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Direito da Família

Noção jurídica de família,


relações familiares e
parafamiliares
RELAÇÕES JURÍDICAS FAMILIARES

I. Casamento
II. Parentesco
III. Afinidade
IV. Adopção
Artigo 1576.º CC
I. CASAMENTO
Artigo 1577.º
Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que
pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das
disposições deste Código.

• Contrato celebrado perante entidade com competência funcional para o acto, salvo
casamento urgente (1628.º, n.º 1, a))

• Registo civil obrigatório (1651.º, n.º 1)

• Obrigação de plena comunhão de vida (deveres pessoais recíprocos – 1672.º - e


regime específico em matéria de bens e dívidas – 1678.º e ss.)
II. PARENTESCO
Artigo 1578.º
Parentesco é o vínculo que une duas pessoas, em consequência de
• uma delas descender da outra – linha recta ou directa
ou
• de ambas procederem de um progenitor comum – linha transversal ou
colateral

Linha recta ou colateral – 1580.º, n.º 1


Linha recta (1580.º, n.º 2):
• Ascendente
• Descendente
Contagem dos graus – art. 1581.º
• Linha recta – tantos graus quantas as pessoas que formam a linha do
parentesco, excluindo o progenitor
• Linha colateral – contagem pela mesma forma, subindo por um dos
ramos e descendo por outro, sem contar o progenitor comum

• Linha materna
• Linha paterna

 Parentesco na linha materna e paterna - parentesco bilateral


(parentesco no 2.º grau da linha colateral – irmãos germanos)
 Parentesco unilateral no 2.º grau da linha colateral:
 na linha paterna – irmãos consanguíneos
 na linha materna – irmãos uterinos
Gonçalo Ana + Francisco Inês

Beatriz Cláudia
Joana
Natacha

Hugo

David Eduardo

A e B; A e C = parentes no 1.º grau da linha recta (pais/filhos)


B e C = parentes no 2.º grau da linha colateral (irmãos)
C e D; B e E = parentes no 3.º grau da linha colateral (tios/sobrinhos)
A e D; A e E = parentes no 2.º grau da linha recta (avós/netos)
D e E = parentes no 4.º grau da linha colateral (primos direitos)

B e C = parentes no 2.º grau da linha colateral materna e paterna (irmãos germanos ou bilaterais)
H = parente de B e C no 2.º grau da linha colateral materna (irmãos uterinos)
J = parente de B e C no 2.º grau da linha colateral paterna (irmãos consanguíneos)

(ex.: art. 2146.º)


- Art. 1576.º: fonte do parentesco = procriação

- Requisito: filiação legalmente estabelecida (1797.º, n.º 1) – eficácia


retroactiva

- Registo civil obrigatório (1.º, n.º 1 CRC)

- Efeitos: limites – artigo 1582.º (6.º grau da linha colateral)

- Variação dos efeitos em função da linha e do grau de parentesco


Exs:
• efeitos sucessórios – art. 2133.º;
• obrigação de alimentos – 2009.º/ 1 e 3;
• limitações à capacidade jurídica, por exemplo para contrair casamento – 1602.º/a) e b);
1604.º/ c) + 1609.º/1/a))
III. AFINIDADE
Artigo 1584.º
Afinidade é o vínculo que liga cada um dos cônjuges aos parentes do outro.

- Relação familiar com os parentes (não com os afins)


- Fonte: casamento
- Artigo 1585.º, 2.ª parte – não cessa com a cessação do casamento (por morte / por
divórcio (?) – ex.: 1602.º, c))
- Contagem: artigo 1585.º, 1.ª parte
- Efeitos menos extensos que no parentesco:
• não tem efeitos sucessórios;
• obrigação de alimentos (2009.º, n.º 1, f))
• impedimentos dirimentes ao casamento (1602.º, c))
IV. ADOPÇÃO
Artigo 1586.º
Adopção é o vínculo que, à semelhança da filiação natural, mas
independentemente dos laços de sangue, se estabelece
legalmente entre duas pessoas...

- Constituição por sentença judicial (processo próprio) – 1973.º/1


- Requisitos gerais: 1974.º
• fim: realizar o superior interesse da criança
• estabelecimento de vínculo semelhante ao da filiação
• existência de uma relação parafamiliar durante determinado
prazo
Efeito = atribuição ao adoptante do poder paternal sobre o
adoptado (1997.º)

Efeitos:
Espécies de adopção (1977.º):
plena – 1986.º, n.º 1 (imitação da filiação natural)
restrita –1993.º/1, 1994.º

Necessidade de registo – art. 1.º, n.º 1, c) CRC


Extinção – por via judicial (1989.º a 1991.º, 1993.º/1, 2000.º-B a
2000.º-D)
Possibilidade de relações jurídicas familiares inominadas?

Busca de elemento comum às relações nominadas:


presença de acto estatal ou equivalente para aquisição e perda da
qualidade familiar? (restrição da autonomia das partes; nexo orgânico
do indivíduo ao grupo)

Art. 1839.º, n.º 3: filiação por consentimento não adoptivo - relação


jurídica familiar inominada?
 Presunção de paternidade – 1826.º/1
 Inseminação artificial (cônjuge ou terceiro, sem distinção) – não
é vínculo de adopção e pode não ser vínculo de parentesco
 Modalidade autónoma de filiação?
RELAÇÕES JURÍDICAS PARAFAMILIARES

I. União de facto
II. Vida em economia comum
III. Tutela
IV. Esposados
V. Ex-cônjuges
VI. Pessoa a cargo de outra
VII. Pessoa criada ou sustentada por outra
I. União de facto

- Comunhão de leito, mesa e habitação, como se fossem casadas, não o


sendo (aparência de casamento).
(concubinato duradouro – comunhão de leito)
- exclusividade
- entre pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo
- há mais de 2 anos
- requisito: não existência dos impedimentos do art. 2.º
II. Vida em economia comum

Art. 2.º, n.º 1: Economia comum – situação de pessoas que vivam em


comunhão de mesa e habitação há mais de dois anos e tenham
estabelecido uma vivência em comum de entreajuda ou partilha
de recursos

- Não verificação dos impedimentos do art. 3.º


- Coabitação em união de facto não impede a aplicação da Lei n.º
6/2001 (relevância social – ex.: homossexuais)
- Direitos – art. 4.º
- Direito quanto à casa de morada comum – art. 5.º
III. Tutela

- Pode ser relação familiar ou apenas parafamiliar – 1931.º, n.º 1


- Mesmos direitos e obrigações dos pais – 1935.º, n.º 1

IV. Esposados

Regulação da relação de pessoas que estão para casar:


 Promessa de casamento – 1591.º a 1595.º
 Doações entre esposados – 1753.º a 1760
V. Ex-cônjuges

Relevância jurídica:
• 1677.º-B (apelidos do ex-cônjuge)
• 2016.º (prestação de alimentos)

VI. Pessoa a cargo de outra

Ex.:
Adoptante/adoptado antes do estabelecimento do vínculo –
1974.º/2; 1981.º/1/d)
SOCIOLOGIA DA FAMÍLIA

Família – realidade social correspondente à “pequena família”,


“família nuclear”, normalmente “família conjugal”

Muitas vezes, família “incompleta” (ex.: mãe solteira e filho)


Funções essenciais: relações afectivas entre os cônjuges e socialização dos filhos

Evolução:
- até séc. XIX – “casamento-aliança”
- séc XIX – nova cultura de família – casamento romântico; estatuto desigual entre
géneros
- séc. XX, anos 70 – democratização da família; igualdade entre os cônjuges
importância do desenvolvimento pessoal dos membros da instituição; perda do valor do
Estado e da Igreja como instâncias legitimadoras da comunhão de vida ; “relação pura”
(base: compromisso permanente e gratificação renovada); diminuição da importância
dos deveres pessoais; crise da família – anos 70
Evolução para:

- estabelecimento livre de relações contratuais entre cônjuges ?;


- regulamentação minimalista do divórcio – era do divórcio sem culpa, mas por
mera constatação de ruptura do matrimónio ?
Evolução para:

- estabelecimento livre de relações contratuais entre cônjuges ?;


- Regulamentação minimalista do divórcio – era do divórcio sem culpa, mas por
mera constatação de ruptura do matrimónio ?
CASAMENTOS
Número
Variação
Regiões 2003 2004 2005
%
Portugal 53 735 49 178 48 671 - 1,0
Norte 20 828 19 161 18 680 - 2,5
Centro 11 556 10 847 10 551 - 2,7
Lisboa 13 100 11 730 11 863 1,1
Alentejo 3 343 2 887 3 052 5,7
Algarve 1 809 1 592 1 645 3,3
Açores 1 541 1 494 1 499 0,3
Madeira 1 558 1 467 1 381 - 5,9

- NUTS II (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve) com as novas delimitações aprovadas no Decreto-
Lei n.º 244/2002, de 5 de Novembro
Casamentos
Casamentos
católicos
católicos==55%
55% Número
casamentos
casamentos Variação
Forma de celebração 2003 2004
(2005) 2005
(2005) %
Civil 21 697 21 084 21 862 3,7
Católica 32 038 28 094 26 809 - 4,6
Fonte: www.ine.pt
ESTUDOS SOCIOGRÁFICOS SOBRE AS FAMÍLIAS
-Núcleos familiares monoparentais
- dados de 2001
- caracterização: conjunto de pessoas entre as quais existe um dos
seguintes tipos de relação – pai ou mãe com filho(s)
- elevada proporção de núcleos monoparentais em famílias de um só
núcleo (nomeadamente mães com filhos)
- estado civil mais comum entre pais e mães nos núcleos monoparentais =
viúvo(a); elevada percentagem também de divorciados(as)
- núcleos monoparentais com filhos dependentes – elevada proporção de
mães com filhos, sobretudo mães com idades compreendidas entre 35/49
anos de idade, divorciadas ou separadas e que se encontravam empregadas
ESTUDOS SOCIOGRÁFICOS SOBRE AS FAMÍLIAS
- Famílias reconstituídas
- estudo de 2001 (outros países: estudos anos 80))– relação com a quebra
da nupcialidade, elevado n.º de divórcios, aumento significativo das
uniões de facto – alterações profundas na estrutura das famílias
-Famílias reconstituídas pela via do “direito” (casamento) ou “de facto”
(coabitação não formalizada) – condição: existência pelo menos de um
filho de um dos cônjuges
- núcleos familiares com pouca expressão relativa (1,5% do total dos
núcleos familiares; 2,7% dos núcleos familiares com filhos) – significado
em valores absolutos: 46 8000 núcleos (2001)
- distribuição segundo situação conjugal do casal: 56% uniões de facto
- predomínio da situação mista de filhos não comuns com filhos comuns
do casal
- opção predominante nos casos de casamento: casamento civil
- Grande parte das mulheres são solteiras ou divorciadas; os homens
são predominantemente divorciados
DIVÓRCIOS
Número
Variação
Regiões 2002 2003 2004
%
Total 27 960 22 818 23 348 2,3
Portugal 27 708 22 617 23 161 2,4
Norte 8 180 6 909 7 170 3,8
Centro 5 639 4 754 4 850 2,0
Lisboa 9 517 7 352 7 531 2,4
Alentejo 1 753 1 398 1 420 1,6
Algarve 1 250 1 043 961 - 7,9
Açores 657 551 626 13,6
Madeira 712 610 603 - 1,1
Residência no estrangeiro 252 201 187 - 7,0

- NUTS II (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve) com as novas delimitações aprovadas no Decreto-
Lei n.º 244/2002, de 5 de Novembro

Número
Forma de celebração Variação
2002 2003 2004
do casamento dissolvido %
Civil 11 456 8 909 9 226 3,6
Div.
Div.mútuo
mútuo
Católica 16 504 13 909 14 122 1,5 consentimento
consentimento
(2004)
(2004)==93%
93%dos
dos
Número divórcios
divórcios
Variação
Modalidade 2002 2003 2004
%
Por mútuo consentimento 25 418 20 788 21 642 4,1
Litigioso 2 512 2 002 1 673 - 16,4
Conversão de separação para
30 28 33 17,9
divórcio
Fonte: www.ine.pt
Obrigação de alimentos
Artigo 2003.º, n.º 1 e 2
Por alimentos entende-se tudo o que é indispensável ao sustento,
habitação e vestuário.
Compreendem também a instrução e educação do alimentando no
caso de este ser menor.

- Verificabilidade em todas as relações familiares do art. 1596.º


• Obrigados – 2009.º
(adopção plena – 1986.º, adopção restrita – 2000.º)
- Verificabilidade em relações parafamiliares:
• União de facto – 2020.º
• Tutor – 1935.º, n.º 1
- Não constitui relação jurídica familiar nem parafamiliar– a fonte pode
ser um contrato - cfr. 2014.º

- Caracterização como “relação acessoriamente familiar” – relação


creditícia muitas vezes afecta funcionalmente a relação familiar

- Pluralidade de vinculados a prestar alimentos – 2010.º/1

- Medida dos alimentos – 2004.º/1 e 2 – necessidade do alimentado


vs. possibilidade do alimentando
- Durante a relação conjugal – inexistência de autonomia – dever de
assistência (1675.º/1 – obrigação recíproca de contribuir para os
encargos da vida familiar)
• Prestação de alimentos – 2005.º:
modo de prestar: prestações pecuniárias mensais

• Dívida de alimentos – 2006.º

• Direito a alimentos – indisponibilidade, impenhorabilidade e


insusceptível de extinção

• Causas de cessação da obrigação de alimentos: 2013.º


+
obrigações alimentícias relacionadas com o casamento (divórcio,
viuvez, separação de pessoas e bens) e união de facto
2019.º e 2020.º/3