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A Revolução Americana

Uma revolução
fundadora?
Janeiro de 1799

Hoje, fui apresentado pelo nosso Ministro ao Presidente dos


Estados Unidos, John Adams (…). O Presidente estava de
pé, de casaca, espada e chapéu debaixo do braço,
conversando com algumas das pessoas que ali se achavam.
Quando se entra, dirige-se a ele e se lhe faz um
cumprimento; ele pega na mão, pergunta pela saúde e diz
mais alguma coisa; a mim me perguntou que tal achava o seu
país, depois disto, todas as pessoas conversam umas com as
outras, mesmo passeiam pela casa e o mesmo Presidente
muda de lugar frequentemente, de modo que estão todos
confundidos sem ordem ou arranjamento de etiqueta. Os
Senadores e pessoas mais qualificadas que entraram,
vinham uns de botas, outros sem pós nos cabelos, casacas
velhas, quase todos, vieram a pé a maior parte; de sorte que,
à excepção dos ministros estrangeiros, todo o resto respirava
muito pouca civilização de maneiras polidas; à saída não se
lhe fez outro cumprimento, que uma vénia com a cabeça, a
que ele correspondeu igualmente.

Hipólito da Costa, Diário da minha viagem para Filadélfia, 1798-1799, p. 54


Declaração da Independência dos
Estados Unidos da América, 4 de Julho
de 1776
Consideramos evidentes as seguintes verdades:

• que todos os homens nascem iguais;


• que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis,
entre os quais a vida, a liberdade e a procura da felicidade.

Cremos:

• que os governos foram instituídos para assegurar estes direitos;


• que o seu justo poder emana do consentimento dos governados;
• que quando qualquer forma de governo tenda a destruir o objectivo
para que haja sido criado, têm os governados o justo direito de o
alterar ou abolir, de estabelecer outro governo que respeite aqueles
princípios e organizá-lo da forma que lhes pareça mais apropriada
para a sua segurança e felicidade.
Jean Claude
Gerôme, A
Constituição
Americana
Constituição dos Estados Unidos da
América de 17 de Setembro de 1787

Art. I - Secção 1 – Todos os poderes legislativos


concedidos pela presente lei serão confiados a
um Congresso dos Estados Unidos, que se
comporá de um Senado e de uma Câmara dos
Representantes. (…).
Artº II - Secção 1 – O poder executivo é
conferido a um presidente dos Estados
Unidos da América. Ficará em funções
durante um período de quatro anos. (…)
Artº III - Secção 1 – O poder judicial dos
Estados Unidos será confiado a um
Tribunal Supremo e aos tribunais
inferiores que o Congresso julgue
necessário criar e estabelecer. (…)
Definição de Constituição

Uma Constituição é a lei fundamental de


um país, que estabelece os poderes do
Estado, os direitos e deveres
fundamentais dos cidadãos e a sua
relação com o Estado.
A revolução francesa
Paradigma das
revoluções liberais e
burguesas?
A tomada de um símbolo?

Cholat, A
tomada da
Bastilha,
(guache),
Museu
Carnavalet,
Paris
Queixas do Terceiro Estado
A ordem da nobreza que possui imensos
bens, longe de nos aliviar, só procura
meios para nos esmagar e arruinar. Nunca
sabemos quais os pesos ou medidas dos
recipientes com os quais os senhores
medem os pagamentos que lhes são
devidos. Um certo senhor possui um
recipiente de seis medidas, outro de sete,
outro de oito.
1789
Queixas da nobreza
• Artigo 6 - A Nobreza não aceita de forma
nenhuma renunciar aos direitos senhoriais
honoríficos e úteis tais como justiça, caça,
pesca, mão-morta, talhas, corveias, (…) e
quaisquer outros. (…) Se a mobilidade dos
juízes [direito do senhor de nomear, revogar, etc
os seus juízes] das justiças senhoriais for
contestada pelo Terceiro Estado, os deputados
[da Nobreza] confirmá-la-ão com todo o seu
poder, assim como o seu direito de continuar a
exercer a justiça, e isto no interesse das
comunidades.
12 de Abril de 1789
Queixas do clero
Artigo 1 – Suplicaremos a Sua Majestade
muito humildemente que declare, como o
fez durante o seu conselho de 27 de
Dezembro de 1788, que de futuro nenhum
imposto será levantado ou prolongado
senão pelos Estados Gerais.
Artigo 5 – A liberdade individual dos
cidadãos será assegurada por uma lei
irrevogável.
25 de Março de 1789
Abolição dos direitos feudais
Artigo 1 – A Assembleia Nacional destrói completamente
o regime feudal e decreta que, do conjunto dos direitos e
deveres tanto feudais como os do censo, aqueles que
se relacionam com a mão-morta real e pessoal e com a
servidão pessoal e todos os que a representem, são
abolidos sem indemnização: todos os outros são
declarados resgatáveis e o preço e o modo do regaste
serão fixados pela Assembleia Nacional. Todos os
direitos que não são suprimidos por este decreto
continuarão a estar em vigor até serem resgatados. (…)
Artigo 4 – Todas as justiças senhoriais são suprimidas
sem indemnização. (…)
Artigo 11 – Todos os cidadãos sem distinção de
nascimento podem ser admitidos em todos os empregos
e dignidades eclesiásticas, civis e militares (…)
1789
Declaração dos
Direitos do
Homem e do
Cidadão,
26 de Agosto
de 1789
Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão

Art 1 - Os homens nascem e permanecem livres


e iguais em direitos. As distinções sociais só
podem ter como fundamento a utilidade pública.
Art. 2 – A finalidade de toda a associação
política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis do Homem. Estes direitos são a
liberdade, a propriedade, a segurança e a
resistência à opressão.
Art. 3 - O princípio de toda a soberania reside
essencialmente na Nação. Nenhum corpo,
nenhum indivíduo pode exercer autoridade que
não emane expressamente dela.
Lei Le Chapelier

Artigo 1 - Sendo a abolição de todas as


espécies de corporações de cidadãos do
mesmo estado ou profissão uma das bases
fundamentais da constituição francesa, é
proibido restabelecê-las sob qualquer pretexto e
forma que seja.
Art. 4 - Se contra os princípios da liberdade e da
constituição, os cidadãos ligados às mesmas
profissões, artes e ofícios, tomarem
deliberações (…) tendentes a fixar um salário
sobre a sua indústria e o seu trabalho, as ditas
deliberações e convenções, (…) são declaradas
atentatórias da liberdade e da declaração dos
direitos do homem e de efeito nulo. (…)
A quem serve a revolução?
A igualdade civil, eis quanto o homem sensato pode
exigir. A igualdade absoluta é uma quimera (…)
Devemos ser governados pelos melhores, os melhores
são os mais instruídos e os mais interessados na
manutenção das leis. Ora, com bem poucas
excepções, só encontrareis tais homens entre aqueles
que, possuindo uma propriedade, são afeiçoados ao
país que a contém, às leis que a protegem, e que
devem a esta propriedade e ao bem-estar que ela dá a
educação que os tornou próprios para discutir com
sagacidade e com justeza as vantagens e os
inconvenientes das leis que fixam a sorte da pátria. (…)
Um país governado por proprietários está na ordem
social; aquele em que os não-proprietários governam
está no estado da natureza.
1795
Cidadãos passivos, cidadãos activos?

Mas que pretendeis vós com a palavra cidadãos


activos, tão referida? Os cidadãos activos são
os que tomaram a Bastilha, os que lavram os
campos. (…) Para vos fazer sentir todo o
absurdo da lei, basta dizer que Jean-Jacques
Rousseau, Corneille, Mably não seriam
elegíveis (…) Jesus Cristo (…) não seria um
cidadão activo! Respeitem a pobreza que Ele
nunca esqueceu!
Artigo de jornal da época
Sans-culotte, cidadão?

Louis-
Léopold
Boilly,
Sans-
culotte
Constituição de 24 de Junho de 1793
Da soberania do povo

Artigo 7 – O povo soberano é a universalidade dos


cidadãos franceses.
Art. 8 – Ele nomeia imediatamente os seus deputados.
Art. 10 – Ele delibera sobre as leis. (…)

Das relações da República Francesa com as nações


estrangeiras
Art. 118 – O Povo francês é amigo e aliado natural dos
povos livres.
Art. 119 – Ele não se imiscui no governo das outras
nações; ele não admite que as outras nações se
imiscuam no seu.
Napoleão, homem da Revolução?

Acredita que é para a grandeza dos membros do


Directório, de Carnot, de Barras, que eu triunfo em
Itália ? (…) Que o Directório tenha cuidado se me
tentar retirar o comando e ele verá quem é o dono.
Faz falta à nação um chefe, um chefe ilustre para a
glória e não para as teorias de governo, as frases,
os discursos dos ideólogos dos quais os Franceses
não entendem nada (…). Eu quero enfraquecer o
partido republicano, mas quero que seja em meu
proveito, e não em proveito da antiga dinastia.

Napoleão a André Miot de Melito, embaixador de França no


Piemonte,1797
Constituição de 13 de Dezembro de 1799

Artigo 39 – O Governo é confiado a três


cônsules nomeados por dez anos (…). A
Constituição nomeia Primeiro cônsul, o
cidadão Bonaparte (…).
Jacques-Louis
David,
Napoleão
atravessando
os Alpes, 1799,
Museu
Nacional do
Castelo de
Malmaison
Senatus-consulto de 18 de Maio
de 1804
Artigo 1 – O Governo da República é
confiado a um imperador, que toma o
título de Imperador dos Franceses. – A
justiça faz-se em nome do Imperador,
pelos oficiais que ele institui.
Art. 2 – Napoleão Bonaparte, Primeiro
Cônsul actual da República é Imperador
dos Franceses.
Aguarela alemã, Progressão da vida de Napoleão
Como se disseminaram os ideais revolucionários?

Goya, A carga dos Mamelucos a 2 de Maio de 1808, 1814, Museu do Prado, Madrid
Constituição de Cádis, 1812
Dom Fernando VII, por graça de Deus e da
Constituição da Monarquia espanhola, Rei das
Espanhas (…) sabei:

Artigo 1 – A Nação espanhola é a reunião de


todos os espanhóis de ambos os hemisférios.
Artigo 2 – A Nação espanhola é livre e
independente, e não é nem pode ser património
de nenhuma família ou pessoa.
Artigo 3 – A soberania reside essencialmente na
Nação, e por isso pertence-lhe exclusivamente
o direito de estabelecer as suas leis
fundamentais.
A fuga da família real portuguesa
A mudança veio de fora?
A mudança veio de fora. A invasão de Junot (a mais
durável), a invasão de Soult (a de menos
consequência), a invasão de Massena (a mais
destrutiva) (…) desfizeram o Antigo Regime. Não que
não houvesse por aqui e por ali, principalmente pelos
botequins de Lisboa, pedreiros-livres, lojas maçónicas e
mesmo, se quiserem “liberais”, num sentido muito largo
e difuso. No entanto, fora incomodarem o intendente
Manique, não contavam. Foi o invasor que separou o
Portugal velho do novo Portugal.

Vasco Pulido Valente, O Liberalismo Português, in


Revolucionários, Compromisso Portugal, 2007, p. 141