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O Peixe Vivo na Amazônia: um mundo-açu

nas canções da banda Cravo Carbono

Keila Michelle Silva Monteiro


Orientadora: Profª Drª Bene Martins
Na passagem dos anos 90 para 2000, a banda Cravo Carbono se destacava na cena
musical (de rock) no Pará que começava a ter bandas dispostas a mesclar vários
gêneros musicais e encontrava um público mais aberto a essas experimentações.
Movimento I – O Mundo-Açu
“questões básicas estarão voltadas ao mix (...) mistura sonoro-
musical, mais do que à possível originalidade de partes
distintas desse mix, emancipando a discussão contemporânea
sobre música de idéias de hibridismo, aculturação etc.”
(Tiago de Oliveira Pinto )

“Na mestiçagem, as culturas rurais, urbanas, raciais, locais (...)


e transnacional interagem. E o fato de que a cultura massiva,
seja aquela originária da América Latina como a de outros
continentes, faça parte desse conjunto não contribui para que
essa mestiçagem se descaracterize ou seja “menos latino-
americana”, pois é o próprio mix que é único”
(Ana Carolina D. Escosteguy sobre Martín-Barbero)
Stuart Hall => Pluralização de identidades

“Nheengatu é uma língua geral que a gente


Amazonas falava no Brasil (...) Os portugueses chegaram
e não conseguiram impor a língua
Seguras ao pêlo
portuguesa, passaram séculos falando uma
Rios língua que era indígena (...) Então isso foi (...)
Negros um choque cultural e a gente precisa
entender isso, porque dá impressão que nós
Fios (...) queremos ser europeus e queremos ser
De cabelos americanos e temos uma tradição grande de
um povo indígena que fez parte da nossa
Nheengatu formação e influencia no que a gente come
Nem eu (...) no que a gente faz e a gente nega isso (...)
Nem eu nem você falamos nheengatu, mas
Nem tu ainda tentamos ser brasileiros”
(...) (Lázaro Magalhães)
Néstor García Canclini => Processo de Hibridação

Música Urbana no Brasil:


• Bossa Nova – fim da década de 50
• MPB - a partir de 1964 passou a representar o encontro entre
várias culturas diferentes

“Eu acho que é uma condição das pessoas que moram em Belém, é uma
condição que foi colocada pelo meu viver, pela minha passagem por
várias cidades que, condicionalmente isso acabou me obrigando a ter
esse tipo de visão, mas, absolutamente acho que não é proposital, acho
que é uma coisa que aconteceu. Belém, pelo contexto geográfico que ela
tem, cultural...e no meu caso, como letrista, pelo contexto histórico que
eu tinha de ter passado por várias cidades e ter olhado Belém sob um
aspecto diferente”
(Lázaro Magalhães)
MPB => Tropicália => Modernismo

“os corifeus da poesia “Eu acho que tem a ver com a


concreta, antes tão eruditos, Tropicália que se espelha no
escrevendo capas para disco movimento antropofágico. Eu
de Caetano e esse compondo acho que se você pega Caetano,
canções como Batmacumba, Alceu Valença, todo esse
cuja letra (...) é, movimento do tropicalismo que
rigorosamente, um poema tenta descobrir o que é o Brasil,
concreto” (...) E eu prefiro me espelhar
(Armando Freitas Filho) nesse caos, nessa dúvida, do que
em alguma certeza, acho que
essa é a grande sacada!”
(Lázaro Magalhães)
* Rock (anos 80) – Legião Urbana

* Manguebeat (anos 90) – Elementos “regionais” e universais


Movimento II – O Peixe é Lá e Cá

ETNOMUSICOLOGIA
Contexto sócio-cultural: multiculturalismo

Ser humano que faz música: Cravo carbono

Criação musical: Peixe Vivo


A banda Cravo Carbono

• Surgiu entre 1996 e 1997

• Bairro da Cidade Velha em Belém-PA

• Cravo e carbono - combinação exótica e sonora de dois nomes,


que segundo os integrantes da banda, soa como uma espécie
de “ciência da mercearia”

• Música como uma experimentação - “laboratório musical”

• Instrumental de rock básico: guitarra, baixo e bateria


• Lázaro Magalhães – Belém-PA – voz e letras
Percorreu várias cidades do Brasil;
Admirava a cena musical peculiar em Belém.
• Pio Lobato – Belém-PA – guitarra
Brasília: “Tu não tens uma identidade certa!”
Barcarena-PA
Observou o mercado cultural em Belém.
• Bruno Rabelo – Ourinhos-SP – contrabaixo
Música caipira
Rock anos 80
Bossa Nova, lambada, carimbó, choro
• Vovô – Porto Velho-RO – bateria
Chegou a Belém ainda criança
“Bandas de baile”
“carimbó estilizado”
O álbum Peixe Vivo

http://musicaparaense.blogspot.com/search/label/Cravo%20Carbono
Processo de criação da banda

“Cravo Carbono são quatro pessoas que têm várias influências e a gente
sabe das limitações e, assim, até onde a gente pode ir com o outro, é isso
que a gente fica testando o tempo todo, sabe, até onde a gente pode
chegar, porque a gente não sabe; e dessa confusão, né, uma fusão-
confusão assim, vai consolidando uma coisa que ninguém sabe o que é”
(Pio Lobato)

Revela-se espontâneo, muitas vezes intuitivo, sem a intenção


consciente de criar algo diferente para o mercado ou de fazer
parte de um processo de hibridação mesmo que já estivessem
fazendo, embora os integrantes soubessem do valor dessa
experimentação para a cultura não só “local”, mas “global”.
Movimento III – Navegando entre Canções
Ver o peso
• A canção fala do meio urbano de
Belém. A guitarra introduz com
‘palhetadas’ em 2/4, do boi-
bumbá, num ‘crescendo’; depois,
o baixo percussivo, sem tom
definido, imitando onça, une-se
à caixa da bateria, a qual inicia a
acentuação do final do
compasso. A guitarra se une a
estes dois, com efeito de
distorção, o que resulta num
contraste entre a ‘palhetada’
inicial e o ‘peso’ da entrada
destes instrumentos. O bumbo
imita tambor de couro. Depois o
compasso muda para 7/8.
Andarilho

• O texto revela liberdade


métrica nos versos, entre
outros artifícios do
Modernismo. A guitarra
criou um riff na introdução
que representa passos. Os
arranjos misturam bolero,
bossa-nova e o grunge
norte-americano. O bolero
feito pela bateria une-se ao
assovio melancólico do
vocalista.; a influência da
bossa-nova aparece em sua
harmonia associada ao
grunge.
São Cristóvão

• Modernidade, urbanidade,
trânsito são temas da canção.
A música ganha velocidade. O
arranjo mescla rock, frevo e
“carimbó estilizado”.

“será que a gente pode


construir um novo trânsito,
uma nova sociedade que não
precise tanto da velocidade,
não precise tanto da violência
e que possa ser mais legal,
mais equilibrada?”
(Lázaro Magalhães)
Inferências embaixo d’água
• A banda combinou elementos que geraram um novo produto
musical, com influências de modo de vida urbano individual e
coletivo dos integrantes;
• O álbum Peixe Vivo apresenta urbanidade, velocidade,
mistura de vários traços literários e gêneros musicais que
chegam a Belém do Pará caracterizando a cultura híbrida
contemporânea.
• As composições da banda absorvem a pluralização de
identidades e são exemplo de hibridação cultural, visto que
são produto de seres humanos que vivem em constante
processo de hibridação e que são possuidores de vários traços
identitários
• É importante considerar a contribuição da banda Cravo
Carbono para a cultura em geral, principalmente por consistir
num terreno fértil para pesquisadores de várias áreas.