Você está na página 1de 20

GÊNEROS TEXTUAIS

Prof. Rayenna Castro


Você já se deu conta da infinidade de situações comunicacionais às
quais somos expostos ao longo de nossa vida? Nem precisa tanto,
pois durante um único dia podemos estar envolvidos em diferentes
contextos e ambientes que exigem de nós um comportamento
linguístico específico.

A linguagem é um dos mais eficientes meios de comunicação, pois


ela nos permite interagir com pessoas, assim como alterar nosso
discurso de acordo com as necessidades do momento.

Dessa constante necessidade que o ser humano tem de interagir e


comunicar-se com o outro, surgiram os gêneros textuais. Os gêneros
textuais não podem ser numerados, visto que variam muito e
adaptam-se às necessidades dos falantes. Mesmo que não
possamos contá-los, é possível observar que eles possuem
peculiaridades que nos permitem identificá-los e reconhecê-los entre
tantos outros gêneros.
crônica
A palavra “crônica” tem origem grega, vem de chronos (tempo).
A partir disso, nota-se uma das principais características desse
tipo de texto: seu caráter contemporâneo.

Trata-se de um interessante gênero textual que oscila entre


a literatura e o jornalismo. Geralmente, é publicada em jornais
ou revistas e registra fatos do nosso cotidiano de forma simples,
com doses de humor, ironia, crítica e poesia.
CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS:
• Apresenta elementos comuns em uma narrativa, como fato,
personagens, tempo, espaço e narrador;

• Normalmente, é um texto curto, com poucas personagens, que se inicia


quando os fatos principais da narrativa estão por acontecer. Por isso,
costuma limitar tempo e espaço;

• A linguagem empregada nesse tipo de texto tende a ser simples, direta;

• Permite que o leitor tenha uma visão mais abrangente, mostrando-lhe


outros ângulos, como sinais de vida que, diariamente, deixamos, muitas
vezes, escapar;

• Tem por objetivo entreter os leitores e, ao mesmo, tempo, levá-los


a refletir a respeito da vida e dos comportamentos humanos.
O SENTIDO DA FELICIDADE
Só assim mesmo para retornar de tanto tempo; necessitei forçar-me a
compor essas palavras e, ainda por cima, em um tema mais que difícil. Pra
mim felicidade não é apenas a ausência da tristeza, vale mais que isso.
Aquela criança abre um sorriso quando vê a folha cair na cabeça do
velhinho; que bom que o velhinho ri por contribuir com aquele sorriso. O
rapaz fica feliz com a promoção em seu emprego, a garota fica feliz quando
ele nota seus três mínimos centímetros de corte de cabelo. Há quem me
disse que a felicidade não existe; nunca estamos satisfeitos, queremos
sempre algo que nunca temos, admiramos algo que nunca teremos; esse
prazer estampado nesse sorriso é muitas vezes resultado de benfeitoria em
nós mesmos, nunca nos outros. Talvez fazer algo de coração, por mais
mínimo que seja, seja um bom caminho pra começar o dia. De preferência
em que quem saia mais ganhando, na verdade, seja o outro. Se for um
desconhecido então… parabéns! Talvez você tenha encontrado uma
felicidade diferenciada. Uma felicidade que, por mais diferente de qualquer
sentimento humano moderno, está muito mais ligado à aquela criança e
àquele velhinho do que você possa imaginar. Pense nisso.
Texto publicitário
Diante da relevância desse assunto, vamos concentrar nossa
atenção nas características principais desse texto.
Primeiramente, um texto publicitário tem por essência trabalhar
com a persuasão, ou seja, busca convencer, chamar a atenção
ou seduzir um determinado público-alvo.
A seguir, podemos ver um exemplo:
CONHECIMENTO PRÉVIO E INTERTEXTUALIDADE
HUMOR

Um olhar mais apurado e a nítida referência ao palhaço Ronald McDonald, famoso


personagem da marca concorrente. De forma bem humorada, sem precisar explicar
ou escrever algo, o anúncio acima da marca “Burger King” mostra de maneira
criativa a até então superioridade em relação à concorrência.
REPETIÇÕES (DE SONS OU DE PALAVRAS)
SLOGAN: frase de efeito, geralmente curta e de fácil absorção
pelo público-alvo, responsável pela propagação de determinado
produto.
• Exemplo:
FÁBULA
A fábula é uma narrativa breve em prosa ou verso, composta por personagens que são,
geralmente, representados por animais, cujas ações passam uma lição de moral. Sua
singularidade reside fundamentalmente na apresentação direta das virtudes e dos defeitos
do caráter humano, ilustrados pelo comportamento humanizado dos animais.
Normalmente, a fábula é formada por duas partes: a narrativa (trabalha as imagens, que
constituem a forma sensível, o corpo dinâmico e figurativo da ação) e
a moralidade (trabalha com conceitos ou noções gerais, que sugerem uma verdade e uma
reflexão aos homens).
OBS: Muitas vezes, ao final de uma fábula, aparece uma frase em destaque
denominada moral da história, acompanhada de provérbio ou não. Essa moral também
pode estar subentendida. Isso ratifica a intenção desse gênero textual que visa transmitir
ensinamentos práticos do cotidiano.
Os personagens:
Uma fábula não se prende a muitos detalhes, não havendo necessidade, por exemplo, de
descrever minuciosamente os personagens, visto que, normalmente, suas qualidades e
seus defeitos costumam ser bem conhecidos.
O tempo e o espaço:
O tempo costuma ser indeterminado e espaço tende a ser reduzido.
A linguagem:
A linguagem utilizada originalmente tendia a ser culta e formal, apesar de hoje se aceitar,
muitas vezes, uma linguagem mais coloquial, representada principalmente pelos diálogos.
Vejam um exemplo a seguir:
A GRALHA E OS CORVOS
Uma gralha de tamanho descomunal olhava seus semelhantes
com desdém. Partiu então em busca dos corvos para morar com
eles. Mas os corvos, que nunca a tinham visto, expulsaram-na
sem piedade.
Rejeitada por eles, a gralha voltou para os seus. Mas estes não
lhe perdoavam o orgulho: não aceitaram de volta. E ela não
pode viver nem com uns nem com os outros.
Não troques a tua terra por uma outra: nesta serás rejeitado por
ser estrangeiro e naquela o teu desprezo será devolvido em
ódio.

(Esopo)
Resumindo, temos a seguinte estrutura para uma fábula:
1. A estrutura narrativa possui:
Situação inicial
Obstáculo
Tentativa de solução
Resultado final
Moral
2. Moral - linguagem temática, dissertativa, transmissora de
algum ensinamento.

Dessa forma, a fábula nos leva a dois mundos:


• o imaginário, o narrativo, fantástico;
• o real, o dissertativo, temático.
CONTO
Basicamente, o conto é um texto narrativo, em prosa, de pequena
extensão, se comparado, por exemplo, a gêneros como o romance ou
a novela.
Esse tipo de texto busca ser direto, conciso, ou seja, geralmente,
todas as informações nele presentes costumam ser essenciais. Essa
precisão é fundamental para que se crie no leitor uma sensação
única, capaz de prender sua atenção e causar uma emotividade.
Dados mais detalhistas e maiores complicações no enredo são
descartáveis nesse gênero. O número de personagens tende a ser
reduzido e elementos como o tempo e o espaço são delimitados. A
solução do conflito é narrada perto do seu desfecho, ratificando seu
caráter breve. O narrador pode ser observador ou personagem.
Contos retratam, por exemplo, o encantamento, as metamorfoses de
personagens, os elementos sobrenaturais e fantasiosos, os mistérios
que envolvem o mundo, ingredientes capazes de gerar um efeito de
impacto no leitor.
P a s s e i o N o t u r n o - P a r t e I/ R u b e m F o n s e c a
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos,
pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama,
um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das
cartas, você está com um ar cansado.
Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a
música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?
perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa
aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de
ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre
a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas.
Você não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a
metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o
copo na mão, já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa,
meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É
aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me
pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu
dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos uma
conta bancária conjunta.
Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora
da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as
noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é
que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher
respondeu. Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem,
impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei
o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei
a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver
os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço
cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na
ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio,
escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde
ir, tinha que ser uma rua deserta nesta cidade que tem mais gente do que
moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei
numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou
mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas nãoaparecia ninguém
em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até
gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que
mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil.
Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário,
coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia
árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir
uma grande dose de perícia.
Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela
quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher
acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a
esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões,
dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma
das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom,
o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o
corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima
de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.
Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-
lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam
a minha habilidade no uso daquelas máquinas. A família estava vendo televisão.
Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no
sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi,
amanhã vou ter um dia terrível na companhia.
Entrada do dicionário