEXUAL. É O MEDO DA

HOMOSSEXUALIDADE”.

Nesse ponto, Guy produz uma reversão: o “outro” não sou eu. São vocês que são paranóicos e neuróticos.

A homossexualidade em 1970 era tratada como

enfermidade, como palavra.

discapacidade,

culpabilizada

e

proibida

No

pensamento

brasileiro

cabe

destacar as

nominações elípticas e desumanizadoras: veado, bicha,

galinha, touro.

O desejo homossexual não necessita de uma busca de suas causas como se fosse um desvio ou um bloqueio. É o desejo homossexual que não é, em sua imensidão, em sua polivalência, imobilizável sob um único objeto.

O objeto não basta para definir o desejo.

O centro da questão não é o desejo homossexual. É o desejo pelo qual a homossexualidade é menos a eleição de uma qualificação particular que aponta à porta de saída para além das limitações nas quais se encerra por conta da coação, daqueles estreitos desfiladeiros que se enfrenta desde a infância. Não se tratando de reconstruir a psicanálise, mas de conferir à criança um desejo plenamente formado, legítimo e com direito ao seu

exercício.

I O desejo homossexual é tão natural quanto o desejo

heterossexual. A questão

é

que

isso

rompe

a

obsessão

classificatória, quando o desejo transborda a classificação.

II Paradoxalmente, a psicanálise é vista como a grande defensora da reserva do desejo normal à heterossexualidade. Ela aqui é tida não apenas como um dispositivo que descreve a estrutura psiquica, mas também como o que constrói essa estrutura com base em normas de gênero convertidas em leis.

III A homossexualidade é valorosa, deste ponto de vista, justamente por não reconduzir ou reproduzir os papéis que a sociedade hetero inventou e que só existem para ela.

Neste trabalho a autora esboça uma reflexão sobre o “armário” como um dispositivo de regulação da vida de gays e lésbicas que concerne, também, aos heterossexuais e seus privilégios de visibilidade e hegemonia de valores. Dessa perspectiva, Sedgwick nos lembra que “o armário”, ou o “segredo aberto”, marcou a vida gay/lésbica no último século e não deixou de fazê-lo mesmo após o marco de Stonewall em 1969. Argumentando ainda que esse regime, com suas regras contraditórias e limitantes sobre privacidade e revelações, público e privado, conhecimento e ignorância, serviu para dar

forma ao modo como muitas questões de valores e epistemologia foram

concebidas e abordadas na moderna sociedade ocidental como um todo.

Eve Sedgwick

A epistemologia do armário

Poeta e crítica literária, Distinguished Professor do Centro de Estudos PósGraduados da City University of New York (CUNY). beishung@aol.com

MATRIZ HETERONORMATIVA: COERÊNCIA BASEADA NA TRIADE:

Desejo

Sexo

MATRIZ HETERONORMATIVA : COERÊNCIA BASEADA NA TRIADE: Desejo Sexo Gênero Judith Butler Problemas de Gênero /

Gênero

Judith Butler

Problemas de Gênero / Desfazer o gênero

Originalmente,

a

Teoria

Queer

não

pretende a

classificação. Tampouco, Butler está preocupada em resolver os

problemas que levanta em suas análises, uma vez que, do modo

como vê a dilética, esse é um processo aberto.

 

Apresentar

verdades

é

modo

como

se

veiculam

os

pressupostos ideológicos que oprimem determinados grupos

sociais.

Seu projeto consistem em deixar os termos à mostra, em contextualizar e analisar suas pretensões à verdade, sujeitando- os assim a interpretação e a contestação. Daí as perguntas que não são respondidas linearmente.

Influências e ideias:

“A MULHER” COMO PROCESSO.

UM

TERMO

EM

Simone de Beauvoir: O segundo sexo. Monique Wittig: “A mente hetero”

Gayle Rubin. “O tráfico de mulheres: notas sobre a economia política do sexo.

G.W. F. Hegel Fenomenologia do Espírito. A moral do Senhor e do Escravo.

Friedrich Nietzsche. A genealogia da moral.

GENEALOGIA E SUBJETIVAÇÃO

Michel Foucault. A história da sexualidade e Vigiar e Punir

INTERPELAÇÃO

Louis Althusser. A ideologia e os aparelhos ideológicos do estado.

PERFORMATIVIDADE E CITACIONALIDADE Jacques Derrida. Assinatura, acontecimento e contexto. J. L. Austin. Como fazer coisas com as palavras.

Gênero

É o efeito de atos discursivamente constituídos e que tem como base a construção de um sujeito com base na exclusão d@s outr@sda matriz heteronormativa de identidade. Esse é o resultado de uma oposição complementada pelo poderfoucaultiano. De modo mais simplificado, conceitos tais como sexualidade”, “loucura”, criminalidadesão construtos discursivos que deveriam ser analisados no âmbito do contexto ou da

mudança histórica específica em que ocorreram.

Quem se constitui como sujeito?

O que conta como uma vida?

O que acontece se nossas identidades não são bem-sucedidas”?

Os fracassos podem proporcionar oportunidades para reconstruções subversivas da identidade?

Como podemos identificar o que é subversivo e o que simplesmente consolida o poder?

Butler acredita que é possível fazer coisas com palavras”, ela coloca em ação a desconstrução de que trata. Ela desafia a si mesma e a nós.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Salih, Sara. Judith Butler e a Teoria Queer. Traduções e notas: Guacira Lopes Louro. Belo Horizonte. Autêntica Editora, 2012.

Richard Miskolci e Larissa Pelúcio. www.ufscar.br/cis

Jorge Leite Jr.

Guacira Lopes Louro