Você está na página 1de 18

Angela de Castro Gomes

 “O trabalhador, mesmo sendo pobre, era um homem bom e honesto.


Suas dificuldades e sua pobreza não deviam ser associadas a falhas morais,
mas às condições estruturais do sistema sócio-econômico, que podiam ser
vencidas. A ascensão social do trabalhador estava, portanto, relacionada à intervenção
do poder público e na dependência deste, única força capaz de superar os enormes
problemas que condicionavam e impediam sua realização pessoal.
Era o Estado, personificado na figura de Vargas, que possibilitaria o
acesso dos trabalhadores aos instrumentos de realização individual e social.
Desde então, no Brasil, a relação homem do povo/Estado fundou-se, em
grande medida, nessa mitologia do trabalhador e do trabalho como fonte de riqueza,
felicidade e ordem social.” p. 71.
Anos revolucionários
 “Os anos 30 e 40 são verdadeiramente revolucionários no que diz respeito
ao encaminhamento da questão do trabalho no Brasil. Nesse período,
elabora-se toda a legislação que regulamenta o mercado de trabalho do
país, bem como estrutura-se uma ideologia política de valorização do
trabalho e de “reabilitação” do papel e do lugar do trabalhador nacional. A
dinâmica entre os dois processos reforça-os mutuamente. No entanto,
neste texto, estaremos mais atentos ao segundo, recorrendo ao primeiro
apenas marginalmente.” p. 53.
Estrutura histórica da pobreza.
 “Durante muitos séculos, no Brasil e no mundo, a pobreza fora entendida como
um fato inevitável e até útil, uma vez que consistia em estímulo ao
trabalho. Os “pobres” tornavam-se operosos por força da necessidade, enquanto
cabia aos “homens bons” a responsabilidade social por sua existência e pelo
progresso da nação. O processo pelo qual a pobreza começa a ser identificada
como incômoda e até perigosa, e portanto nem tão útil, é longo e associa-se ao
desenvolvimento das relações capitalistas, fundamentalmente identificadas ao
mercado de compra e venda da força de trabalho. No Brasil, tal processo acelera-
se após a proclamação da República e mais particularmente após a I Guerra
Mundial.” p. 53-54.
Abolição e mudança no estatuto do trabalho
 “Tal diagnóstico pode ser mais bem compreendido quando se observa que a
Abolição encerra uma experiência de três séculos, na qual uma imensa
população de trabalhadores — os escravos — era definida pela ausência de
qualquer reconhecimento social e político. Se durante o Império o processo de
State building estava em curso e teve amplo sucesso (com a manutenção da
unidade territorial e a expansão do aparelho de Estado), o processo de nation
building estava comprometido pela própria existência da escravidão. Só com a
Guerra do Paraguai, a Abolição e a República — nas décadas que vão de 1870 a
1890 — que se pôde passar da construção do Estado para a construção da nação,
enfrentando-se a questão chave da extensão dos direitos de cidadania, quer
fossem civis, políticos ou sociais.” p. 54.
 “Ou seja, a formulação liberal clássica que associa o ato de trabalhar com
riqueza e cidadania sempre estivera ausente do país e produzir
uma identidade social e política para o trabalhador era um esforço muito
grande.” p. 55.
Repensando a pobreza e o trabalho aqui
 “O que ocorria de novo nesses diagnósticos sobre as causas dos problemas
do país era a demanda de novas esferas de intervenção do Estado que
incluíssem áreas como educação, saúde e o mercado
de trabalho. Neste último caso, tais reflexões objetivavam claramente o
trabalho urbano, conturbado por agitações grevistas cada vez mais
consideradas ameaçadoras, mas alcançavam também o trabalho rural,
visto como desorganizado e completamente abandonado.” P. 54.
 “É a partir desse momento, demarcado pela Revolução de 30, que podemos
identificar de forma incisiva toda uma política de ordenação do mercado de
trabalho, materializada na legislação trabalhista, previdenciária, sindical e
também na instituição da Justiça do Trabalho. É a partir daí que podemos
igualmente detectar — em especial durante o Estado Novo (1937-45) — toda
uma estratégia político-ideológica de combate à “pobreza”, que estaria centrada
justamente na promoção do valor do trabalho. (...) Promover o homem
brasileiro, defender o desenvolvimento econômico e a paz social do país eram
objetivos que se unificavam em uma mesma e grande meta: transformar o
homem em cidadão/trabalhador, responsável por sua riqueza individual e
também pela riqueza do conjunto da nação.” p. 55.
 “O trabalho, desvinculado da situação de pobreza, seria o ideal do homem
na aquisição de riqueza e cidadania. A aprovação e a implementação de
direitos sociais estariam, desta forma, no cerne de uma ampla política de
revalorização do trabalho caracterizada como dimensão essencial de
revalorização do homem. O trabalho passaria a ser um direito e um dever;
uma tarefa moral e ao mesmo tempo um ato de realização; uma obrigação
para com a sociedade e o Estado, mas também uma necessidade para o
próprio indivíduo encarado como cidadão.” P.55
Manipulação da classe trabalhadora?
 “Porém, o processo de produção do consentimento não se sustenta
somente em apelos ideológicos, tendo uma explícita dimensão sócio-
econômica. Isto é, ele está fundado em procedimentos que asseguram a
existência de vantagens materiais efetivas para os grupos dominados. A
legitimidade de um arranjo institucional não advém simplesmente da
manipulação e/ou repressão políticas, deitando raízes em práticas que
incorporam — em graus
muito variados — interesses e valores concretos dos que estão excluídos
do poder.” p. 56
Limites e dificuldades aqui
 “Contudo, o problema da distância entre a existência da legislação e sua “real” (completa
e eficaz) implementação situa questões cruciais que envolvem, de um lado, a percepção
dos limites existentes à execução de medidas que signifiquem vantagens para as classes
populares; de outro, a ocorrência de confrontos e brechas no interior das próprias
políticas elaboradas pelo governo, que não é um todo harmônico e sem fissuras.
Finalmente, a elaboração e execução de políticas públicas têm como desdobramento a
recepção dessas políticas por seu público-alvo, no caso, os “trabalhadores”. Como se
sabe, tal recepção é um processo ativo que ressignifica os próprios objetivos originais
das políticas, dotando-as de novos sentidos e interferindo no curso dos resultados
antecipados pelos planejadores. Assim, se o Estado Novo “releu” a experiência da classe
trabalhadora da Primeira República, dela se apropriando e produzindo um novo
discurso, também a classe trabalhadora dos anos 40 e 50 “releu” a proposta do Estado,
atribuindo-lhe sentidos diversos e tornandoa patrimônio de suas vivências históricas.
Mas aqui não nos ocuparemos desses processos, sem dúvida essenciais e
particularmente complexos.” P. 57.
Trabalho, ciência, estado
 “O Estado Nacional do pós-1937, por seu ideal de justiça social, voltava-se
para a realização de uma política de amparo ao homem brasileiro, o que
significava basicamente o reconhecimento de que a civilização e o
progresso eram um produto do trabalho. “Toda moderna concepção
econômica, política e social deverá ter por base a idéia-fato: trabalho. E
todo programa voltado para o mundo novo a constituir será contido nesta
fórmula: defesa, representação e dignificação do trabalho.” P. 57.
 O ideal de justiça social ia sendo explicitado como um ideal de ascensão social
pelo trabalho, que tinha no Estado seu avalista e intermediário. O ato de
trabalhar precisava ser associado a significantes positivos que constituíam
substantivamente a superação das condições objetivas vividas no presente pelo
trabalhador. A ascensão social, principalmente em sua dimensão geracional,
apontava o futuro do homem como intrinsecamente ligado ao “trabalho
honesto”, que devia ser definitivamente despido de seu conteúdo negativo. O
trabalho era civilizador: “O trabalho não é um castigo nem uma desonra. Só o é
para os que alienam o seu valor de colaboradores sociais e trabalham
bestializados sob o império da máquina. A mecanização, sem inteligência e sem
ideal, é que torna o homem mercadoria das forças econômicas”. P. 58.
 Permanências de representações do período escravocrata.
 “Uma política de organização científica do trabalho devia encontrar o
equilíbrio entre os esforços de mecanização da produção (essenciais à
industrialização dos países) e a proteção dos valores humanos e cristãos
do trabalhador brasileiro. Era esse o grande esforço do novo Estado
nacional. Ele enfrentava a questão social não como uma questão operária,
mas como um problema de todos os homens e de todas as classes, já que
são trabalhadores todos aqueles que produziam, que colaboravam com o
valor social de seu trabalho.” p.59.
 Dessa forma, o Brasil incorporava definitivamente o conceito de medicina
social que se desenvolvera na Europa desde o século XIX, tendo Bismark
como figura central. O trabalhador passara a ser assistido pelo Estado, que
se preocupava não só com a sua saúde física como também com sua
adaptação psíquica ao trabalho que realizava. O homem que exercesse
profissão compatível com seu temperamento e habilidade produziria
mais. Daí a relação entre política de saúde e as modernas técnicas de
seleção e orientação profissionais: “se queremos um rendimento maior e
mais perfeito, é lógico que só é possível esse rendimento e essa perfeição
nos indivíduos hígidos mentalmente”. p. 60.
Combate à malandragem
 “A atuação do Estado para com a arte popular destacava-se, por exemplo, pelo
reconhecimento do valor e do “poder de sugestão” da música, sendo os efeitos da
nova política social sentidos em um grande número de composições. Até então,
como se observava, os sambas tinham como temática recorrente o elogio à
malandragem, caracterizando o trabalho como um longo e penoso sofrimento.
O malandro do morro — “o enquistamento urbano do êxodo das senzalas” —
que repudiava o trabalho era o herói do cancioneiro popular. Mas tal panorama
vinha-se modificando pela presença das leis que reconheciam os direitos dos
trabalhadores e pela política de derrubada das favelas e dos mocambos. Surgiam
dessa nova perspectiva personagens que se empregavam em fábricas e outros
afazeres. Assim, o primado do trabalho, reconhecido pelo Estado, chegava
também à voz dos compositores populares sob o
estímulo e censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).” p. 64