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Perspectivas historiográficas a

partir da Micro-história
Professora Mestra Diná Schmidt
O contexto de surgimento da Micro-
História:
• A crise dos paradigmas estruturalistas e das
metanarrativas:
• Questionamento do estuturalismo e determinismo
marxistas;
• Questionamento das tendências seriais e totalizantes dos
Annales (Mentalidades).

• Retorno ou redescoberta da Narrativa:


explicação/narração, invenção/verdade,
História/ficção;
O contexto de surgimento da Micro-
História:
• Emergência da Cultura como estruturante das
problemáticas historiográficas:
• Nova História Cultural: representação, apropriação,
prática;

• Nova Esquerda Inglesa: fazer-se da classe, resistências,


conexões antropológicas;
O contexto de surgimento da Micro-
História:
• Micro-História:

“...considerada como gênero historiográfico, a micro-história surgiu,


inicialmente, como título de uma coleção dirigida por Carlo Ginzburg e
Giovanni Levi, publicada pela editora Einaudi, de Turim, a partir de 1981 —
Microstorie — e na linha editorial da revista Quaderni Storici, publicada
pelo II Molino de Bolonha.”(VAINFAS, 2002, P.70)

• Diversidade de Temas e Objetos;


• Heterogeneidade nos pressupostos.
A Micro-História dentro do contexto da
redescoberta da Narrativa:

“Assim, a micro-história possuía uma posição muito específica dentro da


chamada nova história. Não era simplesmente uma questão de corrigir
aqueles aspectos da historiografia acadêmica que pareciam não mais
funcionar. Era mais importante refutar o relativismo, o irracionalismo e a
redução do trabalho do historiador a uma atividade puramente retórica que
interprete os textos e não os próprios acontecimentos.” (LEVI In BURKE,
1992, P.136)
A Micro-História dentro do contexto da
redescoberta da Narrativa:
• O jogo de escalas:
“A abordagem micro-histórica é profundamente diferente em suas
intenções, assim como em seus procedimentos. Ela afirma em princípio
que a escolha de uma escala particular de observação produz efeitos de
conhecimento, e pode ser posta a serviço de estratégias de
conhecimento. Variar a objetiva não significa apenas aumentar (ou
diminuir) o tamanho do objeto no visor, significar mudar sua forma e
sua trama. (...) Notemos desde já que a dimensao micro não goza, nesse
sentido, de nenhum privilégio especial. É o princípio da variação que
conta, não a escolha de uma escala em particular.” (REVEL, 1998, P.
20)
A Micro-História dentro do contexto da
redescoberta da Narrativa:
• Imersão documental e rigor metodológico:
“O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente
negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experimentável
diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo
observador de modo tal a dar lugar a uma sequência narrativa, cuja formulação mais
simples poderia ser “alguem passou por lá”. Talvez a própria ideia de narração tenha
nascido pela primeira vez de uma sociedade de caçadores, a partir da experiência da
decifração de pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda se hoje
funda-se a lingugem da decifração venatória – a parte pelo todo, o feito pela causa –
são conduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora,
reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O caçador seria o primeiro a
“narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se nao
imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos.”
(GINZBURG,1989, P.152, grifos meus)
A Micro-História dentro do contexto da
redescoberta da Narrativa:
• A Narrativa como elemento fundamental da produção do
conhecimento histórico:
“O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente
negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experimentável
diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo
observador de modo tal a dar lugar a uma sequência narrativa, cuja formulação
mais simples poderia ser “alguem passou por lá”. Talvez a própria ideia de narração
tenha nascido pela primeira vez de uma sociedade de caçadores, a partir da
experiência da decifração de pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais
ainda se hoje funda-se a lingugem da decifração venatória – a parte pelo todo, o
feito pela causa – são conduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa
exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O
caçador seria o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas
pistas mudas (se nao imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de
eventos.” (GINZBURG,1989, P.152, grifos meus)
A Micro-História dentro do contexto da
redescoberta da Narrativa:
• Formalização teórica e construção conceitual:
“A micro-história tentou construir uma conceituação mais fluida, uma
classificação menos prejudicial do que constitui o social e o cultural, e
um arcabouço de análises que rejeita simplificações, hipóteses dualistas,
polarizações, tipologias rígidas e a busca de características gerais. (...) o
impluso antirrelavista da micro-história e as aspirações de formalização
que caracterizam, ou em minha opinião deveriam caracterizar, o
trabalho do micro-historiador. Isso é importante, pois os conceitos que
usamos na história e nas ciências sociais são com frequência imprecisos
e usados metaforicamente.” (LEVI In BURKE, 1992, P.160-1)
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. 1976
• Densidade documental e análise das fontes:
• Processo inquisitorial, obras literárias lidas pelo personagem e obra de arte
presente em seu contexto;
• O jogo de escalas e a possibilidade de novas frentes de análise;
• Ressignificação da noção de Cultura a partir da elaboração de um
novo conceito, o de circularidade cultural, que desestratificou as
noções estanques entre cultura popular e cultura erudita, porém sem
excluir as assimetrias e conflitos;
• A forma de construção do texto, evidenciando a natureza indiciária e
narrativa do trabalho do historiador.
“No primeiro interrogatório, ele confirmou que Cristo havia sido um o
homem como os demais, nascido de são José e da Virgem Maria, e explicou
que Maria “era chamada de virgem porque estivera no templo das virgens.
Existia um templo onde doze virgens eram mantidas e, à medida que eram
preparadas, se casavam. Eu li isso no livro Lucidario della Madonna”. Esse
livro, que em outra situação disse ser o Rosario, tem grande probabilidade
de ser o Rosario della gloriosa Vergine Maria, do dominicano Alberto da
Castello. Nele pudera ler: Contempla aqui, alma fervorosa, como, depois de
oferecer o sacrifício a Deus e ao sacerdote, são Joaquim e sant’Ana
deixaram sua dulcíssima filhinha no templo de Deus, onde deveria ser
preparada com as outras virgens, que eram oferecidas a Deus. Nesse lugar,
ela vivia em contemplação das coisas divinas, em sublime devoção, e era
visitada pelos santos anjos, sendo sua rainha e imperatriz, sempre em
oração”.” (GINZBURG, 2006, P.73)
“O que fez Menocchio ater-se justamente a essa página do Rosario talvez
tenha sido o fato de ter visto tantas vezes as cenas de Maria no templo e de
José com os pretendentes, representadas nos afrescos pintados em 1556
por Calderari, um discípulo de Pondenone, nas paredes da igreja de San
Rocco de Montereale. De qualquer maneira, mesmo sem deformar as
palavras, inverteu os significados. No texto, a aparição dos anjos isolava
Maria das companheiras, conferindo-lhe uma aura sobrenatural. Para
Menocchio o elemento decisivo era, ao contrário, a presença das “outras
virgens”, que lhe servia para explicar da forma mais simples o epíteto
atribuído tanto a Maria como às outras companheiras. Desse modo, um
detalhe acabava se tornando o centro do discurso, alterando, assim, todo
seu sentido.” (GINZBURG, 2006, P.73-4)
Atividade Avaliativa
• Como atividade avaliativa, propõe-se que os alunos identifiquem uma
tese de doutorado ou dissertação de mestrado, produzida dentro do
escopo da micro-história, e desenvolva as seguintes questões:

• Identificar e analisar os elementos teórico-metodológicos com vistas a


problematizar a utilização do referencial da micro-história;

• Construir uma possibilidade de trabalho com alunos do ensino básico, a partir


do objeto explorado na tese/dissertação, dialogando com as contrbuições da
micro-história.
Bibliografia:
GINZBURG, C. Mitos, emblemas e sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
GINZBURG, C. O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia
das Letras, 2007.
GINZBURG, C. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
GINZBURG, C. Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001.
GRENDI, E. Repensar a micro-história. In: REVEL, J. (Org.) Jogos de escala. Rio
de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.
LEVI, G. Sobre a micro-história. In: BURKE, P. (Org.) A escrita da história: novas
perspectivas. São Paulo: Ed. Unesp, 1992.
REVEL, J. Microanálise e construção social. In: REVEL, J. (Org.) Jogos de escala.
Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.
VAINFAS, R. Os protagonistas anônimos da história. Micro-História. Rio de
Janeiro: Campus, 2002.