TODOS OS FOGOS – O FOGO

Júlio Cortázar

3° Ano Ensino Médio Literatura

Profª Josiany Sotolani

Biografia...

Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu por acaso em Bruxelas, no ano de 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina. Com a separação de seus pais, o escritor foi criado pela mãe, uma tia e uma avó. Adquiriu o título de professor normal em Letras e iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras - tendo que abandoná-la em seguida, por problemas financeiros. Para poder viver, deu aulas em diversos colégios do interior do país. Por não concordar com a ditadura vigente na Argentina, mudou-se para Paris em 1951.

Além de escrever ficção.  Entre seus temas dominantes. o escritor cria novas formas narrativas. Segundo a crítica. propondo ao leitor um exercício de construção de significados. . documenta as transformações sociais latino-americanas. Além disso. visíveis na deterioração dos costumes e das tradições locais. estão o monstruoso. Em O Jogo da Amarelinha. o bestial e o insólito. Cortázar exprimiu sua poética autoral em ensaios reunidos em tradução brasileira com o título de Valise de Cronópio (1997). sua obra é impregnada de sugestões e traços poéticos que se aproximam da fantasmagoria.

"Rayuela" (1963). "Todos los fuegos el fuego" (1966).póstumo (1984). podemos citar entre suas obras mais reconhecidas "Bestiário" (1951). "Pameos y Meopas" (1971). de leucemia.  . "Queremos tanto a Glenda (1980) e "Salvo el crepúsculo" . O escritor morreu em Paris. em 1984. "Ultimo round" (1969). "Las armas secretas" (1959). Autor de contos considerados como os mais perfeitos no gênero. "Octaedro" (1974).

e. toma já o nome de nouvelle. na França.. o conto parte da noção de limite... de limite físico. quando um conto ultrapassa vinte páginas..  Quase todos os contos que escrevi pertencem ao gênero chamado fantástico por falta de nome melhor. e se opõem a esse falso realismo que consiste em crer que todas as coisas podem ser descritas e explicadas.  ..O conto para Cortázar.. . em primeiro lugar.. de tal modo que..

 Um conto é ruim quando é escrito sem essa tensão que se deve manifestar desde as primeiras palavras ou desde as primeiras cenas. Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta.a ideia de significação não pode ter sentido se não a relacionarmos com as de intensidade e de tensão. mas ao tratamento literário desse tema.. . . que já não se referem apenas ao tema..

. mas o aproxima dele mesmo. com seus desejos e fantasias que ele alimenta poderem ser reais.Todos os Fogos – O Fogo Em Todos os fogos o fogo a união do real com a fantasia não distancia o leitor daquilo que ele mesmo vê em seu dia-a-dia.

. que tornam atraentes roteiros inicialmente apenas passáveis. tais como as intercalações de vozes em duas das narrativas. Ao longo dos contos. e desta forma bem amarrada tira força para decolar em vôos estéticos interessantes. Cortázar mostra correção exemplar. escreve de forma segura.

Vemos. ocorreu? Qual é exatamente o perfil da situação? O que é real? O que foi imaginado? Analisando o corpo da narrativa. a influência que a imaginação humana pode exercer sobre o andamento e a consumação dos fatos. deixando todos. de fato. onde todos os sentidos se misturam e se fundem. . resvalando frequentemente para o absurdo. leitor e personagens..Características literárias do livro. mantendo a leitura num estado completamente instigante à inteligência. fábrica de sua poesia. à mercê de uma orquestração sinestésica e delirante.  Planta uma dúvida na cabeça do leitor. que sempre se pergunta e se repergunta: o que. assim. percebemo-nos diante de uma dificuldade muito grande para distinguir o que é o próprio fato concreto e o que é apenas o campo das hipóteses imaginadas pelos personagens que tentam compreender tais fatos – o que pode inclusive imprimir à ordem natural das coisas um desenvolvimento bastante inesperado..

. de ascese que leva a todos penetrar em continentes insuspeitados. De certo modo.em estado permanente de dúvida com relação ao porvir. sendo um futuro estado de coisas ora temido. de transe. O motor da narrativa e da leitura estão baseados na possibilidade de descortinar um perfil mais claro do que está acontecendo à medida que um futuro estado de coisas vai se confirmando ou se frustrando. perderam completamente o controle. ao que está para acontecer. sobre a qual. e que coloca os personagens em situações que deveriam ter sido previstas desde sempre mas que. que dão a dimensão da grandiosidade humana. ora desejado e ora jamais vislumbrado – sendo propriamente esta ignorância uma espécie de trampolim. tamanhos os imprevistos que foram se sucedendo e que não haviam sido calculados. as narrativas colocam – personagens e leitor .

tendo que assumir uma entre duas posições na vida: ou levar uma vida pacata e comum ou transcendê-la. No entanto. por vezes. É curioso notar o estado “de divisão” em que alguns personagens se encontram. muito embora não se saiba e não se defina claramente a natureza desta transcendência. deixa a entender que esta transcendência só se tornaria possível se o indivíduo assumisse o compromisso por uma vida mais integral. mais humana. fazendo frente ao enorme caos social vigente em cada época. .

        A AUTO ESTRADA DO SUL A SAÚDE DOS DOENTES REUNIÃO SENHORITA CORA A ILHA AO MEIO-DIA INSTRUÇÕES A JOHN HOWELL TODOS OS FOGOS O FOGO O OUTRO CÉU .Contos...

ANÁLISE DO CONTO AUTOESTRADA DO SUL .

Autoestrada do Sul. os motoristas dos veículos são obrigados a se organizar como um grupo para conseguir comida. agasalhos.. Durante esse período.. água. . meses. Ao final. cuidar dos doentes e até mesmo decidir o que fazer com os mortos. motoristas que tentavam chegar a Paris pela Autoestrada do Sul são surpreendidos por um grande engarrafamento. o engarrafamento se desfaz como se fez: sem maiores explicações. dias.  Em um domingo à tarde. Ninguém sabe a causa do incrível congestionamento que dura horas.

. quando tudo se encaminha para um final fantástico. A auto-estrada do sul” começa com ares típicos de Cortázar. vemos que a situação servia como símbolo de algo mais profundo. e muito mais humano. com uma situação inusitada que se transforma em desconforto e tensão. Mas.

.Análise.. as únicas referências tornam-se o calor. o frio e umas árvores à direita que nunca ficam para trás.  O tempo do congestionamento. passa a ser contado em dias pelo narrador e personagens. . inicialmente contado pela moça do Dauphine em minutos e horas. Depois.

preocupados muito mais com a subsistência do que com as causas do incrível acontecimento. cobertores. . Por conta disso. os grupos de engarrafados se organizam em uma espécie de comunidade. os motoristas são obrigados a travar contato para trocar água. O tempo se põe a passar de forma quase estática: todos permanecem parados. comida. Ainda assim. repartindo os alimentos e cuidando dos doentes. cuidar dos doentes e entreter as crianças. Aos poucos. continuam a ser chamados pelo nome de seus veículos.

. Uma leitura conectada ao meio social vê nessa organização uma maneira de defender-se de uma situação hostil e um modo de aproximação entre as pessoas. Esse “exagero” está presente também no fato dos personagens se sentirem diante de uma catástrofe e continuarem obedecendo a uma “máquina abstrata”. O efeito fantástico evidencia-se aqui pelo caráter hiperbólico da duração do engarrafamento.

esse comentário provoca uma “suspensão”no fluxo dos acontecimentos. .. “exasperación” “indiferencia”.. As atitudes mesquinhas são enfrentadas pelos seres humanos tanto nos micro quanto nos macro-espaços. “cansancio”.    Toda a situação é contada por um narrador em terceira pessoa que demonstra uma certa ironia ao relatar alguns fatos. ]”. Mesmo diante da gravidade da situação. A lado de termos como “columna”. considerados normalmente de maior gravidade. o leitor se depara com situações em que “el grupo de más adelante estaba en franco tren de hostilidad com el de Taunus por una historia de un tubo de leche condensada [.

depois de um tempo indefinido. de agora em diante. o tráfico de mantimentos realizado por um Ford Mercury e um Porsche. a sucessão do calor pelo frio e novamente pelo calor. Sem explicação. . a gravidez da moça. A vida vai entrando em outra lógica. O engenheiro fica atordoado com a nova ordem que se impõe. na Autoestrada do Sul. o romance entre o engenheiro do Peugeot 404 e a moça do Dauphine. a morte da velha do ID. suas vidas fossem se dar ali. o trânsito volta a andar e o grupo se desfaz. Com naturalidade. É como se fosse dado que. acatam o suicídio do homem pálido do Caravelle. aceita tacitamente pelo narrador e por todos os personagens.

quando finalmente se livra do congestionamento. . separadas.Interpretação  Temos duas questões a responder. sente falta da vida na Autoestrada do Sul?) e uma questão de forma literária (Por que o narrador. sempre artificialmente. mantém dos acontecimentos uma visão tão parcial quanto seus personagens?). entre uma questão sobre o conteúdo da narrativa (Por que o engenheiro do Peugeot 404. apesar de ser em terceira pessoa.

adaptar-se mecanicamente à velocidade dos automóveis em redor. a vida. seria Dauphine subindo sigilosamente em seu automóvel. depois viria a noite. O engenheiro do Peugeot 404 parece realmente ter se apegado a suas novas circunstâncias de vida na Autoestrada do Sul: Nada mais se podia fazer a não ser entregar-se à marcha.) Absurdamente. não pensar. teria que visitar os doentes.. examinar a situação com o Taunus e o camponês do Ariane. . aferrou-se à ideia de que às nove e meia seriam distribuídos os alimentos.. as estrelas ou as nuvens. (.

se corria a oitenta quilômetros por hora em direção às luzes que cresciam pouco a pouco. onde todos olhavam fixamente para a frente.. sem que já se soubesse bem para que tanta pressa.) . (. não era possível que isso tivesse acabado para sempre.. Sim.. por que essa correria na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada sobre os outros. .. exclusivamente para a frente.

e todos correm alucinadamente atrás de algo que não se sabe o que é. os personagens do conto regressam a uma ordem na qual. Uma ordem tão absurda ou mais do que a precária comunidade sem tempo e sem pressa que se estabelecera na Autoestrada do Sul. . já não se olha para quem está ao lado. não se sabe nada das pessoas. diferentemente da vida na Autoestrada. O regresso ao movimento na estrada não significava para ele apenas o retorno ao lar. Marchando em alta velocidade e olhando exclusivamente para frente.

estritamente vinculado ao olhar dos personagens. nem o narrador. reverbera ignorância à maneira kafkiana: nem o engenheiro do Peugeot 404. . onde subitamente e sem maiores explicações uma ordem de funcionamento das coisas é substituída por outra. aceita tacitamente como a ordem do real. Vimos na análise do conto que não cabe indagar pelas razões do incrível congestionamento. muitas outras ordens seriam possíveis. Julio Cortázar lança o leitor no terreno da narrativa fantástica. Dessa forma. Cortázar nos lembra que a ordem "natural" do funcionamento da vida e da sociedade é apenas uma ordem entre outras e. O ponto de vista narrativo. sendo assim. nem muito menos o leitor conhecem ou conhecerão as causas do fantástico acontecimento.

tal como existe. é mais produto de uma circunstância do que de uma fatalidade. quiçá melhores e mais justos. o que nos lembra sempre de que outros mundos. A narrativa fantástica aponta para o horizonte da utopia: o mundo. . podem vir a substituir esse que conhecemos.

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