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CONCEPÇÕES FILOSÓFICAS

SOBRE O HOMEM: Prof. Marcelo José Caetano


A REFLEXÃO SOBRE O HOMEM

1. Desde os primórdios da cultura ocidental, a questão antropológica


fundamental – o que é o homem? – ocupa um lugar central nas
diversas expressões da cultural: o mito, a literatura, a filosofia, a
ciência, a ética e a política.
2. As ideias e imagens nas diversas expressões da cultura ocidental
evidenciaram a singularidade do ser que se interroga a si mesmo e
interiorizaram a relação sujeito/objeto através da qual o homem se
abre ao mundo exterior.
O ACONTECER HISTÓRICO

1. “O pensamento filosófico responde – em geral e desde os tempos mais


antigos – a uma aspiração fundamental do homem. É que o homem não está
rigidamente atado ao acontecer natural, mas deve enfrentar a realidade para
configurar sua vida de um modo autônomo e responsável. Daí se perguntar
pelo fundamento e sentido do mundo que vive” (CORETH, E. 1976).
a) O que é o homem?
b) De onde viemos?
c) O que estamos fazendo aqui?
d) Para onde vamos?
O APOLÍNEO E O DIONISÍACO

1. Na cultura arcaica grega observa-se a oposição entre o mundo dos deuses e o


mundo dos homens, ordem do universo (physis) e ordem da cidade (pólis).
2. A condição humana na imagem que o homem grego arcaico faz de si mesmo é
expressa na relação do homem com os deuses, na oposição entre a ordem e a
desordem, a tradição e o caos.
a) Apolo (Febo) significa beleza, elegância e harmonia. Na mitologia grega, Apolo é o
deus do Sol, da beleza, das artes, da poesia, da música, da profecia e do arco e
flecha. É irmão de Ártemis e um dos doze deuses olímpicos.
b) APOLO reflete o LADO LUMINOSO da visão grega do homem. É a PRESENÇA
ORDENADORA do LOGOS (razão) na vida humana, isto é, a claridade do pensar e
agir razoáveis.
c) Dionísio (Baco) é, tal como Apolo, filho de Zeus. É o deus da loucura e do caos, das
emoções e instintos. Deus do vinho e da festa. Em seus cultos valorizava-se a
experimentação dramática, a exacerbação dos sentidos, a vertigem e o excesso.
d) DIONÍSIO refere-se ao OBSCURO e ao TERRENO onde reinam as forças do
DESEJO e da PAIXÃO.

3. Segundo BENEDICT, 2013: P. 62 – 63), o ethos dionisíaco está relacionado ao


êxtase e ao excesso. Os valores perseguidos se relacionam à aniquilação dos
limites da existência. No ethos apolíneo, ao contrário, o êxtase e o acesso são
evitados. O dionisíaco se refere à individualidade e o apolíneo à preservação da
tradição.
A IDEIA DE HOMEM ENTRE OS PRÉ-
SOCRÁTICOS:

1. Grosso modo, identifica-se na filosofia pré-socrática a exaltação da


superioridade do homem sobre os outros animais. O homem é isto como
estrutura corporal-espiritual cuja natureza se manifesta na cultura através
de suas obras.
a) “O homem de Heráclito é uma parte do Kosmos. Contudo, quando se
torna consciente de que traz em si a lei eterna da vida se torna capaz
de participar da mais alta sabedoria, cujos decretos procedem da lei
divina.
A EXCELÊNCIA, O DESTINO E A
CONCEPÇÃO DE HOMEM

1. Do ponto de vista da vida social e política, a visão grega arcaica do


homem é marcada pela ideia de EXCELÊNCIA (areté).
a) Excelência guerreira;
b) Herói fundador da cidade;
c) Sophos (sábio).
2. A areté se vincula ao conceito de justiça (dikê) e o herói fundador
é celebrado como legislador. O ethos (lugar) da areté guerreira e
política se junta ao ethos laborioso do trabalho dos campos,
celebrado como escola da virtude – o guerreiro, o político e o
trabalhador.
3. As linhas que constituem a imagem grega arcaica do homem se
interseccionam e convergem no temeroso tema de moira, onde o
homem se vê submetido à inexorabilidade do destino.
A CONCEPÇÃO SOFISTA DE HOMEM

1. Os FILÓSOFOS SOFISTAS definem o homem como animal


racional e, em sua inflexão antropológica, o definem segundo a
OPOSIÇÃO entre CONVENÇÃO (nómos) e NATUREZA (physis).
2. O homem é um ser DOTADO de LOGOS, isto é, de palavra e de
discurso e, por isto, é CAPAZ DE DEMONSTRAR E
PERSUADIR.
3. Os sofistas concebem, ainda, um INDIVIDUALISMO
RELATIVISTA (formulações céticas sobre a verdade) e um
DESENVOLVIMENTO PROGRESSIVO DA CULTURA que
alimentará o pensamento antropológico ao longo de toda a sua
história:
4. O homem é um ser de necessidade e de carência e, em razão
disto, busca suprir com a cultura o que lhe foi negado pela
natureza.
A CONCEPÇÃO SOCRÁTICA DE HOMEM

1. Para Sócrates, o mundo humano só é explicado se for referido a um


princípio interior (alma), que para ele era a sede de uma areté
(virtude) capaz de medir o homem segundo uma dimensão interior. A
alma é a verdadeira essência do homem e é nela que se dá a
orientação da vida a partir do justo e do injusto.
CONCEPÇÃO PLATÔNICA

1. A antropologia platônica sintetiza a tradição pré-socrática do homem


com o kosmos, a tradição sofista do homem com ser de cultura e a
ideia socrática de homem interior e da alma.
2. O homem é um ser composto de corpo e alma, duas substâncias
que se encontram em oposição. O corpo é a prisão da alma.
3. Como o plano sensível é o mundo das aparências, a alma (que
habitou, antes de se tornar prisioneira do corpo, o mundo das ideias)
aspira regressar ao real, ou seja, plano inteligível, do qual procedeu.
A CONCEPÇÃO ARISTOTÉLICA

1. Aristóteles é considerado, com razão, um dos fundadores da antropologia


como ciência, pois foi o primeiro que sistematizou uma síntese científico-
filosófica na sua concepção de homem.
2. Traços da concepção antropológica aristotélica:
a) Estrutura biopsíquica do homem – teoria da psyché: o homem é um ser composto
de ALMA (psyché) e CORPO (soma). A psyché é a perfeição ou o ato do corpo
organizado e sua definição.
b) O homem é ZOON LOGIKON - o ser humano pertence, pela sua essência, ao âmbito
da physis, mas se distingue de todos os outros seres da natureza em virtude de sua
racionalidade – é um animal racional.
c) O homem é um ser ético-político – o homem, em sua expressão acabada, é
essencialmente destinado à vida na pólis e somente aí se realiza como ser racional.
Ele é ZOON POLIKÓN (animal político).
d) O homem é um ser de PAIXÃO e DESEJO – paixão e desejo intervêm
decisivamente tanto nas práxis ética e política, como na poíesis (poética),
fundamentando o que é o homem.
A CONCEPÇÃO BÍBLICA DO HOMEM

1. A visão bíblico-cristão de homem é fundamentada na tradição bíblica e


postula uma unidade radical do ser do homem, garantida pelo fato de ser
criação de Deus e de ser por ele chamado à escuta e prática de sua
Palavra. Nela, o homem é visto como
a) CARNE (basar) na medida em que se revela a fragilidade de sua
existência;
b) ALMA (nefesh) na medida em que a fragilidade é compensada pelo vigor
da sua vitalidade;
c) ESPÍRITO (ruah), ou seja, manifestação superior de vida e do
conhecimento, pela qual o homem pode entrar em relação com Deus e,
finalmente,
d) CORAÇÃO (leb), isto é, o interior profundo do homem, onde tem sede
afetos e paixões, onde se enraízam inteligência e vontade e onde têm
lugar o pecado e a conversão a Deus.
A CONCEPÇÃO AGOSTINIANA DE HOMEM

1. A VISÃO AGOSTINIANA do homem define o homem


como ser uno, isto é, como EPISÓDIO CULMINANTE DA
CRIAÇÃO de todo universo.
2. Ele é a ENCARNAÇÃO DO VERBO, resultado da palavra
criadora de Deus. Além disto, é UM SER ITINERANTE,
ou seja, transita ao longo de duas linhas distintas, mas
dialeticamente relacionadas, o itinerário da MENTE e o
itinerário da VONTADE.
3. A mente e a vontade, ou seja, a condição de ser itinerante,
faz com que o homem se encaminhe conforme a direção
do amor que o move, isto é, Deus – SER-PARA-DEUS
/CIDADE DOS HOMENS – CIDADE DE DEUS.
A CONCEPÇÃO NA ERA MODERNA

1. A época que ficou conhecida com o nome de RENASCENÇA (século XIV ao


século XVI) foi assinalada por transformações de toda ordem na Europa
ocidental, dando origem a uma civilização brilhante, com traços que definem
nitidamente sua originalidade com relação à civilização medieval que a
precedeu.
2. O homem na antropologia renascentista:
a) Homo universalis – emerge das profundas transformações do mundo
ocidental que provoca uma dilatação dos horizontes estreitos da cristandade
geograficamente (ciclo das descobertas) e humanamente (encontro com
novas culturas e civilizações).
b) Prolongamento e ampliação da tradição do zóon poliktikon aristotélico,
dando-lhe um novo conteúdo, pois nela o esquema mecanicista se
estenderá à explicação da vida e do homem.
c) O corpo humano, segundo a tradição cartesiana, é integrado ao conjunto
dos artefatos e das máquinas e só a presença do “espírito”, manifestando-se
sobretudo na linguagem, separa o homem do animal-máquina.
3. Descartes concebe o homem pelo cogito, ou seja, o “eu penso”. A concepção
cartesiana inaugura um novo dualismo antropológico (distinção entre o
REFERÊNCIAS

1. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires.


Filosofando Introdução à filosofia. 2.ed. (rev. e ampl.), São Paulo: Moderna,
1993. p. 134.
2. BUZZI, Archangelo R. Filosofia para principiantes (a existência humana no
mundo). Petrópolis: Vozes, 1991.
3. CARVALHO, Luis Carlos Ludovikus Moreira de. Ética e cidadania. In:
http://www.almg.gov.br/educacao/sobre_escola/banco_conhecimento/index.
html, acesso em 30 de setembro de 2011.
4. CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica. São Paulo: Mestre Jou, 1976.
5. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
6. CORETH, E. Que es el hombre?; Esquema de uma antropologia filosófica.
Barcelona: Herder, 1976.
7. LARAIA, Roque de Barros. Cultura; um conceito antropológico. 11.ed., Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 54-59.
8. MATOS, Olgária. A escola de Frankfurt (luzes e sombras do iluminismo).
São Paulo, Ática, 1993.
9. MONDIM, Batista. O homem, quem é ele? São Paulo: Paulus, 1980.