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MCIC , MINDELO, MORABÉZA-FESTA DO LIVRO, 24-

28/10/2018
Literatura em Cabo Verde:
Os Grandes Temas
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ÍNDICE

A LITERATURA COMO: 6. Auto-Realização;


1.Espaço de Humanismo; 7. Espaço Lúdico;
2. Expressão de um Sentir; 8. Viveiro de Princípios e Valores;
3. Espaço de Participação Cidadã; 9. Expressão do Belo.
4. Expressão de Sonhos e 10. Conclusão: Os Grandes Temas
Aspirações;
5. Resgate Civilizacional;

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1. Literatura como Espaço
de Humanismo:

 A nacionalidade de uma literatura, mesmo quando focalizada num determinado


território, é o humanismo.
 Assim, os temas tratados, qualquer que seja a sua natureza, tem a ver com o
homem; com o autor e o seu entorno cultural e ambiental; com a sociedade local
e/ou global; com a vivência ontem ou hoje; com o sonho e as aspirações de
quem escreve.
 Sendo espaço do humanismo, a literatura é, também, o espaço de liberdade. O
escritor, quando escreve, segue apenas a sua consciência, o seu conhecimento,
a sua sensibilidade, os valores que defende e os princípios por que propugna.
 Assim sendo, os temas da literatura, em Cabo Verde, de qualquer tempo e de
qualquer vivência, têm a ver com o humanismo que, em cada fase, se reveste de
características próprias, sobressaindo umas e complementando outras.

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2. Literatura como Expressão de um
Sentir
Nas diversas fases da literatura, em Cabo Verde, há um sentir próprio, todos eles
importantes e constitutivos do panorama literário em Cabo Verde. A riqueza da nossa
literatura está, precisamente, na diversidade da sua expressão e do seu sentir :
 Fase Inicial, 2ª Metade do Séc. XIX: Sentir em Gestação (Guilherme Dantas e
José Evaristo de Almeida);
 Fase Nativista, anos 20 do Séc. XX: Sentir Bi-Nacional com alguma
reivindicação em termos de equiparação de estatutos entre a Metrópole e
a Colónia (Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luís Loff de Vasconcelos, José Lopes…).
A divisa é: “irmãos sim, mas escravos não”.
 Fase Telúrica, de 1935-60 : Sentir que constata as desgraças do povo, mas
com pouca reivindicação, centrado em CV , com o seu cortejo de seca,
fome e emigração(Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes…). Divisa:
Fincar os pés no chão.
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Continuação : Expressão de um
Sentir
 Fase Nacionalista, da década de 40-80, do Séc. XX: É um prolongamento da fase
telúrica, mas com um Sentir Reivindicativo, Centrado num CV com liberdade,
independência, desenvolvimento e justiça social (Amílcar Cabral, Aguinaldo da
Fonseca, António Nunes, Onésimo Silveira, Olívio Martins, Mário Fonseca, Corsino Fortes,
Osvaldo Osório…; a divisa é “ter outra ilha dentro da ilha”; “um poema diferente
para o povo das ilhas”; Gritarei, Berrarei…mas não vou para a pasárgada.
 Fase Humanista Voltada para o Mundo, sem nenhum Centro Específico, valorizando
Cabo Verde como parte de um todo e não como centro do universo. Começa a partir da
década de 80 do Séc. XX (Arménio Vieira, Germano Almeida, João Vário, Jorge Carlos
Fonseca, David Hopfer Almada, Vera Duarte, Dina Salústio,José Luís Tavares, Velhinho
Rodrigues, Filinto Elísio, J.L.H.Almada, T.V da Silva, Dany Spínola, Kaká Barbosa...) A
temática é centralizada num humanismo de fronteiras abertas, sem deuses no
Olimpo, nem humanos no inferno, já que o paraíso, a existir, deve ser para
todos.
 NB: O Sentir de cada Fase não é estanque. Algumas vezes, um escritor pode situar-se na fronteira,
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3. Literatura como Espaço de
Participação Cidadã

 Qualquer que seja a fase de manifestação do sentir, não havendo censura nem
constrangimentos, de qualquer ordem, a literatura é um espaço privilegiado de
participação cívica.
 Em todas as fases da nossa literatura foi assim, e assim vai continuar a ser.
 O escritor de verdade, nessa missão cívica, pode revelar-se como antropólogo, como
historiador, como conservador, como sociólogo, como político, como educador, como
filósofo, como vate, como engenheiro, como arquiteto, como semeador, como
lavrador, como marinheiro, como pescador, como médico, como artista, como “coach”
espiritual e/ou social…
 E se o escritor nadar em todas essas águas, com ciência e consciência cívicas, ele
deixa de ser um chefe para ser um líder; ele deixa de ser um patrão para ser um
irmão; ele deixa de ser um aproveitador para ser um educador/ servidor. E tudo isto
tem um nome: participação cívica.

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4. LITERATURA Como Expressão
de Sonhos e de Aspirações

 Com a força mediática da palavra, o escritor é capaz de significar, de transfigurar, de construir


e de comunicar o mundo que nos rodeia, o social que nos preocupa, o cultural que nos enforma,
o virtual que nos interpela... Como diria Clarice Lispector: 1986, em Perto do Coração Selvagem
o escritor, com esta participação cívica, continua se inaugurando, abrindo e fechando ciclos da
sua vida.
 Com efeito, através da palavra  ele pensa, filosofa, ama, constrói, preserva, divulga, educa,
reza, cria… Os textos que escreve testemunham a oficina e a lavoura das suas palavras e do
seu verbo, em algumas “azáguas” do seu quotidiano, sempre em sintonia com o que dizia
Eduardo Prado Coelho: 1978, em Os Universos da Crítica: «... é bom mexer nas palavras,
organizá-las num espaço, estabelecer-lhes movimento de rotação e translação umas com as
outras... [para a construção ou configuração de sentidos, tanto os do autor, como os do leitor].
Este é outro modo de ver a questão, mas sabe-se imediatamente que é outro modo do mesmo
modo».
 Ora, um escritor que age assim, forçosamente ocupa a galeria dos imortais e a marca da sua
participação
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5. Literatura: Resgate Civilizacional

 O tempo passa e com ele o sentir e as representações de uma época entram na história ou se acantonam no pó
dos arquivos ou chegam mesmo a desaparecer.
 A literatura, ao registar factos e acontecimentos que perderam atualidade ou saíram da vivência quotidiana,
restitui uma nova vida e a uma nova aplicabilidade a esses factos e acontecimentos escondidos ou
desaparecidos.
 A esse processo, dá-se o nome de resgate civilizacional.
 Com esse resgate não se pretende fazer regredir a história, recuperando um sentir e uma representação do
passado.
 A literatura simplesmente assinala o passado, no seu tempo, e assegura o conhecimento do processo havido, não
para o trazer de volta, mas para permitir um olhar comparativo com a nova dinâmica temporal, evitando assim
que os erros do passado se repitam, vitaminando o sentir e as representações da atualidade.
 Mas isto deveria ser o papel da História, pode-se argumentar. Certo. Porém a literatura surge apenas como
parceira que com a linguagem da arte faz com que a história seja mais atrativa, mais comunicativa e com maior
poder de causar empatia.
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 VáriosMORABÉZA-FESTA DO LIVRO,
são os exemplos 24-
de regate civilizacional levados a cabo por escritores das diversas fases da literatura em
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6. Literatura: Auto-Realização

 A literatura não é apenas um espaço de participação cívica. Ela é também um laboratório de


auto-realização.
 A experiência pessoal me leva a dizer que a literatura leva o autor não só a conhecer como
também a descobrir o mundo.
 Escrever é utilizar a magia da palavra e a maleabilidade do verbo e da sintaxe para explorar o
mundo que nos envolve, para moldar ou interiorizar existências, para recriar ou reapropriar-se
destas mesmas existências.
 No remaneamento da palavra e do verbo para recriar e reapropriar-se do mundo envolvente ou
do mundo sonhado e acalentado, dá-se o nascimento de uma nova vida: a auto-realização de
quem escreve.
 Em toda essa operação, o escritor semeador transforma-se em escritor criador ou descobridor.
Ora, a descoberta do desconhecido ou a participação num ato de criação constitui a maior
prenda que a escrita pode proporcionar. E isto tem o nome de auto-realização. Ora, não existe
prémio nenhum que possa igualar-se ao sentimento de auto-realização.

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7. Literatura Como Espaço Lúdico

 A arte de escrever se confunde com a arte de viver. O escritor quando se recolhe no


seu atelier de escrita e quando se deixa conduzir por uma imaginação fértil e uma
inspiração informada e fecunda nasce a arte e a vida acontece.
 Ora, não há nada que possa conferir maior prazer do que uma vida que respira a arte
ou que a tem a circular nas veias.
 Algumas vezes ouvimos testemunhos de escritores que admitem perder a noção do
tempo quando escrevem. Outros ainda dizem: a escrita me salvou; ou então: a escrita
me curou; ou ainda: a escrita é o meu doce vício.
 Fazer do atelier de escrita um espaço lúdico pode ser transformar a escrita numa
vitamina para o nosso espírito. A procura de prazer intelectual e/ou sentimental na
escrita pode, deste modo, constituir um objetivo. E quando isso acontece é porque a
procura de espaço lúdico como tema ou como prática literária nem sempre é um
absurdo.

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8. Literatura Como Viveiro
de Princípios e de Valores

 Em todos os tempos, épocas ou fases de uma literatura, o respeito pela ética e


pelos valores que o sentir do tempo prescreve é uma das condições para que a
literatura não seja uma inutilidade, um simples passa-tempo ou então uma mera
perda de tempo.
 Sendo o escritor um educador, a sua escrita tem que ser, forçosamente, um viveiro
de princípios e de valores.
 Ora, o humanismo sem princípios nem valores degenera-se em animalismo.
 Ora, o escritor que é animal, mas também é racional, sujeito e destinatário do
humanismo, não pode fazer tábua rasa do código de princípios e de valores do seu
tempo, da sua sociedade.
 Assim sendo, a defesa de princípios e de valores deve constituir uma preocupação,
senão como tema de produção, pelo menos como prática na produção.

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9. Literatura: Expressão do Belo

 Uma escrita de costas viradas ao que é belo pode ser um relatório ou uma
exposição qualquer. Porém literatura não é.
 Na literatura, a palavra, o verbo e a sintaxe têm que ser trabalhados, têm que
fazer parte de uma escolha que privilegie a propriedade de linguagem, têm
que procurar a harmonia, o equilíbrio, a precisão, a pertinência, a sobriedade
de imagens e de descrição, a leveza na exposição e representação.
 Ora, são todos esses ingredientes que fazem da literatura uma obra de arte,
uma expressão do belo.
 Então, se a expressão do belo não é um tema, ela deve ser uma preocupação
de todos os temas, em todos os tempos e épocas de uma literatura.

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10. Conclusão: Os Grandes Temas
da Literatura em Cabo Verde

a) Na Fase Inicial, na 2ª metade do século XIX, tudo se encontra em gestação;


b) Na Fase Nativista, na década de vinte do século XX, a equiparação de igual estatuto
social entre os que residem na Metrópole e na colónia;
c) Na Fase Telurista, a partir da década de trinta do século XX, até a década de
sessenta, sobressaem os temas da fome, da seca, da emigração, numa ótica de
fincar os pés no chão das ilhas e numa atitude mais de constatação do que de
reivindicação;
d) Na Fase Nacionalista, da década de quarenta a setenta do século XX, os temas
estão ligados à reivindicação da Independência, do respeito pelos direitos humanos e
do desenvolvimento integral e integrado;
e) Na Fase Humanista, a partir da década de oitenta do século XX, os temas são
voltados para um humanismo sem fronteiras geográficas, sendo Cabo Verde a parte
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Ainda em Jeito de Conclusão

f) Note-se que nas diversas fases há temas que sobressaem, mas também há a coexistência, em
menor escala, de todos os temas que constituem o mosaico do universo literário em Cabo Verde.
g) Assim sendo, a literatura em Cabo Verde, em maior ou menor escala, em conformidade com o
sentir e os condicionalismos ambientais, sempre se preocupou com os flagelos internos e
planetários; com a qualidade do humanismo intra e extra muros; com o cântico de uma epopeia ou
o sofrimento de uma catástrofe social e/ou ambiental, onde quer se evidenciem; com a auto-
realização e com a participação cívica que a escrita possibilita.
h) Quanto à preocupação com o belo e com a qualidade, ela existe, mas a crítica literária para
separar o grão da palha continua a ser um deserto, em Cabo Verde. Aliás, a crítica, juntamente com
uma política consistente de nacionalização, de tradução, de promoção de talento, particularmente
na língua materna, e de reedição de clássicos, são, hoje, o elo mais fraco da política do livro e da
leitura em Cabo Verde.
O nosso voto é para que a Morabéza – Festa do Livro traga uma lufada de ar fresco à promoção do
livro e da leitura, em Cabo Verde.
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OBRIGADO

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