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CENTRO UNIVERSITÁRIO NILTON LINS

LICENCIATURA EM HISTÓRIA
ANTROPOLOGIA CULTURAL E EDUCAÇÃO INDIGENA
PERÍODO 2015.1

RACISMO

ANTROPOLOGIA CULTURAL E EDUCAÇÃO INDIGENA


UNIDADE I – INTRODUÇÃO A ANTROPOLOGIA CULTURAL
AULA 05 – RACISMO
A IDEIA DE RAÇA
 A situação de exclusão a que a população negra foi
submetida no Brasil desde o século 16 é fruto do
racismo. Como ideologia o racismo foi fundado pelo
pensador francês Joseph-Arthur de Gobineau (1816-
1882) em seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças
Humanas(1853-1855). Essa doutrina baseava-se em
três pontos principais: a existência de várias raças
humanas, a compreensão das diferenças entre as
raças como fatores essenciais do processo histórico-
social e a afirmação de uma raça superior. Ela serviu
de ponto de partida para que no início do século 20, o
britânico Houston Stewart Chamberlain(1825-1927)
difundisse, na Alemanha, o mito da superioridade da
raça ariana.
ETMOLOGIA DA PALAVRA RAÇA
“Etmologicamente, o conceito de raça veio do
italiano razza, que por sua vez veio do latim ratio,
que significa sorte, categoria, espécie. Na história
das ciências naturais, o conceito de raça foi
primeiramente usado na Zoologia e na Botânica
para classificar as espécies animais e vegetais.
Como a maioria dos conceitos, o de raça tem seu
tempo semântico e uma dimensão temporal e
espacial”
• Prof. Dr. Kabengele Munanga (USP)
CONCEITO DE ETNIA
“Um grupo social cuja indentidade se define pela
comunidade de língua, cultura, tradições,
monumentos históricos e territórios.”( Por Eliana de
Oliveira)
“ O conteúdo da raça é morfo-biólogico e o da etnia é
sócio-cultural, histórico e psicológico. Um conjunto
populacional dito raça “branca”, “negra” e “amarela”,
pode conter em seu seio diversas etnias. Uma etnia é
um conjunto de indivíduos que, histórica ou
mitologicamente, têm um ancestral comum; têm uma
língua em comum, uma mesma religião ou
cosmovisão; uma mesma cultura e moram
geograficamente num mesmo território.” (Por Prof.Dr.
Kabengele Munanga (USP)
A IDEIA DE RAÇA – SEGUNDO MICHAEL BANTON

“É também imprudente estudar a ideia de


raça separada de duas outras ideias que
renasceram nos primeiros anos do século
XIX. As ideias modernas de raça, classe e
nação surgiram no mesmo meio europeu e
têm muitas similaridades.”
“ A raça, como a classe e a nação, foi um
conceito desenvolvido primeiramente na
Europa, para ajudar a interpretação de
novas relações sociais.
A RACIALIZAÇÃO DO OCIDENTE
“ E porque o seu continente atravessou em primeiro o
processo de industrialização e era muito mais poderoso
que os outros, os europeus impuseram
inconscientemente as suas categorias sociais aos povos
em que muitos casos agora as adoraram como suas.”

“ Alguns autores notando a ausência de consciência e


antagonismo racial no mundo clássico e medieval,
sugeriram que é possível datar a origem do preconceito
racial como uma característica da cultura europeia e
atribuir seu aparecimento a causas específicas.”
A RACIALIZAÇÃO DO OCIDENTE
“Sempre houve uma tendência nas pessoas para
preferirem as da sua “própria espécie” e serem
desconfiadas relativamente aos estranhos. Na Europa
medieval o branco tinha um valor positivo e o negro um
valor negativo (Hunter, 1967).”
“ Quer na França quer na Inglaterra a palavra “raça”
começou a mudar de significado por volta de 1800.
Anteriormente, o termo foi utilizado primeiramente no
sentido de “linhagem”; as diferenças entre raças derivam
de circunstâncias da sua história e, embora se
mantivessem através das gerações, não eram fixas.”
A RACIALIZAÇÃO DO OCIDENTE
“No século XIX, o termo “raça veio a significar uma
qualidade física inerente. Os outros povos passavam a
ser vistos como biologicamente diferentes. Embora a
definição continuasse incerta, as pessoas começaram
a pensar que a humanidade estava dividida em raças.
Tinha, portanto, de se explicar a razão dessas
diferenças raciais.”

 O autor cita explicações vindas do catolicismo,


oposição entre saxões e normandos, como uma luta
entre duas raças, desprezo aos judeus, absolutismo,
monarquia.
A RACIALIZAÇÃO DO MUNDO

“Como o termo “raça” significa diferentes coisas


para diferentes escritores e é a origem de muita
confusão, é mais conveniente usar o conceito de
<tipo> como chave para atravessar o labirinto.”
“ As plantas e as aves eram identificadas
primeiramente como membros de uma classe,
depois de ordens, em seguida de gêneros e,
finalmente de espécies.”
“ Tendo racializado o Ocidente, os seus sucessores
trataram de racializar o resto do mundo. Gobineau
avançou como uma teoria de superioridade ariana
esboçada em termos muitos gerais.”
A RACIALIZAÇÃO DO MUNDO
“ Nem as teorias raciais foram sempre utilizadas
para minimizar os povos de cor. Na Índia, a
teoria ariana apontava mais para a existência de
laços comuns entre os britânicos e a população
nativa que para uma divisão entre os
estrangeiros e locais, ainda que nem britânicos
nem hindus respondessem de maneira uniforme
a este fato.”

“ A teoria ariana negaria a igualdade aos


indianos não arianos, incluindo os grupos sem
casta com os povos tribais, árabes e judeus”
A RACIALIZAÇÃO DO MUNDO

“Questionamento do escritor negro de Trindade,


J.J. Thomas na sua obra Froudacity: “O que há na
natureza das coisas que desapossa os africanos
do direito de participar, nos tempos futuros, nos
altos destinos que, no passado, foram atribuídos a
tantas raças que não foram de modo algum
superiores a nós nas qualificações físicas, morais e
intelectuais, que marcam definitivamente uma
raça para a proeminência entre outras
raças?”(1889:180-81) – Banton pg.74.
A IDÉIA DE RACISMO
“ A palavra <racismo> parece ter sido introduzida na
Inglaterra no final dos anos 30, para identificar um tipo de
doutrina que, em essência, afirma que a raça determina a
cultura. Uma vantagem desta aplicação é que não procura
abarcar outros fenômenos, com os quais estas doutrinas
estão frequentemente, associadas. Não faz pressuposições
sobre os motivos ou intenções das pessoas que propuseram
ou adoptaram tais doutrinas, nem sobre as funções que a
doutrina desempenha na sociedade global. Para identificar
estes aspectos tornar-se-ia necessário usar outros conceitos.
As palavras <<racismo>> e <<racista>> foram utilizadas por
pessoas que desejavam atacar as doutrinas da desigualdade
e assim, dentro dos círculos em que eram empregues,
adquiriram fortes conotações pejorativas que ajudam a
explicar a recente tentativa de ampliar a sua aplicação.”
RACISMO NO BRASIL
‘’A crença da convivência cordial e harmoniosa das
raças/etnias que compuseram a sociedade brasileira,
aliada à construída crença da inferioridade do negro,
consolidou um quadro de desigualdade racial
estrutural no país. Deste modo, o racismo, aqui, toma
formas especiais; ele é negado, velado. Como disse
Florestan (FERNANDES, 1972, P.42): “o brasileiro tem
preconceito de ter preconceito”. (Dissertação de Luiz
Carlos Paixão da Rocha - pg.13)
- A miscigenação contribui com a consolidação da
falsa ideia da não existência do Racismo – este se
manifesta em gradação, atingindo mais as pessoas
com um fenótipo mais próximo da ancestralidade
africana e menos conforme a aparência se aproxime
do fenótipo branco.
RACISMO NO BRASIL
“ O Racismo em nossa sociedade se dá de um modo
muito especial: ele se afirma através da sua própria
negação. Por isso dizemos que vivemos no Brasil um
racismo ambíguo, o qual se apresenta, muito diferente
de outros contextos onde esse fenômeno acontece. O
racismo no Brasil é alicerçado em uma constante
contradição. A sociedade brasileira sempre negou
insistentemente a existência do racismo e do
preconceito racial mas no entanto as pesquisas
atestam que, no cotidiano, nas relações de gênero, no
mercado de trabalho, na educação básica e na
universidade os negros ainda são discriminados e
vivem uma situação de profunda desigualdade racial,
quando comparados com outros segmentos étnico-
raciais do pais.
FRANTZ FANON
Nasceu na ilha da Martinica em 1925 e morreu aos 36
anos
Obras fundamentais: “Pele Negra, Máscaras Brancas”
de 1952 e “Os condenados da Terra” de 1961.
Fanon diz: “Há na Martinica duzentos brancos que se
julgam superiores a trezentos mil elementos de cor. Na
África do Sul devem existir dois milhões de brancos
para aproximadamente treze milhões de nativos, e
nunca passou pela cabeça de nenhum nativo sentir-
se superior a nenhum branco”
*Imposição psicológica da dominação do grupo
dominante – “eu sei que aqui não é o meu lugar” –
“complexo de inferioridade” e “negação de si
mesmo”
ESTEREÓTIPO
“ Caracteriza, funciona com um CARIMBO: as
pessoas deixam de ser vistas por suas reais
qualidades e passam a ser julgadas pelo carimbo
recebido. É uma caricatura, uma imagem mental
coletiva que apoia o preconceito.
“ São preconceitos cristalizados em imagens ou
expressões verbais. Reduz o diferente em traços
pejorativos. São preconceitos cristalizados em
imagens ou expressões verbais, em geral não se
baseiam em experiências verdadeiras. Atribuem-
se traços de personalidade ou comportamento a
pessoas, grupos, etc.”
PRECONCEITO
“ É um julgamento formulado sobre uma pessoa,
grupo de indivíduos ou povo que ainda não se
conhece ou não compreendemos. É um dado
universal, ligado à psicologia humana, um dado
inerente a todas as culturas e a todas civilizações”
Preconceito Racial: ‘Simplesmente uma disposição
afetiva imaginária ligada aos estereótipos étnicos,
uma atitude, uma opinião que pode ser verbalizada
ou não, que pode se tornar uma crença’’
*O Preconceito seria a materialização do estereótipo –
são próximos porque o preconceito é apoiado pelo
estereótipo .
DISCRIMINAÇÃO
“ A palavra discriminação significa distinguir, isto é,
estabelecer distinção entre as pessoas pelas
diferenças que elas têm de todo tipo. Na medida
em que estabelecemos diferenças para distinguir
as pessoas, estamos discriminando-as. Pode ser
positiva ou negativa, é considerar que a diferença
implica diferentes direitos.”
Discriminação Racial: é um comportamento
coletivo observável, até mensurável ligado a
certos modos de funcionamento social. Ela é
produzida quando se recusa aos indivíduos ou aos
grupos humanos, a igualdade de tratamento que
tem direito de receber. É o tratamento depreciativo
dado as pessoas de determinada raça.”
RACISMO INSTITUCIONAL
 “O Racismo Institucional é atualmente a questão
mais ampla da expressão da discriminação
racial, xenofobia e intolerância. Ele refere-se a
práticas institucionais que tendem a pôr o grupo
vitimizado em constante posição de
desvantagem em relação ao grupo dominante
na sociedade em diversas áreas, tais como
educação, emprego, oportunidade de carreira,
habitação, saúde e outros benefícios
desigualmente distribuídos.”( Por Peter Fry –Prof.
Titular de Antroplogia do Instituto de Filosofia e
Ciências Socias (IFCS) da UFRJ.)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Embora seja reconhecido a inexistência cientifica da raça e
a inoperabilidade do próprio conceito, este ainda é
justificado como conceito de realidade social e política,
considerando a raça como uma construção sociológica e
uma categoria social de dominação e exclusão.
Os patrimônios genéticos são diferentes, mas essas
diferenças não são suficientes para classificá-las em raças”
“Estamos entrando no terceiro milênio carregando o saldo
negativo de um racismo elaborado no fim do século XVIII aos
meados do século XIX. A consciência política reivindicativa
das vítimas do racismo nas sociedades contemporâneas está
cada vez mais crescente, o que comprova que as práticas
racistas não recuaram.”
 “Mais uma vez, no início do século 21, muitos se dão
conta de que está novamente em curso um vasto
processo de Racialização do mundo. O que ocorreu
em outas épocas, a começar pelo ciclo das grandes
navegações, descobrimentos, conquistas e
colonizações, torna a ocorrer no início do século 21,
quando indivíduos e coletividades povos e nações,
compreendendo nacionalidades, são levadas a dar-
se conta de que se definem, também ou mesmo
principalmente, pela etnia, a metamorfose da etnias
em raça, a transfiguração da marca ou traço
fenotípico em estigma. Sim, no século 21 continuam a
desenvolver-se operações de “limpeza étnica”,
praticadas em diferentes países e colônias.” (Por
Octavio Ianni – Artigo: A Dialética das Relações
Raciais)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SAPEDE.T.C.Racismo e Dominação Psíquica em Frantz Fanon – Dossiê – II Semináro Sankofa –
GOMES,Nilma Lino.Alguns Termos e Conceitos Presentes no Debate Sobre Relações Raciais no
Brasil: Uma Breve Discussão
ROCHA,Luiz..Políticas Afirmativas e Educação: A lei 10639/03 no contexto das Políticas
Educacionais no Brasil Comtemporâneo. Dissertação(Curso de Mestrado em Educação e
Trabalho)
Universidade do Paraná, Curitiba.2006
HANDERSON.D.J. A Força das Palavras: Preconceito, Discriminação e Racismo,Universidade de
Pelotas, Centro de Educação Aberta e a Distância, Curso de Aperfeiçoamento em Educação
para as Relações Étnico-Raciais.
RELATÓRIO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO – Racismo, pobreza e violência. PNDU – Brasil 2005.
IANNI,Octavio. A Dialética das Relações Raciais
MUNANGA,Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade
e etnia,Inclusão Social, um debate necessário?- https://ufmg.br/inclusaosocial
BANTON,Michael. A Ideia de Raça, trad.de Antônio Marques Bessa, Livraria martins fontes, São
Paulo,1977.
INSTITUTO AMMA PSIQUE E NEGRITUDE. Os Efeitos Psicossociais do Racismo.ed.Imprensa
Oficial,São Paulo 2008.
História da África E Diáspora Africana nas Américas do Coletivo Fanon.
http://coletivofanon.blogspot.com