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Diálogo sobre a

Felicidade em

Agostinho de Hipona
Quem foi Agostinho de
Hipona?

 Santo Agostinho (354-430) foi filósofo, escritor, bispo e
teólogo cristão africano, responsável pela elaboração do
pensamento cristão. Deixou uma obra literária
gigantesca: foram 113 trabalhos, 224 cartas e mais de
quinhentos sermões.
 Nasceu na cidade Tagaste, pequena cidade da Numídia,
atual Argélia, na África. Foi educado em Cartago, grande
centro de paganismo e a maior cidade do Ocidente latino,
depois de Roma. De volta à cidade natal abre uma escola
particular, onde ensinou gramática e retórica durante
treze anos.
 De espírito crítico e inquieto, abandonou o
cristianismo e adotou o maniqueísmo, pretendendo

seguir a força única da razão. Durante doze anos foi
seguidor de Mani, profeta persa que pregava uma
doutrina na qual se misturava Evangelho, ocultismo
e astrologia.
 Em 386, sob a influência de Ambrósio, bispo de
Milão, Agostinho é convertido ao cristianismo. O
resultado de sua conversão é o livro “Confissões”,
onde revela os recantos de sua alma e os caminhos
da fé em meio às angústias do mundo. Outra obra de
grande destaque é “Cidade de Deus”, onde discute a
questão da metafísica do pecado original contido na
Bíblia.
 Como Platão e tantos outros grandes filósofos,
Agostinho tinha uma grande vontade de fazer contato
com uma realidade que transcendesse aquela que pode

ser percebida pelos sentidos. Ele acreditava que uma
mistura de fé e razão era um precursor necessário ao
conhecimento, e que a razão humana, embora capaz de
considerar e de apreciar Deus, não era necessariamente
capaz de compreendê-lo totalmente.
 Para compreender a filosofia de Santo Agostinho há
que ter em conta os conceitos augustinianos de FÉ e
RAZÃO e o modo como se serve deles. Com efeito, não
pode considerar-se Agostinho de Hipona um filósofo,
se por tal se entende o pensador que se situa no âmbito
exclusivamente racional, pois, como crente, apela à fé.
Santo Agostinho não se preocupa em traçar fronteiras
entre a fé e a razão.
Fé e Razão

 Para ele, o processo do conhecimento é o seguinte: a
razão ajuda o homem a alcançar a fé; de seguida, a fé
orienta e ilumina a razão; e esta, por sua vez,
contribui para esclarecer os conteúdos da fé. Deste
modo, não traça fronteiras entre os conteúdos da
revelação cristã e as verdades acessíveis ao
pensamento racional.
Antropologia
agostiniana

 Para Santo Agostinho, «o homem é uma alma racional que
se serve de um corpo mortal e terrestre»; expressa assim o
seu conceito antropológico básico.
 Distingue, na alma, dois aspectos: a razão inferior e a
razão superior.
 A razão inferior tem por objeto o conhecimento da
realidade sensível e mutável: é a ciência, conhecimento
que permite cobrir as nossas necessidades. A razão
superior tem por objeto a sabedoria, isto é, o conhecimento
das ideias, do inteligível, para se elevar até Deus. Nesta
razão superior dá-se a iluminação de Deus.
O mal

 O problema da liberdade está relacionado com a
reflexão sobre o mal, a sua natureza e a sua origem.
Santo Agostinho, maniqueu na sua juventude (os
maniqueus postulam a existência de dois princípios
ativos, o bem e o mal), aceita a explicação de Plotino,
para quem o mal é a ausência de bem, é uma
privação, uma carência. E ao não ser alguma coisa
positiva, não pode atribuir-se a Deus. Leibniz, no
século xvii, «ratifica» esta explicação.

SOBRE A VIDA FELIZ
De beata uita
A obra

 Origem do livro dá-se por fim do outono de 386,
precisamente, 13 de novembro, data do 32º aniversário de
Agostinho. Reunido com seus amigos e discípulos: Alípio,
Licêncio, Trigésio, seu irmão Navígio, seu filho Adeodato e
sua mãe Mônica, na chácara cedida por seu amigo
Verecundo, em Cassicíaco, Agostinho conduzirá um diálogo
em torno de um tema clássico e fundamental para a
Antiguidade: a felicidade. Desses três dias de diálogo nasceu
a obra, A vida feliz. Trata-se de um diálogo filosófico na
mesma linha das outras obras produzidas neste retiro:
Contra os Acadêmicos, A ordem e os Solilóquios.
 O tema da felicidade foi, certamente, despertado em
Agostinho a partir da leitura do Hortênsio de Cícero,

obra que o converteu ao gosto da filosofia. A obra de
Cícero, de fato, repassava, num exame crítico, todas
as escolas e seitas filosóficas, assinalando os erros de
cada uma delas, para concluir num ecletismo
filosófico ideal e temperado. A obra despertou
Agostinho para a busca da verdadeira felicidade, da
verdade e da sabedoria. Cícero defendia um conceito
de filosofia como sabedoria e arte de viver que traz a
felicidade verdadeira. Agostinho começou a crer que
a filosofia lhe possibilitaria a felicidade que tanto
procurava.
A importância do tema
na Antiguidade

 Para Sócrates o "conhece-te a ti mesmo" é a chave para a
conquista da felicidade.
 Para Platão a noção de felicidade é relativa à situação do
homem no mundo, e aos deveres que aqui lhe cabem.
 Para Aristóteles a felicidade é mais acessível ao sábio
que mais facilmente basta a si mesmo, mas é aquilo que,
na realidade, devem tender todos os homens da cidade.
 Plotino (204-270) afirma que a felicidade do sábio não
pode ser destruída nem pelas circunstâncias adversas
nem pelas favoráveis.
Mas que coisa é a felicidade?
O prazer e o gozo para uns.
A honra, a riqueza,
 a glória para
outros.
 Filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, combateram estas
concepções “materialistas”, “mundanas” de felicidade. Para
eles, a felicidade, isto é, a posse do “bem supremo” consiste em
aperfeiçoar-se como homem, ou seja, em desenvolver aquelas
atividades que diferenciam o homem de todas as outras coisas.
Aristóteles chega até mesmo a dizer que empregar a vida para
se conseguir o prazer torna-nos “semelhantes aos escravos” e
lança-nos numa vida “digna dos animais”. O sucesso é algo
extrínseco que não depende de nós, mas de quem no-lo
confere. A riqueza torna o homem insensato, pois quem quiser
viver feliz deve viver segundo a razão, não segundo a riqueza.
 Agostinho estabelece, então, uma relação sistemática
entre os escritos filosóficos antigos, que trataram

deste tema fundamental, e sua visão de convertido
ao cristianismo, para elaborar o estudo da felicidade.
Na sua ampla produção, expõe com clareza: o
fundamento e o ponto de partida; o conceito de
felicidade; as condições da felicidade como estado; o
objeto verdadeiro no qual ela consiste e o ato
beatificante; a falsa felicidade; o meio para chegar à
felicidade verdadeira; a felicidade terrestre e a
felicidade perfeita.
Tese central da obra

 Ao superar a “soteriologia” produzida pelo
conhecimento perfeito dos gnósticos e da ética
estoica, centrada na posse e no gozo de si mesmo, a
tese principal que Agostinho desenvolve, em Sobre a
vida feliz, é esta: a vida feliz consiste no perfeito
conhecimento de Deus. Por isso, ele não faz consistir
a felicidade na posse ou no gozo de qualquer bem
criado, mas só na posse ou gozo do Bem absoluto e
perfeito.
Quanto a Agostinho, o que diz ele
sobre a Felicidade?

 No presente diálogo, embora ainda não fruto de
longa experiência cristã, Agostinho rompe com a
tradição filosófica e propõe não mais a filosofia como
porto da felicidade, mas a posse de Deus. Só a posse
de Deus garante e produz a felicidade: se alguma
coisa merece ser designada como dom de Deus,
certamente é a vida feliz.
 O problema da beatitude, portanto, consiste em
saber o que o homem deve desejar para ser feliz e
como pode adquiri-lo.
O objeto de tal desejo deve satisfazer
várias condições

 A princípio, deve ser permanente e independente do
acaso e da fortuna. Nada de caduco e perecível pode
ser possuído por nós quando queremos e tanto
quanto queremos.
 Por outro lado, amar o que se pode perder é viver
num temor perpétuo incompatível com a verdadeira
felicidade.
 Portanto, somente Deus permanente e independente
de todo resto, pois apenas ele é eterno. O desejo de
Deus é a única via que conduz à beatitude.
Uma vida feliz é uma vida centrada
na posse de Deus

 A vida feliz sobre a terra é possível somente na
esperança.
 O que Agostinho busca é um bem cuja posse satisfaz
todo desejo e, por consequência, confere a paz.
 O que mais o inquieta é o problema do seu destino;
para ele, esta é toda questão: procurar se conhecer
para saber o que é preciso fazer a fim de ser melhor
e, se possível, a fim de bem ser.
 Segundo os interlocutores no diálogo Sobre a vida
feliz, ter Deus não é outra coisa senão fazer o que

Deus quer; outros dizem que ter Deus é viver bem;
outros, enfim, pensam que Deus está naqueles em
que não habita o espirito impuro.
 Segundo Agostinho, essas opiniões diversas tornam-
se, finalmente, a , pois mesma todo homem que faz o
que Deus quer vive bem, e todo homem que vive
bem faz o que Deus quer; não ter em si o espirito
imundo é viver na castidade da alma, que não é
somente a ausência de luxúria, mas ainda a de todo
pecado.
Agora, resta saber o que
é viver
 bem
 Viver bem é uma vida na plenitude do espírito sem o
qual não há sabedoria.
 Viver bem comporta certa medida.
 Por ela, o espírito se libera de todo excesso, evita
transbordar no superflúo ou, ao contrário, restringir-
se a limites inferiores aos de sua plena capacidade.
 Os excessos que evita são a luxúria, a ambição, o
orgulho, todos os vícios desse gênero pelos quais os
espíritos imoderados creem poder conquistar a
alegria.

 Por fim, os defeitos que essa plenitude evita são a
baixeza da alma, a crueldade, a tristeza, a cupidez e
todos os vícios análogos que, diminuindo o homem,
causam sua miséria.
 Aquele que descobre a sabedoria, e a guarda após tê-
la descoberto, ao contrário, não tem nenhum excesso
nem defeito a temer; ele jamais ultrapassa a medida,
nunca carece de nada; então, é uma e a mesma coisa
possuir a medida, ou seja, a sabedoria, e SER FELIZ.

OBRIGADO!