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DIREITO PENAL IV

PROFESSOR GELSON AZEVEDO


MONITORIA MATHEUS CARVALHO

DOS CRIMES CONTRA A


ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
CAPÍTULO I
DOS CRIMES PRATICADOS POR
FUNCIONÁRIO PÚBLICO CONTRA A
ADMINISTRAÇÃO EM GERAL.
Na observância do artigo 327 podemos analisar aqueles
considerados:
FUNCIONÁRIO PÚBLICO para fins penais.

Considera-se funcionário público, para os efeitos penais,


quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce
cargo, emprego ou função pública.
§ 1º - Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo,
emprego ou função em entidade paraestatal, e quem trabalha
para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada
para a execução de atividade típica da Administração
Pública.
Entendendo a definição do funcionário público para
efeitos penais, podemos partir para crimes previstos no
Capítulo I.
PECULATO. (ARTIGO 312)
Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem
móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-
lo, em proveito próprio ou alheio:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.
§1º Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo posse
do dinheiro valor ou bem, o subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em
proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona a
qualidade de funcionário.
Peculato culposo
§2º Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem:
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) anos.
§3º No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença
irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a
pena imposta”.
O peculato próprio, na realidade, constitui uma apropriação
indébita, só que praticada por funcionário público com violação
do dever funcional. Vejamos as duas ações nucleares típicas desse
delito:

a) Peculato-apropriação: é o denominado peculato próprio.


Está previsto na primeira parte do caput do art. 312:
“Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou
qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem
a posse em razão do cargo”.

A ação nuclear típica consubstancia-se no verbo apropriar.


b) Peculato-desvio: É o denominado peculato próprio. Está
previsto na segunda parte do caput do art. 312: “... ou desviá-lo,
em proveito próprio ou alheio”. O agente tem a posse da coisa e
lhe dá destinação diversa da exigida por lei, agindo em proveito
próprio ou de terceiro; por exemplo, o funcionário empresta o
dinheiro público para perceber os juros. Se o desvio for em
proveito da própria Administração, haverá o crime do art. 315 do
CP.
O sujeito ativo é o funcionário público, já que se trata de crime
próprio. O sujeito passivo é o Estado, bem como a pessoa física
ou jurídica diretamente prejudicada com a conduta praticada pelo
sujeito ativo. A ação penal em todas as modalidades é de
iniciativa pública incondicionada.
Como causa de aumento de pena: a pena será aumentada da
terça parte quando os autores do crime forem ocupantes de
cargos em comissão ou de função de direção ou assessoramento
de órgão da administração direta, sociedade de economia mista,
empresa pública ou fundação instituída pelo poder público,
previstos no §1º do art. 312 do CP.
PECULATO MEDIANTE ERRO DE
OUTREM. (ARTIGO 313).
Apropriar-se de dinheiro ou qualquer utilidade que, no exercício do cargo,
recebeu por erro de outrem:
Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa

O crime tipificado em tal artigo é também conhecido como “peculato


estelionato”, porque consiste na captação indevida, por parte do
funcionário público, de dinheiro ou qualquer outra utilidade mediante
o aproveitamento ou manutenção do erro alheio. Trata-se de um crime
em que o funcionário público se apropria de um bem no exercício do
cargo; contudo, a posse do agente, agora, decorre de erro de outrem,
por exemplo: pagar o valor de uma taxa municipal a funcionário
incompetente para recebê-la, o qual, ao perceber o erro em que incidiu
o contribuinte, silencia, apoderando-se do valor pago. Assim, nessa
modalidade criminosa, o funcionário se aproveita do erro em que
incidiu espontaneamente a vítima para se apoderar do bem.
INSERÇÃO DE DADOS FALSOS EM
SISTEMA DE INFORMAÇÕES.
(ARTIGO 313-A)
Inserir ou facilitar, o funcionário autorizado, a inserção de dados
falsos, alterar ou excluir indevidamente dados corretos nos sistemas
informatizados ou banco de dados da Administração Pública com o fim
de obter vantagem indevida para si ou para outrem ou para causar
dano:
Pena – reclusão, de dois a doze anos, e multa
Trata-se de crime de ação múltipla. A prática de várias condutas
configura delito único.
Vejamos as ações nucleares do tipo:
a) inserir ou facilitar a inserção de dados falsos;
b) alterar ou excluir, indevidamente, dados corretos nos sistemas
informatizados ou de banco de dados da Administração Pública.
Analisando o mencionado dispositivo legal, a descrição da
conduta “apropriar-se”, como no peculato tradicional;
contudo, ela está implícita na parte final do tipo ao exigir o
fim específico de obter vantagem indevida. No entanto, o
crime reputa-se configurado com a mera manipulação
incorreta dos dados, sem que isso acarrete a efetiva
obtenção de vantagem indevida pelo agente.
O sujeito ativo do crime em questão é o funcionário autorizado.
Não basta ser funcionário público, é preciso ser também
autorizado, ou seja, ter acesso a uma área restrita, vedada a
outros funcionários e ao público em geral, mediante a utilização
de senha ou outro mecanismo de proteção análogo. O sujeito
passivo é o Estado. O elemento subjetivo é o dolo, acrescido
de um especial fim de agir representado pela expressão “com o
fim de obter vantagem indevida para si ou para outrem ou para
causar dano”.
MODIFICAÇÃO OU ALTERAÇÃO NÃO
AUTORIZADA DE SISTEMAS DE
INFORMAÇÕES. (ARTIGO 313-B).

Modificar ou alterar, o funcionário, sistema de informações


ou programa de informática sem autorização ou solicitação
de autoridade competente:
Pena – Detenção, de três meses a dois anos, e multa.
Parágrafo único. As penas são aumentadas de um terço até a
metade se da modificação ou alteração resulta dano para a
Administração Pública ou para o administrado.
Esse crime é conhecido como peculato eletrônico. As
ações nucleares consubstanciam-se nos verbos
modificar ou alterar, no caso, sistema de informações ou
programa de informática. As condutas devem ser
praticadas “sem autorização ou solicitação da
autoridade competente”. Havendo tal autorização ou
solicitação, competente, o fato é atípico. O objeto
material são os sistemas de informações e os
programas de informática.

A objetividade jurídica é a proteção à Administração Pública.


O elemento subjetivo do tipo é o dolo consubstanciado na
realização sem autorização ou solicitação de autoridade
competente. Quanto aos sujeitos: o sujeito ativo, é o funcionário
público e o sujeito passivo é o Estado.
O crime se consuma com a efetiva modificação ou
alteração do sistema de informações ou programa de
informática pelo funcionário público. É possível a
tentativa pois se trata de crime de plurissubsistente.
A ação penal é pública incondicionada. O processo e
julgamento será feito pelo Juizado especial criminal, já
que se trata de crime de menor potencial ofensivo.

A causa de aumento de pena é prevista no parágrafo único do


art. 313-B, pois a superveniência do resultado naturalístico não é
irrelevante, já que a concretização do dano em face da
Administração Pública ou de outra pessoa qualquer acarreta a
maior gravidade do fato praticado. Essa causa de aumento,
segundo Capez (2012, v. 3, p. 477), representa o exaurimento do
crime.
EXTRAVIO, SONEGAÇÃO OU INUTILIZAÇÃO
DE LIVRO OU DOCUMENTO. (ARTIGO 314)
Art. 314. Extraviar livro oficial ou qualquer documento, de que
tem a guarda em razão do cargo; sonegá-lo ou inutilizá-lo, total
ou parcialmente.
Pena – reclusão, de um a quatro anos, se o fato não constitui
crime mais grave.

A lei pune três condutas:


a) extraviar: fazer desaparecer, ocultar;
b) sonegar: sinônimo de não apresentar, não exibir quando alguém
o solicita;
c) inutilizar: tornar imprestável.
Nas três hipóteses a conduta deve recair sobre livro oficial, que é
aquele pertencente à Administração Pública, ou sobre qualquer
documento público ou particular que esteja sob a guarda da
Administração. Nos termos da lei, o crime subsiste ainda que a
conduta atinja parcialmente o livro ou documento.

A objetividade jurídica visa a proteger o regular desenvolvimento da


atividade administrativa, o qual é colocado em risco no momento em que os
livros oficiais ou outros documentos, confiados à guarda do funcionário
público em razão do cargo, são por ele extraviados, sonegados ou inutilizados.
O objeto material é o livro ou documento sobre o qual o funcionário público
tem o dever de custódia em razão do cargo. Pode o objeto ser público ou
particular. O processo judicial também pode ser objeto material desse crime.
Assim, o funcionário do cartório forense que extravia o processo judicial
comete o delito em tela.
EMPREGO IRREGULAR DE VERBAS OU
RENDAS PÚBLICAS. (ARTIGO 315)
“Art. 315. Dar às verbas ou rendas públicas aplicação diversa da
estabelecida em lei:
Pena – detenção, de uma a três meses, ou multa”.

A ação nuclear consiste em dar às verbas ou rendas públicas (objeto material)


aplicação diversa da estabelecida em lei. Se as verbas destinadas a um serviço
não podem ser, total ou parcialmente, aplicadas em outro, as rendas não podem
ser empregadas senão mediante determinações legais”. Na hipótese, o
numerário é empregado na própria Administração Pública, na satisfação de
interesses públicos, só que em desacordo com as determinações legais. Por
exemplo, verba que, pela lei orçamentária, foi destinada para o ensino público
acaba por ser repassada para o setor da saúde pública. Não há, portanto, a
apropriação do numerário pelo agente, para favorecimento próprio ou alheio.
É necessário que haja lei prévia regulando a aplicação do dinheiro público,
isto é, das despesas públicas.
CONCUSSÃO. (ARTIGO 316)

“Art. 316. Exigir, para si ou para outrem, direta ou


indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la,
mas em razão dela, vantagem indevida:
Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa.
§1º Se o funcionário exige tributo ou contribuição o social que
sabe ou deveria saber indevido, ou, quando devido, emprega na
cobrança meio vexatório ou gravoso, que a lei não autoriza:
Pena – reclusão, de três a oito anos, e multa.
§2º Se o funcionário desvia, em proveito próprio ou de outrem,
o que recebeu indevidamente para recolher aos cofres públicos:
Pena – reclusão, de dois a doze anos, e multa.”
A ação nuclear consubstancia-se no verbo exigir, isto é, ordenar,
reivindicar, impor como obrigação. O funcionário público exige
da vítima o pagamento de vantagem que não é devida. Como já
vimos, trata-se de uma espécie de extorsão, só que praticada não
mediante o emprego de violência ou grave ameaça, mas valendo-
se o agente do metus publicae potestatis. Agora, o particular
(houvesse ou não motivo justo de temer) compreende e teme; e
oferece o dinheiro” (JESUS, 2013, p. 324).

O crime de concussão consuma-se no momento em que a


exigência chega ao conhecimento da vítima, independentemente
da efetiva obtenção da vantagem visada. Trata-se de crime
formal. A obtenção da vantagem é mero exaurimento. Não
desnatura o crime, portanto, a devolução posterior da vantagem
ou a ausência de prejuízo. É possível a tentativa. A ação penal é
pública incondicionada.
EXCESSO DE EXAÇÃO
Nesse tipo penal, a conduta envolve a cobrança de tributos
(impostos, taxas ou contribuições de melhoria) ou contribuições
sociais. São duas as condutas típicas:

a) exigir o funcionário público tributo ou contribuição


social que sabe ou deveria saber indevido. Nessa
modalidade, o funcionário tem ciência de que nada é devido
pelo contribuinte, ou tem sérias razões para supor que não
existe dívida fiscal ou previdenciária, e, ainda, assim, efetua a
cobrança. Na primeira hipótese, ele age com dolo direto e, na
segunda, com dolo eventual. A redação do dispositivo deixa
claro tratar-se de crime formal, que se consuma com a mera
exigência, sendo desnecessário o efetivo pagamento por
parte do contribuinte.
b) exigir tributo devido empregando meio vexatório ou gravoso
que a lei não autoriza. Configura o crime uma cobrança feita em
público de forma acintosa, em alto tom, por exemplo. Cuida-se também
de delito formal que se consuma no momento em que é empregado o
meio vexatório ou gravoso, independentemente do efetivo pagamento
do tributo ou da contribuição.
CORRUPÇÃO PASSIVA. (ARTIGO 317).

“Art. 317. Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou


indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em
razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:
Pena — reclusão, de dois a doze anos, e multa.
§1º A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem
ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato
de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.
§2º Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício,
com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa”.
O tipo penal elenca três condutas típicas:

1) Solicitar: significa pedir vantagem ao particular. Na solicitação,


a conduta inicial é do funcionário público.
2) Receber: entrar na posse.
3) Aceitar promessa: concordar com a proposta.
No recebimento ou aceitação de promessa, a conduta inicial é do
corruptor. Nesses casos, o funcionário responderá por corrupção
passiva e o particular por corrupção ativa. Tais condutas típicas
referem-se, necessariamente, a uma vantagem indevida em
razão do cargo. Assim, na corrupção passiva, a vantagem deve
ser indevida porque tem a finalidade de fazer com que o
funcionário público beneficie alguém em seu trabalho por meio de
ações ou omissões. Ocorre uma espécie de troca entre a vantagem
indevida visada pelo agente público e a ação ou omissão funcional
que beneficiará o terceiro.
O sujeito ativo pode ser qualquer funcionário público. Trata-se de
crime próprio. Consuma-se no momento em que o funcionário solicita,
recebe ou aceita a vantagem. Na modalidade solicitar, pouco importa,
para fim de consumação, se o funcionário público efetivamente obtém a
vantagem visada.

Nas modalidades receber ou aceitar promessa de vantagem indevida,


também não importa se o funcionário pratica ou não algum ato em face
desta. A ação ou omissão, entretanto, não é mero exaurimento do
crime, na medida em que o art. 317, § 1o, prevê que a pena será
aumentada em um terço se, em consequência da vantagem ou
promessa indevida, o funcionário público retarda ou deixa de praticar
ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional. O que em
princípio seria exaurimento funciona como causa de aumento de pena
por expressa previsão legal. Entende-se que a tentativa só é possível
na modalidade solicitar. A ação penal é pública incondicionada.
FACILITAÇÃO DE CONTRABANDO OU
DESCAMINHO. (ARTIGO 318)
“Art. 318. Facilitar, com infração de dever funcional, a prática de
contrabando ou descaminho (art. 334):
Pena — reclusão, de três a oito anos”.

Prosseguimos com o núcleo do tipo: facilitar significa afastar


eventuais dificuldades ou empecilhos que possam existir e que se
interponham à prática do contrabando ou descaminho. A conduta pode
ser ativa ou omissiva, sendo necessário que o funcionário público
atue com infração de dever funcional. É ativa, por exemplo, quando o
funcionário indica uma forma de o contrabandista desviar-se da
fiscalização. É omissiva quando o funcionário, ciente de que há produto
de descaminho em um compartimento, não o inspeciona, liberando as
mercadorias.
A consumação acontece no instante em que o funcionário público
presta o auxílio (omissivo ou comissivo) a fim de facilitar o
contrabando ou descaminho, ainda que este não se concretize. A
tentativa é possível apenas na modalidade comissiva.
PREVARICAÇÃO. (ARTIGO 319)

“Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou


praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou
sentimento pessoal: Pena — detenção, de três meses a um ano, e multa”.

O funcionário público viola sua função para atender a objetivos


pessoais. O agente deve atuar para satisfazer:
a) interesse patrimonial (desde que não haja recebimento de vantagem
indevida, hipótese em que haveria corrupção passiva) ou moral;
b) sentimento pessoal, que diz respeito à afetividade do agente em
relação a pessoas ou fatos.

Ex.: Permitir que amigos pesquem em local público proibido. Demorar


para expedir documento solicitado por um inimigo.
A prevaricação não se confunde com a corrupção passiva
privilegiada. Nesta, o agente atende a pedido ou influência de
outrem. Na prevaricação não há tal pedido ou influência. O
agente visa satisfazer interesse ou sentimento pessoal. O tipo
exige que a conduta do funcionário público seja indevida apenas
nas duas primeiras modalidades. Na última hipótese prevista no
tipo (praticar ato de ofício), a conduta deve ser “contra expressa
previsão legal”. Temos, neste último caso, uma norma penal em
branco, pois sua aplicação depende da existência de outra lei

O crime se consuma com a omissão, retardamento ou realização


do ato. Não é possível a tentativa nas formas omissivas, pois ou
o crime está consumado ou o fato é atípico. Na forma comissiva,
a tentativa é possível. O sujeito ativo é qualquer funcionário
público e o sujeito passivo o Estado.
A Lei n. 11.466, de 28 de março de 2007, criou nova figura ilícita no
art. 319-A do Código Penal, estabelecendo que a mesma pena prevista
para o crime de prevaricação será aplicada ao diretor de penitenciária
e/ou agente público que deixar de cumprir seu dever de vedar ao preso o acesso
a aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com
outros presos ou com o ambiente externo.

O legislador entendeu necessária a criação desse tipo penal em face da


constatação de que presos têm tido fácil acesso a telefones celulares ou
aparelhos similares, e que os agentes penitenciários não vêm dando o
combate adequado a esse tipo de comportamento. Assim, a Lei n.
11.466/2007, além de criar essa figura capaz de punir o agente
penitenciário que se omita em face da conduta do preso, estipulou
também que este, ao fazer uso do aparelho, incorre em falta grave —
que tem sérias consequências na execução criminal (art. 50, VII, da Lei
de Execuções Penais, com a redação dada pela Lei n. 11.466/2007).
CONDESCENDÊNCIA CRIMINOSA.
(ARTIGO 320).
“Art. 320. Deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que
cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não levar o
fato ao conhecimento da autoridade competente.
Pena — detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.”

O tipo penal contém duas condutas típicas:


a) deixar o funcionário público, por indulgência, de responsabilizar subordinado
que cometeu infração no exercício do cargo. Trata-se de crime omissivo puro.
O agente, tendo o dever legal de apurar os fatos e responsabilizar o
funcionário pela infração por este cometida, não o faz por tolerância;
b) quando lhe falte competência, não levar o fato ao conhecimento da autoridade
competente. Trata-se de crime omissivo. Como se trata de crime próprio, o
sujeito ativo será o funcionário público, pois somente o funcionário público
pode praticar o delito em tela. Deve o agente ser necessariamente superior
hierárquico do funcionário público infrator. O sujeito passivo é o Estado.
O elemento subjetivo é o dolo, isto é, a vontade livre e
consciente de praticar uma das condutas típicas. Exige-se também
o elemento subjetivo do tipo, contido na expressão “por
indulgência”. O agente, portanto, omite-se por tolerância,
brandura. Haverá crime de prevaricação se o agente se omitir para
atender sentimento ou interesse pessoal. Se o fim for a obtenção
de vantagem indevida, o crime será de corrupção passiva. Se o
agente, por culpa, não toma conhecimento da infração praticada
pelo funcionário subalterno, não há configuração do tipo penal.

Consuma-se com a simples omissão, ou seja, ciente da infração, o


agente não toma qualquer providência para responsabilizar o
funcionário; ou não comunica o fato à autoridade competente, se
não tiver atribuição para fazê-lo. Trata-se de crime omissivo puro,
portanto a tentativa é inadmissível.
ADVOCACIA ADMINISTRATIVA
(ARTIGO 321).
“Art. 321 — Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a
administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário
Pena — detenção, de um a três meses, ou multa.
Parágrafo único — Se o interesse é ilegítimo.
Pena — detenção, de três meses a um ano, além da multa”.

A ação nuclear do tipo consubstancia-se no verbo patrocinar,


isto é, advogar, favorecer, no caso, interesse privado perante os
órgãos da Administração Pública. Pode também ocorrer
indiretamente: terceira pessoa, no caso, um testa de ferro,
encarrega-se de entrar em contato com a Administração sob as
orientações do funcionário. É necessário que o funcionário, ao
patrocinar os interesses alheios, se valha das facilidades que a
função lhe proporciona.
O elemento subjetivo é o dolo, isto é, a vontade livre e
consciente de patrocinar interesse privado perante a
Administração Pública. Não importa o fim específico do agente
na prática do delito. Na forma qualificada, o agente deve ter
conhecimento da ilegitimidade do interesse.

Trata-se de crime formal. Consuma-se com o primeiro ato


inequívoco de patrocínio, independentemente da obtenção do
resultado pretendido. A tentativa é admissível. Vejamos o
seguinte exemplo, citado por Greco: “Uma petição em que se
advoga o interesse de terceiro, sendo, entretanto, o funcionário
obstado de, no momento preciso, apresentá-la a quem de direito”.
Trata-se de crime de ação penal pública incondicionada.
Crime de menor potencial ofensivo, sujeito às disposições da Lei
n. 9.099/95.
VIOLÊNCIA ARBITRÁRIA (ARTIGO 322)
Art. 322. Praticar violência, no exercício de função ou a pretexto de
exercê-la:
Pena – detenção, de seis meses a três anos, além da pena correspondente
à violência.

Tendo em vista que sua matéria foi integralmente tratada pelo


art. 3, alínea i, da Lei n. 4.898/65 (Lei de Abuso de Autoridade, a
qual tipificou essa conduta como abuso de autoridade,
entendemos que o art. 322 do CP foi revogado tacitamente pela
mencionada lei especial. O núcleo do tipo é praticar no sentido
de exercer ou cometer violência contra pessoa. A violência
abrange tanto a lesão corporal como as vias de fato. O
funcionário deve empregar a violência no exercício da função ou
a pretexto de exercê-la.
O sujeito ativo é o funcionário público, e o sujeito passivo o
Estado e a pessoa física prejudicada pela conduta criminosa.

O objeto material é a pessoa contra quem a violência é dirigida,


podendo ser um particular ou mesmo funcionário público. O
bem jurídico tutelado é a Administração Pública.

O elemento subjetivo é o dolo. O crime se consuma no


momento em que o funcionário público pratica ato violento, no
exercício da função ou a pretexto de exercê-la. A tentativa é
possível em face do caráter subsistente do delito. A ação penal é
pública incondicionada. É cabível a suspensão condicional do
processo.
ABANDONO DE FUNÇÃO (ARTIGO 323)
“Art. 323. Abandonar cargo público, for a dos casos permitidos em lei:
Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.
§1º Se do fato resulta prejuízo público:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.
§2º Se o fato ocorre em lugar compreendido na faixa de fronteira:
Pena – detenção, de um a três anos, e multa”.

Trata-se de crime omissivo puro. A ação nuclear está


consubstanciada no verbo abandonar cargo público. Abandonar é
afastar-se, largar. O abandono pode ocorrer de duas formas: pelo
mero afastamento do funcionário ou quando ele não se apresenta
no momento devido.
Exige-se que o abandono se dê por tempo juridicamente relevante, pois
o que caracteriza o delito é a probabilidade de dano ou prejuízo para a
Administração Pública. Não há abandono do cargo público se houver
anterior pedido de demissão, o qual tenha sido deferido. Enquanto não
há o deferimento do pedido, não é permitido ao funcionário abandonar o
cargo público. Se o fizer, haverá a configuração do crime em apreço.

O elemento subjetivo é o dolo, isto é, a vontade livre e consciente de


abandonar o cargo. O crime consuma-se com o abandono do cargo
público por tempo juridicamente relevante, de forma a criar
probabilidade de dano ou prejuízo à Administração Pública. Não é
necessária a efetiva causação de dano à Administração Pública. Por se
tratar de delito omissivo próprio, não admite a forma tentada.

A ação penal é pública incondicionada. O processo e julgamento será


feito pelo Juizado Especial Criminal na forma simples e qualificada pelo
§1º e no §2º é possível a suspensão condicional do processo.
EXERCÍCIO FUNCIONAL ILEGALMENTE
ANTECIPADO OU PROLONGADO. (ARTIGO 324)
Art. 324. Entrar no exercício de função pública antes de satisfeitas as
exigências legais, ou continuar a exercê-la, sem autorização, depois de saber
oficialmente que foi exonerado, removido, substituído ou suspenso:
Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa”.

O tipo penal prevê duas condutas típicas:


a) entrar no exercício de função pública antes de satisfeitas as exigências legais.
Dessa forma, se o funcionário nomeado passar a exercer a função pública
antes de tomar posse ou sem que comprove uma das exigências legais,
previstas nos respectivos estatutos legais, haverá o crime em tela. Trata-se de
norma penal em branco;
b) ou continuar a exercê-la, sem autorização, depois de saber oficialmente que
foi exonerado, removido, substituído ou suspenso.
Trata-se de crime próprio, o sujeito ativo pois somente pode ser
praticado por funcionário público. Se o particular entrar no
exercício da função pública, haverá a configuração do delito de
usurpação de função pública. O sujeito passivo é o Estado,
titular do bem protegido pela norma penal.

O elemento subjetivo é o dolo. O crime se consuma no


momento em que o sujeito ativo realiza indevidamente o
primeiro ato inerente à função pública, prescindido do efetivo
prejuízo à Administração Pública. A tentativa é possível. A ação
penal é pública incondicionada.
VIOLAÇÃO DE SIGILO FUNCIONAL.
(ARTIGO 325)

“Art. 325. Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que
deva permanecer em segredo ou facilitar-lhe a revelação.
Pena — detenção, de seis meses a dois anos, ou multa, se o fato não
constitui crime mais grave.
§1º Nas mesmas penas deste artigo incorre quem:
I – permite ou facilita, mediante atribuição, fornecimento e empréstimo
de senha ou qualquer outra forma, o acesso de pessoas não autorizadas
a sistemas de informações ou banco de dados da Administração
Pública;
II – se utiliza, indevidamente, do acesso restrito.
§2º Se da ação ou omissão resulta dano à Administração Pública ou a
outrem:
Pena – reclusão de dois a seis anos, e multa”.
A ação nuclear conduta de revelar segredo caracteriza-se quando o
funcionário público intencionalmente dá conhecimento de seu teor a terceiro,
por escrito, verbalmente, mostrando documentos etc. Já a conduta de facilitar
a divulgação de segredo, também chamada de divulgação indireta, dá-se
quando o funcionário, querendo que o fato chegue a conhecimento de terceiro,
adota determinado procedimento que torna a descoberta acessível a outras
pessoas, como ocorre no clássico exemplo de deixar anotações ou documentos
em local que possa ser facilmente visto por outras pessoas.

Apenas o funcionário público pode ser sujeito ativo. Predomina na doutrina o


entendimento de que mesmo o funcionário aposentado ou afastado pode
cometer o delito, pois o interesse público na manutenção do sigilo permanece.
O crime admite a coautoria e também a participação de outro funcionário
público ou de particular que colabore com a divulgação. A doutrina, contudo,
salienta que o particular que se limita a tomar conhecimento do fato
divulgado não comete o delito. O sujeito passivo é sempre o Estado e,
eventualmente, o particular que possa sofrer prejuízo, material ou moral, com
a revelação do sigilo.
VIOLAÇÃO DO SIGILO DE PROPOSTA
DE CONCORRÊNCIA. (ARTIGO 326)

“Art. 326. Devassar o sigilo de proposta de concorrência pública, ou


proporcionar a terceiro o ensejo de devassá-lo:
Pena — detenção, de três meses a um ano, e multa.”

Tal dispositivo, contudo, foi tacitamente revogado pelo art. 94 da


Lei n. 8.666/93 Lei de Licitações, que tem uma redação mais
abrangente, punindo com detenção, de dois a três anos, e multa
qualquer devassa em sigilo envolvendo procedimento licitatório.
REFERÊNCIAS.
• BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal: parte especial.
6. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, v. 5.
• CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal: parte especial. 9 ed. São Paulo:
Saraiva, 2011. v. 3.
• GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte especial. 10 ed. Rio de
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