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Gerontopsicologia

Aspectos biológicos
e psicológicos no envelhecer

Curso EFA – Agente em Geriatria

Tânia Carvalho Monção, 11 de Novembro de 2010


 Enunciar a importância da Gerontopsicologia
no reconhecimento dos problemas que se
colocam à pessoa idosa.

 Reconhecer a importância da sexualidade na


velhice.
 Gerontologia

- Aspectos biológicos e psicológicos no


envelhecer:
 Emoções e velhice
 Motivação
 Personalidade: tipologias

-Tarefas evolutivas da velhice


 Ajustamentos psicossociais da velhice
 Fase final da vida/reflexão sobre a morte e o luto
- Aspectos cognitivos do envelhecimento

 Velhice e Aprendizagem

Avaliação das funções cognitivas

Modificações nas funções cognitivas


• inteligência, memória e aprendizagem
• resolução de problemas e criatividade
A sexualidade na velhice

- Factores que influenciam a mudança de


comportamento sexual na velhice
 Crise da menopausa

- Sexualidade depois dos 60 anos

- Amor e sexualidade na pessoa idosa


O que é envelhecer?
“Estuda as mudanças que acompanham o
processo de envelhecimento do ponto de vista
físico, psicológico e sociológico, preocupando-se
também com a adaptação do individuo às várias
transformações que vão ocorrendo com a idade,
as implicações da personalidade e da saúde
mental nesse processo.” (Zimerman, 2000 p. 15)
Vs
Geriatria
Estudo da prevenção e tratamento das doenças
associadas à velhice.
1 - Conceito de Envelhecimento (não reúne consenso – Dias,
2005)

Para Tomaz, Melo, Pinheiro e Costa (2002) a velhice é:


“O processo normal de envelhecimento do ser
humano implica uma série de alterações de ordem
fisiológica, biológica, psicológica e social. Essas
transformações vão-se acumulando durante toda a
trajectória de vida, de tal forma que o indivíduo na
Terceira Idade apresenta especificidades e
características que o distinguem das pessoas de
outros escalões etários”
1.1. Conceito Biológico de Envelhecimento

De acordo com Teixeira (1999) a perspectiva biológica do


envelhecimento reúne o seu ponto consensual na chamada
teoria do declínio.
Segundo esta teoria, o envelhecimento é caracterizado por uma
lentidão que abrange diferentes domínios do comportamento.
Na origem desta lentidão está o declínio de um conjunto de
funções orgânicas (como por exemplo a diminuição da
capacidade de regeneração das células e consequente
envelhecimento dos tecidos).

Estas alterações estão ligadas a factores determinantes como a


idade, o sexo, a capacidade cognitiva e física de cada indivíduo
(Berg, 1980; Bowles e Poon, 1981, entre outros cited in Teixeira,
1999). Ou seja, o processo de deterioração das capacidades e
aptidões manifesta-se de forma diferenciada de indivíduo para
indivíduo.
Barreto (2005):

envelhecimento primário é um processo pessoal,


natural, gradual que se caracteriza por uma diminuição
das “aptidões e capacidades, tanto físicas como mentais”,
o qual se encontra relacionado com o código genético de
cada um. (Barreto, 2005 p.291)

envelhecimento secundário é um processo


“patológico”, as alterações físicas e/ou mentais ocorrem
de forma imprevisível e as causas são diversas
(determinadas doenças ou lesões, fortemente
relacionadas com alterações ambientais), sendo as suas
manifestações vivenciadas de forma distinta pelo ser
humano. (Barreto, 2005 p.291)
Morte
Senilidade

Declínio

Fase Adulta

Juventude

Nascimento
Vida Embrionária

Zigoto

Biograma de Henri Prat (periodização da vida humana, da fecundação à morte). Adaptado de Lessa,
(1990), cited in Teixeira (2002). A senilidade é descrita por Barreto (2005) como sendo “um estado
de extrema fragilidade física e mental, ocorrendo frequentemente em fases terminais”.
 bochechas se enrugam;
 aparecem manchas escuras na pele, perda da
tonicidade tornando-se flácida;
 podem surgir verrugas;
 o nariz alarga-se;
 os olhos ficam mais húmidos;
 aumento da quantidade de pelos nas orelhas e nariz;
 ombros ficam mais arredondados;
 as veias destacam-se sob a pele dos membros;
 encurvamento postural devido a modificações na
coluna vertebral;
 diminuição da estatura pelo desgaste das vértebras.

(Zimerman, 2000)
 ossos endurecem;
 órgãos internos atrofiam, reduzindo o seu
funcionamento;
 cérebro perde neurónios e atrofia-se, tornando-se
menos eficiente;
 metabolismo fica mais lento;
 digestão é mais difícil;
 insónia aumenta, assim como a fadiga;
 visão de perto piora;
 audição piora;
 endurecimento das artérias e seu entupimento
provocam arteriosclerose;
 olfacto e paladar diminuem.
(Zimerman, 2000)
 Surgimento de cataratas;
 Diminuição nas sensibilidades visuais, auditivas,
térmicas e dolorosas;
 Diminuição na intensidade do reflexo;
 Modificações do apetite sexual;
 Diabetes;
 Hipertensão arterial;
 Arteriosclerose;
 Bronquite;
 Insuficiência renal aguda;
 Deformações torácicas;
 Reumatismo;
 Aparecimento de cancro nos mais variados órgãos.
1.2 - Conceito Psicológico de Envelhecimento

O processo de envelhecimento envolve alterações ao


nível dos processos mentais, da personalidade, das
motivações, das aptidões sociais e aos contextos
biográficos do sujeito (Oliveira, 2005).

Quer isto dizer que o envelhecimento, do ponto de vista


psicológico, vai depender de factores de ordem genética,
patológica (doenças e/ou lesões), de potencialidades
individuais (processamento de informação, memoria,
desempenho cognitivo, entre outras), com interferência do
meio ambiente e do contexto sociocultural . Segundo esta
perspectiva, é necessário perceber a importância das formas
de compensação, que cada um de nós utiliza/prepara para
fazer face às perdas associadas ao envelhecimento, pois estas
vão influenciar significativamente a qualidade de vida e o bem-
estar psicológico do idoso. (Sequeira, 2007)
 Dificuldade de se adaptar a novos papéis;

 Falta de motivação e dificuldade de planear o futuro;

 Necessidade de trabalhar perdas orgânicas, afectivas e


sociais;

 Dificuldade de se adaptar às mudanças rápidas;

 Baixa auto-estima e auto-conceito;

 Sinais de patologia.

(Zimerman, 2000)
1.2.1. Envelhecimento e o Contexto Social

O fenómeno do envelhecimento da população é um


processo complexo e mutável, claramente determinado por
uma determinada época e sociedade (Dias, 2005).
As dificuldades que o idoso enfrenta e a forma como
envelhece, com maior ou menor valorização, deve-se em
muito ao estatuto que determinada sociedade lhe confere.

Se em tempos mas longínquos o velho era considerado


como um arquivo de saberes e experiencias cuja
transmissão era imprescindível para a sobrevivência da
comunidade, hoje, passamos a questionar o sentido, os
custos deste aumento da longevidade (Barreto, 2005).
O envelhecimento social está de um modo geral
associado a alterações no status do indivíduo. Existe uma
transição da categoria de activo à de reformado (65 anos),
esta desocupação de papéis sociais é percepcionada como
uma perda de utilidade e poder social. Com a ausência de
um horário laboral, o indivíduo tem que se adequar a novos
papéis o que nem sempre é um processo fácil (Sousa,
Figueiredo e Cerqueira, 2004).

É com esta mudança que alguns projectos de vida ficam


comprometidos. Existem idosos que apresentam
dificuldades neste processo de adaptação e que iniciam
um ciclo de perdas diversas que vão desde a condição
económica ao poder de decisão, à perda de parentes e
amigos, da independência e da autonomia; de contactos
sociais, da auto-estima, à perda da sua identidade (Zimerman,
2000).
Família Sociedade

Relega actividades Por não


Acolhe secundárias A cultura, a politica, a produzir perde
situação económica valor
Não se adapta e tornam o idoso num
afasta-se problema
Considera
importante mas
não incluí

Vê o idoso Não valoriza, despreza


como um peso e rejeita

Não valoriza a
Não considera a
sabedoria do
sua contribuição
Institucionalização idoso

Influencia negativa na
qualidade de vida do
idoso
Síntese:

 Nem todos percepcionamos e vivemos a velhice como a


sequência de vários acontecimentos perturbadores inevitáveis.
Esta nova etapa da vida do indivíduo deve ser vivida com
condições físicas e económicas e com uma vida social activa
(Barreto, 2005).

 Se estas alterações, por um lado, representam o afastamento


do circuito de produção, por outro, proporcionam o direito a um
repouso remunerado (Tomaz, Melo, Pinheiro e Costa, 2002).

 A velhice é um processo natural, indiscutível e inevitável.


Independentemente das perspectivas explicativas, nesta fase
ocorrem mudanças biológicas, fisiológicas, psicossociais,
económicas e políticas de forma diferenciada de indivíduo para
indivíduo. Contudo, o bem-estar do idoso é influenciado por
múltiplos factores internos e externos, que vão contribuir para uma
melhor ou pior adaptação a estas transformações (Barreto, 2005).
Segundo Lelord e Christophe (2002, p.19)

“a emoção é uma reacção súbita de todo


o nosso organismo, com componentes
fisiológicas, cognitivas e
comportamentais” que permite ao
sujeito se libertar das suas tensões.
Emoções de Fundo
São detectadas através de pormenores como a velocidade
dos movimentos ou até a contracção dos músculos faciais,
pois comporta interferências de incitadores internos. Estas
podem ser relatadas como o entusiasmo, tensão, calma,
bem-estar e mal-estar

Emoções Primárias
São universais e estão associadas a estados físicos. Podem ser
relatadas como a alegria, tristeza, felicidade, medo, cólera,
surpresa, raiva e repugnância.

Emoções Sociais
Emergem devido à relação socio-cultural e podem manifestar-
se como a simpatia, compaixão, embaraço, vergonha, culpa,
orgulho, inveja, ciúme, admiração e desprezo. (Damásio, 2003)
Incontinência emocional: caracterizada em
produzir intensas reacções afectivas e uma
incapacidade para controlá-las,

Labilidade afectiva: que nada mais é do que a


mudança rápida de emoções. As paixões
reprimidas ao longo da vida, não encontram na
velhice energia e produzem tristeza com suas
frustrações, angústias e rancores.
 Raiva;

 Mágoa;

 Ressentimento;

 Angústia;

 Ansiedade;

 Tristeza
- Redução da tolerância a estímulos;

- Vulnerabilidade à ansiedade e depressão;

- Acentuação de traços obsessivos;

- Sintomas hipocondríacos, depreciativos ou de


passividade;

- Conservadorismo de carácter e de ideias


(rigidez mental)
- Atitude hostil diante do novo;

- Diminuição da vontade, das aspirações, da


iniciativa;

- Estreitamento da afectividade.

É frequente que os idosos associem à idade


avançada a melancolia e a tristeza devido a
perdas afectivas, económicas, sociais e
doenças crónicas.
“É a força propulsora (desejo) por trás de
todas as acções de um organismo.
Motivação é o processo responsável pela
intensidade, direcção, e persistência dos
esforços de uma pessoa para o alcance
de uma determinada meta.” (Dicionário de Psicologia,
1987)
MOTIVAÇÃO

Alguma coisa que faz uma pessoa agir;

Processo de estimular uma pessoa agir;

Processos que instigam um comportamento;

Processos que fornecem direcção e propósito ao


comportamento;

Processos que permitem a persistência do


comportamento;

Processos que conduzem às escolhas ou preferências


de um determinado comportamento. (ASSIS;NAHAS, 1999:34)
Envelhecimento bem
sucedido:

Satisfação de vida;

Felicidade; Ou :

Concretização de Depressão;
objectivos; Ansiedade;
Boa qualidade de vida Isolamento Social
Freire (2000), apresenta um modelo teórico com
seis dimensões do funcionamento positivo para
explicar o bem-estar:

1) Auto-aceitação: implica em uma atitude


positiva do indivíduo em relação a si próprio e a
seu passado; implica reconhecer e aceitar
diversos aspectos de si mesmo, características
boas e más.
2) Relações positivas com os outros: envolve
ter uma relação de qualidade com os outros, ou
seja, uma relação satisfatória e verdadeira;
preocupar-se com o bem estar alheio; ser capaz
de relações empáticas, afectuosas .
3) Autonomia: significa ser autodeterminado e
independente; ter habilidade para resistir às pressões
sociais para pensar e agir de determinada maneira;
avaliar-se com base em seus próprios padrões.

4) Domínio sobre o ambiente: aproveitar as


oportunidades que surgem à sua volta; ser hábil para
escolher ou criar contextos apropriados às suas
necessidades e valores.

5) Propósito na vida: implica ter metas na vida e um


sentido de direcção; o indivíduo percebe que há sentido
em sua vida presente e passada; possui crenças que
dão propósitos à vida; acredita que a vida tem um
propósito e é significativa.
6) Crescimento pessoal: o indivíduo tem um senso
de crescimento contínuo e de desenvolvimento
como pessoa; está aberto a novas experiências; tem
um senso de realização de seu potencial, e suas
mudanças reflectem autoconhecimento e eficácia.

O bem-estar psicológico, segundo Diener e Suh


(1997), reflectirá em uma avaliação que o idoso faz
de sua vida que foi influenciada por valores
pessoais, padrões sociais e aspectos históricos que
possuem componentes cognitivos (saúde, relações
sociais e espiritualidade) e afectivos (afectos
positivos, felicidade e alegria, e afectos negativos,
tristeza, infelicidade).
Rowe e Kahn sugerem três acções que influenciam
e melhoram a qualidade de vida:

“como fazer o melhor dos últimos anos!”


1. Evitar as doenças e as incapacidades
(alimentação, não fumar)

2. Manter activas as funções físicas e cognitivas


(exercício físico, ler, fazer palavras cruzadas)

3. Estar envolvido com a vida e viver (relacionar-


se com os outros, contribuir com algo de
valor).
Depressão
Muitos autores consideram as depressões na velhice como
atípicas, podem ser caracterizadas pela falta de
episódios de tristeza, claramente distintos, mostrando-se
o doente apático, com queixas subjectivas de
comprometimento cognitivo, ansiedade proeminente,
somatização e excesso de preocupação com o corpo.
SIMÕES (1996) afirma que, no idoso, os sintomas iniciais do
quadro depressivo são relativamente inespecíficos, tais
como a debilidade, perturbações de sono, tristeza e
ansiedade, desinteresse por hábitos e/ou prazeres
habituais. Os sintomas mais específicos são os que
decorrem da depressão do humor, bem como a lentidão
psicomotora.
SINTOMAS
Humor depressivo e/ou uma diminuição clara do interesse
ou prazer em quase todas as actividades durante a maior
parte do dia;

 Perda (sem dieta) ou ganho de peso, diminuição ou


aumento de apetite, insónia ou hipersónia, agitação ou
lentidão psicomotora, fadiga ou perda de energia;

Sentimento de desvalorização ou culpa excessiva ou


inapropriada;

Menor capacidade de pensamento ou concentração,


ou indecisão;

Pensamentos recorrentes sobre a morte, ideação


suicida recorrente, tentativa de suicídio ou a existência
de um plano específico para cometer suicídio;
Sintomas Psíquicos: nervosismo, irritabilidade e
agressividade.

Sintomas Físicos: tremor de extremidade,


dificuldade para se expressar e descontrolo motor.

Sistema Cardiovascular: taquicardia, arritmia


cardíaca, suor na mãos, dor no peito, hipertensão e
tontura.
Sistema Respiratório: falta de ar, tontura, tosses,
engasgo, gaguez e soluço.

Sistema Génito-urinário: aumento da frequência


e quantidade de urina e problemas sexuais.
Personalidade:

“Este termo exprime a totalidade de um ser, tal como


aparece aos outros e a si próprio, na sua unidade,
na sua singularidade e na sua continuidade. Cada
um possui uma personalidade, que resulta, ao
mesmo tempo, do seu temperamento, da sua
constituição e das múltiplas marcas deixadas pela
sua história individual.” (Dicionário de Psicologia, 1987)
Kaplan et al. definem a personalidade como a
totalidade de traços emocionais e comportamentais
que caracterizam o indivíduo nas situações de vida
do dia-a-dia, sob condições normais, sendo
relativamente estável e previsível.
GRUPO TIPO CARACTERÍSTICAS

Construtivo Bem integrado, respeitado, estável, que


desfruta daquilo que a vida lhe proporciona
Adaptaram-se ao
envelhecimento Dependente É passivo, satisfeito, enfim pode descansar

Defensivo Activo, rígido, disciplinado, dedica-se a


muitas actividades
Colérico Culpa o mundo e as pessoas pelos seus
insucessos pessoais, pouca ambição quanto
ao futuro, vida social instável e padrões
económicos precários, luta contra
manifestações
Não se do envelhecimento
adaptaram ao
envelhecimento Pessimista Sem história de vida, não gosta de si, é
deprimido, isolado e geralmente exagera
sua falta de capacitação física e
psicológica, fazendo-se de vítima, a morte
como a sua libertação desta existência
insatisfatória
Estudos de Havighurst, Neugarten & Tobin (1968): primeiros
dados sobre a personalidade nos idosos. Estes autores
descobriram 4 grandes tipos de personalidade presentes em
indivíduos entre os 50 e os 90 anos.

Integrado: pessoas apresentando um bom funcionamento


psicológico geral, com uma “vida cheia”, interesses variados,
com as suas competências cognitivas intactas e retirando um
elevado nível de satisfação dos papéis desempenhados;

Defensivo-combativo: pessoas orientadas para a realização,


lutadoras e controladas, experimentando níveis de satisfação
entre o moderado e o elevado;
Passivo-dependente: dependendo do tipo de funcionamento
ao longo da vida, assim estas pessoas apresentam na velhice
uma orientação passiva ou dependente, mostrando graus de
satisfação muito variados;

Desintegrado: pessoas com lacunas no funcionamento


psicológico, pouca actividade, controlo pobre de emoções e
deterioração dos processos cognitivos, com baixa satisfação de
vida.

Para estes autores, as pessoas diferem muito na forma como


vivem os últimos anos das suas vidas, acabando a sua
personalidade por ser influenciada e modelada por factores em
linha com aquilo que sempre foram as reacções e os
comportamentos ao longo da vida.
Jung (1933)

Segundo Jung, a personalidade organiza-se em


redor de 2 orientações fundamentais:
extroversão/introversão
Extroversão: atitude para com o mundo
exterior
Introversão: atitude para com o mundo
interior e para com as experiências mentais
subjectivas

Estas duas orientações equilibram-se para permitir


que o indivíduo integre as limitações do ambiente e
os desejos e fantasmas do seu inconsciente.
De acordo com tendências que determinam a
evolução do indivíduo no decorrer da vida adulta:

Extroversão-introversão: produzir-se-ia uma


inversão por altura do meio da vida, que
conduziria o indivíduo a um novo equilíbrio.

Na juventude: haveria a predominância da


extroversão (traduzida pela necessidade de
afirmação do eu e de realização pessoal e
profissional

Na 2ª metade da vida: haveria um forte


aumento da introversão; a pessoa volta-se para a
análise dos seus sentimentos pessoais, para o
balanço da vida e para a tomada de consciência do
seu encontro inelutável com a morte.
As primeiras pesquisas mostraram que a personalidade se
tornava mais rígida com o envelhecimento e que se
desenvolvia muito pouco na velhice. Estudos posteriores,
surgidos a partir da década de 70, sugeriram que ocorreria
uma estabilidade dos traços de personalidade ao longo da
vida adulta e da velhice. Desta forma, a personalidade não
se tornaria mais rígida, mas permaneceria da mesma forma
que sempre fora desde a vida adulta.

Segundo Hétu (1988), a personalidade construída pelo


indivíduo durante a infância e juventude é o melhor factor
de predição da adaptação à velhice. Ela representa o eu, a
personalidade, ou o ego que, ao longo de toda a sua vida,
será o integrador dos seus comportamentos.
As características de personalidade podem tanto
contribuir para a manutenção da saúde e o bem-
estar subjectivo na velhice quanto influenciar o
desencadeamento de sintomas depressivos em
idosos.

Os idosos com características de personalidade


mais voltadas para si próprias, menos
interactivas e pouco dominantes, apresentaram
menos sintomas de depressão em relação
àquelas que são mais voltadas e interessadas no
outro, mais deferentes, organizadas, persistentes
e interactivas
Tarefas de desenvolvimento – são aquelas que a
pessoa deve cumprir para garantir o seu
desenvolvimento e consequente ajustamento
psicológico e social.

São tarefas com as quais as pessoas satisfazem as suas


necessidades pessoais e garantem o desenvolvimento
e manutenção de padrões sociais e culturais. Desta
forma dão sustentação ao progresso social e cultural e
em consequência ao bem-estar do indivíduo.

- Prioridades / Investimento pessoal


- Expectativas quanto ao futuro/ realizações e metas
As tarefas não são estanques em
cada etapa, embora algumas
sejam preferencialmente típicas
de uma determinada fase. Em
cada fase todas se relacionam
entre si e o prejuízo numa das
tarefas pode comprometer o
desenvolvimento futuro dessa
tarefa ou de outras.
As tarefas são básicas em cada sequência do ciclo de vida;

Há uma expectativa social de que as pessoas em cada


sequência cumpram com êxito as suas tarefas;

Na última parte do ciclo também a pessoa idosa tem


tarefas de desenvolvimento a cumprir, de modo a ser feliz
e a ter qualidade na sua vida.
Encontram-se dois conceitos:
a) geratividade como tarefa evolutiva de adultos;
b) integridade do ego como tarefa evolutiva específica
de idosos.

Geratividade significa contribuir para gerações futuras


por meio da produção não só de aspectos materiais,
mas também do cuidado e da manutenção de outros
seres.
Integridade do ego é a adaptação a triunfos e desilusões
inerentes à condição de criador de outros seres
humanos e gerador de produtos e ideias. É ter, em
suma, dignidade, sabedoria, aceitação do modo de
vida, senso de completude e unidade.
Assim, como o indivíduo, a família
passa por estágios de
desenvolvimento, conduzindo ao
crescimento e à transição para um
novo nível necessário e importante
no ciclo vital:

 Formação do Casal
 Família com filhos Pequenos;
 Família com Filhos na Escola;
 Família com Filhos Adolescentes
 Família com Filhos Adultos
Infância

Tarefa Básica:

Dominar a leitura e a escrita

Servirá de instrumento para a sua independência,


para uma comunicação mais ampla e efectiva, que
posteriormente facilitarão as escolhas de formação e
profissionalização, entre outras possibilidades.

Adolescência

Tarefa Básica:

Formação Pessoal, Emancipação

Relacionam-se com a fase anterior e prolongam-se para o


período subsequente.
Permite à autonomia e independência
Adulto

Tarefa Básica:

Responsabilidades cívicas e sociais;


Estabelecer e manter um padrão económico de vida;
Ajudar os filhos a serem futuros adultos responsáveis e felizes;
Desenvolver actividades de lazer;
Relacionamento com o(a) esposo(a)
Aceitar e ajustar-se às mudanças físicas da meia-idade e ajustar-se aos pais
idosos.

Velhice

Tarefas Básicas:
Ajustar-se ao decréscimo da força e saúde;
Ajustar-se à reforma;
Ajustar-se à morte do(a) esposo(a)
Estabelecer filiação a um grupo de pessoas idosas;
Manter obrigações sociais e cívicas assim como investir no exercício físico
satisfatórios para viver bem a VELHICE.
As tarefas evolutivas da velhice são formas de
organização da vida que possibilitam até a aceitação
da morte (Fitch, 1985). Um ambiente agressivo,
assuntos familiares não resolvidos, ausência de
cuidadores adequados podem dificultar este processo.

Cumprir todas as tarefas é importante, como é


importante também que o idosos conte com o apoio da
família, da sociedade e dos profissionais que actuam
na área. Dessa forma, ele poderá ter uma velhice bem
sucedida e usufruir do prazer de ser e de viver,
contribuindo para o bem de todos…
Durante o envelhecimento, os principais factores de
influência da sociedade sobre o indivíduo são:

 a resposta social ao declínio biológico,


 o afastamento do trabalho,
 a mudança da identidade social,
 a desvalorização social da velhice e
 a falta de definição sociocultural de actividades em
que o idoso possa perceber-se útil e alcançar
reconhecimento social.

A vida do idoso é, portanto, dominada por um alto nível


de stress, devido às expectativas e obrigações
formalizadas.
Erikson
 Estágio de Integridade versus Desespero e
Isolamento (mais de 65 anos):

Nessa fase existe o conflito entre a integridade, o senso


de satisfação que se tem ao refletir sobre uma vida
produtiva, e o desespero no sentimento de que a vida
teve pouca finalidade ou significado. A integridade
permite uma aceitação do próprio lugar no ciclo vital e
o reconhecimento de que somos responsáveis por
nossas vidas. Com a não aceitação, predomina o medo
da morte e um sentimento de desespero e angústia.
 Manutenção da Auto-Estima:

As pessoas idosas devem lidar com feridas narcisistas, à


medida que tentam adaptar-se às perdas biológicas,
psicológicas e sociais. A auto-estima e a auto-suficiência
estão sob risco constante. Para manter a auto-estima são
importantes: (1) segurança económica; (2) pessoas
cuidadoras; (3) saúde psicológica; e (4) saúde física.

Do fracasso na tentativa de manutenção da auto-estima


podem surgir tensão, ansiedade, frustração, raiva e
depressão.
 aceitação do corpo que envelhece;

 aceitação da limitação do tempo e da morte


pessoal;

 manutenção da intimidade;

 relacionamentos com os filhos: deixar ir, atingir


igualdade, integrar novos membros;

 relação com seus pais: inversão de papéis, morte e


individuação;
 o afastamento do trabalho;

 a mudança da identidade social;

 a desvalorização social da velhice;

 a falta de definição sociocultural de actividades em


que o idoso possa perceber-se útil e alcançar
reconhecimento social;

 preparação para a morte.


 Manter a saúde física com a prevenção das doenças
degenerativas;

 Independência económica;

 Ter seu próprio espaço físico ou moradia;

 Ter laços de amizade e vínculos fortes com a


família;

 Manter um relacionamento íntimo com um(a)


companheiro(a);
 Ter um vínculo com a comunidade;

 Manter-se sempre ocupado e com planos para o


futuro;

 Se possível, manter um vínculo com seu antigo


trabalho ou profissão;

 Procurar ajuda na comunidade;

 Praticar exercícios, manter uma actividade


física regular.
Envelhecer bem requer ajustamento pessoal e social,
que pode ser comprometido por condições deficitárias
de saúde e educação ao longo do curso de vida. Se o
indivíduo tiver alguma deficiência física congénita ou
adquirida antes da velhice, suas condições de
desenvolver-se e envelhecer com sucesso irão sofrer
prejuízo maior ou menor e mais ou menos controlável,
dependendo da extensão e da natureza da sua
deficiência, dos recursos de apoio que o ambiente
sociocultural lhe oferecer ao longo de toda a vida e de
seus recursos psicológicos.
.
Para Silva e Varela (1999), adaptação significa maximizar
as possibilidades individuais reorganizando a vida
frente às limitações percebidas, ajustando-se às
diversas situações individualmente ou com a ajuda de
outros. É um processo contínuo de actualização das
potencialidades pessoais e de aprender a viver com as
limitações explorando e utilizando ao máximo seus
recursos disponíveis.
Para Davies (1996), as variáveis mais significativas
envolvidas na adaptação são o suporte social, o coping
e o controle percebido
Antonucci (2001), o suporte social ajuda os indivíduos a
enfrentar e se recuperar das exigências da vida.
Segundo a autora, pessoas com amplas redes sociais
têm mais ajuda nos tempos de doenças e as pessoas
que percebem mais suporte enfrentam melhor as
doenças, o stress e outras experiências difíceis da vida.
Para Handen (1991), o suporte social aumenta a auto-
estima e o sentimento de domínio sobre o próprio
ambiente, tem a função de coping ao amenizar o
impacto das doenças e provavelmente modera o efeito
das crises inesperadas.
Segundo Antonucci (1994), o suporte social estimula o
senso de controle e auto-eficácia
Robert Peck, expande a teoria de Erikson, e descreve três ajustes
psicológicos importantes para a fase final da vida:

1. Definições mais amplas do ego contra uma preocupação com papéis


de trabalho – São aqueles que definiram suas vidas pelo trabalho,
direccionando seu tempo à conquista de méritos profissionais pessoais;

2. Superioridade do corpo contra preocupação com o corpo – Aqueles


para quem o bem-estar físico é primordial à existência feliz poderão ficar
mergulhados no desespero ao enfrentarem a diminuição progressiva da
saúde, com a chegada da terceira idade, e o surgimento das dores e
limitações físicas. Peck afirma que ao longo da vida, as pessoas
precisam cultivar faculdades mentais e sociais que cresçam com a idade;

3. Superioridade do ego contra uma preocupação com o ego –


Provavelmente o mais duro e mais importante ajuste para o idoso seja a
preocupação com a morte próxima. O reconhecimento do significado
duradouro de tudo que fizeram ajudará a superar a preocupação com o
ego, e continuarem a contribuir para o bem-estar próprio e dos outros.
A partir da síntese de teorias clássicas sobre a
personalidade, Ryff (1989) propôs um modelo
multidimensional de bem-estar psicológico,
correspondente a funcionamento psicológico positivo
como sinónimo de ajustamento, e uma condição do self
relacionada a seis domínios do funcionamento
psicológico: auto-aceitação, relações positivas com os
outros, autonomia, domínio sobre o ambiente, propósito
na vida e crescimento pessoal.
A autoaceitação significa uma atitude positiva do indivíduo em
relação a si próprio e a seu passado; significa reconhecer e aceitar suas
características positivas e negativas. O sentimento de aceitação gera
estima, confiança e segurança em si e nos outros (Ryff, 1989). A
aceitação da deficiência é definida como um dos melhores indicadores de
ajustamento positivo após uma deficiência e caracterizada por:
a) capacidade do indivíduo com deficiência de perceber valor em
habilidades e metas que não foram perdidas em consequência da
deficiência;
b) avaliação do próprio valor, de atributos e capacidades, baseada
não apenas em aspectos físicos, mas também em outros (por exemplo,
persistência, inteligência);
c) mesmo quando o indivíduo é influenciado por percepções, atitudes
e linguagem de outras pessoas, foca a sua própria atitude em relação à
deficiência, enxergando-a como mais uma de suas características, e não
a única;
d) em seu nível mais básico, ocorre quando o indivíduo reconhece o
valor único da junção de suas características e habilidades, mais do que
quando faz comparações com padrões externos e frequentemente
inatingíveis (Elliott, Kyrlo & Rivera, 2002, citado por Schmitt & Elliott,
2004).
Ter relações positivas diz respeito a manter com os
outros uma relação de qualidade, uma relação calorosa,
satisfatória e verdadeira; preocupar-se com o bem-estar do
outro e ser capaz de manter relações afectuosas e
agradáveis, sejam elas familiares, de intimidade ou de
amizade (Ryff, 1989).
Relações sociais significativas permitem o
desenvolvimento do self, dão sentido às experiências e
podem oferecer apoio, importantes elementos no processo
de adaptação, principalmente em momentos de transição
da vida adulta. No caso específico das pessoas com
deficiência física, o apoio social pode tornar-se mais
significativo. O indivíduo se sente mais amado e estimado e
com sensação de controlo sobre sua própria vida (Nogueira,
2001).
A autonomia implica em ser auto determinado e
independente, mesmo que a pessoa necessite de apoio para
operacionalizar suas escolhas e, às vezes, até para o
exercício de actividades de vida diária. Implica em tomar
decisões de acordo com o que acredita ser melhor, dentro de
seus próprios padrões, e em não ser influenciado por
pressões sociais para pensar e agir (Ryff, 1989).
O conceito de autonomia pode ser comparado aos
conceitos de autodeterminação, independência, locus de
controle interno, individuação e regulação interna do
comportamento, aos quais se subordinam as crenças de que
os pensamentos e acções são próprios à pessoa e não são
determinados por causas independentes do próprio controle.
Está relacionado ao conceito de liberdade, e, como teorizou
Kant, é a capacidade de autonomia que traz aos seres
humanos dignidade (Cristopher, 1999).
Domínio sobre o ambiente significa ter competência para manejar o
ambiente, usufruir as oportunidades que surgem ao redor, apresentar
habilidades para escolher ou criar contextos adequados às suas
necessidades e valores, eliminar barreiras e fazer adaptações pessoais
ou no ambiente, quando necessárias.

É preciso que seja compatível com as capacidades físicas e com as


competências comportamentais das pessoas para permitir melhor
adaptação. Pessoas que apresentam maior habilidade para manejar o
ambiente têm senso de controle mais elevado. Segundo Folkman (1984),
o papel do controle no ajustamento vai depender do significado das
crenças de controle em cada situação, e quando as oportunidades de
controle são limitadas em determinado contexto, a pessoa irá buscar
algum aspecto da própria situação onde ela tenha esse senso de controle,
para se fortalecer. Questões sobre controle podem ser particularmente
importantes no contexto de doença, tendo-se em vista que em alguns
casos de doenças crónicas as oportunidades de controle estão limitadas,
mesmo que sejam sobre o ambiente (Sirois, Davis & Morgan, 2006).
Ter propósito de vida significa ter metas na vida e um
senso de direcção; a pessoa percebe que há sentido em sua
vida presente e passada; tem crenças que dão propósito à
vida; acredita que a vida é significativa e, a despeito de todos
os obstáculos, tem motivação para continuar vivendo (Ryff,
1989).
Janoff-Bulman e Frantz (1997, citado por Pakenham,
2005) propuseram que a adaptação positiva em face da
adversidade envolve uma tentativa de encontrar sentido num
evento traumático e achar algum benefício nesta experiência.
Segundo Ryff (1989), pessoas ajustadas têm alto senso
de desenvolvimento e crescimento contínuo; estão
abertas a novas experiências; reconhecem seu potencial de
realização, e suas mudanças reflectem autoconhecimento e
auto-eficácia.
Bauer e McAdams (2004) citam Maslow (1968) para
ressaltar que pessoas orientadas para o crescimento ou para
a segurança em suas vidas têm melhor saúde psicológica e
senso mais alto de bem-estar psicológico.

Quanto mais desenvolvidos os mecanismos de


ajustamento psicológico, maior a possibilidade de adaptação,
presumivelmente sem grande declínio na qualidade de vida
do idoso.
Indivíduos bem-ajustados têm mais habilidade para
adaptar-se às exigências sociais e emocionais da vida
quotidiana (Bauer & McAdams, 2004). Mesmo na
presença de perdas, que podem ser reduzidas ou
ampliadas de acordo com as condições da pessoa, o ser
humano sempre aspirou a viver longamente, com
autonomia e com boa saúde, tendo uma boa velhice.

Freire e Rezende (apud Néri, 2001)


Entendem que velhice bem sucedida é um conjunto de
recursos necessários à pessoa para enfrentar eventos
stressantes, envolvendo habilidades e capacidade para
solucionar problemas, bem como a capacidade social.
Só pensamos na velhice quando ficamos velhos. A
morte é parte obrigatória da velhice. Na cultura
ocidental, é característico que a morte seja
excluída dos nossos pensamentos pelo tempo mais
longo possível. Isso pode aumentar o medo
inconsciente da morte, mas tanto a velhice quanto
a morte são processos pelos quais todos os seres
humanos passam.
Morrer é o cessar irreversível:

1- da função de todos órgãos, tecidos e células;

2- do fluxo de todos os fluídos do corpo incluindo o sangue


e o ar;

3- do funcionamento do coração e do pulmão;

4- do funcionamento espontâneo do coração e do pulmão;

5- do funcionamento de todo o cérebro, incluindo o


tronco cerebral;
A morte do outro: o medo do abandono,
consciência da ausência e da separação.

A própria morte: a consciência da


própria finitude, a fantasia de como será
o fim e quando ocorrerá.
a) Medo de morrer: surge o medo do sofrimento,
da indignidade pessoal. Em relação à morte
do outro é difícil ver o seu sofrimento e
desintegração, o que origina sentimentos de
impotência por não se poder fazer nada;

b) Medo do que vem após a morte: quando se


trata da própria morte é o medo do
julgamento, do castigo divino e da rejeição.
Em relação à morte do outro, surge o medo da
retaliação e da perda da relação;
c) Medo da extinção: diante da própria morte existe a
ameaça do desconhecido, o medo básico da sua
extinção. Em relação ao outro, a extinção evoca a
vulnerabilidade pela sensação de abandono.

Acontecem múltiplas perdas, na velhice, e num curto


espaço de tempo: são as mortes do cônjuge, de amigos
e familiares da mesma faixa etária; as alterações no
corpo, perdas fisiológicas e funcionais; a reforma, as
perdas financeiras e o isolamento social; o surgimento
de doenças crónicas e a situação de dependência,
entre outras.
Marta L. Méndez propõe quatro “lutos” básicos da velhice:

1.O luto pelo corpo potente – consciência do declínio


físico.

2. O luto pelo papel paternal – alguns impedimentos


físicos, psíquicos ou sociais passam a se colocar diante
do papel paternal, bem como quando o idoso passa do
papel de “pai” para “avô”.

3. O luto pelo papel social – devido à reforma.

4. O luto pela perda de relações objectais significativas –


por exemplo, perdas de amigos, familiares ou viuvez.
Síntese
Passada a idade adulta, o ser humano enfrenta a terceira
idade, etapa do ciclo vital na qual há um número maior de
perdas, colaborando para que o idoso pense mais sobre sua
finitude (KOVÁCS, 2005). A perda de amigos e familiares, perda da
sua ocupação, de parte de sua força física, redução do
aparelho sensório e, em alguns casos, perda do
funcionamento cerebral são comuns nesta idade (SILVA;
CARVALHO; SANTOS; MENEZES, 2007).

Em decorrência da terceira idade ser uma fase constituída por


perdas, a morte nessa idade, pode ser vista como natural e
aceitável. Diante disso, é possível perceber que o tema morte é
algo que acompanha frequentemente os indivíduos de terceira
idade. Bee (1997) nos diz que na velhice as pessoas tendem a
pensar e falar mais sobre o assunto se comparadas a pessoas de
qualquer outra faixa etária. Porém, tal facto não quer dizer que a
temam menos do que pessoas de outras idades (ROSENBERG, 1992).
De acordo com tais evidencias, pode-se pensar que a
possibilidade eminente de morte que acompanha
indivíduos nesta etapa do ciclo vital pode, em alguns
casos, ser geradora de angustia. Segundo Rosenberg
(1992, p. 70), “nosso medo da morte não caminha
linearmente com nossa idade”.
Frumi e Celich (2006) realizaram uma pesquisa com
cinco idosos acima de 60 anos com o objectivo de
conhecer o significado do envelhecer e da morte para os
idosos. Através do estudo, as autoras puderam perceber
que os idosos encaram a morte como uma certeza, sendo
que tal forma de encarar o assunto parece estar alicerçada
em crenças e valores espirituais, que trazem para o idoso
a confiança de uma vida após a morte. Sendo assim, é
notável a importância de alguns aspectos, tais como a
espiritualidade para uma vivência menos temerosa acerca
da morte.
Face a qualquer perda significativa, de uma pessoa ou
até de um objecto estimado, desenrola-se um processo
necessário e fundamental para que o vazio deixado,
com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse
processo é denominado de luto e consiste numa
adaptação à perda, envolvendo uma série de tarefas ou
fases para que tal aconteça.

Sanders (1999) considera que o luto representa o estado


experiencial que a pessoa sofre após tomar
consciência da perda, sendo um termo global para
descrever o vasto leque de emoções, experiências,
mudanças e condições que ocorrem como resultado da
perda.
Apesar do processo de luto ser aparentemente um
mecanismo universal e que se dá em várias espécies, cada
indivíduo tem uma forma idiossincrática de o realizar e o
processo varia não só de pessoa para pessoa, como
também existem diferenças consoante a faixa etária em que
o indivíduo se encontra.
Tristeza: O sentimento mais comum encontrado no
enlutado, muitas vezes manifestando - se através do
choro;

Raiva: a raiva advém de duas fontes: da sensação de


frustração por não haver nada que se pudesse fazer para
prevenir a morte e de um tipo de experiência regressiva
que ocorre após a perda de alguém próximo em que a
pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro;
formas ineficazes de lidar com a raiva são deslocá-la ou
direccioná-la erradamente para outras pessoas,
culpabilizando-as pela morte do ente querido ou virá-la
contra o próprio, podendo, no extremo, desenvolver
comportamentos suicidas;
Culpa e autocensura: Normalmente, e principalmente no
início do processo de luto, há um sentimento de culpa por
não se ter sido suficientemente bondoso, por não ter levado
a pessoa mais cedo para o hospital, etc.; na maior parte das
vezes, a culpa é irracional e irá desaparecer através do teste
com a realidade;

Ansiedade: Pode variar de uma ligeira sensação de


insegurança até um forte ataque de pânico e quanto mais
intensa e persistente for a ansiedade, mais sugere uma
reacção de sofrimento patológica; surge de duas fontes: do
sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele próprio
sozinho e de uma sensação aumentada da consciência da
mortalidade do próprio;
Solidão: Sentimento frequentemente expressado pelos
sobreviventes, particularmente aqueles que perderam os
seus cônjuges e que estavam habituados a uma relação
próxima no dia a dia;

Fadiga: Pode, por vezes, ser experimentado como apatia


ou indiferença; um elevado nível de fadiga pode ser
surpreendente e angustiante para uma pessoa que é
normalmente muito activa;

Desamparo: Está frequentemente presente na fase inicial


da perda;

Choque: Ocorre mais frequentemente no caso de morte


inesperada, mas também pode existir em casos cuja morte
era previsível;
Anseio: Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de
volta é uma resposta normal à perda; quando diminui, pode
ser um sinal de que o sofrimento está a chegar ao fim;

Emancipação: A libertação pode ser um sentimento positivo


após a perda; por exemplo, no caso de uma jovem que perde
o seu pai que era um verdadeiro tirano e a oprimia por
completo;

Alívio: É comum principalmente se a pessoa querida sofria de


doença prolongada ou dolorosa; contudo, um sentimento de
culpa acompanha normalmente esta sensação de alívio;

Torpor: Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a


perda, sentem-se entorpecidas; é habitual que ocorra no início do
processo de sofrimento, logo após tomar conhecimento da morte; pode ser
uma reacção saudável bloquear inicialmente as sensações como uma
espécie de defesa contra o que de outra forma seria uma dor esmagadora
e insuportável.
Sensações físicas normalmente sentidas após a perda:

vazio no estômago;
aperto no peito;
nó na garganta;
hipersensibilidade ao barulho;
sensação de despersonalização (nada parecer real,
incluindo o próprio);
falta de fôlego, sensação de falta de ar;
fraqueza muscular;
falta de energia;
boca seca
Cognições ou pensamentos habituais após a perda:

descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a


notícia);

confusão (pensamento confuso; dificuldade de


concentração ou esquecimento de coisas);

preocupação (obsessão com pensamentos acerca do


falecido);

sensação de presença; alucinações (visuais e auditivas; são


uma experiência frequente nos enlutados; são normalmente
experiências ilusórias passageiras, que ocorrem
habitualmente após poucas semanas da perda e
normalmente não provocam uma experiência de sofrimento
mais complicada ou difícil)
Comportamentos usualmente manifestados após a
perda:
distúrbios do sono (insónias);
distúrbios do apetite (normalmente há uma redução, mas
também pode haver um aumento do apetite);
comportamentos de distracção ("andar aéreo");
isolamento social;
sonhos com a pessoa falecida;
evitar lembranças da pessoa falecida;
procurar e chamar pelo ente perdido;
Suspirar;
hiperactividade, agitação;
Chorar;
visitar sítios ou transportar consigo objectos que lembrem a
pessoa perdida;
guardar objectos que pertenciam à pessoa falecida
4 tarefas essenciais do processo de luto (adaptado de
Worden,1991)

Após a perda de alguém que nos é querido, existe uma série


de tarefas de luto que têm de ser concretizadas para que se
restabeleça o equilíbrio e para o processo de luto ficar
completo. Desta forma, a adaptação à perda, de acordo com
Worden (1991), envolve 4 tarefas básicas:

1. aceitar a realidade da perda;

2. trabalhar a dor advinda da perda;

3. ajustar a um ambiente em que o falecido está ausente;

4. transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a


vida
Segundo Worden (1991), o processo de luto termina
quando as tarefas descritas supra são completadas.
Quanto à duração do processo, não existe uma resposta
conclusiva, sendo impossível definir uma data precisa.
No entanto, quando se perde uma relação próxima é
muito improvável levar menos de um ano e para muitos
casos dois anos ou até mais não é muito tempo. Para além
disso, cada nova estação, feriado ou férias e aniversário
são prováveis de reevocar a perda (Walsh e McGoldrick,
1998). Assim, verifica-se que o luto não é um processo
que progride de forma linear, podendo reaparecer para
ser novamente trabalhado.
Um sinal de uma reacção de sofrimento finalizada é
quando a pessoa consegue pensar no falecido sem dor e
quando consegue reinvestir as suas emoções na vida e
nos vivos.
O termo de luto complicado é usado quando determinados
factores perturbam o processo de luto normal,. Estas
variáveis fazem com que o luto seja mais severo e duradouro
do que seria de esperar ou, pelo contrário, fazem com que o
enlutado evite ou nem sequer reconheça a sua dor, o que
impede que ela se possa resolver. Rando (cit. por Sanders,
1999) identificou 7 variações ou síndromes de luto
complicado:
1) luto ausente;
2) luto atrasado (não demonstra reacções de luto durante
semanas ou mais tempo, podendo transportar consigo uma
dor não resolvida que pode emergir mais tarde como
"reacções distorcidas" - e.g. hiperactividade sem um
sentimento de perda, adquirir sintomas que pertenciam à
última doença do falecido);
3) luto inibido;
4) luto distorcido;
5) luto conflituoso (aparece após a perda de uma relação
altamente perturbada e ambivalente; normalmente, surge
uma complexidade de emoções após a morte, incluindo
alívio, mas seguido de culpa e remorsos por saber que a
relação nunca foi boa e não há oportunidade para a mudar);
6) luto inesperado;
7) luto crónico (a resposta de luto inicial é apropriada, mas a
intensidade das reacções continuam sem diminuir; como
resultado, a pessoa mantém-se num profundo e doloroso
luto como forma de vida).

Apesar de existirem diversas variações de luto, os lutos


atrasado, distorcido e crónico aparentam ser, de acordo
com a autora, os principais a separar o luto complicado de
um luto normal.
BARRETO, João. (2005). Envelhecimento e qualidade de vida: o desafio
actual. Revista Faculdade Letras: Sociologia I (15), 289-302.

DIAS, Isabel (2005). Envelhecimento e violência contra os idosos. Revista


Faculdade Letras: Sociologia I (15), 249-273.

SEQUEIRA, Carlos (2007). Cuidar de Idosos Dependentes. Coimbra: Editora


Quarteto

SOUSA, Liliana. FIGUEIREDO, Daniela. CERQUEIRA, Margarida (2004).


Envelhecer em Família. Porto: Edições Ambar

TEIXEIRA, João (1999). Envelhecimento e Depressão. Saúde Mental, Vol I (2),


51-63.

TOMAZ, C., MELO, F., PINHEIRO, L. & COSTA, M. (2002). Dar e Receber. Viana
do Castelo: Edição Projecto de Luta Contra a Pobreza.

ZIMERMAN, Guite (2000). Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto Alegre:

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