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A escola conservadora: as

desigualdades frente à escola e


à cultura

T3 A1 Educação, conflito e classes sociais


Sociologia da Educação I - Pedagogia
Recapitulação

Paradigma do consenso ou corrente funcionalista


Émile Durkheim (1858-1917)


Educação e Sociologia em Durkheim


Paradigma do conflito ou corrente conflitualista


2
Pierre Bourdieu (1930-2002)
O texto

A escola conservadora: as desigualdades frente à


escola e à cultura
Publicado em 1966 (França).
A escola conservadora: as desigualdades frente
à escola e à cultura

“A função do sistema de ensino é servir de instrumento de


legitimação das desigualdades sociais. Longe de ser
libertadora, a escola é conservadora e mantém a dominação
dos dominantes sobre as classes populares, sendo
representada como um instrumento de reforço das
desigualdades e como reprodutora cultural, pois há o acesso
desigual à cultura segundo a origem de classe”.
HEY, Ana Paula (UMESP) e CATANI, Afrânio Mendes
(USP)
https://revistacult.uol.com.br/home/bourdieu-e-
A escola conservadora: as desigualdades frente
à escola e à cultura

“O fato de desvendar as desigualdades do ensino francês,


tanto como sistema como em seu interior, significa uma
grande mudança no pressuposto já canonizado –
principalmente com Durkheim, que personifica o ideal da
Terceira República (1870-1940), conhecida como “A
República dos Professores” –, em que a escola deveria
fornecer a educação para todos os indivíduos,
proporcionando-lhes instrumentos que pudessem garantir
sua liberdade, mas, também, sua ascensão social”.
Leitura comentada

Dom - Aquilo que foi objeto de doação; dádiva, donativo,


presente. Qualidade especial ou habilidade inata para fazer
algo; aptidão, habilidade, talento.
Inato - Que nasce com o indivíduo; congênito, inerente.
Ethos - Modo de ser, natureza (emocional, moral, intelectual)
habitual de um indivíduo. Síntese dos costumes de um povo.
A morada do homem.
Capital cultural
Os 3 estados do capital cultural

“A noção de capital cultural impôs-se, primeiramente, como


uma hipótese indispensável para dar conta da desigualdade
de desempenho escolar de crianças provenientes de
diferentes classes sociais, relacionando o “sucesso escolar”.
Os 3 estados do capital cultural

“Não se pode levar em conta apenas as taxas de lucro


asseguradas pelo investimento educativo e pelo
investimento econômico, é preciso colocar em pauta a parte
relativa que os diferentes agentes ou as diferentes classes
concedem ao investimento econômico e ao investimento
cultural por não considerarem, sistematicamente, a
estrutura das chances diferenciais de lucro que lhes são
destinadas pelos diferentes mercados, em função do volume
e da estrutura de seu patrimônio”. 
Os 3 estados do capital cultural

“Além disso, não podemos deixar escapar a transmissão


doméstica do capital cultural, pois não podemos ignorar que
a “aptidão” ou o “dom” são também produtos de um
investimento em tempo e em capital cultural. O rendimento
escolar da ação escolar depende do capital cultural
previamente investido pela família e o rendimento
econômico e social do certificado escolar depende do capital
social, também herdado, que pode ser colocado a seu
serviço”.
Capital cultural no estado incorporado

“A acumulação de capital cultural exige uma incorporação


que, enquanto pressupõe um trabalho de inculcação e
assimilação, custa tempo que deve ser investido
pessoalmente pelo investidor. Sendo algo pessoal, o
trabalho de aquisição é um trabalho do “sujeito” sobre si
mesmo. O capital cultural é um ter que se torna ser, uma
propriedade que se fez corpo e tornou-se parte integrante
da “pessoa”, um “habitus” (jeito de ser individual construído
ao longo de uma história; um sistema de disposições
duráveis) e que constrói a subjetividade e individualidade”.
Capital cultural no estado incorporado

“Aquele que possui o capital no estado incorporado “pagou


com sua própria pessoa” e com aquilo que tem de mais
pessoal, seu tempo. Por isso, esse capital “pessoal” não
pode ser transferido instantaneamente, ele depaupera e
morre com seu portador. É o capital que se faz corpo, não
percebo quando o adquiro (homeopaticamente), como se
fosse uma “segunda natureza”.
Capital cultural no estado incorporado

Além disso, e correlativamente, o tempo durante o qual


determinado indivíduo pode prolongar seu empreendimento
de aquisição depende do tempo livre que sua família pode
lhe assegurar, ou seja, do tempo liberado da necessidade
econômica”.
Capital cultural no estado objetivado

“O capital cultural no estado objetivado não é ensinado, ele


é adquirido tardiamente e é transferível.  Ele só existe e
subsiste como capital ativo e atuante de forma material e
simbólica, na condição de ser apropriado pelos agentes e
utilizado como arma e objeto das lutas que se travam nos
campos da produção cultural e no campo de classes sociais,
onde os agentes obtêm benefícios proporcionais ao domínio
que possuem.
Capital cultural no estado objetivado

“É o capital cultural objetivado em suportes materiais,


assim, os bens culturais podem ser objeto de uma
apropriação material (capital econômico) e de uma
apropriação simbólica (capital cultural)”.
Capital cultural no estado institucionalizado

“O diploma, uma certidão de competência cultural que


confere ao seu portador um valor convencional, produz uma
forma de capital cultural institucionalizado. Essa forma de
capital cultural produz descontinuidade duráveis e brutais,
do tudo ou nada, como aquela que separa o último aprovado
do primeiro reprovado, e institui uma diferença de essência
entre a competência estatutariamente reconhecida e
garantida e o simples capital cultural”.
Capital cultural no estado institucionalizado

O certificado escolar permite, além disso, a comparação


entre os diplomados e, até mesmo, sua “permuta”, permite,
também, estabelecer taxas de convertibilidade entre o
capital cultural e o capital econômico, garantindo o valor em
dinheiro (salário) de determinado capital escolar”.
Até a década de 1960…


A educação como fator de:

democratização

distribuição de renda

de melhoramento da natureza humana

(otimismo pedagógico)
Síntese do paradigma do consenso
ou corrente funcionalista


Enfoque moralista

Orientação positivista

Confusão entre o que é (análise) com
o que deve ser (pretensão, projeto)
Síntese do paradigma do consenso
ou corrente funcionalista


Mescla entre filosofia e ciência

Esperava que o entendimento
sociológico da educação influenciasse
a prática educacional, ou seja, para
além de uma mera análise sociológica

A sociedade interpretada como um
organismo vivo (metáfora do corpo
humano, função de cada órgão, etc.)
Émile Durkheim (1858-1917)


Características do funcionalismo
durkheiminiano:

As regras de conduta determinam a ação
de todos os indivíduos

O objeto de estudo da Sociologia é o fato
social, ou seja, as regras e as normas
sociais que orientam a vida dos indivíduos
na sociedade

Os fatos sociais devem ser analisados
como se fossem coisas
Consenso = solidariedade


A existência de uma sociedade está
baseada no grau de consenso entre os
indivíduos, ou seja, na solidariedade.
Solidariedade em Durkheim:


Estado ou situação de um grupo que
resulta do compartilhamento de
atitudes e sentimentos, tornando o
grupo uma unidade coesa e sólida,
com a capacidade de resistir às
pressões externas.
E a educação?


A educação:

unifica valores morais e
conhecimentos
próximos/semelhantes;

divide por meio das especializações.
O papel da educação


Para Durkheim, a vida em sociedade
supõe “semelhanças essenciais”, isto é,
“um certo número de ideias,
sentimentos e práticas que a educação
deve inculcar em todas as crianças
indiscriminadamente, pertençam elas a
qualquer categoria social”

Consenso (coesão social) e
solidariedade.

Menor risco de anomia.
Em uma sociedade industrial e
democrática,


os valores de base estão relacionados
a três partes fundamentais:

i) o espírito de disciplina (submissão
às regras garantem a vida coletiva);

ii) apego aos grupos sociais (espírito
de sacrifício e de abnegação, ou seja,
a superação do egoísmo), isto é, a
identificação com a Nação e suas
instituições;
Em uma sociedade industrial e
democrática


iii) a autonomia da vontade, isto é, a
livre submissão aos imperativos
morais na medida em que estes sejam
fundados sobre razões sociais que se
impõem a razão individual.

Em uma palavra: ORDEM


Dúvidas sobre o paradigma do
consenso ou corrente funcionalista?
A partir da década de 1960…


A educação como fator de reprodução:

das desigualdades sociais

não há consenso entre os
conflitualistas

diferentes perspectivas teóricas e
políticas

A palavra é: CONTROLE

(pessimismo pedagógico)
Síntese do paradigma do conflito ou
corrente conflitualista


Enfatiza processos dissociativos da
sociedade.

De uma lado as pessoas que nela trabalham
participam de vários processos sociais que
as mantêm unidas, trabalhando e aceitando
a autoridade dentro de certos limites;

de outro lado, este grupo apresenta
competição entre as pessoas por um sem-
número de posições, rivalidades pessoais,
tensões entre empregados e patrões,
condições de trabalho, etc., etc., etc.
Os conflitualistas...


Não negam a integração entre as
pessoas, mas veem o consenso como
algo imposto pelos grupos dominantes.

Valores e ideias são vistos mais como
armas para o conflito do que como
meios de integração.

A sociedade é vista como um todo
segmentado, com diferentes grupos
lutando por recursos limitados.
Conflitualistas


Apesar dessas generalizações, o paradigma
do conflito possui uma grande variedade de
posições e abordagens.

Em grande parte dessas abordagens, está
presente a sociologia marxista, que entende
que a sociedade capitalista é formada por
uma unidade contraditória de capital e
trabalho assalariado, baseada em uma nova
forma de produção.

Classes sociais, divisão do trabalho e
conflito.
Dentre os conflitualistas, destacam-se

P. Bourdieu e J-C. Passeron, com A reprodução.


Louis Althusser, com os aparelhos ideológicos de
estado.
C. Baudelot e R. Establet, com A escola capitalista na
França.
Próxima aula

Prova.
Com consulta (anotações, textos, slides, etc).
Duas (2) questões dissertativas.