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UNIVERSIDADE FEDERAL DO

ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INTRODUÇÃO À ANÁLISE DE DISCURSO

O efeito ideológico de deslocamento no


discurso da imprensa sobre o MST: de pobres
da terra a baderneiros

André Gonçalves
Doutorando do Programa de Memória Social
Linha de Pesquisa: Memória e Linguagem
Junho de 2017
UNIVERSIDADE FEDERAL DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
Linguagem? Língua?

São a mesma coisa?

Parte-se do francês “langage”,


Sendo mais geral do que “langue”,
Outro par do sistema binário.

langage langue

Lyons (1981)
Linguagem? Língua?

São a mesma coisa?

Linguagem é mais geral!

Aplica-se a sistemas de comunicação

Artificiais Naturais
Linguagem? Língua?

São a mesma coisa?

Linguagem é mais geral!

Aplica-se a sistemas de comunicação

Artificiais Naturais
Sistemas de Comunicação
(Linguagem)

Naturais

Linguagem
Língua abelhas
Linguagem
Corporal
Sistemas de Comunicação
(Linguagem)

Naturais

Linguagem
Língua abelhas
Linguagem
Corporal
Ferdinand Saussure...

Estruturalista (início séc XX)

Define a dicotomia “língua/fala”

langue parole
Ferdinand Saussure...

langue parole

Coletiva,
Individual
Social
Mas, tudo é coletivo?
Mas, tudo é individual?
Mas, tudo é coletivo?
Mas, tudo é individual?

?
A LINGUAGEM EM QUESTÃO

Há diversas formas de se estudar a linguagem

A Análise do Discurso (AD), como o próprio nome


indica, não trata da língua, não trata da gramática, embora
estes dois campos lhe interessem.

Trata do DISCURSO. A palavra discurso,


etimologicamente, tem a idéia de:

 curso;
 Percurso;
 Correr por;
 Movimento.
DISCURSO: palavra em movimento, prática de linguagem. Com
o estudo do discurso, observa-se o homem falando.
A Análise do Discurso (AD) não trabalha com a língua
enquanto sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com
maneiras de significar, com homens falando, considerando a
produção de sentidos.

1) Leva em conta o homem na sua história;


2) Considera os processos e condições de produção da
linguagem;
3) Estuda a relação entre os sujeitos e a língua que falam;
4) Estuda as situações em que se produz o dizer.
Para encontrar as regularidades da linguagem em sua
produção, o analista de discurso relaciona a língua com sua
exterioridade.
Isso significa dizer que o discurso não é transparente!

Há sempre algo além da materialidade...


Orlandi afirma que o objeto específico da AD é o discurso e
não a língua.
Sua unidade de análise é o TEXTO e não o SIGNO ou a
FRASE.
TEXTO, na AD, é considerado “não em seu aspecto
extensional, mas qualitativo, como unidade signficativa da
linguagem em uso, logo unidade de análise pragmática”
(Orlandi, 1986:107)
Há um deslocamento quanto a unidade de análise
(frase/texto), o que indica uma diferença metodológica em
relação ao objeto de análise.
Em relação ao deslocamento, segundo Osakabe,

uma teoria linguística desde que vise ao discurso (isto é, desde que
coloque como objeto explicativo não a frase, mas o discurso)
necessariamente terá outros fundamentos que aqueles propostos
quer pelo estruturalismo, quer pela linguística gerativo-
transformacional (Osakabe, 1986:38)
A noção de discurso, em sua definição, distancia-se da
concepção clássica como esquema elementar da comunicação,
que dispõe seus elementos, definindo o que é mensagem.

Mensagem

Emissor Receptor

Código

Canal

Referente
Para AD, não se trata apenas de transmissão de informação,
nem há essa linearidade na disposição dos elementos, como se
o processo fosse serializado.

Emissor e receptor se alternam. Eles realizam ao mesmo


tempo o processo de significação.
Desse modo, não se trata de transmissão de informação
apenas, pois, no funcionamento da linguagem, que põe em
relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história,
temos um complexo processo de constituição desses sujeitos e
produção de sentidos.
Desse modo, não se trata de transmissão de informação
apenas, pois, no funcionamento da linguagem, que põe em
relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história,
temos um complexo processo de constituição desses sujeitos e
produção de sentidos.
A linguagem serve para comunicar e para não comunicar.

As relações de linguagem são relações de sujeitos e de sentidos


e seus efeitos são múltiplos e variados. Daí a definição de
discurso:

O DISCURSO É EFEITO DE SENTIDO ENTRE LOCUTORES.


O DISCURSO É EFEITO DE SENTIDO ENTRE LOCUTORES.
IMPORTANTE!!

Outro problema é confundir “discurso” com “fala”,


conforme a dicotomia proposta por Saussure.

O discurso não corresponde à noção de “fala”, pois não se


trata de opô-lo à “língua”, como sendo um sistema.
Não considerar o discurso como “fala”, apenas uma
ocorrência casual, individual, realização do sistema, fato
histórico, a-sistemático.

O discurso apresenta suas regularidades, seu funcionamento


que é possível apreender se não opomos o social e o
histórico, o sistema e a realização, o subjetivo ao objetivo, o
processo ao produto.
A AD relaciona língua e discurso.

O discurso não é visto como liberdade em ato, totalmente


sem condicionantes linguísticos ou determinações históricas.

A língua não é vista como totalmente fechada em si mesma,


sem falhas ou equívocos.

1+1 =3
IMPORTANTE

A Análise do Discurso é diferente da Análise de Conteúdo.

Análise de Conteúdo

Procura extrair sentidos dos textos, respondendo à questão:

O QUE ESTE TEXTO QUER DIZER?


Análise do Discurso

Considera que a linguagem não é transparente. Desse modo ela


não procura atravessar o texto para encontrar um sentido do
outro lado. A questão que ela coloca é:

COMO ESTE TEXTO SIGNIFICA?


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Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
INTERDISCURSO E INTRADISCURSO

O fato de que há um já-dito que sustenta a possibilidade mesma


de todo o dizer é fundamental para se compreender o
funcionamento do discurso, a sua relação com os sujeitos e com a
ideologia.
INTERDISCURSO E INTRADISCURSO

A observação do interdiscurso nos permite remeter o dizer de


um texto a toda uma filiação de dizeres, a uma memória, e a
identificá-lo em sua historicidade, em sua significância, mostrando
seus compromissos políticos e ideológicos.
INTERDISCURSO E INTRADISCURSO

Disso se deduz que há uma relação entre o já-dito e o que se


está dizendo que é o que existe entre o interdiscurso e o
intradiscurso ou, em outras palavras, entre a constituição do
sentido e sua formulação.
RESUMINDO

Interdiscuro é o lugar de formação do preconstruído.

Funciona como regulador do deslocamento das fronteiras de uma


formação discursiva (FD).

Controla as reconfigurações e permite a incorporação de


preconstruídos que lhe são exteriores.

Reconfiguração permite redefinições, apagamentos, esquecimentos


entre os elementos de saber de uma FD.
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Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
QUESTIONAMENTOS?

O que permite ao surfista o uso de determinados enunciados e não


outros?

O que permite ao professor do ensino básico o uso de determinados


enunciados e não outros?

O que permite ao professor universitário determinados enunciados e


não outros?
QUESTIONAMENTOS?

Todos são inscritos em posições que lhes permitem determinados


discursos e não permitem outros determinados discursos.

Como isso se dá?

A PARTIR DA INSCRIÇÃO NAS FORMAÇÕES DISCURSIVAS (FD)


FOUCAULT (1969)

Uma Formação Discursiva não é atemporal.

Conta com regularidades próprias a processos temporais (há


dinamismo), estabelece articulações entre diferentes séries de
acontecimentos discursivos.

Foucault: “uma FD não é o texto ideal, contínuo, sem asperezas. É


um espaço de dissensões múltiplas, um conjunto de oposições cujos
níveis e papeis devem ser descritos.”
Há dissensão?
Há oposição?
Formação Discursiva

É um conjunto de enunciados que provêm do mesmo sistema. (o


que é permitido e o que não é permitido?)

O princípio de DISPERSÃO e de REPARTIÇÃO dos enunciados é


o que delimita uma FD, de tal forma que sua DEMARCAÇÃO
revela o nível do enunciado e a descrição dos enunciados indica
a maneira pela qual se organiza o nível enunciativo,
possibilitando a individuação de uma FD.
Formação Discursiva

É um conjunto de enunciados que provêm do mesmo sistema. (o


que é permitido e o que não é permitido?)
IMPORTANTE!

Um ENUNCIADO pertence a uma FD, como uma FRASE


pertence a um TEXTO. A REGULARIDADE de uma frase é
definida pelas leis de uma língua, enquanto a regularidade dos
enunciados é definida pela formação discursiva que estabelece,
para enunciados, uma lei de coexistência.
PÊCHEUX (1983)

Uma FD propõe “um corpus fechado”, um espaço discursivo


dominado por condições estáveis e homogêneas, e a análise
discursiva limita-se a construir sítios de IDENTIDADE
parafrásticas intersequenciais” (GADET & HAK, 1990).
PÊCHEUX (1983)

Retoma as noções de processo discursivo de FD. Reforça sua


natureza DISCURSIVO-IDEOLÓGICA, relacionando-a com a
questão do SENTIDO e do SUJEITO DO DISCURSO.

Uma palavra, uma expressão ou mesmo uma proposição NÃO


TEM SENTIDO PRÓPRIO LITERAL. Seu sentido decorre das
RELAÇÕES que tais elementos linguísticos mantêm com outros
elementos pertencentes à mesma FD.
“Em todo poema, há lobos...”
PÊCHEUX (1983)

Retoma as noções de processo discursivo de FD. Reforça sua


natureza DISCURSIVO-IDEOLÓGICA, relacionando-a com a
questão do SENTIDO e do SUJEITO DO DISCURSO.
PÊCHEUX (1983)

Uma palavra, uma expressão ou mesmo uma proposição NÃO


TEM SENTIDO PRÓPRIO LITERAL. Seu sentido decorre das
RELAÇÕES que tais elementos linguísticos mantêm com outros
elementos pertencentes à mesma FD.
ENFIM...

Toda FD dissimula, pela aparente TRANSPARÊNCIA DO


SENTIDO que aí se constituiu, sua dependência em relação ao
complexo dominante das FD que, por sua vez, são projeções do
complexo das FORMAÇÕES IDEOLÓGICAS (FI).
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Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
“As ideologias são libertadoras quando se fazem e opressoras
depois de feitas”
O que é ideologia?

Como se identifica com o discurso?

Ideologia e discurso são possíveis?


PÊCHEUX E FUCHS (1975)

A espécie discursiva pertence ao gênero ideológico.

“cada Formação Ideológica (FI) constitui um conjunto complexo


de atitudes e de representações que não são INDIVIDUAIS NEM
UNIVERSAIS, mas que se relacionam mais ou menos
diretamente a posições de classes em conflito, umas em relação
às outras.”
PÊCHEUX E FUCHS (1975)

Não são elementos discursivos, são exteriores às FD, porém se


“refletem” em seu interior.

Determinam o que PODE E O QUE DEVE ser dito em uma


manifestação discursiva, em uma certa relação de lugar, no
interior de um aparelho ideológico e inscrito em uma relação de
classes.
PÊCHEUX E FUCHS (1975)

O sentido de uma manifestação discursiva é decorrente de sua


FD.

Uma manifestação discursiva inserida em diferentes FD


produzirá sentidos diversos.

O sentido se constitui a partir das relações que as diferentes


expressões mantêm entre si, no interior de cada FD, a qual, por
sua vez, está determinada pela FI que provém.
Que discursos
Como
circulam?
significam?

Quais são as FI?


Esses são traços que presidem os PROCESSOS DISCURSIVOS e
podem ser definidos como “relações de parafrasagem interiores
à matriz de sentido de uma FD” (PÊCHEUX E FUCHS)
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Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
QUEM É ESSE SUJEITO??
Os processos discursivos têm origem no sujeito?

Ou são determinados pela FD em que o falante se insere?


O sujeito falante tem a “ilusão discursiva” não apenas de ser a
fonte do sentido, mas também de ter domínio de tudo aquilo
que diz.

Tem a ilusão de ser o mestre absoluto de seu próprio processo de


enunciação, dominando as estratégias discursivas necessárias
para dizer o que pretende.
Esses esquecimentos apontam para a constituição psíquica e
ideológica do sujeito discursivo, que é interpelado a tomar
posição na FD que o determina e que corresponde a seu lugar na
formação social.

Essa formação é responsável pelo modo de produção da


sociedade em que vive.
O sujeito é essencialmente representação, dependendo das
formas de linguagem que ele enuncia (pai, aluno, assistente
social) e de fato que o enunciam (pai, aluno, assistente social).

Constrói sua relação com o simbólico.


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Roteiro

- Discurso: diferente de língua e fala?


- Interdiscurso, o que é e como funciona?
- Formações Discursivas: o lugar do sujeito.
- Formações Ideológicas: o lugar do sujeito discursivo.
- Sujeito: como se constitui?
- Exemplo de Análise do Discurso.
O texto refere-se ao discurso jornalístico, acerca do MST, de
dois veículos de comunicação escrita:

a) Folha de São Paulo


b) Revista Veja

De onde falam esses veículos?

Onde se situa o MST?


A serviço do Brasil: qual Brasil?

De onde se fala?
De onde se fala?
Discurso jornalístico trabalha com segmentação: “MORRE fulano de tal...”

MST: voz ativa.

Megainvasão: potencialização da ação.

Estado petista: governado pelo PT ou o estado todo petista?


Discurso
Deslocamento jurídico
de sentidos

Dizem...especulação

Com violência! Ênfase


Regras: ordem
instituída
PRIMEIRAS
REPORTAGENS SOBRE
O MST
Por que não
enxadas?

Discurso
religioso
Teologia da
Libertação
Função
agente

Atualidade do tema:
Remete-se a questões reforma agrária
anteriores: socialismo, Imaginário
luta de classes e do
outros campos agricultor.
semânticos Pauperização
no conceito

PRIMEIRAS
REPORTAGENS SOBRE
O MST
PRIMEIRAS
REPORTAGENS SOBRE
O MST
Hino da
Independência A terra é
independência
PRIMEIRAS
REPORTAGENS SOBRE
O MST TERRA

Poder político

Status social

Direito de
Feudalismo
cobrar impostos
(opressão)
Há uma dupla construção do sentido:

“olhai os pobres” e “essa brava gente brasileira”

Autores atribuem, também, o “brava gente” ao caráter


violento.
Caráter subjetivo – foge do
princípio da neutralidade

Deslocamento de sentidos:
de “pobres” e “brava
gente” a violentos,
sequestradores etc
Qual é o limite?

Quem determina o limite?

Discurso jurídico, discurso


da ordem

Flagrante: Art. 30 CPP

Invasão: art. 50 CP
Deslocamento de sentidos:
Crime de guerra
Art. 47 da 4ª Convenção Deslegitimar o MST
de Haia

Chantagem: art. 158 CP


Quem é o “popular”? Apoio
da direita?

Não há causas, foram


atendidos

Desqualificação,
anacronismo