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Direito Penal –

Parte Geral
UNIDADE 2 – LEI PENAL E
TEORIA DO CRIME: FATO TÍPICO

SEÇÃO 2.2 – Territorialidade e


Extraterritorialidade da Lei
Penal Brasileira, Eficácia de
Sentença Estrangeira e
Lugar do Crime
Prof. Mônica Goulart
Monica.goulart@kroton.com.br
monica@ferreiragoulart.com.br
Profª Mônica Goulart

Direito Penal – Parte Geral


Na tentativa de mudar de vida, pois a situação econômica do
país está instável e o ingresso de um ex-detento ao mercado de
trabalho é ainda mais difícil, Bruno viajou ilegalmente para o
Paraguai para tentar iniciar uma nova vida. Após alguns dias
perambulando pela cidade de Assunção sem qualquer êxito,
Bruno tomou conhecimento de que a cidade estava sediando
um evento oficial do governo paraguaio no qual o Presidente
do Brasil seria o conferencista do dia. Num ato de revolta contra
a corrupção e demais negligências do governo, Bruno, em
posse de uma arma de fogo, disparou contra o Presidente da
República, sem, no entanto, atingir o alvo. Por absoluta sorte,
conseguiu escapar e evadiu-se novamente para o Brasil, vindo
por fronteira seca a refugiar-se na casa dos pais. Pergunto a
você: sendo o crime praticado em território estrangeiro, será
passível a condenação de Bruno pela lei penal brasileira e no
território nacional?

SITUAÇÃO PROBLEMA
Profª Mônica Goulart

Direito Penal – Parte Geral


Art. 5º. Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e
regras de direito internacional, ao crime cometido no território
nacional.
§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território
nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública
ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem
como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de
propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço
aéreo correspondente ou em alto-mar.
§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de
aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada,
achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em vôo no
espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do
Brasil

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Direito Penal – Parte Geral


LEI PENAL NO ESPAÇO
VALIDADE DA LEI PENAL
1. TERRITORIALIDADE - Aplica-se a lei brasileira, ao crime cometido no
território nacional. REGRA
“Sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito
internacional”
Exceções:
a) Brasileiro que comete crime no exterior – aplica-se a lei
brasileira;
b) Estrangeiro que comete crime no Brasil que vão
responder pela lei do país de origem.
Princípio adotado no art. 5º do CP: Teoria da territorialidade
temperada (imunidades diplomáticas, parlamentares de
outro país, etc)

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Direito Penal – Parte Geral

Art. 5º § 1º - TERRITÓRIO POR EXTENSÃO. Para os efeitos penais, consideram-se


como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de
natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem,
bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade
privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em
alto-mar.

EMBARCAÇÕES E AERONAVES BRASILEIRAS

De natureza Pública ou a serviço do governo brasileiro: aplica-se a lei


brasileira em qualquer lugar onde se encontre.

Mercantes ou de propriedade privada: em alto mar e espaço aéreo


correspondente – Aqui não há soberania de qualquer país.

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Direito Penal – Parte Geral


§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de
aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada, achando-se
aquelas em pouso no território nacional ou em vôo no espaço aéreo
correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil

EMBARCAÇÕES E AERONAVES ESTRANGEIRAS

Natureza Pública ou a serviço do governo: aplica-se a lei da


bandeira da aeronave ou embarcação.

 Propriedade privada: a) Pouso ou voo no Brasil


b) Porto ou mar territorial brasileiro
APLICA-SE A LEI BRASILEIRA

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EXTRATERRITORIALIADADE DA LEI PENAL

Art. 7º do CP: Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no


estrangeiro

 Modalidades de extraterritorialidade:
 - Incondicionada (art. 7º, inciso I)
 - Condicionada (art. 7º, inciso II)

 ATENÇÃO! Art. 2º da Lei de Contravenções Penais (DECRETO-


LEI Nº 3.688/41) - A lei brasileira só é aplicável à contravenção
praticada no território nacional.

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EXTRATERRITORIALIDADE INCONDICIONADA – art. 7º, I do CP


 O agente será punido com a lei brasileira independente de
ser punido ou não no exterior.

 Hipóteses:
1. Crimes praticados:
a) Contra a vida ou liberdade do Presidente da República
(Princípio real, da defesa ou de proteção).
b) Contra o patrimônio ou fé pública da União, Distrito Federal,
Estados, Municípios, de empresa pública, sociedade de
economia mista, autarquias, fundações públicas. (são os
crimes dos artigos 155 a 180 e 289 a 311-A do CP)
c) Contra a administração pública no exterior por quem está a
seu serviço (artigos 312 a 326 c/c 327 do CP).

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DIREITO PENAL – PARTE GERAL

 d) crimes de genocídio ( extermínio, no todo ou em parte,


de grupo nacional, étnico, racial ou religioso), Lei 2.889/56:
praticado por brasileiro ou domiciliado no Brasil.

EXTRATERRITORIALIDADE CONDICIONADA – art. 7º, II do CP


 será aplicada a lei brasileira aos fatos ocorridos no
estrangeiro. Hipóteses:
a) Crimes que o Brasil tenha se obrigado por tratado ou
convenção a punir.
b) Quando praticados por brasileiros;
c) Praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras
(mercantes ou privadas) desde que não forem julgados lá
fora

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Condições - art. 7 § 2º do CP (rol cumulativo)
a) entrar o agente no território nacional;
b) ser o fato punível também no país em que foi praticado;
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei
brasileira autoriza a extradição (os crimes têm que ser
punido com reclusão e a sua pena precisa suplantar 1
(um) ano – art. 77 do Estatuto do Estrangeiro, Lei n.º
6.815/80).
d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter
aí cumprido a pena;
e) Não tenha sido perdoado ou extinta a punibilidade (no
Brasil ou no exterior)

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Extraterritorialidade hipercondicionada: § 3º - A lei brasileira aplica-se
também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do
Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior :
 a) não foi pedida ou foi negada a extradição;
 b) houve requisição do Ministro da Justiça.

Órgão jurisdicional competente para a aplicação da lei penal brasileira, bem


como o território para o processo e julgamento.
 De acordo com o STJ, compete à Justiça Estadual a aplicação da nossa lei
brasileira.

Para identificar em que comarca será o feito processado e julgado, mister se


faz recorrer ao artigo 88 do CPP, que dispõe:
“No processo por crimes praticados fora do território brasileiro, será
competente o juízo da Capital do Estado onde houver por último residido o
acusado. Se este nunca tiver residido no Brasil, será competente o juízo da
Capital da República”.

Problematizando
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LUGAR DO CRIME – ART. 6º

Tema importante para fixar qual a competência para o


julgamento do crime. Fixar competência significa atribuir à
autoridade competente a função de apurar e de julgar o
delito.

Algumas teorias buscam estabelecer o “lugar do crime”,


vejamos:

TEORIA DA ATIVIDADE :Também com o nome de “teoria da


ação”, o lugar do crime é aquele em que ocorre a conduta
(dolosa ou culposa). Local onde se pratica a ação ou omissão.

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Direito Penal – Parte Geral

 TEORIA DO RESULTADO
O lugar do crime é aquele em que o resultado foi produzido,
não se importando o local da ação ou da omissão.
Recebe também o nome de teoria do evento ou do efeito.

 TEORIA DA UBIQUIDADE OU MISTA


Refere-se como lugar do crime aquele em que ocorre a
conduta (dolosa ou culposa) ou é aquele em que o
resultado foi produzido e esta é a teoria adotada pelo
Código Penal.

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DIREITO PENAL -PARTE GERAL

 TEORIA ADOTADA NO BRASIL: Art. 6º - Considera-se praticado o


crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em
parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o
resultado.

 LUGAR DO CRIME - DIFERENÇA COM O CÓDIGO DE PROCESSO


PENAL

 O Código de Processo Penal em seu artigo 70 fixou a competência


pela Teoria do Resultado, ou seja, estabeleceu ser competente o
local onde o delito se consumou.

CPP - Art. 70 – “A competência será, de regra, determinada pelo


lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa,
pelo lugar em que for praticado o último ato de execução”.
DIREITO PENAL – PARTE GERAL

 Não há conflito, pois o Código Penal trata dos crimes à


distância (crimes onde a ação e resultado ocorrem em
lugares diversos) enquanto que o Código de Processo
Penal trata dos crimes plurilocais.

 O referido artigo 6° tem aplicação no denominado Direito


Penal Internacional e visa resolver os conflitos existentes
na aplicação da lei penal no espaço. Quando um crime
tem início no Brasil e termina no Paraguai, ou vice-versa.

 O artigo 70 do CPP resolve o conflito de competência dos


crimes plurilocais (crimes que se desenvolvem
exclusivamente no território nacional).
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EFICÁCIA DE SENTENÇA ESTRANGEIRA – ART. 9º DO CP
A sentença estrangeira pode ser homologada no Brasil, mediante as
condições:

a) quando a lei brasileira produz os mesmos efeitos da lei estrangeira


b) Súmula 420 STF: Trânsito em julgado da sentença estrangeira no país de
origem.

Hipóteses:

obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e a outros efeitos


civis + pedido da parte interessada ( art. 9º , inciso I e Parágrafo único alínea
“a”)

 aplicação de medida de segurança (no Brasil) : Desde que exista tratado de


extradição entre o país de onde vem a sentença , ou na falta, requisição do
Ministro da Justiça (Art. 9º, inciso II e parágrafo único “b”).
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Quem homologa a sentença estrangeira: STJ - art. 105, I, “i”.


(antes era o STF)

Sentença homologada no Brasil tem força de título executivo


judicial (art. 515, VIII CPC/2015).

PENA CUMPRIDA NO ESTRANGEIRO

 Art. 8º - A pena cumprida no estrangeiro atenua a


pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando
diversas, ou nela é computada, quando idênticas.

 Este artigo visa evitar a dupla punição do agente –


NE BIS IN IDEM.
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 Aplicável no caso de extraterritorialidade - Art. 7º do CP

 Condicionada (II) - A pena uma vez cumprida no


estrangeiro o Brasil não tem interesse em punir.

 Incondicionada (I) -
 Idênticas (ex. pena privativa de liberdade em ambos
os países) - compensação
 Diversas (ex. multa no exterior e privativa de
liberdade no Brasil) – atenuada (a critério do Juiz)