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Psicologia Arquetípica

Psicopatologia
re-imaginada:

Os deuses tornaram-se doenças !


C.G. Jung

“movendo-se através do literal ao


metafórico”
James Hillman
1
“Foi por um crepúsculo de vago outono que
eu parti para essa viagem que nunca fiz.
(...)
Eu não parti de um porto conhecido. Nem
hoje sei que porto era, porque nunca lá
estive. (...)
Julgais, sem dúvida, que as minhas palavras
são absurdas. É que nunca viajaste como
eu.”
Viagem nunca feita /Fernando Pessoa

2
“Tens como Hamlet, o
pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido?
O que é que tu conheces
Para que chames de
desconhecido a qualquer
coisa em especial?”

Lisbon Revisited / Álvaro de Campos /


Fernando Pessoa 3
Quando Pênia, a pobreza, vislumbra a
figura de Poros, o recurso, embriagado
em pesado sono, resolve ter um filho
dele. Abraça-o.
Desperta-o. E concebe: Eros.

4
“Não quero ter a
limitação de quem vive
apenas do que é
passível de fazer
sentido.
Eu não: quero é uma
verdade inventada” (...)

Água viva / Clarisse Lispector


5
Há vozes que
mandam, querem
me obrigar a fazer
coisas...

Há chips implantados em mim que


controlam o que faço...
Visões que dizem o que vai acontecer no
futuro...
6
Chips
implantados...
Vozes
comandando...

Visões do
futuro...
Perseguições
intermináveis...
7
“ Tomam-me pouco a pouco o delírio
das coisas marítimas,
Penetra-me fisicamente o cais e sua
atmosfera (...)
Acelera-se cada vez mais o volante
dentro de mim (...)
Chamam por mim as águas.
Chamam por mim os mares.
Chamam por mim levantado uma voz
corpórea, os longes, as épocas
marítimas todas sentidas (...)”
Ode marítima/Álvaro de Campos/Fernando Pessoa
8
“Os transtornos esquizofrênicos
são caracterizados, em geral, por
distorções fundamentais e
características do pensamento e
da percepção e por afeto
inadequado ou embotado. (...)
A perturbação envolve as funções mais básicas que
dão à pessoa normal um senso de individualidade,
unicidade e de direção de si mesmo.
Os pensamentos, sentimentos e atos mais íntimos são
sentidos como conhecidos ou partilhados por
outros”
Esquizofrenia F20.0 -CID X

9
No meio do caminho tinha uma
pedra, tinha uma pedra no meio do
caminho ...
Carlos Drummond
de Andrade

“Quantos defeitos sanados com o tempo


Eram o melhor que havia em você?”
A lista/Oswaldo Montenegro

10
“Os transtornos
esquizofrênicos são
caracterizados,
em geral,
por distorções
fundamentais e
características do
pensamento e da No meio das
percepção (...) CID X características
fundamentais do
pensamento e da
percepção tinha um
transtorno, tinha um
transtorno no meio do
caminho... 11
A perturbação envolve as funções mais básicas que dão
à pessoa normal um senso de individualidade,
unicidade e de direção de si mesmo. CID X

“Que sei eu do que serei,


eu que não sei o que sou?
Ser o que penso, mas
“Nada sou, nada posso, nada penso ser tanta coisa!”
sigo, / Trago, por ilusão meu ser Tabacaria / Fernando Pessoa.
comigo.
Não compreendo compreender,
nem sei se hei de ser, sendo
nada, o que serei.”
Cancioneiro/Fernando Pessoa

12
“(...)Meu tema é a vida. Procuro estar a par
dele, divido-me milhares de vezes em
tantas vezes quanto os instantes que
decorrem, fragmentária que sou e
precários os momentos (...) Esta é a vida
vista pela vida. Posso não ter sentido,
mas é a mesma falta de sentido que tem
a veia que pulsa. (...) E doidamente me
apodero dos desvãos de mim (...) Eu sou
antes, eu sou quase, eu sou nunca.”
Água viva/Clarisse Lispector

13
“Os transtornos esquizofrênicos são caracterizados(...)
e por afeto inadequado ou embotado CID X

Inadequado como
imperfeição?
“Que santificados do absurdo
os artistas que queimaram
uma obra muito bela,
daqueles que, podendo fazer
uma obra bela, de propósito
a fizeram imperfeita, (...) Por
que escrevo este livro?
Porque o reconheço
imperfeito. Calado seria a
perfeição; escrito
imperfeiçoa-se...”
Apoteose da Mentira/Fernando Pessoa
14
Os
pensamentos,
sentimentos e
atos mais
íntimos são
sentidos
como
conhecidos
ou
partilhados
por outros
CID X
15
“Eu me ultrapasso abdicando de mim e
então sou o mundo: sigo a voz do
mundo, eu mesma de súbito com voz
única. (...)
o que falo nunca é o que falo e sim outra
coisa. (...)
E ninguém é eu. Ninguém é você. (...)
Sou um coração batendo no mundo. ”
• Água viva/Clarisse Lispector
16
Poderíamos olhar a
psicopatologia como mito?
As
categorias
e descrições
fornecendo,
a maneira dos mitos,
a inter-relação de poderes humanos
(poderes que o Ego julga controlar heroicamente)
e sobre-humanos (forças que o conduzem)
como nos aponta Hillman em Mito da análise?
17
“Quando a vida se inflamava, no
desejo ou no sofrimento, ou mesmo
na reflexão, os heróis homéricos
sabiam que ali havia um deus em
ação ...”.
Núpcias de Cadmo e Harmonia/Roberto Calasso

Deuses - movimento / condução - transtorno


18
Os Deuses tornaram-se doenças!
C. G. Jung

“patologia é a maneira mais palpável


de testemunhar os poderes que estão
além do controle do ego”(heróico)
Re-Visioning Psychology/ Hillman

19
"Transtorno (...) é usado aqui (CID X )
para indicar a existência de um
conjunto de sintomas ou
comportamentos
clinicamente reconhecível associado,
na maioria dos casos, a sofrimento e
interferência com funções pessoais.”
CID X

20
Não parece haver alguém que luta,
quer controlar, eliminar o que limita,
conduz ou faz sofrer e acha que
isto é a única norma a se seguir para
ser saudável?

21
E se a vida se apresentar como
inquietação, descontrole; pulsando e
movimentando-se em relação a tudo que
está determinado?

E se a vida, no movimento do tempo,


trabalhar indeterminando tudo que está
fixo ou literalizado?
As patologias poderiam aparecer como
vias fundamentais e como metáforas
radicais da vida pulsando, inquieta e em
movimento?
22
Hillman aponta como
“doença”
Toda forma de
fundamentalismo.
Quando só se tem altar para
um único deus 23
A “doença” pode ser
a norma única.
um único padrão do qual não se
pode tomar distância.
Canguilhem

24
“O modo de penetrar em
qualquer quadro clínico é
tornar-se parte do quadro,

e isto é válido tanto para a


compreensão teórica de uma
síndrome, quanto para a
terapia de um caso individual
que sofre da síndrome.”
Paranóia/ James Hillman
25
Metaforizar juntos, nos tornar
parte do quadro, no restante da
descrição do diagnóstico de

Esquizofrenia no CID X
26
(...) A consciência clara e a capacidade
intelectual estão usualmente mantidas,
embora certos déficits cognitivos possam
surgir no curso do tempo.
CID X
“Estabelecer teorias, pensando-as
paciente e honestamente, só para depois
agirmos contra elas – agirmos e justificar
nossas ações com teorias que as
condenam – talhar um caminho na vida,
e em seguida agir contrariamente a
seguir esse caminho. Ter todos os gestos
e atitudes de qualquer coisa que nem
somos, nem pretendemos ser(...)
A reductio ad absurdum e uma da minhas
bebidas prediletas”
Livro do desassossego/ absurdo/ Fernando Pessoa 27
(...) e podem se desenvolver
delírios explicativos, a ponto de
que forças naturais ou
sobrenaturais trabalham de
forma a influenciar os
pensamentos e as ações do
indivíduo atingido, de formas
que são muitas vezes bizarras.
CID X

1.° convicção extraordinária, certeza subjetiva,


incomparável.
2.° impossibilidade de influenciamento da parte
da experiência e de raciocínios constringentes.
3.° a impossibilidade do conteúdo.
Patologia Geral /K.Jaspers
28
“Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões
e caráter fixo e conhecido – tudo isto monta ao
horror de tornar nossa alma um fato.(...) Viver é
um doce fluido estado de desconhecimento das
coisas e de si próprio.”
Livro do desassossego/Máximas / Fernando Pessoa
29
(...) O paciente pode ver a si próprio como o
pivô de tudo o que acontece.
CID X
30
“Pouco a pouco é que fui percebendo que estava
percebendo as coisas. (...) Tive então um
sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro
carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou
glória, sem o menor senso de superioridade ou
igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe.
Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o
que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de
sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e
nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem
nenhum compromisso comigo.
Perdoando Deus / Clarisse Lispector

31
As alucinações, especialmente
auditivas, são comuns e podem
comentar sobre o
comportamento ou os
pensamentos do paciente.ID X

32
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baias, todos
os golfos, / Queria apertá-los ao peito,senti-los bem e
morrer .(...)
E de repente, mais de repente do que da outra vez, de
mais longe, de mais fundo, (...) A velha voz do
marinheiro inglês (...) tornada voz das ternuras
misteriosas dentro de mim, das pequenas coisas de
regaço de mãe (...).
A voz surda e remota tornada A voz absoluta, a Voz Sem
Boca, vinda de sobre e de dentro da solidão noturna
dos mares, chama por mim... Longinquamente como
se estivesse soando noutro lugar e aqui não se
pudesse ouvir. (...)
E abro de repente os olhos que não tinha fechado (...)
Ah! As viagens, os viajantes – Tantas espécies deles!
Ode marítima/ Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
33
A percepção é freqüentemente perturbada de
outras formas: cores ou sons podem aparecer
excessivamente vívidos ou alterados em
qualidade
CID X

34
e aspectos irrelevantes das coisas comuns,
podem parecer mais importantes que todo o
objeto ou a situação.
CID X
35
Perplexidade é também comum no
início e leva freqüentemente a uma
crença de que situações cotidianas
possuem um significado especial,
usualmente sinistro, destinado
unicamente ao indivíduo.
CID X

36
Agora está amanhecendo e a aurora é de neblina branca
nas areias da praia. Tudo é meu, então. (...) vou
crescendo como dia que ao crescer me mata certa vaga
esperança e me obriga a olhar cara a cara o duro sol. (...)
O dia parece uma pele esticada e lisa de uma fruta que
numa pequena catástrofe os dentes rompem, o seu caldo
escorre.
Água viva/Clarisse Lispector37
Na perturbação característica do pensamento
esquizofrênico, aspectos periféricos e
irrelevantes de um conceito total, que estão
inibidos na atividade mental normalmente
dirigida, são trazidos para o primeiro plano e
utilizados, no lugar daqueles que são relevantes
e adequados à situação.
CID X

38
“Absurdemos a Vida de leste a oeste.
Falo a sério e tristemente, este assunto não é para alegria,
porque as alegrias dos sonhos são contraditórias e
entristecidas e por isso aprazíveis de uma misteriosa
maneira especial.
Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e
absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à
vista.- pontes sem donde nem para onde, (...) o absurdo, o
ilógico , o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do
real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos,
sentimentos humanos e desejos de ação útil (...) salva de
chegar àquele estado de alma em que começa-se por sentir a
doce fúria de sonhar”
Livro do Desassossego, Apoteose do Absurdo/ Fernando Pessoa
39
Dessa forma, o pensamento se torna vago,
elíptico e obscuro e sua expressão em
palavras, algumas vezes incompreensível.
São assíduas as interrupções e
interpolações no curso do pensamento e os
pensamentos podem parecer serem
retirados por um agente exterior.
40
CID X
“Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de
mim não o fiz. O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não
desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara,
estava pregada à cara.Quando a tirei e me vi ao
espelho já tinha envelhecido.(...)
Sempre uma cosia de fronte
da outra, sempre
uma coisa tão
inútil como a
Outra, sempre o
Impossível tão
estúpido como
o Real.”
Tabacaria /Álvaro de Campos / Fernando Pessoa.
41
O humor é caracteristicamente
superficial, caprichoso ou
incongruente. A ambivalência e a
perturbação da volição podem
aparecer como inércia,
negativismo ou estupor.
CID X

42
“o que sei é tão volátil e quase inexistente que
fica entre mim e eu. (...)
Transfiguro a realidade e então outra realidade,
sonhadora e sonâmbula, me cria.
Quero a profunda desordem orgânica que no
entanto dá a pressentir uma ordem... (...)
quero a experiência da falta de construção.
Embora este meu texto seja todo atravessado
por um frágil fio condutor.”
Água viva/Clarisse Lispector

43
A catatonia pode estar presente.
CID X

Arrumar a vida é por prateleiras na vontade e na


ação. (...)
Reticências/ Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

44
“Esquizofrenia” é o que se apresenta quando uma
pessoa:

• Ouve vozes, vê coisas que outros não vêem,


não consegue separar nitidamente o que
pensa do que acontece ou tem idéias fixas,
com certeza plena de forte caráter literal?
• Apresenta distorções no pensamento, nas
percepções ou nos afetos?
• Não apresenta um senso de individualidade,
unicidade ou direção de si mesmos firmes?
45
Esquizofrenia nos fala de:

De defeitos no ego que contribuiriam para os


sintomas da síndrome?
De uma desintegração do ego referindo-se a
um retorno à época que o ego ainda não
estava bem estabelecido?
46
Esquizofrenia nos faz pensar em:

doença que afeta principalmente o


funcionamento do cérebro e uma experiência
muito diferente e difícil com a realidade?
aumento da função dopaminérgica
promovendo as alterações de
comportamento da pessoa ? 47
Esquizofrenia poderia ser um nome que se
dá a uma configuração, que
apresenta-se num contexto em que, um
estilo de consciência unificador domina
totalitariamente a forma de vida presente?

Quando é constelada uma identificação


maciça com um personagem heróico,
literalizante?
48
O personagem heróico, unificador, literalizante pode
ser visto como um padrão de consciência

Que unifica o diverso do sensível, as múltiplas


manifestações da natureza.
Que se orienta por um princípio unitário
equivalente – a forma mercadoria.
Que usando o princípio unitário sobre a vida,
faz da razão um instrumento de dominação.
49
Esquizofrenia, é a doença que se opõe a
unidade, individualidade, ou controle de si?
• ou
É a oportunidade de perceber os limites deste
personagem heróico que impõe, através das
pessoas, sua forma unitária, de maneira
fundamentalista, sobre a vida em movimento,
em toda a multiplicidade e tensão, entre o que
está determinado e o eterno indeterminar?

50
Esquizofrenia não é o que aparece quando o
padrão (personagem heróico), unificador,
conduz e obriga a pessoa a:
• Dar importância e responder a todas as vozes
que aparecem?
• Ter que reagir, explicar e entender tudo que vê?
• Ter que separar nitidamente o que pensa do
que acontece?
• Não poder ter dúvidas, incertezas, não saber?
• Não poder dividir, compartilhar etc.?
• Não poder se ver como múltiplo e um?

51
Esquizofrenia não pode ser o nome dado à
constelação de sintomas que resiste às
características fundamentais do que se
considera indivíduo ou sujeito moderno?
A sintomatologia descrita não poderia
mostrar o que resiste a identificação
maciça e literal com o princípio unitário,
equivalente, que mantêm o personagem
heróico?
52
Não é quando o padrão unificador se
encarna que temos a apresentação dos
sintomas que são descritos na
esquizofrenia?
E então, não se pode mais reconhecer que
a direção de si mesmo não precisa nem
ser firme nem determinada pelo Eu; que
somos sempre conduzidos por várias
forças (vários deuses).
53
• Será que haveria sustentação possível para a
estabilidade de sintoma, identidade,
propriedade, quando o sujeito pudesse se
colocar num lugar mais flexível, atravessado por
múltiplos padrões de consciência, sem
identificar-se fixamente com nenhum deles?
• Seria possível tal constelação se o sujeito
pudesse se reconhecer e ser reconhecido como
posição de indeterminação?
• Isto não dissolveria as determinações
sintomatológicas no processo contínuo da vida?

54
• Não estaria a sintomatologia psicopatológica,
que se constela no conjunto de sinais e
sintomas que podemos chamar esquizofrenia,
carregando a instabilidade, inquietação e
indeterminação viva?
• A psique querendo desprender-se da
determinação fixa e unitária que se colocou
como norma única?

“Patologização como metáfora radical da vida”


Hillman
55
“mas eu percebia um primeiro rumor como de
um coração batendo embaixo da terra.
Colocava quietamente o ouvido no chão e
ouvia o verão abrir caminho por dentro e o
meu coração batendo embaixo da terra. (...)
sentia a paciente brutalidade com que a terra
fechada se abria por dentro em parto, e sabia
com que peso de doçura o verão
amadureceria cem mil laranjas.(...)
Não vê que isto aqui é como um filho nascendo?
Dói. Dor é vida exacerbada. O processo dói.
Vir a ser é uma lenta e lenta dor boa.”
Água viva/Clarisse Lispector
56
Não estaria a sintomatologia psicopatológica
apresentada na esquizofrenia oferecendo a
oportunidade de perceber os limites (o que
resiste) a este padrão de consciência; não
apenas em quem os sintomas são
identificados, mas nos contextos (relações,
“posturas terapêuticas”,expressões culturais
etc.) em que eles aparecem?
Teria a preponderância histórica deste padrão, nas
culturas dos países do 1º mundo, relação com a
evolução dos “transtornos esquizofrênicos” serem
mais crônicas e mais difíceis nestes do que no 3º ?
57
“Nunca me perguntei,
nunca perguntei a
ninguém.
Até que ponto, se isto
foi verdade na
época...”

Talvez melhor para a vida seja viver sabendo que foi e não foi verdade!
Que foi verdade até certo ponto!
Que pode ser metaforicamente verdadeiro, como qualquer outra coisa
poderia ser!
E que a unificação da verdade pode ser a uma forma de paralisação da
vida!
58
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no
que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa
qualquer entendimento”
Clarisse Lispector

59
60
Vamos acompanhar o
relato feito por alguém
colocado para apresentar
a visão do paciente, num
simpósio de
esquizofrenia em São
Paulo, agosto de 2008
61
“Nunca me perguntei,
nunca perguntei a ninguém.
Até que ponto, se isto foi
verdade na época...”

62
“A capacidade de querer (alcançar) uma posição
na minha empresa; Comecei a sentir muita
pressão;Curso técnico concluído; Só que o
curso técnico não é suficiente; Precisa
de uma universidade e então meu pai
pressiona; a própria
sociedade... Sociedade exige
um contínuo estudo.”
“Louco, sim, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está, ficou meu ser que
houve, não o que há. (...)
Sem a loucura o que é o homem mais do que a
besta sadia,
cadáver adiado que procria?”
Mensagem/Fernando Pessoa
63
Na empresa eu comecei a sentir essa pressão e
começaram a surgir ...hoje com a minha visão,
os sintomas... de ser observado...
Desta possibilidade de elevação na carreira. ...
Comecei a sentir esta pressão e ... o meu pai
querendo que eu fizesse universidade. ...
Não conseguindo conciliar estudo com trabalho.
Para mim, para ser eficiente, tinha que fazer
uma coisa só.

64
“Fornecei-me metáforas, imagens, literatura, /
porque em real verdade, a sério, literalmente,
minhas sensações são um barco de quilha
para o ar, minha imaginação uma ancora
meio submersa, minha ânsia um remo
partido, e a tessitura dos meus nervos uma
rede a secar na praia!
Ode marítima / Fernando Pessoa

65
As coisas foram tomando uma dimensão
muito grande que foi impossível
suportar.
Então o que ocorreu?
Em busca de uma solução desta pressão,
desta coisa;
Eu optei por sair da empresa, para me
dedicar mais aos estudos.
66
“A insistência é o nosso esforço, a desistência o
nosso prêmio. (...)Desistir é a escolha mais sagrada
de uma vida.

Desistir é o verdadeiro instante humano.


E só esta, é a glória própria
de minha condição.
A desistência é uma
revelação.”
Clarisse Lispector
67
Optei por sair da
empresa como se fosse
uma solução.
Mas não houve
solução!
As coisas foram
tomando estas
dimensões.
“Há dois males: verdade e
aspiração.
E há uma forma só de os saber
males:
É conhecê-los bem, saber que são.”
Cancioneiro/Fernando Pessoa
68
Via os programas de TV e achava que
estava tendo uma comunicação, com o
programa de televisão.
As taxas de juros - como até hoje, são um
problema nacional;
eu ficava indignado e pensava comigo
mesmo: é impossível continuar com uma
taxa de juros tão alta.
E (então) as taxas de juros abaixavam...
eu ficava pensando...

69
Eu ficava pensando para conversar
aqui ... estes fenômenos.
Às vezes, chega a ser muito forte a coincidência dos fatos...
Acredito que o esquizofrênico não sabe ponderar isto.
Eu acredito que eu tinha isto antes de ser diagnosticada a
doença.
Esta coisa da simultaneidade.
Pensar uma coisa e ter uma resposta ambiental imediata.

“O que penso eu do mundo?


Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisto.”
Ficções do interlúdio/ Alberto Caeiro
70
“Esta coisa da simultaneidade”
Eu acredito que eu tinha isto - não consigo falar
com convicção - mas eu simplesmente ia tocando
o barco e estas coisas não mexiam comigo
e após este surto, o que eu tive em inicio de 97, esta
coisa começou a mexer um pouco mais comigo...
ou de você querer esconder, ou demonstrar;
dependendo do seu estado de espírito.
– Se está bem, você quer apresentar estes fatos para as
pessoas, essas coincidências;
– e se você esta mal, quer se fechar; não quer
demonstrar isto.

71
“é através do pathos que nos aproximamos dos
limites do ego heróico”
Hillman

• E se são, exatamente ,os atributos considerados os


mais saudáveis, os que o Ego deveria ter mais
“desenvolvido”, os que vão dominando como deus
único? Seria o excesso de funcionamento “normal”?
• Seria o não se perceber conduzido pela norma
“normal” e ser tão literalmente colado a está, o que
sustenta o aparecimento do que é chamado sintoma?
• Seriam os sintomas o que indica que o Ego foi além dos
limites na sua busca de controle?
72
Qual a questão?
• Pensar simultaneidades ou estar sendo conduzido por
algo que não pode parar de achar simultaneidades?
• E se justamente esta característica fosse o mais
valorizado?
– Inteligência de perceber conexões inusitadas;
– Capacidade de aglutinar temas, unificar questões etc.
– Maior aptidão em achar respostas novas e imprevistas a
partir de condensações de aspectos aparentemente
desconectados, periféricos e irrelevantes.
• E se, justamente o mais desenvolvido, o mais “saudável”,
o mais valorizado e mais reconhecido; o que mais
favoreceu a adaptação fosse o que está agora dominando
de forma fundamentalista a vida?

73
O que leva a fazer do
“Pensar uma coisa e ter uma resposta ambiental
imediata.”
algo tão fundamental e que interfere tanto?

Redução do senso de individualidade, unicidade e de direção de si


mesmo?
Ou estar tomado, de forma intensa e literal, por algo que imprime
enorme senso de individualidade, unicidade; de ser “mais do
que a besta sadia, cadáver adiado que procria”?
Não seria um princípio heróico literalista que solicita poderes,
não só sobre a direção de si mesmo, mas sobre o ambiente e o
que deve ser evitado, superado ou controlado no contexto?

74
Alguém (ego heróico) parece não poder deixar de
achar simultaneidades para resolver problemas

• Mas problemas, assim como enigmas, não


podem ser vistos como efeitos do Ego heróico
sobre o múltiplo em tensão com a unidade?
– Como forma de coagulação, de aglutinação?
– Como processo de literalização do que pode ser visto
metaforicamente?
• Não poderiam os “problemas” servirem para multiplicar
sentidos?
– serem dissolvidos no contexto vivo que os sustenta?
– devolvido ao mundo?
75
Simultaneidade /conexões
As conexões não tornam-se problema para
quem espera ter resposta, previsão, controle
ou um uso das relações entre o que se pensa
e o que acontece no ambiente?
Não é importante quando se está tomado por
algo que instiga a ter poder sobre isto?
Não seria para o personagem na posição do
controle que as simultaneidades entre o
mundo, o ambiente e os pensamentos
apareceriam com interesse e realce enorme?
76
O grande interesse pelas conexões
(simultaneidades)
pode ser visto como sintoma,
mas pode estar apontando o limite do ego
heróico que está sendo conduzido por um padrão
de extrema determinação e controle individual.
Individualidade - autodeterminação.
“os limites do ego heróico”

77
“Doença”
Pode-se facilmente classificar as manifestações relatadas
como irradiação de pensamento, delírio de influência
etc.
São descrições perfeitamente pertinentes na perspectiva
literal.
E há algo de doente na perspectiva literal ?
Não há nada de doente em qualquer um dos deuses!
James Hillman nos aponta a doença como:
Toda forma de fundamentalismo.
Quando só se tem altar para um único
deus
78
A doença não é o literalismo!
A doença não é ser atravessado por um padrão que
pede separação, unificação, individualização,
abstração, descontextualização.
Negar este padrão é negar um deus como qualquer
outro!
Nenhuma questão com o
apresentar-se do padrão heróico.
Desde que possa ser atravessado e ter
altares para muitos outros padrões -
deuses.
79
Doença como norma única.
um único padrão do qual não se pode tomar distância.
Canguilhem
• O padrão heróico de unificação precisa ter espaço, desde que
possam acontecer também:
– Sentimentos, idéias desconhecidas, que não sei de onde
vêm.
– Que algo possa surpreender a mim mesmo e/ou em mim.
– Que idéias, sentimentos etc. possam aparecer em mim como
efeitos de contextos, relações com os outros e o ambiente.
– Duvidar, em mim, dos pensamento, das percepções, dos
sentimentos que me aparecem.
• Sujeito como espaço de atravessamentos,
altares, sacrifícios e oferendas para muitos
deuses.

80
•Foi um divisor de águas... no episódio de 97
•Acredito que conduzia comigo, estes sintomas,
mas depois de 97 perdi o controle.
•Comecei a misturar o espaço mental com o
espaço real.

•O que é “o episódio”?
As simultaneidades? As conexões? A perda do controle? A
mistura do espaço real e mental?
Ou a dominação fundamentalista do padrão unificador que
obriga a conectar, a dar sentido aos espaços mentais e reais?
•O episódio resultaria destes espaços não estarem
separados ou do querer, a todo custo e sacrifício, unificá-los
e controlá-los?
81
Eu tenho a empresa que trabalhei como uma coisa impressionante;
(...) uma super empresa.(...) se estende a todas as industrias, a
estrutura, considero como uma entidade(...) Então, dentro da
empresa, eu comentei com o meu supervisor que já tinha chorado
em frente a TV vendo (e querendo)a Xuxa.
No final do ano de 97 - Eu fiz os links!
Falei na empresa da Xuxa.
Ela ficou grávida.
Conseguiram meu sêmen...
– Eu sou pai do filho da Xuxa !

•A questão é:
•sentir a empresa em que trabalho algo grande especial?
•conversar sobre fantasias e emoções?
•Quantos homens já não devem ter desejado e até chorado de desejo
pela Xuxa?
•Ou o Eu (ego heróico) não poder deixar de fazer os links e
não deixar de atuar a partir de suas conexões?
82
Então já descontrolei, peguei um avião; fui para o Rio
de Janeiro sem mochila sem nada (...)
e fiquei caminhando durante 3 dias e dormindo na rua,
procurando a Xuxa (...) Dormia na rua, andava para
lá e para cá, (...) andei muitos quilômetros lá,
bastante (...)

Descontrolado ou tendo o Ego heróico no controle sem


perceber o que o conduz?
Descontrolado ou controlado demais por algo que obriga
a agir, seguir as idéias, as conexões sem refletir?

83
“parti para essa viagem que nunca fiz”
Fernando Pessoa

Andava na atlântica, em Copacabana, por


coincidência ou por um evento natural as
ondas costumam quebrar segundo uma
ordem na praia, mas eu caminhava e as
ondas iam quebrando juntinho comigo; era
(uma) coisa que forçava a imagem de que
tinha uma coisa de ultra acontecendo.
Então há coisas que vão potencializando...

84
Perguntaram se eu era do Brasil.
Eu estava com uma cara de estrangeiro.
Comecei a ver meus familiares, pessoas
muito semelhantes aos meus
familiares.(...)
Aí, isto foi me sinalizando que tinha que
encontrar minha família, (...)
•Não seria no fracasso ao colocar em ato as idéias que
conduziam o personagem heróico, ao realizar as ações da
procura, do que estava distante e perdido (“Xuxa”), que foi
possível o encontro com o que parcia familiar?
•Não estaria isto nos falando que a realização da norma
como fracasso é o que permite distanciar-se dela e superar
a norma?
85
• “Todo gesto é um ato revolucionário; um
exílio, talvez, (...) dos nossos propósitos. A
ação é uma doença do pensamento, um
cancro da imaginação. Agir é exilar-se. (...) o
poema que sonho não tem falhas, senão
quando tento realizá-lo.”
• Intervalo/ Fernando Pessoa

86
Na caminhada eu refletia um ser muito estranho ...
eu estava muito confuso, então isto potencializou;
eu todo confuso, andando, sem destino,
as pessoas me viam como um ser diferente,
até com certa periculosidade
e isto pressionava: estão olhando para mim.
Potencializando...
•Quem era estranho a quem? / Quem olhava a quem?
•Quem estava confuso, andando sem destino?
•Ao personagem heróico faltava:
confusão:
•estava certo de que era pai do filho da Xuxa;
verdade clara e sem confusão
andar sem destino:
•Sabia que seu destino era ser pai do filho da Xuxa
e que indo ao Rio de Janeiro a encontraria.
87
• E se fosse o mesmo “Quem” que sabe
exatamente, com certeza plena,
inquestionável, quais são as características
fundamentais do pensamento, da percepção
o que tem certeza de que é o pai do filho da
Xuxa?
• E se fosse este mesmo “quem” que está
dominando de forma fundamentalista e
literal as ações da vida?
• E se este “Quem” que preenche os critérios
do Ego heróico (autônomo, independente,
auto-determinado) se encaixa na definição
clássica de delírio?

88
Fui a casa da minha Avó, um pouco maltrapilho...
porque eu estava andando há três dias, lá no meio da rua ...
e minha avó me recebeu muito bem; assustada...
– Vó, está todo mundo olhando para mim.
– Será que eu fiz alguma coisa de errado?
– Eu, andando na rua assim, estou prejudicando alguém?
– Estou me prejudicando?
Ela me falou: - Filho... é estranho!
• mas ela me trouxe muito carinho.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se
fosse para me dar a medida do que eu perco não
pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.
Clarisse Lispector
89
• Num determinado momento, eu com minha avó me
ajudando;
• Eu falei: - Vó eu preciso conversar com meu pai porque
ele participou da minha saída da empresa. Ele não me
apoiou muito, mas estava um pouquinho do lado.
• minha vó ligou para o meu pai, conversou com ele...
• Ele disse: - Vem para cá, vem; vamos arrumar uma
solução.
• Então eu fui.
• Meu pai morava em Itu... estava fazendo um
tratamento psicológico... este mesmo doutor, a quem
eu devo muito... me iniciou o tratamento em 98

90
91
92
Qual a questão?
Perceber, vivenciar simultaneidades?

Não poder parar de achar simultaneidades?


A característica mais valorizada e mais
reconhecido dominando de forma
fundamentalista a vida...

93
“Pensar uma coisa e ter uma resposta ambiental
imediata.”
tão fundamental e interfere tanto para
quem?

Problemas - efeitos do Ego heróico

94
Simultaneidade /conexões

Problema para quem?

95
A doença não é o literalismo!
Desde que possa ser
atravessado e ter altares
para muitos outros padrões
- deuses.

96
Doença como norma única.
um único padrão do qual não se pode tomar distância.
Canguilhem

Sujeito como espaço de


atravessamentos, altares,
sacrifícios e oferendas para
muitos deuses.

97
•Foi um divisor de águas... no episódio de
97
•Acredito que conduzia comigo, estes
sintomas,
mas depois de 97 perdi o controle.
•Comecei a misturar o espaço mental com o
espaço real.

98
Eu tenho a empresa que trabalhei como uma coisa
impressionante;
(...) uma super empresa.(...) se estende a todas as
industrias, a estrutura, considero como uma
entidade(...) Então, dentro da empresa, eu
comentei com o meu supervisor que já tinha
chorado em frente a TV vendo (e querendo)a
Xuxa.
No final do ano de 97 - Eu fiz os links!
Falei na empresa da Xuxa.
Ela ficou grávida.
Conseguiram meu sêmen...
– Eu sou pai do filho da Xuxa !

99
Então já descontrolei, peguei um avião; fui para o Rio
de Janeiro sem mochila sem nada (...)
e fiquei caminhando durante 3 dias e dormindo na rua,
procurando a Xuxa (...) Dormia na rua, andava para
lá e para cá, (...) andei muitos quilômetros lá,
bastante (...)

100
“parti para essa viagem que nunca fiz”
Fernando Pessoa

Andava na atlântica, em Copacabana, por


coincidência ou por um evento natural as
ondas costumam quebrar segundo uma
ordem na praia, mas eu caminhava e as
ondas iam quebrando juntinho comigo; era
(uma) coisa que forçava a imagem de que
tinha uma coisa de ultra acontecendo.
Então há coisas que vão potencializando...

101
“Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava
distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem
pensar em nada. Ainda não percebera que na
verdade não estava distraída, estava era de uma
atenção sem esforço, estava sendo uma coisa
muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco
é que fui percebendo que estava percebendo as
coisas. (...) Tive então um sentimento de que
nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a
mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. (...) eu
era por carinho a mãe do que existe.”
Felicidade Clandestina/ Perdoando Deus/Clarisse Lispector

102
Perguntaram se eu era do Brasil.
Eu estava com uma cara de estrangeiro.
Comecei a ver meus familiares, pessoas
muito semelhantes aos meus
familiares.(...)
Aí, isto foi me sinalizando que tinha que
encontrar minha família, (...)

103
“Todo gesto é um ato revolucionário; um exílio,
talvez, (...) dos nossos propósitos. A ação é
uma doença do pensamento, um cancro da
imaginação. Agir é exilar-se. (...) o poema que
sonho não tem falhas, senão quando tento
realizá-lo.”
• Intervalo/ Fernando Pessoa

104
Na caminhada eu refletia um ser muito estranho
(...)
eu estava muito confuso, então isto
potencializou;
eu todo confuso, andando, sem destino,
as pessoas me viam como um ser diferente,
até com certa periculosidade
e isto pressionava: estão olhando para mim.
Potencializando (...)

105
Fui a casa da minha Avó, um pouco maltrapilho...
porque eu estava andando há três dias, lá no meio da rua ...
e minha avó me recebeu muito bem; assustada...
– Vó, está todo mundo olhando para mim.
– Será que eu fiz alguma coisa de errado?
– Eu, andando na rua assim, estou prejudicando alguém?
– Estou me prejudicando?
Ela me falou: - Filho... é estranho!
• mas ela me trouxe muito carinho.
A vida me fez de vez em quando pertencer,
como se fosse para me dar a medida do que
eu perco não pertencendo. E então eu
soube: pertencer é viver.
Clarisse Lispector
106
• Num determinado momento, eu com minha avó me
ajudando;
• Eu falei: - Vó eu preciso conversar com meu pai porque
ele participou da minha saída da empresa. Ele não me
apoiou muito, mas estava um pouquinho do lado.
• minha vó ligou para o meu pai, conversou com ele...
• Ele disse: - Vem para cá, vem; vamos arrumar uma
solução.
• Então eu fui.
• Meu pai morava em Itu... estava fazendo um
tratamento psicológico... este mesmo doutor, a quem
eu devo muito... me iniciou o tratamento em 98

107
“Esquizofrenia” é o que se apresenta quando uma
pessoa:

• Ouve vozes, vê coisas que outros não vêem,


não consegue separar nitidamente o que
pensa do que acontece ou tem idéias fixas,
com certeza plena de forte caráter literal?
• Apresenta distorções no pensamento, nas
percepções ou nos afetos?
• Não apresenta um senso de individualidade,
unicidade ou direção de si mesmos firmes?
108
Esquizofrenia poderia ser um nome que se
dá a uma configuração, que
apresenta-se num contexto em que, um
estilo de consciência unificador domina
totalitariamente a forma de vida presente?

Quando é constelada uma identificação


maciça com um personagem heróico,
literalizante?
109
O personagem heróico, unificador, literalizante
pode ser visto como um padrão de consciência.
E
é de uma pessoa?

unifica o diverso do sensível, as múltiplas


manifestações da natureza.
se orienta por um princípio unitário equivalente
– a forma mercadoria.
usando o princípio unitário sobre a vida, faz da
razão um instrumento de dominação.

110
Esquizofrenia, é a doença que se opõe a
unidade, individualidade, ou controle de si?
• ou
É a oportunidade de perceber os limites deste
personagem heróico que impõe, através das
pessoas, sua forma unitária, de maneira
fundamentalista, sobre a vida em movimento,
em toda a multiplicidade e tensão, entre o que
está determinado e o eterno indeterminar?

111
Esquizofrenia não é o que aparece quando o
padrão (personagem heróico), unificador,
conduz e obriga a pessoa a:
• Dar importância e responder a todas as vozes que
aparecem?
• Ter que reagir, explicar e entender tudo que vê?
• Ter que separar nitidamente o que pensa do que
acontece?
• Não poder ter dúvidas, incertezas, não saber?
• Não poder sentir os pensamentos ou sentimentos
divididos e/ou compartilhados sem se apavorar com
isto?
• Não poder se ver como múltiplo e um?
112
Esquizofrenia não pode ser o nome dado à
constelação de sintomas que resiste às
características fundamentais do que se
considera indivíduo ou sujeito moderno?
A sintomatologia descrita não poderia
mostrar o que resiste a identificação
maciça e literal com o princípio unitário,
equivalente, que mantêm o personagem
heróico?
113
Não é quando o padrão unificador se
encarna que temos a apresentação dos
sintomas que são descritos na
esquizofrenia?
E então, não se pode mais reconhecer que
a direção de si mesmo não precisa nem ser
firme nem determinada pelo Eu; que
somos sempre conduzidos por várias forças
(vários deuses).
114
• Será que haveria sustentação possível para a
estabilidade de sintoma, identidade,
propriedade, quando o sujeito pudesse se colocar
num lugar mais flexível, atravessado por
múltiplos padrões de consciência, sem
identificar-se fixamente com nenhum deles?
• Seria possível tal constelação se o sujeito pudesse
se reconhecer e ser reconhecido como posição de
indeterminação?
• Isto não dissolveria as determinações
sintomatológicas no processo contínuo da vida?

115
• Não estaria a sintomatologia psicopatológica,
que se constela no conjunto de sinais e
sintomas que podemos chamar esquizofrenia,
carregando a instabilidade, inquietação e
indeterminação viva?
• A psique querendo desprender-se da
determinação fixa e unitária que se colocou
como norma única?

“Patologização como metáfora radical da vida”


Hillman

116
“mas eu percebia um primeiro rumor como de
um coração batendo embaixo da terra.
Colocava quietamente o ouvido no chão e
ouvia o verão abrir caminho por dentro e o
meu coração batendo embaixo da terra. (...)
sentia a paciente brutalidade com que a terra
fechada se abria por dentro em parto, e sabia
com que peso de doçura o verão amadureceria
cem mil laranjas.(...)
Não vê que isto aqui é como um filho nascendo?
Dói. Dor é vida exacerbada. O processo dói. Vir
a ser é uma lenta e lenta dor boa.”
Água viva/Clarisse Lispector
117
Não estaria a sintomatologia psicopatológica
apresentada na esquizofrenia oferecendo a
oportunidade de perceber os limites (o que
resiste) a este padrão de consciência; não
apenas em quem os sintomas são
identificados, mas nos contextos (relações,
“posturas terapêuticas”,expressões culturais
etc.) em que eles aparecem?
Teria a preponderância histórica deste padrão, nas
culturas dos países do 1º mundo, relação com a
evolução dos “transtornos esquizofrênicos” serem
mais crônicas e mais difíceis nestes do que no 3º ?
118
“Nunca me perguntei, nunca perguntei a ninguém.
Até que ponto, se isto foi verdade na época...”

• Retomando o caso apresentado:


• Talvez melhor para a vida seja viver sabendo que foi
e não foi verdade!
• Que foi verdade até certo ponto!
• Que pode ser metaforicamente verdadeiro, como
qualquer outra coisa poderia ser!
• E que a unificação da verdade pode ser a uma
forma de paralisação da vida!

119
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no
que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver
ultrapassa qualquer entendimento”
Clarisse Lispector

120
Assim poderíamos ver
os deuses como doenças
e as patologias uma via
fundamental e
metáfora radical da vida!

121