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SOCIEDADES MUÇULMANAS ÁRABES

Séculos XI-XV

 As fronteiras do mundo muçulmano foram alteradas: ele se expandiu na


Anatólia e na Índia, mas perdeu a Espanha para os reinos cristãos. Dentro
dessas fronteiras, surgiu uma divisão entre as áreas onde o árabe era a
principal língua da vida e da cultura, e aquelas em que ele continuou a ser
a principal língua da literatura legal e religiosa, mas a revivida língua persa
passou a ser o principal veículo de cultura secular.
 Um terceiro grupo étnico e linguístico tornou-se importante, o dos turcos,
que formaram a elite dominante em grande parte do lado oriental do
mundo muçulmano.
 No fim do século X, passara a existir um mundo islâmico, unido por uma
cultura religiosa comum, expressa em língua árabe, e por relações
humanas forjadas pelo comércio, a migração e a peregrinação. Mas esse
mundo não mais se corporificava numa unidade política única.
SOCIEDADES MUÇULMANAS ÁRABES
Séculos XV-XVI

 No período compreendido entre os séculos XV e XVI, os estados


muçulmanos viram-se diante de um novo desafio criado pelos
estados da Europa ocidental.
 A produção e o comércio das cidades europeias aumentaram;
têxteis exportados por mercadores de Veneza e Gênova concorriam
com os produzidos nas cidades do mundo muçulmano. A conquista
cristã da Espanha foi completada com a extinção do Reino de
Granada em 1492; toda a península era agora governada pelos
reinos cristãos de Portugal e Espanha.
 No outro extremo do Mediterrâneo, uma dinastia turca, a dos
otomanos, surgiu na Anatólia, na disputada fronteira com o Império
Bizantino. Expandiu-se dali para o sudeste da Europa e, depois,
conquistou o resto da Anatólia; a capital bizantina, Constantinopla,
tornou-se a capital otomana, agora conhecida como Istambul (1453).
A ERA OTOMANA
Séculos XVI-XVIII

 No início do séc. XVI, o Império Otomano era a principal potência


militar e naval no Mediterrâneo oriental e, também, no Mar
Vermelho; isso o pôs em conflito potencial com os portugueses no
oceano Índico e os espanhóis no Mediterrâneo ocidental.

 Na área do Mar Vermelho, sua política era de defesa, para impedir


o avanço dos portugueses, mas no Mediterrâneo, usou seu poderio
naval para conter a expansão espanhola e estabelecer uma cadeia
de pontos fortes em Argel (na década de 1520), Trípoli (na década
de 1550) e Túnis (1574), mas não mais a oeste no Marrocos.

 Após a derrota turca na batalha de Lepanto (1571), surgiu uma


divisão mais ou menos estável de poder naval no Mediterrâneo e, de
1580 em diante, a Espanha e o Império Otomano mantiveram
relações pacíficas.
 Neste período, a maior parte do mundo muçulmano foi
integrada em três grandes impérios, dos otomanos,
safávidas e mongóis, cujas origens e desenvolvimento foram
semelhantes.
 Todos os países de língua árabe foram incluídos no Império
Otomano, com capital em Istambul, excetuando-se partes da
Arábia, o Sudão e o Marrocos.
 O turco era a língua da família governante e da elite militar
e administrativa, em grande parte oriunda de convertidos
ao Islã vindos dos Bálcãs e do Cáucaso. A elite legal e
religiosa era de origem mista, formada nas grandes escolas
imperiais de Istambul e transmitindo um corpo de literatura
jurídica escrita em árabe.
 Império Otomano: estado burocrático, contendo
diferentes regiões dentro de um único sistema
administrativo e fiscal.

 Última grande expressão da universalidade do


mundo islâmico: preservou a lei religiosa, protegeu
e ampliou as fronteiras do mundo muçulmano,
guardou as cidades santas da Arábia e organizou a
peregrinação a elas. Igualmente um Estado
multirreligioso, deu um status reconhecido às
comunidades cristã e judaica.
 O Império Otomano era uma das maiores estruturas
políticas que a parte ocidental do mundo conhecera
desde a desintegração do Império Romano: dominou a
Europa oriental, a Ásia ocidental e a maior parte do
Magreb, e manteve juntas terras de tradições políticas
muito diferentes, muitos grupos étnicos — gregos,
sérvios, búlgaros, romenos, armênios, turcos e árabes —
e várias comunidades religiosas — muçulmanos sunitas e
xiitas, cristãos de todas as igrejas históricas e judeus.
 Manteve seu domínio sobre a maioria deles por mais ou
menos quatrocentos anos, e sobre alguns por até
seiscentos anos.
A estrutura de governo

 No ápice do sistema de controle desse vasto Império, ficavam o


soberano e sua família, a “casa de Osman”. Até o início do
século XVII, o soberano era geralmente sucedido por um de
seus filhos; daí em diante, pelo membro mais velho da família.
 O soberano vivia no meio de uma vasta família, que incluía as
mulheres do harém e os que as guardavam, servidores
pessoais, jardineiros e guardas do palácio.
 Abaixo do imperador na hierarquia de mando, se encontrava
o sadr-i azam ou vizir, dotado de poderes muito amplos.
 Abaixo deste, havia vários outros vizires. Eles controlavam o
exército e os governos provinciais, além do funcionalismo
público.
 Na primeira fase de expansão, o exército otomano fora em grande parte uma força de
cavalaria composta de turcos e outros habitantes da Anatólia e do campo balcânico. Os
oficiais de cavalaria (sipahis) tinham o direito de coletar impostos sobre certas terras
agrícolas e ficar com eles, em troca de serviço em épocas de necessidade, com um
número específico de soldados: sistema de timar.
 Desde cedo, criou-se um outro exército, uma força ativa de infantaria (janízaros) e
cavalaria altamente disciplinada, formada através do desvirme, ou seja, da convocação
periódica de rapazes das aldeias cristãs dos Bálcãs convertidas ao Islã.
 Séc. XVI: instituição de uma complexa burocracia (kalemiye), formada por dois grupos:
os secretários que redigiam os documentos — ordens, regulamentos e respostas a
petições — na forma correta, e preservavam-nos; e os que mantinham os registros
financeiros, a avaliação de bens tributáveis e a contabilidade de quanto se coletara e
como se usara.
 Os mais altos funcionários do exército e do governo reuniam-se regularmente no
palácio, num conselho (divan) que tomava decisões políticas, recebia embaixadores
estrangeiros, redigia ordens, investigava queixas e respondia a petições,
particularmente as que se referiam a abusos de poder; nos primeiros tempos, o próprio
soberano presidia as reuniões do conselho, mas depois a chefia coube ao grão-vizir.
 Esse sistema de controle abrangia todo o Império. À medida
que se anexavam novas terras, governadores eram nomeados
para cidades importantes e suas áreas de influência, e
colocavam-se nelas guarnições de tropas imperiais; mais
tarde, os numerosos governos locais (sancak) foram reunidos
num menor número de províncias maiores (eyalet). O governo
provincial era como o central em miniatura: o governador
tinha sua complexa casa, seus secretários e contadores, e seu
conselho de altos funcionários que se reuniam regularmente.
 Entre os principais deveres do governo, estavam o de coletar
os impostos dos quais dependia:
 1- sobre a produção do campo, colheitas, pesca e gado;
 2- sobre atividades urbanas;
 3- impostos pessoais (jizya) pagos por cristãos e judeus;
 4- impostos ocasionais destinados a fins específicos, depois
substituídos pelas fazendas fiscais.
 Inicialmente, os cargos de mando no governo eram ocupados
em grande parte por comandantes do exército, membros de
antigos grupos ou estados dominantes incorporados no
Império, e da população culta das cidades.
 Séc. XVI: essas funções eram desempenhadas por elementos
pertencentes à casa do imperador, que vinham dos recrutados
para o exército pelo desvirme, de escravos comprados no
Cáucaso, de membros de antigas famílias dominantes ou de
filhos de membros da casa. Todos eram encarados como
“escravos” do soberano (apadrinhamento e hereditariedade).
 Séc. XVII: reforço do poder do grão-vizir. Império se
transforma em uma oligarquia de poderosos funcionários
ligados pela asabiyya (solidariedade) da criação na mesma
casa, por uma educação comum e, muitas vezes, por
parentesco ou casamento.
Organização social
 Asker (soldados): grupo dominante
 Isentos
de impostos ocasionais
 Com regime judicial próprio

 Reaya (rebanho): conjunto dos súditos


 Organizado em grupos, de acordo com diversas
finalidades.
Os otomanos e a tolerância religiosa
 As várias comunidades judaicas e cristãs tinham uma posição
especial, porque pagavam a capitação e possuíam seus
próprios sistemas legais de lei pessoal, e também porque o
governo precisava assegurar-se de sua lealdade.
 Na capital e nas províncias, o governo reconhecia um chefe
espiritual de cada comunidade como tendo certa jurisdição
legal e sendo responsável pela coleta do jizya e a
manutenção da ordem.
 Tinham liberdade de culto e educação, dentro de certos
limites. Podiam exercer a maior parte das atividades
econômicas; os judeus eram importantes como banqueiros, os
gregos no comércio marítimo e, no séc. XVI, os armênios
começavam a ser importantes no comércio de seda iraniana.
Os otomanos e a tradição islâmica
 Os otomanos também usaram ocasionalmente o
título de califa, mas o título não trazia consigo, na
época, qualquer pretensão à autoridade universal
ou exclusiva que se reconhecia possuírem os califas
anteriores. Tinha antes a implicação de que o sultão
otomano era mais que um soberano local, e usava
seu poder para fins sancionados pela religião.
 Os otomanos defenderam as fronteiras do Islã e as
ampliaram quando possível.
 O sultão era não apenas o defensor das fronteiras do Islã, mas
também o guardião de seus lugares santos. Meca e Medina no
Hedjaz, Jerusalém e Hebron na Palestina.
 O Império Otomano era uma potência europeia, asiática e
africana, com interesses vitais a proteger e inimigos a
enfrentar em todos os três continentes.
 Durante a maior parte de sua existência, muitos de seus
recursos e energia foram dedicados à expansão na Europa
oriental e central, e ao controle de suas províncias europeias,
que continham grande parte da população do Império e
proporcionavam muito de sua receita; de fins do séc. XVII em
diante, preocupou-se com a defesa contra a expansão
austríaca no Oeste e a russa no Norte, na área em torno do
Mar Negro.
OS LIMITES DO PODER POLÍTICO

 Século XVIII:
 o equilíbrio entre os governos locais e central otomano mudou e, em
algumas partes do Império, famílias reinantes ou grupos otomanos
conquistaram uma relativa autonomia, embora permanecessem fiéis
aos grandes interesses do Estado otomano;
 mudaram igualmente as relações entre o Império e os estados da
Europa: enquanto em seus primeiros séculos o Império se expandira
na Europa, no século XVIII estava sob ameaças militares vindas do
Oeste e do Norte;
 houve um início de mudança na natureza e na direção do comércio, à
medida que governos e comerciantes europeus se tornaram mais
fortes no oceano Índico e no mar Mediterrâneo.
 final do século: a elite otomana reinante tomava consciência de um
relativo declínio de poder e independência, e começava a dar as
primeiras respostas hesitantes à nova situação.