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TANATOLOGIA

REFLEXÕES SOBRE A
MORTE E O MORRER

PROFª MARINA KOMATI


A morte constitui um dos maiores enigmas da existência
humana. É considerada como um grande divisor das águas na
INTRODUÇÃO plena constituição dos homens, é a mais universal das
experiências e sua representatividade varia entre as culturas.
Ao nascer, o individuo está em constante estado de preparação,
para assim então, multiplicar e morrer. Porém, o ultimo citado, é
obscuro, a ponto de ser negado durante toda a sua existência.
Fato que aponta para o seu enfrentamento ineficaz.
A Tanatologia ou ciência da vida e da morte é uma
ciência interdisciplinar. É uma palavra de origem grega, derivada
de duas palavras: Tanathos, o deus da morte e logia, ciência ou
estudo. É, portanto, a ciência da morte e do morrer. O
conhecimento e uma prática holística são as bases do cuidado
interdisciplinar desta área. Inicialmente a tanatologia
preocupava-se com o doente terminal, aquele hospitalizado,
depois passou a preocupar-se também com a família deste
doente, com os profissionais da área de saúde e com todos
aqueles que, de uma maneira, ou de outra, estejam relacionados
com ele.
INTRODUÇÃO Hoje, a tanatologia estuda a representação da morte no
psiquismo humano que envolve as reações ao luto, a rotina e as
perdas diárias, isto é, as pequenas mortes, para que enfim, o
homem entenda o que é chamado de “a perda maior”. Essa
ciência é considerada tão antiga quanto a própria humanidade,
pois o homem, destacando-se os filósofos antigos, sempre
buscou desvendar os mistérios que envolvem o antes e o depois
de sua existência.
O estudo da tanatologia possibilitou um meio para
resgatar o sentido da morte por meio da superação dos
medos culturalmente instituídos propondo uma reflexão
sobre o sentido da vida e o processo da morte e do morrer
com dignidade. Para o ser humano, o ato de morrer, além de um
fenômeno biológico natural, contém extrinsecamente uma
dimensão simbólica, relacionada tanto a psicologia como as
ciências sociais. Enquanto tal, a morte apresentou-se como uma
manifestação impregnada de valores dependentes do contexto
sociocultural e histórico em que se manifesta.
A MORTE NA
ANTIGUIDADE E
NOS DIAS ATUAIS
HISTÓRIA
O significado histórico e social da morte varia de
acordo com as diferentes civilizações. O processo do morrer
recebe tratamento diferenciado na história dos povos. Uma das
características do ser humano é a atribuição de significados e
valores que ele imprime às coisas. “[...] Por isso, o significado
da morte varia necessariamente no decorrer da história e entre
as diferentes culturas humanas.” (COMBINATO; QUEIROZ,
2006).
De acordo com a cultura e os costumes de cada povo, em
épocas diferentes, o sentido dado à morte é distinto. Os
sentimentos e ritos ligados a esse acontecimento variam
conforme a evolução dos valores cultuados por cada
sociedade.
Os povos mesopotâmios tinham por costume enterrar os
corpos dos mortos da maneira mais escrupulosa, sendo o cadáver
HISTÓRIA cuidadosamente acompanhado de todas as marcas mais distintas
de sua identidade pessoal e familiar, como seus pertences,
insígnias e objetos de uso, suas vestimentas e até mesmo de suas
comidas prediletas. A morte seria uma espécie de rebaixamento
da vida, o apagamento dessa mesma existência.
Já entre os antigos hindus a incineração crematória era o
destino dado aos seus mortos. O cadáver era consumido pelo
fogo, e as cinzas eram lançadas ao vento, ou nas águas dos rios,
sendo o morto despojado de todos os seus traços de identidade. A
cremação representava a purgação de todos os pecados.
Para os antigos gregos, a incineração determinava dois
tipos de mortos: o cadáver do homem comum e o cadáver dos
grandes heróis. Os corpos falecidos dos heróis eram cremados na
cerimônia da bela morte, onde os seus feitos no campo de
batalha eram enaltecidos. A própria morte seria a prova de sua
virtude, tornando-o um indivíduo cuja vida é digna de ser
lembrada.
HISTÓRIA Para os judeus e cristãos que acreditavam na ressurreição
após a morte, esta seria o acesso para outra dimensão da vida que
poderia no inferno ou no paraíso, conforme os seus feitos
terrenos a partir da observância dos mandamentos de Deus.
Na Idade Média a morte era entendida com naturalidade,
fazendo parte do ambiente doméstico. Os cemitérios ocupavam o
centro da cidade e faziam parte do cenário de vida das pessoas.
Os mortos socialmente importantes eram enterrados no interior
das igrejas. Aqueles menos importantes eram enterrados em um
terreno ao lado, e os indignos sociais eram enterrados em vala
comum que permanecia aberta até a completa lotação. O ritual
da morte envolvia tanto a pessoa que ia morrer como os seus
parentes e amigos. a morte é uma cerimônia pública e
organizada. Organizada pelo próprio moribundo, que a preside e
conhece o seu protocolo [...] Tratava-se de uma cerimônia
pública [...] Era importante que os parentes, amigos e vizinhos
estivessem presentes. Levavam-se as crianças.
HISTÓRIA
As pessoas que sabiam que iam morrer protagonizavam
todo o ritual, despedindo-se dos entes queridos, fazendo o
testamento, buscando se reconciliar com as pessoas e superar as
mágoas. A comunidade participava ativamente de todo esse
processo.
De acordo com Moreira e Lisboa (2006), as pessoas
morriam em casa, com a participação de toda a comunidade, o
que as possibilitava vivenciar o fenômeno da morte de perto e,
por estar ocorrendo com alguém tão próximo, era possível que
fizessem uma identificação com o outro. “O conhecimento da
morte era uma rotina e nenhuma criança crescia sem ter tido a
experiência de ver, pelo menos, uma cena de morte.”
Como um marco histórico-social, a revolução industrial
HISTÓRIA trouxe uma nova ordem social que repercutiu nas formas de
morrer, nos rituais fúnebres e no luto após a morte. A partir do
capitalismo, com a necessidade de produção emergente, o
homem passa a ser visto como mão-de-obra para o
desenvolvimento da nação, portanto a necessidade de ser
portador de um corpo saudável para o trabalho obrigou o
deslocamento de doentes para locais apropriados para o seu
tratamento. Esses locais seriam os hospitais. Com isso, veio à
valorização do individualismo o que fez com que a morte fosse
personalizada.
Com a institucionalização das práticas terapêuticas, a
morte saiu do espaço familiar para o ambiente impessoal das
instituições de saúde. O moribundo ficou entregue aos
profissionais que são pessoas estranhas ao seu convívio, privados
da companhia de seus familiares e amigos.
Estágios do
luto Há algo que caracteriza o ser humano como tal e
o diferencia dos animais, é a consciência da sua morte
e finitude.
Há muitas razões para se fugir de encarar a
morte calmamente. Uma das mais importantes é que
hoje em dia, morrer é triste demais sob vários aspectos,
sobretudo é muito solitário, muito mecânico e
desumano. A finitude refere-se aos aspectos clínicos da
morte, o que denota o fim da vida, pela interrupção
completa e definitiva das funções vitais.
O MODELO DE KÜBLER-ROSS 1. Negação: este estágio ocorre quando é dada a
DOS 5 ESTÁGIOS DO LUTO notícia e é influenciado pela forma como esta foi dada. A
Estágios
(de acordo com a internet) negação da morte é perceptível em todos os setores da
sociedade, até mesmo entre os profissionais da saúde,
sobre1. Negação
a morte que comumente referem-se à mesma como óbito.
2. Raiva: quando não é mais possível manter
firme o primeiro estágio de negação, ele é substituído
por sentimentos de raiva, revolta, ressentimento.
3. Barganha: é uma tentativa de adiamento da
2. Raiva
4. Depressão morte; tem de incluir um prêmio oferecido por bom
5. Aceitação comportamento, as promessas podem estar associadas a
uma culpa recôndita.
4. Depressão: ocorre quando não se pode mais
negar e pode sobrevir um sentimento de perda.
3. Barganha 5. Aceitação: estágio em que não sentirá
depressão nem raiva quanto ao “destino”. Não se pode
confundir aceitação com um estágio de felicidade.
O profissional, integrante da equipe de
enfermagem, que luta sempre pela preservação da vida
Equipe de às vezes sente-se incapaz e frustrado quando não obtêm
êxitos em suas tentativas.
enfermagem Portanto, deve se preparar para lidar com tudo
isso, pois se trata de ocorrência muito comum no dia-a-
na morte: dia do seu trabalho, para ajudar os outros ele precisa
conhecer a reação psicológica da perda, saber
identificar o luto normal e o patológico e entender a
individualidade de cada um em reagir a esse
acontecimento.
A principal função do profissional é de assistir o
doente, promover a sua recuperação e ajudá-lo a fazer
o que não tem condições de realizar só. Torna-se de
fundamental importância a boa relação entre
profissional/paciente, pois muitas vezes esse
profissional é a pessoa mais próxima do doente, que
cuida de suas necessidades básicas e também simboliza
o ele entre este e a família, tendo que lidar com os
sentimentos dos parentes, as dúvidas e temores.
a) Preparar o ambiente: o ambiente físico nunca é neutro,
ele emite o tempo todo mensagens que podem ser de cuidado e

1. Lidando interesse como de extremo descuido e desinteresse e, no momento


da perda devemos atentar para o que a família precisa para sentir-se
à vontade (café, almofada, sentar, etc. – no mínimo oferecer copo
com a família com água);

Habilidades b) Acolhendo: fazê-los sentirem-se valorizados, isto é,


elogiar as forças da família, pois ao elogiar e oferecer uma nova
opinião sobre si mesmos, cria-se um contexto para mudança,
permitindo que descubram então suas próprias soluções para os
problemas;
c) Assumindo posturas físicas: o corpo “fala” daquilo que
está no interior de cada um. Aproximar-se, ficar de frente, inclinar o
tronco na direção das pessoas, manter contato visual, manter a
fisionomia receptiva, concentrar-se neles ou um simples toque no
ombro pode significar muito;
d) Observando: atentar para as mensagens não-verbais e
e) Escutando: muitas vezes os familiares necessitam apenas
serem escutados para que possam ordenar e organizar sua
experiência e, ao escutar, o profissional estará abrindo espaço para
o alívio da dor.
Não é fácil preparar-se para uma morte, os altos e baixos
emocionais são constantes. No entanto, pode se tornar num
2. Lidando momento de reflexão e de crescimento espiritual.
consigo mesmo A aceitação é possível quando o profissional admite de
forma consciente que não se pode ter controle sobre a vida –
Aceitação a obsessão pelo controle é conhecida como a fonte de
frustrações e de alguns transtornos psiquiátricos quando
exacerbados -, é preciso ter segurança no que faz e,
principalmente, realizar ações de bom grado, ou seja, não
destratar pacientes para evitar o sentimento de culpa após sua
morte.

“A aceitação da morte constitui certamente um dos


maiores sinais de maturidade humana, daí a necessidade
duma educação sobre a morte, duma ‘ars moriendi’ (Latim:
arte de morrer), porque a morte, paradoxalmente, pode
ensinar a viver.” - Oliveira (2002)