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CURSO:

PEDAGOGIA

FUNDAMENTOS TEÓRICOS E
METODOLÓGICOS DO ENSINO
DA HISTÓRIA E DA GEOGRAFIA

15 E 16/11/2018
1. FUNDAMENTOS E METODOLOGIA DO ENSINO
DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA NAS SÉRIES
INICIAIS
O retorno da História e da Geografia
No processo de democratização dos anos 80, os conhecimentos escolares
passaram a ser questionados e redefinidos por reformas curriculares. As
transformações no âmbito escolar surgiram de vários grupos sociais
oriundo de um intenso processo de migração do campo para as cidades e
entre os Estados, devido a diferenciação econômica e social, daí as
mudanças no espaço escolar.
As novas gerações de alunos habituam-se às novas tecnologias de
comunicação, como: rádio, televisão (canais informação/formação cultural).
Os professores tornaram-se voz importante do saber escolar, diminuindo o
poder dos chamados “técnicos educacionais”.
De início começaram as discussões do retorno da História e da Geografia
ao currículo escolar a partir dos anos iniciais. Houve importantes conversas
entre pesquisadores e docentes do ensino médio e no mesmo período a
expansão dos cursos de pós-graduação.
A chamada História “tradicional” passou por diversos debates.
Suas vertentes historiográficas de apoio como: o positivismo, o
estruturalismo, o marxismo ortodoxo/historicismo, produto de
grandes sínteses, macro-objetos, estruturas ou modos de produção,
foram postos sob suspeita. O processo histórico de seriação dos
acontecimentos num eixo espaço-temporal EUROCÊNTRICO,
seguindo um processo evolutivo, sequência e etapas cumpriram
uma trajetória obrigatória, foi denunciada como redutora da
capacidade do aluno, como sujeito comum sem sentir-se parte
integrante e agente de uma história que desconsiderava sua
vivência, apenas um produto pronto e acabado. Surge a chamada
História Crítica desejando desenvolver no discente atitudes
intelectuais de desmistificação das ideologias, tornando possível a
análise das manipulações dos meios de comunicação de massas e
da sociedade de consumo.
Os currículos foram ampliados com conteúdos de História a partir
das escolas de educação infantil e nos primeiros anos do ensino
fundamental. Os conteúdos passaram a ser avaliados quanto às
necessidades de atender um público, voltando-se agora para as ideias de
mudanças constantes do novo cotidiano tecnológico.
Os professores passaram a perceber a impossibilidade de se transmitir nas
aulas o conhecimento de toda a História da humanidade em todos os
tempos, daí a busca de alternativas simplificadas da história oficial.
Questionavam-se muito por onde deveriam começar. Uns optaram por uma
ordenação sequencial e processual que intercalasse os conteúdos das duas
histórias num processo contínuo da Antiguidade até os dias atuais. Outros,
por trabalharem temas e, nessa perspectiva desenvolver as primeiras
propostas de ensino por eixos temáticos.
Os métodos tradicionais de ensino têm sido questionados com maior
ênfase. Os livros didáticos passaram a ser questionados em relação aos
conteúdos e exercícios apresentados, pois, não configurava exigência
nenhuma de raciocínio, comprometendo assim qualquer avanço que se
faça no campo curricular formal. Dessa forma, o ensino de História
atualmente está em processo de mudanças em seu conteúdo e método.
Objetivos de História para os anos iniciais do Ensino Fundamental
Ao final do primeiro ciclo, os alunos sejam capazes de:
*Comparar acontecimento no tempo, tendo como referência anterioridade,
posterioridade e simultaneidade;
*reconhecer algumas semelhanças e diferenças sociais, econômicas e
culturais, de dimensão cotidiana, existente no seu grupo de convívio escolar
e na sua localidade;
*reconhecer algumas permanências e transformações sociais, econômicas
e culturais nas vivências cotidianas das famílias, da escola e da
coletividade, no tempo, no mesmo espaço de convivência;
*caracterizar o modo de vida de uma coletividade indígena, que vive ou
viveu na região, discutindo suas dimensões econômicas, sociais, culturais,
artísticas e religiosas;
*identificar diferenças culturais entre o modo de vida de sua localidade e o
da comunidade indígena estudada;
*estabelecer relações entre o presente e o futuro;
*identificar alguns documentos históricos e fontes de informações
discernindo algumas de suas funções.
O que se pretende no ensino de História
O ensino de história não pode reduzir-se à memorização de fatos, à
informação detalhada dos eventos, ao acúmulo de dados sobre as
circunstâncias nas quais ocorrem. A história não é: simplesmente relato de
fatos nem elogio de figuras ilustres. Ela não é um campo neutro, é um lugar
de debate, de conflitos. É um campo de pesquisa e produção do saber que
está longe de apontar para o consenso.
No ensino de história, o principal OBJETIVO é compreender e interpretar as
várias versões do fato, e não apenas memorizá-lo.
O importante não é só o acervo de conhecimento que se deve selecionar
para instruir o ensino, mas o modo como é trabalhado. Ou seja, a
metodologia usada na escola. Alfabetizar, por exemplo, pode ser feito por
diversos métodos: alfabetizar a partir da vivência, da realidade dos
alfabetizados, fazendo com que eles ampliem o conhecimento de sua
realidade e incorporem outros conhecimentos, exige um determinado
método, não é qualquer método.
Inconfidência Mineira
Focalizamos apenas como produto de uma ação de grandes homens,
sujeitos autônimos na construção da História. Assim, passamos aos
nossos alunos a ideia de que precisa esperar o grande mártir que salvará o
país, e nunca que as mudanças ocorram pela vontade e determinação de
homens comuns.
No entanto, entendermos que a INCONFIDÊNCIA MINEIRA é resultado de
um longo período de luta durante os quais se formou a consciência
nacional; abolimos do ensino a característica exaltação dos grandes
homens ou heróis. O aluno passará a compreender que não são as grandes
personalidades que produzem a História, e sim, é esta que produz as
grandes personalidades. Não foi um líder isolado que produziu o movimento
das diretas, e sim, um movimento que produziu novas lideranças, na luta
do povo contra o regime militar.
Para isso é necessário que a História seja entendida como o resultado da
ação de diferentes grupos, setores ou classes de toda a sociedade. É
importante que o aluno conheça a história da humanidade como a história
da produção de todos os homens e não como resultado da ação ou das
ideias de alguns poucos.
Não é possível, portanto, analisar fatos isolados. Para conhecer o
verdadeiro sentido é necessário remetê-los à situação socioeconômica,
política e cultural da época em que foram produzidas, reconstruídas suas
evoluções na totalidade mais amplas do social até chegar ao presente.
1.1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS PARA O ENSINO DA
GEOGRAFIA
O conceito básico para o objeto de estudo da Geografia é o espaço geográfico,
entendido como aquele produzido e apropriado pela sociedade, composto por
objetos (naturais, culturais e técnicos) e ações pertinentes a relações socioculturais
e político-econômicas. (Objetos e ações inter-relacionados).
Para as diferenciações de diversas linhas de pensamento geográfico, mostra-se que
os conceitos de paisagem e região, por exemplo, foram de início tratados pela
GEOGRAFIA TRADICIONAL, no final do séc. XIX. Da perspectiva teórica dessa linha de
pensamento, tinham um significado diverso do que é dado a eles, agora, pela
vertente crítica da Geografia.
Hoje, esse conceito foi ampliado e ressignificado pela vertente crítica da Geografia
que o associa às relações de poder da escola MICRO à MACRO.
O conceito de lugar foi discutido em sua relação com o processo de globalização da
economia, considerando-se os aspectos subjetivos com a ampliação da abordagem e
ênfase às potencialidades políticas dos lugares em suas relações com outros
espaços, próximos e/ou distantes. O ensino de Geografia deve assumir o quadro
conceitual das teorias críticas dessa disciplina, que incorporam os conflitos e as
contradições sociais, econômicas, culturais e políticas, constitutivas de um
determinado espaço.
Paisagem
No Brasil a partir da década de l980, com o movimento da Geografia Crítica, os
conceitos de região e de paisagem foram retomados, historicizados e
ressignificados.
Hoje as teorias críticas da Geografia reconhecem a dimensão subjetiva da paisagem,
já que o domínio do visível está ligado à percepção e à seletividade, mas acreditam
que seu significado real é alcançado pela compreensão de sua objetividade.
Região
As regiões são o suporte e a condição de relações globais que de outra forma não se
realizariam. No mundo globalizado, onde as trocas são intensas e constantes, a
forma e o conteúdo das regiões mudam rapidamente.
Lugar
O conceito de lugar busca incorporar sua dimensão subjetiva, mas acrescenta seu
potencial político, numa abordagem teórica e pedagógica que indica a possibilidade
de os lugares assumirem-se como territórios.
O lugar é o espaço onde o particular, o histórico, o cultural e a identidade
permanecem presentes. É nele que a globalização acontece, pois, cada vez mais ele
participa das redes e deixa de explicar-se por si mesmo.
Território
É um conceito ligado à ideia de relações de espaço e poder. É nele que o nacional,
regional ou local, acontecerá a relação dialética de associação e confronto entre o
lugar e o mundo. Hoje o ensino de Geografia deve abordar as relações de poder que
constituem territórios nas mais diversas escalas, desde que as delimitem os
MICROESPAÇOS urbanos, como os territórios do tráfico, da prostituição ou da
segregação socioeconômica, até os internacionais e globais.
Natureza
É entendida como um conjunto de elementos naturais que possui em sua origem
uma dinâmica própria (independente da ação humana), mas que na fase histórica
do capitalismo (atualmente) se reduz à ideia de recursos que leva à artificialização
dos espaços urbano e rural.
Sociedade
A sociedade produz um intercâmbio com a natureza de modo que a última se
transforma em função dos interesses econômicos da primeira.
O ensino deve subsidiar os alunos a pensar e agir criticamente, de modo que se
ofereçam elementos para que compreendam e expliquem o mundo.
A função da Geografia na escola é desenvolver o raciocínio geográfico, isto é, pensar
a realidade geograficamente e despertar uma consciência espacial.
Conteúdos estruturantes
 Dimensão econômica na produção do/no espaço
 Geopolítica
 Dimensão socioambiental
 Dimensão cultural e demográfica
É fundamental para o ensino da Geografia que o professor crie e planeje situações
nas quais os alunos possam conhecer e utilizar procedimentos como a observação, a
descrição, a experimentação, a analogia e a síntese, considerando a especificidade e
a contextualização dos processos, questões, fenômenos, fatos e conceitos
geográficos.
A linguagem cartográfica ocupa um lugar de importância, desde o início da
escolaridade, contribuindo para que os alunos possam compreender e utilizar os
mapas, além de desenvolver capacidades relativas à representação do espaço.
As formas mais usuais de se trabalhar com a linguagem cartográfica na escola ainda
são situações nas quais os alunos têm de colorir mapas, copiá-los, escrever os
nomes das cidades, memorizar as informações neles representados. No entanto,
essa metodologia não garante que eles construam os conhecimentos necessários,
tanto para ler mapas quanto para representar o espaço geográfico.
Para concretizar é necessário partir da ideia de que a linguagem
cartográfica é um sistema de símbolos que envolvem proporcionalidades,
uso de signos ordenados, técnicas de projeção e de análise das
representações. A leitura de representações cartográficas também
pretende atender a diversas necessidades, das mais COTIDIANAS (chegar a
um lugar que não se conhece, entender o trajeto dos mananciais, por
exemplo), às mais ESPECÍFICAS (como delimitar áreas de plantio,
compreender zonas de influência de climas).
O estudo do meio constitui outra alternativa metodológica bastante
específica do ensino da Geografia, proporcionando a abordagem das
questões ambientais, sociais, políticas, econômicas, culturais, entre outras.
Além disso, proporciona a observação, a compreensão, a avaliação e a
intervenção em processos físicos da natureza.
Outra abordagem das questões geográficas na escola, compatível com a
proposta curricular em foco, inclui o uso dos meios de comunicação de
massa e as novas tecnologias da informação, trabalhados numa
perspectiva interdisciplinar. Esses métodos têm em sua essência a
aplicação dos princípios de pesquisa, observados o caráter da
problematização, da coleta e análise de dados, da informação de reflexões ,
de julgamentos e de sínteses.
Santos (1999, p. 05) explicita bem a questão, ao afirmar:
“[...] Cada gesto, cada palavra, dentro de uma casa de ensino, têm de ser
precedidos de uma indagação de sua finalidade. Não é a informação em si
que é importante, mas a sua organização face a uma finalidade. É preciso
esquecer esse elogio isolado às coisas, ainda que pareçam inteligentes, e
buscar a inteligência das coisas mediante a solidariedade [...]”.
Destaca-se assim a necessidade de promover a aprendizagem voltada para
a promoção do ser humano, para a distribuição mais justa da produção de
bens/serviços entre as pessoas e para a manutenção/sustentabilidade do
sistema Terra. A Geografia é uma das ciências cujo ensino pode contribuir
para a satisfação/necessidades.
A interdisciplinaridade precisa ser considerada como a proposta educativa,
por excelência, capaz de promover o diálogo entre os professores, usando
seus respectivos saberes, “não como panaceia para os males que atingem
a dissociação do saber” (FAZENDA, 1979, p. 13), mas, segundo Fernandes,
como uma possibilidade de visão do mundo em desenvolvimento,
“superando o que diz respeito ao conteúdo e/ou conhecimento relativo de
uma disciplina como uma busca de ultrapassagem das fronteiras
estabelecidas arbitrariamente num dado momento histórico e, em especial
como tentativa do resgate da totalidade para superar a fragmentação da
própria vida, compreendendo a VIDA em sua complexidade, conexões,
interações, relações, reorganizações e transformações em movimento
permanente.” (FERNANDES, 2004, p. 147).
Associando essa compreensão ao caráter da Geografia como ciência de
análise e síntese da percepção de mundo, a prática docente trabalhará as
interfaces das categorias espaço/tempo, identidade/diversidade,
lugar/território, poder/saber, trabalho/consumo, natureza/sociedade,
local/global, cultura/inclusão, entre outras para a formação do sujeito-
cidadão.
Francisco Canindé de Assunção
canindeassuncao@gmail.com
Mestre em Docência na Educação Brasileira