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POESIA MARGINAL

Ana Cristina Cesar – Cacaso – Chacal –


Francisco Alvim – Paulo Leminski
Para início de conversa...
Estamos diante de um livro que chama a nossa atenção pelo
próprio título: Poesia Marginal.
O título é chocante, pois, por detrás das duas palavras que o
compõem, estão encerradas ideias que, em princípio, são
opostas.
Por isso nosso estudo sobre a poesia marginal começará
pelas ideias que essas duas palavras evocam e, a partir daí,
tentaremos delinear os traços que caracterizam as poesias
publicadas no livro Poesia Marginal.
Faremos, portanto, uma “viagem” ao mundo dos sentidos e
ao mundo do lirismo...
Definindo Poesia...

O que você entende por poesia?


Observe os seguintes exemplos

Gregório de Matos Guerra (1623-1693)


Gonçalves Dias(1823- 1864)
Castro Alves (1847- 1871)
Raimundo Correia (1859- 1911)
Oswald de Andrade (1890- 1954)
Jorge de Lima (1893- 1953)
Vinícius de Morais (1913- 1980)
Augusto de Campos (1931 -)
Ricardo Carvalho Duarte (Chacal)
(1951 -)
Definindo Poesia...

"Se o poema é um objeto empírico e se a poesia é uma


substância imaterial, é que o primeiro tem uma existência
concreta e a segunda não. Ou seja: o poema, depois de
criado, existe per si, em si mesmo, ao alcance de qualquer
leitor, mas a poesia só existe em outro ser: primariamente,
naqueles onde ela se encrava e se manifesta de modo
originário, oferecendo-se à percepção objetiva de qualquer
indivíduo; secundariamente, no espírito do indivíduo que a
capta desses seres e tenta (ou não) objetivá-la num poema;
terciariamente, no próprio poema resultante desse trabalho
objetivador do indivíduo-poeta.“
(LYRA, Celso. Conceito de Poesia. São Paulo: Ática, 1986)
Definindo Poesia...
Há, entre as noções de POESIA e POEMA, uma diferença que convém
ressaltar.
Definindo Poesia...
As emoções que a poesia sugere através da linguagem, bem como a
própria ideia de poesia foram mudando através dos séculos, sofrendo o
efeito das transformações sociais, políticas, econômicas e, sobretudo,
culturais da época.
Poesia
Marginal

Poesia 1920 1960 1970 1980


Romântica/P
Poesia Poesia Árcade arnasiana/Si Poesia
Barroca Moderna
mbolista Poesia Pós-
Século Século Século Moderna
Século
XVII XVIII XIX XX
Definindo Marginal...

O que você entende por marginal?


Definindo Marginal...
 Dicionário Aurélio (2005):
1.Da margem (1 e 2), ou a ela relativo, ou feito, traçado escrito, desenhado nela:
A largura marginal do livro é pequena;
Há na obra umas notas marginais;
O volume contém ilustrações marginais.
2.V. ribeirinho (2).
3.V. ripícola.
4.Feito ou elaborado à margem de algum assunto:
comentários marginais.
5.Econ. Relativo a pequenas variações (na quantidade produzida, no consumo, etc.):
custo marginal, produtividade marginal, utilidade marginal.
6.Bras. Diz-se de pessoa que vive à margem da sociedade ou da lei como vagabundo, mendigo ou
delinqüente; fora-da-lei. ~ V. custo —, homem —, nota —, receita — e terreno —.
Substantivo de dois gêneros.
7.Bras. Indivíduo marginal (6); fora-da-lei:
A polícia prendeu diversos marginais.
Definindo Poesia Marginal...

O que você acha que é a poesia


marginal?
O livro Poesia Marginal:
alguns comentários...
• O livro é uma coletânea de 70 poemas da
Poesia Marginal de 1970;

• Reúne poemas de alguns poetas marginais:


Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal, Francisco
Alvim e Paulo Leminski.

• Está dividido em 4 seções temáticas: 1)


Sentir é muito lento; 2) Os olhinhos do
poeta; 3) Se o mundo não vai bem; 4) a vida
que pára;

• Há, ao final, uma crítica literária sobre a


poesia marginal e um resumo biográfico da
vida dos autores escolhidos.
Sentir é muito pouco
Lendo alguns poemas...
O tema do poema é a mulher
amada → objeto de desejo;

 A mulher é representada como


uma pessoa de forte impulso e
atividade sexual;

 Situação da mulher em
ambientes de orgia → Evolução do
papel da mulher?

 Uso de linguagem coloquial;

 Rima alternadas: ABAB

 Estrofes regulares: todas


possuem 4 versos.
O tema do poema é o amor
platônico;

 O poema tenta representar as


modas de violas, ou seja, pega um
tema típico das canções tocados
no violão

 A mulher é representada como


a estimuladora do desejo →
Sensualidade feminina;

 Musicalidade simples (tal como


as da moda de viola)

 Versos brancos e livres (sem


rima);

 Influência da música;
O tema do poema é a mulher
(Sara);

 Mulher em estado lamentável


(está com sarampo) → nome
própria escrito com letra
minúscula;

 Substituição do grafema “o”


pelo * → influência da poesia
concreta (concretismo) da
década de 1960;

 Rimas: ABBAA

 Aliteração – repetição do /s/


O tema do poema é o amor →
este é platônico (só existe na
mente do poeta);

 O eu - lírico demonstra
esperança de dias felizes (“happy
end”)

Influência americana →
estrangeirismo do título

 Oposição entre o título (final


feliz) e o último verso (o casal
ainda não se conhece);

Versos brancos

 Não há pontuação;

 Imprecisão em relação ao
próprio destino;
O tema do poema é o próprio
sentir

 Parada cardíaca → representa o


coração vazio e seco (parado);

O Eu-lírico reclama uma


necessidade de sentir e “molhar” o
seu interior;

 Influência capitalista → secura


como resultado da falta de tempo;

 Lentidão em relação ao próprio


sentir;
O tema do poema é o desejo de
escrever → poema
metalinguístico;

 Referências às deusas (musas)


da arte gregas;

 Intertextualidade explícita → o
título faz referência a um verso do
poema “Brinde” (“Rien, cette
écume...”) do poeta francês
Mallarmé;

 O nada e a espuma do título


referem-se à falta de inspiração.

 O ato de escrever é encarado


como uma maldade →
afrontamento do desejo;
O tema do poema é a mulher
amada → objeto de desejo;

 Diálogo entre o Eu-lírico e a


mulher (Ana Cristina)

 Alternância de turnos →
representação da fala

Espiritualização do
interlocutor do eu-lírico?

 Rima: AABBCCDDE E

 Estrofes irregulares →
suspensão da resposta final
(criação do efeito de
inexistência)
O tema do poema é o próprio
fazer poético → poema
metalinguístico;

 A falta de pontuação vai de


encontro com a própria
concepção de poema: união de
sentimentos (noites),
pensamentos (respiração) e
escrita (vírgula)

 Influência da pintura abstrata


→ não há limites entre o
sentimento do eu lírico (eu) e do
tema (você)→ voceu

 A poesia emana imagens


(voceu)
O tema do poema é o desejo
sexual → “há um momento para
tudo”

 Forte conotação sexual;

 Os verbos “traçar” e “passar”


usados no sentido figurativo
(conotação)

 Temporada → da mesma maneira


que há um tempo para a caça de
animais (porco espinho), há para o
coito sexual;

 Rimas alternadas: ABAB;

 “Se” com valor temporal


(quando);
Os olhinhos do poeta
Lendo alguns poemas...
O tema do poema o poder do
poeta e o seu trabalho (fazer
póetico);

 Metáfora do fazer poético: poesia


como papagaio que voa no céu de
papel;

O poeta é dotado de um certo


poder → poder de lidar com as
palavras e significar o mundo

Falta de pontuação → soltura da


linguagem

 O poema é uma escolha;

 Versos livres e brancos


O tema do poema é o trabalho do
poeta e o fazer poético;

 Crítica à poesia formal →


“rimar”;

 Fazer poesia é mais do que rimar;

 A linguagem não dá conta da


complexidade da subjetividade
humana;

 Metáfora: subjetividade como


labirinto; palavras como exército;

 Presença do Eu-lírico
O tema do poema é o fazer
poético e o trabalho do poeta;

 A poesia é uma forma de


expressão da subjetividade do
EU capaz de significar o mundo
e criar sentidos não previstos
pela linguagem denotativa;

 O poeta inverte a ordem


lógica de dar nomes às coisas →
ele dá coisas aos nomes (cria
significados e sentidos)

O poeta tem certo poder

 Versos livres e brancos


O tema do poema é o trabalho do
poeta;

 Crítica ao sistema literário


brasileiro → poucos escritores
viveram de suas obras;

 Visão do poeta como uma


profissão e com uma função social;

 Crítica aos “falsos poetas” →


poetas que trabalham e não se
dedicam exclusivamente à poesia

 Visão idealista do poeta;

 Descrição das funções do poeta;


O tema do poema é o fazer
poético;

 Crítica à ideia de língua


enquanto um elemento
denotativo;

 Ponto de vista → linguagem é


um meio de expressão para
criar sentidos e significar as
coisas;

A falta de pontuação revela o


ponto de vista do Eu-lírico
quanto à linguagem → “A língua
é boa solta”

 Confluência com os ideais da


poesia marginal quanto à
linguagem;
A vida que pára
Lendo alguns poemas...
Definindo Poesia Marginal

Pela leitura dos textos, o que você


pode chamar de poesia marginal?
Poesia Marginal: definição e
características
No início de nosso estudo, percebemos, através da leitura de
numerosos poemas, que o conceito de poesia é muito amplo e
complexo, não sendo de fácil definição, uma vez que a ideia de
poesia varia com o tempo, com o espaço, com a cultura de uma
época, com a sociedade. Assim, poesia é, ao mesmo tempo, o tudo
e o nada: para alguns poesia é tudo aquilo que não é prosa, para
outros é o texto que contém rimas, para outros ainda é o tipo de
ideia transmitida, etc., etc.

Não é fácil, portanto, defini-la. Mas uma coisa é certa: cada vez que
a poesia ganha uma nova definição, ela tenta superar, em algum
sentido, um conceito anterior ou anteriores.

Não seria diferente com a poesia dos anos 1970 a que


denominamos, por diversas razões, de poesia marginal.
Definindo Poesia Marginal

Mas o que é marginal? Por que


tais poesias recebem o nome de
marginais? Há alguma
marginalidade nessas poesias?
Poesia Marginal: definição e
características
O adjetivo marginal que usamos para qualificar a poesia de
vanguarda da década de 1970 veio emprestado do campo das
ciências sociais, no qual ele designa: indivíduo que vive entre
duas culturas em conflito ou que, tendo-se libertado de um
cultura, não se integrou de todo na outra, ficando, dessa
forma, à margem da cultura.

Aplicando-se esse adjetivo à arte e sobretudo à poesia


podemos entender, com Glauco Mattoso (1982, p.8), que:
“(...) toda obra e todo autor que não se enquadram nos padrões usuais de
criação, apresentação ou veiculação seriam também marginais (...).
Na verdade, marginal é simplesmente o adjetivo mais usado e conhecido
para qualificar o trabalho de determinados artistas, também chamados de
independentes ou alternativos.”
Poesia Marginal: definição e
características
Poesia
Marginal

Poesia 1920 1960 1970 1980


Romântica/P
Poesia Poesia Árcade arnasiana/Si Poesia
Barroca Moderna
mbolista Poesia Pós-
Século Século Século Moderna
Século
XVII XVIII XIX XX

Na década de 1970, a poesia deixa de ser “séria”, isto é, vinculada aos


padrões tradicionais; ela se torna brincadeira e jogo na mãos dos
poetas, constituindo uma ruptura com o que era até então produzido.
Como ela não se enquadrava não padrão poético-estético exigido, ela
era marginal e por isso o nome POESIA MARGINAL.
Poesia Marginal: definição e
características
A ruptura que a poesia marginal estabeleceu ocorreu em vários
níveis:

 Cultural→ os autores assumem postura contestatória ou tematizam


a contracultura;

 Comercial → os autores são desconhecidos do grande público e


produzem e veiculam suas obras por conta própria com recursos
bastante precários, como o mimeógrafo;

 Estético → praticam um estilo pouco “literário” ou criam uma nova


forma de pensar a linguagem (vanguarda);

 Político → adotam temáticas engajadas e adotam uma linguagem


panfletária.
Poesia Marginal: definição e
características
Segundo Glauco Mattoso (1982, p. 29), a poesia marginal
apresenta as seguintes características:

 Falta de homogeneidade prática e teórica;


 Falta de trabalho coletivo orientado e posicionado contra ou
favor de certos conceitos;
 Despreocupação com o conceito (tradicional) de poesia;
 Descompromisso com qualquer diretriz estética;
 Desorganização, desorientação e desinformação;

“Assim sendo, não dá para falar em movimento como alguns encaram a


poesia marginal.” (MATTOSO, 1982, p. 29)
Poesia Marginal: influências
Alguns elementos foram influentes para que esse tipo de
poesia desorganizada, desorientada e desinformada surgisse.
Vejamos quais foram eles:

 Movimento da Poesia concreta (1960s);

 Movimento da Poesia-processo (poesia visual);

 Tropicalismo → salada de frutas de vários estilos musicais;

 Ditadura Militar → AI-5 (1968)