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Auto-dano na

21 de março de 2018
Sónia Gama adolescência, o que
fazer?
Resumo

 Adolescência
 Comportamentos autolesivos
 Depoimentos recolhidos pela Inês Viana no âmbito da PAP
 Prevalência
 Fatores que poderão indicar problemas presentes ou futuros
para o adolescente
 Fatores protetores da autolesão e do suicídio
 O papel dos pais
 Sinais de alarme
 O que os pais podem fazer?
ADOLESCÊNCIA

A Adolescência é uma etapa do ciclo de vida


caracterizada por alterações a vários níveis:
- físicas
- psíquicas
- sociais
O adolescente é confrontado com uma série de problemas
e desafios que exigem um esforço de reorganização para
a sua resolução.
Trata-se de uma fase intensa e marcada por profundas
alterações, conflitos e desafios.
A instabilidade emocional poderá ser vivenciada como um
período de crise com repercussões na saúde mental dos
adolescentes, tornando-os vulneráveis à adoção de
comportamentos agressivos, impulsivos ou mesmo
suicidas (Borges & Werlang, 2006).
A adolescência como um período de crise, caracterizado
por uma ambivalência de sentimentos e transformações na
saúde mental.
Para que se possa minimizar o risco de ocorrerem
problemas ou pontos de rutura torna-se fundamental a
existência de suportes sociais como a família, o grupo de
amigos e a escola.
COMPORTAMENTOS AUTOLESIVOS

 Comportamento sem intencionalidade suicida, mas


envolvendo atos autolesivos intencionais, como, por
exemplo: cortar-se ou saltar de um local
relativamente elevado; ingerir fármacos em doses
superiores às posologias terapêuticas reconhecidas;
ingerir uma droga ilícita ou substância psicoativa com
propósito declaradamente autoagressivo; ingerir uma
substância ou objeto não ingerível (p. ex. lixívia,
detergente, lâminas ou pregos). Definição do Plano
Nacional de Prevenção do Suicídio, Portugal.
 O suicídio e os comportamentos autolesivos
(também denominados de comportamentos
suicidários, parassuicidários, autodestrutivos
ou violência autodirigida), conforme as
nomenclaturas utilizadas estão
indissociavelmente ligados, sendo difícil
abordar separadamente os temas.
 Os comportamentos autolesivos na
adolescência evidenciam um intenso mal-
estar que não deve ser ignorado.
 Não é possível ignorar o estado de elevado
sofrimento psíquico destes jovens e é
fundamental mudar o preconceito vigente de
que um adolescente que se corta
deliberadamente ou que realiza
sobredosagens está "apenas a chamar a
atenção" e que nada de realmente sério se
está a passar.
Depoimentos recolhidos pela Inês Viana
no âmbito da PAP
 “Praticava automutilação porque me sentia
"deprimida", sentia-me em baixo, parecia que tudo
aquilo que fazia estava mal ou era criticado por
alguém porque nessa altura havia muita coisa a
acontecer.
 Para ser sincera agora sinto uma vergonha horrível,
mas na altura parecia que fazia sentido. Por agora
quando olho para trás penso que aquele sofrimento
era inútil. É uma sensação esquisita.
 Quem me ajudou a superar essa situação foi o
acompanhamento de uma psicóloga, da minha mãe
e de amigas.”
C.(15 anos)
 “O que me levava a automutilar-me? Sinceramente
nem sei bem….Tudo começou com a depressão…o
que me levou, foi a tristeza, não conseguir controlar
as emoções, a raiva, a maldita ansiedade.
 Quando o fazia sentia um grande alívio! Parece que
quanto mais me cortava, mais alivio tinha, quando o
sangue sai e como se o alivio ainda fosse maior! Mas
tudo isto deixa de se sentir, no fim… no fim tudo fica
igual, só restam as cicatrizes e as feridas…
 Quem me ajudou a sair dessa situação foram as
minhas amigas, família, a terapia, o
pediatra/psiquiatra, psicólogos, professores.”
J. (19 anos)
Prevalência

 O comportamento autolesivo é um sinal de alarme


para uma adolescência patológica
 Os comportamentos autolesivos em adolescentes
são de grande relevância, estando associados a
doença psiquiátrica e à maior probabilidade de
suicídio futuro.
 Cerca de 10% dos adolescentes já terá praticado
automutilação, de acordo com dados de estudos
internacionais.
Fatores que poderão indicar problemas
presentes ou futuros para o adolescente
Investigação realizada em escolas de Lisboa, por Diogo Frasquilho Guerreiro (Tese de Doutoramento de 2014)

- Ansiedade excessiva associada a mecanismos de regulação extremos ou


ineficazes;
- Marcada baixa autoestima, que se pode associar a restrições no contato social, a
necessidade extrema de aprovação ou demasiada susceptibilidade à influência dos
pares;
- Conflitos familiares ou intergeracionais extremos, que enfraquecem as ligações
emocionais ou o suporte familiar, pela família em geral e pelos pais em particular;
- Falha por parte da família em reconhecer a necessidade crescente de autonomia
por parte dos adolescentes ou a desvalorização de marcos importantes do processo
de autonomia;
- Padrões de socialização precoces com ausência ou excesso de supervisão;
- Puberdade precoce, especialmente em mulheres, que poderá levar a
experiências sexuais ou sociais para as quais o adolescente ainda não
está psicologicamente preparado;
- Puberdade tardia, especialmente em homens, que poderá ter como
consequência uma diminuição das oportunidades de experimentação ou
sociais, devido a um mais lento desenvolvimento físico;
- Comportamentos de risco sem supervisão ou extremos, que poderão
lesar a saúde do jovem;
- Fracasso no desenvolvimento de capacidades emocionais apropriadas
à idade, que provavelmente se associarão a baixa autorregulação ou a
perturbações do humor;
- Fracasso no desenvolvimento de capacidades sociais apropriadas à
idade, que poderão levar a isolamento ou a rejeição por parte dos pares.
Fatores de risco específicos para
adolescentes
Fatores demográficos, sociais e educacionais
 Idade – as taxas de suicídio e de tentativas de suicídio
aumentam com a idade, apresentando uma maior incidência na
fase final da adolescência e no adulto jovem.
 Género - feminino para ideação suicida e comportamentos
autolesivos; masculino para suicídio consumado.
 Orientação homossexual e bissexual - risco 6 vezes mais
elevado para comportamentos autolesivos ou tentativas de
suicídio.
 Insucesso ou abandono escolar.
 Contágio social – especialmente relevante nos jovens através
de contacto direto ou indirecto (ex: media ou internet – Jogo da
baleia azul).
Fatores psiquiátricos e
psicológicos

 Doenças psiquiátricas típicas da adolescência –


como perturbações do humor, da ansiedade, do
comportamento, de hiperactividade ou défice de
atenção.
 Abuso de substâncias – em particular cannabis ou
tabaco.
 Eventos de vida negativos, antecedentes familiares e
médicos.
 Estrutura familiar disfuncional - de alta rigidez, autoridade
excessiva ou inadequada, expectativas rígidas ou irrealistas,
frequentes conflitos intrafamiliares, dificuldades marcadas na
comunicação e escassas redes de sociabilidade.
 Negligência familiar.
 Violência – abuso físico ou sexual.
 Insucesso ou abandono escolar.
 Problemas de comportamento – com eventual envolvimento no
sistema judicial.
 Bullying – como vítima ou agressor; raparigas vítimas de
bullying apresentam maior risco.
 Perdas – quebra de amizade, rutura afetiva, morte de uma
pessoa significativa.
FACTORES PROTETORES DA
AUTOLESÃO E DO SUICÍDIO
Fatores individuais
 Capacidade de resolução de problemas e
conflitos;
 Iniciativa no pedido de ajuda;
 Noção de valor pessoal;
 Abertura para novas experiências e
aprendizagens;
 Estratégias comunicacionais desenvolvidas;
 Empenho em projectos de vida.
Fatores sociais

 Clima escolar positivo;


 Boa relação com os pares;
 Ter facilidade de acesso aos serviços de saúde;
 Boa articulação entre os vários níveis de serviços de
saúde e parcerias com instituições que prestam
serviços sociais e comunitários;
 Determinados valores culturais;
 Pertença a uma religião.
Fatores familiares

 Bons relacionamentos familiares;


 Capacidade de suporte e apoio;
 Relações de confiança no contexto da
família;
 Cuidados parentais adequados.
O papel dos pais
Alguns dos adolescentes que partilham em consulta clínica que se
auto-mutilam admitem que já o faziam há algum tempo antes de os
pais terem tomado conhecimento.
Na maioria das vezes os pais referem mesmo não terem
identificado quaisquer sinais de alarme, ficando muito assustados
e imersos numa grande preocupação e desorientação quando
confrontados com a partilha do filho.
A dor de um adolescente que se auto-mutila é grande… E por isso
pais e outros adultos cuidadores anseiam por orientações que
acalmem a própria angústia e possibilitem um apoio adequado ao
jovem.
Sinais de alarme
 Usar mangas compridas no verão;
 Isolamento social;
 Aumento do consumo de álcool ou outras substâncias;
 Comportamento de auto-dano e/ou tentativa de suicídio
prévia;
 Mudanças de humor bruscas (estar muito feliz e em
seguida muito deprimido);
 Sintomatologia depressiva e/ou ansiosa;
 Descida no rendimento escolar e problemas de
comportamento;
 Baixa auto-estima;
O que os pais podem fazer?
 Manter a calma.
 Reagir com pânico e desorientação, poderá agravar ainda mais a
sensação de desconforto do adolescente.
 Dizer apenas para parar de o fazer terá também pouco efeito.
 Procurar retirar do alcance do jovem objectos com que se possa
magoar.
 Mostrar interesse por aquilo que o jovem pensa e sente, dando-lhe
espaço para (mas não o obrigando a partilhar).
 Encaminhamento para um profissional qualificado, como um psicólogo.
 Tornar a comunicação mais eficaz dentro da família é verdadeiramente
importante para que o adolescente se sinta seguro, valorizado e
confiante.
 Criar um momento diário, nas rotinas da família, em que todos se
sintam livres e aceites na partilha de ideias, dúvidas, preocupações e
conquistas.
Bibliografia
 Alexandra Barreira (2016). Associações entre a prática de auto-
dano e a perceção de vinculação aos pais e pares em
adolescentesportugueses. Dissertação de Mestrado em
Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Aconselhamento.
FPCEUC
 Diogo Guerreiro (2014). Comportamentos autolesivos em
adolescentes - Características epidemiológicas e análise de
fatores psicopatológicos, temperamento afetivo e estratégias de
coping. Dissertação de Doutoramento em Medicina,
Especialidade de Psiquiatria e Saúde Mental. FMUL.
 José Carlos Pereira Santos (Coord.) (2014). + Contigo –
Promoção de Saúde Mental e Prevenção de Comportamentos
Suicidários na Comunidade Educativa. ESEC.
 Psychologica N.º 52, vol. 2 (2010), p. 331-359. “Auto-criticismo,
vergonha interna e dissociação: a sua contribuição para a
patoplastia do auto-dano em adolescentes” de Paula Castilho,
José Pinto Gouveia & Elisabete Bento.