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Franz Kaf ka

“Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes,


Gregor Samsa deu por si na cama transformado num
gigantesco inseto.”
A princípio, as suas preocupações passam por
pensamentos práticos relacionados com a sua
metamorfose, principalmente com o fato de estar
atrasado para o trabalho. Depois, as preocupações
passam para um nível psicológico e sentimental. Gregor
sente-se magoado pela repulsa dos pais à sua
metamorfose. Apenas a irmã se digna a levar-lhe
alimento, mas mesmo assim repulsa e medo de sua parte
também se manifestam.
 A obra é escrita em 1915 e publicada ainda em vida pelo
autor. Franz Kafka (1883-1924) é um escritor tcheco,
nascido em Praga. Publicou romances e contos e é
considerado pelos críticos literários um dos mais
importantes autores do século XX. É autor também de
O Processo e O Castelo.
 Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883, em Praga, cidade
que na época pertencia à monarquia austro-húngara, tendo
sido ele um escritor tcheco de língua alemã.
 Kafka teve a infância e a adolescência marcadas pela figura
dominadora do pai, Herrmann Kafka, um abastado
comerciante judeu, e de sua esposa Julie, dos quais era o
primogênito. Teve outros dois irmãos, que morreram pouco
tempo depois de nascer.
 Cresce sob as influências de três culturas: a judaica, a
tcheca e a alemã. Kafka aprendeu alemão como sua
primeira língua, contudo era também quase fluente em
tcheco. Estudou Direito e Germanística na Universidade de
Praga.
 Frequentou os círculos literários e políticos da pequena
comunidade judaico-alemã, na qual circulavam ideias
e atitudes críticas e inconformistas, com que se
identificava.
 Concluídos os cursos acadêmicos e de doutorado,
trabalhou como advogado e depois como inspetor de
acidentes de trabalho, vivendo obscuramente e
inconformado com esta vida profissional, que o
impedia de se dedicar totalmente à atividade literária.
 Fez parte, junto com outros escritores da época, da
chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente
uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande
atração pelo Realismo, uma inclinação à metafísica e uma
síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.

 Com uma série de fracassos amorosos, entregou-se ao


sentimento de solidão e desamparo que nunca o
abandonaria. Em 1913, Kafka sofre uma grande crise
emocional. Alguns estudiosos afirmam que esta crise foi
causada por motivo do rompimento de seu noivado; outros
defendem que o autor teria ficado emocionalmente abalado
pelos prelúdios da 1ª Guerra Mundial, que teria seu início
oficial no ano seguinte.
 Metamorfose, título escolhido por Kafka, não é casual, remete ao
texto de Ovídio, poeta romano do século I d.C, o qual escreve a
obra Metamorfoses. Nela, está a criação do homem:

Faltava ainda um animal mais nobre do que estes (mencionados) e


mais capaz de mente elevada e que pudesse dominar sobre os
outros. O homem nasceu; ou aquele artista das coisas, origem de
um mundo melhor, (o) fez (o criou) com semente divina, ou a terra
(ainda) nova e recentemente separada do ar elevado retinha
elementos do céu afim (criado com ele); o nascido (filho) de Japeto
plasmou esta (plasmou-a) tendo (-a) misturado com as águas dos
rios, à imagens dos deuses que regem todas as coisas; e enquanto os
outros animais encurvados olham para a terra, deu ao homem um
semblante elevado e ordenou (-lhe) que contemplasse o céu e que
levantasse aos astros olhares altivos. (OVÍDIO, s/d, p.24-5)
O infeliz inseto é uma imagem potente para revelar o triste
fim a que chegou a humanidade após séculos.

 Enquanto em Ovídio, prevalece uma visão otimista, em que


o homem tem o rosto voltado para o céu para olhar
altivamente os astros; em Kafka, predomina o pessimismo,
cuja expressão é Gregor Samsa “regredido” à condição de
animal, condenado a olhar para o solo.
 Em Ovídio, o destino do homem é dominar os demais
animais, já, em Kafka, o inseto não controla nada, sequer
suas próprias pernas.
 Gênero de origem questionável, a literatura fantástica teria nascido nos
fins do século XVIII, tendo sido mais aprofundada no século XIX.
 “A Metamorfose” relaciona-se com o tal gênero, mas distingue-se em
diversos aspectos das narrativas fantásticas mais tradicionais:

- Em primeiro lugar, o acontecimento estranho não aparece depois de


uma série de indicações indiretas, como o ponto alto de uma gradação:
ele está contido em toda a primeira frase, logo na abertura da trama.
- A narrativa fantástica partia de uma narrativa perfeitamente natural
para alcançar o sobrenatural, “A Metamorfose” nasce de um
acontecimento sobrenatural para dar-lhe, no curso da narrativa, uma
aparência cada vez mais natural; e o fim da história é o mais distante
possível do sobrenatural Assim, o fantástico é um modo literário, que é
usado para essa quebra diametralmente oposta de perspectiva do
universo narrativo.
 Gênero situado entre o conto e o romance: é uma
narração em prosa menor que o romance e maior que o
conto;
 Pluralidade dramática: Ao contrário do que acontece
com o conto, a novela pode desenvolver vários enredos
ao longo da narrativa, que podem estabelecer conexões
entre si.
 Sucessividade: O enredo é desenvolvido de maneira
sequencial, embora essa sequência possa ser alterada
ao longo da narrativa.
 Tempo: Na novela, o tempo é histórico, isto é,
determinado pelo calendário e pelo relógio.
 Espaço: Tempo e espaço são definidos pela pluralidade
dramática, pois as ações dos personagens são
responsáveis por deslocá-los para diferentes ambientes
na narrativa.
 Personagens: Não há limite de personagens e, ao
longo da trama, novos podem surgir, assim como
outros podem ser retirados da trama, tudo em prol do
fio narrativo.
 Enredo: Diferentemente do que acontece com o
romance, cuja extensão é maior (o que permite um
ritmo mais lento), a novela segue geralmente um ritmo
mais acelerado.
 Linguagem formal – Kafka nos apresenta todo o
processo de transformação de Samsa e sua posterior
vivência transmutado em inseto a partir de uma
linguagem forma, quase protocolar, em que os
elementos trazidos revelam uma expressão pontual e
objetiva.
 Descritivismo – Desde o cenário até a ação do conto
são intensamente descritas pelo autor. O descritivismo
permite a aproximação do leitor com o conto na
medida em que lhe permite imaginar em detalhes os
ambientes e as ações das personagens.
 Frieza na descrição e na narração – Kafka nos apresenta um
angustiante processo de metamorfose a partir de um tom frio,
quase de relato. A não exaltação, aliás, passa inclusive por Samsa,
cujos pensamentos nos são apresentados no mesmo tom de
frieza, quase indicando uma normalidade. Esse tom reforça a
impessoalidade da narração.
 Forma: o conto é dividido em três partes. Na primeira, narra-se o
processo de mudança de Samsa em um inseto e as primeiras
reações a isso. A segunda parte apresenta a rendição de Samsa à
sua transformação. Por fim, é narrado o perecimento da
personagem.
 Apresentação direta da ação – a transformação de Samsa é
apresentada objetiva e impassivelmente, logo na primeira
sentença da obra, o que causa um estranhamento na leitura e o
incômodo do leitor.
O ponto culminante da obra é atingido quando Gregor
Samsa, protagonista transformado em inseto, deixa de
ser capaz de se expressar na linguagem humana. Gregor
perde a capacidade da fala e da escrita e, com isso, de se
comunicar. Mas a metamorfose de Gregor vai além da
modificação física e cognitiva: embora não seja mais
capaz de se comunicar pela linguagem, exilado no seu
silêncio, seus pensamentos, raciocínios e sentimentos
continuam sendo humanos. Gregor passa também a
analisar as coisas que o rodeiam com muito mais
atenção.
 Kafka era um judeu nascido no Leste Europeu, falante
de alemão, que estudou na Áustria e morava na Suíça.
A escrita do livro ocorre em um momento importante
do século XX: o florescimento do capitalismo na
Europa por meio da industrialização e a explosão da
Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

 Trabalhou na empresa do pai, o qual era extremamente


autoritário com seus funcionários. Kafka não se
adaptou a essa situação.
A Metamorfose nos apresenta uma série de questionamentos
sobre a bizarra transformação de um homem em um inseto
repugnante, provavelmente uma barata.

- Por que ocorre essa transformação?


A primeira questão digna de atenção é na realidade o cerne do
livro, mas que em nenhum momento é posta em pauta: o
porquê da metamorfose de Gregor Samsa. Em nenhum
momento o protagonista se pergunta o motivo que terá
desencadeado o seu processo transformatório de homem em
inseto.
 No estilo “kafkiano” de escrever, o autor traz, através
de metáforas, a denúncia sobre as graves violações
ocorridas à Dignidade da Pessoa Humana. O livro “A
Metamorfose” nos mostra um indivíduo excluído do
sistema de relações humanas, subtraído da qualidade
inerente à sua personalidade, sem autonomia e
autodeterminação. Um indivíduo do qual furtaram a
própria dignidade.
 A metáfora de Samsa apresenta a situação do homem que
foi gradativamente perdendo contato com sua dimensão
mais humana.
 No modo de produção pré-capitalista, o trabalhador é
explorado, mas seu saber se mantém preservado, ele
percebe claramente que seu trabalho é responsável pela
produção, a alienação é apenas do corpo. No capitalismo
industrial (e também no financeiro), a situação se modifica
drasticamente.
 O trabalhador não se reconhece no produto, ele passa a ser
uma engrenagem da grande máquina projetada pelos
especialistas e comprada pelos patrões. A sua relação com o
processo produtivo está definido por um contrato no qual
ele vende a sua força de trabalho e o patrão a compra.
 O valor do salário que passa a ser a medida de seu
reconhecimento. Quando se torna um inseto, Samsa está
impedido de trabalhar, logo não gera valor econômico. Perde,
assim, seu valor como indivíduo na sociedade capitalista.
 O trabalho é o lugar da purgação, é o fardo da sobrevivência. O
trabalhador só se realiza em suas atividades animais: comer,
dormir, copular.
 O trabalho na sociedade capitalista não permite que o
trabalhador se sinta ligado aos demais homens. Por não se
reconhecer no trabalho, ele não reconhece parte essencial do ser
humano enquanto espécie, sua vida não está ligada à dos demais.
Em síntese, alienado de seu trabalho, de sua humanidade e dos
outros homens, a alienação é total no capitalismo.
 Samsa transforma-se em um parasita, em um estorvo à sua família:
mudança da posição de provedor para a situação de parasita.

 Em Carta ao Pai, Kafka queixa-se de que seu pai o vê como parasita.

 Parasita: sem a função de trabalhador e provedor da casa, Samsa torna-


se o parasita, não produz valor econômico nem social – o homem que
não produz valor econômico é parasitário à sociedade.

 “Toda uma geração de jovens intelectuais judeus nascidos no final do


século XIX, atraídos pela visão romântica do mundo e aspirando
intensamente a uma vida dedicada à arte, à cultura ou à revolução, vai
romper radicalmente com a geração dos pais burgueses”. (LÖWY, 2005,
p. 63).

 Autoritarismo familiar: característica do Império Áustrio-Húngaro –


desde o Kaiser à posição do pai: poder do pai e do Estado “sem limites”.