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Aula 01

Relações Étnico-Raciais: Conceitos básicos,


identidade e autoidentificação étnico-racial
Nessa aula

Vamos conversar sobre qual o significado que


atribuímos aos conceitos de raça, etnia, racismo,
identidade.

O que eles significam? Como são utilizados em nossa


sociedade? Será que podemos usá-los em sala de
aula?

Pronto(a)s para começar?


Textos para discussão e reflexão
A identidade cultural na pós-modernidade, DP&A
Editora, 1ª edição em 1992, Rio de Janeiro, 11ª edição
em 2006
Stuart Hall
UMA ABORDAGEM CONCEITUAL DAS NOÇÕES
DE RACA, RACISMO,
IDENTIDADE E ETNIA*

Prof. Dr. Kabengele Munanga (USP)

* www.uff.br/penesb/index.php/publicacoes
Kabengele Munanga
Vídeo
ACEITA?
Videoarte sobre o trabalho do artista plástico Moisés Patrício

Aconselhamento estilístico - Lúcio Mustafá


Direção e edição - Nêio Mustafa
Fotografia - Maria Carvalho
Trilha sonora - Nêio Mustafa
Produção - Nêio Mustafa e Maria Carvalho
Licença padrão do YouTube - https://www.youtube.com/watch?v=X_MBoMiyIJ4
[...] oferecer uma resposta, na área da educação, à
demanda da população afrodescendente, no sentido
de políticas de ações afirmativas, isto é, de políticas de
reparações, e de reconhecimento e valorização de sua
história, cultura e IDENTIDADE. Trata o parecer de
política curricular, fundada em dimensões históricas, e
busca combater o racismo e as discriminações que
atingem particularmente os negros(BRASIL, 2004, p.
18).
As múltiplas identidades
contemporâneas:
A) identidades e sexualidade; identidades e religião;
identidades e política; identidades e etnias.
Identidades sociais de raça/etnia na escola;
B) Sujeito e discurso: “entre” o mesmo e o
diferente; a construção de identidades
discursivas no contexto escolar; a construção da
identidade dos professores em sala de aula;
Imagens do trabalho fotográfico dos holandeses Anuschka
Blommers e Niels Schumm que retrata simultaneamente ambos os
sexos sob titulo Best of Both.
http://www.aiefashion.com/
PROVOCAÇÕES
Já imaginaram como seria fantástico ter a disposição
para ensinarmos alunos e alunas “bonzinhos”,
“disciplinados”, “arrumadinhos” dispostos a ouvir-nos?
Na sua escola todos são tratados igualmente
graça a Deus? Você acha que o Brasil é um país
miscigenado e que aqui também graças a Deus
não há racismo? Você é racista?
Você acha que o próprio negro as
vezes é racista também?
Você acha que
existem mulheres
machistas?
Os índios estão perdendo sua
cultura?
Identidade e diferença
- O conceito de “tolerância” e de “diversidade” não são
suficientes;

- As diferenças tendem a ser essencializadas, naturalizadas e


cristalizadas;

- Discutir o processo de produção das diferenças e suas


implicações políticas;

- Identidade e diferença são uma criação lingüística.

- A identidade e diferença não podem ser compreendidas fora


do sistema de significação nos quais adquirem sentido.
Mas afinal, o que é identidade?
CONCEPÇÕES DE IDENTIDADE
(Stuart Hall)

• Sujeito do Iluminismo

• Sujeito Sociológico

• Sujeito pós-moderno
SUJEITO DO ILUMINISMO
(até final do século XIX)
• A ideia era de que o sujeito nascia e já tinha uma
maneira única e assim se desenvolvia;
• O idêntico era o valorizado e não se permitia o
diferente.
• Trata de um concepção individualista em que o
sujeito já era moldado antes mesmo de nascer.
Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-
Charles Lemonnier, 1812. Museu Nacional do Castelo de Malmaison, Rueil-Malmaison
SUJEITO SOCIOLÓGICO
(Século XX)
• É fruto do mundo moderno;
• Cresce a concepção de que o sujeito é acima
de tudo um ser social;
• “formado na relação com outras pessoas
importantes para ele, que mediavam para o
sujeito os valores, sentidos e símbolos – a
cultura” (p. 11).
• A identidade passa a ser compreendida como
sendo “formada na interação entre o eu e a
sociedade”
Modern Times (Tempos Modernos,) é um filme de Charles Chaplin, 1936
SUJEITO PÓS-MODERNO
(final do século XX e início XXI)
• O sujeito é “modificado num diálogo
contínuo com os mundos culturais exteriores
e as identidades que esses mundos
oferecem”;
• Deixa de ser visto com uma “identidade
unificada e estável” ;
• Passa a ser compreendido com um ser
fragmentado, composto por várias
identidades, algumas vezes “contraditórias
ou não-resolvidas” (p. 12).
A Persistência da Memória, pintura de 1931 de Salvador Dalí. Museu de Arte Moderna
(MoMA) de Nova Iorque.
• [...] o sujeito assume identidades diferentes
em diferentes momentos, identidades que
não são unificadas ao redor de um “eu”
coerente.
• Dentro de nós há identidades contraditórias,
empurrando em diferentes direções, de tal
forma que nossas identificações estão sendo
continuamente deslocadas. (HALL, 2005, p.
13).
• As sociedades modernas são constituídas por
“mudanças constantes, rápida e permanente”;

• “As práticas sociais são constantemente


examinadas e reformadas à luz das informações
recebidas sobre aquelas próprias práticas,
alterando assim, constitutivamente, seu
caráter”. Isso em virtude da interconexão entre
as sociedades de todo o globo. O contato com
diferentes contextos sociais, para Giddens,
alterou “algumas das características mais
íntimas e pessoais de nossa existência
cotidiana”.
• Conforme se desloca, constitui-se a sociedade
moderna que é formada por diferentes
identidades ou “posições de sujeito”.
• identidade passa de uma política de classe para
uma política de diferença.
• Com as transformações associadas à
modernidade, o sujeito se "liberta" de "apoios
estáveis nas tradições e nas estruturas"
• As explicações divinas eram a base que
sustentava para a existência humana, assim,
não se cogitava mudanças individuais do
sujeito;
• o indivíduo é interpelado "através de sua
participação em relações sociais mais amplas",
constituindo e sendo constituído a partir dos
papéis que desempenham nas estruturas
sociais.
QUEM SÃO OS SUJEITOS COM OS QUAIS
ATUAMOS E QUE ESPAÇOS SOCIAIS OCUPAM?

Jovens, meninos, meninas, negros, brancos,


trabalhadores da educação, drogados, doentes,
homossexuais, magros, gordos, marginalizados?

Quais os motivos que os envolvem nos projetos


desenvolvidos?

São sujeitos diversos que trazem consigo marcas


culturais, conhecimentos, histórias de vida permeadas
por diferentes formas de violência, sofrimentos,
vitórias, superações, vontades, desejos, sonhos.
Gênero: de onde veio?

• Gênero foi criado no seio do pensamento


feminista para superar dificuldades do uso da
categoria “mulher”. Mas, compartilha vários
dos pressupostos da luta feminista em prol do
reconhecimento desse sujeito político
mulher/mulheres e da sua “opressão”
específica.
Para que serve?

• Gênero oferece a possibilidade de um outro


olhar sobre a realidade, permitindo ler como
as desigualdades afetam, de modos distintos,
homens e mulheres nas suas relações uns com
os outros: homens-homens; homens-
mulheres; mulheres-mulheres.
• Possibilita analisar como operam as
hierarquias e qual a centralidade que as
outras marcas assumem.
Marcas de diferença: Hierarquias

• Marcas de gênero, classe, raça, orientação


sexual, etc., não são equivalentes. Quando
hierarquizadas, as marcas de gênero tendem a
se fixar no pólo mais “fraco” da balança, por
ser a forma mais antiga e naturalizada de
distinção entre pessoas, coisas e fenômenos.
Na “balança” de gênero, o feminino e, por
consequência, as mulheres, ocupam as
posições mais vulneráveis.
Exemplo de dois extremos numa polarização
homem/mulher:

• Homem branco, adulto, classe média urbana,


escolarizado, com emprego fixo,
heterossexual, casado legalmente, pai,
católico.
• Mulher negra, pobre, adulta, analfabeta,
moradora da periferia da cidade, trabalho
informal não assalariado, mãe-solteira, sem
religião definida.
Combinando marcas (intersecções):
Quem está mais vulnerável?

• uma aluna “branca”, classe média,


declaradamente lésbica e “masculinizada”;
• um aluno “branco”, classe média, percebido
como gay;
• uma “negra”, pobre, percebida como
heterossexual, e mãe solteira;
• uma “índia”, pobre, e da zona rural;
Combinando marcas (intersecções):
Quem está mais vulnerável?

• uma “parda”, classe média baixa, gorda, politicamente


engajada nas religiões “africanas”

• um aluno “pardo”, classe média baixa, gay, evangélico;

• um/a aluno/a travestido/a com identidade sexual


ambígua;

• uma aluna “branca”, pobre, declaradamente “garota de


programa”;

• um aluno “branco”, heterossexual e declaradamente HIV


positivo;
Exemplo de esquemas “universais”:

• Feminino = passividade
• Masculino = atividade
• Decorrendo que:
• Um menino mais “passivo” é percebido como
um menino “feminino”
• Uma menina mais “ativa” é percebida como
uma menina “masculina”
Matriz heterossexual

• Gênero permite analisar como opera a “matriz


heterossexual”, por meio de uma série de
coerências: feminilidade = mulher; masculinidade
= homem = desejo/atração/orientação
heterossexual = complementaridade (os
“opostos” se completam).
• Gênero, uma vez naturalizado, tende a coincidir
com sexo biológico ou “papéis sexuais”; cada
pessoa, definida pelo seu sexo, possui
determinadas funções a cumprir, dando origem a
“tipos sociológicos”:
“Tipos” sociológicos

• A “mãe cuidadora”. A maternidade também é uma


construção social, mas é tratada como função inscrita
na natureza que, se não realizada, torna a mulher
“anormal”.
• O “pai provedor”. Embora as mulheres trabalhem, a
relação de dependência com um homem provedor
permanece como um valor social.
• O “macho garanhão”. O desejo sexual “desenfreado”,
característico dos “verdadeiros” homens. Ou a mulher
“contida”, cujo desejo sexual é passível de controle.
• Etc...
Qual o lugar do gênero e da raça na escola?
Interrogando sobre o lugar do gênero na escola:

• A escola tende a reproduzir, reforçar, modificar ou


transgredir as normas sociais dominantes quanto ao
gênero (e também outras marcas)?

• Que efeitos de poder podemos mapear


cotidianamente nas relações dentro da escola?

• Como os livros didáticos tratam das relações sociais


marcadas por gênero? Como apresentam homens,
mulheres, crianças, adultos, negros, brancos, índios,
etc.? Que linguagens e imagens utiliza quando
focaliza o feminino ou que formas de feminilidade
privilegia ?
Interrogando sobre o lugar da escola:

• Quais estereótipos de gênero são mais comuns?


Exemplos: a professora “maternal”; a aluna dócil e
obediente; o aluno rebelde; a aluna sedutora; o
aluno malandro, etc.; o/a aluno/a inteligente?

• Quando organiza suas atividades, a escola separa os


alunos por sexo? Que tipo de
atividades/responsabilidades atribui a garotos e
garotas? Por que?

• Como a escola lida com as “verdades” científicas?


Existem raças?
Conceitos
• Raça- Conceito que deu base para o racismo
científico. Ênfase no fenótipo
• Etnia- Diferenciação dos grupos humanos
envolvendo partilha comum de cultura,
religião, língua, dentre outros elementos
• Conceitos ancorados em identidade
Conceito de Etnia
“ O conteúdo da raça é morfo-biólogico e o da etnia é sócio-
cultural, histórico e psicológico. Um conjunto populacional
dito raça “branca”, “negra” e “amarela”, pode conter em seu
seio diversas etnias. Uma etnia é um conjunto de indivíduos
que, histórica ou mitologicamente, têm um ancestral
comum; têm uma língua em comum, uma mesma religião ou
cosmovisão; uma mesma cultura e moram geograficamente
num mesmo território.”

(Por Prof.Dr. Kabengele Munanga (USP)


Raça : uma construção histórica

• O conceito de raça não seria, desde meados do século XX,


um conceito político e não biológico?

• Existe Democracia racial no Brasil? Convivem em


harmonia negros, mestiços, indígenas e brancos?

• Os diferentes grupos de “cor” vivem sob as mesmas


condições de igualdade jurídica e social?
Brocos, Modesto
A Redenção de Cam ,
1895
óleo sobre tela, c.i.d.
199 x 166 cm
Museu Nacional de
Belas Artes (Rio de
Janeiro, RJ)
Reprodução
fotográfica César
Barreto
A Negra, de Tarsila do Amaral,
1923 - Coleção Museu de Arte
Contemporânea da
Universidade de São Paulo
(SP)
A Negra - Esta tela foi pintada por Tarsila em Paris,
enquanto tomava aulas com Fernand Léger. A tela o
impressionou tanto que ele a mostrou para todos os
seus alunos, dizendo que se tratava de um trabalho
excepcional. Em A Negra temos elementos cubistas no
fundo da tela e ela também é considerada antecessora
da Antropofagia na pintura de Tarsila. Essa negra de
seios grandes, fez parte da infância de Tarsila, pois seu
pai era um grande fazendeiro, e as negras, geralmente
filhas de escravos, eram as amas-secas, espécies de
babás que cuidavam das crianças.
A Redenção de Cam é uma pintura a óleo sobre
tela realizada pelo pintor espanhol Modesto
Brocos em 1895. A obra aborda as teorias raciais
do fim do século XIX e o fenômeno da busca do
"embranquecimento" gradual das gerações de
uma mesma família por meio da miscigenação.
A obra encontra-se conservada no Museu
Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Na obra de Modesto Brocos, em frente a uma pobre
habitação, três gerações de uma mesma família são
retratadas. A avó, negra, a mãe, mulata, e a criança,
fenotipicamente branca. A matriarca, com semblante
emocionado, ergue as mãos aos céus, em gesto de
agradecimento pela "redenção": o nascimento do neto
branco, que será poupado das agruras e das memórias
do passado escravocrata. A cena foi assim definida por
Olavo Bilac: "Vede a aurora-criança, como sorri e
fulgura, no colo da mulata - aurora filha do dilúvio,
neta da noite. Cam está redimido! Está gorada a praga
de Noé!".
O quadro de Brocos y Gómez sintetiza a tese de
branqueamento desenvolvida por João Baptista
de Lacerda que foi apresentada em Londres com
o título “Sobre os mestiços no Brasil”. Nela, há
uma reprodução da pintura acompanhada da
seguinte legenda: “o negro passando ao branco,
na terceira geração, por efeito do cruzamento
de raças”.
DARWINISMO SOCIAL – teoria da evolução
social baseada na analogia com as ciências
biológicas, substituindo os organismos vivos
pelos grupos sociais em conflito. Seus
teóricos inspiraram-se na obra de Charles
Darwin – A Origem das Espécies (1859) que
pregava a sobrevivência dos mais capazes
como a base da evolução das plantas e
animais. H. Haeckel e George Lapouge foram
os seus principais divulgadores.
EVOLUCIONISMO SOCIAL – interpreta o
desenvolvimento sociocultural das sociedades
humanas com base no conceito de EVOLUÇÃO.
Defendia que as sociedades se desenvolvem em
ritmos desiguais e com diferentes formas de
organização ou estágios de evolução, variando das
mais simples para as mais complexas. O ponto
máximo do progresso humano seria a sociedade
europeia enquanto as outras estariam na fase
primitiva. Seus principais teóricos: Herbert Spencer
(a sobrevivência dos mais aptos) e Lewis Henry
Morgan idealizador dos estágios evolutivos:
selvageria, barbárie e civilização.
EUGENIA – Palavra originária do grego eu
(bom) e gênesis (geração). Propugnada
por Francis Galton e que defendia a
necessidade do Estado formular um plano
com o objetivo de selecionar jovens aptos
a procriarem os mais capazes gerando a
raça pura e defendia a esterilização de
doentes, judeus, criminosos, ciganos e
outros mestiços.
A TEORIA DO BRANQUEAMENTO
Idéia desenvolvida pelas elites por acreditar que a
presença negra na população dificultava o
progresso. Para isso promoveram a imigração
européia facilitando o acesso a terra e ao trabalho e
dificultaram a inserção da população negra na
sociedade pós-abolição.
Por isso a população afro-brasileira ficou “livre do
açoite da senzala e preso na miséria da favela”.
Tornando-se cidadãos de direito mas não de fato. É a
negação da Democracia Racial.
cenário do final do século XIX.
Interlocução com intelectuais
da época
O Pensamento Científico do Século XIX
• Artur Gobineau(1870) - Trata-se de uma população
totalmente mulata, viciada no sangue e no espírito e
assustadoramente feia".
• Sívio Romero(1880) - “Classes perigosas:negros,
africanos, escravos, ex-escravos”.
• Segunda metade Século XIX: Frenologia e
Craniometria; Antropologia Criminal Cesare
Lombroso e O Homem Delinquente: a criminalidade
como um fenômeno físico e hereditário. No Brasil,
seus principais seguidores, destacando-se Nina
Rodrigues, cria na Bahi a Escola intelectual de
Antropologia Criminal.
SÍLVIO ROMERO – (Intelectual e Escritor)
aponta como mestres Spencer, Darwin e
Gobineau. Previa que o processo de seleção
natural conduziria ao desaparecimento dos
negros e outras raças impuras.

NINA RODRIGUES – Professor de


Medicina Legal considerava os índios e
negros raças inferiores. Seguidor da
CRANIOLOGIA divulgada por LOMBROSO,
afirmava que os mestiços tinham mentalidade
infantil.
FRANCISCO ADOLFO DE VARNHAGEN
(Historiador)– afirma que os índios e os negros não
progrediriam numa sociedade “civilizada” e que a
História brasileira deveria ocultar a fase
escravocrata pois os africanos e seus descendentes
(que deveriam retornar para a África) só nos
causaram mal, nos afastando do processo
evolutivo.

FRANCISCO OLIVEIRA VIANNA – adepto


do arianismo considerando-os destinados a
dominarem o mundo. Defensor do branqueamento
da população, considerava os negros “espantosos
na sua desordem moral e na instabilidade de
instintos e tratava os mestiços como ralé.
Quadros sinópticos, 1878, Brasil (Schwarcz, 1996: 158)
Mensuração de crânio para
identificação criminal. s/d,
Paris.
Índice de
Casa-Grande & Senzala

Capítulo I: Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de


uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida
 Capítulo II: O indígena na formação da família brasileira
 Capítulo III: o colonizador português:antecedentes e predisposições
 Capítulo IV: o escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro
Capítulo V: o escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro
 Casa-Grande & Senzala procura a compreensão da mentalidade
brasileira, a partir de fontes documentais do cotidiano de seus
habitantes

 Eixos explicativos: sistema de produção econômico baseado na


monocultura latifundiária da cana-de-açúcar, a partir do trabalho
escravo, do patriarcado (relações hierárquicas de dominação entre
homem e mulher, velhos e jovens e de escravidão)
e pela miscigenação. Mulata – Di Cavalcanti S/d

 Contribuição das 3 etnias para a formação do Brasil

Brasil é a civilização nos trópicos criada pelo português, com co-autoria do negro e
ajuda do índio (especialmente da mulher indígena no início da colonização, falta de
mulheres brancas, casava-se com os portugueses)
Casa-grande & Senzala representam um sistema social, político, econômico de
produção (monocultura e latifúndio), trabalho (escravidão), de religião
(catolicismo), a vida sexual familiar (patriarcado polígamo), relações de
compadrio.
Todo o brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro,
traz na alma, quando não na alma e no corpo -
há muita gente de jenipapo ou mancha
mongólica pelo Brasil - a sombra, ou pelo menos
a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do
Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas
Gerais, principalmente do negro. A influência
direta, ou vaga e remota, do africano.
O paradigma
Culturalista entre
os pensadores do
Brasil

'Abaporu'-1928
Tarsila do Amaral
Contexto
 1920 – Epitácio Pessoa proíbe negros na seleção bras. de futebol
 1922 – Fundação do Partido Comunista
- Semana de Arte Moderna em SP
- Levante dos 18 do forte de Copacabana
 1925 – Realização do Congresso Regionalista em RE, Gilberto Freyre participa
ativamente
 1926 – Gilberto Freyre lança o Manifesto Regionalista (considera o Movimento
Modernista sub-europeu e é preciso modernizar considerando-se às tradições regionais)
 1929 – Quebra da bolsa de Novo Iorque, desvalorização do café
 1930 – Revolução de 30
 1932 – Revolução Constitucionalista
 1933 – Hitler assume o poder na Alemanha
Publicação de Casa Grande & Senzala – Gilberto Freyre
 1934 – Promulgada a Constituição da República – GV eleito pres. pelo Congresso
 1935 – Governo Vargas sufoca insurreição comunista
 1936 - Publicação de Sobrados e Mucambos – Gilberto Freyre
Publicação de Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Hollanda
 1937 – Golpe do Estado Novo
 1939 – Início da 2ª Guerra Mundial (fim 1945)
A colonização
• A ocupação do Brasil deu-se após um século de contato dos
portugueses com os trópicos (na Índia e na África).

• Sucesso da colonização deveu-se à aclimatabilidade e à


miscibilidade do português, características que supriram a falta
de capital humano.

• Miscibilidade favorecida pela sexualidade exacerbada, fruto de


um catolicismo “amaciado” pela influência árabe e judaica.
• Miscibilidade: “Nenhum povo colonizador, dos
modernos, excedeu ou sequer igualou os
portugueses na sua miscibilidade. Foi
misturando-se gostosamente com mulheres de
cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se
em filhos mestiços”.

• Aclimatabilidade: Clima em Portugal é próximo


ao da Europa, portanto a vinda para os trópicos
não seria de difícil adaptação.
• Miscigenação foi o grande trunfo do português
na colonização e constituição da nação
brasileira: adaptação biológica e social.

• Colonização pela “hibridização”: construção de


uma população e de uma sociedade mestiça.
• Nação feita a partir da “espada do particular”
(patriarcalismo), não pela ação oficial do Estado.

• Casa Grande como unidade da vida política e


social.

• Formação de uma sociedade:


– Agrária na estrutura
– Escravocrata na técnica de exploração econômica
– Híbrida na composição
A Família
• “A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado
nem nenhuma companhia de comércio, é desde o
século XVI o grande fator colonizador no Brasil, a
unidade produtiva, o capital que desbrava o solo,
instala as fazendas (...) Sobre ela o rei de Portugal
quase reina sem governar”

• Oligarquia, personalismo.

• Latifúndio: célula fundadora. Unidade política,


econômica e social.
Equilíbrio de antagonismos
• Formação da sociedade brasileira é um permanente processo de
equilíbrio de antagonismos

Antagonismos fundadores:

• Cultura européia x indígena


• Cultura européia x africana
• Cultura africana x indígena
• Economia agrária x pastoril
• Economia agrária x mineira
• Católico x herege
• Senhor x escravo (o antagonismo fundamental)
Aspectos fundamentais para o equilíbrio, para o
amortecimento de contrastes:

• Miscigenação
• Dispersão da herança
• Fácil mudança de profissão
• Tolerância moral
• Catolicismo “lírico” português
• Hospitalidade a estrangeiros

>> a mediação do negro foi fundamental, como “influência


amolecedora” de contrastes entre europeus e indígenas
"Casa-Grande & Senzala foi a resposta à
seguinte indagação que eu fazia a mim próprio:
o que é ser brasileiro? E a minha principal fonte
de informação fui eu próprio, o que eu era como
brasileiro, como eu respondia a certos
estímulos."

Quer ver o Brasil a partir do Brasil.


CONTEXTO DO LIVRO
Livro surgiu num contexto histórico
dominado por intelectuais
conservadores, principalmente entre
1937 e 1945, com o Estado Novo, que
adotava a política de branqueamento
idealizada por O. Vianna.
Descreva, objetivamente, quais as
inovações apresentadas por
CASA GRANDE & SENZALA

Cite quais os eixos explicativos


trabalhados por G.F.em
CASA GRANDE & SENZALA
Inovações do livro
• Vê a cultura brasileira enriquecida pela integração dos
elementos indígenas, portugueses e africanos.

• Não pensa a mestiçagem em termos de “purificação”.

• Pensa a contribuição da cultura negra como elemento


central à constituição da sociedade brasileira (admite e
valoriza o papel do negro).

• Abriu mão de estatísticas, tabelas e fontes primárias


(usados por Oliveira Vianna como garantia de
cientificidade).
Casa-Grande
&
Senzala
1933

Maquete RosanaGrimaldi/Fotografia Eduardo Albarello


"A questão da raça existe no
inconsciente coletivo do Brasil. A
política de cotas não vem para
discutir a raça, mas para corrigir
conseqüências da construção
racial que já existe na sociedade“

“Raça, todos iguais do ponto de


vista biológico e desiguais do
ponto de vista social. Os
conceitos e as classificações da
diversidade humana em raças
diferentes servem de ferramentas
para operacionalizar o
pensamento”.

Prof. Kabengele Munanga.


RETOMANDO AS PROVOCAÇÕES

E OS CONCEITOS
Já imaginaram como seria fantástico ter a disposição
para ensinarmos alunos e alunas “bonzinhos”,
“disciplinados”, “arrumadinhos” dispostos a ouvir-nos?
Na sua escola todos são tratados igualmente
graça a Deus? Você acha que o Brasil é um país
miscigenado e que aqui também graças a Deus
não há racismo? Você é racista?
Você acha que o próprio negro as
vezes é racista também?
Você acha que
existem mulheres
machistas?
Os índios estão perdendo sua
cultura?
#mensagemfinal

#prapensarnaescola
Quando nós rejeitamos uma única história,
quando percebemos que nunca há apenas
uma história sobre nenhum lugar, nós
reconquistamos um tipo de paraíso.