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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO


MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA
Campus do Paricarana, Av. Cap. Ene Garcez, nº 1246, Bairro Aeroporto, CEP:69304-000

Território Mobilidade e Desenvolvimento Regional

Prof.ª Dr.ª Ana Lia Farias Vale


Território Mobilidade e Desenvolvimento Regional

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder.


Tradução Maria Cecília França. São Paulo: Ática, 1993.
(Série Temas, 29).

Capítulos:
O poder. p. 51-64
O que é território? p. 143-163.
As redes e o poder. p. 200-220.
PODER
ambiguidade do termo
• PODER - conjunto de instituições e de aparelhos
que garantem a sujeição dos cidadãos a um Estado;
está determinado a soberania do Estado, a forma da
lei ou da unidade global de uma dominação;

• poder - se esconde atrás do Poder, nome próprio,


tanto melhor quanto maior for a sua presença em
todos os lugares. Presente em cada relação, na curva
de cada ação: insidioso, ele se aproveita de todas as
fissuras sociais para infiltrar-se até o coração do
homem; não é visível, é parte intrínseca de toda
relação; se manifesta por ocasião da relação
Proposições de Foucault que não definem, mas
mostram a natureza do poder
• O poder não se adquire; é exercido a partir de inumeráveis
pontos;
• As relações de poder não estão em posição de exterioridade
no que diz respeito a outros tipos de relações (econômicas,
sociais etc.), mas são imanentes a elas;
• O poder vem de baixo; não há uma oposição binária e
global entre dominador e dominados;
• As relações de poder são, concomitantemente, intencionais
e não subjetivas;
• Onde há poder há resistência e no entanto, ou por isso
mesmo, esta jamais está em posição de exterioridade em
relação ao Poder.
poder - manipulação dos fluxos que atravessam e desligam a
relação: a energia e a informação.

Manipulação - forma de poder resultado da combinação variada de


energia e informação

A energia, com a informação, se forma, se acumula, se combina e


circula. Estão sempre presentes simultaneamente em toda relação,
através da troca verbal.

O laço entre o poder e o saber é evidente, mas não há nem


informação pura nem energia pura. Trata-se sempre de uma
combinação das duas. todo ponto de exercício do poder é ao
mesmo tempo um lugar de formação do saber.

O espaço-tempo relacional é organizado pela combinação de


energia e informação.
formas de poder que resultam de combinações
variadas de energia e informação
Meios utilizados pelo poder - INFLUÊNCIA e
AUTORIDADE
A influência recorre mais à persuasão, enquanto o
poder recorre à coerção. Há uma diferença nos meios.

O poder coercitivo está baseado na aplicação de


sanções físicas, o poder "remunerador" está fundado
sobre o controle dos recursos materiais, sobre a
destinação de salários ou de gratificações, enquanto o
poder normativo se funda sobre a manipulação de
recursos simbólicos.
RAFFESTIN, 1993, p. 55
1 representaria um poder com forte componente informacional
(relação fiel / igreja)

3 representaria um poder com forte componente energético


(relação guarda / prisioneiro)

2 é uma situação média.


FUNDAMENTAÇÃO DO PODER

O poder se enraizaria no trabalho.

O trabalho seria o vetor mínimo e original, definido


por duas dimensões: a energia e a informação.

O poder utiliza seus meios (influência e autoridade)


para visar os trunfos - a população, o território e os
recursos.
TRUNFOS DO PODER
POPULAÇÃO - está na origem de todo o poder, o
elemento dinâmico de onde procede a ação.

TERRITÓRIO - cena do poder e o lugar de todas ás


relações.

RECURSOS – condicionam o alcance da ação.

Uma relação pode privilegiar um dos trunfos: a população, o


território ou os recursos. O conflito pela posse de uma região
não é apenas um conflito pela aquisição de um pedaço de
território, mas também pelo que ele contém de população e/ou
de recursos. Frequentemente o objetivo declarado mascara os
verdadeiros trunfos.
TRUNFOS DO PODER
"o poder (político) aparece, em consequência, como um produto da
competição e como um meio de contê-la”.

Obter trunfos suplementares não significa, de modo algum,


"possuí-los" ou "dominá-los". Simplesmente pode se tratar de
exercer um controle que permita prever, ter acesso, neutralizar.

TERRITÓRIO - É um trunfo particular, recurso e entrave,


continente e conteúdo, tudo ao mesmo tempo. É o espaço político
por excelência, o campo de ação dos trunfos.

O ideal do poder é jogar exclusivamente com símbolos e não ser


visto.
É talvez o que, por fim, torna o poder frágil, no sentido de que
cresce a distância entre trunfo real - o referencial - e trunfo
imaginário - o símbolo.
O QUE É O TERRITÓRIO
Do Espaço ao Território
O espaço é anterior ao território. O território se forma a partir
do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator.
Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (pela
representação), o ator "territorializa" o espaço. O território se
apoia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção, a partir
do espaço.

O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou


um trabalho, seja energia e informação, e que, por
consequência revela relações marcadas pelo poder.

A partir da territorialização do espaço é que se realizam as


objetivações do espaço, que são processos sociais.
Do Espaço ao Território

Nessa perspectiva, pode-se pois colocar o ator num ponto e


dispor os elementos da sua representação. Para as necessidades
da demonstração, utilizar-se-á os pontos, as linhas e as
superfícies.

RAFFESTIN, 1993, p. 146


Tem-se um espaço construído pelo ator, que comunica suas
intenções e a realidade material por intermédio de um sistema
sêmico. Portanto o espaço representado não é mais o espaço,
mas a imagem do espaço, ou melhor, o espaço vivido. É em
suma, o espaço que se tornou o território de um ator, desde
que tomado numa relação social de comunicação.

O poder constrói malhas nas superfícies do sistema territorial


para delimitar campos operatórios na superfície (malha
política e malha econômica)

A dimensão de uma malha nunca é (ou quase nunca) aleatória,


pois cristaliza todo um conjunto de fatores, dos quais uns são
físicos, outros humanos: econômicos, políticos, sociais e/ou
culturais.
SISTEMAS TERRITORIAIS
ELEMENTOS DO SISTEMA TERRITORIAL
TESSITURA, NÓ E REDE
Toda prática espacial, mesmo embrionária, induzida por um sistema
de ações ou de comportamentos se traduz por uma produção territorial
que faz intervir tessitura, nó e rede que organizadas hierarquicamente
permitem assegurar o controle sobre aquilo que pode ser distribuído,
alocado e/ou possuído.

Permitem ainda impor e manter uma ou várias ordens.

Permitem realizar a integração e a coesão interna dos territórios.


Esses sistemas constituem invólucro no qual se originam as relações
de poder.

Falar de território é fazer uma referência implícita à noção de limite


que, mesmo não sendo traçado, como em geral ocorre, exprime a
relação que um grupo mantém com uma porção do espaço.
SISTEMAS TERRITORIAIS
ELEMENTOS DO SISTEMA TERRITORIAL
TESSITURA, NÓ E REDE

A tessitura implica a noção de limite. A noção de limite é um dos


componentes gerais de toda prática, não somente espacial.

O ponto é, de certa forma, a expressão de todo ego, individual ou


coletivo. Locais de poderes, mas também locais de referência, cuja
posição se determina de uma forma absoluta ou de uma forma
relativa, onde os pontos se definem melhor em termos relativos que
em termos absolutos.

O que importa saber é onde se situa o Outro, aquele que pode nos
prejudicar ou nos ajudar, aquele que possui ou não tal coisa, aquele
que tem acesso ou não a tal recurso etc. Os pontos simbolizam a
posição dos atores.
REDES
Uma rede é um sistema de linhas que desenham tramas.

Uma rede pode ser abstrata ou concreta, invisível ou visível.

A rede assegura a comunicação mas..., por natureza a rede que desenha


os limites e as fronteiras não assegura a comunicação. É uma rede de
disjunção.

Mas mesmo uma rede de comunicações pode, a um só tempo, assegurar


aquilo para o que foi concebida e impedir outras comunicações (cidades
cortadas em ruas, por redes de comunicação rodoviárias ou ferroviárias).

A ambivalência surge em escalas diferentes. O que pode ser visto como


comunicação em pequena escala pode ser visto como perda de
comunicação em grande escala. É o que se pode observar no caso de
autoestradas que com frequência arruínam o tráfego de passagem das
cidades pequenas.
REDES
Isso é particularmente verdadeiro para as redes concretas: redes
rodoviárias, ferroviárias, de navegação. Essas redes que se traduzem
por infraestruturas no território partem e/ou ligam sempre pontos
precisos específicos. É a própria expressão da hierarquia dos pontos.

São as redes que asseguram o controle do espaço e o controle no


espaço. Entre uma série de pontos, não há uma infinidade de
possibilidades, mas somente com três pontos temos já oito
possibilidades.

Toda rede é uma imagem do poder ou mais necessariamente do Poder


do ou dos atores dominantes.

Toda rede revela, da mesma forma que as tessituras e a implantação dos


pontos, um certo domínio do espaço, um domínio do quadro espaço
temporal, na realidade.
REDES
As redes abstratas, os picos podem ser concretos e visíveis,
mas não os arcos que ligam esses pontos: redes de rádio e de
televisão, redes bancárias.

Pelas redes de comunicações são conduzidas modificações


sensíveis no arcabouço social do grupo. O sistema é tanto um
meio como um fim. Como meio, denota um território, uma
organização territorial, mas como fim conota uma ideologia da
organização. É portanto, de uma só vez ou alternadamente,
meio e finalidade das estratégias.

O sistema territorial é, portanto, produto e meio de produção.


TERRITORIALIDADE

A territorialidade adquire um valor bem particular, pois reflete


a multidimensionalidade do "vivido" territorial pelos membros
de uma coletividade, pelas sociedades em geral. Os homens
"vivem", ao mesmo tempo, o processo territorial e o produto
territorial por intermédio de um sistema de relações
existenciais e/ou produtivistas. Quer se trate de relações
existenciais ou produtivistas, todas são relações de poder, visto
que há interação entre os atores que procuram modificar tanto
as relações com a natureza como as relações sociais. Os atores,
sem se darem conta disso, se auto modificam também. O
poder é inevitável e, de modo algum, inocente. Enfim, é
impossível manter uma relação que não seja marcada por ele.
TERRITORIALIDADE

Toda produção do sistema territorial determina ou


condiciona uma consumação deste. Tessituras,
nodosidades e redes criam vizinhanças, acessos,
convergências, mas também disjunções, rupturas e
distanciamentos que os indivíduos e os grupos devem
assumir. Cada sistema territorial segrega sua própria
territorialidade, que os indivíduos e as sociedades
vivem. A territorialidade se manifesta em todas as
escalas espaciais e sociais; ela é consubstancial a todas
as relações e seria possível dizer que, de certa forma, é
a "face vivida" da "face agida" do poder
(RAFFESTIN, 1993, p.161-162).
TERRITORIALIDADE
Segundo Soja, a territorialidade, seria composta de três elementos: senso
de identidade espacial, senso de exclusividade, compartimentação da
interação humana no espaço.

Percebe-se que a identidade, se não pode ser posta em causa, não


apresenta coerência fora da concepção "imaginária" de um grupo
constituído por meio de uma amostragem de indivíduos. A exclusividade
completa a identidade e, quanto à interação, esta surge de um outro nível,
em comparação aos dois primeiros, e é talvez a mais significativa em
termos relacionais.

A territorialidade de um indivíduo, é bem constituída pelo conjunto


daquilo que ele vive cotidianamente: relações com o trabalho, com o
não-trabalho, com a família, a mulher, a autoridade política etc.
Entretanto, não é possível compreender essa territorialidade se não se
considerar aquilo que a construiu, os lugares em que ela se desenvolve e
os ritmos que ela implica.