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Mesa Redonda:

“Estudos Interdisciplinares Desmedicalizantes”


“Sua doença sustenta uma família
inteira”: reflexões sobre Medicalização
de crianças e políticas públicas

Renata Monteiro Garcia


Professora Departamento de Educação da UFPB
Coordenadora CRDH/UFPB
Doutoranda do PPGPsi/UFRN
Problema de Pesquisa

Tomando como referência uma cidade do


interior da Paraíba, quais as conexões
entre, a patologização da infância, a
medicalização da vida e as políticas
públicas de assistência à infância?
Medicalização da Vida
Medicalização
Processo em que as questões da vida
social, sempre complexas,
multifatoriais e marcadas pela cultura e
pelo tempo histórico, são reduzidas à
lógica médica, vinculando aquilo que
não está adequado às normas sociais a
uma suposta causalidade orgânica,
expressa no adoecimento do indivíduo.
(medicalização.org.br)
Medicalização
• Conceito surge nas décadas de 1960/70
• Pensamento intelectual problematizador das
condições sociais e da produção científica;
• Principais autores: Ivan Illich, Michel Foucault,
Georges Canguilhem, Thomas Szasz.
• Tema central: saúde transformada em bem de
consumo e produção de alienação dos
sujeitos.
Medicalização
• Atualidade:
– Cenário Internacional= Peter Conrad
– Cenário América = Odorika (México); Iriat, Epele,
Faraone (Argentina)
– Cenário Nacional= Collares, Moyses, Viegas,
Bianchi, Amarante.
Medicalização
• Conceito teórico que dará corpo a uma análise
problematizadora das definições médicas de desvio
e seus efeitos na sociedade.
• Não se trata apenas de medicamentos, ou somente
da medicina.
• Rede complexa de práticas e discursos que criam
estratégias de controle em nossa Sociedade.
• Compreensão de sofrimento social como uma
categoria responsável por uma demanda de saúde
que tem sua origem nos contextos de vida e
ambiente , e que passa a ser respondida como uma
demanda médica.
Medicalização
• Normas e padrões de bem-viver;
• Alienação sobre si, seu corpo,
emoções e sofrimentos;
• Efetivação do mercado de
remédios, exames, terapias,
intervenções, tratamentos;
• Controle Social sobre os modos
de ser, estar, se relacionar e
sentir.
Economia do Adoecimento

Mercado gerado pelo consumo de


medicamento e tratamento para o
sofrimento humano.
InFânCia AnoRmaL
• A discussão da infância como categoria histórica
 Arriès

• Brasil  Costa, Rizzini, Lobo

• Discursos Médicos Higienistas = família e infância

Moralização das instituições


InFânCia AnoRmaL
• Psiquiatria e Infância = Locura x Idiotia
• Tratamento Moral/Educacional
• Teorias sobre o desenvolvimento = padronização
e normatização
• Testes de Inteligência
• Pavilhão Bourneville (1903)
Serão os motivos econômicos preponderantes
para a detecção de crianças anormais: por um
lado, o uso da mão-de-obra de seus pais e
cuidadores que dispensavam tempo atendendo
às crianças e impediam aqueles sujeitos de
trabalhar e produzir para o capital; por outro,
atentar para a anormalidade era evitar no futuro
o fardo social de perigos e degenerescências.
InFânCia AnoRmaL
• Idiotia  Legitimou o locus da Psiquiatria na Infância
• Idiotia  Deficiência Mental
“A trajetória histórica desta classificação remonta não a uma
categoria estável que passou por um longo processo de
transformação, mas ao contrário, aos usos que se fizeram
presentes em diferentes momentos históricos de uma
denominação de ordem médica para designar valor e
intervenções sobre grupos de pessoas a quem eram
atribuídas certas características, especialmente crianças.”
Medicalização da Vida

• não é que não exista o


sofrimento psíquico – estamos falando de um
processo de patologização, controle,
estigmatização e mercantilização deste
sofrimento.

• A medicalização é uma estratégia de controle


social  lógica do adoecimento e do
biologicismo não permite pensarmos os
contextos sociohistoricos.
InFânCia AnoRmaL
• DSM - V – Deficiência Intelectual capítulo
“Transtornos do Neurodesenvolvimento”

• Déficit funcional que envolve tanto elementos intelectuais


quanto adaptativos

• Deficiência mental = diferentes formas subjetivas e condições de se


“adaptar” ao cotidiano formas diversificadas de controle
do comportamento para cada demanda:
• agressividade,
• irritabilidade,
• falta de sono,
• concentração,
• fadiga,
• Enfim, as mais diversas queixas que a família, a escola, ou o próprio médico podem
entender como necessárias de sofrerem intervenção através da medicação.

• Sendo assim, não há uma droga específica para o diagnóstico, mas podem ser associados
diversos medicamentos de acordo com os “sintomas” que precisam ser controlados.
Política
Reflexões sobre:

• Políticas de Educação, Saúde e Assistência Social:

– Fragmentação das políticas


– Controle através da frequência escolar e atividades da
Ação Social
– Ausência de possibilidades de promoção da dignidade e
cidadania
A cidade, a desigualdade e as pessoas
INTRODUÇÃO
• Problema de investigação surge de uma
pesquisa realizada na cidade de Mamanguape
sobre a educação inclusiva
• Litoral Norte da Paraíba, há 60 km da capital
• Possui 42 mil habitantes (senso IBGE, 2010)

39,4% abaixo da linha da pobreza

• Economia da região: usinas de açucar, agricultura, funcionalismo


público.
• Verificou-se um número diferenciado de matrículas
especiais referente ao diagnóstico de deficiência mental:

Matrículas especiais dobraram em um período de 4 anos


O diagnóstico de deficiência mental teve o
crescimento mais significativo;
A relação entre as matrículas regulares e especiais:

Ano Regulares Especiais Deficiência Mental


2010 11.240 94 73
2011 10.890 108 100
2012 10.573 144 126
2013 10.258 163 140
2014 9.792 183 ?
∑ = 2014 – 2010 = ∑ = 2014-2010 = ∑ = 2014-2010=
- 1706 = -15,18% +89 = + 94,68% +67 = +91,78%

Relação entre as matrículas: 2010 0,83 mat. Especiais para cada mat. Regular

20141,90 mat. Especiais para cada mat. Regular


Aumento de 128% nesta relação
INTRODUÇÃO
Ouvindo histórias:
• Agentes de saúde, professores, comunidade:

Mães compartilham: remédios, sintomas, caminhos...

O acesso ao Benefício de Prestação Continuada exige:


 o adoecimento,

 renda familiar seja menor que ¼ do salário mínimo por pessoa.

Os laudos são emitidos pela FUNAD


Famílias Pobres
Crianças Diagnosticadas
Busca pelo BPC
Falta de Políticas Efetivas

Movimentos que dão forma a uma problemática


“A gente trabalha com crianças muito
comprometidas e carentes. Elas não
têm o mínimo de dignidade para
viver, mas mantêm com o benefício
uma família inteira.”
Leitura Crítica da
Realidade

Culpabilizar as Famílias
Possibilidades de contribuição da Tese
A patologização da infância é um processo histórico de submissão deste grupo ao
saber médico e bota em funcionamento uma economia tanto global, quanto
local;

Medicalizar a pobreza é uma estratégia de controle social: submeter as famílias


às políticas na forma como são executadas é uma maneira de reduzir a
visibilidade das diferenças de classe sem ir nas raízes estruturais dos
problemas;

As famílias pobres têm criado estratégias de sobrevivência a partir das


possibilidades que encontram de enfrentamento à pobreza;

O caso do município pode apontar que há uma rede de interesses econômicos


e políticos em torno da patologização das crianças;

Reconhecer a Psicologia como disciplina que alimenta estas engrenagens: um


caminho de criação de resistências.
Se nos empenhamos na luta coletiva pelas
transformações sociais é preciso que sejamos
modestos e abdiquemos da carapaça piedosa
e despótica do saber; que procuremos despir-
nos da pretensão de sermos os mentores dos
dominados. Falamos sempre que eles estão à
margem da vida; mas o que precisamos
aprender com eles é a vida da margem.