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Microbiologia da cárie dentária

Daniele Castro
Microbiologia da cárie dentária
1. Definição – Enfermidade infecciosa crônica
que ocasiona destruição progressiva e
localizada dos tecidos dentais
mineralizados. Deriva do latim cariosus que
significa destruição ou putrefação.

2. Tipos de cáries:
- Cárie de fossas e fissuras
- Cárie de superfícies lisas
- Cárie radicular
- Cárie recorrente
- Cárie oculta
3. Etiologia (é uma doença multifatorial)

• Hospedeiro (dente e saliva)

• Agente etiológico (microbiota)

• Tempo

• Substrato
Etiologia da cárie
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.1 Teoria Endógena (Teoria humoral)

De origem grega, atribui a origem das


enfermidades a um desequilíbrio entre os
líquidos elementares do corpo (sangue, fleuma,
bílis).

Ao final do século XVIII acreditava-se que a


cárie se originava do próprio dente.
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.2 Teoria exógena (século XIX)

A teoria química sugeria que os agentes químicos


(ácidos inorgânicos) corroíam o esmalte e a
dentina.

A teoria parasitária ou séptica atribuía a destruição


do dente aos micróbios alojados na sua superfície,
só não explicava como isso ocorria.
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.3 Teoria Quimioparasitária de Miller

- Surge ao final do século XIX, unificando as duas


anteriores.
- Mostra que a causa das cáries são ácidos
produzidos pelos microrganismos bucais.
- Deve-se a influência de outros cientistas da época
(Pasteur, Magiot e Koch).
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.3 Teoria Quimioparasitária de Miller

Miller (1890) concluiu que os microrganismos


causavam cárie, mas certamente o processo
era mediado por um microrganismo bucal
capaz de produzir ácido e digerir proteína; a
cárie dentária é um processo quimioparasitário
que consiste em dois estágios: descalcificação
ou amolecimento dos tecidos duros e
dissolução dos resíduos moles.
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.4 Teoria Acidogência

Afirma que microrganismos atuando sobre


carboidratos formariam ácidos que levariam à
formação da cárie.
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.5 Teoria Proteolítica


- Estabelecida por Shatz e colaboradores em
1955, mencionava que as cáries tinham
como origem a ação proteolítica bacteriana e
enzimática sobre o componente orgânico do
dente.
- Portanto, produzia-se uma lesão que liberava
quelantes (aminoácidos, ácidos orgânicos),
que seriam os causadores da dissolução dos
minerais dentários.
4. Teorias sobre a origem da cárie

4.6 Teoria Proteólise-Quelação

Preconizava que microrganismos atuando


sobre a porção orgânica do dente formavam
quelantes que levavam à dissolução da proção
mineral. Perda simultânea de matéria orgânica
e inorgânica ocorriam simultaneamente.
Teoria Quimioparasitária (Acidogênica)

1. Características
- Os microrganismos da boca decompõem os
carboidratos fermentáveis para formar ácidos.
- Os carboidratos alojados nas superfícies
dentárias são a fonte de ácido que
desmineraliza os dentes.
- Diferentes bactérias orais invadem a dentina
cariada.
- A destruição final da dentina ocorre pela ação
das enzimas proteolíticas.
Teoria Quimioparasitária (Acidogênica)

2. Falhas
- Não explica a predileção da cárie por alguns
sítios específicos.
- Considera que os micróbis são muito variados.
- Não explica o fenômeno das cáries ocultas, nem
porque algumas populações não têm cáries.
- Acreditavam na influência sistêmica sobre o
dente.
PARA RESPONDER...

1. Como podemos definir a cárie dentária?


2. Quais os tipos de cáries observados
clinicamente?
3. Por que a cárie é considerada uma doença
multifatorial?
4. Cite as teorias sobre a origem da cárie.
5. Qual a teoria sobre a origem da cárie aceita
nos dias atuais?
Tecidos calcificados
Esmalte

É o tecido mais duro do organismo humano.

Sabe-se que as proteínas têm um papel


importante na formação do esmalte, e que o
depósito é feito por células chamadas
ameloblastos. Inicialmente estas células
secretam proteínas chamadas amelogeninas.
Esmalte

• Gradativamente a matriz proteica é


substituída por cristais de apatita
• É altamente mineralizado, com 96% de sua
composição representada por material
inorgânico, a maior parte do qual no estado
cristalino; e apenas 4% de material orgânico
e água.
• O esmalte maduro é acelular e quase
totalmente desprovido de material orgânico.
Esmalte

É um sistema químico ativo que participa de


reações:
 transporte de soluto e íons da saliva para a
dentina;

Reações de troca de íons com a saliva;

Processos de desmineralização-remineralização
Dinâmica da lesão de cárie

A superfície do esmalte dentário apresenta


comportamento altamente dinâmico com o
meio ambiente bucal. Enquanto for mantido um
pH superior a 5,5, a composição da saliva em
cálcio e fosfato é supersaturante em relação à
solubilidade da hidroxiapatita; logo a tendência
físico-química do dente é ganhar cálcio e
fosfato do meio bucal.
Dinâmica da lesão de cárie

Quando se atinge um pH menor que 5,5, a


composição da saliva torna-se subsaturante em
relação ao produto de solubilidade da
hidroxiapatita; assim a tendência físico-química
é o dente perder cálcio e fosfato para o meio
bucal, até atingir novo estado de equilíbrio,
ocorrendo consequente dissolução do esmalte.
Esse fenômeno é chamado de desmineralização.
Dinâmica da lesão de cárie

O pH 5,5 é chamado “crítico”, pois toda vez que o


açúcar e/ou carboidrato são ingeridos, os
microrganismos produzem ácido a partir dos
mesmos, podendo-se atingir pH abaixo de 5,4. Em
função de uma série de fatores e após decorrido
certo tempo, o pH retorna ao normal. Quando são
novamente restabelecidas condições físicas
supersaturantes, a tendência do esmalte é ganhar
cálcio e fosfato do meio bucal, tentando repor o
perdido pelo processo de desmineralização. Esse
fenômeno é chamado de remineralização.
Dinâmica da lesão de cárie

Atualmente, considera-se a cárie dentária


como consequência do desequilíbrio entre os
fatores de desmineralizãção e remineralização,
sendo função direta das condições que
mantenham o pH crítico (menor que 5,5) na
cavidade bucal.
Dentina

É produzida pelos odontoblastos, através da


transformação de pré-dentina (forma não
calcificada) em dentina, com deposição de
mineral no colágeno do tecido.

Possui 70% de material inorgânico e 30% de


matéria orgânica.
Dentina

• É rica em fibras colágenas com depósitos de


cristais inorgânicos de apatita. Esta harmonia
entre os cristais inorgânicos e o material
orgânico forma uma estrutura estável,
resistentes às forças mastigatórias.
• 90% do material orgânico é colágeno.
Cemento

É formado por uma fina camada de tecido


calcificado que recobre a superfície da raiz dos
dentes.

Contém cerca de 45 a 50% de substância


inorgânicas e 50 a 55% de material orgânico e
água.
Cemento

Existem dois tipos:

Tipo I, acelular (primário), + calcificado,


recobre a porção coronária da raiz;

Tipo II, celular (secundário), - calcificado,


recobre a porção apical da raiz.
Etapas das cáries dentárias

1. Descalcificação do esmalte
- Formação da cutícula primária do esmalte (0,1
µm).
- Formação da película adquirida
(glicoproteínas salivares, 8µm).
- Formação da placa dental.
- Intervenção da flora bacteriana.
- Dissolução dos cristais de hidroxiapatita.
Etapas das cáries dentárias

2. Descalcificação da dentina

- Intervenção de bactérias proteolíticas e


oportunistas.

- Destruição da matriz.
Bactérias proteolíticas e oportunistas

• Proteolíticas: Actinomyces odontolyticus,


Rhotia dentocariosa, Veillonella parvula e V.
alcalescens, Capnocytophaga gingivalis.

• Oportunistas: estafilococos, estreptococos


aeróbios e anaeróbios, difteroides,
enterobactérias (Proteus vulgaris, Serratia
marcescens, Escherichia coli, Pseudomonas
aeruginosa, P. putida).
Descalcificação da dentina

1. Placa dentária
- Conhecida também como placa bacteriana.
- Formada por aproximadamente 10 g.
- Em sua maioria é formada por cocos e
bacilos acidófilos.
- Os germes localizam-se em fossas,fissuras,
áreas interproximais e raiz.
Descalcificação da dentina

1. Placa dentária
- Encontra-se aderida por meio de uma matriz
de polissacarídeos insolúveis (dextranos e
levanos).
- Utilizam como nutrientes: carboidratos,
glicoproteínas e vitaminas.
- Secretam: gases (gás carbônico, gás sulfídrico),
ácidos orgânicos (láctico, propiônico, butírico,
etc.)
Descalcificação da dentina

2. Cariogenicidade ou virulência  definida


como a capacidade de um microrganismo de
superar os mecanismos de defesa do hospedeiro
e causar danos aos seus tecidos.

- Estreptococos;
- Lactobacilos;
- Actinomices.
Estreptococos

• Produzem polissacarídeos extracelulares a


partir da sacarose.
• Possuem elementos que determinam os
fenômenos de adesão, agregação e co-
agregação.
• Realizam um rápido metabolismo dos
açúcares, ácido lático e outros ácidos
orgânicos.
Estreptococos

• Têm poder acidogênico, acidófilo e acidúrico.

• Atuam em baixo pH.

• Têm o poder de conseguir pH crítico para a


desmineralização do esmalte mais rápido
que qualquer outro microrganismo da placa.
Estreptococos
Na cavidade oral compreendem as seguintes
espécies:
• S. sanguis;
• S mitis;
• S. oralis;
• S. salivarius;
• S. intermedius;
• S mutans;
• S. sobrinus.
Estreptococos

• Os primeiros microrganismos da boca que


podem ser isolados durante as primeiras
semanas após o nascimento são
predominantemente os S. mitis, S. oralis, S.
salivarius.

• Os S. sanguis, S. mitis e S. oralis são os


primeiros colonizadores na superfície do
dente totalmente limpa.
Streptococcus mutans

É altamente cariogênico e alcança pH final de


3,4 em um período de 18 a 24 horas de
crescimento em meio de cultura. Tem
habilidade de permanecer em meio ácido
(acidúrico) e, quando comparado com outras
espécies bucais de estreptococos, permanece
viável em pH ácido por um período de tempo
muito maior.

Transmissibilidade
Streptococcus sanguis

As cáries produzidas pelos S. sanguis ocorrem


principalmente em sulcos e são significamente
menores que as produzidas pelos S. mutans.
Streptococcus salivarius

São encontrados na placa bacteriana, garganta


e nasofaringe, entretanto seu habitat natural é
considerado o dorso da língua.
Streptococcus mitis

Encontrado nas mucosas bucais,


particularmente na bochechas (mucosa jugal),
lábios e superfície ventral da língua.
Streptococcus oralis

Isolado exclusivamente na cavidade oral


humana.
Lactobacilos

• Têm poder acidogênico, acidófilo e acidúrico.


• Algumas cepas sintetizam polissacarídeos
intra e extracelulares a partir da sacarose.
• Possuem atividade proteolítica, mesmo
escassa.
• Espécies importantes: Lactobacillus
acidophilus, L. salivarius, L. brevis, L.
fementum, L. casei, L. plantarum.
Lactobacilos

• Podem ser isolados na saliva, superfícies


dentárias, dorso da língua, mucosa vestibular
e palato duro.

• Representam cerca de 1% da microbiota


bucal.
Lactobacilos

• L. casei e L. fermentum são as mais comuns;

• L. acidophilus é mais encontrado na saliva;

• L. casei predomina na placa bacteriana e


dentina cariada.
Actinomices

• São acidogênicos.
• Podem produzir polissacarídeos intra e
extracelulares a partir da sacarose.
• Possuem fímbrias que facilitam a adesão.
• Têm atividade proteolítica moderada.
• Espécie importante: Actinomyces viscosus,
espécie encontrada nas cáries radiculares.
Actinomices

Anaeróbio obrigatório: A. israelli;

Aeróbio ou anaeróbio facultativo: A.


viscosus, A. naeslundii e A. odontolyticus.
Estratégias de prevenção

1. Controle da dieta
- Adotar hábitos saudáveis e uma dieta
equilibrada.
- Racionalização e substituição do açúcar.

2. Proteção de dente
- Utilização do flúor.
- Selante de fissuras.
PARA RESPONDER ...
6. Qual é o tecido mais duro do organismo
humano?
7. Explique a dinâmica da lesão cárie: o processo
de des-remineralização.
8. Cite as composições inorgânicas e orgânicas
em termos percentuais do esmalte, dentina e
cemento.
9. Explique os dois tipos de cemento
encontrados.
10. Quais os microrganismos responsáveis pela
virulência da cárie dentária?
Flúor
Mecanismo de Ação do Flúor

• Flúor dinamicamente importante é aquele


presente constantemente na cavidade bucal,
porque age diretamente no fenômeno des-re do
processo cárie;

• F age melhor reduzindo a solubilidade do esmalte


por sua ação no meio líquido a nível da lesão de
cárie, do que pela sua posição estática
incorporado no esmalte em concentração não
significativa;
Mecanismo de Ação do Flúor

• O F incorporado ao esmalte sob a forma de


apatita fluoretada não confere resistência à
cárie;

• Sua ação é mais terapêutica do que


preventiva;

• Quem não está sujeito à cárie não precisa de


flúor;

• Quem está sujeito à cárie precisa de flúor;


Mecanismo de Ação do Flúor

• Quem está mais sujeito à cárie precisa mais


do Flúor, com presença mais constante na
cavidade bucal, e não mais F incorporado no
dente por métodos preventivos com alta
concentração;

• Quem esteve com cárie sob controle pela


presença do flúor ficará sujeito à cárie em
sua ausência.
Flúor constante na cavidade bucal:

Métodos sistêmicos:

• Água fluoretada;
• Sal fluoretado;
• Comprimidos de flúor;
• Gotas de flúor.
Flúor constante na cavidade bucal:

Métodos sistêmicos:

• Ao ingerir água fluoretada, o flúor entra


imediatamente em contato com os dentes;

• O flúor deglutido é absorvido no estômago e


retorna à cavidade bucal através da
reciclagem pela saliva e fluido gengival.
Flúor constante na cavidade bucal:

Métodos tópicos:

• Aplicação tópica de flúor (ATF): solução, gel,


verniz;

• Bochechos:

• Dentifrícios.
Flúor constante na cavidade bucal:

Métodos tópicos:

• Inibe a desmineralização quando presente


em solução, reduzindo dissolução do cristal;
• Aumenta remineralização induzida por Ca e
P;
• Inibe bactérias da placa (ação
antibacteriana).
Flúor constante na cavidade bucal:

Métodos tópicos:

Quando aplica-se flúor no dente forma-se uma


camada de fluoreto de cálcio sobre ele. Depois
depositm-se íons de Ca e P da saliva, sobre a
camada de fluoreto de cálcio, formando uma
capa protetora de fosfato de cálcio e diminui a
solubilidade do fluoreto de cálcio no meio
bucal.
Fluoreto de cálcio

• Reservatório contínuo de flúor para controlar


o processo de cárie;

• Quanto maior o risco


à carie , as ATF devem ser mais frequentes;

• A ação terapêutica do fluoreto de cálcio está


relacionada a alta atividade de cárie.
Fluoreto de cálcio

Seu uso frequente permite manter uma


camada sobre o esmalte, que ao ser
solubilizado, difunde-se para o interior do
esmalte, ativando a remineralização no corpo
da lesão.

Conforme o processo de cárie é controlado,


deve ser diminuída a frequência do seu uso.
Fluorose Dental

• Anomalia decorrente da ingestão de várias


formas de flúor durante a formação dos
dentes, afetando a mineralização;

• Forma esmalte hipoplásico de diferentes


manifestações clínicas.
Para responder ...
11. Qual a frequência e a concentração de flúor
ideais na cavidade oral como forma de prevenção
da cárie?

12. Cite os métodos sistêmicos do flúor.

13. Cite os métodos tópicos do flúor.

14. O que é fluorose dental?