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AVALIAÇÃO

NEUROPSICOLÓGICA DO
IDOSO

Claudson C. Santana
Psicólogo Clínico/Neuropsicólogo
Mestrando em Educação – UEFS/BA
TÓPICOS DA DISCIPLINA
• Retomada de conceitos: o processo de envelhecimento – senescência e
senilidade;
• Envelhecimento cerebral: patologias associadas;
• Estudo e aplicação de instrumentos de avaliação neuropsicológica do
idoso;
• Planejamento de avaliação neuropsicológica: Anamnese;
• Testes:
• Teste de fluência verbal;
• Escala Bayer – Atividades de Vida Diária;
• Mini-Exame do Estado Mental-Grave (MEEM-g);
• Bateria CERAD – USP;
• Figuras Complexas de Rey;
• Laudo Neuropsicológico do Idoso.
RETOMADA DE CONCEITOS

• Senescência (envelhecimento saudável) e senilidade


(envelhecimento patológico);
• As células nervosas, os neurônios, e as células de apoio, as células
gliais (astrócitos e oligodendrócitos), estão sujeitas a danos no
decorrer do processo do envelhecimento por meio de fatores
intrínsecos (genético, gênero, circulatório, metabólico, radicais
livres etc.) e extrínsecos (ambiente, sedentarismo, tabagismo, uso
de drogas ilícitas, radiações etc.), que não deixam de exercer uma
ação deletéria com o decorrer do tempo.
ENVELHECIMENTO DO SISTEMA
NERVOSO
Hipóteses para o
envelhecimento do Sistema
Nervoso
1. Envelhecimento é resultado de um
programa genético suceptível a modificações
Teoria Genética
Apoptose – morte celular programada
Alterações Programadas

2. Envelhecimento é resultado do acúmulo passivo de alterações nos ácidos nucleicos


das células
Teoria do Acúmulo de Danos
Teoria Genética
Apoptose –morte celular programada

Cada célula é programada para um determinado


número de divisões, e quando esse numero é
atingido a proliferação cessa e ocorre a morte celular
via processo de apoptose.
Teoria do Acúmulo
de Danos
Acúmulo passivo de alterações
a) Devido ao acúmulo de moléculas danificadas por radicais livres:
acúmulo de radicais livres gera acúmulo de lipofucsina nas células.
O SN é muito sensível ao dano oxidativo;
lipofuscina é um resíduo celular
(pigmento de fosfolipídeos e proteínas;
pode conter metais)

A lipofucsina é formada a partir


da peroxidação dos lipídios das
membranas de organelas,
especialmente das mitocôndrias
(tornando menos solúveis).
Mais evidente em indivíduos
velhos. É considerada um
pigmento de desgaste.
Teoria do Acúmulo
de Danosb) Devido a transcrição do DNA em RNA nãoocorrer
com confiabilidade gerando proteínas não funcionais.
ex: precursor da proteína amilóide
Teoria do Acúmulo de Danos

• Os erros sendo acumulativos e transmissíveis atingiriam uma


elevada ocorrência, provocando o efeito chamado de erro
catástrofe, onde a célula sofreria uma ineficiência letal, ocasionando
sua morte e por conseqüência, a redução da capacidade funcional, fato
que caracterizaria o envelhecimento. (CUNHA; JECKEL-
NETO, 2002).
O cérebro idoso: alterações
anatômicas a) tamanho e peso
menores,

b)giros mais finos


separados por sulcos
mais abertos e profundos
o que resulta em regiões
corticais menores em
comparação a cérebros de
indivíduos jovens.

c) o volume cerebral pode diminuir até 200 cm3.


d) dilatação dos ventrículos
e) diminuição da substância branca
Ou seja, com o avanço da idade o peso e volume
do cérebro humano diminuem.
Consequentemente mudanças anatômicas em
diversas estruturas do sistema nervoso.
Atrofia cerebral durante o
envelhecimento

a) Morte celular no córtex dos giros pré-centrais,


nos giros temporais, e no córtex do cerebelo, hipocampo,
amígdala, substância negra, núcleos hipotalâmicos,
núcleos de base, tálamo, tronco
cerebral (núcleo facial), medula espinhal.

b)Alterações por redução de tamanho das células


ocorrem mais no tronco cerebral (núcleo coclear).
Alterações nos axônios e
conexões entre neurônios
Alterações em dendritos
e sinápses:
diminuição progressiva da
árvore dendrítica
(causada pela atrofia e
degeneração de axônios
mielínicos = déficits
cognitivos);

Por conseqüência destas alterações mielínicas ocorre uma


redução na conectividade cortical o que, ao invés da perda
de neurônios, estaria associada a déficits cognitivos.
Alterações consequentes do acúmulo de
depósitos

"A Tau é uma


fosfoproteína neuronal.
Esta proteína está
associada à
estabilização dos
microtúbulos.

A primeira é a formação dos emaranhados


neurofibrilares, decorrentes da hiperfosforilação da
proteína “tau”e de outras proteínas
associadas ao citoesqueleto.
Alterações consequentes do acúmulo de
depósitos
A segunda alteração ocorre porque a síntese protéica
deficitária e o aumento no depósito de substâncias anômalas
(β-amilóide), acabam por provocar a degeneração celular,
acumulando fragmentos, formando detritos que se aglomeram
em placas senis ou neuríticas ao redor dos neurônios.
Emaranhados Neurofibrilares e Placas
Amilóides

As placas de beta amilóide podem bloquear a sinalização


entre as células nas sinápses. Eles também podem ativar
as células do sistema imunológico que causam
inflamações e devoram células deficientes.
Placas senis
impregnação por prata
Declínio de Neurotransmissores
Uma das principais causas da deterioração cognitiva com
o passar da idade é o declínio significativo dos neurotransmissores.
A síntese de proteínas é afetada com o passar da idade
(receptores de membranas).
As alterações em neurotransmissores são resultados
da atrofia e morte neuronal.


PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– O RASTREIO COGNITIVO
• Função cognitiva global;
• Memória;
• Praxia: apraxia ideomotora, apraxia ideatória e apraxia melocinética;
• Linguagem: semântica, fluência, lexical;
• Afasias (Broca, Wernick, de condução e global).
• Funções executivas:
• Reúnem diversas habilidades cognitivas, como a atenção, o planejamento, a
elaboração de estratégias, a capacidade de abstração e de pensamento
simbólico, a habilidade para elaborar conceitos, a flexibilidade cognitiva, a
classificação, o controle inibitório, a resolução de problemas e o pensamento
indutivo.
• Cognição socioemocional;
• Gnosias visuais e visuoespaciais.
PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
PATOLOGIAS DO ENVELHECIMENTO
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ASPECTOS IMPORTANTES

A avaliação neuropsicológica com idosos objetiva evidenciar e


detalhar as alterações neurocognitivas, as repercussões de lesões
e/ou as disfunções cerebrais sobre o comportamento e a cognição,
complementando, dessa forma, os outros critérios de investigação,
como os exames de imagem, neurológico, psiquiátrico; as
determinações bioquímicas; e as alteracoes clinicas dos indivíduos
na velhice (Rozenthal, 2006; Yassuda, Flaks, Pereira, & Forlenza,
2010).
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ASPECTOS IMPORTANTES

• Analisar fatores de ordem teórica, metodológica e técnica;

• Um conhecimento aprofundado das características dessa etapa do


desenvolvimento é essencial para estabelecer os limites entre o
normal (senescência) e o patológico (senilidade);
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ASPECTOS IMPORTANTES

São necessários conhecimentos apropriados das especificidades


dessa fase do ciclo vital e das patologias próprias a esse período,
aliados a um treinamento em técnicas específicas que incluem
observações naturalísticas ou ecológicas, (Da-Silva, Veloso, &
Pereira, 2012) levantamento de dados via entrevistas (Spreen &
Strauss, 1998) e uso de baterias de testes (Lissi & Bisiacchi, 2012).
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR
• O conhecimento das técnicas disponíveis e dos objetivos do
tratamento é fundamental:
• Variáveis relativas a qualidade psicométrica dos instrumentos de avaliação
devem ser consideradas;
• Fatores relacionados a validade desses instrumentos no que se refere a
sensibilidade (se eles são eficazes na detecção de variações e alterações
funcionais) e especificidade (o quão relacionada a uma determinada
função encontra-se a tarefa colocada para o examinando);
• Preocupação quanto aos fatores relativos a precisão ou fidedignidade do
instrumento, que tentam captar a estabilidade deste na avaliação da
função proposta;
• Condições de padronização ou normatização, que incluem testagem do
instrumento em uma amostra suficientemente representativa do grupo a
que se destina.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR
• Variáveis relativas a procedência do sujeito – se do meio rural ou
urbano –, atividade laboral e nível de escolarização são fatores
preponderantes na seleção das técnicas utilizadas para a coleta de
dados, sendo desejável uma avaliação abrangente e
contextualizada ou ecológica;
• Não se recomenda a avaliação neuropsicológica em idosos sem a
checagem médica clínica:
• Cabe ao avaliador ficar atento a toda essa descrição física e
medicamentosa do paciente idoso, assim como questionar sobre o
consumo de substâncias psicoativas ao longo da vida, como álcool, drogas
ilícitas, inibidores de apetite, indutores de sono e o uso prolongado de
medicações de ação no sistema nervoso central.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR
• Especial atenção deve ser dada ao nível de escolaridade e as
atividades ocupacionais da pessoa idosa que esta sendo avaliada;

• Fator pertinente na realização da avaliação neuropsicológica em


idosos: a escuta das queixas, tanto as do examinando como as dos
familiares ou cuidadores próximos;

• Nas atividades dos instrumentos da avaliação neuropsicológica,


por vezes, o tempo é considerado uma variável indicativa do
desempenho do idoso em algumas funções cognitivas:
• Observar a lentidão e permitir a execução da atividade.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR

• A descrição da perda cognitiva se faz de modo bastante


heterogêneo, bem como é importante a realização de um
diagnóstico diferencial:
• É importante o reconhecimento da grande heterogeneidade no grupo das
demências e de possíveis transtornos psiquiátricos que podem interferir
no desempenho cognitivo dos idosos.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR

Alterações importantes na personalidade do idoso, transtornos do


comportamento e de conduta social podem sinalizar o inicio de uma
demência frontotemporal (Caixeta, 2012), em que nem sempre a
memoria, a praxia, a gnosia e a habilidade visuoespacial estão
significativamente comprometidas, mas a linguagem (compreensão,
expressão verbal e fluência) pode ser progressivamente afetada.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
CARACTERÍSTICAS DO AVALIADOR

• O neuropsicólogo precisa estar ciente das alterações cognitivas


típicas do envelhecimento (Quevedo, Martins, & Izquierdo, 2006)
e considerar as queixas do examinando, mas, não
necessariamente, rotular as dificuldades como típicas de uma
demência.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA
Entrevistador (munido de
um aparato técnico-científico, está
interessado em reunir pistas que lhe
mostrem os prováveis diagnóstico e
prognóstico do segundo)

O entrevistado (traz em linguagem


própria suas vivências, seus
sintomas, seus medos e suas
experiências anteriores com outros
profissionais, além do desejo ou do
receio de confiar no outro.)
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA

• O que o profissional enxerga ao lidar com uma pessoa idosa? E


sobre a condição desse sujeito?;
• IMPORTANTE REFLEXÃO: o ideal do paciente é o mesmo ideal
nosso enquanto profissional? Ele adentra o espaço à procura de
melhora/tratamento? Por vontade própria? Por desejo da família?;
• UM CUIDADO: Não estamos lidando com a velhice-doença, mas
com um sujeito.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA

• A individualidade do paciente se perde entre os diversos testes e


exames, originando por vezes inferências indevidas, que podem
colocá-lo em perigo e comprometer o cuidado.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA

• Para fazer a interação profissional-paciente funcionar da maneira


mais benéfica para o paciente, o profissional da saúde deve buscar
um diagnóstico abrangente, compreendendo que a eficácia do
tratamento proposto depende não apenas de seus conhecimentos
e habilidades técnicas, mas também de sua capacidade de criar
um relacionamento respeitoso que favoreça o entendimento do
principal interessado: a pessoa idosa (Tahka, 1998).
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA

• É essencial avaliar se a(s) doença(s) exerce(m) impacto sobre a


independência (capacidade de execução) e a autonomia
(capacidade de decisão) da pessoa idosa:
• Capacidade funcional como a aptidão do idoso para realizar tarefas que
lhe permitam cuidar de si e viver de forma independente;
• Funcionalidade e avaliada de acordo com a capacidade de executar as
atividades instrumentais da vida diária (AIVDs), que se referem a tarefas
cotidianas mais complexas e permitem uma vida independente na
comunidade, e as atividades básicas da vida diária (AVDs), mais simples e
fundamentais para o autocuidado (Giacomin, 2004).
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– ENTREVISTA CLÍNICA
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
HABILIDADES DE COMUNICAÇÃO

• Lidar com a finitude experimentada na deterioração das


habilidades funcionais da vida diária tem grande impacto na
percepção da qualidade de vida do idoso e de seus familiares;
• A avaliação e o cuidador:
• Levar em consideração a dimensão de cuidado do cuidador;
• Manifestações subjetivas;
• O cuidador enquanto colaborador do processo de avaliação;
• A dimensão afetiva/emocional do cuidador.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
HABILIDADES DE COMUNICAÇÃO

• Em toda comunicação ha um antes, um durante e um depois de


cada uma das pessoas que compõem o encontro:
• Do lado da pessoa idosa, seu modo de lidar com a doença depende de
seus mecanismos de adaptação e de defesa, de sua personalidade, do
apoio percebido em seu entorno, de experiências anteriores, do seu
momento de vida;
• Do lado do profissional, é importante que, em sua formação, o clinico
reflita sobre seus próprios sentimentos ante o envelhecimento:
profissionais que atendem idosos de forma apressada, irritados, cansados,
que demonstrem pouco interesse pelo que a pessoa tem a dizer ou esta
sentindo não favorecem o estabelecimento de uma relação de confiança.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA –
HABILIDADES DE COMUNICAÇÃO

• Cuidados na comunicação de diagnósticos e possíveis hipóteses


diagnósticas, em especial quando se referem a processos
demenciais;
• Diante de toda pessoa idosa, é preciso dirigir-se a ela e perguntar-lhe
diretamente sobre sua condição de saúde, que continua sendo a melhor
fonte de informação;
• Vale lembrar que a maioria das recomendações/tratamentos foi escrita na
perspectiva do profissional, mas é a vida do paciente que está
diretamente afetada. Portanto, e particularmente importante considerar e
entender a perspectiva do paciente nessa comunicação.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
– INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO
• MEEM (Mini Exame do Estado Mental);
• Bateria CERAD (Consortium to Establish a Registry for Alzheimer's
Disease);
• FAB (Bateria de Avaliação Frontal);
• Teste STROOP de Cores e Palavras;
• RBMT (Teste de Memória Comportamental de Rivermead)
• RAVLT (Teste de. Aprendizagem Auditivo Verbal de Rey)
• As Figuras Complexas de Rey.