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A (DE)CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE DE

ESTUDANTES NEGROS FRENTE A


CONTEXTO DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Ângela Maria dos Santos (PPGE/UFMT)


Introdução

 A pesquisa foi de especialização em educação das


relações raciais, que a partir de uma abordagem
qualitativa apresenta dados referentes as relações
raciais entre estudantes e as vivências dos negros com
situações de preconceito e discriminação, tendo como
análise a construção da identidade desses alunos frente
a esses conflitos raciais no espaço escolar.
O objetivo do trabalho é apresentar essas
informações, em torno das experiências de
estudantes negros com situações de discriminação
racial no espaço e quais impactos dessas situações
na (des)construção racial dos mesmos.
Metodologia

Para a coleta de dados foram utilizadas,


observação do cotidiano escolar, entrevistas
individuais semiestruturadas, em que os
entrevistados discorreram sobre suas
experiências com a discriminação racial no
contexto escolar.
A partir desse foco principal foi estabelecido
diálogos a respeito dessas questões buscando,
obter informações sobre os aspectos da
construção da identidade desses alunos negros,
permitindo que as respostas fossem de forma
espontâneas.
DISCUSSÕES TEORICAS E METODOLOGICAS

BENTO(2002); Norbert; SCOTSON(2000); FANON


(1983); GOFFMAN (1982); MINAYO (1992);
MUNANGA(1988); BECKER (1999); SEYFERTH (1995).
Alguns dados e análise da pesquisa

 Estudos na escola sobre ocorrência de discriminação


racial e posturas preconceituosas em relação a
cor/raça, tem revelado problemáticas de um cotidiano
em que o racismo está presente sob vários aspectos,
evidenciando de forma explícita e implícita no contexto
das relações raciais que ocorre na escola. Dessa forma
não é impossível imaginar que o ambiente escolar
marca diferentemente negros e brancos.
 Da mesma forma influencia na construção ou
desconstrução de suas identidades etnicorracial. As
marcas do racismo molduram o social que privilegia a
cultura branca, sob várias formas de veiculação de
estereótipos negativos em relação a cor/raça de alunos
negros.
O relato da aluna que segue, demonstra como o
cotidiano da criança negra na escola é difícil, marcado
por preconceito e discriminação que gera dificuldade
para que a mesma estabeleça relações com os seus
colegas e ainda, que se perceba fenotipicamente de
forma positiva.
 [...] eles falam que eu sou feia é por isso que eu
também acho [...]. Eu queria que todo mundo
“pegasse” amizade comigo na escola, eu fosse uma
menina legal, eles não achasse eu feia, não achasse eu
de cor de carvão ...desse jeito...Eu queria que eles
pegasse amizade, cada hora eu brincava com uma
colega. Mas não é assim (aluna 1 – 08 anos)
 Tem muita gente que xinga a gente de negro. Fala
assim pra doer mesmo, pra machucar. (aluno 3- 09
anos)
Evidenciou-se através dos depoimentos, a experiência
dolorosa de ser negro e negra no espaço escolar.
Certamente essas situações influenciaram o olhar dos
mesmos sobre si e sobre os outros.
Os alunos comportam basicamente de duas formas em
relação a discriminação racial sofrida na escola. Elas
tentam ignorar as ofensas ou reagem devolvendo as
ofensas, sejam verbalmente ou fisicamente.
Eu não “tô” nem aí. Se vierem colocar apelido na gente.
Se a gente importa, aí fica pior porque eles começam a
falar mais alto, pra fazer graça com a gente (aluna 4 – 10
anos).

Eu parto pra cima. Não sou besta! Mexeu comigo tem


troco. Eu esculhambo mesmo (aluno 6 – 11 anos).
 Foi possível observar que para lidar com a discriminação, esses
alunos cada qual a sua maneira criavam estratégia de sobreviver
ao racismo. É fácil imaginar que essas situações, criam marcas
indeléveis na vida dos mesmos, ocasionando a baixa alta estima e
sentimento de inferioridade.
 Os estereótipos orientavam a desqualificação desse grupo racial.
Seyferth (1995, p. 184), observa que estereótipos estão
relacionados a convicções simplificadas e contraditórias
preconcebidas em relação aos indivíduos ou grupos.
 A queixa abaixa de um aluno dá a dimensão dessa ideia:
Assim.. eu fui xingado...Ah, seu negro, seu imbecil, nariz feio. Xinga de
apelido que não é pra falar. A gente se sente mal (aluno 2- 10 anos)

 Eu já..eu já fui discriminada. Eu estudava 3ª série. Fui no bebedouro.


Tinha um gurizinho da 5ª série...aí, outro guri lá, só porque eu não
quis dar o copo pra ele...ele me xingou de preto, picolé de piche
(aluno 3 – 09 anos)
Considerações finais
 Os resultados da pesquisa demonstrou que os estudantes negros enfrentam
variadas formas de discriminação racial no contexto escolar, essa situação se
apresentam nas interações entre os alunos e evidencia-se na dificuldade de
construir sua identidade racial num espaço em que é marcado por preconceitos,
onde de forma naturalizada o racismo se desenvolve, através das ofensas raciais,
apelidos, estereotipias e estigma relacionada a cor/raça.
 As manifestações preconceituosas e discriminatórias, e estigmatização dos
estudantes negros, através das galhofas, a ridicularização, as formas
depreciativas em relação ao fenótipo do aluno, seja através de apelidos ou não,
cria uma certa autorização da discriminação, o que eu leva a naturalização do
racismo. Fatos como xingamentos, as interpelações de forma grosseira e outros,
fazem parte do quadro de situações difíceis que os alunos e alunas passam no
cotidiano escolar.
 É possível dizer que existe estruturação do racismo, dada a persistência de
comportamentos preconceituosos e pela falta de ação pedagógica que
interfiram nas situações de discriminação e eduque para as relações raciais,
possibilitando dessa forma a construção identitária dos alunos negros de forma
positiva, no que tange a sua cor/raça.
 A partir de alguns aspectos da observação pode-se dizer que os alunos
comportam basicamente de duas formas em relação a discriminação racial
sofrida na escola. Elas tentam ignorar as ofensas ou reagem devolvendo as
ofensas, sejam verbalmente ou fisicamente.
BIBLIOGRAFIA PARCIAL
BENTO, Maria Aparecida Silva. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: Psicologia
Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Iray Carone,
Maria Aparecida Silva Bento (orgs.) Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de
poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras brancas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1983.

GUIMARAES, Antonio S. A. Racismo e Anti-racismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.
_________________. O mito anverso: o insulto racial. In: Classes, raças e democracia.
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães. São Paulo: Ed. 34., 2002.
__________________.Como trabalhar com raça em sociologia. São Paulo: Educação e
Pesquisa Vol. 29, N.1 p. 93-107, 2003.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada.
Tradução de Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.
MINAYO, Maria Cecília. O desafio do Conhecimento: pesquisa qualitativa em Saúde.
Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia - São Paulo: Hucitec, 1992.
MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Editora Ática, 1988.
_____________________. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo,
identidade e etnia. In: Programa de Educação Sobre o Negro na Sociedade Brasileira.
Niterói: EdUFF, 2000.