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Curso Popular de Formação

Defensoria Pública
Direito Processual Penal
Professora Juliana Garcia Belloque

Indicações de autores:

Gustavo Badaró
Aury Lopes Junior
Direitos e garantias constitucionais
e convencionais
O processo penal enquanto ferramenta de proteção da
liberdade individual - Garantia da jurisdicionalidade - Nulla
poena, nulla culpa sine iudicio - O processo penal é
instrumento necessário para a aplicação do ius puniendi.
Por isso que a forma, no processo penal, é garantia.

A Constituição enquanto fonte primeira do direito


processual penal, integrada materialmente pela CADH (art.
7 – direito à liberdade pessoal e 8.2 – garantias judiciais)
Devido processo legal – art. 5º, LIV
Cláusula de encerramento do sistema – na qual residem
as garantias implícitas (ex. proporcionalidade,
imparcialidade, duplo grau de jurisdição)

Aspectos processual/formal (respeito às regras do jogo)


e material/substancial (razoabilidade do conteúdo das
normas restritivas de direitos e liberdades individuais) –
previsão implícita do critério da proporcionalidade
Critério da proporcionalidade
As restrições dos direitos individuais pelo Estado devem
observar os seguintes critérios:

Necessidade
Adequação para os fins almejados
Proporcionalidade em sentido estrito = ponderação
dos valores envolvidos

(ex. de aplicação: interceptação telefônica, prisão


cautelar)
Garantia do juiz natural – art. 5º,
XXXVII e LIII
Tríplice conteúdo: 1) proibição dos tribunais de
exceção; 2) proibição do juiz post factum e 3)
estabelecimento constitucional prévio da competência,
sem discricionariedade

Imparcialidade e independência do juiz como


conteúdos da garantia do juiz natural (art. 8.1 CADH)
Motivação das decisões judiciais –
art. 93, IX
Metagarantia: que confere legitimação ao poder
jurisdicional. Todo ato judicial com conteúdo decisório
deve ser fundamentado

Cautela na motivação per relationem. Necessidade de


análise dos argumentos defensivos.
Discussão do art. 252 do RI do TJSP
Perguntas referentes à garantia da
motivação
O que é motivação per relationem? Consiste em
método de motivação no qual o juiz ou tribunal faz
referência à decisão anterior (recorrida) ou à
manifestação de uma das partes, empregando-as como
razões de decidir. É permitida pelo RI do TJSP (art. 252),
mas deve ser usada com as seguintes cautelas, segundo
jurisprudência do STJ: 1) o trecho de referência deve ter
enfrentado as teses defensivas contidas no recurso; 2) o
trecho deve ser transcrito na decisão que o emprega
Sistemas de valoração da prova:

Regra geral vigente: livre convencimento motivado ou


persuasão racional – art. 155 do CPP

Exceções/resquícios de outros modelos:


- prova legal tarifada: artigos 155, par. un. (estado das
pessoas – restrições da lei civil) e 158 do CPP (exame de
corpo de delito para a prova da materialidade):
- íntima convicção (júri popular) – julgamento sigiloso e
não motivado
Publicidade – art. 5º, LX e 93, IX
dos autos e dos atos processuais
Metagarantia, especialmente do contraditório e da
ampla defesa. Confere transparência ao processo,
permitindo o controle externo (público em geral) e
interno (entre as partes).

Limitação do controle externo: publicidade apenas


para as partes e seus advogados para a preservação da
intimidade ou interesse social, quando o sigilo não
prejudique o interesse público à informação (redação da
EC 45/2004)
Sigilo do inquérito policial?
Art. 20 do CPP: prevê o sigilo necessário à elucidação
do fato ou ao interesse da sociedade

Súmula vinculante 14 do STF: é direito do defensor, no


interesse do representado, ter acesso amplo aos
elementos de prova que, já documentados em
procedimento investigatório realizado por órgão de
competência de polícia judiciária, digam respeito ao
exercício do direito de defesa.

Conclusão: limitação apenas da publicidade externa


Perguntas sobre garantias no IP
Atuam o contraditório e o direito de defesa no IP? Não
há contraditório pleno no IP, mas há sim direito de
defesa, reforçado pela Sum. Vinculante 14.

Recentemente alteração do Estatuto da OAB garantiu o


direito de acesso do advogado aos autos de inquérito,
bem como o direito de assistir o investigado no
interrogatório e depoimentos, sob pena de nulidade
(PLC 78/2015)
Presunção de inocência: art. 5º LVII
e 8.2 da CADH

CF/88 – Ninguém será considerado culpado até


o trânsito em julgado da sentença penal
condenatória

CADH – Toda pessoa acusada de delito tem


direito a que se presuma sua inocência
enquanto não se comprove legalmente a sua
culpa.
Presunção de inocência
Regra de tratamento: antes do trânsito em
julgado o acusado não pode ser tratado como
culpado (proibição de algemas, proteção à
imagem, medidas cautelares calcadas apenas na
estrita necessidade)

Regra de julgamento: reflexo na repartição do


ônus da prova (a prova incumbe à acusação –
nova leitura do artigo 156, CPP diante do
princípio e da atual redação do art. 386, VI, CPP)
Súmula vinculante n. 11 do STF

Só é lícito o uso de algemas: em caso de


resistência, fundado receio de fuga ou de perigo
à integridade física própria ou alheia
- excepcionalidade da medida
- medida fundamentada por escrito
- sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e
penal e nulidade da prisão ou do ato processual
Duração razoável do processo – art.
5º, LXXVIII

Introdução expressa a partir da EC 45: direito a


um processo sem dilações indevidas

Fundamento na dignidade da pessoa humana –


o Estado se apossa ilegalmente do tempo do
indivíduo de forma dolorosa durante o processo
Critérios jurisprudenciais para a
aferição da razoabilidade
- complexidade da causa;
- atividade processual do acusado;
- denodo das autoridades no dever de impulso
oficial do processo

Composição com o art. 5º, XXXV (garantia à tutela


jurisdicional) – HC 108.407-RJ STF (Rel.
Lewandowski)
Ampla defesa –
art. 5º, LV e XXXVIII, a
Autodefesa: renunciável exclusivamente pelo
acusado
* Direitos do réu: presença em todos os atos
processuais e audiência - direito de ser ouvido

Defesa técnica: indisponível (art. 261, CPP),


garantida pela assistência jurídica gratuita, e efetiva,
art. 261, par. un. – sempre por manifestação
fundamentada.
Questões relacionadas à AUTODEFESA
1) quando é possível a retirada do réu da sala de
audiências?: quando a presença do réu gerar humilhação,
temor ou sério constrangimento ao inquirido, devendo-se
privilegiar a realização do ato por videoconferência (art.
217, CPP) * decisão fundamentada, constando do termo
de audiência

2) Como funciona a participação da defesa pública nas


oitivas por carta precatória?: a) necessidade de intimação
pessoal quando houver Defensoria no juízo deprecado e b)
direito de participação do réu preso, que deve ser
apresentado, mesmo se preso em outra comarca

3) qual a hipótese de produção antecipada de provas na


revelia do réu citado por edital? apenas em situação de
concreta necessidade/urgência (art. 366 e sum. 455/STJ)
Súmula 523 do STF: “No processo penal a falta
de defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua
deficiência só o anulará se houver prova de
prejuízo para o réu”
Ampla defesa na Convenção
Americana
Art. 8.2:
- direito à assistência gratuita de um intérprete
- comunicação prévia e pormenorizada ao acusado da
acusação formulada;
- concessão ao acusado do tempo e dos meios
adequados para a preparação de sua defesa;
- comunicar-se, livremente e em particular, com seu
defensor;
- direito de defender-se pessoalmente, de escolher o
defensor ou de ser assistido por defensor
proporcionado pelo Estado
Contraditório – art. 5º, LV
Conteúdo: informação e reação: indisponível
Estrutura dialética do processo. Paridade de armas

Direito à prova em contraditório: direito da defesa de


inquirir as testemunhas presentes no tribunal e de
obter o comparecimento, como testemunhas ou
peritos, de outras pessoas que possam lançar luz sobre
os fatos
Contraditório e artigo 155 do CPP

Princípio do livre convencimento motivado com


amparo na prova produzida em contraditório judicial
O juiz não pode fundamentar sua decisão
exclusivamente em elementos informativos da fase de
investigação, à exceção das provas cautelares,
irrepetíveis e antecipadas
Direito ao silêncio ou privilégio
contra a autoincriminação
art. 5º, LXIII

Direito de não produzir provas contra si mesmo;


vedação a intervenções corporais involuntárias
(direito de defesa negativa)

Fundamentos: dignidade da pessoa humana,


proibição de tratamento degradante e direito à
intimidade
Identificação criminal – art. 5º, LVIII

O civilmente identificado não será submetido a


identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas em
lei – Lei 12.037/2009:
- documento civil com rasura, indício de falsificação;
- identificação incompleta; data antiga, local distante de
expedição ou má conservação que impliquem em
dados insuficientes;
- registros do uso de outros nomes pelo indiciado;
- cláusula genérica: quando a identificação criminal foi
“essencial às investigações policiais”, mediante decisão
judicial
Identificação criminal por material
biológico
Métodos: datiloscópico, fotográfico + coleta de
material biológico
Inconstitucionalidade da lei que determina a
colheita de material genético dos réus e
condenados – Lei 12.654/12:
1) Novo método de identificação criminal do
suspeito/indiciado na hipótese da cláusula
genérica;
2) Banco de dados de condenados por crimes
hediondos ou crimes dolosos com violência
grave contra a pessoa para confrontos futuros
Duplo grau de jurisdição

Princípio imanente no texto constitucional


(decorrente da organização do Poder Judiciário, do
devido processo legal e da ampla defesa)

+ CADH, art. 8.2, h, que prevê expressamente o


direito do acusado de recorrer a juiz ou tribunal
superior
Inadmissibilidade das provas ilícitas
art. 5º. LVI
- Busca da “verdade processual”
- Conceito do art. 157, CPP: aquelas obtidas com
violação de regras constitucionais ou legais

- Sanção processual: inadmissibilidade e


desentranhamento + incidente de destruição após a
preclusão
Proporcionalidade e prova ilícita pro reo
Inadmissibilidade das provas ilícitas
por derivação

Teoria dos frutos da árvore envenenada, efeito


à distância ou princípio da contaminação:
criação jurisprudencial incorporada ao direito
positivo com a Lei 11.690/2008
EXCEÇÕES DO CPP:

fonte independente (ou critério da prova


separada): a prova tem concretamente 2
origens, sendo uma delas lícita e sem nexo
causal com a ilicitude

descoberta inevitável: exige raciocínio


hipotético de que a prova seria alcançada de
qualquer maneira, por outra forma, lícita
Garantias do tribunal do júri - Art. 5º,
XXXVIII

Soberania dos veredictos

Sigilo das votações

Competência mínima para os crimes dolosos


contra a vida

Plenitude de defesa (diferença da ampla


defesa garantidaaos acusados em geral)
Direitos da pessoa presa

- De ser informada das razões da prisão e


identificação do responsável pela prisão
(relevância da nota de culpa)
- Comunicação à família
- Respeito à integridade física e moral
- Separação entre presos provisórios e definitivos

Imediata comunicação da prisão ao juiz competente


e à Defensoria Pública (artigos 289-A, §4º e 306,
caput e §1º, CPP)
Direitos da pessoa presa e
audiência de custódia
CADH – art. 7.5 – toda pessoa detida ou retida
tem o direito de ser conduzida, sem demora,
à presença de um juiz ou outra autoridade
autorizada pela lei a exercer funções judiciais
SP: Provimento conjunto da
Presidencia do TJ e da CGJ 3/2015
Instituição das audiências de custódia ainda como
“projeto piloto” em alguns estados, com
implementação gradativa: preso encaminhado
em 24h ao fórum, com presença do defensor e
do promotor = cautela de não antecipação do
interrogatório sobre os fatos: o objetivo é de
identificação das circunstâncias da prisão e
rápida verificação de eventual ilegalidade ou
aplicação de medidas alternativas
Resolução 213 do CNJ
regulamentação nacional das
audiências de custódia
TJs tem 90 para implementação a partir de 01/2/16

- Obriga a apresentação do preso em 24h inclusive em fins de


semana e feriados
- Obrigatoriedade da participação do MP e de defensor, inclusive
com entrevista prévia reservada / veda a presença dos
policiais responsáveis pela prisão
- Monitoramento eletrônico como medida excepcional

STF – ADPF 347 e ADIn 5.240 – confirmação da


constitucionalidade das ACs
Objetivos das audiências de
custódia

Coibir a prática de tortura e maus-tratos


quando da prisão

Reduzir os índices de aplicação de prisão


preventiva