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Contos

“George”, Maria Judite de Carvalho


“Famílias desavindas”, Mário de Carvalho

Síntese da
unidade

Encontros – 12.o ano ▪ Noémia Jorge, Cecília Aguiar, Miguel Magalhães


Contos: síntese da unidade ● Manual, p. 170

Friso cronológico
IDADE Séc. XV-XVI Séc. XVII Séc. XIX Séc. XX LITERATURA
MÉDIA RENASCIMENTO BARROCO ROMANTISMO REALISMO MODERNISMO CONTEMPORÂNEA

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)


“George”
Mário de Carvalho (1944)
“Famílias desavinddas”
Contos: síntese da unidade ● Manual, p. 170

“George”, Maria Judite de Carvalho


“Famílias desavindas”, Mário de Carvalho
Linguagem, estilo e estrutura
Contos: síntese da unidade ● Manual, p. 170 ● “George”, Maria Judite de Carvalho

“George”
Contexto de produção
Publicação do conto “George” na
1987 revista Colóquio Letras

1995 Publicação de Seta Despedida,


obra composta por doze contos,
incluindo “George”
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• Infância, em casa dos pais. • Êxito profissional.


• Partida para a cidade. • Partida para Amesterdão.
• Sucessivas partidas e experiências amorosas. • Nova experiência amorosa.

Início Fim da
ANALEPSE Fio condutor da narrativa
da ação ação

REALIDADE MEMÓRIA REALIDADE IMAGINAÇÃO


• George George • George viaja • George
caminha pela recorda o de comboio. dialoga com
Rua. seu Georgina
passado, em (o seu futuro).
Retrospetiva • Georgina
. MEMÓRIA Desaparece.
IMAGINAÇÃO IMAGINAÇÃO George • George
• George é • George recorda o projeta-se no
acompanhada dialoga com Gi passado pela futuro.
por Gi (o seu • Gi e George última vez, de
passado). afastam-se forma fugaz.
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Estrutura do conto (organização narrativa)



Diálogo entre realidade, memória e imaginação
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As três idades da vida


A complexidade da natureza humana
Gi George Georgina

18 anos 45 anos Quase 70 anos

• Ânsia
Vestidodeclaro
liberdade,
e amplo. • •Solidão,
Vestidodesamparo,
claro e Consciência
• Mãos enrugadas.
Passado exclusão. Presente Futuro
descoberta
• Olhos grandes e e amplo. •– Cabelos
da passagem do tempo
pintados
conhecimento.
semicerrados. • Em constante processo e daacaju.
de
JUVENTUDE
• Recusa
Boca da vida
fina. que a de fuga.VIDA ADULTA •efemeridadeVELHICE
Rosto pintadoda de
vida;
Tentativa vã de fugir Vida vazia, de solidão Sem esperança
sociedade
• Cabelos
de siespera
mesmada
escuros e lisos. • Desvalorização
contida.
das – da efemeridade
vários tons de rosa.do
relações de futuro.
mulher
• ePescoço(vida
alto.
de esquecer confinada
o passado. Falsaafetivas /
completude poder;
ao casamento e à desapego de objetos
existencial. – da importância dos
maternidade). que tragam recordações. laços afetivos.
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Metamorfoses da figura feminina


Nível
Nível
Nível
psicológico
social
físico
Gi George – nome masculino Georgina
George (nome ambivalente
Gi Georgina
estrangeiro / pseudónimo da pintora).

Submissão ao modelo feminino


Liberdade, rejeição de modelos.
imposto pela sociedade.
18 anos 45 anos Quase 70 anos
Ignorância/desconhecimento. Conhecimento (viagens pelo mundo).
TédioPartir (viagens pelo mundo).
Amadureci- Desengano
Juventude
Ficar (permanência
Ilusão na vila).
Cansaço existencial
Envelheci-
Jovem sem expectativas profissionais.mento Solidão
Pintora de renome a mento
nível europeu.
Enraizamento Desenraizamento Consciência da
Pobreza. “desertificação”
familiar Sucesso profissional e Desvalorização dafinitude
prosperidade,
Simplicidade.
e afetivo prosperidade
(desvalorizaçãododas
sucesso profissional
Valorização e dadas
financeira. sofisticação ante a sociedade
relações afetivas)
Glamour, sofisticação. excludente. relações afetivas
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Linguagem e estilo
O estilo de Maria Judite não
apresenta um sinal de
rebusca ou uma palavra a
mais. Pelo contrário: sugere,
penetra, define, magoa, pela estrita economia das
palavras, por uma admirável contenção […]. Distingue-
se pela justeza inesperada do adjetivo, pela frase
nominal, um adjetivo, um substantivo isolados, em
foco, dando a ênfase emocional com uma febre lúcida.
COELHO, Jacinto do Prado (1976). Ao Contrário de Penélope.
Venda Nova: Bertrand, p. 278 [com supressões]
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“Famílias desavindas”
Contexto de produção
Publicação de Contos Vagabundos, obra que
2000 inclui o conto “Famílias desavindas”.
São dezassete os contos que Mário de Carvalho
acaba de reunir em Contos Vagabundos. Têm
diferentes proveniências, sendo que nenhum deles é
inédito. A maior parte foi aparecendo mensalmente
na revista (livros) de O Independente. Os restantes
foram publicados em antologias e revistas.
ROWLAND, Clara. “Dezassete histórias transviadas”
[Em linha]. Público, 09-12-2000 [Consult. em 04-08-2016].
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Estrutura do conto
DESAVENÇAS ENTRE
(organização narrativa) MÉDICOS E SEMAFOREIROS
• Origem do conflito entre
médicos e semaforeiros.
• Desenvolvimento do
ESCOLHA DOS conflito entre médicos e
SEMAFOREIROS
semaforeiros.
ENQUADRAMENTO • Relato da origem do • Final do conflito entre
DA AÇÃO NARRADA ofício de semaforeiro. médicos e semaforeiros.
• Localização da ação • Apresentação da
no espaço. família de
• Apresentação da semaforeiros, nas suas
história e do várias gerações.
funcionamento dos
semáforos.
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Importância dos EPISÓDIOS


e da PERIPÉCIA FINAL
PERIPÉCIA
EPISÓDIOS FINAL
Crescendo Anulação
do ódio Dr. Paulo do
entre vs. ódio
famílias Asdrúbal

Dr. João Dr. Paulo


vs. e
Ximenez Paco

Dr. J. P. Bekett
vs.
Ramon
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História pessoal e história social: as duas famílias


Médicos Semaforeiros
Dr. J. P. Bekett Ramon
• Médico, vindo de Coimbra com a família e • “esforçado, cheio de boa vontade”
com boa fama e com espírito de missão. • Sente-se magoado e triste com o Dr.
• Autor do primeiro conflito com o Bekett e inicia o conflito com o médico.
semaforeiro.
Dr. João Ximenez
• Médico muito modesto, filho do Dr. • Filho de Ramon.
Bekett.
• Odeia o semaforeiro e intensifica o
Asdrubal
• Insulta o médico Paulo; “entre o jovem
conflito.
médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou
Dr. Paulo
a vias de facto”.
• Insulta o semaforeiro (Asdrúbal).
• Mantém uma relação de conflito com Paco
Paco, mas, ao assistir a um acidente que • Simpático e prestável com os condutores,
magoa Paco, socorre-o, deixando de lado os com quem tem uma relação personalizada.
antigos ódios. Solidariamente, ocupa o • Mantém o conflito com o Dr. Paulo ao ser
lugar de Paco, como semaforeiro, enquanto vítima de um acidente, é socorrido pelo Dr.
o primeiro se encontra hospitalizado. Paulo.
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Marcadores
“históricos”
Época da industrialização – o progresso estava nos novos
Dobrar do e insólitos inventos.
século XIX Corrupção associada à implantação dos semáforos no
Porto.

Primeira Guerra Simplificação e melhoria da máquina, concluída por


Mundial inspeção camarária (retira-se a roda dianteira).

Segunda Guerra Substituição do semaforeiro


(época de mudança). Função na
Mundial
narrativa
Pouco depois Legitimação da
da Revolução Novo semaforeiro, novos tempos. verosimilhança da
de Abril narrativa
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Dimensão irónica
O insólito com aparência de real O cómico extraído
(fantástico que se do quotidiano
introduz no quotidiano recriado) • Denúncia, com recurso ao
• Conto em que se articulam dois universos humor/cómico e à ironia, de aspetos
logicamente incompatíveis: negativos extraídos do quotidiano:
→ o da realidade e da normalidade → censura dos ódios entre famílias
(verosimilhante) – que é reforçado e sem motivo;
legitimado pelo narrador através de → vícios sociais como o suborno, a
marcadores históricos, de topónimos e de burocracia excessiva, a
nomes de pessoas; incompetência profissional (cf.
→ o do insólito /fantástico descrição caricatural dos médicos
(inverosimilhante) – que é marcado pelo e da própria função de
carácter incomum e pitoresco das ações semaforeiro).
narradas (semáforo a pedais; escolha do
primeiro semaforeiro; origem do conflito
entre médicos e semaforeiros; acidente,
que culmina com o médico a assumir a
função de semaforeiro). Voltar
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Linguagem,
estilo e estrutura
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• Concentração de eventos
CONTO Ação
• Linearidade de ação
• Sem ações secundárias

Personagens • Número reduzido/limitado

Espaço • Concentração de espaço


Tempo • Concentração de tempo

Género da tradição literária que recorre ao modo narrativo e em


que se representa um universo ficcional. Define-se por oposição ao
género romance, tendendo a apresentar as seguintes
características: narrativa pouco extensa, ação simples/linear,
concentração de eventos, reduzido elenco de personagens,
esquema temporal restrito, unidade de técnica e de tom.
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DISCURSO DIRETO E INDIRETO


Discurso direto Discurso indireto
Reproduz-se o discurso original Reproduz-se o discurso num novo
tal como ele foi dito pelo emissor; na discurso, com algumas
escrita, introduz-se por travessão ou transformações, por meio da
delimita-se por travessões ou aspas. subordinação.
Ex.: Ex.:
– Parece-me que às vezes fazes E estava horas nisto, até o doente
isso, enfim, toda essa desertificação, adormecer. Colegas maliciosos
com esforço, com sofrimento – disse- sustentavam que ele praticava a
lhe um dia o seu amor de então. terapia do sono.
– Talvez – respondeu –, talvez.
Mas prefiro não pensar no caso. “Famílias desavindas”,
Mário de Carvalho
“George”, Maria Judite de Carvalho
Contos: síntese da unidade ● Manual, p. 170 ● Linguagem, estilo e estrutura

Alguns recursos expressivos - “George”, Maria Judite de Carvalho


Calor e também aquela aragem macia e como
que redonda, de forno aberto, que talvez venha Interrogação retórica,
do sul ou de qualquer outro ponto cardeal ou que sugere as
colateral, perdeu a bússola não sabe onde nem consequências das
quando, perdeu tanta coisa sem decisões passadas.
ser a bússola. Perdeu ou largou?

Mas, tal como essas pessoas, tem, vai


Enumeração e metáfora, que
ter, uma voz muito real e viva, uma voz
realçam a passagem inexorável
que a cal e as pás de terra, e a pedra
do tempo e a complexidade da
e o tempo, e ainda a distância e a confusão
natureza humana.
da vida de George, não prejudicaram.

Fez loiros os cabelos, de todos os


Uso expressivo do adjetivo e
loiros, um dia ruivos por cansaço de
repetição, que acentuam as
si, mais tarde castanhos, loiros de
metamorfoses da figura feminina.
novo, esverdeados
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Alguns recursos expressivos - “George”, Maria Judite de Carvalho


Queria estar sempre pronta para partir sem
que os objetos a envolvessem, a segurassem, Antítese e anáfora,
a obrigassem a demorar-se mais um dia que que realçam o
fosse. Disponível, pensava. Senhora desenraizamento
de si. Para partir, para chegar. afetivo.
Mesmo para estar onde estava.

– Ninguém ouve ninguém, não sabes? Sinestesia e uso


Que aprendeste com a vida, mulher? expressivo do
A sua voz está mole, pegajosa, difícil, adjetivo, que marcam
as palavras perdem o fim, desinteressadas de si o desinteresse em
próprias, é como se se preparassem para o sono. prosseguir o diálogo.

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Alguns recursos expressivos - “Famílias desavindas”, Mário de Carvalho

O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, Enumeração, que


luminoso. Um homem pedala numa bicicleta elenca, em tom
erguida a dez centímetros do chão por suportes jocoso, as
de ferro. A corrente faz girar um imã dentro características do
de uma bobina. A energia gerada vai acender dispositivo e do seu
as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. funcionamento.

Ironia, que remete


A autoridade gostou do projeto e comicamente para a corrupção
das garrafas de Bordéus que o jovem existente para implantação do
engenheiro oferecia. novo engenho.

Faltam razões para flanar Uso expressivo do adjetivo, que


por esta rua, banal e comprida, realça o contraste entre a
a não ser a curiosidade simplicidade da rua o “insólito
por um insólito dispositivo […]. dispositivo aí colocado”.
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Maria Judite de Carvalho, “George”


 As três idades da vida.
 O diálogo entre realidade, memória e imaginação.
 Metamorfoses da figura feminina.
 A complexidade da natureza humana.

Mário de Carvalho, “Famílias desavindas”


História pessoal e história social: as duas famílias.
Valor simbólico dos marcos históricos referidos.
A dimensão irónica do conto.
A importância dos episódios e da peripécia final.

Linguagem, estilo e estrutura


O conto: unidade de ação; brevidade narrativa; concentração de tempo
e espaço; número limitado de personagens.
A estrutura da obra.
 Discurso direto e indireto.
 Recursos expressivos.