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DIREITO PENAL III

Profª Cristiane Magalhães Ribeiro


Especialista em Direito Processual Penal

1
CRIMES CONTRA A PESSOA
Crimes contra a vida
Lesões corporais
Periclitação da vida e da saúde
Rixa
Crimes contra a honra
Crimes contra a liberdade individual

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CRIMES CONTRA A VIDA

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FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL
O direito à vida está consagrado no art. 5º
“caput” da CF/88 como direito fundamental
do ser humano.

Questionamento: o direito à vida é absoluto


ou relativo? Ele pode sofrer limitações?

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No tocante à relatividade dos direitos
fundamentais, manifestou o STF em decisão ao
afirmar que os direitos e garantias individuais
não têm caráter absoluto.
Ex.: A CF/88 autoriza a privação da vida humana
quando permite a pena de morte em tempo de
guerra (art. 5º, inc. XLVII, alínea “a”) ou quando o
Código Penal afasta a ilicitude do fato típico
praticado em legítima defesa (art. 25),
justificando a morte daquele que agride uma
pessoa na intenção de matá-la, além de permitir
o aborto em duas hipóteses (art. 128).
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CRIMES CONTRA A VIDA
NO CPB
HOMICÍDIO
PARTICIPAÇÃO EM SUICÍDIO
INFANTICÍDIO
ABORTO

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PROTEÇÃO JURÍDICA
Buscou o CP proteger integralmente o direito
à vida do ser humano, desde a sua concepção,
ou seja, previamente ao seu nascimento.

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COMPETÊNCIA
 Crimes dolosos contra a vida são julgados pelo
TRIBUNAL DO JÚRI, por força do art. 5º, inc.
XXXVIII, alínea “d” CF/88 e art. 74, § 1º, CPP.
Procedimento bifásico – judicio causae e judicio
acusationis - artigos 406 ao 497, CPP.
 Exceção: o homicídio culposo (art. 121, par. 3º CP
– rito sumário – art. 394, par. 1º, inc. II, CPP), cuja
ação tramita perante o juiz singular ou
monocrático.
 Ação penal é pública incondicionada.
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HOMICÍDIO

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CONCEITO DE HOMICÍDIO

“Homicídio é a supressão da vida humana


extrauterina praticada por outra pessoa” (Cleber
Masson).

“O núcleo matar diz respeito à ocisão da vida de


um homem, por outro homem. Alguém deve ser
entendido como o ser vivo, nascido de mulher”
(Rogério Greco).
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PREVISÃO LEGAL
(ver artigos)
 No Código Penal: art. 121 e parágrafos CP.

 No Código de Trânsito Brasileiro: art. 302.

 No Código Penal Militar: art. 205.

 Na Lei de Segurança Nacional: art. 29, Lei nº 7170/83.

 Genocídio (crime contra a humanidade) na Lei nº


2889/56: art. 1º, al. “a”.

 Genocídio no CPM: art. 208.


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CLASSIFICAÇÃO
O Homicídio é um crime:

 Simples
 Comum
 Material
 De dano
 Executado de forma livre
 Não transeunte
 Comissivo (regra) ou omissivo impróprio (exceção – art.
13, par.2º CP – garante – ver artigo).
 Instantâneo de efeitos permanentes
 Unissubjetivo (refere-se ao número de agentes)
 Plurissubsistente (refere-se ao número de atos)
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CARACTERÍSTICAS DO HOMICÍDIO
 Bem jurídico: proteção à vida humana extrauterina.
 Sujeitos: ativo (qualquer pessoa), passivo (qualquer
pessoa).
 Tipo subjetivo: dolo (animus necandi ou occidendi), que
pode ser direto ou eventual, ou culpa.
 Consumação: ocorrência da morte de pessoa. O art. 3º da
Lei nº 9434/97 afirma que o momento da morte ocorre
com a morte encefálica.
 Admite a tentativa (art. 14, inc. II CP), exceto o homicídio
culposo.
 Tentativa branca (incruenta) ou tentativa vermelha
(cruenta).
 Tentativa perfeita ou tentativa imperfeita.
 Objeto material: o ser humano.
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 Meios de execução: materiais (ex.: ferimentos
com arma de fogo ou faca) ou morais (ex.: morte
produzida por trauma psíquico na vítima,
agravando uma doença preexistente que a leva à
morte, susto, medo), diretos (tiros com arma de
fogo) ou indiretos (ataque de animais ou loucos).
 Exame de corpo de delito (direto ou indireto): art.
158 CPP.
 Autópsia – feita pelo menos seis horas após o
óbito, salvo se for evidente os sinais da morte
(art. 162 CPP).
 Exumação: art.163 CPP (autorizada pelo delegado
ou pelo juiz).
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 Motivos do

ESTRUTURA DO HOMICÍDIO crime (incisos


I e II).
 Meios e
modos de
execução
(incisos III e
 Simples (caput) IV)
 Privilegiado (§.1º)  Fins (conexão
- inciso V)
Doloso  Qualificado (§.2º)  Feminicídio
 Circunstanciado (§. 4º, (inciso VI)
2ª parte).  Contra
HOMICÍDIO autoridade
ou agente –
inciso VII(art.
 Simples (§ 3º) 142 e 144
Culposo  Circunstanciado (par. CF/88)
4º, 1ª parte)
 Perdão judicial (par.  CAP quando
5º). praticado
por milícia
privada ou
grupo de
extermínio
(par. 6º) 15
HOMICÍDIO SIMPLES
 Previsão legal: art. 121 caput CP.
 Pena: reclusão, 6 a 20 anos.
 Prevê somente o dolo (animus necandi ou
occidendi), como elemento subjetivo (dolo direto
ou dolo eventual), não havendo a previsão de
elemento subjetivo especial (finalidade
específica).
 Homicídio simples considerado hediondo: art. 1º,
inc. I da Lei nº 8072/90 (Lei dos Crimes
Hediondos) – quando praticado em atividade
típica de grupo de extermínio.
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 Questão importante é saber o que vem a ser atividade
típica de grupo de extermínio, pois somente nessa
condição o agente responde, mesmo agindo
solitariamente, nos termos da Lei dos Crimes Hediondos
e suas restrições.

 Nas lições de Cezar Roberto Bitencourt:


 Extermínio é a matança generalizada, é a chacina que
elimina a vítima pelo simples fato de pertencer a
determinado grupo ou determinada classe social ou
racial. Caracteriza-se a ação de extermínio mesmo que
seja morta uma única pessoa, desde que se apresente a
impessoalidade da ação, ou seja, pela razão exclusiva de
pertencer ou ser membro de determinado grupo social,
ético, econômico, étnico etc.
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 Parte da doutrina não acredita que na prática o homicídio
simples como hediondo, tal como foi tipificado, será viável.

 Crítica do emérito Professor Guilherme de Souza Nucci:

“A atividade típica de grupo de extermínio sempre foi


considerado pela nossa jurisprudência amplamente
majoritária um crime cometido por motivo torpe. O sujeito
que se intitula justiceiro atua por conta própria eliminando
vidas humanas certamente age com desmedida indignidade.
Eventualmente, costuma-se sustentar, é possível que o
agente mate outra pessoa, em atividade típica de grupo de
extermínio, para preservar um bairro de ignóbil traficante de
drogas. Ora, se assim for, sua motivação faz nascer o
relevante valor social, que privilegia o homicídio, aplicando-se
a regra do 1º do art. 121, e não a figura básica do caput”.

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JURISPRUDÊNCIA DO STJ
 Na linha deste entendimento, o Superior Tribunal de
Justiça julgou Habeas Corpus onde policiais militares
haviam sido denunciados como incursos no artigo
121, 2º, incisos IV e V do Código Penal.
 HABEAS CORPUS Nº 104.083 - GO (2008/0077480-7)
 EMENTA:
 HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. HOMICÍDIO
DUPLAMENTE QUALIFICADO (À TRAIÇAO E PARA
ASSEGURAR A IMPUNIDADE EM OUTRO CRIME).
RÉUS POLICIAIS MILITARES (7 NO TOTAL). PEDIDO
EXTENSIVO A CO-RÉUS. ATIVIDADE DE GRUPO DE
EXTERMÍNIO. PRISAO PREVENTIVA (EM 14.02.2008)
JUSTIFICADA. MOTIVAÇAO IDÔNEA.ORDEM
DENEGADA. 19
HOMICÍDIO PRIVILEGIADO
 Previsão legal: art. 121, par. 1º CP.
 Redução: 1/6 a 1/3.
 Circunstâncias: relevante valor social (interesse coletivo –
agente revoltado com político corrupto) ou moral
(interesse particular – eutanásia, pai que mata o
estuprador da filha) ou sob o domínio da violenta
emoção, logo após a injusta provocação da vítima (crime
de ímpeto – reação imediata).
 Natureza jurídica: causa de diminuição de pena.
 Emoção e a paixão não excluem a imputabilidade (art. 28,
inc. I CP).
 A emoção deve ser intensa, violenta, capaz de alterar o
estado de ânimo do agente a ponto de tirar-lhe a
seriedade.
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 Injusta provocação da vítima. Ex.: brincadeiras
indesejadas e inoportunas, injúria real, flagrante de
adultério, pilhérias, insultos, etc.
 Incomunicabilidade do privilégio - Caráter subjetivo –
não se comunica aos demais coautores ou partícipes do
crime por força do art. 30 CP.
 Homicídio privilegiado é compatível com as
qualificadoras objetivas do homicídio (art.121, par. 2º,
incs. III e IV CP) – posição do STF e STJ (precedente STJ,
HC 129726/MG, Dj 09/05/2011). Porém é incompatível
com a qualificadora objetiva quanto ao modo de
execução “à traição” ou “emboscada” (Guilherme Nucci).
 Questionamento: o homicídio privilegiado-qualificado
(híbrido) é crime hediondo? A doutrina majoritária
entende que não. Precedente STJ, HC 153728,
j.13/04/2010.

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DOMÍNIO DE VIOLENTA EMOÇÃO X INFLUÊNCIA DE
VIOLENTA EMOÇÃO

DOMÍNIO é privilegiadora, ou seja, é causa


especial de diminuição de pena – 3ª fase do
critério trifásico da dosimetria da pena. Art.
121, par. 1º CP.

INFLUÊNCIA é atenuante – 2ª fase do critério


trifásico da dosimetria da pena. Art. 65, inc. III,
al. “c” CP. Não se exige o requisito temporal
“logo em seguida”.
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HOMICÍDIO QUALIFICADO

Previsão legal: art. 121, par. 2º, incisos I a V, CP.


Pena: reclusão, 12 a 30 anos.

Homicídio qualificado e crimes hediondos: art.


1º, inc. I, parte final da Lei nº 8072/90.

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ESPÉCIES DE QUALIFICADORAS
I – mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro
motivo torpe;
II – por motivo fútil;
III – com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou
outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum;
IV – à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro
recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;
V – para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou
vantagem de outro crime;
VI – contra a mulher por razões da condição de sexo feminino;
VII – contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144,
CF/88, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de
Segurança Pública, ou contra seu cônjuge, companheiro ou
parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição.
24
NÃO ESQUECER!
 As qualificadoras dos incisos I, II (motivos
determinantes), V (conexão - fins), VI (feminicídio)
e VII (agentes do sistema de segurança pública) são
de índole subjetiva e não se comunicam aos
coautores e partícipes – art. 30, CP.
 As qualificadoras dos incisos III e IV (modos ou
meios de execução) são de índole objetiva e
comunicam-se aos coautores e partícipes, desde
que conhecidas – art. 30, CP. Nesses incisos é
possível o homicídio privilegiado-qualificado,
exceto (traição e emboscada).
 É possível haver compatibilidade de qualificadora
subjetiva com qualificadora objetiva.
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MEDIANTE PAGA OU PROMESSA DE
RECOMPENSA
Homicídio mercenário.
A paga acontece com o recebimento anterior
ao cometimento do crime.
A promessa ocorre com a expectativa do
recebimento da recompensa após a prática do
delito. Crime bilateral (mandante e executor).

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MOTIVO TORPE
É o motivo vil, repugnante, abjeto, asqueroso,
moralmente reprovável.
Ex.: matar um parente para ficar com a
herança, matar por vingança.

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MOTIVO FÚTIL
 É o motivo insignificante, de pouca importância,
desarrazoado, completamente desproporcional à
natureza do crime praticado.
 Conduta que reflete o egoísmo intolerante e
prepotente, a mesquinhez.
 Ex.: age com motivo fútil o marido que mata a esposa
por não passar adequadamente uma peça do seu
vestuário.
 Motivo fútil não é motivo injusto (peso do direito penal
sobre o sujeito passivo caracteriza uma injustiça).
 O ciúme não é motivo fútil (STF).
 Discussão e futilidade (incompatibilidade).
 A torpeza e a futilidade são incompatíveis.
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Questionamento: a ausência de motivo
caracteriza o motivo fútil?

A doutrina diverge.
A jurisprudência do STJ entende que a
ausência de motivo não caracteriza a
futilidade (precedentes HC 91.747, de
15/05/2009 e HC 152548, de 25/04/2011).

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EMBRIAGUEZ e MOTIVO FÚTIL
 Rogério Greco afirma “no que pese o estado de
embriaguez possa, em tese, reduzir ou eliminar a
capacidade do autor de entender o caráter ilícito
do fato, tal circunstância não afasta o
reconhecimento da eventual futilidade de sua
conduta. Art. 28, inc. II CP). Precedentes do STJ
(Resp 908396/MG, de 30/03/2009).
 Cleber Masson diz que “a embriaguez é
incompatível com o motivo fútil. O embriagado
não tem pleno controle do seu modo de agir,
afastando assim a futilidade da força que o impele
a transgredir a norma penal”.
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EMPREGO DE VENENO, FOGO, EXPLOSIVO, ASFIXIA,
TORTURA OU OUTRO MEIO INSIDIOSO OU CRUEL, OU DE
QUE POSSA RESULTAR PERIGO COMUM
Veneno é a substância de origem química ou
biológica capaz de provocar a morte quando
introduzida no organismo humano.
Fogo é o resultado da combustão de produtos
inflamáveis, da qual decorrem calor e luz.
Explosivo é o produto com capacidade de
destruir objetos em geral, mediante detonação
e estrondo. Ex.: explodir um carro matando a
vítima.
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 Asfixia é a supressão da função respiratória, com origem
mecânica ou tóxica.
 A asfixia mecânica pode ser:
a) Estrangulamento (utilização de corda ou arame no
pescoço da vítima).
b) Esganadura (uso das mãos, pés, braços do agressor).
c) Sufocação (colocação de saco plástico na garganta da
vítima).
d) Enforcamento (produzido pelo próprio peso da vítima;
forca).
e) Afogamento (afundar a vítima na piscina até a morte).
f) Soterramento (enterrar uma pessoa com vida).
g) Imprensamento (colocação de peso sobre o diafragma da
vítima).

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A asfixia tóxica pode ser:

a) Uso de gás asfixiante ou inalação (prender a


vítima em um ambiente fechado e abrir a
torneira do gás de cozinha).
b) Confinamento (colocação da vítima em
recinto fechado sem renovação do ar, até
causar a morte).

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Tortura é qualquer ato pelo qual dores ou
sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são
infligidos intencionalmente a uma pessoa.
A tortura pode ser física ou moral.
O homicídio qualificado pela tortura
caracteriza-se pela morte dolosa. O agente
utiliza a tortura para provocar a morte da
vítima (art. 121, par. 2º III, CP).
A tortura com resultado morte é crime de
tortura (preterdoloso) disposto no art. 1º, par.
3º da Lei nº 9455/97.
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 Meio insidioso é o que consiste no uso de perfídia,
de fraude para cometer um crime sem que a
vítima o perceba. Ex.: retirar o óleo dos freios de
um veículo para provocar um acidente fatal.
 Meio cruel é o que proporciona à vítima um
intenso e desnecessário sofrimento físico e mental.
Meio bárbaro, martirizante e brutal. Ex.: matar
alguém lentamente com inúmeros golpes de faca.
 Emprego de meio cruel após a morte da vítima
caracteriza homicídio simples ou qualificado em
concurso com crime de destruição parcial ou total
de cadáver (art. 211, CP).
 A multiplicidade de golpes, por si só, não é capaz
de autorizar a imposição da qualificadora do
emprego do meio cruel.
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Meio que possa resultar perigo comum é
aquele que expõe não somente a vítima, mas
também um número indeterminado de
pessoas a uma situação provável de dano.
Ex.: diversos tiros certeiros contra a vítima
quando se encontrava em movimentada via
pública. Conduzir veículo em via pública a 170
Km/h. Incendiar a casa em que a vítima está,
expondo a perigo de dano outras pessoas.

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À TRAIÇÃO, DE EMBOSCADA, OU MEDIANTE
DISSIMULAÇÃO OU OUTRO RECURSO QUE DIFICULTE
OU TORNE IMPOSSÍVEL A DEFESA DO OFENDIDO

À traição (homicidium proditorium) ocorre com


a agressão súbita e sorrateira, atingindo a
vítima desprevenida. Relação de confiança
preexistente e o agente dela se aproveita para
praticar o crime.
A traição pode ser física (atirar pelas costas) ou
moral (atrair a vítima para um precipício).
Atenção: atirar pelas costas (traição) # atirar
nas costas (a vítima não sofre traição).
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 Emboscada é a tocaia, a espreita. Ex.: o agente
espera a vítima às escondidas para atacá-la.
 Dissimulação é a atuação disfarçada, que oculta a
real intenção do agente.
 A dissimulação pode ser material (farda policial)
ou moral (demonstração de falsa amizade).
 Outro recurso que dificulte (a vítima tem alguma
possibilidade de defesa) ou torne impossível a
defesa da vítima (não há possibilidade de defesa
pela vítima). Ex.: matar a vítima com surpresa,
enquanto dorme, quando está embriagada, em
caso de superioridade numérica de agentes
(linchamentos).
38
NÃO ESQUECER!

A superioridade de armas ou o emprego de


arma contra a vítima desarmada, por si só, não
qualifica o homicídio, pois exige-se também a
surpresa no ataque.

39
COMPATIBILIDADE DE QUALIFICADORA SUBJETIVA COM
QUALIFICADORA OBJETIVA

 STJ, HC 166784/MT.
 Ementa: HABEAS CORPUS. PRONÚNCIA. HOMICÍDIO.
QUALIFICADORAS DE SURPRESA E MOTIVO TORPE.
ADMISSIBILIDADE. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA.
SOBERANIA DO JÚRI. Esta Corte firmou entendimento
de que só podem ser excluídas da sentença de
pronúncia as circunstâncias qualificadoras
manifestamente improcedentes, sem amparo nos
elementos dos autos, uma vez que não se deve usurpar
do Tribunal do Júri o pleno exame dos fatos da causa.
Publicado em 14/11/2011.

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TJ/RS, APELAÇÃO 70046740684/RS.
Ementa: ECA . ATO INFRACIONAL. HOMICÍDIO.
MOTIVO FÚTIL. SURPRESA. MEIO CRUEL.
AUTORIA E MATERIALIDADE. AUSÊNCIA DE
CIRCUNSTÂNCIA EXCLUDENTE. SOLIDEZ DA
PROVA COLIGIDA. Restando cabalmente
comprovadas a autoria e a materialidade do ato
infracional, imperioso o juízo de procedência da
representação e a aplicação da medida
socioeducativa compatível não apenas com a
condição pessoal dos infratores, mas também
com a gravidade do ato infracional praticado.
Publicado em 02/03/2012.
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PARA ASSEGURAR A EXECUÇÃO, A OCULTAÇÃO, A
IMPUNIDADE OU VANTAGEM DE OUTRO CRIME (fins)

Segundo Rogério Greco “toda vez que for


aplicada a qualificadora em estudo, o
homicídio deverá ter relação com outro crime,
havendo, portanto, a conexão.
A conexão poderá ser:
a) Conexão Teleológica, na qual o homicídio é
praticado para assegurar a execução de outro
crime. Ex.: matar o segurança de um empresário
para em seguida sequestrá-lo. Concurso
material.
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b) Conexão Consequencial existirá quando o
homicídio for cometido para assegurar a ocultação, a
impunidade ou a vantagem de outro crime.
 Na ocultação o agente pretende impedir que se descubra a
prática do crime anterior. Ex.: após furtar um
estabelecimento, o ladrão, encapuzado, mata uma
testemunha que presenciou o furto.
 Na impunidade o agente deseja evitar a punibilidade do
crime anterior. Ex.: estuprar uma mulher e depois matá-la
para que não se descubra a autoria do estupro.
 Na ocultação e na impunidade não é necessário que tenha
sido o homicida o responsável pelo outro crime, que pode
ter sido praticado por terceiro.

43
Assegurar a vantagem de outro crime.
Vantagem é tudo o que se auferiu com o outro
crime: seu produto, seu preço, seu proveito.
Ex.: matar o coautor de extorsão mediante
sequestro para ficar com todo o valor recebido
a título de resgate.

44
NÃO ESQUECER!
Na qualificadora da conexão, em todas as suas
hipóteses, é irrelevante o tempo decorrido
entre o homicídio e o outro crime.
Portanto, incidirá a qualificadora da conexão
se o delito tiver sido cometido há muito tempo
e, anos depois, o agente matar uma
testemunha até então desconhecida e que iria
depor em desfavor dele.
Ver artigo 108, 2ª parte, CP (mesmo que tenha
ocorrido a prescrição do crime anterior
conexo, o homicídio será qualificado pela
conexão).
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FEMINICÍDIO
Art. 121, § 2º, inc. VI: contra mulher por razões da
condição de sexo feminino.
Art.121, §2-A: Considera-se que há razões de
condição de sexo feminino quando o crime envolve:
I – violência doméstica e familiar (art. 5º, Lei
11340/2006);
II – menosprezo (sentimento de aversão,
repugnância a uma pessoa do sexo feminino) ou
discriminação à condição de mulher (tratar de
forma diferente, distinguir pelo fato da condição de
mulher da vítima).
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Art. 121, §2º, inc. VII: CONTRA AUTORIDADE
(delegado federal ou civil) OU AGENTE DESCRITO
NOS ART.142 (forças armadas) E 144, CF/88
(policiais), SISTEMA PRISIONAL, FORÇA
NACIONAL, NO EXERCÍCIO DA FUNÇÃO OU EM
DECORRRÊNCIA DELA, OU CONTRA SEU CONTRA
SEU CÔNJUGE, COMPANHEIRO OU PARENTE
CONSANGUÍNEO ATÉ TERCEIRO GRAU, EM
RAZÃO DESSA CONDIÇÃO.

47
Pluralidade de qualificadoras: o juiz deverá
utilizar uma delas para qualificar o crime e as
demais serão agravantes genéricas. Posição
majoritária da doutrina e posição pacífica do
STF e do STJ (precedente STJ, HC 185436/CE,
Dj 15/06/2011).
Homicídio e parentesco: agravante genérica
(art. 61, inc. II, al. “e”, CP).
Qualificadoras e crime tentado:
compatibilidade.

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QUALIFICADORAS E DOLO EVENTUAL
 Para a doutrina algumas qualificadoras (motivo torpe,
motivo fútil e emboscada) são incompatíveis.
 O STF e o STJ concluíram pela possibilidade de
coexistência do dolo eventual com as qualificadoras do
motivo torpe e do motivo fútil no homicídio. Precedente
STF, HC 95136/PR, j.01/03/2011.
 Entretanto, o STF entende que o dolo eventual é
incompatível com a qualificadora do art. 121, par. 2º,
inc. IV (traição ou emboscada). Precedente STF , RHC
92571/DF, j. 30/06/2009.

 A premeditação no homicídio: circunstância judicial para


a dosimetria da pena-base (art. 59, CP).
49
CAUSAS DE AUMENTO DE PENA NO HOMICÍDIO
DOLOSO
Previsão legal: art. 121, par. 4º, 2ª parte, CP.
Aumento: 1/3.
São circunstâncias legais especiais de
aplicação obrigatória aplicáveis a qualquer
tipo de homicídio doloso.
Idade da vítima ao tempo do crime (art. 4º, CP
– teoria da atividade): pessoa menor de 14
anos (ECA) ou pessoa maior de 60 anos (Lei nº
10741/2003).
50
• Causa de aumento de pena - art. 121, § 6º,
CPB: a pena é aumentada de 1/3 até a metade
se o crime for praticado por milícia privada
(grupo paramilitar que impõe regime de
terror), sob o pretexto de prestação de serviço
de segurança, ou por grupo de extermínio
(justiceiros que promovem a limpeza social).
• Art. 288-A, CPB (constituição de milícia
privada).

51
• Causa de aumento de pena - art. 121, § 7º,
CPB: a pena do feminicídio é aumentada de
1/3 até a metade se o crime for praticado:
I – durante a gestação ou nos três meses
posteriores ao parto;
II – contra pessoa menor de 14 anos, maior de
60 anos ou com deficiência;
III – na presença de descendente ou de
ascendente da vítima.

52
NÃO ESQUECER!
 Homicídio praticado por policial militar contra civil –
competência do Tribunal do Júri – art. 125, § 4º CF/88.
 Transmissão dolosa do vírus HIV. Segundo Rogério Greco,
trata-se de homicídio consumado (morte) ou homicídio
tentado (morte tentada). O mesmo decidiu o STJ
(precedente STJ, HC 9378/RS). Para o STF trata-se da
ocorrência do crime perigo de contágio de moléstia grave
(art. 131, CP). Precedente STF, HC 98712/SP, j.27/04/2010.
 Julgamento pelo Júri sem a presença do réu solto: é
possível, segundo art. 457, CPP.
 Concurso material de homicídio e aborto quando a vítima
for mulher grávida e o agente for ciente do estado de
gravidez e desejar também o aborto. Precedente TJMG,
Processo 1.0433.04.138531-4/001, p.19/04/2006.

53
HOMICÍDIO CULPOSO
 Previsão legal: art. 121, par. 3º CP.
 Pena: detenção de 1 a 3 anos.
 Ocorre quando o agente realiza uma conduta
voluntária, com violação ao dever objetivo de
cuidado por imprudência (ação), negligência
(omissão) e imperícia, produzindo resultado
naturalístico (morte) involuntário, não previsto
nem querido, mas previsível, que devia com a
devida atenção ter evitado.
 Não admite a tentativa.
54
 Imprudência, ou culpa positiva, consiste na prática de
um ato perigoso. Ex.: manusear arma de fogo
carregada em local de grande concentração de
pessoas.
 Negligência, ou culpa negativa, é deixar de fazer aquilo
que a cautela recomendava. Ex.: deixar uma arma de
fogo carregada ao alcance de uma criança. A mãe que
deixa de amamentar o filho de forma negligente.
 Imperícia, ou culpa profissional, é a falta de aptidão
para o exercício de arte, profissão ou ofício para o qual
o agente, mesmo quando autorizado a exercê-la, não
possui conhecimentos teóricos e práticos para tanto.
Ex.: cirurgião plástico que mata sua paciente por falta
de habilidade para realizar o procedimento médico.

55
JURIS - NEGLIGÊNCIA MÉDICA
TJ/MG Proc.1.0384.00.008361-6/001, DJ
22/06/2007.
Ementa: Responde pelo delito previsto no art.
121, §§ 3º e 4º, CP, e não pelo delito de omissão
de socorro (art. 135, CP) o médico que, estando
de plantão e, de sobreaviso em sua residência, é
acionado, mas negligentemente deixa de
comparecer ao hospital, ministrando, por
telefone, medicação.
56
CAUSAS DE AUMENTO DE PENA NO HOMICÍDIO
CULPOSO
Previsão legal: art. 121, par. 4º, 1ª parte, CP.
Aumento: 1/3.
Causas:
a) Inobservância de regra técnica de profissão,
arte ou ofício.
b) Deixar de prestar imediato socorro à vítima.
c) Não procurar diminuir as consequências do
seu ato.
d) Fugir para evitar a prisão em flagrante.
57
INOBSERVÂNCIA DE REGRA TÉCNICA DE
PROFISSÃO, ARTE OU OFÍCIO
O agente é dotado das habilidades necessárias
para o desempenho da atividade, mas por
desídia não as observa.
Ex.: cardiologista que não segue as regras
básicas de uma cirurgia do coração.

58
DEIXAR DE PRESTAR IMEDIATO SOCORRO À
VÍTIMA
 Causa de aumento fundada na falta de
solidariedade humana.
 Ex.: José deixa uma arma de fogo municiada em
local acessível a uma criança, que dela se apodera
e efetua disparo contra a própria cabeça. José não
conduz a criança ao hospital e ela vem a morrer.
 Não tem cabimento a causa de aumento de pena
quando ocorrer a morte instantânea da vítima ou
quando o sujeito não teve condições de socorrer a
vítima, seja por questões físicas (também foi ferido
pela conduta que matou a vítima), seja porque o
comportamento exigido em lei a ele representava
risco pessoal. Ex.: ameaça de linchamento. É a
posição do STJ Resp 277.403/MG, j.04/06/2002. 59
Questionamento: a causa de aumento incidirá
quando o socorro da vítima for prestado por
terceiro?

60
A doutrina sustenta ser inadmissível, exceto se
o responsável da conduta deixou
voluntariamente de socorrer a vítima.
Ex.: fugiu depois de atingir acidentalmente o
ofendido.
Quando o responsável pelo homicídio culposo
presta socorro à vítima não se aplica a
atenuante genérica do art. 65, inc. III, al. “b”,
CP. Na mesma esteira o STJ – precedente HC
65.971/PR, j.13/09/2007.

61
NÃO PROCURA DIMINUIR AS CONSEQUÊNCIAS
DO SEU ATO
Trata-se de desdobramento normal da causa
de aumento de pena anterior.
Ex.: O agente, ameaçado de linchamento, não
prestou imediato socorro ao ofendido, o que
era justificável. Entretanto, afastou-se do local
do crime e não pediu auxílio da autoridade
pública.

62
FUGIR PARA EVITAR A PRISÃO EM FLAGRANTE

Visa assegurar a impunidade.


Causa de aumento de pena de duvidosa
constitucionalidade.

63
HOMICÍDIO CULPOSO E PERDÃO JUDICIAL
 Previsão legal: art. 121, par. 5º, CP.
 Efeito: o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as
consequências da infração atingirem o próprio agente de forma
tão grave que a sanção penal se torne desnecessária.
 Natureza jurídica: causa de extinção da punibilidade (art. 107,
inc. IX, CP).
 Direito subjetivo do réu e ato unilateral do juiz.
 Admissível ao homicídio culposo.
 Súmula 18 do STJ: a sentença que concede o perdão judicial
tem natureza declaratória, não subsistindo qualquer efeito
condenatório.
 Ex.: pai que por negligência esquece o filho de pouca idade no
interior do carro, matando-o.
 Lei nº 9099/95 – o homicídio culposo comporta a suspensão
condicional do processo (art. 89).
64
JURISPRUDÊNCIA
TJ/SP APELAÇÃO 318488120058260114.
Ementa: HOMICÍDIO CULPOSO EXTINÇÃO DA
PUNIBILIDADE PERDÃO JUDICIAL Elementos
nos autos que demonstram a afinidade entre
apelante e vítima a justificar a aplicação do
perdão judicial Além da perda da
companheira, apelante sofreu graves
consequências físicas. Concedido provimento
ao apelo

65
HOMICÍDIO CULPOSO NO TRÂNSITO
 Previsão legal: art. 302, CTB.
 Pena: detenção de 2 a 4 anos e suspensão ou
proibição de se obter a permissão ou a
habilitação para dirigir veículo automotor.
 Incide o CTB quando o homicídio ocorre em vias
públicas ou vias particulares (estacionamentos
privados, postos de gasolina).
 Defende a corrente majoritária da doutrina ser
cabível, em razão de política criminal, o perdão
judicial no homicídio culposo em direção de
veículo automotor. Precedente jurisprudencial
TJPR, AC 0231400-7, DJ 16/10/2003.
66
STJ, HOMICÍDIO CULPOSO E DOLO EVENTUAL

REsp 1279458/MG, j. 04/09/2012.

HOMICÍDIO NO TRÂNSITO. ANÁLISE DOS ELEMENTOS


CONSTANTES NO ACÓRDÃO RECORRIDO. REEXAME DE
MATERIAL FÁTICO/PROBATÓRIO. AUSÊNCIA. DOLO
EVENTUAL x CULPA CONSCIENTE. COMPETÊNCIA.
TRIBUNAL DO JÚRI. RESTABELECIMENTO DA SENTENÇA DE
PRONÚNCIA......
Na hipótese, tendo a provisional indicado a existência de
crime doloso contra a vida - embriaguez ao volante,
excesso de velocidade e condução do veículo na
contramão de direção, sem proceder à qualquer juízo de
valor acerca da sua motivação, é caso de submeter o Réu
ao Tribunal do Júri.

67
PARTICIPAÇÃO EM SUICÍDIO

Art. 122, CP

68
Previsão legal: art. 122, CP.
Pena: reclusão de 2 a 6 anos (consumação do
suicídio) ou reclusão de 1 a 3 anos (se resultar
na vítima que tentou o suicídio a lesão
corporal de natureza grave – hipóteses do art.
129, §§ 1º e 2º, CP).
Causa de aumento de pena: duplicação da
pena em caso de motivo egoístico ou a vítima
é menor ou tem a capacidade de resistência
diminuída por qualquer causa.

69
CLASSIFICAÇÃO
 Crime comum
 De dano
 Comissivo ou omissivo
 Crime material
 Não transeunte
 Condicionado à produção de resultado naturalístico
(não admite a tentativa)
 Simples
 Instantâneo
 De ação múltipla
 Unissubjetivo
 plurissubsistente
70
 Conceito de suicídio: é a destruição deliberada ou
voluntária da própria vida. Autocídio ou
autoquíria.
 Princípio da alteridade: o direito penal está
autorizado a punir os comportamentos que
transcendem a figura do seu autor.
 O suicídio é ilícito, embora não seja criminoso –
art. 146, par. 3º, inc. II, CP (coação para impedir o
suicídio).
 É crime (art. 122, CP) o induzimento, a instigação
ou auxílio ao suicídio, e o consentimento da
vítima é irrelevante face à indisponibilidade do
bem jurídico tutelado (a vida).
71
Objetividade jurídica: direito à vida.
Objeto material: o ser humano que suporta
a conduta criminosa do art. 122, CP.
O suicídio pode ser moral (induzir ou
instigar) ou material (auxiliar).
Sujeito ativo: qualquer pessoa.
Sujeito passivo: qualquer pessoa que
possua um mínimo de capacidade de
resistência.

72
Elemento subjetivo: dolo direto ou eventual.
Não admite a tentativa.
Não há crime quando a vítima sofre lesões
corporais leves ou sai ilesa da tentativa de
suicídio.
ABERRATIO ICTUS: se o agente for atirar
contra si e errar o alvo, vindo a atingir outra
pessoa, responderá por homicídio culposo.

73
AÇÕES NUCLEARES
 Induzir é incutir na mente alheia a ideia de suicídio.
Ex.: João pergunta a Pedro como solucionar os
problemas financeiros, e Pedro responde “suicide-
se e tudo estará resolvido”.
 Instigar é reforçar o propósito suicida preexistente.
Ex.: João diz a Pedro que em face dos problemas
conjugais pretende suicidar-se. Pedro o incentiva a
agir assim.
 Auxiliar é concorrer materialmente e com eficácia
para a prática do suicídio. Ex.: Ciente que Pedro
deseja se suicidar, João lhe empresta uma arma de
fogo municiada.
74
 Omissão de socorro ao suicida: art. 135, CP.
 Auxílio por omissão pode ocorrer desde que
presente o dever de agir para evitar o resultado
(art. 13, § 2º, CP). Ex.: psiquiatra que trabalha
num manicômio, sabe das intenções suicidas de
um paciente e nada faz para impedir o suicídio.
Preso que faz greve de fome na prisão e o diretor
não impede a sua morte. Damásio e Frederico
Marques sustentam ser incabível tal hipótese,
pois prestar auxílio é conduta comissiva,
subsistindo o art. 135, p.único, CP.
 Deve dirigir-se à pessoa ou pessoas
determinadas, não sendo admissível a
participação genérica.
75
PACTO DE MORTE
 Pacto de morte ou suicídio a dois é o acordo
celebrado entre duas pessoas que desejam se
matar, as hipóteses em que há sobrevivência de
uma delas ou de ambas resolvem assim:
a) Se o sobrevivente praticou atos de execução da
morte do outro, responderá por homicídio.
b) Se o sobrevivente somente auxiliou o outro a
suicidar-se, responderá pelo art. 122, CP.
c) Se ambos praticaram atos de execução, um
contra o outro, e ambos sobreviveram,
responderão por tentativa de homicídio.
76
d) Se ambos se auxiliaram mutuamente e ambos
sobreviveram, a eles será atribuído art. 122, CP,
desde que resultem lesões corporais graves.
e) Se um deles praticou atos de execução da
morte de ambos, mas ambos sobreviveram,
aquele responderá por tentativa de homicídio, e
este pelo art. 122, CP, desde que o executor, em
face da tentativa, sofra lesão corporal de
natureza grave.

77
CAUSA DE AUMENTO DE PENA
 Motivo egoístico. Ex.: o sujeito estimula um colega
de trabalho que enfrenta problemas depressivos a
suicidar-se, e assim ficar com seu cargo na
empresa.
 Vítima menor: pessoa entre 14 e 18 anos.
 Vítima que, por qualquer causa, tem diminuída
capacidade de resistência: deve ser pessoa maior
de 18 anos. Menor resistência causada por drogas.
 Vítima menor de 14 anos ou sem capacidade de
resistência: sofre homicídio.
78
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ
O médico deverá intervir caso a vítima não
queira aceitar a transfusão de sangue,
preferindo se suicidar. Art. 146, § 3º, inc. I, CP.
Precedente TJRS, Ap.Cív. 595000373, j.
28/03/1995.

79
INFANTICÍDIO

Art. 123, CP

80
Previsão legal: art. 123, CP.
Pena: detenção de 2 a 6 anos.
O crime é praticado durante ou logo após o
parto (inicia-se com a dilatação do colo do
útero e termina com a expulsão).
Diferença entre o infanticídio e o aborto.
Não admite a modalidade culposa.
Admite tentativa.

81
CLASSIFICAÇÃO
Crime próprio
De forma livre
Comissivo ou omissivo
Material
Não transeunte
Instantâneo
De dano
Unissubjetivo
Plurissubsistente

82
 Objetividade jurídica: a vida humana.
 Objeto material: é a criança, nascente ou recém-
nascida.
 Sujeito ativo: a mãe sob a influência do estado
puerperal que pode agir de forma comissiva ou
omissiva (art. 13, par. 2º, al. “a”, CP – garante). Pode
haver coautoria e participação.
 Sujeito passivo: o nascente ou recém-nascido. Não
incidência da agravante genérica do art. 61, inc. II, al.
“e”, CP (crime contra descendente).
 Infanticídio putativo: a mãe que mata outra criança
que acreditava ser o seu filho (art. 20, § 3º, CP – erro
sobre a pessoa). A mãe responde pelo infanticídio.
 Homicídio: mãe que matar adulto.
83
ELEMENTOS DO TIPO
a) Matar (eliminar a vida do ser humano).
b) Estado puerperal são sintomas fisiológicos que,
iniciados com o parto, acometem a mulher,
podendo levá-la, dependendo do grau de
perturbação emocional, a matar o próprio filho.
c) Limite temporal - durante o parto ou logo após o
parto: o infanticídio ocorre do início do parto
para frente. Logo após significa imediatidade.
No entanto, deve ser entendido o período em
que durar o estado puerperal, mesmo que
decorridos vários dias após o parto. Aplicação
do princípio da razoabilidade (Rogério Greco).
84
 Tipo subjetivo: dolo direto ou eventual.
 Consumação e tentativa: consuma-se o crime
com a morte da criança. A tentativa é admissível.
Crime impossível (art. 17, CP) se o fato for
praticado contra criança já morta.
 Concurso de pessoas: predomina a orientação
doutrinária que é possível, considerando que os
dados de natureza pessoal (qualidade de mãe e
estado puerperal) são elementares dos tipo e se
comunicam aos terceiros (art. 30, CP).
 Mãe que sob a influência do estado puerperal
mata culposamente o próprio filho, durante ou
logo após o parto - posições: a) fato atípico, já
que não há previsão legal (Damásio, Frederico
Marques); b) homicídio culposo (Bittencourt,
Hungria, Mirabete, Capez, Masson, Greco).
85
 Precedente TJES. “Inexistindo nos autos a prova de que
a mãe quis ou assumiu o risco da morte do filho, não se
configura o crime de infanticídio, em qualquer de suas
formas, eis que inexiste para a espécie a forma
culposa”. RTJE 55, p. 255.
 Prova pericial: o entendimento da jurisprudência
majoritária é no sentido da dispensa médica para a
constatação do estado puerperal, visto que este é
efeito normal de qualquer parto. Ocorre a presunção
juris tantum, ou seja, até que se prove o contrário, a
mulher após o parto tem perturbações psicológicas e
físicas, mas quando intensas causa um distúrbio tão
grande que a mulher pode eliminar o neonato
(Francisco Dirceu Barros, Direito Penal, vol.1, p. 125).
Precedente TJ SP, RT 655, p.272).
86
Inimputabilidade: se a parturiente,
completamente perturbada psicologicamente,
dada a intensidade de seu estado puerperal,
considerado aqui como de nível máximo,
provocar a morte de seu filho durante ou logo
após o parto, deverá ser tratada como
inimputável, afastando-se a culpabilidade.
Precedente TJRS, RD 70014810014, DJ
21/06/2006.

87
ABORTO

Artigos 124 a 128, CP

88
 Previsão legal: artigos 124 a 128, CP.
 Conceito: aborto é a interrupção da gravidez, da
qual resulta a morte do produto da concepção.
 No Brasil vigora o “Sistema Proibitivo Relativo”.
 Início da gravidez: fecundação. Começa a
proteção penal. Opinião contrária: quando ocorre
a nidação (implantação do óvulo fecundado no
útero).
 Objetividade jurídica: proteção da vida humana
intrauterina ou também da gestante.
 Objeto material: é o feto (deve haver a prova da
gravidez). Crime impossível quando da prática de
manobra abortiva em feto morto.
 Não existe aborto em óvulo fertilizado in vitro.
89
CLASSIFICAÇÃO
 Crime material
 Próprio e de mão própria (art. 124, CP)
 Comum (arts. 125 e 126, CP)
 Instantâneo
 Comissivo ou omissivo
 Doloso
 De dano
 Não transeunte
 Unissubjetivo
 Plurissubjetivo (art.124, 2ª parte, CP)
 Plurissubsistente
 De forma livre
90
ESPÉCIES DE ABORTO
a) Natural
b) Acidental
c) Criminoso (artigos 124 a 127, CP)
d) Legal ou permitido (art. 128, CP)
e) Eugênico ou eugenésico
f) Econômico ou social
g) Culposo

91
Sujeito ativo
a) Art.124, CP: é a gestante - crime de mão
própria), admite a participação, mas não
admite a coautoria.
b) Arts. 125 a 127, CP: qualquer pessoa,
admitindo coautoria ou participação.
c) Sujeito passivo: o feto, ou o feto e a gestante
(art. 125, CP).

92
 Meios de execução
a) Comissivo (ingestão de medicamentos
abortivos).
b) Omissivo (deixar a gestante de tomar os
medicamentos para preservar a gravidez). Art.
13, § 2º, CP – garante.
c) Físico (golpes no útero).
d) Psíquico (provocar depressão que leve ao
aborto).
 Crime que deixa vestígios, sendo necessário o
exame de corpo de delito. Precedente TJMS, HC
2009.011199-1/000-00, DJ 15/07/2009.

93
Elemento subjetivo: dolo direto ou eventual, não
admitindo o aborto culposo.
Se um terceiro provoca o aborto culposo na
gestante responde por lesão corporal culposa.
Se a gestante causar o aborto culposo o fato será
atípico (princípio da alteridade que veda a
punição da autolesão).
Se o sujeito agredir a mulher, sabendo que ela
está grávida, com a intenção exclusiva de lesioná-
la e causar-lhe o aborto, responde pelo art. 129, §
2º, inc. V, CP.
94
Se o sujeito agredir a mulher, sabendo que ela
está grávida, com a intenção exclusiva de
lesioná-la e causar-lhe a aceleração do parto,
responde pelo art. 129, § 1º, inc. IV, CP.
Se o sujeito agir com intenção de matar a
mulher e dolo de provocar o aborto
responderá por homicídio e aborto. Porém se
matar a mulher ignorando o aborto,
responderá somente pelo homicídio doloso.

95
 Consumação: com a morte do feto, resultante da
interrupção dolosa da gravidez, sendo prescindível a
expulsão do produto da concepção.
 Aborto consumado: conduta abortiva com expulsão do
feto vivo, morrendo posteriormente.
 Tentativa é possível em todas as modalidade de aborto.
 Concurso material entre aborto tentado e homicídio ou
infanticídio: conduta abortiva com expulsão do feto vivo
e em seguida dolo de matar a criança.
 Aborto de gêmeos: dois crimes de aborto em concurso
formal impróprio (art. 70, caput, parte final, CP), salvo
desconhecimento , que ensejará em crime único.
 Art. 20 da LCP (anunciar processo, substância ou objeto
destinado a provocar aborto).

96
ABORTO CRIMINOSO
Previsão legal: artigos 124 a 126, CP.
Art. 124, 1ª parte, CP (autoaborto). Pena:
detenção de 1 a 3 anos.
Art. 124, 2ª parte, CP (consentimento da
gestante para o aborto – crime de mão
própria). Pena: detenção de 1 a 3 anos.
Art. 125, CP (aborto provocado por terceiro
sem o consentimento da gestante). Pena:
reclusão de 3 a 10 anos.

97
 Autoaborto (art. 124, CP). Não há tentativa de
aborto quando a mulher busca suicidar-se, mas
permanece viva, pois não se pune a autolesão.
Porém, se da tentativa de suicídio resultar aborto,
a mulher responde pelo autoaborto face ao dolo
eventual.
 Admite a participação. Ex.: namorado fornece
medicamento abortivo à namorada gestante.
 A gestante pode praticar o autoaborto no caso do
aborto terapêutico ou necessário (art. 128, inc. I,
CP – estado de necessidade), porém não está
autorizada a praticar o autoaborto quando a
gravidez for decorrente de estupro (art. 128, inc.
II, CP), pois somente o médico estará autorizado a
fazê-lo.
98
Art. 126, caput, CP (aborto provocado por
terceiro, com o consentimento da gestante).
Pena: reclusão de 1 a 4 anos.
Art. 126, par. único, CP: consentimento
inválido da gestante para o aborto em face das
condições da vítima (gestante não maior de 14
anos, alienada, débil mental) ou circunstâncias
do fato (consentimento obtido por fraude,
grave ameaça ou violência). Pena: reclusão de
3 a 10 anos.

99
 Art. 127, CP – crime preterdoloso: causa de
aumento de pena – prejuízo à gestante – 1/3
(lesão corporal grave sofrida pela gestante) e
dobro (morte da gestante).
 Aplica-se ao aborto praticado por terceiro nas
formas dos arts. 125 e 126, CP.
 Se resultar na gestante lesões corporais leves, o
terceiro responde por aborto simples.
 Prova da gravidez – imprescindível. Mulher que
imagina estar grávida e solicita terceiro para
praticar aborto. Caso a mulher morra, o terceiro
responderá por homicídio culposo, pois a ausência
da gravidez afasta a incidência do art. 127, CP.
100
EXCEÇÃO À TEORIA UNITÁRIA OU MONISTA DO
CONCURSO DE PESSOAS
 Aborto realizado por terceira pessoa (médico, enfermeira,
parteira) com o consentimento da gestante, os dois
deveriam responder pelo mesmo crime?
 Não. O legislador abriu uma exceção à teoria monista do
art. 29, CP e criou crimes distintos.
 Logo: a gestante que consente o aborto (art. 124, CP) e o
terceiro que provoca o aborto na gestante (art. 126, CP).
 A extensão do consentimento da gestante deve subsistir
até a consumação do aborto, pois caso ela se arrependa e
o terceiro continue a prosseguir, este responderá pelo art.
125, CP.

101
ABORTO LEGAL ou PERMITIDO
 Previsão legal: art. 128, CP.
 Natureza jurídica: causa de exclusão da ilicitude
(estado de necessidade).
 Quem pode praticá-los? Somente o médico.
 Desnecessidade de autorização judicial.
 Hipóteses
a) Aborto terapêutico ou necessário (art. 128, inc.I,
CP): se não há outro meio de salvar a vida da
gestante. Prevalência da vida da gestante.
 Erro no diagnóstico: o médico não responde por
crime algum face à descriminante putativa (art.
20, § 1, CP).
102
b)Aborto humanitário ou sentimental (art. 128, inc. II, CP):
se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de
consentimento da gestante, ou, quando incapaz, de seu
representante legal. Dignidade da pessoa humana.
 Aborto sentimental (art. 128, inc. II, CP): autorizado
também quando a gravidez decorrer de estupro de
vulnerável (art. 217-A, CP). Analogia in bonam partem.
Polêmica.
 Lei nº 12.845/2013 dispõe sobre o atendimento
obrigatório e integral de pessoas vítimas de violência
sexual (vacatio legis de 90 dias).
 Gestante que mentiu quanto à ocorrência do crime de
estupro: o médico não responderá por crime algum face à
descriminante putativa (art. 20, § 1º, CP), mas a gestante
responderá pelos crimes de aborto e comunicação falsa
de crime (art. 340, CP).
103
 Aborto Eugenésico: não previsto pelo ordenamento
pátrio.
 Jurisprudência STF - ADPF-QO 54 DF, j. 26/04/2012
 Ementa: ADPF ADEQUAÇÃO INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ
FETO ANENCÉFALO POLÍTICA JUDICIÁRIA
MACROPROCESSO. Tanto quanto possível, há de ser dada
sequência a processo objetivo, chegando-se, de imediato,
a pronunciamento do Supremo Tribunal Federal. Em jogo
valores consagrados na Lei Fundamental como o são os
da dignidade da pessoa humana, da saúde, da liberdade e
autonomia da manifestação da vontade e da legalidade ,
considerados a interrupção da gravidez de feto
anencéfalo e os enfoques sobre a configuração do crime
de aborto, adequada surge a arguição de
descumprimento de preceito fundamental. ADPF -
LIMINAR - ANENCEFALIA - INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ -
GLOSA PENAL - PROCESSOS EM CURSO - SUSPENSÃO.
104
 Pendente de julgamento a arguição de
descumprimento de preceito fundamental, processos
criminais em curso, em face da interrupção da gravidez
no caso de anencefalia, devem ficar suspensos até o
crivo final do Supremo Tribunal Federal. ADPF -
LIMINAR - ANENCEFALIA - INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ
- GLOSA PENAL - AFASTAMENTO - MITIGAÇÃO. Na
dicção da ilustrada maioria, entendimento em relação
ao qual guardo reserva, não prevalece, em arguição de
descumprimento de preceito fundamental, liminar no
sentido de afastar a glosa penal relativamente àqueles
que venham a participar da interrupção da gravidez no
caso de anencefalia.

105