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TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Um panorama sintético sobre o assunto


O que é Teologia da Libertação?
O termo Teologia da Libertação, pode levar a uma conceituação
equivocada sobre sua real identidade, pois pode dar a ideia de
argumentos teológicos voltados para o exorcismo, guerra
espiritual ou coisas do gênero. Não obstante, conforme veremos,
teologia da libertação não alude necessariamente ao
desenvolvimento de proposições teológicas, embora as traga em
seu arcabouço conceitual.
“O liberacionismo [teologia da libertação], em virtude de
apresentar características muito mais sociais e políticas do
que propriamente religiosas, deveria eliminar da sua
terminologia o vocábulo teologia, que está ali totalmente
fora de lugar no seu sentido cristão. Em vez de teologia,
seria melhor que usasse um termo mais condizente com o
caráter e propósito do movimento, como, por exemplo,
sociologia ou partido. É inteiramente descabido o uso do...
... do termo “teologia” num sistema político e ativista que,
além de ignorar os princípios do Evangelho, visa motivar e
orientar a pessoa na dialética da luta de classes do
marxismo Liberacionismo é apenas uma outra terminologia
usada para definir a Teologia da Libertação” (Abraão de
Almeida).
Origem da Teologia da Libertação
“A teologia da libertação e do cativeiro nasceu num
contexto de Terceiro Mundo e no seio de cristãos que
se deram conta do regime de dependência e de opressão
em que seus povos vivem. A partir de um engajamento
libertador inspirado na própria fé cristã, ensaiaram uma
práxis concreta em suas Igrejas e na sociedade que
se refletiu numa prática teórico-teológica diferente
daquela tradicional, denominando-se de teologia da
libertação” (Leonardo Boff).
Após o Concílio Vaticano II (1962-1965), onde, dentre
outras coisas, foi discutida a relação da igreja com o mundo
moderno, foi realizada na cidade colombiana de Medellín,
no ano de 1968, a CELAM – Conferência Episcopal Latino-
Americana, onde 750 bispos da Igreja Católica Romana,
discutiram questões relacionadas ao tema: “A Igreja na
atual transformação da América Latina à luz do Concilio”.
Embora conceitualmente a teologia da libertação esteja
fundamentada nas decisões tomadas na CELAM, somente
ganha ares de movimento político-religioso com um
esqueleto metodológico, com a publicação em 1971, do
livro de Gustavo Gutiérrez Merino que leva o mesmo nome
desta corrente teológica.
Pressupostos da Teologia da Libertação
A teologia da libertação surge como um grito de socorro aos
pobres e marginalizados da sociedade; como auxílio
àqueles que não tem vez nem voz diante do poder opressor
dos ricos e poderosos; como instrumento divino para
libertação dos oprimidos, tendo como alguns de seus
principais articuladores, teólogos e pensadores, como
Gustavo Gutiérrez Merino, Hugo Assmann, Leonardo Boff,
Juan Luis Segundo, Porfirio Miranda, José M. Bonino,
João Batista Libânio, Segundo Galilea, Eduardo Pironio e
Alfonso López Trujillo.
Todos os seus adeptos partem da mesma premissa: a
interpretação dos ensinamentos de Jesus, a partir da
antropologia e sociologia, tendo sempre como sua força
motriz, os marginalizados, os quais são tidos como vítimas
da sociedade.
“De acordo com eles, era chegada a hora de ir além,
passando para a segunda fase do Iluminismo, o
questionamento acerca da situação socioeconômica
levantado por pensadores como Karl Marx” (Stanley J.
Grenz; Roger Olson).
Outra similaridade entre os teólogos da libertação é
eliminação do transcendental. Visto que sua hermenêutica
é sempre sociológica e imanente, o místico e o sobrenatural
perdem seu valor. Destarte, elimina o caráter miraculoso
das curas realizadas por Jesus, olhando apenas para o
aspecto sociológico dos mesmos.
“O reino não deve ser compreendido espiritualmente,
nem universalmente, no sentido de uma reserva
escatologicamente abstrata. Deve ser compreendido em
forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir
da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o
que seria o reino: trabalhar na realidade histórica que nos
circunda para transformá-la no reino” (Joseph Ratzinger).
“De acordo com elas (as cristologias, grifo nosso), é o lado
humano de Jesus, e não a reflexão da igreja sobre sua
pessoa e natureza, que inspira e empolga a teologia da
libertação” (Augustus Nicodemus Lopes).
Para Severino Croatto, teólogo católico e adepto da
teologia da libertação, não podemos nos prender ao sentido
histórico de um texto, ao contrário, devemos nos desapegar
do mesmo, senão corremos o risco de perder sua real
mensagem. E ainda, que não podemos fechar o sentido de
um texto, pois ele muda com o tempo.
Talvez, um leitor desavisado, concorde com Croatto em sua
proposição, mas se analisarmos com cuidado sua teoria,
perceberemos que o que ocorre aqui, é uma desconstrução
da autoridade e inerrância bíblica, ou seja, o texto sempre
terá um novo significado a cada leitura e uma nova
interpretação se dará, ao sabor daquele que o lê, perdendo
assim, o sentido pretendido pelo autor original.
“Eles afirmavam que, durante muito tempo, a teologia havia
se dado ao luxo de se refugiar em sua “torre de marfim”
para debater os argumentos intelectuais em favor da
existência de Deus diante da crítica ateísta. Era chegada a
hora da teologia unir forças com os oprimidos e tiranizados
da sociedade e engajar-se numa luta em favor deles.
Somente desse modo os teólogos poderiam descobrir a
realidade de Deus” (Stanley J. Grenz; Roger Olson).
O caráter marxista da

teologia da libertação
A teologia da libertação anda de mãos dadas, não
apenas com o liberalismo teológico, negando os
milagres realizados por Jesus e pelos apóstolos e
toda e qualquer sobrenaturalidade apresentada nas
Escrituras, mas é em certo sentido, filha do socialismo
de Karl Marx e Friedrich Engels.
“Para Marx, a história não é feita nem pelas grandes
ideias nem pelos heróis, mas pelo homem (como classe,
não como indivíduo), segundo as condições que lhe são
dadas” (Abraão de Almeida).

Para o socialismo ou marxismo como ficou mais conhecido,


a classe proletária deveria subjugar a classe burguesa,
visto aquela ser “boa” e esta “má”. Surgindo aí o conceito
da “luta de classes”.
“A revolução é um imperativo. Tudo o que não seja
revolução (presumivelmente violenta) se cataloga como
‘desenvolvimento’, intento inútil e falaz. A prova está na
experiência da década de 60 com o fracasso da Aliança
para o Progresso. Estabelece-se como fato incontroverso
que só há uma saída. Nem se suspeita que, entre
revolução e desenvolvimento poderia encontrar-se um
termo médio. O único possível é a mudança do sistema, a
qual não se produzirá, de nenhuma maneira, com a
aceitação dos poderosos. Daí a justificação da organização
para procedimentos violentos” (Alfonso López Trujillo).
“O dever da Igreja é então apoiar, preparar, encabeçar,
organizar e realizar a revolução. Não se quer sustentar que
a revolução é incompatível com a fé. Apenas se intenta
assinalar como facilmente invade outros campos” (Idem).
“Os cristãos devem optar definitivamente pela revolução, e
especialmente no nosso continente, onde a fé cristã é tão
importante entre a massa popular. Quando os cristãos se
atreverem a dar um testemunho revolucionário integral, a
revolução latino-americana será invencível, já que até
agora os cristãos permitiram que sua doutrina fosse
instrumentalizada pelos reacionários” (Abraão de Almeida).
O que fica evidente, é que o imanente assume o lugar do
transcendente no processo de “libertação” dos pobres e
oprimidos. O Evangelho deixa de apontar para o que é
espiritual e escatológico para se tornar algo meramente
material e hodierno. Isso porque, paradoxalmente, na
teologia da libertação, não existem valores absolutos, pois
como afirmou o famoso teólogo e filósofo Rubem Alves:
“qualquer absolutismo nos valores religiosos e morais é
completamente opressivo por natureza e deveria ser
abolido” (Abraão de Almeida).
A verdadeira práxis cristã
Em seu discurso escatológico (Mateus 25.31-46), Jesus
afirmou aos seus discípulos que sempre que socorreram o
pobre e o necessitado, haviam atendido a ele mesmo. A
pergunta que não quer calar é: se o socorro aos menos
favorecidos é o mesmo que socorrer a Cristo, a teologia da
libertação não estaria com a razão?
A pobreza, “é incompatível com a vinda do Reino de Deus,
um Reino de amor e justiça. A pobreza é um mal, uma
condição escandalosa, que nos nossos tempos assumiu
proporções enormes. Eliminá-la é aproximar-se mais
do momento de encarar a Deus face a face, em união com
os outros homens” (Gustavo Gutiérrez Merino).
Aqui já se apresenta uma disparidade de proporções
colossais no entendimento exegético entre a teologia da
libertação e teologia ortodoxa. Aquela visa libertar o homem
de seu “cativeiro” político-social, sendo exclusivamente
imanente; enquanto esta, objetiva a salvação da alma
atendendo o homem de forma holística. O fato é que
conceitos fundamentais como regeneração, justificação,
arrependimento, fé, santificação, etc., não estão sob a
égide da teologia da libertação, uma vez que tais aspectos
estão no campo transcendental, o qual é por ela abolido.
Em meio à violência, indiferença e egoísmo que destroem
tantas vidas; à corrupção que campeia aberta e livremente;
às pessoas que morrem por falta de alimento, teto e
esperança; temos sim o dever de estender a mão amiga,
que expressa a graça e a misericórdia. Não obstante, não
podemos negligenciar a proclamação do Evangelho, pois “é
o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”
(Romanos 1.16b).
Conclusão
Em linhas gerais, percebe-se que a teologia da libertação
adota uma posição mais política e socialista que realmente
teológica. Suas proposições em favor dos pobres e
necessitados, geram uma fissura social e religiosa, pois
excluem aqueles que tem uma melhor condição
socioeconômica; trazendo à lume a antiga luta de classes
proposta pelo marxismo.
Não fosse isto suficiente, ainda relativizam a verdade,
propondo uma discussão mais aberta dos ensinamentos
das Sagradas Escrituras, mediante uma releitura e nova
hermenêutica que tem como seu ponto de partida o menos
favorecido.
Não há dúvidas de que a igreja precisa demonstrar o favor
Divino através das boas obras, as quais foi chamada a
realizar (I Pedro 2.11-12), mas isso não implica em inverter
a ordem estabelecida; a saber que a obra social tenha
prioridade em relação à proclamação do Evangelho. Senão,
que devem caminhar unidas, uma testemunhando em favor
da outra, manifestando assim a maravilhosa graça de Deus.
Jesus não deve ser visto como um bom homem que
realizou grandes e profundas transformações sociais,
falando contra os desmandos dos ricos e opressores, mas
como o eterno Filho de Deus, que veio ao mundo para
realizar uma obra de inestimável valor, a salvação dos
eleitos de Deus.