Você está na página 1de 16

António Monteiro Fernandes 1

«SERVIÇOS MÍNIMOS»
DURANTE A GREVE

FACULDADE DE DIREITO
DIREITO DO TRABALHO II
António Monteiro Fernandes 2

Os princípios (1)
• A universalidade do direito de greve

Nenhum grupo profissional (excepto


militares e forças de segurança) pode
ser absolutamente privado desse
direito, mesmo que entre em confronto
com interesses e necessidades
colectivas essenciais.
António Monteiro Fernandes 3

Os princípios (2)
• A compatibilização de direitos e interesses

O reconhecimento da greve como


“direito fundamental” implica a
exigência de equilíbrio
(compatibilização recíproca) do direito
de greve com os direitos e interesses
fundamentais de pessoas que não
estão envolvidas no seu exercício, de
modo que nem uns nem outros sejam
destruídos.
António Monteiro Fernandes 4

Os princípios (3)
• A compressão dos direitos em confronto

Limitação do exercício do
direito de greve
Compatibilização +
Limitação do exercício de
direitos fundamentais dos
cidadãos
António Monteiro Fernandes 5

Os princípios (4)

• Os trabalhadores obrigados a
prestar os “serviços mínimos”
Serviços são trabalhadores em greve
mínimos que exercem o seu direito de
modo atípico – cumprindo uma
☛ obrigação legal que recai
obrigação sobre o colectivo em conflito
(“os trabalhadores e os
legal sindicatos...”, diz a lei) … e
também sobre o empregador.
António Monteiro Fernandes 6

Causas da relevância do tema

O direito de greve tornou-se «sagrado» e «intocável», o que se


explica, talvez, pela sua negação e repressão durante décadas.

A imposição dos serviços mínimos é percepcionada como


uma privação do direito de greve

O exercício da greve está cada vez mais concentrado nos


“serviços públicos”, nas organizações que têm a seu cargo
prestações de interesse geral.

A greve é pensada, não propriamente como recusa de trabalho (ao


empregador), mas como recusa de prestações à colectividade,
esperando-se que esta pressione o empregador.
António Monteiro Fernandes 7

Os SM antes da revisão constitucional de 1997

Um suporte constitucional implícito: a


necessidade de resolver a colisão de
direitos fundamentais (com ressalva do
conteúdo essencial de cada um deles).

✺ Omissão constitucional
✺ Inexistência de definição legal da
competência para a determinação
Mas… de serviços mínimos.
✺ A tese da «autogestão» dos
serviços mínimos.
António Monteiro Fernandes 8

Os SM na Constituição (revisão de 1997)

Artigo 57.º
(Direito à greve e proibição do lock-out)
• 1. (…).
• 2. (.).
• 3. A lei define as condições de prestação,
durante a greve, de serviços necessários à
segurança e manutenção de equipamentos e
instalações, bem como de serviços mínimos
indispensáveis para ocorrer à satisfação de
necessidades sociais impreteríveis.
• 4. (…).
António Monteiro Fernandes 9

A “constitucionalização” dos serviços


mínimos

Habilitação do legislador ordinário para regular, em seu


critério, a matéria.

E que mais?
António Monteiro Fernandes 10

As “necessidades sociais impreteríveis”


• Recorde-se: os SM eram uma noção implícita no direito de greve,
como meio de compatibilização com os outros direitos
fundamentais (a sua definição tinha que ser feita perante o “catálogo”
constitucional; se não fosse possível identificar, nesse catálogo,
nenhum direito comprimido ou negado pela greve, não haveria
lugar para SM).

• ►Agora, a CRP adopta, a noção difusa de “necessidades


sociais impreteríveis”.

• São invocáveis outras necessidades sociais inadiáveis, não


cobertas por específicos direitos fundamentais
António Monteiro Fernandes 11

Trabalhar em greve…

Serviços a prestar durante


uma greve (art. 537):

“serviços mínimos indispensáveis


à satisfação de necessidades
sociais impreteríveis”

(todos os) “serviços necessários


à segurança e manutenção de
equipamentos e instalações”
António Monteiro Fernandes 12

A concretização

Regras sobre
Enumeração constituição e
Meios/processos funcionamento
exemplificativa de
para definição dos
empresas/sectores
SM em concreto de tribunais
onde pode haver arbitrais)(DL
(art. 538)
necessidade de SM 259/2009, de
25/9)
António Monteiro Fernandes 13

Que necessidades?

• Necessidades não específicas de certas


A questão pessoas ou grupos, mas da generalidade
dos membros da comunidade
chave: • Necessidades inerentes à viabilidade da
identificação vida em comunidade
• Necessidades inerentes à conservação da
das vida e da integridade física e psíquica das
necessidades pessoas
• Necessidades que ou são satisfeitas no
sociais momento abrangido pela greve ou ficam
impreteríveis insatisfeitas (são inadiáveis ou
“impreteríveis”)
António Monteiro Fernandes 14

Serviços “indispensáveis”?
O nível de satisfação das necessidades
(mínimo? razoável? máximo?)

A indispensabilidade dos SM
• actividades automatizadas;
• a suficiência dos não aderentes;
• a disponibilidade de meios alternativos suficientes

A necessidade de contextualizar cada greve


e relativizar os SM.
António Monteiro Fernandes 15

A situação jurídica dos trabalhadores e do


empregador
Trabalhadores aderentes à greve,
com os seus contratos suspensos,
que participam no cumprimento de
uma obrigação legalmente imposta
(não trabalhadores “reconduzidos”
ao cumprimento do contrato de
trabalho).

A intervenção do
empregador e da
O “direito à hierarquia da empresa e a
retribuição” :SM não suspensão dos “deveres
são trabalho forçado de subordinação” (“na
e gratuito. estrita medida necessária
a essa prestação…”).
António Monteiro Fernandes 16

O incumprimento dos SM

• Fundamento de requisição ou mobilização (art.


541/3).
• Crime de desobediência (art. 348 Cód. Penal)?:
1 - Quem faltar à obediência devida a ordem ou a mandado
legítimos, regularmente comunicados e emanados de autoridade
ou funcionário competente, é punido (…) se:
a) Uma disposição legal cominar, no caso, a punição da
desobediência simples; ou
b) Na ausência de disposição legal, a autoridade ou o funcionário
fizerem a correspondente cominação.
2 – (…).
• Responsabilidade civil?